Concelhos

Bragança

Web Site da Câmara Municipal
www.cm-braganca.pt

No extremo nordeste de Trás os Montes está implantada a cidade de Bragança: numa vasta área planáltica, à altitude de 700 metros, enquadrada, a norte, pelas serras de Montesinho e da Sanábria, a sul e a oeste, pela serra de Nogueira e a este pela abertura ao planalto da Meseta Ibérica, já em terras de Castela e Leão. Os limites do concelho de Bragança são definidos, a norte, pela raia seca com Espanha e, a sul, pelo concelho de Macedo de Cavaleiros; a oeste, o concelho de Vinhais, cuja divisão é feita naturalmente e em parte pelo rio Baceiro e alguns dos seus afluentes; a este, o rio Maçãs faz a sua delimitação com o território espanhol com o do concelho de Vimioso. Orograficamente falando, o terreno do concelho é constituído por pequenos planaltos e muitas elevações, sobressaindo a norte destes maciços a serra de Montesinho, com 1 437 metros e a sul, a serra de Nogueira, com 1 321 metros de altitude. Muitos são os rios e ribeiros que circulam no termo do concelho, desaguando uns nos outros, sendo que os mais caudalosos correm de norte para sul, ansiosos por chegarem ao grande rio da Região Norte, o Douro. Destes, destaca se o Sabor, que atravessa o centro do território, passando na orla oriental da cidade de Bragança, e o rio Maçãs que percorre todo o limite este do concelho e cujo vale integra a Rede Natura 2 000. Bragança é a sede de um concelho territorialmente amplo (o segundo maior do país), dele fazendo parte perto de centena e meia de aldeias, administrativamente integradas em 49 freguesias, sendo urbanas apenas duas delas. É capital de um distrito com uma grande área territorial, o Nordeste Transmontano, constituído por 12 concelhos distribuídos por três zonas bem diferenciadas: a Terra Fria, ao norte, a Terra Quente, ao sul, junto ao Douro, e o Planalto Mirandês. Região montanhosa mas de grandes contrastes e com grande diversidade climática e paisagística: as montanhas elevadas e o clima rigoroso, tanto no Verão, como no Inverno, na chamada Terra Fria Transmontana; clima ameno, quase mediterrânico, com paisagens de vinhedos, oliveiras e amendoeiras, na Terra Quente; zona planáltica, com clima agreste, junto ao Douro Internacional. Bragança confere unidade a todos estes contrastes naturais através da cultura, história e identidade comuns.

AS ORIGENS

A origem do nome de Bragança provocou enorme discussão entre vários estudiosos do século XIX. Uns asseguravam que o nome provinha de “Brigo”, rei de Espanha, que terá fundado esta cidade e outras por toda a Península e que em sua honra adoptaram o seu nome. Outros afirmam que derivaria de “Brigo”, um deus a quem os habitantes da Península prestavam culto. O étimo seria de origem celta “brig”, do qual deriva a palavra “brigantes”, ou seja “os que oram, os que adoram a divindade, os crentes por excelência”, no dizer de Albino Pereira Lopo, na sua obra “Bragança e Bemquerença”. A questão da origem em Brigo, enquanto rei de Espanha, foi abordada pelo Abade de Baçal e resolvida, rejeitando esta hipótese ao afirmar que o rei Brigo “nunca existiu, a não ser em mentes avariadas” (Memórias, Tomo 1). O termo “briga” existiu e os celtas por estas terras andaram e habitaram por largo tempo. Várias significações lhe são atribuídas, tais como “monte, altura” ou “ponte”; corresponde à mesma palavra que, nas várias línguas germânicas, tem o significado de “ponte”. Contudo, qualquer que seja o seu significado, o étimo “briga” entra na formação da palavra “Brigantia”, nome latino formado no período da ocupação romana, da qual derivou a actual “Bragança”. Para além de toda a polémica à volta do nome, certo é que a região de Bragança foi habitada desde o período do Paleolítico, a avaliar pelos mais variados objectos e achados que foram encontrados, um pouco por todo o distrito. Salientamos alguns sítios arqueológicos de Donai (mamoa), perto de Bragança, de Ifanes no concelho de Miranda do Douro, as antas do concelho de Carrazeda de Ansiães, as gravuras rupestres do vale do Douro, como o conhecido “cavalo” de Mazouco, no concelho de Freixo de Espada à Cinta e monumentos megalíticos zoomórficos, como a “porca” da Vila de Bragança ou o “berrão” de Torre de D. Chama. Na área correspondente ao actual concelho de Bragança são muitos os chamados castros pré históricos ou lusoromanos, fortificações localizadas em pontos altos, para uma mais fácil defesa. Os inúmerros vestígios neles encontrados (moedas, telhas, restos de vasos para diferentes utilizações, lápides funerárias) demonstram a forte ocupação humana desde há muitos anos. Além dos celtas que ocuparam esta região, também os zoelas dominaram o território correspondente ao concelho e à parte mais ao norte do distrito de Bragança. Os lusitanos habitaram também esta terra, nas zonas livres do domínio zoela, no tempo da conquista da Península pelos romanos. No entanto, só mais tarde, nos séculos VI e VII começam a aparecer as primeiras notícias acerca do povoado que estará na origem da actual Bragança. Nesta altura, o mosteiro beneditino de Castro de Avelãs era o centro administrativo mais importante, sendo a partir do trabalho civilizacional dos monges que toda esta terra se começou a desenvolver, o que, aliás, aconteceu por toda a Europa. O mosteiro era um ponto estratégico de passagem dos peregrinos de Santiago de Compostela, uma variante da Rota da Prata, provinda da zona meridional da Península Ibérica. O estilo arquitectónico do mosteiro, românico, mas utilizando tijolo na construção dos arcos e abóbadas, sendo raro nesta região, denota uma influência exterior que assim se compreende. A família dos Bragançãos desempenhou então um papel fundamental no desenvolvimento e defesa desta terra. É a esta família que se atribui “a fundação de um povoado que viria a ser denominado de Bragança, nome da região e da alcunha familiar” (Eduardo Carvalho, Bragançanismo, Tentativas Históricas e Literárias). O centro de influência ter se á começado a mudar do mosteiro para o povoado de Bragança, para alguns estudiosos, a Quinta de Benquerença. Para outros, Bragança não existiu “como povoação, até ao nosso segundo rei, que a teria fundado e povoado depois de a obter por escambo ao Mosteiro de Castro de Avelãs” (Neto Jacob, Bragança). Baseiase este historiador em Albino Lopo que é muito claro a este respeito: “Ao lermos as crónicas dos primeiros tempos da nossa monarquia, encontramos que el rei D. Sancho I mandou para a Quinta de Bemquerença uma colónia, a que deu privilégios especiais, com o fim de a desenvolver e tornar importante” (Op. Cit. 9). As duas hipóteses não parecem, contudo, ser contraditórias, consideração confirmada pelo próprio Abade de Baçal: “se Bragança fosse fundada por D. Sancho I, ao dar lhe o foral, como este teve lugar em Junho de 1187, isto é, posteriormente à troca, não se empregaria no documento a expressão in civitate Bragancia que seria um absurdo (…) Donde concluímos que Bragança já então existia como povoado importante, pois gozava do privilégio de cobrar direitos de portático sobre as mercadorias que ali vinham vender se (…). Nem se concebe que fosse dado foral a uma terra despovoada completamente (…). Como não acreditamos na fundação de Bragança em 1187, mas sim que a sua população é muito anterior e só o documento de escambo ou troca feita entre os monges de Castro de Avelãs e o rei nos fala em tal quinta, sendo que por esse mesmo documento se evidencia a coexistência da civitate Bragalicia e da quinta da Bemquerença, somos levados a crer que esta era realmente uma quinta, na verdadeira acepção da palavra, ou propriedade contígua a Bragança, pertencente aos frades, e como o seu território faria falta para dar mais âmbito à cidade, el rei tratou de a obter” (Op. Cit, Tomo 1, 23). Outras teses tentam conciliar as duas perspectivas aparentemente antagónicas: a de que Bragança teria sido refundada por D. Fernão Mendes, ainda antes do início da nacionalidade portuguesa, após ter sido várias vezes destruída nas lutas da Reconquista, entre os Cristãos e os Mouros. Assim, não restam dúvidas da existência de Bragança neste período da história da Península Ibérica, facto confirmado pela referência deste nome em vários documentos eclesiásticos, como sendo um povoado cuja dimensão se ignora e que foi o centro de toda esta região.

HISTÓRIA

A localização geográfica, junto à raia com Castela, aliada às suas condições orográficas, conferiam a Bragança, no início da nossa nacionalidade, uma importância estratégica militar que levaram D. Sancho I, o Povoador, e os seguintes, a fortalecê la, por forma a tomá la “atalaia ou forte baluarte na fronteira nordeste do nascente reino” (topo, Op. Cit. 9). No cimo de uma colina, limitada pelas suas encostas e protegida por dois rios, a cidade poderia desenvolver se, com garantias de defesa natural, para a própria população e a dos povoados circunvizinhos. Os vales dos rios eram férteis, formando pequenas zonas de microclima que permitiam a subsistência de todos quantos aqui quisessem ou fossem forçados a radicar se. Na verdade, em termos defensivos, a situação era extremamente favorável: protegida por elevações orográficas e por dois cursos de água que naturalmente a defendiam das ofensivas guerreiras castelhanas: “pelo norte a serra da Senábria, a 6 léguas de distância; pelo poente a de Nogueira, a pouco mais de uma légua; pelo noroeste a de Montesinho, a 3 léguas; e pelo nascente as fortalezas raianas de Outeiro e Miranda; estando desprotegida apenas pelo sul, por onde não tinha nada a recear das entradas fronteriças” (Lopo, Op. Cit. 10). Assim, não admira que, logo no início da formação de Portugal, os nossos primeiros reis se apressassem a conceder à vila de então forais e privilégios que se destinavam ao seu povoamento capaz de a tornar operacional em matéria de defesa. D. Sancho I concedeu lhe carta de foral em 1187, vindo a ser intensificado por D. Afonso III em 1253 e, já na segunda dinastia, por D. Manuel I em 1514. Sempre com o mesmo objectivo de lhe conferir cada vez mais operacionalidade militar e recorrendo às mesmas medidas de incentivo ao seu povoamento, de concessão de privilégios aos que nela se quisessem radicar e de dinamização da sua actividade económica. Em matéria de privilégios a vulso, D. Afonso III criou uma feira anual nesta que já era a vila mais populosa de Trás os Montes. D. Fernando autoriza a realização de uma feira franca, prolongada por um período de um mês, uma concessão que viria a ser reforçada na dinastia de Avis. Por vezes, o objectivo da manutenção do seu povoamento considerado necessário era prosseguido com o recurso ao desterro de homiziados. Por força destas medidas, Bragança mantinha nesta altura um índice populacional e um nível de desenvolvimento idêntico ao de quase todas as outras cidades do reino. Por esta razão e apesar de as terras da região de Bragança sempre pertencerem ao rei, é lhe conferida a categoria de ducado com a criação da Casa de Bragança, sendo então atribuída a D. Afonso, filho natural de D. João I, vindo a ser o primeiro duque de Bragança. D. Fernando, o segundo duque, consegue, pelos feitos heróicos e funções que desempenhou no Norte de África, que o rei D. Afonso V, em 1464, concedesse a elevação da vila de Bragança à categoria de cidade. Na verdade, D. Fernando fora condestável da expedição a Tânger, mais tarde, fora nomeado governador de Ceuta. Tomou parte na expedição que conquistou Alcácer Ceguer e, em 1463, acompanhou o rei D. Afonso V numa outra expedição ao Norte de África, onde combateu com valentia. Não admira, pois, que o rei tenha acedido ao seu pedido, concedendo a Carta de Foro de Cidade à Vila de Bragança: “Dom Affonso por graça de Ds. Rey de Portugal e do Algarve senor de Cepta e dalcacere em África; A quantos esta carta virem fazemos saber, que considerando nos os muitos serviços, e obras de grandes merecimentos que a nos, e a el Rey D. Duarte nosso padre, e a nossos Reynos tem feito dom Fernando segundo Duque de Bragança meu muito amado, e prezado primo, e querendo lhe galardoar como a nós cabe, e por nollo ele Requerer a nos praz daqui por diante a sua Villa de Bragança se chamar cidade, e aver todollos previlegios, liberdades que bani, e devem daver as outras cidades de nossos Reynos …” (Abade de Baçal, Op. Cit. Tomo III, 189). Desde então e até aos finais do século XVIII, o crescimento da cidade continuou, tanto em população, como em urbanismo, como em actividades comerciais e industriais, sobretudo as que se relacionavam com a indústria dos veludos e das sedas. Este crescimento deveu se, em grande parte, à chegada a toda esta região de grande número de judeus, que haviam sido expulsos de Espanha pelos Reis Católicos. A indústria de Bragança e de toda a região entra em grande declínio, nos séculos XIX e XX, por força da concorrência de outros países, que haviam entrado na Revolução Industrial e que o nosso País, de um modo geral, não conseguiu agarrar. A economia passa a ser marcada pela actividade agrícola e, consequentemente, por uma actividade comercial interna reduzida ao essencial das necessidades da sua população, como, aliás, qualquer outra região de interior. À entrada no século XX, a estagnação da economia da região de Bragança acentua se: “por um lado, ruraliza se até à medula e, por outro, torna se dependente dos mercados exteriores, abastecendo se de mão de obra barata. A partir desta data é a reprodução cíclica e sistemática deste tipo de relação demográfico económica, mais ou menos consentida e apoiada pelo poder central” (Jacob, Op. Cit. 22). Temos, assim, todo o século XX marcado na região pela ruralidade, por períodos de emigração em massa que iam resolvendo o aumento populacional excessivo e, mais recentemente, por uma acentuada e constante perda de população, em benefício de outras regiões do litoral. No início do século XX, o caminho-de-ferro chega a Bragança, abrindo a esperança do renascimento económico que a região conheceu no passado. A verdade é que, ao contrário do que se esperava, a instalação destas novas vias de comunicação serviu mais o processo de saída das populações para o litoral do que o desenvolvimento pelo qual tanto as populações como o poder local sempre se bateram. As próprias vias-férreas da região acabaram por ser encerradas, há cerca de década e meia, pela tão propagada falta de rentabilidade económica. Em termos eclesiásticos, Bragança é diocese desde 1770, pela bula Pastoris Aeterni do papa Clemente XIV. A primeira diocese a ser criada em Trás os Montes fora a de Miranda do Douro, desmembrada da diocese de Braga pelo papa Paulo III, a pedido do rei D. João III, em 1545. Dois séculos mais tarde, em 1764, o bispo de Miranda, D. Aleixo Henriques pediu ao rei autorização para se transferir, juntamente com os seus cónegos, para Bragança, alegando ser Miranda uma terra pobre e muito destruída pelas investidas do exército espanhol. Assim aconteceu, mas em 1770 foram nomeados dois bispos, um para Bragança e outro para Miranda, ficando constituídas duas dioceses. D. Maria I pediu então ao papa autorização para que as duas dioceses se unissem numa só, o que veio a acontecer, em 1780, pela bula Romanis Pontifix, de Pio VI. A sede da diocese passou definitivamente para Bragança, passando os bispos a usar o título de Bragança e Miranda. Ao transferir se a sede da diocese para Bragança, passou a igreja do Colégio dos Jesuítas a desempenhar as funções de Sé Catedral. Entretanto, ao longo de dois séculos, foram vários os projectos elaborados para a construção da nova catedral: uns que passavam pela ampliação desta igreja e outros pela construção de um novo edifício. Só em 1964 foi aprovado o projecto que haveria de ser concretizado por D. António Rafael que consegue o apoio do Estado em 1981. Em 1988 dá se início aos trabalhos de construção. A nova sé catedral é consagrada a Nossa Senhora Rainha a 7 de Outubro de 2001, no mesmo dia da ordenação episcopal do novo bispo de Bragança Miranda, D. António Montes Moreira.

PATRIMÓNIO HISTÓRICO CONSTRUÍDO

O Castelo Sabe se que a construção castelo de Bragança data do reinado de D. João 1, como refere o Abade de Baçal. Também se sabe que terão existido outras fortificações na mesma colina onde se situa o conjunto medieval. Estas terão sido iniciadas logo após a concessão do primeiro foral, por D. Sancho I. Existem referências a uma fortaleza datada do reinado de D. Afonso III. Os desenhos do castelo feitos por Duarte d’Armas no século XVI mostram restos de uma barbacã, muito anterior às muralhas actuais. Albino Lopo confirma: “Grande foi o cuidado que mereceu a quase todos os nossos primeiros monarcas o fortalecimento deste posto fronteiriço, pois que a história em seguida a D. Sancho diz nos que el rei D. Dinis prestou séria atenção às fortificações transmontanas, e que a ele se devem as torres de menagem de Chaves, Miranda do Douro e até a de Bragança, o que não é crível por os sinais que nela há indicarem que a sua construção pertence a outro reinado”, ou seja, um reinado anterior a esta monarca. A Torre de Menagem revela influências arquitectónicas inglesas, o que se compreende dada a presença do Duque de Lencastre em Bragança, por ocasião da assinatura do Tratado de Babe, em 1387. A sua construção terá demorado 40 anos, entre 1409 e 1449. De uma elegância notável, pelo seu traçado distingue se de todos os monumentos do género existentes no País. Tem forma quadrangular, com os lados orientados pelos quatro pontos cardeais. A sua construção é toda em pedra e argamassa,sendo as paredes em xisto e as bases, os ângulos, as janelas, as ameias, os miradouros e uma cintura a meio das paredes, em granito. Os miradouros são salientes, como convém a uma melhor visibilidade; as janelas são trabalhadas em estilo gótico. O seu interior é marcado pela sobriedade, com as paredes em xisto e os pavimentos e os tectos em granito. Actualmente encontra se instalado no seu interior o Museu Militar, sendo este um dos grandes atractivos da zona histórica de Bragança, que nenhum visitante deixa de apreciar. O museu foi criado nos anos 30 para, nos anos 50 ser extinto, tendo as peças que o compunham sido transferidas para o Museu Militar de Lisboa. Com esta decisão nunca os bragançanos se conformaram, razão pela qual e após muitos anos de insistência, já em 1983, se haveria de conseguir a sua reinstalação, com as mesmas peças e nas mesmas instalações. Ao lado situa se a torre da Princesa, envolta em lendas e mistérios. Na verdade, não se trata de uma obra militar, mas tão simplesmente de uma dependência da alcáçova. O seu nome remete nos para a lenda de uma princesa que ali esteve aprisionada, uma bela castelã que enfeitiçava todos quantos a tinham visto. Também ela estaria apaixonada por um cavaleiro que vinha, fora de horas, render preito à sua amada. Histórias de amores impossíveis que, ora terminavam com um fim feliz, ora em tragédia. Terão estas lendas qualquer coisa a ver com D. Brites, filha de João Afonso Pimentel, conde de Benavente e que havia sido governador de Bragança. A história de D. Brites havia de terminar em desgraça, ao ser assassinada pelo marido, tendo sido, talvez, antes encerrada nessa torre. Uma mera hipótese sem qualquer fundamento histórico. A torre de menagem está protegida por uma muralha interior. Tem 7 torreões a toda a volta, abobadados no seu interior, e uma única porta, em arco redondo, que dá acesso ao pátio do castelo, à torre da Princesa e à torre de menagem. A cintura exterior da muralha tem uma forma oval, construída em pedra com paredes largas. “Esta cintura fecha um recinto em que a sua maior grandeza, na direcção este oeste, é de 200 metros, e na de norte sul é de 195 metros” (Lopo, Op. Cit. 83). A entrada na cidadela faz-se, do lado poente, pela chamada porta da Vila, em arco estilo ogival, secundada por uma outra, a porta de Santo António, também do mesmo estilo. Do lado nascente, uma outra porta dá entrada na vila medieval, a porta do Sol, com o mesmo estilo arquitectónico e também situada entre dois torreões. Existe ainda outra porta, de menor dimensão, que dá para norte, junto à torre da Princesa. Vários são os torreões ao longo da muralha, de maior ou menor dimensão. Eram postos de vigilância, na estratégia defensiva da cidade. Destes destacamos o torreão que protege o poço do Rei, por ter uma situação bastante saliente para o exterior, assim construído para servir como defesa à cisterna que abastecia de água a cidade. Domus Municipalis “O viajante está cansado depois de um passeio pela Vila (…) prefere confirmar no seu guia aquilo que lhe acabavam de contar: que o edifício foi construído sobre uma cisterna de água no longínquo século X11; que é, com efeito, a mais antiga domus de Portugal; que tem planta pentagonal; que é de raiz grega ou romana e que, enquanto funcionou, era a assembleia das gentes de Bragança” (Llamazares, Julio, Trás osMontes Un Viaje Portugués, 1998:23). Na verdade, a Domus Municipalis, ex libris da cidade, tem um estranho desenho de um pentágono, cujos lados são todos desiguais. Trata-se de um raro edifício, de arquitectura românica civil. Consta de uma parte subterrânea, a cisterna, com uma certa profundidade, pelo que também foi designada de Casa da Água; a parte exterior é formada por um só piso, mais ou menos dois metros acima do solo, janelas em arco redondo em todos os lados, cornija em pedra de granito esculpida na parte superior e cachorros a toda a volta com desenhos variados representando motivos antropomórficos e zoomórficos. O tecto da cisterna é uma abóbada em arco redondo, a condizer com o estilo da parte exterior, o românico. A designação dada ao monumento, “Domus Municipalis”, é recente e remonta aos princípios do século XX. Tem a ver com as funções que lhe foram atribuídas: casa de reuniões da assembleia dos homens bons do concelho, isto é, os homens que, não fazendo parte da nobreza, tinham poder económico e influência social e tomavam decisões sobre a vida municipal. O latinismo usado na sua denominação justifica se pela tendência dos eruditos da época de lhe atribuírem uma origem muito mais antiga do que a aquela que, de facto, tem. Alguns chegaram a afirmar que teria sido casa do senado, ao tempo da ocupação romana, ou areópago, de influência helénica, a ponto de levarem o Abade de Baçal a rechaçar tais hipóteses: “Os forjadores de lendas sempre ávidos de avelhentar a data dos monumentos, recuam lhe a origem ao tempo romano, dizendo que foi Senado; e outros, ainda não contentes, querem dar no lo como Areópago. Todas estas fantasias, porém, não passam de mera lenda sem fundamento” (Memórias, Tomo 1:291). Tal como o próprio Abade defende que “os antigos Paços do Concelho de Bragança, intra muros da cidadela, a julgar pelo seu estilo arquitectónico românico, remontam ao século XII para XIII” (Op. Cit. 291). José Monteiro, historiador bragançano, desenvolveu um trabalho notável “Em torno da Domus Municipalis” e confirma: “Além das características arquitectónicas e da data do primeiro foral, outro elemento serviu ainda, como esteio da tese que localizava nos fins do século XII o início da construção: trata se do presumível escudo do rei D. Sancho I gravado num cachorro do interior” (Monteiro, in Brigantia, vol. 11, Jan/Março, 1982). Muito provavelmente o referido elemento heráldico terá sido ali colocado durante a construção do edifício. Das várias funções que lhe foram atribuídas, é evidente que foi casa da água, por nela existir uma cisterna de onde se abastecia a vila intra muros medieval; também não restam dúvidas que foi, posterior ou simultaneamente, paços do concelho, designação que o Abade de Baçal lhe dá e que sempre teve até à latinização do seu nome. Ao longo da história, o edifício sofreu várias alterações. No início do século XX encontrava se num estado de degradação e de adulteração total, a tal ponto que o próprio Abade de Baçal e o Grupo de Amigos dos Monumentos e Obras de Arte de Bragança clamam pela sua recuperação: “Cessemos de dar, perante o estrangeiro, o triste espectáculo de um povo que não aprecia as tradições do seu passado; salvemos o monumento” (Op. Cit. Tomo 1: 292). Por força destas pressões, foi realmente recuperado, sob a orientação da então Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, sendo o restauro concluído em 1932. Igreja de Santa Maria A mais antiga igreja da cidade, situada na cidadela, faz parte do conjunto monumental medieval, juntamente com o Castelo, a Domus Municipalis, o Pelourinho e as muralhas. Também conhecida por Nossa Senhora do Sardão, a sua traça primitiva é românica, conforme se pode verificar em alguns dos seus elementos interiores. No entanto, foi sofrendo ao longo dos séculos sucessivas alterações até lhe ter sido dada a actual traça barroca. A frontaria é barroca é constituída por um portal com duas colunas pseudo salomónicas, um frontão quebado e quatro nichos laterais. O interior é constituído por três naves, separadas por seis arcos construídos em tijoleira modéjar. O altar mor é ricamente adornado em talha dourada, bem como os altares laterais. O púlpito é também um elemento barroco; encontra se acoplado a um pilar do lado direito da nave central. No domínio da santuária, destaca se escultura de Santa Maria Madalena, colocada no altar mor, uma obra de Gregório Fernades, um mestre da escola de Valladolid e as pinturas da abóbada da capela mor. A igreja foi, recentemente, objecto de obras de restauro que permitiram deixar à vista alguns elementos românicos da primitiva construção. Pelourinho: O pelourinho constitui, em conjunto com a Domus Municipalis, um dos mais representativos símbolos do poder municipal na Idade Média. Por isso, é suposto que originalmente estivesse sediado junto da Domus, tendo sido transferido, em 1860, para o local onde actualmente se encontra, junto da muralha interior que protege a torre de menagem. O pelourinho, sendo de origem medieval, está assente sobre uma escultura zoomórifica (popularmente conhecida como “porca da vila”), cuja origem remonta aos tempos pré históricos. Temos, assim, um monumento constituído por dois elementos separados no tempo por muitos séculos. O capitel do pelourinho é rico em elementos escultóricos, com figuras zoomórficas que parecem representar cenas da vida do povo. Igreja de S. Vicente A igreja matriz de S. Vicente, situada junto ao largo do Principal, tem origem mais primitiva na Idade Média, a avaliar pela cabeceira, de estrutura românica, e por outros elementos dissiminados no edifício. A estrutura actual do monumento remonta aos finais do séc. XVI, edificada sobre uma primitiva igreja do séc. XIII, que foi nessa altura demolida. O interior da igreja é constituído por uma só nave. A capela mor é decorada com talha dourada barroca, do mais rico e esmerado que se pode encontrar. O próprio arco da capela-mor é decorado com a mesma talha, assim como os altares laterais. No exterior destaca-se o portal maneirista, com duas colunas laterais e frontão triangular. Do lado esquerdo do portal de entrada, acoplado ao próprio edifício, existe um fontenário, construído em 1746, que ostenta, ao cimo, a coroa e as armas reais. A junção da arte e da funcionalidade, neste belo exemplar de fontenário. Do lado esquerdo, está colocado, na própria parede, um painel de azulejos, alusivo ao levantamento popular contra a invasão francesa, com o General Sepúlveda fazendo o acto da proclamação, justamente no patamar de entrada da igreja de S. Vicente. Reza a lenda que casaram clandestinamente nesta igreja el rei D. Pedro I e D. Inês de Castro. Uma lenda confirmada por alguns documentalistas, que chegaram a indicar o nome do deão da Sé da Guarda como tendo sido o celebrante da cerimónia de casamento. Convento de S. Francisco O conjunto monumental da igreja e do convento de S. Francisco situa se na encosta norte da colina do castelo. Reza a tradição que o convento foi fundado pelo próprio S. Francisco de Assis, quando por aqui passou na sua viagem de peregrino a Santiago de Compostela. Neste caso, a tradição oral não passa mesmo de lenda. A sua fundação data, provavelmente, dos meados do século XIII, já que ele é referido, pela primeira vez em documentos escritos, no testamento de D. Afonso III, em 1271. Os vestígios arqueológicos encontrados na igreja comprovam esta sua origem. A cabeceira exterior da igreja revela uma estrutura românica, com a utilização da tijoleira nas suas janelas e frestas. Interiormente, o corpo da igreja é constituído por uma nave de grandes dimensões. A igreja foi recentemente sujeita a obras de restauro, na sequência das quais se vieram a descobrir restos de uma estrutura mais antiga e de pinturas medievais. Foi também descoberta uma “cripta subterrânea com um túmulo de estrutura medieval assente sobre quatro leões dormentes” (Jacob, Op. Cit. 102). O convento situa se no caminho de Santiago, a Rota da Prata, contando se entre os mais notáveis peregrinos, que aqui passaram, a Rainha Santa Isabel. Ao longo da sua história, o edifício teve várias utilizações: convento, hospital militar, asilo e actualmente é o Arquivo Distrital de Bragança, após profundas obras de restauração e melhorias, efectuadas na década de 90. Igreja da Sé O conjunto monumental que foi da Companhia de Jesus é constituído pelo convento e pela igreja. Inicialmente projectado, em 1545, para as freiras Clarissas, passou mais tarde para as mãos dos padres jesuítas, que ali instalaram o seu colégio, uma instituição que se veio a revelar fundamental para o ensino em Bragança. Leandro Rodriguez, historiador espanhol, atesta as relações deste colégio com Miguel Cervantes e atribui lhe igualmente importância na formação dos judeus expulsos de Espanha que se refugiavam em Bragança: “un mercader descubre que Bergança le seria útil para acompanar a sus hijos hasta el “Estudio de Ia Compania de Jesus” (Rodriguez, Los Judios. Luis Camões Vaz, Miguel de Cervantes Savedra y Bergança, in Actas del III Congreso Internacional, Rutas de Don Quijote y Caminos de Libertad, Zamora, 1997). D. Aleixo de Miranda Henriques, o primeiro bispo da diocese de Bragança e Miranda, determina que a igreja do colégio passe a ser a igreja matriz da paróquia de S. João Baptista e simultaneamente a sé catedral da nova diocese. Nesta qualidade se manteve até 2001, ano em que se concluiu e foi consagrada a nova sé catedral. A própria praça onde se situa a igreja ficou a chamar se, desde aquela altura, como Praça da Sé. “Retábulos de talha dourada, no último período do barroco, e a abóbada da capela mor, denotam vestígios do gótico flamejante, dando sinais do calor renascentista, nas sua nervuras” (in Guia das Igrejas e Capelas de Bragança). A sacristia da igreja é também muito rica em arte, possuindo no seu tecto 48 quadros alusivos à vida de Santo Inácio de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus. O colégio dos Jesuítas passou, após a sua expulsão, a Liceu Nacional de Bragança, mais tarde a Escola Preparatória Augusto Moreno, aguardando, actualmente a execução de um projecto de recuperação, da Câmara Municipal, para fins culturais. Mesmo em frente à entrada principal, na praça da Sé, um imponente cruzeiro, mandado construir pelos Jesuítas, em 1689. O seu fuste está repleto de decoração barroca e o capitel é encimado por uma cruz detalhadamente trabalhada. Mosteiro e Igreja de Castro de Avelãs: Resta hoje muito pouco do que foi a grandeza do Mosteiro Beneditino de Castro de Avelãs: parte da igreja românica, a ábside e dois absidíolos, e uma pequena torre. O românico aqui presente é de influência mudéjar leonês, dados os materiais usados, o tijolo e a argamassa. A sua fundação é atribuída a S. Frutuoso, no século VII, e a sua remodelação posterior aos monges beneditinos. Mas, na verdade, os primeiros documentos que dão conta da sua existência datam dos meados do século XII. Como em toda a Europa, o mosteiro, por acção dos monges, marcou decididamente o desenvolvimento de toda esta região, na Idade Média: o aproveitamento das terras, as técnicas de exploração agrícola, a organização local ao nível do ordenamento, do povoamento, da justiça, do ensino e da protecção contra as ofensivas externas. Detinha um grandioso património, quintas, casais, coutos, freguesias, onde exercia o seu poder como se tratasse de um senhor feudal. O seu território estendia se aos concelhos limítrofes de Vinhais, Chacim (actual Macedo de Cavaleiros) e Vimioso. O mosteiro foi extinto em 1545, pela bula Pro Excellenti Apostolicae Sedis, do papa Paulo III. Começa, então o processo da sua decadência. As construções do mosteiro quase desapareceram e a igreja entra também em ruínas. Em seu lugar foi construída a igreja paroquial, simples e modesta, que passou a ocupar a nave central da anterior românica, mantendo se desta apenas a capela mor (na ábside) e a sacristia (no absidíolo norte). No absidíolo sul, que ficou ao ar livre, encontra se o túmulo do conde de Ariães, uma figura mítica dos tempos da Reconquista que entrou no imaginário popular e é protagonista de lendas e histórias fabulosas.

PERFIL DEMOGRÁFICO

A população do concelho de Bragança atinge, segundo o censos de 2001, um total de 37 170 habitantes (17 814 homens e 19 356 mulheres), distribuídos por 49 freguesias. Mais de metade desta população (cerca de 24000 habitantes) concentram se nas duas freguesias urbanas da cidade, Sé e Santa Maria, com grande disparidade para a freguesia da Sé, com perto de 20 000 habitantes. À volta da cidade situam se uma dúzia de freguesias, cuja população vive como que dividida entre o trabalho do campo e as actividades mais urbanas e sob a influência da vida da cidade: Alfaião, Baçal, Castro de Avelãs, Donai, Gimonde, Gostei, Meixedo, Nogueira, Rabal, Rebordãos, Samil e S. Pedro dos Sarracenos. Mesmo assim, é sintomático verificar que apenas nas duas freguesias urbanas e em 7 deste grupo que se situam mais próximo da cidade é que tiveram um aumento da sua população, desde o senso de 1991 até ao de 2001: Castro de Avelãs, Donai, Gimonde, Nogueira, Rebordãos, Samil e S. Pedro dos Sarracenos. Todas as restantes do grupo perderam população. No resto do concelho, todas as freguesias perderam igualmente população, no mesmo período de tempo, excepto na da vila de Izeda e na de Santa Comba de Rossas, situada junto ao IP4. Podemos agrupar as restantes freguesias em pequenas zonas de características geográficas comuns. A serra de Nogueira, com as seguintes freguesias:Carrazedo, Castrelos, Pombares, Rebordaínhos, Sortes e Zoio. É a chamada “serra”, com as suas características de terra fria. A zona da Lombada que inclui as seguintes freguesias: Aveleda, Babe, Deilão, Rio de Onor e S. Julião de Palácios. Terra de planalto. A zona da serra de Montesinho, com as freguesias: Carragosa, Espinhosela, França, Gondesende e Parâmio. Terra serrana, junto à raia com Espanha. O vale do Sabor e afluentes, com as freguesias de Coelhoso, Faílde, Grijó de Parada, Parada e Paradinha Nova, com planalto e vales de microclima temperado. A zona do rio Maçãs, constituída pelas freguesias de Milhão, Outeiro, Quintanilha e Rio Frio, um planalto de características continentais. A zona sul do concelho, ao lado do 1P4, formada pelas freguesias: Calvelhe, Izeda, Macedo do Mato, Mós, Pinela, Quintela de Lampaças, Salsas, Santa Comba de Rossas, Sendas e Serapicos. Terra de planalto e vales de microclima orientados para o rio Sabor. Como factores da redução da população em grande parte das freguesias rurais, podemos falar do êxodo rural motivado pela modernização agrícola que continua a fazer-se, mas já sem a necessidade de tanta mão de obra, a falta de outras actividades rentáveis e atractivas para os jovens que procuram na cidade ou no litoral ocupações mais aliciantes, o isolamento, as distâncias, as vias de comunicação e as infra-estruturas que, em muitos casos, continuam deficitárias. Daqui que as aldeias se despovoem de jovens e crianças, contribuindo para a constituição de uma situação demográfica caracterizada por uma população envelhecida, nas aldeias mais remotas e sem facilidade de movimentação. Contrariamente, o núcleo urbano continua em franco crescimento populacional, à custa da sangria demográfica dos meios rurais.

ACTIVIDADES

O processo de desertificação do concelho, como de todo o interior, deu se início há mais de dois séculos, como vimos, com o declínio da indústria da seda, da tecelagem e das artes oficinais. Como solução, só restava a emigração que, aliás, vinha resolver o fenómeno de aumentos de população considerados e sentidos como excessivos. Passaram a verificar se fenómenos cíclicos migratórios, com destinos mais ou menos determinados: Brasil (até aos anos 60) países da Europa (sobretudo a França e a Alemanha), Lisboa e Porto. Mais recentemente verifica se o afluxo ao centro urbano sede do concelho. O sector primário, nomeadamente, a agricultura ocupa ainda uma grande importância na economia do concelho, com cerca de 65 000 ha de área cultivada e de cerca de 30% da população activa que nela trabalha. As culturas que aqui se desenvolvem são próprias da terra fria, de influência continental, e de montanha. Cultiva se o cereal, em média escala, principalmente, o trigo, e o centeio, em pequena escala e nas zonas mais serranas. A batata cultiva se tanto nas planícies como na serra, sendo esta a de melhor qualidade; as leguminosas constituem uma exploração quase apenas para o consumo familiar. Como culturas permanentes, encontramos a castanha, com grandes áreas de soutos, sobretudo na serra, a uma altitude que não deverá ultrapassar os 800 metros. Constitui, hoje em dia, um importante recurso que em muito contribui para o equilíbrio do orçamento familiar de qualquer médio agricultor destas zonas. Também a oliveira e a vinha se encontram, nas encostas dos vales do rio Sabor e seus afluentes. A azeitona destina se exclusivamente à produção de azeite sendo, aliás, de elevada qualidade. As culturas forrageiras têm alguma expressão, atendendo a uma certa pujança da actividade pecuária. Nesta medida, existe uma grande área de prados naturais, os lameiros, para apascento do gado bovino e ovino e aproveitamento dos fenos. Neste domínio, predominam as raças bovina mirandesa, apesar da introdução de outras raças mais produtivas, e a churra galega bragançana. O porco bísaro tem importância na produção do fumeiro de qualidade, mas pouca expressão, em termos quantitativos, no que se refere ao concelho de Bragança. Todas estas raças obtiveram já a classificação de raças autóctones protegidas. Todas elas, por isso e por fazerem parte da tradição culinária transmontana, têm grande interesse tanto na gastronomia, como na transformação de produtos regionais de qualidade, o fumeiro. Lembremos também a famosa posta mirandesa, predominante no concelho de Bragança e nos restantes da Terra Fria e do Planalto Mirandês. A raça ovina churra galega caracteriza se por ser de bom porte, muito reprodutiva e produtora de lã, não sendo, propriamente, boa produtora de leite. Quanto à indústria extractiva, podemos referir pedreiras para exploração do xisto para a construção civil e de rochas ornamentais, granitos e mármores. O sector secundário é o que representa a menor valia económica no concelho de Bragança. A euforia gerada em tomo da indústria da seda e dos veludos, há dois séculos, esvaiu se e, desde então, a indústria resume se a pequenas unidades de transformação, por vezes familiares, do ramo da indústria alimentar, da embalagem de produtos da agricultura e da pecuária, do fabrico de alfaias agrícolas, algumas unidades de tecelagem e outras de preparados para a construção civil. Recentemente entrou em funcionamento uma grande unidade de produção de peças e componentes do ramo automóvel. Existem também pequenas unidades de fabrico de mobiliário e carpintaria, sendo umas orientadas para a construção civil e outras para a produção de móveis propriamente ditos. A própria construção civil se encontra numa fase de grande pujança, com um crescimento que se acentua de ano para ano e que dá trabalho a uma grande parte da mão-de obra dos homens do concelho e de muitos imigrantes estrangeiros que afluem à cidade. As artes tradicionais começam a ressurgir, com o aparecimento de artesãos trabalhando os mais diversos tipos de matérias primas que transformam em belas e utilitárias peças de artesanato: madeiras para a produção de miniaturas, móveis artísticos, máscaras; cestaria; olaria; tecelagem tradicional em linho e lã; trabalhos em ferro, cobre e latão. Toda esta actividade tem relativa expressão que dá jus à feira anual de artesanato, que acontece por ocasião da conhecida Feira das Cantarinhas, nos primeiros dias do mês de Maio. Sendo Bragança a capital de distrito, é compreensível que o sector terciário detenha um peso muito significativo no conjunto das actividades e da economia do concelho. Cerca de 50% da população activa se encontra ocupada neste sector. Referimo nos à actividade comercial, de forte pujança e sempre em crescendo na cidade e que começa a estender se aos maiores núcleos rurais, nomeadamente à vila de Izeda e a algumas aldeias que já se afirmaram como atracção turística ou como pólos aglutinadores de um conjunto de pequenas aldeias seus satélites. Relativamente aos serviços, podemos dizer que Bragança dispõe de uma oferta semelhante e à sua medida à dos grandes centros urbanos. Em matéria de turismo, como é normal, grande parte das unidades de alojamento e restauração encontram-se sediadas na cidade. Registam se neste momento 23 unidades hoteleiras (sendo 5 de turismo rural) e mais de meia centena de unidades de restauração, nas diversas categorias, mas todas de reconhecida qualidade. Têm surgido recentemente, nas aldeias unidades de turismo no espaço rural, cuja procura se tem vindo a intensificar. Na área protegida do Parque Natural de Montesinho existe uma dúzia de moradias turísticas e de casas abrigo, estando estas inseridas na modalidade de casas de natureza.

FESTAS TRADICIONAIS

Dedicamos este capítulo às tradicionais festas do ciclo do Inverno, vulgo, as festas dos rapazes. O Inverno é para a natureza o tempo do repouso; para quem com a natureza trabalha o povo rural sê lo á também. Em Trás os Montes, quando o Inverno chega, as colheitas já terminaram, e aí estão as matanças e as festas do pão, do vinho, do fumeiro. Festas do pão, como em Parada de Infanções, em honra de S. Estêvão, com o “charolo” espécie de andor todo coberto de roscas de pão que é benzido na igreja e integrado no ritual litúrgico, leiloado no adro, peça por peça, e comido preceitualmente por todos. Assim é também em Outeiro, na festa de S. Gonçalo, a 10 de Janeiro: “charolo”, em forma de pirâmide, com cinco ramos; dança da rosca e “pandorcas” (rondas à volta da povoação, acompanhadas de gaiteiro, onde se canta, dança e bebe). O ritual da bênção e distribuição do pão por todo o povo faz parte essencial da festa de Santo Estêvão, em Grijó de Parada. Colocado em cestos numa grande mesa para a refeição comunitária, o pão é o seu prato nobre; mais tarde é ainda o pão em forma de rosca o prémio para o vencedor da “galhofa” a luta corpo a corpo; o pão em forma de rosca aparece como motivação para alguns rituais: a dança da rosca, a corrida à rosca. Festas do solstício do Inverno, comemse os frutos das colheitas, bebe se do vinho novo; usa se e abusa se; é assim agora, como era nas antigas bacanais: o povo “beberica, comisca e emborracha se de adega em adega, como se as bacanais estivessem na ordem do dia; esmurra se, espanca se, anavalha se muitas vezes, como os galos por preceito litúrgico nas suas festas; joga a barra, a carreira, a luta, como supervivência da arena, circo e `stadio’; enfim, entra em franca e completa `paganalia’…” (Memórias, Tomo XI: 113). Há refeição comunitária para todo o povo em Parada, Grijó de Parada, Rebordãos, Samil, S. Pedro dos Sarracenos, Rio Frio, ou para um grupo restrito que toma parte mais activa na festa os rapazes como é o caso das festas dos rapazes de Varge, Aveleda, Baçal, Sacoias, Babe, S. Julião de Palácios, Deilão. Festas dos excessos na comida e na bebida; das colheitas, da abundância, da fertilidade; o sol está no seu ponto mais baixo; a natureza morta. Pede se que ela renasça e que ele suba no seu esplendor de luz e calor. Máscaras e mascarados, presentes em muitas destas festas, surgem então, ligando o natural ao sobrenatural, os vivos e os mortos, neste momento crítico a passagem de uma estação a outra, de um a outro ano. A Crítica Social Os “caretos” (mascarados) de Varge, Aveleda, Baçal ou Salsas são outros seres, com poderes e liberdades próprias, mágicas ou diabólicas: pedir, afugentar, bater, acariciar ou furtar. Criticando publicamente os males sociais, expurgam a comunidade, purificam na e preparam na para a nova colheita que começa na natureza, com o sol que se ergue. São as loas, colóquios ou comédias das festas dos rapazes de Varge, Aveleda e Baçal, que visam acontecimentos ocorridos na aldeia durante o ano findo ou prestes a findar, ridicularizando os e exagerando lhes as proporções:

Pessoal que me ouvis,
bem sabeis o que isto é;
tenho um caso p’ra contar
que diz respeito ao Manuel Zé.

Que diz respeito ao Manuel Zé,
rapaz de muita alegria;
o que havia de fazer
à sua irmã Maria.

À sua irmã Maria,
isto ninguém o adivinha;
ele já andava maluco
com ela e com a sobrinha.

Ele ia para as hortas
fartinho de trabalhar;
elas iam para a taberna
só para se emborrachar

E a história continua. Esta e outras, na sua crueza e simplicidade, tanto ao gosto do povo de onde nasceram. Poesia e vida. Apesar disto, coexistem nas festas momentos de agressão verbal, de escape ou válvula, e momentos de delicadeza e boas maneiras; estes situam se nas rondas de Boas Festas feita a todos os vizinhos da terra pelos mordomos, acompanhados por todos os outros rapazes, que dançam e cantam ao som da gaita de foles. Em cada casa recebem presentes e prosseguem a sua marcha, de porta em porta, até à última casa. Ritos de Passagem Nas festas dos rapazes encontramos ritos próprios dos rituais de passagem das sociedades arcaicas: a passagem de uma a outra fase da vida, da infância à maturidade, como um acontecimento marcante na vida de uma pessoa ou de uma comunidade. Ritos só para rapazes, tal como nas antigas sociedades secretas masculinas, nas quais os jovens, antes de nelas se introduzirem, deviam submeter se a determinadas provas, mascarando se de seguida e executando danças violentas para afastar a presença das mulheres. Vestígios destas práticas são bem visíveis nas nossas festas do ciclo do Inverno. O uso de máscaras, fatos garridos, chocalhos e bexigas de porco cheias de ar, pelos caretos, provoca sensações visuais e auditivas repelentes: tais elementos, associados à crítica social das loas, repelem os males da comunidade e protegem na de outros que podem sobrevir; pela gritaria selvagem, “hi, hu, hu”, e pelas danças desordeiras, os “caretos” repelem as mulheres da sua convivência; afastam também os maus espíritos da natureza, enquanto apelam ao sol as melhores bênçãos para as colheitas do ciclo que começa. À desordem contrapõe se a disciplina. Esta impõe se e o jovem iniciado tem que ser disciplinado e quando prevarica é severamente castigado. De uma certa brandura nas regras que encontramos em Baçal, com a abertura a estranhos e a mulheres, até à rigidez no cumprimento das normas que tudo prevêem, estipulam e controlam, na festa de Babe sempre a mesma dialéctica pela qual o adolescente deve passar. A vara ou a bandeira, o chapéu enfeitado ou a coroa, são os símbolos dos mordomos da festa; conferem lhe toda a autoridade na sua organização e o direito de fazer justiça, premiando, aplicando penas ou distribuindo tarefas. Em certos momentos da festa de Deilão são aclamados como reis por todo o povo e transportados aos ombros pelas moças do lugar. É necessário testar fisicamente o jovem: ele não se coibe às provas de resistência física. Por isso, corre descalço, tendo como meta a glória de receber uma rosca de pão. Assim é na festa de Varge, a corrida à rosca. Assim é também a “galhofa” em Parada e em Grijó, a luta corpo a corpo, tronco nu, entre dois rapazes, peito com peito, ombro com ombro, até que um consegue voltar o outro de costas, saindo vitorioso. Resquícios da antiga luta greco romana. Vencedor, vencido e assistentes festejam no final com o pão da rosca e vinho. Ambos passaram na prova. O sagrado e o profano Nas festas do ciclo do Inverno, o sagrado e o profano, por via de regra, demarcam se um do outro: a sua origem e características pagãs diferenciam nas das festas que o Cristianismo lhes sobrepôs, na tentativa de as substituir. No dizer do povo, os “caretos” são a representação do diabo; a igreja e mesmo o adro são espaços interditos aos mascarados, e é aí que se refugiam as moças e os garotos à perseguição que lhes movem; é da crença popular que, se algum “careto” morrer no exercício das suas funções, vai direito ao inferno. Também a música “profana” da gaita de foles é interdita nas celebrações litúrgicas cristãs (salvo algumas excepções). Seja como for, o certo é que não há festa tradicional, tanto no concelho, como no distrito de Bragança, sem a tradicional música da gaita de foles.
De: António A. Pinelo Tiza

INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA

A Instituição O Instituto Politécnico de Bragança (IPB) foi criado em 1979 e integra actualmente cinco escolas, dotadas de autonomia científica, pedagógica e administrativa: Escola Superior Agrária, a funcionar desde 1986/87; Escola Superior de Educação, a funcionar desde 1986/7; Escola Superior de Tecnologia e Gestão, a funcionar desde 1990/91; Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Mirandela, a funcionar desde 1995/96; Escola Superior de Enfermagem, a funcionar desde 1971, mas só integrada no ano de 2000/01. No conjunto destas Escolas, o IPB oferece um leque de trinta e três cursos, nas áreas da Educação, Ciências Agrárias, Informática, Gestão, Engenharias e Enfermagem. Todos os cursos oferecem formação teórica e enfatizam a formação prática de forma a facilitar aos estudantes o acesso ao mercado de trabalho. O IPB dá especial atenção à modernização e à qualidade do seu ensino, através de uma actualização contínua dos currículos dos vários cursos oferecidos e através do investimento na pesquisa e especialização do corpo docente, sendo que este é constituído por cerca de 377 professores, dos quais 28 são doutorados e 100 preparam o doutoramento. Na sua maioria os docentes estão habilitados com o grau de Mestre. O número total de alunos do IPB passou de 120, em 1986/87, para 5088 em 2000/01. O Campus A maior parte das infra estruturas do 1PB está concentrada no Campus. Este situa se na Quinta de Santa Apolónia e áreas anexas, com 50 ha de superfície de espaço verde, próximo do centro da cidade. Com uma área coberta de cerca de 24.000 m2, compreende actualmente: Edifício da Escola Superior Agrária; Edifício da Escola Superior de Tecnologia e Gestão; Edifício da Escola Superior de Educação; duas residências com capacidade para 200 estudantes cada; o Edifício dos Serviços Sociais do Instituto; um campo polidesportivo ao ar livre; Instalações destinadas a actividades agrícolas e pecuárias; um Edifício Polivalente na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Mirandela. O conjunto arquitectónico pertencente à antiga Quinta de Santa Apolónia foi preservado: dele fazem parte uma casa de habitação, uma capela e várias dependências de utilidade agro pecuária. Urna dessas instalações foi transformada numa pequena e agradável pousada, destinada a albergar os professores visitantes de outras instituições nacionais ou internacionais. Área de influência do Instituto Politécnico de Bragança A região de Trás os Montes e Alto Douro é uma região cheia de ricas experiências comunitárias que não são usadas nos nossos dias. Devido às suas origens plurais, nobres e populares, onde cada um está interessado em todos e onde todos procuram consolidar a felicidade de cada um. O espírito que reina é de ostentação, a terra é preta e fértil, preta é a roupagem que a cobre, borrifada por um branco e frio manto de neve que convida ao aconchego das gentes. O ambiente natural A região de Trás os Montes e Alto Douro apresenta um ambiente geográfico de grande diversidade resultante da posição interior e da sua própria geomorfologia. Assim, o cordão montanhoso litoral que se desenvolve do Alto Minho ao Alvão Marão constitui uma barreira geográfica que tem influência decisiva na ecologia da região e tem sido um forte factor de isolamento físico, combatido pela via rápida IP4 do Marão e recentemente pelo seu prolongamento até Quintanilha, faltando por concluir a ligação a Espanha: A sua posição interior faz com que esteja fechada às influências marítimas não só pelo oeste como também pelo norte, sistema Galaico Duriense (Montesinho 1492 m) e pelos Cantábricos. Pelo Oriente sofre a influência do planalto Castelhano Leonês e pelo sul a do planalto Beirão e Maciço central, prolongamento do sistema central ibérico (Serra da Estrela 1993 m). Interiormente, dada a riqueza geomorfológica, a região apresenta duas zonas bem definidas e há muito explicitadas nas designações regionais de “Terra Quente” e “Terra Fria”. O seu clima é também bem evidente quando se enuncia o refrão popular de “nove meses de Inverno e três de inferno”. Na realidade, o clima tem características continentais, mas com uma clara influência mediterrânica. A distribuição da precipitação é enorme já que varia desde mais de 2500mm nas montanhas ocidentais, aos 1500mm nas montanhas do interior situadas a norte e os 400mm no vales encaixados do Douro superior. Os valores de temperatura variam entre 16° C nos planaltos da Terra Fria de Bragança Miranda e os 46° C no Vale do Douro. Este ambiente geográfico estabelece que a população em geral se concentra nas aldeias ou cidades, que nos últimos anos se têm deslocado para cidades localizadas na costa ou para centros mais populosos como Bragança, Vila Real e Chaves embora todas com um movimento migratório massivo. A Comunidade envolvente e a aposta na qualidade A zona de influência do IPB circunscreve se à região de Trás os Montes e Alto Douro, dando prioridade de entrada a 50% de alunos oriundos dos distritos de Bragança e Vila Real, segundo o ponto de vista agroecológico. A influência para os cursos agrários também se estende ao Planalto da Beira Transmontana, conferindo semelhanças entre as duas regiões. Por outro lado, a relação privilegiada do Interior e Trás os Montes com as regiões espanholas de Zamora e Salamanca permite uma interligação entre esta área de influência e a região de Castilla e Léon, através das Universidades de Salamanca, Valladolid e Léon. Aos alunos que frequentam o Instituto Politécnico de Bragança e aos que vierem a frequentá lo o IPB pretende oferecer um ensino diversificado e de qualidade, tendo ao mesmo tempo a preocupação da sua inserção no meio que os cerca. A área de influência deste Instituto oferece uma enorme riqueza etnográfica e a cidade de Bragança, desde há longas décadas, constituiu se como um centro académico de grandes tradições, agora reforçadas pela existência da massa estudantil que cresce de ano para ano. Assim, pretende se formar profissionais de qualidade, que obtenham também uma formação humana integral, através de variadas actividades circum escolares que contribuam para afirmar cada vez mais o Ensino Superior Politécnico nesta região de Trás os Montes. A cidade de Bragança A 670 metros de altitude, a uma distância de 20 kms da fronteira de Espanha, eis que surge a nordeste de Portugal, Bragança, abatida no Inverno por um frio gélido e cortante, no verão por um calor pérfido. A terra é escura e fértil, e de Inverno coberta por mantos de neves que incitam as pessoas a ir ao encontro da Natureza. Rodeada de lendas e mistérios, Bragança tem origens que lhe apontam para os remotos tempos pré históricos, onde são variados os vestígios de presenças de outrora, desde celtas a romanos. Encontra se rodeada de paisagens agrestes, mas sempre presente uma beleza que nos encanta. O seu clima é também bem particular quando se enuncia o refrão popular de nove meses de Inverno e três de inferno. O clima, embora tenha características continentais, tem um regime tipicamente mediterrânico. Os valores de temperatura variam entre extremos, podem verificar se 16° nos planaltos da terra fria de Bragança Miranda e os 46° no vale do Douro. É neste ambiente geográfico que se desenvolve uma ocupação humana concentrada em aldeias, vilas e cidades. Apesar de merecer um olhar atento sobre a excelente paisagem natural que tem para nos oferecer, devemos despertar para todas as belezas que esta cidade possui. Vale a pena percorrer as ruas da Cidade, onde se pode apreciar a unificação entre o passado e o presente. Condenada durante muitos anos ao isolamento conseguiu reunir condições dignas de admiração, com destaque para o seu imponente Castelo, construído no ponto mais alto da cidade velha é uma jóia preciosa com a sua “Torre de Menagem”, situada entre as paredes do Castelo que conta a lenda de bravos príncipes e de uma encantadora princesa. Próximo do Castelo está a Domus Municipalis, edifício pentagonal de construção românica, ex libris da cidade. Toda esta conjuntura, aliada à famosa hospitalidade característica dos seus habitantes, faz desta região um alvo turístico, com atracções variadas, e os jovens que chegam de todas as partes do país para estudar enchem a cidade de vida e cor. Bragança tem 800 anos de história, data do tempo dos Romanos. Com uma população de 30.000 pessoas cresce rapidamente. Este crescimento reflecte a expressão do IPB desde 120 estudantes em 1986 até ao momento presente em 5600 e com uma expectativa de expansão, de dentro de 3 anos, chegar aos 8000 estudantes.
De:Texto cedido pelo I.P.B.

PARQUE NATURAL DE MONTESINHO

No nordeste de Portugal, junto da fronteira com Espanha, em plena terra fria transmontana, situa se o Parque Natural de Montesinho integrando duas belíssimas serras: serra de Montesinho e serra da Corôa. O Parque Natural de Montesinho foi criado em 1979, sendo uma das maiores Áreas Protegidas de Portugal. A sua área é de cerca de 75.000 ha, com aproximadamente 8500 habitantes distribuídos por 89 aldeias. Esta área é caracterizada por um relevo suave de elevações arredondadas e vales profundamente encaixados, variando entre os 438 m e os 1481 m de altitude. O xisto é a rocha predominante, encontrando se ainda o granito, rochas ultra básicas e algumas manchas calcárias. A paisagem desta área é um exemplo pleno da integração do homem com o meio, resultando numa ocupação harmoniosa de todo o território. Para aqueles que apreciam as aldeias mais antigas ou o bucolismo do campo, a vida pastoril, os costumes mais pitorescos e os vestígios de uma arte antiga, uma visita a esta área protegida constitui uma fonte de emoção surpreendente. O Parque Natural de Montesinho é uma zona onde vive um povo acolhedor e sensível. Nas diversas aldeias de granito e xisto a vida decorre como outrora, quase comunitária. As famílias produzem elas mesmas o seu vinho, o seu presunto e o variado fumeiro que curam com o fumo da lareira. Estas são algumas das especialidades que se podem apreciar ao som da musica tradicional. A arte popular nesta região é uma constante. O artesanato revela se na produção de utensílios de trabalho e de entretenimento dando forma e consistência a uma infinidade de objectos, como as charruas, as máscaras, os cestos de verga, palha ou silva, as mantas e as tapeçarias de linho, entre outros. No domínio da gastronomia, designada como variada e original, salienta se na famosa cozinha desta zona a já afamada posta mirandesa, o diversificado fumeiro de alheiras, azedos, chouriças, salpicões e butelos acompanhados das cascas (vagens de feijão secas cozidas). Resultando desta abundância de fumeiro, por ocasião das festas pascais, o folar pão de ovos recheado de enchidos. Não esquecendo as saborosas trutas, bogas e o escalo, podemos certamente finalizar este sem número de iguarias com a doçaria tradicional de sonhos de abóbora, tartes de castanha, económicos ou súplicas. Uma viagem neste Parque Natural, no seio de um meio protegido, é certamente uma aventura excitante e plena de contrastes numa paisagem que se desdobra em serras e vales de cores que variam ao longo das estações de ano. Percorrendo este Parque Natural sente se o gosto da tranquilidade, da tradição e da vida rural autêntica.
De:Texto cedido pelo PN.M.

MUSEU ABADE DE BAÇA

Serviços Educativos: O Edifício D. João de Sousa Carvalho (1716 1737) reformou as instalações das antigas casas da mitra e edifício do Colégio de S. Pedro e, sob o episcopado de Frei Aleixo de Miranda Henriques, depois de meados do século, procedeu se a nova reforma no edifício, agora já paço episcopal. Com o advento da República proporciona se a expropriação do mesmo em 1912 e o edifício passa para a tutela do estado, que promoverá novas campanhas de obras, as mais importantes nos finais da década de 30 e meados da de 90. A partir de 1915 o edifício passa a albergar o recém fundado Museu Regional de Obras de Arte, Peças Arqueológicas e Numismática de Bragança que, a partir de 1935, aquando da jubilação do Abade de Baçal, o passa a ter como patrono. Uma visita às colecções Inicia se o percurso museológico pela sala 1, inteiramente dedicada ao distrito: mostram se a bula de fundação da diocese de Miranda, forais manuelinos, varas de vereação e de justiça, pelourinhos e artefactos judiciais, medidas padrão quinhentistas para líquidos e sólidos, além de trabalhos de artesania em ferro forjado batentes, puxadores, braseiros, cataventos e trasfogueiro , a par de aspectos paisagísticos da cidade e região, e de costumes e produtos típicos locais. Na sala 2 estão presentes artefactos das sociedades recolectoras e metalúrgicas da região: estelas com decoração variada, vasos e fragmentos cerâmicos, pontas de seta, alabardas, machados, fíbulas e outros objectos dos períodos pré e proto históricos. A romanização da zona de influência do museu está representada, na sala 3, por colecções variadas de estelas funerárias, aras, árulas, marcos miliários, instrumentos agrícolas, cerâmicas, objectos de adorno e numismática romana. Na sala oposta funcionam os Serviços Educativos e a articulação entre estas salas efectua se através da sala multimédia onde podemos visionar um videograma sobre o Nordeste Transmontano em que se revela a sua riqueza histórica e patrimonial. Presentes, ainda, dois óleos e um bronze relativos ao Abade de Baçal e a Raul Teixeira. No 2° piso já, a sala 4 corresponde à antiga capela do Paço Episcopal. Salientamos o tecto prospéctico setecentista com as armas de frei Aleixo ao centro e, ligado à solenidade da liturgia, duas casulas (sécs. XVII/XVIII), um raro pluvial quinhentista e três excelentes esculturas barrocas. Na sala 5, legado pelo coronel Barbosa Ramires, são mostrados 4 conjuntos significativos de numismática nacional e duas arcas dos sécs. XV111/XIX. A sala 6 é dedicada ao importante legado Sá Vargas, aqui representado por parte da colecção de ourivesaria, com espécies dos sécs. XVIII e XIX. Excelente, ainda, é o contador indo português seiscentista. Na sala 7, de arte sacra, salientam se, de entre as várias espécies de pintura e escultura dos sécs. XVII e XVIII, a Virgem com o Menino, quatrocentista, e o tríptico Martírio de Santo Inácio (ca. 1560) atribuído a Pedro de França. Na sala seguinte expõe se, com maior ênfase, a colecção de prataria ao serviço dos prelados, revelando nos a magnificência e riqueza material do culto religioso. A sala 9, também dedicada à memória do antigo Paço Episcopal, reúne importantes testemunhos de arte sacra: individualizemos a Arca dos Santos óleos, a Anunciação, a cama indo portuguesa, os marfins, os doze bustos relicário e o tecto de caixotões (48), ambos seiscentistas. Depois de concluídas as actuais obras de remodelação passarão a estar disponíveis ao público mais 4 salas: da sala 10 salientamos a excelente qualidade da papeleira de batente setecentista em madeira policromada e a sala 11, lateral, irá revelar nos um núcleo representativo da colecção Cagigal de faiança produzida em Viana (Darque), Miragaia, Gaia, Coimbra e Rato; na sala 12 apresentar se á Pintura e Desenho em três núcleos: um expressivo conjunto de pintura de diversos autores da 1ª metade de 900, um núcleo de óleos de Abel Salazar e, em rotação periódica, originais de Almada Negreiros onde a fábula e os mitos clássicos definem a temática central das obras e a última sala é dedicada a exposições temporárias, em articulação com a do 1° piso.
De: João M. Neto Jacob


FORMAS DE COMUNITARISMO

Falar em comunitarismo implica necessariamente referir as instituições locais, os espaços e as estruturas de utilização de todo o povo, mas também hábitos e modos de viver, conviver e trabalhar característicos de certas comunidades, enquadradas nos contexto sóciocultural de uma região, formas de relacionamento instituído entre os vizinhos e de ajuda mútua. Aqui referiremos, ao de leve, da instituição comunitária por excelência, o conselho, de espaços e recursos aos quais todos têm o direito de usufruir, os lameiros e os coutos do povo, de estruturas de utilização pública, como os moinhos, a forja e o lagar. Das formas de organização do trabalho, de aproveitamento da terra e dos recursos naturais comuns a todo o povo, os processos de cultivo, de amanho da terra e de apascento e de reprodução do gado. De fora ficarão outras facetas igualmente de cariz comunitário, por manifesta falta de tempo e de oportunidade, como as festas, refeições e convívios tradicionais comunitários que ocorrem todos os anos, no início ou no final dos diferentes ciclos da vida agrária, no Ano Novo, nos solstícios (do Inverno, cujos rituais se tornam mais necessários e urgentes, porque também o momento crítico é mais acentuado), na Primavera ou no Outono, nas sementeiras e nas colheitas. “Há na povoação de Rio de Onor campinas assás grandes, cobertas de mato, que não pertencem individualmente a ninguém, mas sim a todo o povo, que em comum as explora para pascigo dos gados e aproveitamento de lenhas e no fim de alguns anos, por tantos reclamarem a sua fraca produtividade, para a cultura do centeio” (1). O Abade de Baça] pode pecar aqui por omissão, por referir apenas uma parte do terreno comunal de Rio de Onor, o mato e omitir os coutos, ou seja, os lameiros, a parte mais valiosa para a economia da aldeia. Caberá mais tarde ao eminente etnólogo Jorge Dias a tarefa de estudar em profundidade esta pequena comunidade dos confins do Nordeste, considerando a como “o caso mais típico de organização comunitária em Portugal”, sendo mesmo de crer que “não haja hoje nenhuma comunidade peninsular onde esta antiga organização se apresente tão perfeita e vigorosa “. (2). Este vigor organizativo detectado por Jorge Dias há mais de 40 anos manteve se, na sua sua essência, até aos nossos dias, por força do fenómeno que J. Pais de Brito designou de “efeito Rio de Onor”, a saber, a consciência colectiva deste povo sobre si próprio, perante a mediatização de que foram alvo as suas especificidades, práticas e rituais, convertida numa “complexa projecção reflectida de imagens sobre a aldeia, que esta incorpora e em que se revê como num espelho” (3) e que nos leva a pensar até que ponto é que toda esta divulgação biográfica contribuiu para a conservação do seu “status” antropológico. Estas práticas e formas de organização não são um exclusivo de Rio de Onor. Umas ou outras, com maior ou menor competência e formalidade, existem em quase todas as aldeias deste rincão norte do distrito de Bragança. O comunitarismo foi e continua a ser um “modus vivendi” de toda esta região, como uma forma tradicional e arcaica, mas eficaz, de organização de pequenas comunidades agrárias, nas questões que respeitam a todos ou que, por definição ou tradição pertencem a todo o povo construção ou manutenção das obras do povo, distribuição de bens e serventias públicas, resolução dos problemas locais, aplicação de uma certa “justiça” em casos simples e de fácil solução, distribuição de tarefas que a todos dizem respeito, tomadas de decisão sobre assuntos que interessam a toda a comunidade, diferentes formas de ajuda mútua entre vizinhos nos trabalhos agrícolas ou domésticos. Como vestígios desta forma de organização social, a nível de aldeia, pequena comunidade, mas não a nível de freguesia, referimos práticas, instituições e festividades ainda vigentes, tais como o conselho do povo, os moinhos, as forjas, os lagares, os troncos, os prados comunais, as vezeiras, as boiadas e os rebanhos do povo. Encontramos também a chamada tornajeira, como forma de ajuda mútua entre vizinhos e parentes. Estes são exemplos característicos do quotidiano de uma aldeia que testemunham um certo modo de viver, conviver e trabalhar próprio das regiões de povoamento concentrado, com uma economia fechada em que toda a comunidade como que se auto abastece, por via do isolamento geográfico e das dificuldades de circulação das pessoas e bens e dos serviços que era forçoso adquirir. Se bem que todas estas condições, que estão na base de diferentes formas de comunitarismo, se tenham profundamente alterado, por uma questão de necessidade real sentida pelas pessoas ou por mera questão de manter a tradição, muitas destas formas se mantêm ainda hoje. Por outro lado, muitas outras desapareceram por simplesmente deixarem de ser feitos determinados trabalhos aos quais se destinavam. Todas estas formas comunitárias de organização local surgem, portanto, para fazer face à necessidade da própria sobrevivência da comunidade, nas questões de solução mais imediata, primária e vital, de modo a evitar o auxílio exterior, por vezes longínquo e dificultoso, como forma de autodefesa e de protecção mútua, perante as agressões externas (naturais, sociais ou administrativas), obtendo se como resultado a criação de uma vida muito própria em cada comunidade. Cada uma destas mesmas formas de organização contém em si e desenvolve, a seu modo, mecanismos de auto regulação e de equilíbrio social. Na verdade, as normas que conduzem a certos procedimentos, são endógenas, criadas e aceites por todos ou simplesmente oriundas da tradição que ninguém contesta. A tradição é também algo que lhes pertence. A tendência para o equilíbrio social é mantida pelo conjunto de bens e serventias aos quais todos têm acesso, como que a conferir uma certa igualdade de oportunidades, e anulando as grandes diferenças sociais. O Conselho Instituição secular, o conselho sobreviveu a todas as reformas administrativas e a todas as mudanças sociais. Pudemos constatar a sua existência e funcionamento na esmagadora maioria das aldeias de Bragança, salvaguardando, obviamente, as especificidades de cada uma quanto ao seu `modus faciendi’. “Os homens do povo façam favor de parar onde é que são usos e costumes!” diz o presidente da Junta de Freguesia no final da missa de domingo, expressão herdada dos antigos regedores da terra, que é neste caso, Varge, a norte de Bragança e a caminho de Rio de Onor. Esta expressão corresponde a uma ordem que a autoridade local utiliza sempre que queira convocar o conselho ou, por outra, o povo. Em sentido lato, conselho compreende a totalidade dos vizinhos da aldeia, sendo muitas vezes sinónimo de `povo’. Em sentido mais restrito, poderá significar apenas os representantes de cada uma das famílias do lugar (normalmente o homem, o chefe de família). Noutros casos, ou seja, “na sua dimensão mais restrita, o conselho é formado pelas casas (ou vizinhos) que possuem vacas que integram a boiada e que, por isso, usufruem dos pastos produzidos nos lameiros comunais ou `coutos’ (4). Neste caso (Rio de Onor), só estes tomam lugar no conselho. Segundo Jorge Dias, “a acção do conselho é importantíssima em toda a vida da comunidade e, não só regula as actividades quotidianas e tradicionais, corno resolve muitos casos acidentais e, por vezes, inéditos” (5). Em Rio de Onor o conselho decide da aplicação da `justiça’ aos infractores das normas locais instituídas pela comunidade e da execução de penas ou multas. Resumem se as funções do conselho em propôr soluções, quer seja em termos de normas gerais a aplicar, quer seja em casos concretos a que urge dar andamento; tomar deliberações de interesse colectivo; gerir os espaços produtivos comunitários, os lameiros comunais (coutos), os terrenos mais férteis da aldeia; dirimir conflitos entre vizinhos . Por estas funções e competências, “o conselho é a instituição de cúpula da vida da aldeia, a instância em que esta se corporifica” (6). Pela nossa parte, poderemos afirmar que o conselho do povo é a instituição comunitária por excelência, uma vez que regula e permite o funcionamento de todas as outras: os espaços de utilização comunitária, as infraestruturas, a distribuição de tarefas, bens e serviços pelos vizinhos, fazendo normas e zelando pela sua aplicação e cumprimento integral. Algumas situações Em Guadramil o conselho retine, quando necessário, para tomar decisões; reúne também em determinados períodos do ano, para reparação ou limpeza das estruturas comunitárias: moinhos, forja, lagar (outrora), caminhos, represas e agueiras. No passado, década de 20, foi pela força da mão de obra do povo, devidamente gerida pelo conselho, e à custa dos lameiros comunitários que se construiu a casa da escola. Mais tarde, foi por decisão do conselho que se organizou a ajuda a prestar a um vizinho nas tarefas agrícolas de recolha do cereal: segada, acarrejo, malha, feno, tudo… Esse vizinho, Daniel Preto, que andava no contrabando, ao tempo da Guerra Civil de Espanha, fora preso pelos carabineiros no Verão de um desses anos de guerra. “Ia um de cada casa, ou dois, conforme podiam, mas o trabalho não lhe ficou por fazer”. (Albano). Em Varge, o conselho reúne, em média, uma vez por mês, em determinados momentos cíclicos do ano e sempre que se justifique, quer seja para resolução de problemas pontuais e respectiva tomada de decisões, quer seja para executar determinadas tarefas relacionadas com a manutenção e conservação de estruturas comunitárias: moinhos, caminhos, limpeza da represa e dos canais de rega (antes do início do Verão). Estes dois tipos de reuniões, por ocuparem dias inteiros ou uma boa parte, são convocadas no dia anterior, à noite. Um toque no sino significa ajuntamento do povo, em local aprazado (ponte), para resolução de assuntos e tomada de decisões (nestas reuniões tomam parte só os homens); dois toques no sino significam conselho todo o dia para executar trabalho. Uma outra forma rápida de convocar o povo é a que se faz no fim da missa. O povo reúne no largo perto da igreja. São reuniões de emergência com a finalidade de prestar informações, avisos, editais, assuntos urgentes a que é preciso dar andamento… Há ainda uma reunião anual do conselho, pelo S. Sebastião, a 18 de Janeiro. Tem como finalidade a apresentação das contas ao povo: por parte da Junta de Freguesia, da Comissão Fabriqueira e das várias mordomias dos santos. Nas restantes aldeias da Lombada e, em geral, em toda a área do Parque Natural de Montesinho, o conselho mantém se como a instituição mais antiga dos sistemas comunitários, relegada agora para a realização de trabalhos comunitários nas infraestruturas do povo. São reuniões `ordinárias’, isto é, que se realizam em momentos cíclicos da vida destas sociedades agrárias, em número que depende da existência de mais ou menos estruturas ou bens comunitários que é necessário manter em boas condições de funcionamento ou produção. São também reuniões “extraordinárias” quando é necessário acorrer a situações imprevistas ou ocasionais (construção de edifícios públicos, recuperação de moinhos em ruínas, forjas, lagares… reconversão de algumas casas pertença do povo… ou `visitar as marras’, expressão utilizada em Babe para referir uma prática do conselho que acontece de tantos em tantos anos e que se destina a verificar se os marcos que dividem os termos de duas aldeias se encontram no sítio ou se eventualmente terão sido mudados. A coordenação do conselho, nomeadamente a sua convocação, a orientação dos trabalhos a realizar, a distribuição das tarefas pelos vizinhos, a moderação dos debates, na quase totalidade das aldeias que mantêm a instituição, pertence aos representantes do poder local, os presidentes de Junta de Freguesia ou, na falta destes, aos membros da junta que os substituem. É o caso das aldeias anexas das freguesias. O caso de Rio de Onor, continua a revelar se `sui generis’. São dois mordomos que, através de eleição ou de nomeação rotativa, se responsabilizam pela condução dos assuntos do conselho, nomeadamente, convocar e orientar as reuniões, orientar os diferentes trabalhos comunitários, as chamadas `rodas’ (a roda dos coutos e dos carretos). Têm como regalia, pelo facto de desempenharem este cargo, a dispensa de prestarem serviço com o seu carro e de contribuir com o seu trabalho no amanho dos coutos. As deliberações do conselho são hoje tomadas pelo consenso de todos os seus membros (tempos houve em que eram tomadas por votação secreta, funcionando, assim, o regime de maiorias). Gestão dos bens colectivos Todas as aldeias desta região do Nordeste Transmontano possuem equipamentos comunitários e algumas delas possuem bens fundiários. Uns e outros são geridos pelo conselho, no que toca à sua conservação, restauro e utilização. No caso da venda de bens colectivos, o que raramente acontece, a decisão é tomada pelo conselho. Foi referido já o caso de Guadramil que, na década de 20 (1923) se viu forçado a retalhar pelos vizinhos os quatro lameiros comunitários que possuíam, para que cada vizinho contribuísse com uma verba em dinheiro para a construção da escola.

Em Deilão mantêm se quatro lameiros comunitários, propriedade de todo o povo, onde todos podem apascentar o gado, quando quiserem. Não existe nenhum regime especial para a utilização destes lameiros. Desta feita, o produto a obter é simplesmente o pasto, não se extraindo deles o feno, já que estão todo o ano a ser utilizados como pastagem. Terá sido esta também uma decisão do conselho, embora tomada já há muitos anos. Contrariamente, em Varge, o único lameiro comunitário, a lameira, pertence a todo o povo, embora esteja afectado a um dos santos da terra, gerido pelo mordomo do santo e todos os anos, na reunião do conselho de 18 de Janeiro, é leiloado ao vizinho da aldeia que der mais. Neste caso, o produto da terra reverte a favor do santo. Jdêntico procedimento é adoptado com outras propriedades (terras) deste e de outros santos venerados na aldeia. Em Caravela existem os poços comunais, cuja serventia está permitida a todos os vizinhos. A gestão deste bem pertence ao conselho: sua limpeza, antes do período das regas, limpeza e arranjo das agueiras e coordenação da sua utilização pelos vizinhos. Os coutos, lameiros comunitários de Rio de Onor, constituem o que de melhor e mais produtivo possui a aldeia. A sua administração pertence igualmente ao conselho: controla os dias e períodos em que deve formar a boiada para ser levada a pastar; decide quando e que tipo de trabalhos neles se devem realizar no sentido da sua conservação nas melhores condições, a sua limpeza, o arranjo das agueiras e dos muros de vedação, conserto da represa do regadio… Outro espaço comunitário é o monte (referido pelo Abade de Baçal), terreno mais fraco mas que, em todo o caso não deixa de ter importância na economia da aldeia, dada a sua grande extensão. É igualmente objecto de intervenção por parte do conselho: decisão sobre as formas da sua utilização (pastagem, cultivo, extracção de lenha ou fabrico do carvão…); adopção de medidas de protecção face à natural tentativa de apropriação por parte de alguns particulares; e ainda a repartição dos recursos pelos vizinhos, nomeadamente das cepas que no passado foram uma matéria prima importante para o fabrico do carvão que, por sua vez, era considerável fonte de rendimento para toda a aldeia. A mesma situação se repetia, então, em Varge, aldeia vizinha, em que o monte (baldio) era utilizado por todos os que desejassem na extracção de cepas para o fabrico do carvão. Estruturas colectivas O moinho do povo, assim designado popularmente, subsiste ainda nestas terras de uma incipiente industrialização, como um fenómeno profundamente enraizado na vida do povo que o concebeu, o construiu e o mantém, sendo a resposta pronta às necessidades de aproveitamento da força da Mãe Natureza e às exigências da tradição e da cultura local, reflexo dos condicionalismos de localização e isolamento geográfico dos povos. Construção simples e rudimentar encerra em si toda uma experiência artesanal de gerações de gente rural, perfeitamente adaptada às potencialidades e ao trabalho do homem que a foi transmitindo tal como os seus antepassados a conceberam e executaram: quatro paredes toscas sem rebaco, telhado de lousa por onde trespassa a claridade da lua; “o granito e a lousa são matérias nobres no contexto material dos moinhos, tal como o cereal e a água” (7). No seu interior, todo o conjunto de engrenagens e de mecanismos rudimentares (que eu me dispenso de descrever, por todos a conhecerem) e que constitui um engenho “próprio de uma tecnologia primitiva e arcaica desenvolvida e expandida em todas as regiões do país” (8). O moinho assim concebido está ao serviço de todos e todos o utilizam seguindo uma ordem estabelecida pelo próprio conselho. Por exemplo, em Varge, se houver muita afluência, própria de determinados períodos do ano, cada vizinho toma a sua vez de moer pela mesma ordem que é seguida quando se faz e visita pascal (o compasso) que é exactamente a mesma de qualquer ronda festiva (festas dos rapazes ou peditórios). Não havendo grande procura, cada um reserva a sua vez no próprio moinho, deixando lá o saco do cereal que deseja moer. O saco toma o lugar do dono que vai moer de seguida. O mesmo princípio da rotatividade é aplicado em quase todas as aldeias. Num ou noutro caso não se aplica este princípio: quando os moinhos ficam a grande distância da aldeia, organizam se grupos de dois ou três vizinhos que por lá ficam dois dias e uma noite, ajudando se mutuamente e passando o tempo, até que todos terminem o trabalho. O arranjo dos moinhos está sempre a cargo do conselho. Em regra, convocam se dois dias por ano: um, por alturas de Setembro em que se faz a pica das pedras, se consertam os canais e as represas; outra, em meados do Inverno, para de novo picar as pedras. Mesmo hoje, em que o moinho não aquela procura constante dos tempos de outrora, o moinho continua a ter uma especial atenção por parte do povo e do seu conselho. Por isso, ao falar em costumes comunitários somos levados a considerá lo como o seu protótipo mais expressivo; “a forma de exploração do moinho representa um modo de vida social a que dá coesão um passado comunitário” (9). A forja, estrutura de apoio, à actividade agrícola, é outra das propriedades comunais ainda existentes nestas aldeias do Nordeste. No passado era utilizada pelo ferreiro, da terra ou de uma das aldeias vizinhas, a quem o conselho pagava uma avença anual, em cereal de trigo ou centeio. Cada vizinho pagava uma certa quantidade de cereal, em conformidade com o número de juntas de bois ou vacas que possuía (cada junta, um alqueire, cada vaca, no caso de ser sozinha na casa e de ter que trabalhar com a vaca do vizinho, meio alqueire). A recolha do cereal para o ferreiro era, nalgumas aldeias, feita pelo conselho que reunia para o efeito. Em Guadramil, num domingo de Agosto reunia se o povo. De porta em porta dava se volta à aldeia, recolhendo em cada casa o cereal que lhe competia. Juntava se todo o cereal na casa da confraria, para que o próprio ferreiro pudesse conferir e verificar as medidas. Ao fim do dia, a entrega do centeio era feita na própria casa do ferreiro, carregado às costas pelos rapazes mais valentes que assim tinham oportunidade de mostrar toda a sua força e valentia. “Era uma festa”. O ferreiro agradecia, dando de beber pão, vinho e bacalhau. (Albano). O procedimento actual nada tem a ver com esta tradição. Poucos ferreiros restam e quando algum existe na aldeia ou nas redondezas, cada um que precisa contrata directamente com ele o dia de trabalho e o pagamento a fazer. Ou, não havendo, ele próprio, com a ajuda do dizinho ou de um parente, valendo se dos conhecimentos de ferraria que possui, lá vai afando as enchadas, machadas, picaretas e relhas dos arados… Utilizando a forja do povo, mantida e conservada pelo conselho para estar ao serviço de todos. E neste particular se cumpre, ao menos, a tradição. O lagar, estrutura comunal, utilizado para prensar o bagaço para o fabrico da aguardente, está completamente desactivado em todas as aldeias que ainda o conservam. De utilização sazonal, pretendida simultaneamente por vários moradores, gerava, por vezes alguns conflitos de pequena monta, dado que nem sempre o conselho podia definir a ordem de utilização. `Escousar’ é a acção de tirar o 1° vinho da tina. Levava se então o bagaço ao lagar, nos próprios carros das uvas, para aí se extrair o `repiso’, isto é, o vinho que saía do bagaço, mais fraco do que o primeiro, o `lance’. Vejamos esta cena resultante do contexto referido. Vou a escousar! disse o capador.; Já disse, escouso eu e nada más! ripostou o ferreiro, com o intuito de arrumar a questão a seu favor. Voltou o capador para o sítio de onde viera e o assunto ficou resolvido. O palheiro comunitário de Montesinho era um espaço destinado à recolha do feno proveniente dos lameiros do povo. Aqui se guardava, por alturas da sega, até ao Inverno, altura em que, por imposição das nevadas, não podiam os gados sair para o monte. Era então distribuído pelos vizinhos, ao peso, em conformidade com o número de cabeças de gado que cada um tinha que alimentar. Hoje subsistem os lameiros comunitários e subsiste o palheiro transformado em espaço de utilização polivalente. Muitas destas obras do nosso património rural tiveram um final feliz: ou foram recuperadas e assim se conservam para quem as queira visitar, outras foram adaptadas e transformadas em pequenos museus etnográficos locais. A inter ajuda A tornajeira é, por certo, uma forma de ajuda mútua entre os membros das pequenas comunidades rurais, constituídas essencialmente por pequenos proprietários e lavradores. Não em comunidades constituídas maioritariamente por jornaleiros porque, sendo a torna-jeira uma permuta de trabalho, estes apenas poderão dar trabalho mas não recebê lo. A torna jeira aplica se nos grandes trabalhos sazonais cuja execução exige um elevado número de pessoas ou para determinados trabalhos pontuais de dimensões fora do comum, cujo pagamento é feito com a retribuição das mesmas tarefas. A par das restantes formas de comunitarismo, este tipo de ajuda mútua testemunha um certo modo de viver, conviver e trabalhar próprio das regiões de povoamento concentrado, com uma economia fechada em que a comunidade como que se auto abastece, por via do isolamento geográfico e das dificuldades de circulação das pessoas e bens e dos serviços que era forçoso adquirir. Se bem que todas estas condições, que estão na base das diferentes formas de comunitarismo, se tenham profundamente alterado, por uma questão de cultura e tradição muitas destas formas se mantêm ainda hoje, adaptadas às novas realidades sócio económicas; por outro lado, muitas outras simplesmente desapareceram por simplesmente deixarem de ser feitos determinados trabalhos aos quais se destinavam. Assim, a torna jeira desapareceu no contexto laborioso das ceifas e das malhas porque estas deixaram de ser feitas manualmente, para reaparecer no novo contexto das ceifas e debulhas mecânicas. Sendo certo que as máquinas não trabalham sozinhas e que é sempre necessário algum pessoal de apoio, “eu vou ajudarte hoje a fazer esse trabalho e tu vais amanhã para mim fazer o mesmo, quando a máquina for trabalhar nas minhas terras. Evito pagar jeiras e tenho sempre mão de obra disponível”. Será este o pensamento actual profundamente enraizado na tradição comunitária das nossas gentes. Contudo, outros contextos há em que a tradição da inter ajuda se mantêm intacta, porque ela se justifica cabalmente: nas vindimas, na cava das vinhas, nas matanças, apanha das batatas… Com ligeiras variações, é esta a conclusão que se pode verificar após a realização deste trabalho em algumas aldeias do concelho de Bragança, na área do Parque Natural de Montesinho. Muito pode ter mudado em termos de meios técnicos e modos de produção agrícolas. Mutatis mutandis, a tradição soube adaptar se às novas realidades, mantendo nas gentes bragançanas rurais o sentido da ajuda mútua nos trabalhos e do convívio comunitário nos momentos festivos, na consciência plena de que só assim se consegue, numa comunidade, o equilíbrio e o bem estar social.
De:António André Pinelo Tiza, Dr. Docente do Ensino Secundário e escritor

In iii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães – Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt

Preço: 30 euros

(C) 2005 Notícias do Douro

Artigos Relacionados

Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor desative o Ad Blocker neste site