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Freixo Espada Cinta

Freixo de Espada à Cinta

No “sombreado” nacional que é o nosso nordeste, o concelho de Freixo de Espada à Cinta é ainda relativamente uma “sombra” forte. É um concelho pequeno em área e em população, com uma interioridade muito vincada, encostado a Espanha e, ainda por cima, até há pouco obrigado pela natureza a estar fisicamente de costas voltadas para o nosso grande vizinho. De facto, a fronteira que o Douro constituía era muro e obstáculo pouco menos que inultrapassável; em Lagoaça e Fornos as arribas são cavadas a pique, sem itinerários nem veredas razoáveis e o rio, embora estreito era caudaloso, sem pontes nem vaus, o que impedia praticamente as ligações internacionais. Em Mazouco e na Vila, as margens perdiam um tanto da rudeza a montante, mas o Douro era mais largo e do lado espanhola aspereza da subida e a inexistência de itinerários para atingir o planalto desanimavam também intercâmbios e convivências. Hoje em dia, com o dique da barragem de Saucelle a servir de ponte e a estrada que a continua até Salamanca, as coisas mudaram muito e para melhor. Acresce ainda que o desenvolvimento económico espanhol e o consequente aumento de nível de vida trouxeram novas potencialidades à zona fronteiriça adjacente a Freixo, o que beneficia directa e indirectamente as populações raianas nacionais, pelo comércio que gera e porque facilita a vinda de castelhanos à vila e incentiva o acesso, através de Freixo, à grande e monumental cidade de Salamanca. Este incremento da possibilidade do “turismo de passagem” tem um grande valor potencial, pois facilita um conhecimento, embora rápido e ligeiro, dos valores locais do concelho de Freixo que decerto podem levar muita gente a “fixar se” ou, posteriormente, a uma permanência maior, que se não conteria na intenção inicial, nem sequer surgiria no espírito dos “passantes”. Entre aqueles “valores” contam se, por exemplo, os cruzeiros no Douro, do Porto a Barca d’Alva,que depois se podem continuar por terra para Salamanca, em Espanha, ou para Freixo, do lado português. Falando ainda em cruzeiros e “valores” locais, não pode deixar de evocarse a possibilidade de “subir” o Douro de Freixo a Lagoaça, em barcos de passageiros que as duas Câmaras ribeirinhas, Freixo e Vilvestre, em Espanha, puseram à disposição do público. Justifica se o dito: não pode deixar de evocar se essa possibilidade, pela excepcional beleza das arribas entre Freixo e Lagoaça que só aqueles cruzeiros permitem observar na totalidade. De facto, a vista das arribas “de cima”, isto é, dos miradouros dos Cimeiros ou Assomadas, é um espectáculo notável mas parcial, já que não há itinerários “longitudinais”, nem do lado português nem espanhol. E é pena porque uma estrada na encosta das arribas, desde Lagoaça, pelos termos de Fornos e Mazouco, a terminar em Freixo, permitiria um passeio único no país, em beleza, força telúrica e em ambiente repousante. A observação daqueles penedos a pique, de certas aves de rapina que ainda por lá nidificam e sobrevivem, dos touros bravos à solta na encosta espanhola, dos “patamares” de terra cultivada, com pomares de laranjeiras, pessegueiros e o célebre lódão bravo, são imagens que só do leito do rio se podem colher e nunca mais se esquecem. Tem se consciência do “sonho” que é o tal itinerário “longitudinal”… Se nem a estrada nacional 221, da Estação de Freixo a Barca d’Alva e Figueira de Castelo Rodrigo, vital para o concelho, pois é ela que o liga ao resto do país e ao mundo, se consegue que a ponham em razoáveis condições de trânsito, quanto mais conseguir aquele itinerário de valor local e talvez considerado um “luxo” e um “desperdício” por quem manda e decide do “valor” das coisas e progresso das regiões do interior… Também quando se diz “subir” o Douro de Freixo a Lagoaça é uma maneira de falar: é que o topo do dique da barragem em Freixo está ao nível da base do dique da barragem em Lagoaça; assim, a albufeira é como um grande lago parado, com a correnteza reduzida à descarga da água pelas turbinas a juzante. A valorizar ainda a vila em geral e em particular para os “amantes da água”, há a excelente praia fluvial da Congida, a piscina municipal adjacente, um pequeno parque de campismo, um restaurante e um bar, num conjunto propício a descanso, natação e desportos náuticos. As regiões valem pelo que são mas também pelo conhecimento generalizado que as pessoas têm desse valor. Não basta ter potencialidades e merecimento; é necessário que chegue ao “mundo” como beneficiar e atingir essas potencialidades e esses méritos. E neste aspecto, Freixo tem sido menosprezado e esquecido; para atrair e fixar turistas e habitantes há que lhes facilitar caminhos que os tragam e estradas que os cativem. Que o concelho tem paisagens maravilhosas, pontos de vista excelentes e capacidades para “entreter” visitantes não há dúvidas razoáveis, nem desmentidos sérios. Basta ter em conta quanto atrás se disse, a “força” das arribas de Lagoaça e Fornos a partir dos miradouros da Cruzinha e do Carrascalinho, com “lastras” e penedos de centenas de metros a pique, da encosta mais suave de Mazouco e do horizonte, a partir do célebre Penedo Durão, donde se pode alongar a vista pelos vinhedos e amendoais da “concha” de Freixo e da “aba” que a segue para Espanha, para se acreditar facilmente na excelência dos panoramas. Basta ter em conta os monumentos e curiosidades a merecerem visita no concelho, que adiante se pormenorizam, para evidenciar o interesse e as vantagens da visita e permanência dos turistas e o justo orgulho dos habitantes residentes. Tudo isto sem falar nos espectáculos periódicos como as amendoeiras em fins de Fevereiro, princípios de Março, Freixo tem o maior amendoal do país, as grandes e animadas festividades de meados de Agosto na vila e as romarias e procissões das festas anuais de Agosto e Setembro nas freguesias do concelho. As regiões e as terras valem pelo que são e pelo conhecimento das pessoas desse valor, como se disse. O concelho de Freixo vale pelo clima, pelo solo e pela sua gente. Quanto ao clima é curiosa a diversidade entre a zona planáltica, “terra fria”, e a zona do Douro e do curso final dos seus pequenos afluentes, a “terra quente”. A parte planáltica corresponde à zona alta das freguesias de Lagoaça e Fornos. É a continuação em Portugal da Meseta Ibérica que Castela a Velha e o nosso planalto fronteiriço constituem. Vista de longe, sem que a grande e estreita “fenda” do Douro seja perceptível, é evidente aquela continuidade de Espanha nos termos de Lagoaça e Fornos. Nessa zona alta, o clima é muito extremado, com Invernos rigorosos e verões quentes e secos, a que pode aplicar se o dito bragançano: “nove meses de Inverno e três de inferno”. As zonas ribeirinhas do Douro e seus pequenos afluentes podem considerar-se “mediterrânicas”, com clima e flora semelhantes, onde abundam e se distinguem os amendoais, os pomares de citrinos, vinhedos de “vinho generoso” e grandes manchas de oliveiras; como produtos “ricos”, davam ao concelho e às aldeias onde a terra quente tinha dimensão razoável um grande valor económico/financeiro. Nota se, assim, pelo que ao solo e ao clima respeita, uma região cerealífera e de pastagens no planalto que depois continua para Mogadouro e Miranda e uma zona de cultura e produções “mediterrânicas”, onde avultam as espécies já indicadas e o arvoredo da “terra quente”, como o sobreiro, nos terrenos de Mazouco, Freixo, Poiares e Ligares. Quanto ao terceiro elemento referido, as pessoas, a estrutura que vivifica o conjunto e elemento fundamental e decisivo dos “sistemas” culturais e produtivos, os naturais de Freixo têm mostrado a qualidade e a “força” interior de que são dotados, nas realizações locais, na capacidade de trabalho, na inteligência; em tudo os freixenistas evidenciam quanto valem e merecem. Por razões várias, a emigração tem sido uma constante da nossa gente e também a diáspora freixenista se tem afirmado pela positiva em África, na Europa, na América e na Ásia, resumindo, nas sete partidas do mundo. É decerto o concelho português onde o “missionarismo” teve maior destaque, com centenas de missionários que, a partir de Macau, se espalharam pelo Extremo Oriente, em especial por Malaca e Singapura. Quando se lamenta o menosprezo e o esquecimento do poder central, não se quer exercer o direito à indignação que andou na moda e nas bocas do mundo, nem parece desejável a invocação e o apelo a um espírito de humilde “vitimização” que não vai bem ao justo orgulho e à convicção do nosso valor, antes será, ao pedir o atendimento de certos pedidos e a solução de alguns problemas que nos afligem, lembrar que merecemos, não somos de segunda nem do lençol de baixo. Falou se de valores e de capacidades mas também se disse que não basta tê los; é preciso que se generalize o conhecimento desses valores e capacidades, que se atraíam ao concelho visitantes, investidores, realizações de vária ordem no campo cultural e produtivo. E aqui reside a grande limitação e o grande problema de Freixo. O concelho e a Vila não têm tido “entradas” nem “saídas”; não ficam em zona “aberta”, no caminho de quem siga para outros destinos e, na “passagem”, note as belezas, as virtudes, os méritos da região e os fixe para futuras estadas e regressos turísticos e outros. Quem vem de Moncorvo a caminho de Mogadouro, Miranda, Bragança ou Espanha, na raia dessas cidades ou vilas, segue e nem repara no desvio para Freixo. Ali (a Freixo) só vai quem dali é, ou tem expressamente que lá ir. A “entrada”, a partir daquele itinerário com saída para Espanha, Barca de Alva, Figueira de Castelo Rodrigo, Marofa e Guarda, ou vice versa, a entrada a partir dessas origens e saída para Norte ou para Moncorvo e Pocinho, é a estrada nacional 221 que liga a maior parte do concelho ao resto do país e ao mundo. Pois bem, todos os esforços das autoridades concelhias e as ajudas de amigos exteriores têm tido o mesmo resultado: a gaveta dos esquecidos, ou talvez pior, o cesto dos papéis velhos. Já esteve até marcado o início e o fim dos trabalhos por quem tinha a responsabilidade e a autoridade de os determinar e prometer, mas tudo ficou pela marcação e a única coisa que andou foi o tempo e foram os anos que passaram e deixaram tudo na mesma: uma estrada nacional (?) que não atrai utilizadores, desanima trânsitos e não pode recomendar se como chamamento para “visite Freixo” ou “venha conhecer nos que vale a pena”. E é pena, porque uma estrada atraente permitiria que no cruzamento se instalasse um quadro grande com destinos e distâncias, onde avultassem Freixo, Salamanca, Barca de Alva e até Lisboa; e pintassem alguns motivos e frases a aconselhar itinerários turísticos e monumentos a visitar. Não se apela, nestes considerandos, ao direito que nos assiste de exibir uma “indignação” justa e uma “vitimização” que comova quem pode e manda. Repete se: merecemos, não somos de segunda nem do lençol de baixo. O concelho de Freixo, além da sede, tem cinco aldeias: as freguesias de Fornos, Lagoaça, Ligares, Mazouco e Poiares.

Está situado no canto sudeste do Distrito de Bragança e confina com os concelhos de Torre de Moncorvo, Mogadouro e Figueira de Castelo Rodrigo; a leste termina no Douro internacional, a fronteira com Espanha. As aldeias foram indicadas por ordem alfabética; têm algumas características próprias que as individualizam em certos aspectos humanos, hábitos, tradições, pronúncias e urbanismo, sem deixarem de representar um conjunto harmónico e concelhio. O nome de Fornos deve vir de ali terem existido fornos de fundição de metais, pois os fornos de cozer pão seriam muitos e generalizados, não justificando a individualização de um lugar específico. De facto, há no termo de Fornos, a cerca de um quilómetro do povo, um sítio designado por “Escoira” que será corrupção popular de “escória”, isto é, resíduos de fundições, muito abundantes no local. Como a terra quente das suas arribas tem pouco solo arável, o mais característico e abundante do termo é a aptidão para o cereal, centeio particularmente e para a pastagem de ovelhas e cabras. A cultura de centeio há poucos anos atingia foros de epopeia, pelo esforço dos forneiros a semear tudo quanto fosse palmo de terra, onde um grão coubesse e enraízasse. A aldeia chegou a ter quase 900 habitantes em 1950, para descer, agora, para cerca de 300, na sua grande maioria idosos; a emigração, muito intensa, para o Brasil e França e, cá dentro, para os arredores do Porto e Aveiro, conduziu a essa situação, de resto generalizada a todo o concelho e a todo o interior do país. Como pontos a destacar, Fornos tem excelentes panoramas nas arribas, itinerários próprios para alpinistas e escaladores e ambiente aconselhável a amantes de uma natureza ainda pura e sem poluições. O património arquitectónico é exclusivamente ligado à Igreja e à Religião. Destaca se a Igreja Matriz, com um altar mor de grande valor artístico, considerado monumento nacional, as capelas da Senhora da Trena, junto ao cemitério, de Santo António, com um lindíssimo e trabalhado alpendre, a do Santo Cristo, ao cima da Rua Nova e por isso também chamada da Rua Nova; a capela de Santa Bárbara fica fora da povoação, na serrinha do mesmo nome, que denomina o povoado do lado noroeste e é o ponto mais elevado do termo, com 812 metros de altitude. Lagoaça é uma aldeia, grande e rica, pelo solo e pelo clima na “poça mediterrânica” do Douro, pelas culturas da parte planáltica e pelo número de habitantes que, como em todo o concelho, tem vindo a diminuir significativamente. Chegou a ter 1.600 almas, tendo hoje menos de metade, cerca de 600. Tal como em Fornos, o património arquitectónico está ligado ao religioso. Avultam nesse património: a Igreja Matriz, com cinco altares em talha e uma artística porta principal, a capela de Stº António, que data de 1646, as capelas da senhora da Lapa, do Senhor de Santa Cruz, de S. Sebastião e do Espírito Santo, de 1604. A atestar a importância de Lagoaça, registe se o grande número de solares, pois, segundo o Dr. Francisco Pintado, “nem a própria sede de concelho tem tantos solares corno Lagoaça”. Ligares é a freguesia mais a oeste do concelho, na fronteira quase com o concelho de Moncorvo. Merece uma visita a vários títulos; destacamos as construções em xisto nas residências antigas. Como escreve Francisco Pintado nas suas «Notas de Monografia», à”falta de granito, souberam os homens enobrecer o xisto. Foi uma compensação feliz de que resultou a aldeia de xisto trabalhado mais típica da região e que vale a pena visitar”. As produções com maior tradição têm sido o trigo, o centeio, o mel e a amêndoa, tendo ainda relevância o rendimento dos gados. O património arquitectónico é também de carácter religioso. A Igreja Matriz, devotada a S. João Baptista, tem cinco altares, todos em talha, tendo o altar mor um retábulo muito rico. Na capela de Santa Cruz há um retábulo barroco, sendo a imagem principal um Cristo majestoso. Existem ainda, dignas de registo, as capelas de Nossa Senhora da Conceição, de Santa Bárbara, da Senhora da Esperança, da Senhora das Dores, com uma imagem jacente da Senhora da Boa Morte e as do Espírito Santo e de S. Sebastião. Fora do povo, distinguem se as capelas de S. Martinho e de Santiago. A exemplo das outras freguesias, também Ligares foi afectada pela emigração. A população chegou a atingir 1200 habitantes em 1950. Mas é, agora, de apenas cerca de 600. A partir de Ligares, há vários itinerários turísticos que se recomendam a quem aprecia belas paisagens e uma natureza ainda não “profanada pelo progresso”. Mazouco já teve também a grafia de “Masouco”. É freguesia há bastantes anos, com clima de “terra quente”. Colhe no entanto trigo e centeio, mas também amêndoa, cerejas, figos, pêssegos e outras frutas. Tem fama o conhecido “cavalinho” ou “carneiro” de Mazouco, gravura rupestre que “está a olhar para um tesouro do outro lado da ribeira de Albagueira”. O rio Douro, em Mazouco, antes da barragem, a juzante, era de corrente mais suave; por isso havia na aldeia uma certa tradição de “peixeiros”, pois no rio a pesca compensava pela existência de barbos, bogas e muitas e apreciadas enguias. Entre o património da freguesia conta se a já citada figura rupestre do “cavalinho”, a “Franceia” (um antigo santuário?) e o castelo do Minzeranel, uma das atalaias da raia, hoje só um amontoado de pedras.

No património religioso, distingue se a Igreja Matriz, com três altares, sendo a figura predominante uma lindíssima imagem da senhora da Lapa, as capelas de Santana, de Santa Luzia e de S. João. Em Mazouco há ainda uma colecção de imagens antigas de grande valor. Poiares é a freguesia mais próxima da sede do concelho, com gente trabalhadora e convicta das suas capacidades, ouvindo se por vezes, embora em tom jocoso e ligeiro, que “um poiarês vale por vinte portugueses”. Há uma excepcional pintura rupestre na famosa calçada de Alpajares, documento pré histórico denominado “lontra de Alpajares”, ou “gato de Alpajares”, como outros lhe chamam. Encontra se numa gruta natural, “chapeada na testa de uma fraga” e representa os contornos de uma lontra, em cor ocre avermelhada. Note se que a lontra era um animal muito frequente na zona de Poiares, estando hoje praticamente extinta, admitindo se no entanto ainda a possibilidade, mesmo remota, de a recuperar. O património arquitectónico é, como no resto do concelho, de carácter religioso. A antiga Igreja Matriz tem como patrono S. Pedro, com quatro altares laterais e um central ou altar mor. A actual Igreja Matriz é “modernista” e dela diz o Dr. Francisco Pintado: “os poiarenses trocaram `Agnus Dei’ por distintivo em betão”. Há ainda várias capelas dignas de nota: capelas de Santa Cruz, Santa Bárbara, da Misericórdia, de S. Sebastião, com a espectacular imagem de um Cristo, S. Paulo, Nossa Senhora de Ávila e as ermidas do Caminho Novo e de S. Lourenço. Em Poiares há várias “curiosidades” que merecem e justificam observação e visita demorada. Quanto à população, evoluiu em conformidade com o restante do concelho: chegou a mais de 1.100 pessoas, tendo hoje cerca de 600. Deixaram se para final as referências à vila e as considerações aplicáveis a todo o concelho. A vila de Freixo de Espada à Cinta tem características rurais vincadas, propícias pelo clima e natureza do solo. Fica numa “poça” larga e fértil, a “fugir” para o vale, pela dimensão, mas nitidamente circundada por alturas dominantes em quase todo o perímetro daquela “poça mediterrânica”. Aquelas alturas que a rodeiam protegem na de ventos e fenómenos meteorológicos gravosos e fica-se a pensar que seriam de facto aquela fertilidade e a amenidade de clima as razões de os primeiros habitantes se fixarem ali. Nesse tempo, os factores relativos às condições de defesa eram a maioria das vezes determinantes da constituição dos aglomerados urbanos; percebe se que aqueles nossos antepassados se consideraram a coberto de ataques de surpresa, pelo rio, a sul e a leste; e pela distância, enorme para os alcances do armamento da época, a que ficavam aquelas elevações periféricas e dominantes. A emigração também se fez sentir na vila, embora compensada um pouco por alguma imigração a partir das freguesias do concelho. Este tinha 7.620 habitantes e na vila viviam 2.500 em 1950. Agora têm cerca de 4.500 e 2.200 respectivamente. Aliás o censo de 2001 dá 4.197 residentes no concelho, em contraste com os 4.914 de 1991. É um povoado muito antigo, constituído, inicialmente, por povos ibéricos pré romanos com posteriores interferências de romanos, visigodos, suevos e árabes. Recebeu o 1° foral em 1098 do Conde D. Henrique e D. Teresa, seguindo-se-lhes outros de D. Afonso Henriques, D. Dinis e D. Manuel, em 1512, o que evidencia a importância de Freixo já naquelas épocas. Freixo foi elevada a Vila por D. Sancho II, em 1236, como recompensa da defesa heróica dos freixenistas, aquando da invasão do rei de Leão. O nome de Freixo de Espada à Cinta é uma nota de curiosidade e uma excepção na toponímia portuguesa. Não se sabe de onde vem a “composição” dos “estranhos” termos, nem o que teria levado à ligação da árvore com a espada cingida. Há várias lendas, cada uma com o seu aspecto mais ou menos imaginativo e inocente. A mais falada e por isso talvez a menos razoável e verdadeira é a que atribui o nome à deposição da espada num freixo por D. Dinis, enquanto descansava à sombra refrescante da árvore. Mas também as que baseiam o topónimo no capitão godo de nome Espadacinta, ou Monte Espacinta, em Espanha, na outra margem do rio, não têm fundamento histórico aceitável. Aceite se o “bucólico” e curioso Freixo de Espada à Cinta, sem mais discussões e alvitres e sigamos. A história de Freixo é rica e a vila tem muitos monumentos e variados indícios dessa riqueza e da qualidade nobre do seu passado. O pelourinho, bonito e bem conservado, agora em frente do edifício da Câmara Municipal; a Torre Heptogonal, construída no tempo de D. Dinis, em granito e bem recuperada, é o vestígio último do grande castelo de Freixo. Destaque se a Sé, ou Igreja Matriz, em elegância interior, a lembrar a Igreja dos Jerónimos e o retábulo quinhentista com 16 quadros atribuídos a Grão Vasco; anote se a Igreja do Convento de S. Filipe Neri, de 1763 e a Igreja da Misericórdia. Não pode deixar se de dar relevo particular à capela de Nossa Senhora dos Montes Ermos, da especial devoção dos freixenistas e objecto de várias procissões anuais muito concorridas, e em honra da qual são as maiores festividades da vila. Também se quer salientar que as ruas de Freixo constituem um verdadeiro museu, com casas antigas em cantaria, de aspecto apalaçado. Diz se que é a vila mais manuelina do País, estilo que se nota em muitas construções, nas janelas, nos portais e nos monumentos. A recuperação da “arte da seda”, outrora uma grande produção de Freixo, está em curso com a ajuda da Câmara e o entusiasmo de muitas senhoras freixenistas. A vila de Freixo, além do já atrás citado, tem um património religioso notável. A igreja da Misericórdia, com a capela mor, de bom nível arquitectónico e talha muito rica e o corpo da Igreja, onde se destaca um pequeno nicho gótico e as capelas de Santo António, da Senhora dos Remédios e muitas outras e ainda os vários cruzeiros existentes, são marcos da riqueza e variedade monumental de Freixo. As procissões são muitas e os arraiais que se realizam evidenciam a fé e animam as diversas festividades, entre as quais avultam as de meados de Agosto, com uma dimensão e entusiasmo de assinalar.

É fácil ver, pelo resumo atrás, que Freixo tem muitos elementos de interesse para os visitantes, quer fixos quer permanentes, quer periódicos e em datas preestabelecidas. As épocas mais aconselháveis para o turismo são as correspondentes às amendoeiras em flor, em fins de Fevereiro, princípios de Março; o enterro do Entrudo, pelo Carnaval; a Feirinha, a 5 de Agosto; a festa da Senhora dos Montes Ermos, a 15 de Agosto, acontecimento maior dos festejos em Freixo de Espada à Cinta. Como indicação para os interessados em visitar o concelho com o mínimo de tempo e hesitações, transcrevem se os circuitos turísticos, sugeridos pelo Prof. Virgílio Tavares em «Conheça a Nossa Terra»: Circuito n.º 1: para quem vai de Mogadouro ou de Moncorvo, depois de passar Carviçais: Lagoaça Fornos Cruzamento junto da antiga estação de Freixo da CP Mazouco Freixo Poiares Quinta de Santiago Estrada do Candedo Calçada de Alpajares Barca de Alva. Circuito n° 2: para os que vêm do lado de Figueira de Castelo Rodrigo ou de Espanha: Barca de Alva Barragem de Saucelle Cruzamento de Freixo Poiares Congida Regresso a Freixo Mazouco Fornos Lagoaça. Circuito n ° 3: para os que entram pela estrada da Açoreira/ Maçores/ Urros, ou por Carvalhal/ Felgueiras/ Maçores: Ligares Quinta de Santiago Estrada de Candedo Calçada de Alpajares Barca de Alva Cruzamento de Freixo Quintas Mazouco Fornos Lagoaça. Há ainda uma variante a este circuito: Ligares Quinta de Santiago Poiares Cruzamento de Freixo Barragem de Saucelle Barca de Alva Calçada de Alpajares Estrada de Candedo Freixo Mazouco Quintas Fornos Lagoaça. Para além de monumentos e aspectos históricos, Freixo tem realizações e iniciativas que se julga útil registar como indicativas da dinâmica dos Presidentes de Câmara dos últimos anos e capacidade no que respeita à solução de problemas locais e se contêm no seu âmbito, como: o Hospital, Centro de Saúde, Biblioteca, Lar de Idosos, Mercado Municipal, Pavilhão Gimnodesportivo e um moderníssimo Auditório. Essa capacidade de realização local estende se também às freguesias, sendo de assinalar os progressos no campo do saneamento básico, arruamentos, itinerários rurais, tratamento de águas, etc. No caso de Fornos, por exemplo, citam se os novos edifícios da Junta de Freguesia e da Associação Cultural e Recreativa e o belo monumento a Nossa Senhora Auxiliadora, iniciativa do actual Presidente da Junta. Parece ainda justo referir, pelo seu significado e sentido de elevada compreensão dos valores Históricos e da Memória e Tradições do Concelho, o grande apoio e incentivo da Câmara Municipal sob a Presidência actual do Prof. Edgar Gata, à edição de obras literárias de autores do concelho ou de temas relativos ao mesmo e às suas gentes. Freixo tem sido berço de notáveis e ilustres cidadãos com obra feita e reclamada no concelho, em Portugal e no Mundo. Já se salientou o que tem sido a “vocação missionária” dos freixenistas, servida por centenas de missionários que levaram a fé, a cultura e o nome de Portugal e da sua Terra às sete partidas, em especial ao extremo Oriente. Podíamos referir nominalmente muitos daqueles cidadãos que deixaram nome e obra de vulto, mas entende se deixar estes valores concelhios só enunciados, já que a lista seria grande e anda transcrita em muitas obras editadas, enciclopédias e dicionários. Abre se uma excepção para citar o poeta Abílio Guerra Junqueiro, para não ferir com a omissão, o justo orgulho de Freixo, como berço de um nome cimeiro da cultura portuguesa. Intencionalmente, quer terminar se como se principiou. O Dr. Adão Silva escreveu no Mensageiro de Bragança, em apoio dos Freixenistas e lamentando o seu abandono pelo poder central: “Os Freixenistas não são bastardos de um deus menor”. Sem pôr de lado nem minimizar a condição divina de filhos do mesmo Deus que os seus compatriotas, lembra se e invoca se tudo quanto os Freixenistas deram a Portugal e ao Mundo em missionários, poetas, militares, navegadores e povo anónimo, num esforço agrícola de verdadeiros milagres nas encostas do seu concelho, não para chorar lágrimas que comovam quem manda e pode, mas para reivindicar o direito a um apoio atempado aos seus problemas, sem reservas nem regateios: merecemos, não somos de segunda, nem lembrando Torga do lençol de baixo.
Amadeu Ferreira, Coronel Pil. Aviador

In iii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães – Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt

Preço: 30 euros

(C) 2005 Notícias do Douro

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