Concelhos

Vinhais

TRADIÇÕES, ARTES, LENDAS

O Concelho de Vinhais situa se a norte da província de Trás-os Montes e Alto Douro, criada pela divisão administrativa de 1936. A Vila é protegida a Norte por um sistema de montanhas das quais ressaltam a Serra da Coroa e o relevo de Seixão. Aninhada aos pés da montanha da Cidadelha ou Ciradelha, é atravessada pela estrada nacional n.° 103 que liga as cidades de Chaves e Bragança, das quais dista, respectivamente, 60 e 30 quilómetros. É povoação muito antiga, anterior à monarquia portuguesa, e segundo alguns historiadores, já tinha Castelo antes de D. Sancho II a reconstruir e povoar no século XIII. Com o nome de Póvoa Rica até ao século XVI, foi baptizada posteriormente com o nome de Vinhais, em virtude dos frondosos e generosos Vinhedos que as soalheiras encostas mantinham, especialmente bordejando o Rio Tuela onde termina vicejante e produtivo vale que faz o regalo dos olhares para quem o observa da Vila, do outeiro de Santo António e da Ciradelha! O rio Tuela, que nasce ali perto da fronteira, em Espanha, tem uma importância vital para a vida do concelho, essencialmente de características agrícolas! Tal a importância, que mais adiante lhe dedicaremos o espaço que merece. O primeiro Foral foi lhe concedido por D. Afonso III em 1253, de que adiante faremos transcrição resumida. D. Dinis mandou fortificar a Vila devido à sua importante situação estratégica, à vista de Castela. E é da história que o burgo resistiu heroicamente a todas as investidas dos espanhois, nomeadamente em 1666; quando da Guerra da Restauração e ainda em 1921 quando do assédio dos monárquicos refugiados no país vizinho! Do velho Castelo pouco resta já, chamando se ainda Vila ao conjunto de casas existentes dentro das suas muralhas, com acesso por dois arcos ainda em perfeito estado. Disto falaremos adiante em capítulo especial. As temperaturas da região são as próprias das terras altas: acima dos 600 metros de altitude, variando um pouco consoante se trate de planalto como a Lombada, ou junto dos rios ou riachos. Na generalidade abundam as chuvas e a neve e o Verão é um tanto aziago, podendo aplicar se o dito do povo que acha que “são nove meses de inverno e três de inferno”! A vegetação, em geral, é pouco frondosa, mas muito bela no tempo das florações: A urze de flor branca ou lilás; a esteva de flor branca que faz assemelhar, vista ao longe, mantos de neve; os lilazes brancos e roxos, as papoilas vermelhas, as cerejeiras, macieiras e pereiras floridas proporcionam pormenores de rara e estranha beleza; Quem visitar a região especialmente entre os meses de Abril e Outubro, cantará que “Vinhais vale sempre mais”! Aos pés da Vila situam se, em pleno vale, cinco Bairros onde moram cerca de metade dos habitantes da Vila: Bairro d’Além, Bairro do Eiró, Bairro do Campo, Bairro do Couço e Bairro do Carvalhal. Hoje já estão totalmente integrados na vida social da vila, pois foram abertas estradas asfaltadas entre sie com ligação à Vila. Na sua maioria são estes habitantes dos Bairros que cultivam o belo, rico e verdejante vale, que levou um poeta português contemporâneo a chamar lhe Sintra transmontana!

FESTAS E ROMARIAS

O Feriado Municipal é em 20 de Maio, data do 1° Foral concedido a Vinhais por D. Afonso III! mas as grandes festas do concelho são em 15 de Agosto, dia da sua Padroeira Nossa Senhora da Assunção! A Vila tem feiras mensais a 9 e 23 de cada mês e uma grande feira anual no primeiro Domingo do mês de Setembro, no recinto da Capela de Santo António, à vista da Vila, na estrada que leva a Bragança. A feira coincide com o dia da Romaria de Santo António, muito frequentada pelos inúmeros devotos de todo o concelho e dos concelhos limítrofes, que ali vão cumprir as suas promessas! No concelho há outras importantes Festas e Romarias: Na Sa da Assunção na Vila em 15 de Agosto; S. Tiago de Ribas no segundo Domingo de Agosto em Edral; Na Sa da Alegria, também no segundo Domingo de Agosto, em Ouzilhão; Na Sa da Saúde, no último Domingo de Agosto, em Vale de Janeiro; Na Sa dos Remédios em 8 de Setembro, em Tuizelo; Senhor dos Aflitos no segundo Domingo de Agosto, em Paços de Lomba; Na Sa do Carmo nos dias 19 e 20 de Agosto, na Moimenta: S. Venâncio em 18 de Maio e N.ª S.ª da Penha de França em 15 e 16 de Agosto, em Rebordelo; N.ª Sr.ª dos Remédios em Nunes, em 15 de Agosto; Há ainda Feiras na Moimenta, em Vilar Seco e Rebordelo.

EDUCAÇÃO E CULTURA

Até aos anos sessenta, os jovens que pretendessem estudar, teriam que se deslocar para as cidades de Bragança ou Chaves, onde existiam escolas secundárias de nível liceal e técnico. Em finais dos anos cinquenta, princípios de sessenta, começou a “revolução” escolar, criando se, inicialmente as Escolas do Ciclo Preparatótio 5.° e 6.° anos que passou e ser o tempo de escolaridade obrigatória! Vinhais foi então contemplada e os seus jóvens avançaram um pouco na sua escolaridade; no início dos anos setenta, começou a avançar se na criação de escolas secundárias que beneficiaram, em princípio, quase todas as cidades e algumas vilas de grande população! Finalmente Vinhais teve a sua Escola Secundária e hoje os jóvens do concelho podem sair de suas casas directamente para as Universidades ou Institutos Superiores. Uma palavra especial para o Seminário de Vinhais, que durante cinquenta anos foi o escape dos jóvens do concelho e que, antes como agora com o Colégio de Na Sa da Encarnação, prestaram tantos e tais serviços ao concelho que mereciam e merecem o reconhecimanto das populações e nomeadamente das entidades oficiais! Quanto à cultura, émais difícil beneficiar dos grandes eventos como bons teatros, óperas e até bons filmes! Mas a cultura regional tem sido defendida e as danças e cantares, os jogos tradicionais, os usos e costumes do Natal, da Páscoa, dos Reis, a manutenção dos “caretos” e “máscaras” que em outro local descrevemos, fazem parte de uma cultura herdada dos antepassados que merece a atenção das autarquias locais. A Música também ocupa muitos jóvens quer através da banda existente e do famoso grupo de Bombos, quer de grupos musicais por eles criados! No capítulo do desporto, existem em Vinhais e em Rebordelo clubes de futebol federado, com as necessárias escolas e em outras aldeias começa se a praticar a modalidade com a ajuda das autarquias do concelho. Mas pratica se a natação tendo a Vila um excelente conjunto de piscinas, o atletismo, e outras modalidades amadoras que movimentam centenas de jovens!

FRONTEIRAS E LIGAÇÕES

O concelho tem largos quilómetros de fronteira com Espanha e a maioria das populações dos povoados fronteiriços sempre tiveram uma ligação estreita com os povos espanhóis, atravessando a fronteira em qualquer lugar, visto que os portugueses têm propriedades do lado espanhol e, da mesma forma os espanhois tem terrenos em Portugal. E, o que é mais interessante, é que se realizam casamentos de homens portugueses com mulheres espanholas e vice versa. Mas falando de percursos legais no concelho há uma ligação oficial, através da fronteira da Moimenta, havendo agora uma estrada asfaltada entre Vinhais e aquela fronteira. Aliás o concelho caminha para oferecer boas estradas para as freguesias e, sobretudo, nas ligações com Bragança e Chaves e ainda com ligação à estrada da serra de Nogueira que conduz a Macedo de Cavaleiros, Valpaços e Mirandela e ao Itinerário Principal IP4 que nos leva ao Porto e ao Sul.
MUITA TERRA E POUCA GENTE! O concelho abrange cerca de 705 quilómetros quadrados de montanhas e valiosos vales, sendo a sua população bastante diminuta e com tendência a diminuir cada vez mais por tres motivos essenciais: o desemprego motivado por falta de estruturas industriais; o consequente surto de emigração e ainda os planeamentos familiares! Para podermos comparar, vejamos o seguinte mapa, que é significativo:

Nome da freguesia Censos de 2001 Censos de 1991 Variação
Agrochão 292 373 21.7
Alvaredos 80 117 31.6
Candedo 399 525 24.0
Celas 366 470 22.1
Curopos 277 340 18.5
Edral 265 314 15.6
Edrosa 180 258 30.2
Ervedosa 446 645 30.9
Fresulfe 100 151 33.8
Mofreita 44 97 54.6
Moimenta 183 249 26.5
Montouto 140 201 30.3
Nunes 189 208 09.1
Ousilhão 134 194 30.9
Paçó 238 255 06.7
Penhas Juntas 264 382 30.9
Pinheiro Novo 127 170 25.3
Quiraz 224 337 33.5
Rebordelo 673 828 18.7
Santa Cruz 072 103 30.1
Santalha 312 447 30.2
São Jumil 061 088 30.7
Sobreiró 403 446 09.6
Soeira 114 148 23.0
Travanca 118 150 21.3
Tuizelo 504 617 18.3
Vale das Fontes 431 522 17.4
Vale de Janeiro 153 180 15.0
Vila Boa 199 201 01.0
Vila Verde 242 281 13.9
Vilar de Lomba 205 236 13.1
Vilar de Ossos 345 431 20.0
Vilar de Peregrinos 168 234 28.2
Vilar Seco de Lomba 290 357 18.8
Vinhais 2 394 2 172 + 10.2
TOTAIS 10 632 12 727 16.5

PATRIMÓNIO HISTÓRICO E ARQUEOLÓGICO

CONVENTO DE S. FRANCISCO: Vasto Templo e ampla construção conventual, apresenta as características arquitectónicas dos séculos XVII e XVIII, tendo sido erigido em 1752 e extinto em 1834. É o maior templo de Vinhais, possuindo ricas decoraçãoes de talha dourada. Na fachada, corrida, abrem se janelões gradeados, emoldurados de granito,com decoração joanina. Elegantes pináculos rematam as cornijas, sobre as quais se levantam os frontões. A Igreja possui um campanário parietal coroado por ânforas. O beiral é rematado por coruchéus! Foram os missionários do Convento do Varatojo que, pregando pelo País, encontraram em Vinhais o local para ficar e fundar um Seminário. D. João V e o Bispo de Miranda autorizaram a construção e no dia 6 de Janeiro de 1752 lançou se a primeira pedra. Ao longo dos 80 anos de serviço do Convento de S. Francisco de Vinhais ou Seminário de Nossa Senhora da Encarnação, formaram se muitos Religiosos de relevo, como Frei António de Jesus, figura importante da história eclesiástica de Portugal! O ano de 1834 e as lutas entre Miguelistas e e liberais trouxeram a perseguição e o exílio aos discípulos de S. Francisco. Os seus bens foram confiscados e a Biblioteca roubada e incendiada. Posteriormente o convento serviu para alojar Repartições Públicas e Quartel de detacamento militar. Em 1920 passou a funcionar como Seminário Menor para os anos do Ciclo Preparatório, funções que ainda mantém!
CONVENTO DAS CLARISSAS: Em Vinhais existiu ainda um Convento de Freiras Clarissas, fundado entre 1580 e 1587 e que chegou a albergar 112 religiosas. Foi fechado em 1789 e o edifício foi adaptado,parte a Câmara Municipal, parte a particulares e a Igreja à Misericórdia. Esta Igreja possui imagens de primorosa escultura, telas de grande valor compreendendo uma cópia da “Virgem de Murillo” e um riquíssimo coro!
IGREJA DE S. FECUNDO: A Igreja de S. Fecundo ao redor da qual se construíu o Cemitério Municipal, tornando a conhecida por Igreja do cemitério, é uma construção Medieval de tres corpos, sendo o central mais avançado. Os corpos laterais são rematados por duas grandes aberturas em arcos redondos, onde primitivamente estavam colocados os sinos. A porta principal tem um arco já ligeiramente ogivado. Na fachada admiram se ainda grosseiras insculturas representando Santos da iconografia Cristã.
IGREJA DE N.ª S.ª DA ASSUNÇÃO: A Vila conserva várias capelas antigas, entre elas antigas igrejas de paróquias extintas. A Igreja de Na Sa da Assunção é notável! É um templo de uma só nave e arquitectura simples. Não tem Torre, mas campanário triangular com dois grandes sinos e um deles com relógio.
PELOURINHO: O Pelourinho, ergue se sobre uma base exagonal de quatro degraus de granito e com fuste octogonal. O Capitel é ornado pelo escudo nacional e dele faz parte uma cruz cujos braços terminam por cabeças de serpente ladeadas de florões. Encima o conjunto uma esfera armilar. Situado num pequeno largo da chamada Vila, dentro das muralhas, encontra se em razoável estado, mas envergonhado do descuido a que foi lançada a zona histórica que o rodeia!
PONTE DA RAUCA: Com três arcos, construída em pedra talhada de granito pelos romanos, o povo chama lhe “Ponte d’Arranca” talvez porque, a partir dali, quer para um lado, quer para o outro, surgem caminhos bastante íngremes! O concelho é fértil em pontes de certa importância, sabido que há muitos curos de água entre as várias montanhas. Além das que encontramos na estrada nacional 103, a maioria delas construídas com a própria estrada, destaca se a ponte de Cabanelas, na estrada que leva ao Pinheiro, construída em tempos imemoriais com pedra lascada que abunda naquela região;
CASAS BRASONADAS: Mas o concelho é terra de grande património como se diz no número seis de “Terras de Portugal” sendo, por isso,” lugar de visita obrigatória”! De facto, abundam em todo o concelho os solares brasonados e apalaçados, de que destacamos: O Palácio dos Condes de Vinhais que após a morte dos titulares foi adquirido pela Câmara Municipal que parece ter apreciável projecto para a sua preservação e utilização; é dos mais belos palácios da província! A Casa da Corujeira, igualmente brasonada na posse da família Morais Campilho;A Casa do Eiró ainda com brasão de armas mas que de momento está um tanto mal tratada; Palácio s dos Morgados de Rio de Fornos, na povoação do mesmo nome também brasonado e na posse da Igreja por legado do último Morgado ao seminário. O legado incluia a cláusula de frequência de jóvens da povoação gratuitamente naquele seminário, até à formação de presbíteros! Ainda a Casa brasonada do Arrabalde e, ao lado, o palácio com brasão conhecido por Casa de “Zé Raimundo”; Muitos outros Solares como a Casa da Vila, a Casa da Família Martins no caminho do Bairro do Couço; e neste Bairro a Casa dos Barreiras; A Casa das Ameias suportada por uma das muralhas e pertença da família de Assis Gonçalves; a Casa dos Cacarras, em estilo de rendilhados na Rua dos Frades, hoje pertença de Ilídio Garcia; A Casa da antiga Câmara de Vilar Seco ete.

ANTIGAS VILAS

Tres povoações, ou possivelmente mais, foram antigas Vilas, sedes de concelho e tiveram os seus Forais:

VILAR SECO teve forais de D. Dinis, datados o primeiro de 1 de Fevereiro de 1311 e o segundo de 22 de Agosto de 1324; teve um terceiro foral concedido por D. Manuel 1 em 4 de Maio de 1512. Além da casa da Câmara, resta em bom estado o Pelourinho com uma coluna em pedra de granito, com quatro degraus em forma circular sobre os quais se ergue o fuste com 3,5 metros, que termina em carantonhas, tendo por cima destas, quatro braços terminados em cabeças de serpente e como topo final uma esfera. Diz se ser um conjunto único no distrito de Bragança.

ERVEDOSA: Esta antiga Vila, recebeu o primeiro foral de D. Dinis em 1288 e foi renovado em 1514 por D. Manuel. O Pelourinho é formado por uma coluna octogonal assente numa base circular com vários degraus. O capitel, trapezoidal, é encimado por uma esfera.

PAÇÓ (S. Julião): O Pelourinho de S. Julão de Paçó, assenta sobre cinco degraus em granito, com fuste encimado por figuras que suportam uma esfera, terminando por urna cruz.

SANTALHA: Documentos pouco claros indicam que terá recebido forais, mas o autor nada pode adiantar.Também do pelourinho não há conhecimento da sua existência.

MOINHOS, FORNOS, ADEGAS, FONTANÁRIOS

O concelho é fértil em Moinhos de água como ao longo do Tuela e nomeadamente em Moimenta ,Vila Verde e Vinhais; Fornos de Cal nomeadamente na zona da povoação de Dine; Adegas comunitárias como em S. Jumil; Fontes de mergulho que estão a merecer a atenção da CM, em Ouzilhão e Vila Boa; e Fontanários artísticos como o da Moimenta, de Vinhais, Rebordelo, Vale de Janeiro e na Lombada.

OUTROS MONUMENTOS

Seria estultícia tentar revelar todos os pequenos monumentos existentes no concelho. mas citaremos: as Igrejas de Moimenta, de Rio de Fornos e de Vilar de Ossos; A Igreja fortificada de Vale de Janeiro; A Anta “montão de Terra” em Paçó; Dólmenes na freguesia de Pinheiro Novo; Castros em Santa Cruz, na antiga vila de Santalha, em Vale de Janeiro, na aldeia de Castro e na Moimenta, a Igreja e pelourinho de Paçó, etc.

ÁRVORES DE INTERESSE PÚBLICO

O concelho de Vinhais, mau grado a sua situação geográfica na zona da Terra Fria, tem uma série de árvores a arbustos invejável, sobretudo castanheiros, nogueiras, carvalhos e outros que citamos noutra página. Alguns castanheiros e nogueiras atingem tal porte que é interessante preservá las. Assim se fez e segundo o Aviso publicado no Diário da República, 2ª Série de 11 de Julho de 2001, foram classificadas como “árvores de interesse público” um Castanheiro (Castanea sativa Miller), existente no Alto dos Malhões, à entrada da povoação de Quintela, freguesia de Paçó que tem de perímetro um metro e trinta centímetros, de altura do solo de 10,80 metros e uma altura total de 19,50 metros com um diâmetro de copa de 22 metros; Da mesma forma uma Nogueira (Juglans régia L.) existente na mesma povoação, com um perímetro de 7,60 metros e uma altura de 13,70 metros foi considerada, segundo o mesmo D.R., de interesse público.

SAÚDE PÚBLICA

A Vila de Vinhais possui um pequeno Hospital e outros serviços de saúde, capazes de, em termos normais, satisfazer as exigências do concelho. As grandes dificuldades resultam das distâncias a que se situam uma grande maioria das aldeias, algumas a mais de 30 quilómetros e ainda das dificuldades de transportes, porquanto não existe qualquer rede normal de transportes para 60% das freguesias!

CASTELO DE VINHAIS FORTALEZA DE GUERRA

Construida à volta de um proeminente cabeço de uma pequena elevação de terreno, na ordem dos 650 metros de altitude, formando no seu conjunto uma circunferência irregular, certamente para melhor aproveitamento do local, que do lado sul e nascente tem um declive bastante sinuoso e do lado norte e poente pouco inclinado. As muralhas, torres e castelo, foram construidos com os inertes de alvenaria, areia, barro e cal, abarcando um perímetro de 550 passos, tendo sete torres de razoável altura, sendo duas perto do castelo ou Torre de Menagem, uma de cada lado do terreiro ou arrabalde, tendo outra porta que dista uma da outra quinze pés, que fortalecem a entrada por este lado. Do lado sul, outras duas torres, iguais às indicadas, também com duas portas e a igual distância uma da outra. Possuia outra torre do lado nascente e outra entre Este e Sul e mais outra para o lado Poente, só havendo as referidas portas de entrada ou de serviço, bem como uma pequena porta falsa, chamada do Sol, tapada com pedra. Havia uma segunda muralha do lado de fora da primeira que servia de entablamento de terreno, com quinze pés de distância entre uma e outra, intervalo onde estava instalado o fosso ou trincheira de segurança. Esta segunda muralha possuía quatro tenalhas redondas, saliência ou ângulo reentrante para o lado de fora, de duas faces, em proporção com a distância das torres da interior, sendo um e outro muro bem terraplanados até ao parapeito, guarnecidos com sete ou oito peças de artilharia que mais tarde foram retiradas para Bragança! A fortaleza era guarnecida de uma forte estacada ou paliçada, de barbacãs com frestas para atacar o inimigo, onde se instalava o corpo da guarda; armazéns para depósito de mercadorias; depósitos de munições de guerra; depósitos para vinho e azeite bem como de alimentos de toda a ordem além das forragens para alimentar as muares e gado cavalar e tudo o mais necessário para um certo período de guerra. Possuia água potável de uma pequena nascente, com poço ou cisterna de reserva. Sobre a porta do muro do Arrabalde, havia uma obra córnea que do muro tinha uma saliência de dois palmos, com gatos de cantaria para dos seus extremos, defendendo, despejar breu e outras matérias combustíveis, bem como tiros de arremesso. O Castelo ou Torre de Menagem estava edificado e implantado no local onde hoje se encontra a Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção, também conhecida por Senhora do Castelo, com justo motivo, já que a Igreja foi construida com a pedra da demolição do Castelo, que estava na parte mais alta da Fortaleza. Reinando em Portugal D. Dinis, este tomou a iniciativa de mandar povoar Vinhais e mandar restaurar o Castelo, mas foi anteriormente D. Afonso lII, a 20 de Maio de 1253, que lhe concedeu foral em Santo Estêvão, dando lhe foral novo D. Manuel I em 4 de Maio de 1512, em Lisboa. Vinhais teria sido arrasada pelos Mouros e de novo reedificada e repovoada no tempo dos Reis de Castela e Leão, D. Sancho II (1065) e D. Afonso VI (1073), Conde D. Henrique (1094); D. Afonso Henriques (1128), D. Sancho I de Portugal (1185), D. Afonso II (1211), D. Sancho II (1223)! Segundo o foral de D. Afonsso III, já indicado, o Castelo de Vinhais já existia em 1253 e teria sido restaurado e ampliada a cerca Muralhas! Novas reparações teriam sido feitas nos reinados de D. Fernando (1367), D. João I (1385), e D. Manuel I (1495), sendo as fortificações representadas no Livro das Fortalezas do Reino, baluarte d’Armas deste último Rei, desenhadas entre os anos de 1503 e 1520. A Fortaleza de Guerra da Vila de Vinhais, a que ninguém tentou preservar a dignidaade foi votada ao abandono. Das velhas muralhas, torres e Torre de Menagem, existem apenas o Arco da Porta da Senhora das Portas Abertas com a sua Torre de apoio de traçado geométrico quadrangular; a Porta de Santo António que abre para o Arrabalde, suportada por outra Torre e panos de muralhas. O resto, tal como o sangue dos seus herois, perderam se na voragem dos tempos! Talvez as gerações que se seguirem, saibam dar valor a estas relíquias e honrar o sangue derramado pelos bravos antepassados. Porque a história é a Bíblia dos Povos; livro Sagrado que não se plagia: cita se, recita se, reza se!

ESTRUTURAS SOCIAIS E DE LAZER

Após o 25 de Abril, Vinhais como quase todos os concelhos, saiu do torpor de centenas de anos e surge hoje com estruturas de razoável nível. Porém, como “não há rosa sem senão”, talvez se tenha destruido algo da beleza geográfica e ambiental, ao utilizar para a implantação dessas estruturas terrenos que deviam ser preservados e embelezados com árvores e arbustos. Miguel Torga, um dia que visitou Vinhais, mirou o belíssimo vale que se estende até ao Rio Tuela, postado em frente à casa dos condes de Vinhais ou Casas Novas. E foi aí, precisamente, que se cometeu o erro, acabando com as pequenas e verdejantes hortas, para lançar uma estrada, parque de estacionamento, campo de futebol e piscinas, quando tinham um grande toural que comportava tudo aquilo. Parece nos que continua, todavia, a política de estiolação da zona dos Frades em benefício da zona do Arrabalde. Já em outros tempos, se desperdiçou avultada verba atirando abaixo os alicerces do palácio da justiça que se iniciou onde hoje são as escolas do 1° ciclo, só porque o administrador era da outra banda e quiz ali a casa da justiça. O certo é que, nos últimos 20 anos, surgiu o novo hospital; o estádio municipal, a Escola Preparatória, a Escola Secundária; o quartel dos Bombeiros Voluntários; uma zona industrial com 30 lotes devidamente urbanizada e com as estruturas necassárias; dois bairros sociais com cerca de cem fogos individuais; surgiu um complexo de piscinas de causar inveja à capital do distrito, com piscina coberta e aquecida; um complexo de desporto amador para Ténis, andebol, basquetebol etc; pavilhão gimno desportivo; Para além disso, implantaramse em quase todas as freguesias do concelho, também com a ajuda das juntas de freguesia, Lares de terceira idade; Infantários; campos polivalentes para desporto; edifícios escolares com cantina e aquecimento; e distribuiram se praias fluviais em vários rios que o permitiam; as antigas ruas de lama foram erradicadas e, em seu lugar, surgiram ruas a paralelipípedos de granito com instalação de esgotos; A captação e distribuição de água já beneficia quase todo o concelho; o saneamento básico já chegou a mais de metades das freguesias; as estradas asfaltadas também servem mais de metade das aldeias; só os transportes, tal como em toda a província, são ainda deficientes, tendo a autarquia com os seus tres autocarros, de suprir algumas necessidades, nomeadamente no campo da educação, do desporto e das instituições sociais! Foi incrementada a instalação de estruturas hoteleiras e de restauração, havendo mesmo uma magnifica residencial com 22 quartos com banho privativo, TV e ar condicionado, bar e salas de convívio e estacionamento privativo; várias outras pensões e residencias com bons quartos; restaurantes com serviço de pratos tradicionais que honram a gastronomia centenária do concelho, nomeadamente à base do famoso fumeiro, da vitela e do cabrito criados em bons pastos; das trutas e outros peixes do rio Tuela e do rio de Trutas; do porco montês; do coelho do monte; da perdiz e da lebre, não esquecendo o presunto curado! E não esquecendo que é uma região de afamada batata, dos grelos com chouriço de pão ou alheiras; da couve de penca com bacalhau ou polvo; do cosido à portuguesa; do arroz de vagens de feijão com bacalhau ou polvo fritos, etc. Apesar de tudo, as carências como eram muitas, também elevam os seus custos e o tempo que demora a resolvê las; a chamada Vila (espaço dentro das muralhas) não tem merecido a atenção devida por parte das instituições estatais a quem compete ajudar na preservação de tão importante património! A Igreja matriz de Na Sr` da Assunção; a casa da antiga cadeia, o largo do pelourinho, as manchas de muralhas que ainda restam; os arcos das portas do castelo; o reerguer da torre que deixaram cair por inércia; uma via de cintura que rodeie todo o outeiro onde essa vila se enquadra, são obras que não podem esquecer se; Claro que há muito ainda que fazer para melhorar o nível de vida das aldeias e dos bairros periféricos mas este património pode gerar receitas para acudir às outras necessidades desde que bem conduzido!


RIO TUELA: SUA UTILIDADE NO CONCELHO DE VINHAIS

O Rio Tuela nasce na Serra da Cabrera, na província de Valhadolide, em Espanha, onde tem também os nomes de Tuelo ou Tuano. A nascente brota forte em rico caudal difícil de encontrar. Jorra em golfadas perto do lugar de Pias tendo na Galiza um trajecto de cerca de 40 quilómetros e em Portugal 80, formando um total de 120 quilómetros desde a nascente até Mirandela e daqui ao Rio Douro, onde desagua no lugar de Tua a que o próprio rio deu nome! Calcula se que, no concelho de Vinhais, forme um trajecto de 20 quilómetros. Entra em Portugal já bastante caudaloso, no inverno, muitas vezes impetuoso. pelo concelho de Vinhais e no termo da povoação e freguesia de Moimenta, na margem direita e na margem esquerda pelo termo da povoação e freguesia de Mofreita. Entre estas duas freguesias existe sobre o rio uma ponte muito antiga, que liga o caminho vicinal entre Moimenta e Mofreita.. Segue banhando, a margem direita o termo da freguesia de Montouto e a margem esquerda o termo da freguesia de Fresulfe abrangendo as terras de Dine cujo caminho liga a Santa Cruz e a Montouto através do pontão de Dine. Prossegue e, pela margem direita banha os termos da freguesia de Santa Cruz junto às águas termais conhecidas pelo Banho e em seguida pelo termo de Paçó, Quintela, Prada, Vila Verde, Vinhais, Ermida, Caramanchão, Armoniz, Ribeirinha, Vale da Silva, Alvaredos, Cavages, Vale de Janeiro, Nuzedo de Baixo e Vale das Fontes até perto do lugar da Torga, em cujo lugar termina o concelho de Vinhais. Pelo caminho alimenta muitos e variados Moinhos, comunitários e particulares e rega poucas hortas, dado o seu leito profundo e escabroso. Ressalva para a grande e fértil Veiga de Nuzedo de Baixo que é atravessada pela ponte municipal que liga a estrada em direcção às Minas, Soutilha, Ervedosa até ao cruzamento da estrada Bragança/Torre. Passa o rio ao lado do termo de Soutilha até ao local da Torga onde existe a barragem hidro eléctrica! O Rio Tuela, no percurso pelo concelho de Vinhais, escavou alguns poços bastante fundos, sendo os principais e mais conhecidos, a garganta do Poço do Pélago, na praia fluvial junto à Ponte de Soeira; Poço Negro abaixo de Vila Verde; junto às fragas de Pena Cabreira e de seguida o Poço do Burro, onde foi feito o aproveitamento da Barragem para o Viveiro das Trutas, perto do Ribeiro de Moscoso, em Vila Verde; Cachoeira da Pombinha; o Bogueiro por baixo das vinhas de chãos em Vila Verde; o Poço do Pélago e do Nogueiro do lado de Cabrões e perto da Quinta de D. Maria; o Poço do Manhuço junto à ponte do mesmo nome; o Poço das Fragas Amarelas de Penhas Juntas. Dada a sua depressão geográfica as águas do rio pouco regam no concelho a não ser pequenos canteiros junto ao rio. Muita verdura nos ribeiros que desaguam nas suas margens e que são numerosos. alcatifados de prados cheios de um verde musgo, fresco. Manchas de arvoredos nas suas margens e nas orretas e solários, entrelaçados de amieiros, freixos, salgueiros, vimeeiros, negrilhos, sardão carrasqueiro, choupo, pinheiro, amendoeira, oliveira, sobreiro, castanheiro. nogueira, carvalho, medronheiro, figueira e videiras formando o caramanchão dos vinhais, até junto às águas do rio. No mato, também até à beira da água do rio, predomina a urze e esteva, giesta, arçã, rosmaninho, trovisco, charguaços, silvas, lentisco, sumagre, sabugueiro (caneleiro), madressilva, lúpulo bravo, funcho, alecrim, salva. orégão, roseira brava, tojo, panjemuro, carqueja, flora com inúmeras plantas medicinais e aromáticas que o povo na sua magia rural e tradicional, utiliza nas suas mezinhas ou nos temperos da cozinha e nas carnes para os enchidos do apreciado e famoso fumeiro regional.. Pena é que o turismo não descubra todo o encanto deste rio e, como sugere António Morgado, lance uma estrada turística ao longo do seu percurso!

FOLCLORE E ETNOGRAFIA

Os “Caretos” e as máscaras, são algumas das formas de cultura em várias freguesias do concelho. Encontramos, por exemplo em Ouzilhão, a escassos seis quilómetros da Vila, usos e costumes que começavam a desaparecer e estão a ser reactivados como “as Máscaras” ainda usadas nos festejos dos solstícios de Inverno e de Verão e no Ano Novo. Do Natal até aos Reis celebram se as Festas dos Rapazes e o ritual das Loas, com as suas “Máscaras Diabólicas”. Na confecção das máscaras são utilizados materiais como a madeira, o couro, a lata, cortiça, cartão, etc. Entre os dias 25 e 28 de Dezembro existe em Ouzilhão e em várias freguesias do concelho, um culto a Santo Estêvão em que se misturam elementos religiosos e profanos. Santo Estêvão é considerado o patrono dos rapazes e, talvez por isso, confundem se habitualmente a festa dos rapazes, dos caretos ou dos chocalheiros com a festa de Santo Estêvão. Numa e noutra, são utilizadas as máscaras feitas artezanalmente. Estas máscaras contêm elementos identificativos com o diabo. São os rapazes solteiros os grandes dinamizadores da festa, constituindo esta uma espécie de ritual pagão que inicia a vida adulta! Uns defendem que os festejos têm origem Celta e outros origem Romana. Em ambos os casos os rituais relacionam se com o chamamento do Sol, naquelas que são as noites mais pequenas do ano. A festa é organizada por um ou dois mordomos que são eleitos pela povoação ou estão a cumprir uma promessa. Depois de mascarados, os rapazes atam um molho de chocalhos à cintura e vão visitar as casas, recolhendo esmolas para a Igreja. No dia seguinte vão à Missa e à tarde são as raparigas que se ocupam da “mesa comunitária de Santo Estêvão”, onde se colocam as ofertas de cada um. Só os homens se sentam à mesa, ficando as mulheres de pé, à sua volta. Nesta altura é eleito o novo mordomo e o Padre benze a mesa. À noite há bailarico! No termo de Ouzilhão, mais precisamente na Fraga da Vela diz se que existe uma ferradura bem nítida, gravada no rochedo. Reza a lenda que a ferradura foi gravada pela pata do cavalo de um mouro perseguidor de Santa Comba, que ao chegar à fraga dissera: “Abrete fraga bendita que no mundo ficarás escrita”.A fraga abriu se para salvar a Santa do mouro. Diz se ainda que. noutra fraga existe um grande tesouro encantado! Enfim, terras de misticismo, de lendas e de arte!

FOLCLORE E TEMPOS LIVRES

No concelho de Vinhais, têm surgido, além das que existem na Vila, várias Associações culturais e Recreativas, podendo citar se: A Banda de Música de Vinhais; Banda de Música de Rebordelo; o Grupo de Gaitas de Fole da Associação Cultural e Recreativa Vinhaense; a Associação Cultural e Recreativa de Agrochão; Associação Cultural e R. de Espinhoso; Rancho Folclórico da A. C. e Recreativa de Vinhais e muitas outras que têm o apoio das autarquias e desenvolvem prestimosa actividade cultural e recreativa. Cortejos etnográficos com a participação das duas dezenas de freguesias mantém parte da história do concelho. Aqui as escolas têm sido imprescindíveis..No Folclore deve ter se em conta o rico cancioneiro a que o Padre Firmino Martins deu especial relevo nos seus tres volumes “Folklore do concelho de Vinhais”. Deles extraimos:


Bendito sejais, meu Deus,
Nessas palhinhas deitado,
Sois pão em palha nascido
Em terra virgem criado.

Premeti, meu Deus divino,
A este pobre pastor,
Que não perigue meu gado
enquanto aqui estiver Senhor.

Nasceis pastor para nós,
Nós somos ovelhas Vossas,
premeu não se desgarrem
as almas que já são vossas.

Que os lobos por esta terra
andam de vários modos,
Nossa Senhora nos livre
De tanta casta de lobos.

ALGUMAS LENDAS O GALO LENDA E CRENÇA

Em algumas povoações do concelho, no Domingo Magro, Domingo Gordo ou Carnaval, os rapazes que frequentavam as escolas ou ainda frequentam, ofereciam e oferecem um galo ao professor, dando com ele volta ao povoado, metido numa carreta ou num ramo enfeitados com flores, fitas de papel de seda de várias cores garridas, rebuçados e laranjas dependurados, muito parecido com o ramo de Domingo de Ramos, dizendo cada um o seu verso, alguns curiosos e interessantes, que parecem do cancioneiro popular: Arredem se para atrás Senhores / Deixem campo à chinchina; /Deixem entrar para dentro /O filho do Ché Pachina! O nosso galo, rapazes, /Tem o passear de dama; /Donde passa o seu tempo, /É ò pé da Biviana! … É bem conhecido o papel de destaque que o galo representa nas antigas teogonias, tradições e lendas populares, não esquecendo as literaturas. Segundo a lenda, a ponte de Vale de Telhas sobre o rio Tuela, foi construida uma noite pelo diabo, que, aproveitando se do desespero de um almocreve, por não poder atravassar o rio, lhe fez a proposta da sua construção, em troca da alma. Aceite o contrato, lavrada a escritura com o sangue tirado do braço do almocreve, surgem legiões de “espíritos” infernais em artes diabólicas. Desmontam, escacham, esquadram, assentam, aprumam e a obra cresce a olhos vistos. Entretanto o símbolo da vigilância, aquele que espanta as trevas saudando o novo dia que começa a esboçar se, bate as asas e có có ró có! Galo canta observou o lugar tenente de Satanaz. Que galo é? perguntou este. Galo pinto. Ande o pico disse ele! Pouco tempo volvido, torna o mesmo: Galo canta! Que galo é? Galo branco! Ande o canto ordena. Ainda não tinha terminado e de novo diz o lugar tenente: Galo canta! Que galo é? Galo preto. Pico quedo rouquejou o Diabo. Tudo parou; a ponte ficou incompleta por falta de uma pedra nas guardas, que um diabrilho já trazia às costas e deixou cair ao chão quando soou a ordem, e assim se conserva, pois, conquanto muitas vezes a tenham lá colocado, logo cai de noite, arrojada por Satanaz! O almocreve ficou com a ponte e com a alma! O galo também se encontra envolvido na crença do povo e em Vinhais, quando as crianças começam a balbuciar as primeiras palavras e se verifica que demoram a pronunciá las ou dão sinais de gago ou que gagueija com frequência, pedem ao S. Facundo com muita veneração e preito a cura da gaguez, oferecendo lhe pelo milagre da cura um galo, quase sempre garboso e bom cantador, dado que este galinácio quando canta é gago, tendo uma voz de som estridente e sonora, que se ouve à distância, servindo muitas vezes de relógio indicando que está na hora de acordar os sonolentos da madrugada!
E COMEU LHE OS FÍGADOS! Conta se em Vinhais que certo indivíduo não tratava, como devia, a sua mulher! Então esta, certo dia, possivelmente depois de um tratamento de polé, jurou ao seu cônjuge que lhe iria comer os fígados enquanto vivo ou depois de morto! E, apesar dos maus tratos, a mulher conseguiu vê lo no caixão antes dela. Realizado o funeral, havia que cumprir o juramento. Se bem o pensou, melhor o fez! Dizia se então que, quando um fidalgo regressava a sua casa no Bairro do Eiró, como tivesse visto luz na Igreja de S. Fecundo ou “Fagundo”, entrou nela e, como a luz se tivesse apagado, esquadrinhou todos os cantos da Igreja com a sua espada até que, ao aproximar se da pessoa que lá estava, esta para não ser atingida pela lâmina, acendeu a luz. Com espanto o fidalgo verificou que a referida mulher se encontrava junto do caixão do marido a comer lhe os fígados!

A FIGUEIRA DO CAMPANÁRIO DA IGREJA DE S. FRANCISCO

Quando da expulsão dos Frades do Convento de S. Francisco de Vinhais, em 1834, apesar da violência e do terror espalhados pelos liberais, um frade missionário ainda pôde subir ao púlpito e fazer ao povo um discurso de despedida. No final, proferiu estas palavras proféticas: “Só voltará a haver missões nesta Igreja quando virdes uma figueira no campanário do templo da Ordem Terceira. Efectivamente, decorridos muitos anos, uma figueira nasceu na fenda de duas pedras de granito do campanário, onde ainda hoje se encontra e se pode observar oscilando às fortes rajadas da ventania agreste. Tem metro e meio de altura e dá frutos que não amadurecem! Nesse mesmo ano dois padres jesuitas vieram fazer Missões a Vinhais durante nove dias, com muito fruto para eles e para os fieis que os escutaram.

COMO O DR. SEBASTIÃO SE FEZ FRADE

Sebastião Barreira, natural de Pinheiro Velho, um dos ascendentes da família Barreira, de Quiraz, era formado em direito pela Universidade de Coimbra. Novo, costumava matar o tempo a ver maçar o linho às raparigas no bojo puido das rochas de granito das ruas da povoação. Uma tarde, a convite dos companheiros, entrou também no alegre folguedo e foi calcar a fofa meda de alvos “maçadouros”, como é uso na região, não sem o protesto das frescas moçoilas que na luta, braço a braço, exteriorizavam o sentimento de verem as medas mais baixas, sinal de pouco geito para uma boa dona de casa. Na retirada, sem ele pressentir, uma rapariga lançou lhe aos ombros o “mandil” de grosseira enxerga. E lá foi para casa. O Pai, vendo lhe o mandil, perguntou lhe a razão do facto. Apesar de inocente, não lhe aceitou as desculpas e deu lhe tão forte reprimenda que, magoado, nessa noite fez o propósito de ingressar na Ordem de S. Francisco, de Vinhais, o que fez no dia seguinte, com o nome de Sebastião da Madre de Deus.

LENDA DE FREI AGOSTINHO

Um grupo vinha da vindima, dum lugar chamado a Veiga por caminho muito mau, pois os terrenos ali são muito íngremes. Uma junta de bois que puxava um carro, um deles, o que ia pela parte de baixo, distraiu se, ou por falta de força talvez, deixou se ficar dependurado no muro e o outro boi segurou o a ele e ao carro. Ia distante, um bocado à rectaguarda, um padre e o proprietário da vindima, que gritava ao lavrador que deixasse estar os bois. O padre desceu o muro, pôs as costas debaixo das patas do boi e disse para o lavrador: Atende lá a vara aos bois! O boi firmou se nas costas do padre e saltou o muro para o caminho. E assim os bois não tiveram perigo!

O CORAÇÃO DA MADRE PLÁGIA

Uma freirinha do Convento de Santa Clara, de Vinhais, de nome Plágia, muito devota da Sagrada Família, depois da oração dizia às irmãs: “Se soubésseis o que eu tenho no meu coração”! Elas, pensativas, rogavam lhes dissesse o que sentia, obtendo como resposta apenas aquelas palavras. Certo dia, morreu. E as irmãs, levadas pela curiosidade, abriram lhe o lado esquerdo, observando com geral assombro as imagens de Jesus, Maria e José gravadas no coração. O milagre correu veloz por toda a parte, tendo vindo muito povo de longe a presenciá lo. O coração da Irmã Plágia foi encerrado num relicário e guardado religiosamente. Com a extinção do Convento (ainda existe parte do edifício) desapareceram todos os objectos veneráveis, restando nos as lendas piedosas na lembrança das almas crentes!

A RAPARIGA MUDA

Em dia de Verão canicular andava uma rapariga, muda de nascença, a pastorear o gado no lugar de Pereiros, freguesia de Tuizelo, junto à Ribeira de Santa Maria, quando viu baixar da encosta uma Senhora que pela sua inexcedível beleza lhe pareceu mais do Céu que da terra. Seu rosto resplandecente como um clarão boreal, confundiu a menina de tal modo que a fez cair por terra, assustada. A Senhora, porém, aproximando se disse lhe: “Não tenhas medo, eu sou a Virgem dos Remédios” Vem comigo que te hei de dar água para matares a sede!” Dali a uns passos, a meio da encosta, uma fonte brotou do chão ressequido pelo Verão ardente e a Virgem, inclinando a fronte, colheu água nas mãos, que deu à pastorinha desaparecendo em seguida. À noite, no regresso com o rebanho ao redil, a menina ia pensando consigo como havia de contar ao mundo tão maravilhoso acontecimento; e, qual não foi o seu espanto, ao transpor o limiar da porta da cozinha, sentiu a língua desprender se, correndo alegremente a dizer à família o que tinha visto, no meio da grande admiração dos circunstantes. A notícia correu veloz de terra em terra e o povo das cercanias afluia a admirar o milagre. Hoje venera se em Tuizelo, a Senhora dos Remédios!

O FUMEIRO

PORCO DE RAÇA BÍSARA: Um dos segredos do afamado fumeiro de Vinhais, é precisamente a criação do porco de raça bísara. De uma forma geral, os suinos de raça bísara caracterizam se pelo seu grande tamanho, chegando a atingir mais de um metro de altura e metro e meio de comprimento desde a nuca à raiz da cauda! Podem apresentar pelagem preta, branca ou malhada e com cerdas compridas, grossas e abundantes. O dorso é arqueado, a garupa estreita, as orelhas grandes, largas e pendentes e os membros compridos, ossudos e pouco musculados. O porco bísaro tem uma carcaça em que a proporção do músculo é maior que a de gordura, o que permite obter uma carne pouco atoucinhada, mas muito entremeada. Trata se portanto de carne pouco gorda e que constitui, talvez, o segredo do sabor do fumeiro. É curioso saber que a alimentação dos animais no concelho, é feita sobretudo à base de produtos naturais produzidos na própria exploração agrícola, nomeadamente a batata, a castanha, a beterraba, abóbora, nabo, forragens, grãos e farinhas de cereais. Diz se até que “os porcos comem comida de gente”! Mas são também beneficiados em pastagens, soutos e carvalhais. Esta conjugação de factores alimentação, maneio, idade do abate superior a um ano e a própria raça conferem à carne características óptimas especialmente para produção de enchidos. O porco bísaro é originário do porco céltico e constitui uma das duas únicas raças de porcos autóctones existentes em Portugal, encontrando se, actualmente localizada principalmente em Trás os Montes! No contexto da produção pecuária, a criação de suinos de raça bísara é a que mais tem evoluido no concelho de Vinhais, beneficiando de apoios comunitários para a construção de pocilgas e aquisição de animais registados, estando aprovados cerca de cem projectos. As protecções comunitárias como “Indicação Geográfica Protegida” do Salpicão de Vinhais”, da “Linguiça de Vinhais” ou “chouriça de carne de Vinhais” representam um instrumento importantíssimo para evitar a descaracterização destes produtos e salvaguardar a sua qualidade e genuinidade. Estas características, estão hoje garantidas face à resolução superior da criação duma área geográfica de produção e respetiva certificação!
CAPITAL DO FUMEIRO O concelho de Vinhais cada vez mais se afirma como Capital do Fumeiro em virtude da sua inigualável qualidade e por traduzir uma cultura gastronómica única em Portugal. Isso leva a autarquia a revestir do maior cuidado, ano a ano, a realização da Feira do Fumeiro, que tem lugar, normalmente, nos primeiros dias do mês de Fevereiro. Todos os produtores são visitados com a devida antecedência, sendo obrigatória a identificação com brinco, dos suinos a abater, para a confecção do fumeiro da feira. Os presuntos curados são devidamente inspeccionados e identificados com o selo de autenticidade A autarquia, com a colaboração da Associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bísara (ANCSUB), estabeleceu um processo de fomento de construção de “Cozinhas Tradicionais de Fumeiro” que permitem aos produtores a venda directa de fumeiro, no âmbito do Dec.Lei n° 57199, de 1 de Março. É também prestado pela Câmara Municipal, importante apoio para recuperação de cozinhas antigas, dotando as das condições higiénicas obrigatórias.

O MATADOURO

Simultâneamente, a edilidade não esqueceu o problema do abate em condições de higiene, quer dos suinos, quer de bovinos e foi construido devidamente autorizado, o Matadouro regional, que sob a administração da Sociedade “Carne de Vinhais, Lda” só no primeiro ano abateu 3 175 bovinos; 1 843 suinos e 3 327 cordeiros e cabritos. Esta unidade de abate dispõe de uma moderna tecnologia permitindo obter uma carne de elevada qualidade. O Matadouro procede à rotulagem de toda a carne de bovino donde resulta uma maior garantia de segurança ao consumidor, permitindo lhe saber qual o bovino que esteve na origem da carne que leva para casa e vai consumir. Após recenseamento levado a efeito pela Câmara Municipal, todos os produtores inscritos têm acesso às guias de trânsito para abate no matadouro, de leitões e porcos adultos.
A FEIRA DO FUMEIRO: Descobertas as virtudes do porco bísaro e os resultados que poderiam obter se ao industrializar o fabrico de enchidos, ao modo das gentes da região, a edilidade e as Cooperativas ligadas a este negócio entenderam ser um desperdício o não aproveitamento do “savoir faire” das populações, quer no que concerne à criação e engorda do porco bísaro, quer no que se refere à confecção do fumeiro na região. É que era conhecida já antes disso, a fama que o fumeiro de Vinhais granjeara através do fabrico familiar que chegava inclusivamente à Capital do País. Foi assim que, mobilizadas as populações do concelho, se levou a efeito em 9 de Fevereiro de 1981, a primeira Feira do Fumeiro, que constituiu um êxito quer económico, quer cultural! E foi como que um toque de sinos que chamou todo o concelho para a realidade de, em pequenas indústrias familiares, devidamente reajustadas às condições de laboração com higiene e cuidados de fabrico, poder tirar partido das condições que o concelho reune para que o fumeiro ali produzido seja, de facto, de superior qualidade, condições que passam, fundamentalmente, pelas características da ceva do porco bísaro, feita com produtos de produção agrícola local, como a castanha, centeio, batata, nabos e farinhas. Daí que sendo o sabor e a qualidade ímpares, como no butelo, o suculento chouriço doce, a famosa alheira, o indispensável presunto, o incomparável salpicão, a original “chouriça de carne” os inconfundíveis “chouriços de pão”,não podem deixar de estar presentes na Feira do Fumeiro de Vinhais. Mas esta feira teve tal êxito, que não parou de crescer e começou a criar problemas de espaço, atendendo a que se realiza nos primeiros dias de Fevereiro e o tempo, nem sempre colabora. É que os produtos expostos não se limitaram à venda do fumeiro e começou a aparecer o presunto, a orelheira, o pernil, o toucinho entremeado; E o que é mais: passou a exibir se e comercializar se o artesanato, a tasquinha, a prova de vinhos e fumeiro, os concursos de qualidade etc. Daí que a edilidade não adormeceu e, de mãos dadas com as Associações de Produtores Associação Nacional dos Criadores de Suinos de Raça Bísara; Cooperativa dos Agricultores de Vinhais e Organização dos Produtores Pecuários de Vinhais, levou a efeito a instalação do Matadouro onde se fazem abates com todas as regras de técnica e de higiene, instalado na zona industrial entretanto urbanizada e estruturada; a construção de um Pavilhão Multiusos com 1500 metros quadrados que, de momento já é insuficiente e torna se necessário instalar em espaços diferentes a feira do fumeiro e a feira dos restantes produtos. Mas como dizíamos, a Feira do Fumeiro para além de um certame de carácter económico, trás como consequência interessantes manifestações culturais que têm lugar no terreiro contíguo e arrastam milhares de pessoas, vindas de todas as partes do País e dos distritos fronteiriços de Espanha. Devemos ainda acrescentar que a feira e a laboração das cozinhas de fabrico de fumeiro, bem como a criação e ceva dos porcos, obrigaram a um protocolo com o Parque Natural de Montezinho, em cuja área se insere o concelho; àcriação de uma equipa de Sapadores Florestais, devidamente equipada com viaturas e ferramentas apropriadas, exercendo as funções de prevenção de incêndios florestais, vigilância, detecção e apoio ao combate aos incêndios e consequentes operações de rescaldo. A candidatura deste projecto foi elaborada ao abrigo do Decreto Lei n° 179/99, de 21 de Maio, para ser desenvolvido pelos proprietários florestais organizados na sua Associação Florestal da Terra Fria Transmontana ARBOREA. Com a entrada em vigor da nova lei da caça Decreto Lei n° 227 B/2000, de 15 de Setembro, a Câmara Municipal avançou com a criação de uma Zona de caça municipal (o que pode ser outro apoio ao fabrico do fumeiro, nomeadamente as alheiras de caça) e que abrangerá uma área significativa das freguesias de Vinhais, Alvaredos, Nunes, Ouzilhão e Vila Boa de Ouzilhão.

O NATAL EM VINHAIS A CONSOADA

Passado o dia de Todos os Santos, começam as gentes de Vinhais a pensar na quadra de Natal! São as perspectivas de guloseimas, dos agasalhos novos, da bacalhoada da noite de consoada, das filhós, rabanadas, dos doces. Mas sobretudo com o pensamento na chegada dos familiares que estão longe da terra, na labuta pela vida! Agora chega um irmão, mais logo vem o tio, na véspera chegaram outros familiares e amigos! A Festa de Natal começa com essa alegria e, na maioria das vezes com o dia de matar o “cevado” a tempo de provar o fumeiro no dia de Natal e a tempo de os familiares poderem levar consigo algumas peças desse fumeiro. A Consoada é festejada de forma especial, em quase todas as casas, sem carnes. A ceia consiste em: bacalhau cozido juntamente com polvo, batatas, ovos, couve penca ou tronchuda. rabas (misto de beterraba e cenoura). À sobremesa há queijo, bolo rei, filhós, rabanadas e tudo regado com o tinto da região que merece a justiça de o considerar tão bom como os melhores com licores, café e chocolate.
O DIA DE NATAL: No dia de Natal, embora se saiba que a família começará nesse dia a dispersar, é normalmente servido um almoço em que o prato forte é por tradição o perú assado no forno com batatinhas, arroz de couve (ou seco), pescada frita e a prova do fumeiro, normalmente alheiras e linguiça. Há casas que substituem o perú pelo cabrito assado e ainda outras, pela vitela assada. As sobremesas repetem se, acrescidas com arroz doce, sonhos e leite creme! Pela tarde vivem se então alguns momentos menos favoráveis com o início da partida daqueles familiares que mourejam noutras paragens. Ficam as esperanças de que, no próximo ano todos possam estar novamente juntos mesmo tendo em conta os sacrifícos para se deslocarem de longas distâncias, com autênticos temporais de chuva, neve e vento, frio e gelo. No Ano Novo, estas receitas repetem se, para os que estão na terra e para os familiares que, não podendo estar presentes no Natal, o fazem no Ano Novo.
O DIA DE REIS:Hoje em dia tem caído em desuso a comemoração do Dia de Reis. Mas esse dia, ainda é comemorado com circunstância quer a nível religioso quer como festa pagã. É que decorre o período de vários grupos, alguns com instrumentos musicais, percorrerem as ruas e, de porta em porta, cantar “Os Reis”:

Quem diremos nós que vive,
Com a flor da carqueja;
Viva o dono desta casa
Com a flor que recebeu na Igreja!

Esta vai por despedida
Por cima duma maçã
Passem muito bem a noite
Adeus, até amanhã !


Porém, se os cantadores são despedidos sem nada receberem ou não lhes abrirem a porta, terão de ouvir:

Estes barbinhas de ovelha,
Não têm nada p’ra nos dar;
Só têm uma arca velha
Onde os ratos vão …rimar!

Mas a festa é celebrada, desta feita apenas com carnes, com uma comezaina de fumeiro. Entram as linguiças, as chouriças de boche, o salpicão e o botelo, tudo acompanhado com batata cosida, couve, arroz e bem regadinho! Repetem se as sobremesas.

O CARNAVAL EM VINHAIS

O Carnaval é uma festa especial em Vínhais quer para a juventude, quer para os menos jóvens que ainda gostam de folia! Sem qualquer dúvida uma das etapas que agrada a uns e outros é a de Domingo Gordo! É que nesse dia há refeição melhorada, com toda a espécie de carnes de porco: o pernil cosido, o palaio, a orelheira, a chouriça de boche, o toucinho, tudo acompanhado de couve penca, batatas e “cascas” (vagens de feijão grado, secas e depois demolhadas) e, em algumas casas um pouco de arroz. Na segunda feira, depois da difícil digestão, há, normalmente, uns bailaricos em associações culturais. Na terça feira sai à rua “a Morte e o Diabo” e as moçoilas ficam no cativeiro todo o dia, salvo se um dos atrevidos Diabos a consegue arrancar de casa para a levar “à Pedra”. A Morte e o Diabo são indivíduos que se vestem com fatos de macaco, pintam com tinta branca o esqueleto humano visto pela frente e por trás e tapam a cara com máscaras em forma de caveira, parecendo a Morte; empunham uma gadanha e são acompanhados por tres ou quatro Diabos; Este, o Diabo, veste se de fato de macaco vermelho, com capuz e máscara do mesmo pano com os respectivos chifres e cauda comprida. Empunham uma correia ou um cordel grosso, com que, amavelmente batem nas pessoas que encontram. Por vezes percorrem os bairros e confraternizam com quem os recebe. Mas a festa principal da Morte e do Diabo, é tirar de casa as meninas que, por vezes se juntam às cinco e seis para os desafiar, encasteladas em varandas ou janelas o que torna a empreitada difícil. Porém, uns através de engenho e arte, outros com a cumplicidade de familiares das moças que entram na brincadeira e entregam as vítimas ao Diabo, na maioria das vezes namorado e, ainda outros que podem custear as despesas de arrombamento de portas e janelas, acabam por levar à Pedra, situada no Largo principal da Vila O Arrabalde meia dúzia de moçoilas que são ajoelhadas e acariciadas com o “chicote” do Diabo e da Morte. Elas acabam por se sentir honradas com a preferência da escolha! Entretanto, há as rivalidades e os ciumes, quando determinado Diabo tenta trazer à Pedra a namorada de um outro Demónio. Então aí, embora não haja vias de facto, há no entanto a ajuda deste às moças e o estorvar da acção do outro rival! E o povo que assiste a estas cenas vive momentos de euforia!

QUARTA FEIRA DE CINZAS

Na Quarta feira de cinzas há a parte religiosa em que as pessoas vão ouvir Missas em louvor dos seus mortos e, no Altar, o sacerdote utiliza cinzas para benzer os crentes como modo de salvação e protecção contra os demónios! Porém, as mesmas cinzas são utilizadas em termos pagãos! Nessa quarta feira, a brincadeira muda de sentido e aí há menos adeptos: é que além de se arremessarem cinzas, utilizamse outros produtos como a graxa, os tremoços por curar que se arremessam em todas as direcções e que podem magoar. Mas usa se também cereais e dantes até arroz, farinha e farelo. Nos tempos actuais é mais difícil esta brincadeira!. Será, porventura, a parte menos atrente do carnaval em Vinhais. Outra faceta é a de foliões que aparecem com trajes extravagantes; homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homem, fingindo alguns animais, transportando doentes em carros de mão para criticar serviços de saúde; fingindo abrir buracos no chão para criticar a autarquia; juntando se casais para ridicularizar namorados, etc! E tentando caracterizar personagens e lançar críticas surdas, por vezes escritas em placas ou mesmo récitas de rua. Então pode aparecer o Napoleão, as damas da Corte, o Hitler, um bispo, um padre, uma freira, guardas e polícias e mesmo os governantes do momento! É Carnaval, tudo se perdoa a nada fica mal.

A QUADRA DA PÁSCOA

DOMINGO DE RAMOS: As contas vão sendo feitas pelos mais velhos para anunciarem a aproximação da Páscoa, contando pelos dedos as semanas: Ana, Rabana, Suzeca, Rebeca. Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos. É o numero de semanas desde a entrada da Quaresma até Domingo de Pascoa. O tempo vai sendo contabilizado e, chegado o Sábado de Ramos, normalmente coincidente com as férias escolares„ o que também se anseia, eis que a rapaziada vai em grupos até longas distâncias, através dos velhos olivais, à procura do ramo que irá apresentar perante o Altar para ser benzido. Cada qual faz questão de apresentar o mais bonito e elegante ramo de forma a suscitar a inveja dos parceiros. De preferência uma vara direita, com um belo tufo ou ramalhete, lá no alto. Ostenta se assim o ramo orgulhosamente a caminho da Igreja, lançando olhares de soslaio para os do parceiro para fazer a avaliação correcta. E é fatal: aqueles que vislumbrarem um ramo mais bonito do que o deles, vergasta o sorrateiramente até o deixar em pior estado! Quando há resposta, então é um vendaval que só termina com a chegada do padre ao Altar. E no momento da benção, porém, apaziguam se os ânimos e cada qual eleva o seu ramo em direcção ao Altar o mais alto que pode, com receio de que a benção não chegue até ele. Pela tardinha, depois do almoço, o ramo enfeitado com alecrim, flores, laranjas e rebuçados, é levado aos padrinhos que, por norma, disponibilizam umas moedas!
DOMINGO DE PÁSCOA: Na Sexta feira Santa, tem lugar uma bela procissão que percorre a Vila de lés a lés pela Rua principal, onde figuram as imagens do Senhor Morto e Sua Mãe Nossa Senhora da Assunção, o pálio com o Pároco e irmãos das Instituições religiosas, a banda de música e muito povo no mais profundo silêncio! Toda a Quaresma. mas especialmente a Semana Santa é um período especial para o coração das gentes de Vinhais. Há mais ternura, mais perdão, mais humildade. Até o tempo, por norma, se alia à sensibilidade dos crentes, com os raios solares enfeitando de luz e côr as coisas e aquecendo os corações.. Aparecem as flores, os pássaros; florescem as árvores sorrateiramente enchendo os campos de flores amarelas, brancas, rosa, lilás, numa simbiose multicolor que nos dá mais vida, mais fulgor, mais alegria! Os prados tecem os seus tapetes dos verdes mais variados como que a convidar as pessoas para os seus convívios no campo, à volta do tradicional folar. Mas em Vinhais também há sonhos e, naturalmente os jóvens em especial, aguardam a Páscoa porque são férias, porque há folares, porque há por hábito roupas novas a estrear, porque sentem que o tempo os deixa brincar, os deixa conviver! E chegado o Domingo, em locais onde a palavra “Família” ainda tem sentido, as crianças aperaltadas, em alegre conjunto, caminham para a Igreja. No regresso, espera os um almoço especial e o folar. Pela tarde, a meio do jogo da cantarinha, aparece o Compasso que encerra um Domingo Divino, todo dedicado a Deus e à Família.
VISITA PASCAL: Como dizemos acima, normalmente a visita de Cristo às nossas casas tem lugar no próprio Domingo de Páscoa. Mas há lugares onde se faz na Segundafeira ou até no Domingo de Pascoela. Nessa hora arranja se o local mais acolhedor da casa, enfeita se com flores, coloca se uma pequena mesa com alva toalha, com velas em castiçais, um Crucifixo e um pratinho com laranjas e a oferta em nome do Senhor. Entretanto, no almoço, tinha sido sacrificado o cabrito que há em quase todas as casas nesse dia, mercê das boas vontades de uns para com os outros e em louvor de Jesus que nos faz a mercê de visitar a nossa habitação. Normalmente, espera se pelo Domingo de Pascoela para comer o folar, do tamanho duma roda de carro, no campo com toda a família e por vezes com amigos.
O FOLAR EM VINHAIS: O folar em Vinhais reune características ímpares, mesmo em relação a outros concelhos vizinhos. Enquanto em outros lugares se faz o folar concentrando as carnes todas juntas no meio de duas camadas de massa, em Vinhais vão se distribuindo as carnes sobre cada cama camada de massa, levando cada folar normalmente tres camadas, o que permite que, ao partir as fatias, venha a carne distribuida em vez de encontrar um monte concentrado no meio. VAMOS À RECEITA: Amassa se a farinha nas quantidades que se desejar, mas em quilos certos. Para cada quilo de farinha deitamse uma duzia de ovos, manteiga que baste e sal. Põe se um pouco de fermento e deixa se levedar num alguidar, bem agasalhada e, se possível perto de qualquer foco de calor, até ficar bem crescida e fofa. Entretanto preparam se as carnes: Salpicão de Vinhais, linguiça de Vinhais, toucinho entremeado e toucinho gordo, presunto e, se quizermos, carnes brancas de perú, frango ou outras aves, ou ainda coelho. Partem se em pedaços (por exemplo uma coxa de frango pode a última parte ir inteira); alouram se de preferência em pote de ferro sem ser preciso fritar ou coser. Quando a massa estiver lêveda, preparam se as formas do tamanho que se desejar (média entre 20 a 40 cm de diâmetro) untadas com manteiga ou gordura e colocam se as camadas de massa. Como se disse, sobre cada camada distribuem se equitativamente as carnes, servindo a terceira camada para tapar. Vai ao forno sem deixar tostar. Quando na mesa, deve cortar se em talhadas género gomos de laranja para que cada gomo venha recheado de toda a espécie de carnes colocadas. Há quem considere a feitura dos folares como uma estragação de produtos que dariam para uma família para um mês. Mas um cavalheiro de Vinhais é que sabia: quando a esposa lhe disse “que se não fosse por causa dos filhos não faria folares para não desperdiçar carnes”: ao que o marido respondeu: “Estás enganada, mulher! “Se não fossem os filhos, não comíamos outro pão”!

AS ALHEIRAS

As alheiras é outro dos manjares que os vinhaenses podem oferecer a quem os visita. A sua feitura é simples mas requer uma certa prática e conhecimento dos ingredientes. A selecção das carnes e a escolha do pão é importante para uma boa execução e para o sabor que se deseja. O pão deve ser de trigo caseiro, de boa farinha, concebido em pães grandes e redondos; as carnes devem ser de porco fresco, da zona da barriga, as farpas de carne magra extraidas da soá; e carnes de aves desfiadas! O pão corta se em fatias de lés a lés, finas. Numa caldeira ou tacho grande de cobre, lançam se as fatias do pão, bastantes alhos picados (por isso se chamam alheiras) colorau doce, malaguetas consoante o gosto; Picam se as carnes generosamente para o tacho depois de bem cosidas e por fim cobre se tudo com a água que coseu as carnes. Dá se tempo que todo o conteudo tenha absorvido bem a água e mexe se até ficar uma espécie de papa. Então, com essa massa sempre quente, enchem se as tripas secas, depois de preparadas e atam se nas extremidades depois de escolher o tamanho. A secagem ou fumigação tem importância vital. Devem ser expostas em varas sobre a lareira, e acender bons lumes todos os dias cerca de duas horas. Mas não utilizar lenhas de pinho ou resinosas nem corticeiras. Ao oitavo dia, são um manjar! Atenção: devem grelhar se em lume brando, na brasa ou numa frigideira. Mas devem ser picadas com uma agulha fina em tres ou quatro sítios de cada lado. Quando a pele estiver bem tostada, se tratou bem a tripa, coma tudo pegando à mão. Tirar lhe a pele e servir só a massa como fazem os hoteis do sul, é um crime!

O SALPICÃO

O ex libris de Vinhais é, porém, o fabrico do salpicão! É o mais fácil de fabricar, mas tem os seus segredos. Deixamos lhe aqui aquele que observámos em nossa casa: Utiliza se o lombo do porco, cortado aos pedaços como para os rojões. Enche se um tacho de cobre com os bocados e tempera se com alho, vinho maduro, louro e de forma a ficar tudo coberto. Deixa se nessa vinha de alhos durante 24 horas e depois é só meter na tripa, que tem de ser do próprio porco. Devem os pedaços ficar bem unidos, bem apertados. A secagem é a mesma das alheiras!
Augusto Borges. Bibliografia utilizada: Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses; Boletim da Câmara Municipal de Vinhais; Lugares de Portugal: “À Descoberta de Portugal”

In iii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães – Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt

Preço: 30 euros

(C) 2005 Notícias do Douro

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