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Imprensa Portuguesa   

O LIVRO, artefacto amigo de estimação

–   um elogio aos estilistas que o sabem vestir

Enquanto Director de Departamento de Tecnologia e Artes Gráficas e docente de algumas cadeiras, sendo uma delas a de «Tecnologias do Livro» durante alguns anos, no Instituto Politécnico de Tomar, também me incluí, anos seguidos, no Júri dos concursos PAPIES promovidos pela Revista doPapel, contribuindo para a justa classificação e atribuição de vários prémios de qualidade às produções, também da NOVA GRÁFICA, dos Açores.  

Por isso aceitei, sem hesitar e com prazer, o honroso convite do notável empresário, Sr. Ernesto Resendes, para deixar um breve e despretensioso depoimento neste magnífico livro, onde se mostram belas encadernações com a arte fotográfica de um profissional tão competente quanto a apreciável técnica dos impressores, evidenciando uma das melhores Gráficas do País. 

Deixando de parte referências à cadeira leccionada, à metodologia do trabalho e à materialidade e técnica do como e com quê se fazia e faz o acabamento dos livros de qualquer género, é meu intuito lançar umas linhas de texto no miolo deste, em forma de congratulação especialmente dirigida à prestigiada empresa do Porto, que magistralmente o encadernou.

Trata-se da IMPRENSA PORTUGUESA, com mais de 150 anos de activi-dade. Singrou como tipografia desde 1868 e especializou-se, a partir de 1982, quando a comprou Domingos Dias da Silva (o célebre Pires ciclista dos anos 50 do século passado). Domingos da Silva começou a aprender em 1943 (com 14 anos) nas casas de ‘Baptista-Encadernador’ e de Augusto de Almeida; em 1952 recebe do Sindicato a Carteira Profissional de Encadernador-Dourador, homologando a sua competência e confirmando uma vocação privilegiada e criativa. Já enquanto prestava serviço militar em Mafra, iniciou a secção de Encadernação no Quartel, com geral agrado e proveito. Aos 24 anos estabeleceu-se por conta própria. 

Foi e ainda é ele, com quase 92 anos, a alma da empresa que a partir de 1987 fez crescer, granjeando fama notável a nível nacional e além fronteiras. Distingue-se pela qualidade técnica e artística de todo o género de encadernações, com destaque para as ‘especiais’. Entre várias figuras gradas, até Barack Obama elogiou um belo livro que recebeu de presente, produzido em Ponta Delgada pela NOVA GRÁFICA, sendo minuciosa e artisticamente encadernado e com decorações a ouro, na oficina e sob a orientação do Sr. Domingos da Silva. A sua ‘casa’ é conhecida como “Alfobre de Encadernadores”, pois por lá passaram muitos jovens a quem ensinou a encadernar e a dourar, não só livros como estojos e brindes de toda a ordem.

No decurso dos anos saíram das mãos dos trabalhadores desta empresa excelentes peças de design gráfico – sobretudo livros – acabados, tratados, digo cuidados, por briosos profissionais ‘Encadernadores-Douradores’, instruídos por um formador-empresário que se orgulha de ser um autodidacta e confessa a paixão da sua vida: «Eu aprendo a ensinar e descanso a trabalhar». 

Domingos da Silva foi e continua a ser o ‘mestre’, criando discípulos, ensinando o que sabe. Alguns desses ficaram como seus colaboradores. Entre os muitos especialistas, citou apenas alguns: os douradores Fernando Santos seu sobrinho, Fernando Pinheiro e José Vieira (este criou empresa própria); os encadernadores Domingos Silvério (que se estabelecido na Rua do Cativo), o João de Castro Silva e muitos outros  profissionais competentes, como António Teixeira que é o actual  encarregado da Encadernação MANUEL FERREIRA & SILVA e segue as pisadas do mestre Domingos. 

Graças a uma sábia gestão a IMPRENSA PORTUGUESA de Domingos Dias da Silva, Sucessores, L.da, a partir de 1988 tornou-se numa empresa familiar dispondo de recursos humanos e técnicos com assinalável capacidade produtiva. Porque sempre procurou actualizar-se, o seu sucesso também decorre da mecanização e automatização das linhas de acabamentos de livros, nas diferentes modalidades: capa dura (cartonados), capa mole (brochura). Mas não só. Pois que, prosseguindo fiel à sua vocação de sempre, a vertente empresarial da encadernação MANUEL FERREIRA & SILVA, dedica-se com exclusividade a trabalhos de encadernação tradicional e artísticos, donde saem peças únicas, autênticas obras primas.

Daí, continuar a ser procurada por empresários impressores, editores e livreiros, bem como pelas bibliotecas públicas e privadas e, particularmente, por bibliófilos notáveis ou anónimos seus clientes, que a ela recorrem por apreciarem e investirem na encadernação, no restauro e conservação de alguns tesouros, os seus estimados livros, tidos por muitos como a ‘resistência encadernada’ (Marcello Rollemberg, Jornal da USP,13-11-2020). 

A encadernação tal como era feita vários séculos antes de Gutenberg é hoje  considerada «obra de luxo». E, porque o é, chama-se ‘Encadernação  Artística’. Contudo, torna-se cada vez mais raro encontrar quem a execute. Porém, como digna e honrosa excepção, ainda é na «IMPRENSA PORTUGUESA» – no sector  MAUNUEL FERREIRA & SILVA – que se esmeram profissionais talentosos e a ‘encomenda’ mais exigente é recebida e executada com total e recíproca satisfação. 

Entretanto, o progresso avança e deixa para trás quem não acompanha. O futuro dos livros corre riscos jamais imagináveis. E as bibliotecas talvez deixem de ser consultadas da mesma forma.

A UNESCO disponibilizou recentemente na Internet a chamada BIBLIOTECA DIGITAL MUNDIAL da ONU, como presente para a humanidade inteira. Para quem queira, é este o sítio: http://www.wdl.org

Por consequência, estando agora o livro-objecto-real a ser substituído pela ‘realidade virtual’ na Web, com leitura/visualização em cristais líquidos do monitor, numa perspectiva de futuro que é já hoje, subsiste a dúvida com a interrogação: – Quem ensina e promove esta arte multisecular e requintada do livro-matéria, cuja história continuará a fazer o seu caminho? 

Por deformação profissional, permito-me fazer um ligeiro aceno à «Didáctica da Encadernação» a pensar nos artistas que vestem os livros «à la mode» de todas as épocas e como preito de louvor àqueles que souberam e sabem ainda enobrecer o ‘métier’ – como é o caso de uns poucos. Oxalá o seu exemplo seja seguido, para que não se dilua a técnica nem se perca o nosso tradicional amor pelos livros que são «património humano, cultural e espiritual incalculável» como afirma o Cardeal D. Tolentino Mendonça .

É incontestável o mérito da presente edição – produzida pela NOVA GRÁFICA – com a pluralidade dos ‘mediadores’, que possibilitaram a reali-zação do projecto: o fotógrafo José António Rodrigues, o designer arte-finalista, os técnicos da pré-impressão com Pedro Melo, os impressores e quem, depois, na IMPRENSA PORTUGUESA, garantiu o ‘acabamento’ para que atingisse um patamar elevado de ‘qualidade total’ este belo exemplar que temos nas mãos. É notável. Com o Editor estão todos os intervenientes de parabéns.   

Tecnologia e Arte de construção do livro – arquitectura e decoração 

Ainda gostava de apresentar uma visão da tecnologia e da arte do livro tão profissionalmente praticadas pelas empresas NOVA GRÁFICA e IMPRENSA PORTUGUESA – parceria de qualidade entre Ponta Delgada e do Porto.

Repasso um pouco de técnica e de história, saltando o cronograma óbvio desde que dos prelos de Gutenberg se compunha e imprimia, saindo a obra encapada e pronta como era usual nas oficinas escritórias monásticas e conventuais.

 Independentemente do autor, do editor, do criativo-projectista e dos  preliminares gráficos abrangentes, desde a ideação-à-fruição do livro, hoje, como ontem (e no futuro), está implícito o desempenho de tarefas cometidas a cada um dos três sectores gráficos: Composição (digitação dos textos e digitalização das ilustrações); Impressão do miolo e da capa; acabamento/encadernação. Por isso julgo ser útil, a quem lê, não a apologia mas só um breve aceno às actuais oficinas de Encadernação como sector autónomo, usando métodos antigos e modernos de embelezamento especialmente das capas dos livros «bem vestidos» e visualmente apelativos para as livrarias, chamando a atenção, convidando à leitura e prendendo o espírito.

Contudo, dado o limite de espaço, permito-me disparar um só flash indicador e verter em síntese conceptual que ajude a entender a preciosi-dade da arte e «da tecnologia da conservação dos saberes» contidos nos livros e de cujo mester assim escreveu o Padre António Vieira:

«Toma o encadernador as folhas impressas na tipografia, lisas, frias, sem vida e entrando na sua oficina dispõe-se a fazer com elas um livro. Dobra-as primeiro e vai executando as várias operações, até as mais  simples. Cose-lhe os cadernos, cola-lhe o lombo, apara-lhe as margens, doura-lhe o corte, vinca-lhe o encaixe, empasta-o com cartões fortes, acerta-lhe as seixas. Forra-o de fina pele, avulta-lhe os nervos, cobre-lhe de ouro as pastas e grava-lhe belos ornatos; aqui acerta, ali alisa, acolá afina e fica um livro perfeito, e talvez um missal que se pode por no altar»

Paradoxalmente, na era das novas tecnologias, interrogamo-nos: como e com quem se aprende esta arte? O ensino/aprendizagem consta de um percurso formativo que implica responsabilidade e saber de experiências feito. A mecânica/automatização tomou o lugar da manualidade, mas não a substituiu nem anulou. Pelo contrário. Daí que valha inflectir na aprendizagem desta nobre profissão manual, mas não só, sem ceder ao impulso de levantar o dedo a culpar passivos agentes do esquecimento, quando à tecnologia  manual se pode conjugar com automatismo, complementando-se.

Assim, franqueando a questão do saber-fazer, prossigo e grafo em itálico algumas palavras-chave para incentivar a reflexão de quem me lê e queira completar os conceitos para além do agora possível recurso à Wikipédia. 

De qualquer modo, julgo valer a pena folhear a grande edição sobre os 5.000 anos da arte do livro – «LIBER LIBRORUM» – (présenté par H. D. L. Vervliet; introduction de Herman Liebaers), Bruxelles – Arcade, 1973 (com 511 págs.; alt.30 cm; enc. c/sobrecapa e caixa BTAG154). Indico, também, as edições em português como: «O LIVRO», de Douglas McMurtrie (FCG, 1997); «Encadernação Portuguesa Medieval», de Aires A. Nascimento e A. Dias Diogo (INCM,1984); «Estudo da história do livro» de Artur Anselmo (Guimarães, Lisboa, 1997), que é um notável bibliófilo; «Profissões do Livro», de Jorge M. Martins (Ed. Verbo, 2005); «Manual do Encadernador e Dourador», de Maria Brank-Lamy Barjona de Freitas; o meu V fascículo das «Tecnologias Gráficas» (editado pelo ITE do ME em 1982); e a última edição de «Encadernação – Elementos de Tecnologia», de Mário Vito da Graça Vaz, EPS – Lisboa,1997. 

Também são dignos de nota os diversos apontamentos obtidos por impressão digital do ‘Estudo teórico-prático’ de Jorge V. Burnay, com carácter de ‘sebenta’ distribuída em pequenos opúsculos aos estudantes do Curso DTAG, no IPT, desde os anos 80. Este docente também praticou e ensinou a antiga técnica de marmorear manualmente o papel para revesti-mento das capas e para guardas dos livros, além do método correcto de chifrar e pintar as peles; e a confecção de capas com embutidos; e ainda a técnica de douração (com ouro fino ou falso). Esses ‘apontamentos’ profusamente ilustrados, constituem notável recurso bibliográfico (embora como ‘pro-manuscrito’ reservados aos estudantes) e para amantes interessados pela encadernação clássica, a diferentes níveis de formação tecnológica. 

Neste contexto vêm à lembrança as reformas do Sistema Educativo em Portugal que facultaram às Escolas de Artes Decorativas e Artes Visuais (António Arroio, Soares dos Reis, Avelar Brotero, respectivamente em Lisboa, Porto e Coimbra) ministrarem cursos com a vertente das Artes Gráficas e Visuais. E aí, a quanto se sabe, os habilitados Mestres, pelos conteúdos programáticos, recorriam ao ‘ditado’ e à ‘reprografia’ para multiplicar os apontamentos teóricos das suas lições. Não sendo de todo despiciendo o método, prova-se que era atribuída uma mais-valia sobretudo à exercitação prática. E foram poucos os que editaram privadamente os ‘seus’ apontamentos, atendo-se mais à experimentação em ordem a viabilizar a empregabilidade dos alunos mais prendados. Mas poucos singraram na vida como profissionais encadernadores, trocando a arte por tarefas mais bem remuneradas. 

Também se consideram altamente formativas as iniciativas parti-culares, como a Fundação C. Gulbenkian (FCG) e a Fundação Ricardo Espírito Santo (FRES), dedicando especial cuidado à conservação e restauro dos livros, ou seja especialmente as Encadernações (e reencadernando-os). 

Geralmente lamentam-se as lacunas de bibliografia técnica, também para este sector. De facto, embora não abunde sobre a didáctica da pro-fissão, também é verdade que não são bem conhecidas as edições técnicas em português e que nem sempre se recorre à igualmente escassa bibliografia estrangeira. Donde se conclua que os anónimos artífices encadernadores – e os ‘ourives do livro’- no decurso dos tempos, se tenham feito (e fazem) no ambiente da produção industrial (on-job), nas próprias oficinas gráficas e nas bibliotecas (as palacianas e conventuais) e até nas casas dos bibliófilos.   

Nos Palácios Reais, Mosteiros, Universidades e também monumentais Bibliotecas públicas e privadas de Portugal guardam-se exemplos que não ficam atrás de quaisquer outras no Mundo. Bastaria passar da Alcobaça ir a Coimbra, visitar Mafra. Cito só um pequeno exemplo, a da Imprensa Nacional de Lisboa (a INCM de hoje) que há pouco celebrou 250 anos, a formar «artistas dos livros» que nela se produziam, desde a fundação (1767), deixando autênticos tesouros não só pelos conteúdos, como pela exímia estética gráfica. Desde logo no seu Alvará – primeiro estatuto da Impressão Régia, criava-se a ‘Escola Typográfica’ também de gravura, e alimentava-se o culto do enriquecimento de capas das edições. Na Biblioteca da IN podem admirar-se as obras de arte a valorizarem temas e autores dos livros. 

Numa actual definição de perfis, boa parte dos profissionais classi-ficados como gráficos Encadernadores e Encadernadores-Douradores situa-se na linha final da produção de impressos, incluindo livros. Deu-se pouca relevância à formação profissional específica, até porque a procura de encadernações artísticas foi sempre bastante limitada e tende a diminuir. Com a evolução tecnológica os trabalhadores são ‘operadores de máquinas’ de acabamentos e de encadernar ou encapar, possuindo conhecimentos qb transmitidos ad hoc, de modo tradicional e com algum empirismo. 

Alguns desses distinguem-se por apetência vocacional para a ‘técnica e arte do livro’ realizando tarefas manuais, ganhando aptidão através da prática, chegando à especialização por bom-gosto e vontade. Eram e são os autodidatas. Entre os raros exemplos é justo figurarem encadernadores e douradores nortenhos: Manuel Ferreira e Domingos da Silva, os quais, associando-se, criaram em 1954 a firma “Manuel Ferreira & Silva”  que adquiriu 1981 e 1982 a “IMPRENSA PORTUGUESA” à herdeira família Morais Sarmento, no Porto. E lá se fizeram excelentes profissionais, como os supra referidos.

Fique a ideia de que não sendo os únicos. São do meu tempo outros nomes de especialistas conhecidos que, solidários, transmitiam os seus conhecimentos a jovens aprendizes: os da Imprensa Nacional-Casa da Moeda – INCM, desde o Elmano ao Víctor M. da Silva e ao Fernando M. Ruivo; da Biblioteca da Univ. de Coimbra, José Dias Ferreira; os empresários José Brito, em Évora, Armando Costa e Florindo Simões, em Leiria, Vítor Santos, Império da C. Graça, em Lisboa, Alberto dos Santos Neves (a ensinar nas empresas o que apreendera em estágios no estrangeiro (Espanha, Inglaterra, Alemanha e Suíça). Aqui é justo referir o nome de Pedro Azevedo, com envolvimento na formação (único português presente nas associações internacionais), empenhado no interesse da ‘técnica e arte do livro’ promoveu «cursos de ‘História do Livro e Iniciação à Encadernação’ na Universidade Autónoma (Instituto de Artes e Ofícios) e na Academia das Ciências», em Lisboa (Revista Artes Gráficas, n.º 9 – Abril 1996). De outros praticantes como ‘profissionais liberais’ bem adestrados pela experiência e à sua custa, sabe-se que trabalham à peça, por encomenda, quase no anonimato. 

Contudo são esses e os do Mestre Domingos Silva, os autênticos e poucos detentores da arte. E contribuem para a dignificação da classe. Em cada livro que »encadernam bem» está um pouco de si próprios, um bocadinho do livro e um bocadinho de quem lhes encomenda a «obra».  

Como subsídios didácticos para a formação aos quais bem poucos terão tido acesso, é-me grato mencionar a utilidade das edições das Escolas Profissionais Salesianas, onde, desde 1853, se formaram mestres dos jovens aprendizes encadernadores e douradores nos cinco continentes. De referência internacional são as editoras como a SEI, a LDC italianas e a EDB de Barcelona, com «livros para aprender a fazer livros». Em Portugal destacarei os mestres que conheci e com eles aprendi: Snika Drago (jugoslavo), Mário Vito da Graça Vaz, nas OSJ de Lisboa; Eugénio Ferraz, e José M. Salgado, no Porto, J. Brito de Carvalho em Évora. Para além da metodologia do trabalho prático, legaram conhecimentos teóricos de considerável valor. 

Para se chegar ao conceito actual que temos dos livros, convém distinguir as origens e a evolução, para reconhecermos o mérito ao progresso.

Na realidade o livro está ligado à história da invenção e utilização da escrita, qual forma abstracta de registo inteligente da mensagem falada; e já no período pictórico, seguido do ideográfico e depois no fonético, sempre se utilizaram suportes materiais diversos, aptos a conservarem, de um modo permanente, a linguagem gráfica (o grafismo), intérprete do pensamento e do saber da sociedade humana. 

Aos poucos chegou-se à criação e aperfeiçoamento do objecto portátil com o registo para leitura (Kípu e Wampum, placas de argila, tábuas ence-radas, rolos de papiro, de pergaminho, de pele, etc.), até ao papel, o qual, desde que o livro assumiu a actual forma, nos permite «continuar a inspirar-nos na construção da nossa humanidade»… pois os «livros não nos tornam apenas leitores, tornam-nos também cidadãos», como escreveu o Cardeal Tolentino de Mendonça (in Avvenire, Jan. 2021).  

Agora tende-se à exclusão do papel como suporte preferencial, desde que foi conhecido e fabricado na velha Europa (precedendo a impressão tipográfica), que destronou o pergaminho e contribuiu para a democra-tização da cultura.

Ou seja, os livros em papel parece integrarem os seres vivos em risco de extinção. Na realidade já se começou a trocar o papel pela ‘pantalha’ do computador. Com a digitação dos textos e digitalização das imagens nos scanners, insinuam-se invasores os suportes virtuais. Pela internet, as páginas da Web são, no e-book, a versão digital mais avançada das novas tecnologias da comunicação. Há milhentas páginas ‘ripadas’ para ler na palma da mão, condensadas num minúsculo chip do telemóvel – ‘produto electrónico’ que já é instrumento de trabalho, com múltiplas funções e apps. Por outro lado, mesmo o book inforgráfico sendo bem elaborado – nem sempre o é – com a nova tecnologia, o imaterial não satisfaz os sentidos.

 Desafiante, tenta fintar o gosto que dá ainda o livro impresso em papel palpável e disponível… com cheiro à tinta!… Ao clicar difícil das pequeninas teclas nunca se toca na roupa, se é que tal livro foi vestido por alfaiates de alta costura, como são os encadernadores. 

Desde a Idade Média que se aprimoraram os materiais a utilizar, as dimensões e formas, na envolvência intencional dos sentimentos artístico e utilitário do livro, mas também em ordem a preservar/conservar e para legar como herança, muitas vezes de inestimável valor, homologando até o estatuto social dos seus proprietários. (As Bibliotecas e os bibliófilos de todos os tempos são a confirmação desta realidade, que não é só do registo ou depósito do conhecimento da sociedade, como também testemunho da expressão plástica e homenagem ao poder económico e político. 

Normalmente entende-se o livro como um objecto tridimensional essencialmente gráfico, em correspondência com a forma e a função, com parâmetros ergonómicos e antropométricos. Ou seja, de tamanho manu-seável (de bolso ou de estante) e até de mostrar, expor/exibir.  

Desde que o termo «livro» se usa (do latim, liber, libri), consiste  materialmente num conjunto de folhas de papel (em branco, escritas ou impressas) soltas, dobradas, encasadas ou intercaladas a formar cadernos que, seguras (costuradas a fio vegetal ou metálico, brochadas ou coladas) umas às outras pelo festo, constituem o corpo (ou miolo) sendo protegido pela capa normalmente em materiais de maior consistência. E é, sobretudo aqui, que o encadernador-dourador dá largas à imaginação e à expressão plástica.

Ora, é da confecção da capa, como protecção, envoltório ou recolhedor das folhas ou cadernos, que deriva o termo encapar ou encadernar. E é da simbiose de técnica da encadernação-artística e da conservação do livro que muito havia para dizer no âmbito da justa homenagem que, com este que agora lê, se presta à IMPRENSA PORTUGUESA, fundada em 1868 pelo jornalista tipógrafo e político Anselmo Evaristo de Morais Sarmento. (Vide caixa de dados cronológicos gentilmente cedidos pela Dr.ª Cristina Inácio, neta de Domingos da Silva).

Por falta de espaço não cabe aqui o destaque à importância da história, das técnicas e das artes de encadernar os livros. Mas não se ignore o interesse que desde sempre foi posto na sua apresentação estética decorativa tanto antes como depois de Gutenberg (manuscritos, primeiro, impressos depois), considerando-se ainda hoje «exemplar único» ou um reduzido número de exemplares manuscritos e iluminados/miniados (como os ‘Códices’ e ‘Livros de Horas’) ou de edições impressas, com a classificação de Obras de luxo. 

Todos conhecemos capas de livros (as pastas e as lombadas ou dorsos) de extraordinário valor gráfico-compositivo e com materiais (algumas vezes metais preciosos) que as integram (incrustações, embutidos em peles e têxteis) abrilhantados com decorações gravadas a ouro. Eram e são usados na ‘gravação’ os ferros de ornatos e vinhetas Viradores, Rodas lavradas, Florões, Caracóis, filetes e Cantos. E não é despiciendo o elemento tipográfico tão importante para registar a identificação (do título, do autor e até do editor), na lombada e na pasta frontal, além das tarjas nas seixas e rebordos onde se conjugam materiais utilizados e a técnica com a estética. 

Tenhamos presentes as maravilhosas encadernações que chegaram até nós graças à previdente mentalidade de ‘capitalização’ dos investidores (coleccionadores) de preciosidades, tanto do conteúdo literário quanto do trabalho gráfico. Muitos são também os livros que sobressaem com o limbo das folhas douradas nos três topos (especialmente edições religiosas/litúrgicas – breviários, missais, devocionários, etc., etc.).  

Portanto, a técnica de encadernar, completada pela arte de dourar, completam o profissional de ‘Acabamentos’ da obra de livro, sendo a mais valia no apreço da apresentação e da utilidade, também de outros produtos, como: estojos, álbuns, brindes, artigos de papelaria e objectos de escritório.

Ora bem. Aqui cheguei ao ponto de partida. E, a quanto se reconhece, da história ‘produtiva’ daquela empresa mista de encadernação manual e mecânica que foi tipografia e tão exemplarmente sobreviveu às crises e vicissitudes, em mais de 150 anos,  bem merece o justo preito de louvor e a homenagem que com este livro a NOVA GRÁFICA quer prestar à  IMPRENSA PORTUGUESA e a quem tão capaz e eficientemente a conduz. Por mim reitero o sentimento de profunda admiração com os melhores votos de prosperidades. 

                                                                      A. Guilhermino Pires (Zé de Murça)

NB- Propositadamente desrespeitei o (des)acordo ortográfico por não concordar com ele.

IMPRENSA PORTUGUESA 

A “Imprensa Portuguesa” é fundada em 1868 pelo jornalista e tipógrafo Anselmo Evaristo de Morais Sarmento nascido em Aveiro a 5 de Julho de 1847. Casado com D. Rita de Cássia Oliveira Morais tem cinco filhos, um rapaz e quatro raparigas. As filhas do casal, três médicas e uma engenheira, foram das primeiras mulheres diplomadas em Portugal. A casa dos Morais Sarmento era um espaço privilegiado para a proliferação dos ideais liberais e por lá passaram figuras notáveis como Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental e Teófilo Braga.

  Antes de se fixar no edifício da Rua Formosa, no Porto, Anselmo de Morais coordena e imprime vários periódicos de curta duração em diferentes moradas da cidade do Porto. Entre Janeiro e Abril de 1868 cria e dirige a “Gazeta Literária do Porto”, impressa na “Typographia da Livraria de A. de Moraes & Pinto”, Rua do Almada, n. 171. O jornal tinha Camilo Castelo Branco como redator e foi suspenso por uma questão levantada pelo romancista relativa à publicação dos seus textos no volume “Mosaico” (1868). Entre 1 de Janeiro a 4 de outubro de 1873 imprime o periódico “Progresso Comercial” da responsabilidade de José de Souza na tipografia de Anselmo de Morais, Imprensa Portuguesa, com sede tipográfica na rua do Bonjardim, número 181. Em 1874 cria o periódico “A Actualidade”, suspenso em 1891 para dar lugar a “A Ideia Nova – Diário Democrático” dirigido por José Caldas e ativo de 1 de Outubro até 31 de março de 1892. Este jornal durou pouco tempo uma vez que Anselmo de Morais, cada vez mais ligado à indústria gráfica, passou a consagrar toda a sua atividade à gerência da tipografia “Imprensa Portuguesa”. Anselmo de Morais foi ainda um dos sócios fundadores da “Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto”(criada em 1882) e editor de obras literárias de mérito.

Entre 1893 e 1894, a tipografia “Imprensa Portuguesa” – na época situada na “Liga das Artes Graphicas”, na rua Formosa, número 280 – imprimiu o periódico “A Folha d’hoje” de Joaquim Matias de Azevedo (editor do já extinto “Ideia Nova – Diário Democrático”) e  “O Indispensável”, da responsabilidade de Manuel de Sousa Pires. Ainda na década de 90 do século dezanove,  a “Imprensa Portuguesa” muda de instalações para o edifício da Rua Formosa que fora em tempos um palacete e onde estivera instalado, entre 1861 e 1866, o Liceu Central Nacional do Porto, actual Escola Básica e Secundária Rodrigues de Freitas. 

Após uma intensa vida de trabalho, Anselmo de Morais morre no Buçaco, a 8 de Junho de 1900. Após o seu falecimento, a “Imprensa Portuguesa” passou a pertencer aos seus herdeiros que formaram a sociedade “Anselmo de Morais, Sucessores”.

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