Opinião🖋️ Manuel Igreja Drº

O FALHANÇO DO ESTADO NA HABITAÇÃO

Até dado momento, resultado como todos, de muitos anteriores momentos, e de muitas outras e anteriores circunstâncias sentidas e vividas, as coisas iam mudando alguma coisa para que tudo fosse ficando na mesma.
Nascia-se numa casa ampla e abastada e vivia-se numa casa maior e muito mais confortável. Nascia-se numa casa remediada e tinha-se uma vida de remedeios e alguns anseios. No entanto, nascia-se numa casa pouco mais do que uma toca e tinha-se uma vida condenada.
Valeu que nada é eterno, a não ser a nossa necessidade e esperança de que a eternidade exista no tempo em que já não existirmos. Por isso, no século XX, numa dinâmica nascida no século anterior, a mudança passou a ser a única constante perante um número crescente de pessoas.
Em Portugal, tudo isto aconteceu muito mais lentamente do que nos restantes países europeus, vizinhos de usos, crenças e costumes, apesar de, duas centenas de anos antes, os portugueses terem dado novos mundos ao mundo, senhores que haviam sido de vontade, sabedoria e audácia.
Devido a determinados contextos históricos, o país perdeu o passo no tempo da Revolução Industrial, quando o mundo antigo ruiu. Não se industrializou. Ficou-se pelos modos de vida assentes na lavoura de subsistência e pouco mais. As pessoas continuaram fixas nos seus territórios natais. Não houve êxodo significativo para as fábricas. Por isso, as casas continuaram a ser as mesmas, nos mesmos locais e destinadas às mesmas pessoas.
Contudo, a vida e o crescimento acontecem e vão acontecendo. Entre o final dos anos cinquenta e o início da década de setenta do século XX, o crescimento económico foi notório, apesar de motivado e orientado por uns poucos, em benefício de uns tantos.
Então, o regime, o Estado Novo de sua denominação, seguindo os preceitos do corporativismo, edificou bairros habitacionais para responder às necessidades de habitação da classe operária emergente e de uma classe média em crescimento, ambas bafejadas pelos ventos da mudança. As cidades do Porto e de Lisboa expandiram-se com novas ruas e um notório crescimento do edificado.
No mundo rural, o apelo foi sentido. Cavadores e raparigas ainda a espigar levaram as saudades consigo e partiram à procura e à descoberta de novos quotidianos. Elas foram servir, como então se dizia, em casas minimamente abonadas. Eles foram construir casas para os outros, nas urbes em grande expansão. Para uns e outros, restaram, muitas vezes, os famigerados «bairros de lata», feitos de blocos de tijolo encavalitados, transformados em residências improvisadas, erguidas durante uma noite.
Como bem sabemos, mas convém relembrar, na primavera de 1974 aconteceu a revolução esperada e anunciada, que fez estremecer o país. A melhoria das condições de vida passou a ser uma exigência. No contexto da habitação, suposta e ingenuamente com o propósito de proporcionar o bem-estar, as rendas foram congeladas, tornando o negócio do arrendamento pouco recomendável para os proprietários. O tecido urbano desfigurou-se, mergulhando num estado de degradação que metia medo.
Pouco mais de uma década depois, Portugal aderiu à então Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia. O dinheiro jorrou e alavancou a economia. O elevador social funcionou até ao ponto em que o sonho de ter uma casa se tornou uma realidade possível. O profundo desejo de ter uma casa própria concretizou-se. Num país em que as atividades produtivas foram sendo abandonadas, a construção civil afirmou-se como suporte da estrutura económica e fonte de financiamento oficial e oficioso.
Os prédios apareceram como cogumelos, numa conceção de desenvolvimento segundo a qual uma localidade, para se poder considerar desenvolvida, tinha de ter, pelo menos, um prédio com dez andares, meia dúzia de rotundas e um clube de futebol na primeira divisão. No mundo rural, os pedaços de terra antes agricultados foram transformados em terrenos de construção, de forma desordenada, com as infraestruturas a irem ao encontro das casas. Desfigurou-se a paisagem com construções de gosto frequentemente duvidoso.
As vidas ancoraram-se na luta para comprar uma casa. Cercearam-se os desejos de ver mundo, de ler, de conviver e de aprender. Grosso modo, a classe média propriamente dita, se é e foi mediana em posses, porque tem um teto a que pode chamar seu, revela-se parca em opinião fundamentada, pouco exigente na reivindicação dos seus direitos e pouco disponível para partilhar o exercício da cidadania.
Tudo se foi mantendo até que chegou um dia que já não era igual aos outros. O país foi descoberto como um excelente destino turístico e de investimento. As casas começaram a ser cobiçadas enquanto ativos geradores de rendimentos desalmados, sem lógica que possa ser sustentada ou explicada pelas teorias da economia enquanto área do conhecimento.
As cidades deixaram de ser para as pessoas. Passaram a ser meros corredores. As portas dos imóveis fecharam-se a quem procura uma habitação que lhe sirva de ponto de partida para a construção de um lar.
Neste primeiro quartel do século XXI, a geração com a vida no outonecer, está devidamente estabelecida e já não tem de dormir ao luar. No entanto, os que vivem na primavera da vida, pura e simplesmente, não conseguem aceder a um espaço digno que lhes sirva de ninho.
Incompreensivelmente, sentem que o futuro lhes está a ser roubado. Querem começar a construí-lo, mas falta-lhes o chão. A nação destrutura-se. O país prostituiu-se. Respeitáveis senhores e honoráveis empresas, lucram muito, no imobiliário sem regras que nos imobiliza.
O Estado falhou-nos.

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