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O Sistema de Saúde no Tempo do Meu Avô

João Araújo Correia – Medicina Interna na ULSSA

O Avô João de Araújo Correia exerceu medicina até poucos meses antes de morrer a 31 de Dezembro de 1985. Era um Clínico Geral assumido, capaz de enfrentar qualquer doença, ou de reconhecer a tempo uma gravidade ou complexidade maiores, que o obrigassem a consultar os seus mestres no Porto. Os doentes vinham de todo o Douro vinhateiro ao seu consultório na Rua Maximiano de Lemos. O consultório era uma maravilha, porque espelhava tudo aquilo que era suposto poder ser feito por um Médico de província capaz! Enorme, com uma marquesa para o exame físico do doente, uma mesa ginecológica de observação das Senhoras e dois armários de metal branco com todos os utensílios clínicos possíveis. É claro que também pontificava a secretária, onde estava a indispensável máquina de escrever em que passava as receitas e as três cadeiras da praxe, para o Médico, Doente e familiar.
Segundo me consta, o Museu do Douro tem quase todas as peças desse consultório numa arrecadação invisível. Talvez um dia alguém se lembre de o recolocar com a dignidade que merece no espaço museológico, como preito de homenagem ao Médico de Província. Nos Picos da Europa, em Potes, na Cantábria Espanhola, há um monumento ao Médico Rural, que com o seu burrico ia a casa dos doentes. Não tem nome. É uma homenagem bonita a todos os Médicos que tiveram a coragem de exercer medicina naquelas condições. Pode ser que sirva de inspiração!

O Dr. João Correia era conhecido como “a Caixa dos pobres”, numa alusão á Caixa de Previdência existente na altura, um fraco recurso dos necessitados. Só pagava quem podia. Quando se apercebia das dificuldades do doente ou do Pai da criança, acabava a consulta o seu sorriso bondoso e olhar azul delicado, dando-lhe a mão com o medicamento oferecido pelo laboratório como amostra clínica.
Ainda me ressoa na memória a sirene dos bombeiros no seu funeral.
Era um uivo de dor a ressoar pelos montes. As ruas da Régua estavam pejadas de gente de rostos carregados, que queriam despedir-se do Médico amigo e disponível. Pouco lhes interessava a notoriedade nacional que tinha vindo com os livros publicados como contista do Douro. A maior parte daquelas pessoas não eram de ler.
Lembrei-me disto porque ouvi alguém dizer que a defesa do SNS é fundamental para assegurar a igualdade entre os Portugueses no acesso á saúde. É bem verdade!
Tenho um orgulho imenso na vida de médico do meu Avô, mas naquele tempo a saúde das pessoas dependia do sítio onde nasciam, do dinheiro que tinham e da sorte de encontrarem um médico em missão de sacerdócio.
Não nos deixemos enganar por seguros de saúde para todos, que não cobrem os custos de coisa nenhuma. A Medicina Privada deverá continuar a ser supletiva do SNS, por exemplo para a realização de exames subsidiários, que poderá fazer com maior eficiência e menores custos. A livre escolha dos cuidados de saúde entre o Público e o Privado, fará do SNS o amparo dos pobres, com o retorno ás desigualdades de outrora!

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