Mais velha e mais apaixonada
O dia de aniversário é um bom dia para escrever um texto. Escrever um texto sobre o amor .
Talvez tenha ouvido por aí alguma vez que o amor basta. Talvez tenha percebido ao longo do caminho que o amor não basta. Sem amor não se constrói nada. É verdade. Mas só com amor, também não.
Amar é dedicar-se a alguém em exclusividade. Exclusividade porque o amor que sentimos por uma pessoa não é substituivel por nenhum outro.
Amar é dar a vida, no sentido prático do dia-a-dia. Dar o esforço, o trabalho, o cuidado. Dar o tempo da sua vida. Mas também é dar a vida no seu sentido mais radical. É estar pronto a morrer por essa pessoa, se for esse o caso. E cara alegre porque a vida do outro vale tudo.
Ainda que o amor seja tudo isso e não seja pouco, o amor no casamento implica umas outras coisas. Amar o marido ou a mulher é amar alguém que vê o mundo a partir de uma outra perspetiva, que sente as coisas de outro modo e que precisa de outras questões. Apesar de todas essas diferenças, temos a certeza que aquela pessoa é a nossa pessoa, que é com ela que queremos percorrer o caminho e que é com ela que o nosso ser faz sentido.
Mas o amor no casamento precisa de paixão.
As vezes, parece-me que casamento e paixão são antónimos ou que o primeiro anula o segundo e, por isso, deixa de ter piada. Não vale a pena casar. Ou não vale a pena ficar casado/a.
O casamento religioso por si só não anula nada. Pelo contrário, ele adiciona graça divina a algo que se for visto só no sentido prático e humano, pode acabar por ser visto como um mero contrato descartável.
O amor precisa de paixão. A paixão é aquele pulsar que faz querer estar com o outro. É aquela força que alimenta o amor, que não deixa que o hábito sufoque os dias. A paixão é a força que nos impele a procurar o olhar do outro, a querer o seu toque, a desejar as suas palavras.
O amor para permanecer vivo pelos tempos dos tempos, atravessando aventuras e desventuras, precisa de paixão. O marido tem de ser apaixonado pela sua mulher. A mulher tem de ser apaixonada pelo seu marido. Apaixonados naquele mesmo sentido com o qual os jovens empregam a palavra.
Apaixonados como se o amor e uma cabana bastasse. Como se num baile de principes e princesas, só um olhar fosse importante.
Ás vezes, o casamento afasta-se da paixão por comodismo, por rotina, por falta de projetos comuns, de investimento em tempo juntos, mas também porque “até parece mal”. Parece mal dizer que se é apaixonado pela mulher, pelo marido. Que se continua apaixonado por aquela pessoa, aquela alma, aquele corpo, com cabelos brancos, mais ou menos peso, rugas, manias, achaques, doenças.
Estar apaixonado fica mal (mas sabe bem) a partir de uma certa idade. A paixão vai sendo banida do vocabulário, próprio de gente crescida.
Atrevo-me a dizer que é melhor ser apaixonado do que amar. Ser apaixonado é não ver mais nada à frente, é ter sempre brilho nos olhos, encantamento, sedução, entrega e toda a alegria que advém desse pulsar interior que ilumina tudo e que é o que de melhor podemos dar aos nossos filhos.

Rita Gonçalves



