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MATOS SÁ, Belmiro Benvenudo de

Nasceu em Vila Flor, em 1848. Faleceu em Dezembro de 1910. A sua biografia, mais parece um romance. O Semanário Terra Quente, de 15.8.2001, conta essa biografia que, por curiosa, aqui se reproduz na íntegra:
Teria uns 14 anos quando se meteu em um barco rabelo, na Foz do Sabor, em Julho de 1862, a caminho do Porto. Levava consigo 640 réis, que foi o preço exato que o barqueiro lhe cobrou pelo seu transporte e pelo saco onde levava alguma roupa e a merenda para a viagem. Sem um tostão no bolso, procurou a casa de um vizinho seu de Vila Flor, um tanto mais velho e que estava no comércio dos vinhos do Porto: Eduardo da Costa Morais. O melhor que este pôde arranjar-lhe foi um emprego de aprendiz de latoeiro e de fundição numa oficina da Rua Escura. Do emprego não recebia nada e ainda teria de reembolsar o patrão pelas despesas de dormida e alimentação. Passando um mês, o pai foi buscá-lo, mas ele não quis voltar a Vila Flor. Aceitou, porém, os 90$000 réis que o pai lhe ofereceu e com eles pagou ao patrão.
Findo a aprendizagem, foi logo para a casa do sr. Custódio Cardoso Pereira, na Rua do Almada, para aprender a construção de relógios e de instrumentos de música. A propósito deste homem, refira-se que também ele começou como latoeiro, mas foi o fundador da primeira oficina de instrumentos de música que houve em Portugal, exatamente aquela que, regressado de França, acabava de fundar e que, dois anos depois, em 1866, ganhava o concurso aberto pelo Ministério da Guerra para o fornecimento de instrumentos musicais ao Exército. Pois foi para essa oficina que Belmiro entrou, provavelmente ajudando na construção daqueles instrumentos, agora já com o ordenado de 300 réis por dia.
Mas no Porto e naquela oficina eram demasiado estreitos os horizontes que se abriam ao jovem Vilaflorense. Aguentou lá apenas um ano. É que, entretanto, conhecera o célebre músico portuense Hemani Braga que residia em Lisboa e que também tinha uma Casa onde se vendiam instrumentos musicais. Mas não foi aí que Belmiro ficou. Foi na Casa de Veríssimo Alves Pereira, também de fundação recente e igualmente fabricando instrumentos musicais. Apareciam, entretanto, os contadores de água e pouca gente havia que soubesse colocar e consertar tais objetos. Engenhoso que era, o nosso conterrâneo espreitou a oportunidade e não lhe foi difícil entrar como técnico encarregado da colocação de contadores para a Companhia das Águas de Lisboa. Corria-lhe bem a vida mas… em Junho de 1867, foi acometido por uma doença que o reteve durante dois meses internado no hospital. Quatro dias depois do regresso a casa, no dia 14 de Agosto daquele ano, à uma hora da manhã, um incêndio devorou-lhe a casa e ele salvou-se fugindo pelo telhado. Ficou apenas com as ceroulas que tinha vestidas. A notícia chegou a Vila Flor pelos jornais e a família apressou-se a mandar-lhe o dinheiro necessário para o regresso a casa. Estava como no princípio. Só que agora teria já os seus 20 anos, aprendera muita coisa, conhecera muita gente e mantinha a mesma gana de trabalhar e subir na vida a pulso.
Pediu 45 mil réis emprestados ao Sr. João Pedro Miller e estabeleceu uma pequena oficina onde ia concertando relógios, sombreiros e o que mais aparecia de suas artes. Casou com uma filha do Sr. José Luís Pimentel e abriu um pequeno comércio onde vendia quase tudo o que então era essencial na vida da comunidade de Vila Flor. O negócio floresceu e, em breve, o Sr. Belmiro Benvenuto de Matos Sá começou a ser procurado por caixeiros-viajantes e diretores de companhias de seguros e de bancos. A sua Casa comercial tornou-se logo a maior de Vila Flor e desempenhava as funções de agência de navegação, casa bancária e de seguros.
Entretanto, Belmiro tornava-se também senhor da Quinta do Bem Saúde e nela instalava uma empresa de engarrafamento e venda de águas minerais que rapidamente ganharam lugar cimeiro a nível nacional. Basta reparar nos jornais da época e olhar anúncios de meia página proclamando: Águas de Bemsaúde! As Águas que bebe a Família Real Portuguesa!
A este respeito, publiquei já neste jornal uma interessante crónica política, cuja ação se desenrola em Lisboa com o nosso biografado a fazer-se de morto e a reviver por ação mágica duma garrafinha das suas águas que um polícia apressado foi comprar-lhe à drogaria da esquina. E escrevi já em outro texto que, para assegurar a boa gestão simultânea da sua Casa comercial e da sua empresa das Águas, Belmiro Matos foi o pioneiro nas comunicações telefónicas. O primeiro telefone instalado em Trás os Montes foi precisamente o que ligava a sua Casa à sua Quinta do Bem Saúde.
Em termos de atividade política, refira-se que ele militava no Partido Regenerador e, por várias vezes, assumiu as funções de Administrador e de Presidente da Câmara de Vila Flor. As invejas pelo sucesso empresarial e os ódios derivados da intervenção política deste homem foram também subindo, no acanhado burgo de Vila Flor. E uma ação criminosa foi tão bem preparada e levada a efeito que nunca chegou a descobrir-se se o seu autor, ou autores. Vamos contar.
Aconteceu em Maio de 1892. Eram 11 horas da noite. Fora um dia de feira e o Sr. Belmiro encontrava-se no seu estabelecimento conferindo os dinheiros, as letras de câmbio, as apólices bancárias e de seguros. Batem-lhe à porta e dizem-lhe que há um incêndio no monte de lenha que tinha armazenada no quinteiro. Não há tempo a perder e ele corre a apagar o incêndio, deixando o cofre aberto e os papéis que estava conferindo em cima do balcão. Apagado o fogo, regressa ao estabelecimento, mas… tudo tinha desaparecido. Começava o calvário para Belmiro Benvenuto de Matos Sá. Bancos e seguros, credores aos montes. Devedores, nem vê-los. Nos tribunais instauram-se processos e as hipotecas… a fortuna angariada com tanto sacrifício e trabalho esfumou-se. Mas a determinação deste homem não tinha limites e, em breves anos, reconstruiu a sua Casa e soube manter o respeito e a consideração entre os seus concidadãos.
Faleceu em Dezembro de 1910. A consagração da sua memória e a homenagem pública a este grande Vilaflorense aconteceria no decorrer do II Congresso Transmontano, com a apresentação da tese “Trás os Montes – Terra Nostra” por parte de seu filho, o Dr. António Alexandre de Matos.

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