PINTO DA FONSECA, Manuel da Silveira
Foi 1° Marquês de Chaves. Nasceu em Vila Real, em 3 de março de 1784, filho dos primeiros Condes de Amarante. Dele escreve Eduardo Proença Mamede, no Mensageiro de Bragança, de 3 de agosto de 2001:
Assentou praça com 8 anos de idade no Regimento de Cavalaria do Cais e, findos os seus estudos no Real Colégio dos Nobres, foi despachado alferes a 23 de março de 1797 para uma companhia comandada pelo 1° Visconde da Várzea, Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca, para a praça de Almeida. Em 24 de junho de 1802 foi promovido a tenente e graduado em capitão a 18 de janeiro de 1804. De salientar e lembrar que de 1793 até ao final do século, seu pai foi encarregado de exterminar os frequentes bandos de salteadores que infestavam a raia portuguesa acima de Chaves. Por decreto de 6 de março de 1801, o pai do 1° Marquês de Chaves foi promovido a sargento-mor e nomeado comandante-chefe das Companhias Francas das Províncias de Trás os Montes e, por decreto de 19 de maio do mesmo ano, comandante dos voluntários de Trás os Montes.
Regressando a Manuel da Silveira, quando, em 1808, os franceses invadem a nossa nação, é promovido a major de um batalhão de voluntários de Trás os Montes e concorre com seu pai para a insurreição da província aos invasores. Fez a Guerra Peninsular com o posto de coronel e, em 1815, é elevado a brigadeiro, sendo os seus serviços recompensados com a concessão de uma segunda vida do título de seu pai, e obtém mercê duma comenda da Ordem de Cristo. Em junho de 1819 foi nomeado governador da praça de Valença, e em março de 1820 promovido a marechal de campo.
Em 1821 morre seu pai e Manuel da Silveira herda todos os vínculos da casa paterna. Completamente adverso aos princípios liberais impostos após a Revolução de 1820, consegue revoltar as tropas de Trás os Montes em 1823, onde o seu prestígio e influência eram enormes contra o governo representativo. Esta rebelião só foi dominada depois de muitos encontros com as forças, para lá enviadas, comandadas pelo general Luís do Rego (depois Visconde de Geraz do Lima), batendo-o completamente a 25 de março e obrigando-o a procurar refúgio em Espanha.
Após o golpe militar que ficou conhecido como “Vila Francada” e que deitou abaixo a Constituição, reinstaurando a Monarquia Absoluta, Manuel da Silveira entrou vitorioso em Lisboa com o que restava das suas forças militares, no meio das maiores ovações e aclamações, tendo os membros que governavam por D. João VI devotado as mais elogiosas palavras e gestos ao herói, concedendo-lhe o título de Marquês de Chaves (em três vidas), por Decreto de 3 de julho e Carta de 25 de outubro de 1823, promovendo-o a tenente-general, concedendo-lhe a Torre e Espada e o rendimento de 2.400$000 réis em bens da Coroa para fruir nas três vidas do título.
Quando El Rei D. João VI regressou do Brasil, não só confirmou-lhe as benesses concedidas pelos governantes na sua ausência, bem como concedeu-lhe o cargo de Conselheiro de Guerra e uma pensão de 1.600$000 réis pagos pelo real Erário. Foi nesse ano de 1823, mais propriamente a 16 de julho, que Manuel da Silveira casou com D. Francisca Xavier Telles da Silva, dama das Rainhas D. Maria e D. Carlota Joaquina, filha. Aliás, não houve geração.
Falecido D. João VI e promulgada a Carta Constitucional pela Regente, a Senhora Infanta D. Isabel Maria, em nome de D. Pedro IV, volta o Marquês a revelar-se, tendo revoltado os soldados de Vila Real; mas, vendo a impossibilidade de manter a situação e sair vitorioso, volta a refugiar-se em Espanha. Apoiado pelo partido apostólico espanhol, consegue organizar um batalhão e conquistar Bragança, prosseguindo para sul, mas sendo os seus homens derrotados pelas tropas comandadas pelo Conde de Vila Flor, em janeiro de 1827. Chegando D. Miguel a Lisboa e sendo proclamado Rei, em 1828, logo o mandou chamar, tendo-o recebido na corte como vulto de primeira grandeza, dada a sua constante dedicação à causa então triunfante.
O 1° Marquês foi senhor das honras de Nogueira e de S. Cipriano, do morgado do Espírito Santo, em Canelas, e das Casas do Cardido e do Patim, em Ponte de Lima, par do Reino (1826), Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada e da de S. Luís de França, Comendador das Ordens de Cristo e de Aviz, condecorado com a medalha por 7 campanhas da Guerra Peninsular e com a medalha espanhola de Comando pela Batalha da Vitória.
Quis o destino que morresse a 7 de março de 1830, não chegando a presenciar a Guerra Civil e a acreditar que o Absolutismo jamais acabaria durante a vida de D. Miguel I.
Resta apenas aqui mencionar um detalhe interessante como epílogo da história da sua vida. Disse que o Marquês não teve filhos do seu casamento; porém, fora do matrimónio, e de uma “senhora viúva e nobre”, deixou uma filha legitimada, D. Maria da Soledade da Silveira Pinto da Fonseca. O documento de legitimação é deveras curioso, pois não só o pai a pede, como a própria Marquesa, sua mulher, faz o mesmo, determinando que “seja legitimada e havida por legítima como se de legítimo matrimónio houvesse nascido”, e a sua filha caberia herdar todos os bens de seu pai, quer os de raiz, quer aqueles que a Coroa concedesse, “por ser esta a expressão da Nossa Real Vontade”, como cita o documento.
Esta senhora nunca se encarregou do título a que tinha direito, mas casou duas vezes: a primeira com seu primo Francisco da Silveira Pinto da Fonseca, filho do Visconde da Várzea, já citado, e de sua mulher e prima D. Mariana da Silveira Pinto da Fonseca, e a segunda com José Simplício Cardoso Pinto de Moraes Sarmento, senhor da Casa de Breis, junto a Arcos de Valdevez. Só do primeiro casamento houve um filho, Manuel da Silveira Pinto da Fonseca, que nasceu em Santiago de Brandara (Ponte de Lima), a 17 de agosto de 1842, e morreu no Porto a 5 de novembro de 1893, sem nunca ter se habilitado no título de seu avô.
Eduardo P. Mamed