POR FRANCISCO GOUVEIA, ENGº
Na balbúrdia da noite eleitoral, coberta por todas as estações de TV, e onde todos os comentadores e mais um, disseram o mesmo só que por palavras diferentes, parece que houve um “encolhimento geral” e uma obsessão de definir quem ganhou ou perdeu.
Por isso muito ficou por contar, especialmente a frieza de análise que há muito se arredou dos órgãos de comunicação nacionais, freteiros cada qual de seu patrão.
Porque qualquer cidadão que olhe para os resultados percebe quem ganhou, onde ganhou, e quem perdeu e onde perdeu. Portanto eram escusados tantos iluminados que parece tratarem o cidadão como saloios a quem é preciso explicar tudo. E lá foram explicando, se bem que o que de interessante havia a dizer ficou debaixo das mesas redondas.
Vamos a elas:
- Nas autárquicas ganham os partidos que estão há mais tempo dentro do aparelho político, porque em 50 anos de democracia criaram uma teia de relacionamentos e implantação, difícil de combater por partidos mais recentes.
- O PSD ganhou indiscutível e matematicamente, mas não se iluda. O seu líder tem demasiadas fragilidades e beneficiou de erros de palmatória de muitos dos opositores, principalmente do PS.
- Começamos logo pela Câmara do Porto onde os socialistas voltaram, pela terceira vez, a apostar num Manuel Pizarro politicamente desinteressante, sem ideias nem imaginação, uma espécie de “salta pocinhas” que quer estar em todas e, para isso, anda grudado às cúpulas do partido como a lapa à pedra.
- No mesmo partido, em Lisboa, a inenarrável aliança que Alexandra Leitão fez com o Bloco, Livre e PAN, dando a entender que vai mudar a mão fechada na bandeira do PS por uma foice e martelo, esquecendo inclusive o desastre que foi a “geringonça”, faz-nos perguntar: afinal, o que anda o Presidente do PS, o nosso conterrâneo José Luís Carneiro, ali a fazer? Todos sabemos que Luís Carneiro é um diplomata, homem educado e avesso a confusões, mas c’os diabos! Mário Soares também o era, mas quando era preciso dar um murro em cima da mesa, aquilo era um estrondo que se ouvia de Lisboa até à Austrália. A continuar assim, caro José Luís, acaba por ser devorado pela matilha esfaimada do PS que anda mortinha para o esfarrapar logo que a situação se propicie. Porque, verdade seja dita, este PS depois de Costa, parece um saloon do faroeste.
- O PCP tomou a decisão correcta (aleluia, aleluia!) de não participar nesta mistela lisboeta, talvez por ter aprendido (se é que ainda aprende alguma coisa) que quando alinhou na geringonça, quem se lixou foi ele. Mesmo assim, o resultado que obteve em Lisboa foi, quanto a mim, bom, se bem que no todo nacional, a perda de 7 Câmaras em 19 que tinha, seja desastroso e resultado de continuar a insistir num modelo antidemocrático de gestão do partido, baseado num comité central ultra sapiente, que se reúne à porta fechada, espécie de Capela Sistina na eleição do Papa, onde depois saem as ordens que os militantes têm de cumprir. É a montanha-russa do lado descendente.
- Quanto ao Chega, os comentadores até se babaram por só ter ganho 3 Câmaras. Estavam à espera de quê? Que, como segundo partido na Assembleia, ficasse também em segundo e conquistasse mais Câmaras que o PS (127 Câmaras). A implantação de um partido a nível do poder local leva décadas, e muitas das vezes o partido já está moribundo, mas localmente continua a mexer (veja-se o caso do CDS, que só está na Assembleia graças à cópia de uma coligação que em tempos deu resultado), mas que ainda mantém 6 Câmaras. Ora o Chega, não tinha nenhuma Câmara, conquistou 3, portanto teve lucro. 134 vereadores em 99 Câmaras e cerca de 2.000 deputados em muitos Assembleias, quer nas Câmaras, quer nas Juntas de Freguesia, não são propriamente uma derrota, e quem subestimar o Chega só por estas autárquicas, vai acordar molhado. Que fique esclarecido que não tenho nada a ver com o Chega, mas tenho lucidez que baste para pensar.
- Finalmente uma nota muito positiva, talvez uma das mais positivas da noite eleitoral, que foi o facto de haver já 20 Câmaras nas mãos de listas independentes, sinal que a moda está a pegar e constituiu uma lufada de ar fresco perante os jogos de bastidores enfadonhos dos partidos do rol da governação.

- Não queria terminar sem fazer uma referência à região duriense, onde é difícil governar, e que se votou sem grandes surpresas e, perdoem-me o desvio, mas porque este jornal tem sede na Régua, dar os parabéns ao José Gonçalves, que considero uma pessoa séria, educada, que fez um percurso autárquico da base até ao topo, e acima de tudo competente. A Régua fez muito bem em reelegê-lo.

- Mas para que não digam que estou aqui a louvar um Presidente do PSD, aproveito por fazer uma referência à minha terra, Tabuaço, e, da mesma forma dar os parabéns a José Patrício do PS, homem também com experiência autárquica, com os meus votos que consiga recuperar o atraso deste concelho depois de 12 anos de uma desastrosa gestão de Carlos Carvalho (PSD).

E pronto, concordem ou não, é o que eu penso. E amigos como sempre.



