Maior Risco da IA nos Jovens no Ensino e Prática da Medicina

Há muitos anos que dou aulas de Medicina Hospitalar ao 6º ano Profissionalizante do Curso de Medicina ICBAS/HGSA da Universidade do Porto. Ensinar o aluno a retirar do doente toda a informação útil, que lhe permite alicerçar um raciocínio clínico lógico, para poder colocar as hipóteses diagnósticas pertinentes, é algo que me continua a dar imenso prazer. Acreditava que após as 9 semanas que os alunos passam comigo, saiam mais capazes e confiantes para o exercício responsável da medicina, no confronto com os doentes reais, dentro de poucos meses. Hoje questiono-me sobre a verdade disto. Será que o meu empenho na transmissão de conhecimentos, de mãos dadas com os pequenos segredos que tornam fluida a comunicação do médico com o doente, só possível com a empatia entre os dois, ainda tem valor?
A Escola fez um inquérito aos estudantes, pedindo-lhes sugestões para melhorar o currículo. Apenas um aluno, confessou não ver utilidade nas aulas práticas com os doentes. Não consigo desvalorizar a opinião daquele estudante singular. É tão disruptiva do meu mundo, que a tomo como sintoma premonitório de uma nova forma de pensar, á qual o ensino médico se terá de adaptar. De nada serve esconjurar as novas tecnologias. Talvez a fórmula certa, seja a sua utilização no lugar e tempo adequados.
A minha preocupação levou-me a ir assistir a um pequeno curso de IA aplicada á Genética Médica. Não sendo a minha área de conhecimento preferencial, confiei que nos dariam formação nos princípios genéricos da IA, aplicáveis a toda a clínica médica. Não me enganei e aprendi imenso naquela manhã. A IA nasceu em 1956, com a reunião de alguns cientistas visionários, no “Dartmouth Workshop”. Os avanços e recuos foram muitos, mas talvez se possa dizer que o ChatGPT, nascido em 2022, tenha marcado a sua utilização generalizada e consciente. Em apenas 5 dias, conseguiu 1 milhão de utilizadores! Nos últimos anos, os sistemas com base na IA passaram a fazer parte das nossas vidas, muitas vezes sem nos darmos conta, tornando indistinguível o atendimento pelo homem ou pela máquina. É o limiar da perfeição!
Da “simples” IA, passamos para a IA generativa e os Sistemas Híbridos, até chegarmos á “Agentic IA”, que consegue interrogar a IA generativa, na procura de respostas cada vez melhores. Daquela IA parasitária de todas as experiências de algum modo relatadas, passamos para os algoritmos de decisão validados pelo homem. Agora, a máquina aprende sozinha e decide o que lhe dá na gana. Assustador!
Segundo me informaram na dita reunião formativa, quatro em cada cinco estudantes universitários usam a IA generativa. Suponho que o aluno que não queria aulas práticas com doentes, seria um deles. É evidente que a IA é um salto científico extraordinário. Uma autêntica revolução do pensamento. A experiência do médico não deixa de ter valor, mas tem de ser confrontada com a informação de milhões de doentes. Portanto, a adoção da IA na clínica tem de ser ampla, desde a procura do diagnóstico á terapêutica adequada a aplicar, embora a confiança deva ser mitigada. A IA erra muito, generaliza muito e ás vezes alucina. É preciso fazer-lhe as perguntas muito focadas, e ser expert na matéria, para poder validar a resposta com autoridade.
Nas gerações mais velhas em que me incluo, a desconfiança é natural. Não acreditamos nas coisas demasiado fáceis. Queremos saber as origens. as fontes utilizadas e o modo como se tiraram as conclusões.
Os jovens gostam do imediato e sem custo. São crédulos, com laivos de comodismo. Compram a comida pronta, sem cuidarem de saber como foi feita, nem terem qualquer interesse por isso. Com eles, a IA pode ser omnipresente e sem críticas.
Em medicina, isso pode ser fatal, principalmente no doente com doença rara ou várias doenças em simultâneo. Habitualmente, estes pacientes são excluídos dos estudos, em que a IA generativa se baseia.
Ensinar medicina tem hoje de incluir a IA. É um auxílio poderoso. Depois de construir uma boa história clínica, que deve redundar numa Lista de Problemas completa, que não deixe para trás nenhuma queixa relevante para o doente, devemos pedir-lhe ajuda. Ela pode lembrar-nos hipóteses de diagnóstico difíceis, com uma rapidez espetacular. Mas, devemos recordar as suas fragilidades, como aquela de lhe ser difícil admitir que não sabe. Quando isso acontece, pode inventar ou alucinar.
O Médico experiente e sensato, sabe que a IA gosta de ser questionada e nunca se cansa na procura de melhores respostas. Se o fizer, mantém-se no comando da decisão clínica, para descanso de todos nós.
João Araújo Correia
Professor Associado Convidado do Mestrado Integrado em Medicina do ICBAS/CHUdSA
Assistente Graduado Sénior de Medicina Interna
Coordenador do Coorte da doença de Behçet da UIC
Diretor da Clínica de Medicina
Ex Presidente do Colégio de Especialidade MI, Ex Presidente da SPMI
Ex Diretor do Serviço de MI, Ex Diretor Pedagógico e Científico



