Opinião

Homenagem ao Senhor Conselheiro Sousa Guedes e à grande mulher que sempre o acompanhou – D. Barbara Valente

Por alguém que teve o privilégio de o conhecer, de com ele trabalhar — e de o admirar.

Há muito tempo era minha intenção apresentar o percurso e o mérito do Senhor Juiz Sousa Guedes acompanhados de palavras justas e merecidas. Nunca tal me foi permitido pela humildade rara que sempre o caracterizou.
Hoje, porém, perante a triste notícia do seu falecimento, sinto que esse dever se tornou inadiável. Não apenas como gesto de memória, mas como testemunho para os mais novos.
Para que saibam que houve homens assim. Que ainda existem exemplos assim.
Lá em cima, perdoar-me-á certamente.
Procuro palavras — e não as encontro. Porque há vidas que não cabem na linguagem. Há percursos que não se descrevem: respeitam-se. E este é, indiscutivelmente, um desses casos.
Enquanto advogado, tive o privilégio e a honra de com ele trabalhar em inúmeras ocasiões, ao longo de vários anos, sobretudo nas comarcas do Peso da Régua e da Guarda.
Cada contacto profissional era, para mim, motivo de satisfação e aprendizagem — não apenas pela exigência técnica, mas pela nobreza humana da relação.
Já conhecia, aliás, o rasto luminoso que deixara em Melgaço como Juiz da Comarca, nos anos de 1966/67, quando ali tomei posse como Delegado Interino do Procurador da República, em 1970. Mesmo sem contacto direto, essas referências tocaram-me profundamente. Nunca lho disse. Saber-lo-á agora certamente.
Não era homem de palavras fáceis, de simpatias artificiais ou de gestos calculados. Não fazia parte do seu carácter. Era, isso sim, possuidor de uma inteligência superior, de uma humildade genuína e de uma cultura jurídica profunda.
Sempre preferi trabalhar com quem me exigia, com quem me obrigava a pensar, com quem me desafiava — mesmo que reservado — do que com os simpáticos vazios.
O Senhor Juiz Sousa Guedes foi:
Um magistrado de excecional brilho intelectual;
Um homem humilde, sem vaidades nem ostentação;
Um observador atento, sagaz e rigoroso, capaz de distinguir a verdade da aparência;
Um respeitador absoluto da dignidade humana;
Um profundo conhecedor do Direito e da vida;
Um juiz de causas, mas sobretudo de pessoas.
Mais, considerava-o além de Juiz sabedor, Juiz sábio.
Vi-o, por diversas vezes, recentrar processos, orientar colegas, devolver profundidade a debates que se tornavam superficiais. Fê-lo sempre com discrição, serenidade e sabedoria — próprias dos verdadeiramente grandes.
Foi sempre um homem impoluto.
Um magistrado íntegro.
Um cidadão exemplar.
Um homem de apenas duas causa: Justiça/Família.

Mas seria injusto falar da sua grandeza sem falar da senhora mulher que esteve ao seu lado durante toda a vida.
Ao seu lado esteve sempre a Senhora D. Bárbara Valente — companheira, pilar, referência moral e afetiva. Mulher excecional, de rara inteligência, emocional, de enorme capacidade humana, de uma generosidade silenciosa.
Durante mais de sessenta e seis anos vida em comum e sete de namoro, partilharam não apenas um casamento, mas um verdadeiro projeto de vida.
Um caminho feito de respeito, lealdade, sacrifício, entrega e amor.
A Senhora D. Bárbara viveu toda uma vida para os outros.
Para o marido. Para os cinco filhos.
Para a família. Colocou sempre o bem dos seus acima do seu próprio. Discreta, firme, presente. Forte sem ostentação. Nobre sem alarde.
Na semana passada, partiu. Pouco dias antes daquele com quem caminhou toda uma existência.
Partiu como viveu: com dignidade.
A sua memória merece, também ela, ser eternizada. Porque por detrás de um grande homem esteve sempre uma grande mulher. E, neste caso, uma mulher verdadeiramente excecional.
Uma das filhas seguiu a carreira do Pai, honrando esse legado — como bem diz o povo, filha de peixe sabe nadar. Confesso, com humildade: não tenho palavras suficientes, nem já idade, para dizer tudo o que merecia ser dito. Fica este testemunho — simples, mas sincero e sentido.
Lamento, profundamente, que os Municípios, um onde nasceu e o outro onde serviu com tanta dignidade nunca lhe tenha prestado a homenagem devida. Talvez porque a grandeza incomoda. Talvez porque não rende votos.
Ou talvez apenas por desconhecimento que avivamos.
Mas a história saberá fazer justiça.
Mais, foi Presidente da Comissão de Eleições com o mesmo sentido institucional, rigor e honra que marcaram toda a sua vida. E a sua ascensão ao Supremo Tribunal de Justiça foi natural — consequência lógica de uma carreira irrepreensível.
A Comissão Nacional de Eleições soube reconhecê-lo.
Ficam estas palavras.
Fica o seu exemplo.
Fica a sua memória.
E fica, igualmente, a memória da Senhora D. Bárbara Valente — companheira de vida, mãe exemplar, mulher extraordinária.
O meu obrigado, Senhor Juiz Sousa Guedes.
A minha homenagem, Senhora D. Bárbara Valente.
Os meus parabéns e a minha solidariedade a toda a família Valente/Sousa Guedes.


Armando Mansilha

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