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E se a resposta à crise científica começasse no primeiro ciclo numa escola do interior? Armamar dá o exemplo

Em Armamar, uma escola rural ensina microbiologia a todas as crianças do 1.º ciclo — um programa pioneiro que alia ciência, criatividade e cidadania ativa para combater a desinformação desde tenra idade.
Longe dos grandes centros urbanos, o Agrupamento de Escolas Gomes Teixeira, em Armamar, lança na primeira semana de junho uma iniciativa inédita: oficinas de microbiologia em todas as salas do 1.º ao 4.º ano, integradas no currículo escolar. Este programa, pioneiro em Portugal, leva a ciência às mãos das crianças, promovendo pensamento crítico e literacia científica desde cedo — num território do interior onde o acesso a práticas científicas continua a ser limitado.

Através de oficinas desenhadas especificamente para esta faixa etária, os alunos vão descobrir o que são as bactérias, onde vivem e por que são tão importantes à vida no planeta, através de experiências práticas, observação, criação e partilha.
Cada oficina combina momentos de experimentação, jogos científicos e a criação de “bactérias de estimação” — com nome e história própria — culminando num momento de apresentação entre pares. Estas atividades desenvolvem competências fundamentais como a curiosidade científica, o pensamento crítico e criativo, a comunicação e a tomada de decisão com base em evidência, promovendo uma literacia científica integrada, onde o saber, o fazer e o imaginar se articulam de forma significativa.
“Como antiga aluna desta escola, sei bem o que significa crescer longe dos grandes centros — e o quanto pode fazer a diferença termos alguém que nos diga: ‘tu também podes ser cientista’. A microbiologia é uma lente perfeita para esse despertar: está presente em todas as esferas da vida — na saúde, na alimentação, na agricultura, no ambiente — e ajuda-nos a perceber como tudo está interligado.
Mas há também uma urgência real: estamos a viver o que a Organização Mundial da Saúde já classifica como uma pandemia silenciosa — o aumento global de bactérias resistentes a antibióticos, uma das maiores ameaças à saúde pública nas próximas décadas.
Falar de microbiologia com os mais novos é, por isso, também falar de futuro: de escolhas informadas, de responsabilidade coletiva e de cidadania científica ativa”
, afirma Raquel Branquinho, cientista responsável e mentora do programa.

O piloto da iniciativa foi desenvolvido ao longo dos últimos três anos com alunos do 4.º ano, num processo contínuo de conceção, experimentação e afinação metodológica. Desde a primeira edição, contou com o apoio fundamental da Câmara Municipal de Armamar, que reconheceu neste projeto uma oportunidade concreta para reforçar a educação e o desenvolvimento do território. Em 2025, o programa é alargado a todas as turmas do 1.º ciclo — uma evolução particularmente significativa por acontecer num território do interior, e que mostra que é possível promover a literacia em microbiologia com criatividade, rigor e impacto.
“Queremos que a nossa escola seja um espaço onde se aprende com sentido, onde se desafiam ideias feitas e se constroem caminhos novos. Esta oficina é um exemplo concreto de como podemos integrar a microbiologia no currículo de forma criativa, rigorosa e próxima dos alunos. É assim, com ciência acessível e experiências transformadoras, que construímos uma escola que dá a todos as mesmas oportunidades para descobrir, pensar e sonhar”, afirma Joaquim Duarte, diretor do Agrupamento.
A microbiologia é uma das áreas mais presentes — e simultaneamente mais invisíveis — no nosso quotidiano. Da saúde à alimentação, da agricultura ao corpo humano, está em todo o lado. Ainda assim, continua pouco explorada no ensino básico. Este programa pretende mudar esse cenário: tornar visível o invisível, aproximar a ciência dos alunos com rigor e liberdade criativa, fomentar a literacia científica desde cedo, desafiar estereótipos e abrir caminho a novas possibilidades — pessoais, educativas e, quem sabe, profissionais.

O trabalho desenvolvido nestas oficinas será apresentado publicamente na 3.ª edição da Noite Europeia dos Investigadores em Ambientes Rurais – Armamar, onde os alunos irão partilhar os seus projetos com a comunidade. Este momento reflete uma escola que reconhece os seus alunos como protagonistas da aprendizagem e da descoberta — mas também um território que se afirma como espaço de inovação, participação ativa e valorização do capital científico.
Numa altura em que se discute o papel da ciência na educação e na construção de sociedades mais resilientes, Armamar mostra que não é preciso estar num grande centro urbano para fazer escola — e fazer ciência — com significado e impacto.

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