Histórias de Imigrantes ao Sabor do Verão

A minha varanda em Caminha, é um deslumbramento. A água da foz do rio Minho, reflete a cor do céu e pode ser um espelho perfeito, como um grande lago parado, ou ter ondinhas de espuma branca, quando o vento está de feição. Já vi a água de todas as cores. No verão, é azul celeste, mas também gosto da do inverno, em que parece cor de chumbo, ou á noite, com as cores do povoado espanhol, que se mostra como um quadro de Renoir. As marés alteram de forma drástica a água do rio. Quando em baixa mar, ficam bancos de areia pejados de aves pernaltas de bico grande, que picam a areia em busca de alimento. Pela algazarra que fazem, aquilo deve parecer-lhes uma enorme sopa de peixe. Ao longe, há sempre uma rebentação pegada, onde o rio se encontra com o mar, numa festa branca. O monte de Santa Tecla também se modifica com os humores do tempo, que em Caminha muda rapidamente. Quando está descoberto, está todo vestido de verde, num triângulo a apontar ao céu. É o momento da fotografia clássica da praia de Moledo, a mais linda do mundo, se Nosso Senhor se tivesse lembrado de pôr a água mais quente. Mas, Santa Tecla tem sempre algum pudor, e veste-se com neblinas espessas, que cortam o monte a vários níveis.
Entendem agora a razão de ter tantas fotografias encaixilhadas pela casa, tiradas do mesmo sítio. Tenho com céu vermelho e pequenos barquinhos, a lembrar-me uma paisagem africana. Outra, é de madrugada, com o sol a nascer e as luzes ainda refletidas no rio. Ainda há aquela, com dia limpo ensolarado e Santa Tecla omnipresente, a anunciar um bom dia de praia. Em todas elas, a meio do rio, está um barco de pesca, com o casco branco e a cabine debruada a laranja.
A 14 de Dezembro de 2025, uma onda traiçoeira fez embater um barco de pesca contra uns rochedos junto do Forte da Ínsua. Afundou-se em segundos. De nada valeu a grande experiência do mestre, que se salvou por milagre. A tripulação era de quatro pescadores Indonésios, mas só um foi resgatado com vida. Os três pescadores Indonésios foram dados como desaparecidos. Pelo que me pude informar, os Indonésios são o motor da pesca industrial e de cerco em Portugal, em Vila do Conde, Póvoa de Varzim e Peniche.
O barco naufragado, é o meu barquinho colorido das fotografias. É-me doloroso deixar de o ver!
Um amigo meu também gosta da minha varanda. Sentiu como eu a falta do barco, e impressionou-se com a desgraça dos Indonésios. Ali mesmo, contou-me outra recordação a propósito.
Em Novembro, com quatro graus negativos, andava a calcorrear as fraldas do marão de espingarda ao ombro. A esperança de ver uma perdiz era pequena, mas o passeio valia a pena, quanto mais não fosse para passear o cão. Thor, estava nervoso como sempre e começou a ladrar como um louco, ao ver um pastor ao longe a guardar o seu rebanho. O meu amigo sossegou o cão e foi caminhando em direção aquela figura esguia, vestida com um casaco pesado e de cara tapada com um pano preto. Queria saber a direção para Mafômedes. Não teve sorte. O homem era um negro do Mali, que falava um francês arrevesado e não sabia bem onde estava, quanto mais onde era Mafômedes!
Estas duas histórias, são um tributo ao respeito que devemos ter pelos Imigrantes, que tudo fazem para melhorar a sua vida e começam a ser essenciais em tantos trabalhos, que os Portugueses deixaram de querer.



