MORAIS, Graça Pina de
Médica e novelista (Porto, 1929 – Lisboa, 1992). Embora tivesse nascido no Porto, onde seu pai, o oficial do exército e escritor (pertenceu ao movimento da “Renascença Portuguesa”) João Pina de Morais vivia, as suas origens radicam na região de Vila Real e de Mesão Frio, de onde sua mãe era natural, por este lado vindo a ser sobrinha do escritor Domingos Monteiro (Ver Monteiro, Domingos). Na província duriense viveu parte da infância, havendo a sublinhar que a sua obra novelística, de inspiração memorial, é motivada por temas da família, da infância rural, para além de aspectos sociais. Viveu depois em França, com os pais, voltando ao país com a idade de seis anos, em 1935. Obteve a licenciatura em Medicina na Universidade do Porto (1951), radicando-se depois em Lisboa, exercendo, como radiologista, funções nos Hospitais Civis, e como professora no Instituto de Orientação Profissional. Foi muito das relações do dramaturgo Bernardo Santareno, chegando Manuel Yoppe, nas suas Memórias, a admitir que ambos tivessem vivido uma paixão frustrada.
Com o pseudónimo Bárbara Gomes estreou-se com duas novelas (Sala de Aula e Os Semi-Deuses, 1953), mas logo passou a publicar com o nome próprio. Os seus escritos, contos, novelas e romances, de funda penetração psicológica, de dramatismo existencial, com uma radicação telúrica, atingem momento maior no romance A Origem, que lhe consagrou os dotes literários. Ousamos recuperar o estudo que lhe dedicámos e que julgamos não ter chegado ao seu conhecimento:
«Pertencendo à geração que ora roça pelos trinta anos, Graça Pina de Morais fugiu ao mote que, por motivos sobremaneira históricos, se tornou pertença de quase todos os artistas escritores seus contemporâneos de geração. Se David Mourão Ferreira, Cardoso Pires, Fernanda Botelho, porventura dos mais representativos, procuraram realizar-se e realizar uma obra de ambiente citadino, Graça Pina de Morais – salvo em dois ou três contos – deixou a cidade em demanda da serra. Não se trata de uma luta geracional entre as serras e a cidade por ser um pouco absurdo se levarmos em linha de conta que todos os de trinta anos foram, de uma maneira ou de outra, catalisados pelo ambiente europeu do pós-guerra. Trata-se, aqui, de um diálogo de preferências entre aquilo que cada um melhor sentiu, na involução do momento. Os primeiros assentaram na cidade porque se convenceram de que aí estava a síntese necessária de um Homem. Graça Pina de Morais, porque não haja sentido a cidade, foi em busca de um outro ambiente, esse mesmo que representava em si cultura primeira. Enquanto que os seus colegas assumiram, não raras vezes, uma posição crítica perante a sua própria criação e adentro desta, Graça Pina de Morais não. Olhou com amor, sim. Mas amor não é tanto crítica como será, sobretudo, o resultado de uma crítica. Assim, estas atitudes (crítica e posição objectiva) explicam um caminho. A ficção portuguesa está indo, hoje mais do que outrora, ao encontro da cidade. Até escritores que passaram quase quarenta anos com temas rústicos, encontraram na cidade um motivo que os prendeu. Parece que o bulício e a psicologia daí resultantes se tornaram símbolos e necessidades reais. No entanto essa não é só a verdade. Embora, às vezes, a cidade se reflita no pequeno burgo rural, também pode acontecer que nem os seus pequenos ruídos sejam ouvidos. Ao proceder como até aqui, a autora de Os Semi-Deuses não tem dividido um mundo em compartimentos estanques e incomunicáveis. A relatividade sócio-histórica mantém-se porque há uma contiguidade àqueles. Graça Pina de Morais fugiu, embora sem desprezo mas com renúncia, da cidade e foi para onde “é a mesma selvática, ingénua, caprichosa, e aérea virgem das montanhas que se apraz nas solidões incultas, que vai pelos campos alumiados de pálido reflexo de lua” (Adozinda (Pref.) Almeida Garret).
A primeira leitura do romance A Origem dá a impressão de que Graça Pina de Morais não tem uma capacidade de fabulação suficiente; ou ainda que, ao escrever, não se preocupa com a repetição prolongada de umas tantas palavras, como acontece logo nas primeiras páginas, onde a necessidade de esclarecer um quadro adotou uma forma negativa. Assim, em duas páginas, o leitor nota um ror de vezes as palavras não e nem, uma repetição desnecessária se não empregasse o período curto ou a oração independente. Quer dizer: conclui-se que a escritora ainda não domina perfeitamente o estilo, ao ponto de o saber moldar às precisões da escultura das personagens, à narrativa: que tem dificuldade em encontrar o adjetivo ou o advérbio que mais se adaptam. Mas, deduzido este aspecto negativo que é o do estilo, não nos demoraremos muito nesta falta. Uma outra tonalidade, até certo ponto relacionada com o estilo, nos chama logo a atenção: a presença de um tradicionalismo ou de uma tradição romântico-realista a sugerir o que foi, entre nós, o para-realista em pleno período romântico: Camilo. As palavras de Benedetto Croce bem se podem adaptar ao que romântico-realisticamente se passa em A Origem: “O romantismo procura na arte, sobretudo, a efusão espontânea e violenta dos afetos, dos angores e dos ódios, das angústias e dos júbilos, dos desesperos e dos arrebatamentos” (Breviário de Estética, Benedetto Croce).
De facto, é esta atmosfera que encontramos em toda a obra de Graça Pina de Morais, mormente no seu romance. O facto é que, de um modo mais exacerbado nuns que noutros, esta ordem de emoções e reacções nos aparece em todas as criaturas do romance: na criadita que Moisés perde; em Matilde, em João (o misticismo não iluminado mas antes destruição de personalidade e a construção de uma outra); no próprio Moisés em quem, segundo a autora, “a atracção pelo ser desejado não vinha transfigurada em generosidades loucas”, mas sim em quem “o desejo era intenso, inumano, desespiritualizado”. Continuemos, todavia, na mesma ordem de ideias: todo o romantismo foi profundamente nacionalista e folclórico, o que implica, desde logo, uma espécie de regionalismo. Ora, é este regionalismo superado pela dimensão social de raízes mais profundas que acontece em Pina de Morais. Quase diria das raízes que fizeram Novelas do Vinho do ilustre Camilo. Quer A Origem, quer O Pobre de Santiago não possuem, à priori, senão um interesse de crónica, onde o espírito que vive maiores anseios colocou “nuances” de interesse supra-regionalista. Mas os costumes, os sentimentos, as razões, portam um estigma de algo que a contingência histórico-geográfica não pode amadurecer, tornando-os estilizados. Por isso mesmo, os versos de António Nobre, apostos na abertura (“A prima doidinha…”), estão como que a servir de mote romântico simbolista a um tema que qualquer realista socialista de quarenta aproveitaria. Porque também é certo que, talvez em virtude da pequena extensão da obra, em Graça Pina de Morais ainda não se distingue, cabalmente, o caminho que há de seguir: se um novo neo-realismo de tonalidades românticas anunciadas em O Pobre de Santiago, se o neo-naturalismo romântico esquematizado sinteticamente em A Origem.
Falámos em neo-naturalismo. Não sei o que esta afirmação poderá provocar no espírito atento do leitor. Mas analisemos. Há uma cadeia, fortemente ligada, entre os estilos arquitectónicos que no nosso país encontraram realizações. Existe uma característica fundamental no romântico que se continua no barroco atlântico, e que é, sempre, a presença viva do que de naturalista ou de cósmico está no homem. Diz António Quadros: “o romântico do Norte penetra a natureza e deixa-se penetrar por ela, prolonga a natureza e inspira-se nas suas formas bravias” (Introdução a Uma Estética Existencial, António Quadros). Depois, mais tarde, no barroco atlântico, havemos de encontrar uma série de símbolos, senão a própria coisa em si, e que traduzem um heroísmo, um misticismo, um ascetismo, como assim uma crueldade ou um erotismo. Depois, ainda, passando da arquitectura para a literatura, desceremos até ao romantismo português. E que encontramos? Na base, o mesmo naturalismo românico, o mesmo naturalismo místico (fusão do orgiástico com o renunciador) do barroco… “Disse adeus às ficções do paganismo / E cristão vate cristãos veros faço” (Dona Branca, Garret). Procuremos neste momento a dedução na obra de Graça Pina de Morais. Em O Pobre de Santiago, diz a escritora: “aqueles seres que, não sendo azais, que palpitações da natureza não vibram para além dela”. Aqui, conquanto em muito pouco, está, sincreticamente, algo do que o românico foi antes de a ideia Deus o ter sublimado. Natureza, natureza que nela vive e morre, nela encontra o plano metafísico sem recair num panteísmo. Logo, mais adiante, diz Matilde: “É tão lindo o mundo! Depois, como se tivesse pronunciado uma blasfémia, corrige: É tão lindo o mundo que Deus criou!”. Não é verdade que Matilde possui, ao falar assim, duas pessoas? Uma a que não se sente vibrar para lá do mundo, na acepção de natureza, a que se confunde com o românico enquanto pura construção; outra, a que num caminho se ultrapassou, o românico mais que construção porque culto… Passamos, agora, ao romance. O avô Leonardo é não apenas um homem, mas sim um caminho. Ele representa, na vida da família, o caminho que não se pode deixar sem traição, representa a permanência sob um mito, representa a ancestralidade. Não é apenas o patriarca. É o patriarca endeusado, prestando culto a um deus. Porque assim é, porque avô Leonardo incarna o cruzamento e a mescla, o puro e a linha geracional, ele só tem consciência de que é isso mesmo. Não se dá conta de que toda a sua importância está em ser o homem. Não. Este trecho continua a explorar a profundidade da obra de Graça Pina de Morais, particularmente em relação aos seus personagens e temas centrais, como o misticismo, o telurismo e o simbolismo das relações familiares e da terra. Vou resumir e explicar alguns pontos que surgem aqui para manter a clareza:
Avô Leonardo: O avô representa o ponto de interseção entre o humano e o divino, entre a terra e Deus. A sua figura é simbólica e representa uma força vital que preserva e mantém os princípios mais profundos e tradicionais, confundindo as dimensões sagradas e terrenas de forma harmónica, o que é uma das expressões mais significativas do estilo romântico e telúrico da autora. A analogia com o carvalho de Steinbeck em To a God Unknown evoca a ideia de um símbolo que, após a morte, continua a exercer poder e influência.
João: Filho de Moisés, João é o representante do misticismo telúrico e desespiritualizado. Ele está em busca de uma espiritualidade que é tranquila e ascética, refletindo uma visão de vida mais quieta, renunciadora, mas também profundamente ligada à terra e à herança naturalista. A sua busca por um ideal religioso, com a imagem do “menino Jesus vestido de azul”, revela a sua tentativa de encontrar uma visão concreta e tangível da espiritualidade.
A questão da autora: A crítica aqui é que Graça Pina de Morais parece estar num processo de amadurecimento estilístico. A autora ainda parece estar a desenvolver uma maior clareza narrativa, o que é sugerido pela frase “Não basta a palavra dispersa. Urge o aglomerado e o conjunto que se tornem notórios”, ou seja, há uma necessidade de que a obra se torne mais coesa e com um rumo mais definido. Existe também a ideia de que a autora pode ter dificuldade em consolidar completamente suas ideias e estilos.
Citação de Cherbuliez: A citação refere-se à sinceridade artística como uma virtude profissional do artista. A ideia é que, assim como outras profissões têm seus próprios códigos e virtudes (como o magistrado com a justiça, o soldado com a honra, a mulher com a pudor), o artista deve cultivar a sinceridade como valor fundamental em sua arte. Isso pode ser visto como um reflexo das tensões internas que Graça Pina de Morais sente em sua própria escrita.
Obras citadas:
A autora escreveu tanto na área médica, com livros sobre cuidados de saúde, como também na literatura, com romances, contos e teatro. Suas obras literárias incluem Sala de Aula / Os Semi Deuses, O Pobre de Santiago, A Origem, entre outras.
Ela também recebeu prêmios, como o Prémio Nacional de Novelística em 1969, e foi reconhecida na Academia das Ciências.
Bibliografia:
A obra sobre Graça Pina de Morais foi mencionada por vários estudiosos, como Pinharanda Gomes e outros autores.
A análise crítica aponta para uma autora com uma obra densa, que busca explorar temas de profunda relevância espiritual e existencial, ligando as raízes culturais e tradicionais portuguesas a uma perspectiva moderna e introspectiva. Se precisar de mais detalhes ou quiser aprofundar algum aspecto específico, posso continuar a análise.