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Ano 2010 Francisco Gouveia Engº

Ângelo Minhava (1919, Ermelo), compositor e filólogo, um dos maiores vultos da cultura transmontana e portuguesa do século XX.

Altino Cardoso (1941, Régua), o maior etnomusicólogo português vivo

Fernando Lapa (1950, Vila Real), um dos compositores portugueses de maior reputação mundial

Eurico Carrapatoso (1962, Mirandela), uma das referências nacionais e internacionais da música contemporânea.

Maestro José Ferreira Lobo, um dos mais prestigiados maestros mundiais, fundador e e maestro titular da Orquestra do Norte, sedeada em Vila Real.

(540)

A HOMENAGEM AO MAESTRO,
OU A HISTÓRIA DE UMA SALOIADA
(que nem o Maestro nem o Douro mereciam)

Por Francisco Gouveia

(A Rota do Vinho do Porto homenageou, em Lamego, o Maestro António Vitorino da Almeida com músicos da África do Sul. Os responsáveis do evento chamaram-lhe génio e compararam-no a Beethoven.
O Maestro, ao olhar para os sul-africanos, deve ter pensado que no Douro só há bombos e ferrinhos, e depois de ouvir o que lhe chamaram e as comparações que lhe fizeram, deve ter corado e saído daqui a correr com vontade de nunca mais cá pôr os pés.
Nem o Douro merecia esta saloiada, nem o Maestro a humilhação do disparate)

A Rota do Vinho do Porto, na sequência do snobismo barato que tem caracterizado os responsáveis pela maioria das instituições durienses, e numa atitude perfeitamente descabida a que intitulou pomposamente de “operação de charme”, resolveu levar a efeito uma homenagem ao Maestro António Vitorino de Almeida. Mas fez mais, e pretendeu passar esta homenagem como sendo “uma homenagem do Douro”. Mais tarde, achou que era pouco, e como ninguém estava a ligar patavina ao evento, apelidou-a de “nacional”. Que eu saiba, a Rota do Vinho do Porto não está credenciada por ninguém para fazer (para além das suas competências) seja o que for em nome do Douro. Vai daí, era de prever que havia de sair disparate. Disparate, falta de bairrismo, desrespeito pelos músicos da terra, em suma: um acto do mais puro provincianismo. E o Maestro não merecia ser tratado com provincianismo. O Maestro merecia uma homenagem com outra dignidade.
Mas explico.
Para já, e se era irredutível a intenção da Rota do Vinho do Porto naquela homenagem, e se pretendia que fosse o Douro a homenageá-lo, porque motivo contratou músicos sul-africanos para o recital? Havendo como há na região duriense, dezenas (repito, dezenas) de músicos clássicos cem vezes melhores que aqueles sul-africanos que se apresentaram no Teatro Ribeiro da Conceição, em Lamego?
E que, ainda por cima, ensaiaram, de véspera e à pressa, o que iriam tocar no dia da cerimónia?
É que nem precisavam de sair de Lamego para encontrar músicos à altura da cerimónia pretendida!
Mas há outra questão que toda a gente questiona: que deve o Douro ao Maestro para lhe prestar semelhante homenagem?
Será que, por cá, não haverá músicos de envergadura que merecessem que a terra onde nasceram ou trabalham, lhes prestasse uma homenagem? Alguns de craveira mundial?
Quanto a isto, já lá iremos, mas antes gostaria de citar duas declarações à imprensa que, por si só, de tão disparatadas e ridículas que são, fazem corar de vergonha qualquer duriense sensato que se preze. Ora vamos a elas.
Disse o senhor António José Teixeira, Presidente da Rota do Vinho do Porto, o seguinte: “É um privilégio o Douro ser palco de uma homenagem nacional de um dos maiores génios da música clássica de sempre”.
O Maestro Vitorino de Almeida, génio? Da música clássica de sempre?
Mas como se isto não bastasse, Luís Magalhães, de Famalicão, pianista radicado na África do Sul e que se encarregou da organização da parte artística da cerimónia, acrescentou: “Todas as obras do Maestro são fantásticas. É como Beethoven” (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)
É demais, meus senhores!: chamar de génio ao Maestro, classificá-lo como um dos maiores compositores da música clássica de sempre, e rematar comparando-o a Beethoven, é algo que ultrapassa os limites do ridículo e que deve ter feito corar o Maestro. Vitorino de Almeida não merecia ser tratado com este rodízio de disparates.
E, a bem da verdade, eu bem queria tirar o Maestro desta trapalhada, mas é impossível. Afinal, quem é Vitorino de Almeida? E o que representa, efectivamente, Vitorino de Almeida no meio musical erudito contemporâneo? Como o vêem os seus colegas?
António Vitorino de Almeida tem ligações profundas a três cidades: Lisboa, Caminha (Minho) e Viena (Áustria), essas sim que lhe são devedoras de homenagem. No meio musical, é consensual ser considerado um bom compositor, às vezes com inegável brilhantismo (se bem que com uma obra bastante curta). Contudo, a orquestração não é um dos seus talentos relevantes, segundo alguns colegas. Mas quanto a isto, por aqui me fico. Como pianista, será de craveira mediana, que nunca fez carreira como concertista (como uma Maria João Pires, Adriano Jordão, António Rosado, Sequeira Costa, Pedro Burmester, Artur Pizarro, etc., para citar somente os mais conhecidos dos cerca de 50 pianistas concertistas portugueses actuais com carreira internacional).
Optando pelos recitais informais, ligando com mestria a sua arte inegável de contador de estórias à arte de as exemplificar ao piano, com improvisos virtuosos, é aqui que o Maestro não tem concorrência. Vitorino de Almeida tem este dote de excelência: a comunicação. Nunca ninguém explicou a música e as suas relações com a sociologia, a História, a política, as emoções humanas, como ele. Nisto reside (e já não é pouco) a excelência do seu valor. Costumo dizer que António Vitorino de Almeida está para música como Hermano José Saraiva está para a História. Nem Vitorino de Almeida é um excepcional músico, nem José Saraiva é um excepcional historiador. Mas ambos, são excepcionais oradores e extraordinários comunicadores. E é este poder de comunicação que os torna populares e, porque não, excepcionais, ou não fosse o dom que possuem como algo de muito raro.
Depois de situarmos o Maestro no seu “habitat musical”, deixemos a apregoada genialidade e o malogrado Beethoven em paz. E o Maestro também, que não merece humilhação que o “folclore” desta homenagem desencadeou.
E eu continuo a perguntar: quem dá a conhecer aos próprios durienses os seus grandes valores? Os seus grandes músicos? Será que o Douro sabe que possui um manancial extraordinário de músicos, e em todas as áreas? E que são sucessivamente ignorados pelos “galos do Douro”, os senhores que se assentaram no poder da região como lapas à rocha? Galos que passam a vida a organizar eventos onde desbaratam orçamentos com figuras que nada têm a ver com o Douro? Como é que o Douro se quer impor ao mundo, se não mostra ao mundo o que tem de bom? Porque é que o Douro insiste em ir buscar lá fora figuras que o promovam, se as tem cá dentro iguais ou melhores? Será que esses galos sabem da qualidade imensa que grassa na região? Será que esses galos conhecem os músicos durienses que dão cartas por esse mundo fora? Será que estes galos ignorantes e snobs, sabem do mal que estão a fazer à vida cultural da região, ao ostracizar os grandes músicos que cá nasceram ou cá trabalham, e que são sempre arrumados para um canto?
Para que se saiba, e porque é de músicos que estamos a falar, aqui vão cinco exemplos de músicos transmontano-durienses, que nunca foram homenageados na sua terra com o destaque que mereciam, sendo que, alguns deles, já são mais conhecidos no mundo do que no Douro.

Maestro José Ferreira Lobo, fundador e maestro titular da Orquestra do Norte (que está sedeada em Vila Real), e quem tem conseguido manter esta Orquestra desde 1992. Foi criador das bases das Orquestras Regionais. Maestro reconhecido nos cinco continentes, tem trabalhado com os maiores nomes da música mundial e dirigido muitas das principais orquestras sinfónicas internacionais.

Fernando Lapa é, talvez, o compositor português actual mais tocado no estrangeiro. Com uma obra vastíssima ao nível da sinfonia, da música coral, do concerto e da ópera, é um reconhecido compositor com pergaminhos já assentes na história da música do século XX.

Eurico Carrapatoso é uma referência da música contemporânea portuguesa. Discípulo do saudoso Jorge Peixinho, trabalhou com Lopes Graça (entre muitos outros) e representou Portugal por três vezes na Tribuna Internacional de Compositores da Unesco. Em 2004 foi condecorado pelo Sr. Presidente da República com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.

Altino Cardoso é uma figura incontornável da etnomusicologia portuguesa. Autor da mais vastíssima recolha etnográfica portuguesa alguma vez realizada, alia aos seus profundos conhecimentos musicais uma sólida cultura que lhe advém da Filologia, do Direito, das Ciências Pedagógicas, para além de inegáveis dotes de violinista, tunista e coralista. Deve-lhe o Douro a mais extraordinária recolha etnográfica alguma vez realizada, expressa nos três volumes do seu Cancioneiro do Alto Douro.

Ângelo Minhava é um dos maiores vultos culturais do nosso século XX. A nível da composição musical, poucos como ele souberam integrar na música clássica a componente da música tradicional. Com uma obra imensa e praticamente desconhecida, era tempo da região acordar e dar a conhecer ao mundo as suas composições. Com o que pagaram aos tais sul-africanos, era possível pôr-se em palco algumas das suas sinfonias. Homem de infinita cultura, quem o conhece, sabe do que falo.

Falei destes cinco exemplos. Exemplos de músicos de áreas musicais distintas. Havia, portanto, muito por onde escolher. Exemplos que não queria que fossem confundidos com o exemplo do Maestro António Vitorino de Almeida. Porque o Maestro é um grande músico, como muitos grandes músicos que este país tem, como muitos grandes músicos que este Douro tem.

Falei destes cinco, mas poderia falar de dezenas de outros que existem por esta terra transmontana-duriense, mais novos, alguns de qualidade excepcional, e que, por força dos caprichos dos “Galos do Douro”, encontram as portas fechadas dos palcos da terra onde nasceram ou trabalham.
Nos próximos números, falarei deles. Para que a região saiba o que tem. Para ver se consigo remar contra a maré dos galos, que os ignora.

E depois de os conhecerem (mas só depois) venham falar-me de eventos e operações de charme. Charme que somente uma TV se lembrou de referenciar numa notícia passageira. Dos restantes órgãos de comunicação, nem pio!
O fracasso da intenção deste evento foi, assim, proporcional à patetice da ideologia subjacente a estas realizações: promover o Douro sem usar a matéria-prima do Douro.
E já agora, a rapidez com que a Rota do Vinho do Porto realiza estas “operações de charme”, gostaríamos nós de as ver aplicadas nas competências específicas da mesma, como seja a colocação de meia dúzia de placas de sinalização da Rota, que demoraram quase uma década a concluir.
Isto, se considerarmos que as ditas placas têm algum “charme”.
Algo que duvido.

(541)

QUEM DISSE
QUE OS MÚSICOS DA CASA
NÃO FAZEM MILAGRES?

(O Douro foi construído pelos durienses. O Douro há-de continuar a ser construído e reerguido pelos durienses.
Quando o Douro se libertar dos snobs e incompetentes galos políticos que o controlam, e abrir as portas aos seus músicos, aí sim, o Douro poderá apresentar-se ao mundo com a genuinidade que o consagrou)

Francisco Gouveia, Eng.º

É de música que continuo a falar porque é, para já, de música que se trata. Depois do artigo que escrevi a semana passada, e que tantos “estilhaços” provocou (e está a provocar na vida cultural da região), quem me conhece sabe que quando me meto nelas vou até ao fim. Aliás, as instituições oficiais que têm estado à mercê da minha caneta, e que, mais ou menos veladamente, me vão “condenando” pelo facto de eu criticar e não apresentar (ou opinar) soluções, que se cuidem. Cada coisa a seu tempo. Nunca critiquei nada para a qual, de antemão, não tivesse uma alternativa que julgo mais correcta.
A razão do mau funcionamento das instituições públicas regionais do Douro (e nacionais) é que elas estão dirigidas por quem não é competente para as dirigir: políticos que tanto estão hoje aqui a vender nabos como amanhã acolá a conferenciar sobre as origens metafísicas do universo.
Aos políticos o que é dos políticos, aos técnicos o que é dos técnicos. Contudo, nesta matéria de que vou falar, a música, a questão tem a ver com uma profunda opção política: ou usamos a matéria-prima que cá temos, ou não. Infelizmente, a opção generalizada é de ir buscar fora o que cá temos mais e melhor.
A questão da homenagem ao Maestro Vitorino de Almeida, levada a cabo pelos senhores da Rota do Vinho do Porto, levantou, afinal, o véu a um problema de extensão mais grave: a ostracização a que as instituições durienses votam os seus músicos.
O Museu do Douro, que poderia e deveria ser um pólo fundamental da cultura duriense, transformou-se exactamente no seu oposto. De defesa da cultura duriense, não tem nada. Quis criar um Quarteto de Cordas permanente e foi buscá-lo ao Porto. Disso fez gala como se tivesse descoberto a pólvora. Nunca coloquei em causa a qualidade do Quarteto e o profissionalismo dos seus elementos. Mas também afirmo que, cá pelo Douro, há quem toque muito melhor do que os componentes do referido quarteto. Aliás, esta ideia do Quarteto levou já à exaustão das audiências. É que pão com queijo todos os dias, enjoa. Praticamente que, para se preencherem os poucos lugares do salão do Museu quando toca o quarteto, é preciso ir buscar a casa os ouvintes.
O Museu do Douro tinha nas mãos um manancial inesgotável de excelentes artistas transmontano-durienses, com que, a preço muito mais barato, poderia programar recitais e concertos ao longo de todo o ano, de forma variada e muito mais cativante para o público. O intercâmbio com as instituições que, na região, ensinam ou praticam música, é nulo. Os músicos durienses não têm entrada no salão do Museu. Não têm entrada numa das melhores salas de visita do Douro. Pura e simplesmente porque a política de gestão cultural do Museu é limitada e centrada no que é mais fácil de fazer: exposições e palestras. Trabalha-se pouco, no Museu. Os intercâmbios com as instituições da própria região, são quase inexistentes. E, acima de tudo, é o mau exemplo que o Museu dá. E aqueles que, na raiz, têm a obrigação de fiscalizar o trabalho do Museu, alheiam-se. Falo da Administração da Fundação, pois quem deveria ser?
Por exemplo: sendo o Museu vocacionado para o Douro, existe lá dentro alguém, ou algum programa, ou alguma intenção de criar um Departamento de estudo, recolha e divulgação da etnografia e etnomusicologia do Douro? Que raio de Museu é este que nunca pensou nisto? Onde está o levantamento do património folclórico da região? Sabem, porventura, quantos Ranchos Folclóricos existem no Douro? Quantos Grupos etnográficos? Quantas Bandas Filarmónicas? O que fazem e o que ensinam? Os projectos que têm? Qual o contributo que podem dar à História e Património duriense?
Zero!
E o relacionamento com os músicos da região? Sabem quem são? Onde estão? Que contributo podem dar ao Museu?
Zero.
E as escolas de música da região? Onde estão? Que fazem? Que divulgação estão dispostos a dar-lhes?
Zero.
O Museu do Douro padece de males antigos. Herdou vícios e defeitos de uma anterior Direcção que, também, pouco ou nada ligou aos músicos (e artistas em geral) do Douro. Pensava-se que as coisas iriam mudar, e apoios nesse sentido, não faltaram – inclusive o meu e o deste Jornal. Enganámo-nos todos. O Museu tem muita gente nos seus quadros mas poucos especialistas. Ou quase nenhuns. O trabalho que desenvolvem, para a envergadura da estrutura, é irrisório. E talvez que, ao seu actual dirigente (que afinal é arquitecto, e com certeza um bom arquitecto) não se possa pedir mais.
Para se dirigir uma estrutura como o Museu do Douro, é preciso ter um passado de intervenção cultural, profundo. Não basta ser-se culto.
E aquela excelente casa, está para ali para que os músicos durienses a olhem de fora. Lá dentro, não entram porque não os chamam. Não os deixam. E mesmo a propaganda com que certos “seguidores interesseiros” louvam a “excelência do trabalho desenvolvido”, é suficiente para calar a mágoa dos artistas desta terra.
Mas que se pode pedir a uma instituição que, em vez de tratar da cultura do Douro, resolve fazer concorrência aos restaurantes e aos bares locais, mesmo ali ao lado?

Mas, a posição do Museu do Douro é um claro e transparente espelho da forma como as entidades oficiais da região tratam os seus conterrâneos. Disparates como as passeatas de embaixadores (com música, claro), até aos Festivais de Cinema, ao Jazz nas vindimas, a esta bizarra homenagem da Rota ao Maestro, e por aí adiante, são exemplos de que os políticos, para além de governarem mal este país, quando se metem em matéria de natureza cultural, do disparate passam ao erro grosseiro. Sabem pouco, estudam pouco, não se informam, não ouvem quem sabe, não aprofundam as matérias e, muito particularmente, olham para o umbigo antes de olharem para os olhos dos que servem.

Até o Teatro de Vila Real, equipamento único, e cuja gestão não posso deixar de louvar virtudes de organização, intercâmbio, iniciativas de muita qualidade, tem também esta opção que, quanto a mim, estraga todo o trabalho que tem feito: não tem como opção prioritária a divulgação dos músicos transmontano-durienses. Comparativamente ao número de músicos que por lá passa, os da terra são uma migalha. E o Teatro de Vila Real, que já devia estar numa fase de projecção exterior, continua a ser uma instituição para consumo interno. Demasiado interno. Se a programação musical do Teatro se tivesse alicerçado na matéria-prima regional (e quem o dirige sabe que é vasta e de qualidade) poderia já ter avançado para esta segunda fase. Porque o Teatro de Vila Real é uma instituição fundamental na divulgação da cultura da região.
Mas isto, é o que eu penso, e admito que quem lá está, não pense como eu. Lamento, mas tenho que admitir.
Se quem lá está entende que nas iniciativas que leva a efeito deve privilegiar os músicos estrangeiros, que lhe hei-de eu fazer? Só posso concluir que a entidade política que a supra entende concorda com as directrizes e, sendo assim, concluo que, mais uma vez, se trata de uma opção política errada.
Opção errada do Dr. Manuel Martins, pois de quem há-de ser?

Mas falemos dos músicos transmontano-durienses.
Mas quem é esta gente? Esta gente de que falo? Quem são estes artistas, estes músicos?
Aqui vai uma lista, limitadíssima, de músicos de que me lembro. Mas há mais, muitos mais. A maioria está cá, trabalha aqui, geralmente a dar aulas, outros tiveram que abalar porque cá não havia onde tocar. E agora, que há espaços para tal, tudo continua na mesma.

Luís Filipe Santos – clarinetista, membro do Quarteto de clarinetes AD LIBITUM, com vários prémios internacionais. É professor de música.

Nuno Pinto – outro excepcional clarinetista, também membro do AD LIBITUM, também com vários prémios internacionais. É professor de música.

Raul Pinto – Pianista, com inúmeros concertos a solo e com orquestra, em Portugal e Europa.

Nuno Pereira – pianista, actualmente a tirar o mestrado na Alemanha.

Melissa Fontoura – pianista, integra frequentemente orquestras de câmara, ensina em Vila Real.

Nadia Fontoura – cantora lírica, de Valpaços.

Carlos Azevedo – um dos mais consagrados pianista de Jazz portugueses. Ensina no Porto.

Ana Maria Miranda – flautista, integra o Grupo Ensemble, e lecciona em Vila Real.

Jorge Nogueira – violinista, de Lamego, lecciona na Metropolitana de Lisboa.

Alexandre Fraguito – dirige a Orquestra de Sopros de Lamego.

Alberto Mendonça – é da Régua, pianista e professor de piano.

Maria da Conceição Capela – Professora de História da Música e investigadora na área da música portuguesa do séc. XIX

Rui Vilela – Clarinete, professor

Sónia Malvina – violino, professora na Academia de Vila do Conde

José Joaquim – violino na Orquestra Metropolitana de Lisboa

Rui Morais – Contrabaixo da Orquestra de Coimbra

Marlene Gomes – também contrabaixo na mesma orquestra

Mariana Sampaio – Violino, professora e directora do Conservatório de Bragança

Hugo Rodrigues – Violino, professor

Ricardo Matosinhos – trompa. É um dos mais premiados neste instrumento, no estrangeiro

Luís Pedro Andrade – violino, actualmente na Alemanha

Rosa Sá – professora do Conservatório Nacional de Lisboa

Sandra Raposo – viola de arco. Chefe de naipe da Orquestra Metropolitana

Hugo Correia – contrabaixista na Orquestra das Beiras

Luís Trigo – violino da mesma Orquestra.

Joana Pereira – viola de arco da Orquestra do Porto e vencedora de vários prémios nacionais e estrangeiros

Elisa Trigo – Flauta. Consagrada professora.

Refira-se, a título de exemplo, que só o Conservatório de Vila Real possui cerca de meia centenas de professores (MEIA CENTENA) que, entre si, integram quartetos, trios, duos e pequenas orquestras de Câmara.

Orquestra Ligeira Acrolat – com cerca de 30 músicos, especialista em standers da música ligeira e musicais.

E as dezenas de alunos que, neste momento, estão a concluir, nas escolas da região, as suas licenciaturas em violino, trompete, violoncelo, etc., e que já dão recitais?

Todos os que citei, são transmontano-durienses.

Quem olha para esta gente? Que Douro é este em que as suas instituições públicas não conseguem acompanhar o desenvolvimento musical que se processou nos últimos anos? Em que limbo vivem os seus dirigentes?
Como é possível ignorar esta realidade da riqueza musical que a região possui? Que pancadas andam a dar à cultura transmonto-duriense?

Restam-nos ainda, as autarquias, onde se depositam todas as esperanças. Porque esses ainda terão a sensibilidade para entender que, acima de tudo, têm que defender os músicos dos seus concelhos. Por poucos que sejam. E quantos auditórios municipais de grande qualidade não existem por essa região fora, à espera de ver actuar os seus artistas?
A grande volta a toda esta triste situação, acho eu, vai ser dada pelas autarquias. É uma esperança minha. Por dois motivos: porque os políticos das autarquias têm bairrismo, têm uma motivação regionalista mais profunda que quaisquer outros, e porque, também, podem fazer excelentes programas culturais por pouco dinheiro.

O Douro construiu-se com gente do Douro e há-de reconstruir-se com gente do Douro. Estas modernices balofas que a classe política inventa para se mostrar, é moda que há-de passar.
Mas enquanto não passa, gastam-se milhares com estes caprichos. Gastam-se sem pudor, sem sentido do aproveitamento eficaz de recursos, sem noção da situação do país, enfim, sem nada disto mas com bastante irresponsabilidade, ignorância e vaidade. Uma mistura de defeitos, explosiva. Tão explosiva, que um dia destes lhes rebenta nas mãos.
Quem disse que os músicos do Douro não fazem milagres?
É só dar-lhes oportunidade.

gouveiafrancisco@hotmail.com

Nota: fora desta lista falta ainda muita gente, mas a minha memória e o meu arquivo, têm limites. Conheço outros de que não sei os nomes. Aos muitos que aqui estão omissos, as minhas desculpas.
Também aqui faltam músicos e grupos ligados ao folclore e à etnografia. A eles dedicarei um próximo artigo já que, neste, me quis centrar na vertente da música clássica ou, mais ou menos erudita.

(542)

Turismo do Douro (Parte I)

O QUE O DOURO É,
E O QUE O DOURO NÃO É

(Começo hoje a falar do Turismo Douro, numa série de crónicas onde penso debater as várias vertentes do assunto.
Antes de mais, é preciso saber o que o Douro é, mas também o que ele não é.
E depois, esta verdade que é a principal: o Turismo do Douro precisa da vinicultura para sobreviver. A vinicultura não precisa do Turismo para nada.
Por isso, era bom que ambos andassem de mãos dadas – algo que não vejo e me espanta: quem precisa, é quem larga a mão)

Inicio hoje uma série de crónicas sobre o actualíssimo problema do Turismo no Douro.
De uma forma quase histérica, e depois de sérios avisos sobre a problemática da vertente turística a implantar numa região que nunca a tinha experimentado, o facto é se arrancou para um projecto de transformar o Douro num destino turístico, mas sem projecto. Isto é, confundiu-se projecto com objectivo. Objectivos, na vida, podem todos tê-los. O problema é conseguir arranjar um projecto que o consubstancie. De facto, este Turismo Douro avançou para o terreno sem saber minimamente o que ia fazer. Tinha umas ideias sobre o funcionamento da estrutura administrativa, achava que devia dar uns retoques nalgumas imprecisões técnicas, mas não mais do que isso. Para português ver, avançou com um objectivo megalómano: de duplicar o nº de dormidas, não se sabendo bem se se tratava do número de camas, de hotéis ou mesmo de dormidas.
Numa certa fase, e porque não havia (e continua a não haver) qualquer estratégia para o Turismo Douro, a instituição resolveu dispersar e publicitar-se, fazendo-se centro de uma série de eventos inúteis e desgarrados, onde se gastaram dinheiros, cansaram patrocinadores e resultaram somente em ou dois dias de ligeiras referências nas TVs. Tudo muito caseiro, quase regionalista.
Ainda hoje, e passados que vão fartos momentos em que se poderia ter aprendido alguma coisa, e mesmo depois de – ao vê-lo à deriva – a Unidade de Missão lhe ter vindo dar a mão numa demonstração de solidariedade (para uns), mero corporativismo (para outros), se pressente que o Turismo Douro não sabe bem o que anda pelo Douro a fazer. Nem temos esperança que algum dia o saiba.
Passado este intróito, viremos para a realidade duriense.
Para já, convinha acentuar esta verdade: No Douro, a viticultura passa bem sem o Turismo, mas o Turismo não pode passar sem a viticultura.
Esta é a grande verdade que parece andar esquecida dos responsáveis.
Por outro lado, é preciso situar o Douro, e saber o que ele é, mas também o que ele não é.
O Douro é a extraordinária a beleza rural inventada que conhecemos, atestada pela geomorfologia do seu espaço. Mas este espaço, tem muitos espinhos. Aldeias descaracterizadas, onde os centros históricos foram poluídos por construções afrancesadas, construções isoladas que ameaçam a saúde mental dos solares e antigos casais rurais. Caminhos mal tratados, estradas perigosas, falta de equipamentos básicos e serviços.
As próprias unidades hoteleiras que estão na região, deixam muito a desejar em termos de integração no habitat duriense. São unidades hoteleiras que tanto poderiam ser do Douro, como do Porto, de Lisboa, de Valência, ou da Irlanda. Não há, nem nunca houve, uma preocupação em construir de acordo com o que são os parâmetros tradicionais da região. Por outro lado, e maugrado as recentes manifestações gastronómicas de alguns interessados, continua a comer-se mal no Douro. Salvo duas ou três unidades de restauração que sabem o estão a fazer, a maioria é de uma pobreza atroz. Onde está o roteiro gastronómico regional? E de que há-de constar nos menus desses roteiros? O Turismo Douro já catalogou a gastronomia da região? Já estabeleceu as regras para que, quem quiser aderir, possa ser certificada em conformidade?
Há ainda um problema terrível com que se defrontam as poucas unidades hoteleiras, e que se prende com a mobilidade dos seus clientes. Um turista vai ao Porto, sai do Hotel e tem a cidade, ali ao lado, para visitar. Nos grandes centros, é assim. E no Douro? O Turista chega e há-de ficar todo o dia na varanda, a ver a mesma paisagem. Como levá-lo de lá? A percorrer o que merece ser visto no Douro?
A mobilidade do turista duriense é uma das mazelas piores resolvidas.
A falta de planos, ou melhor, de uma estratégia integrada (e a seu tempo iremos ver o que isto de estratégia integrada) que cative o turista e o descanse relativamente à sua voragem natural de conhecer tudo da região, tem sido um factor de desânimo (um terço dos que nos vistam asseguram que, nunca mais cá vêm).
Os passeios no rio, autonomizaram-se, e anda cada empresa a puxar a brasa à sua sardinha. Já desintegradas da globalidade do Turismo do Douro, estas empresas praticamente já prestam todos os serviços, pelo que vão garantindo cada vez um maior número de clientes. Mas, das margens, hotéis e restaurantes, vêem-nos passar.
A Casa do Douro, outrora centro de tudo, magnífico exemplar da arte da construção civil, precisava de se remodelar e readquirir a centralidade palaciana que perdeu. Qualquer região possui um palácio que a simboliza. No Douro, porque não a sua própria casa. Se até já serve para fazer renascer bailes de outrora?
Quanto a mim: a reconversão da Casa do Douro como pólo de toda a região, é uma tarefa que o Turismo Douro devia ter como prioritária (independentemente da reestruturação administrativa da mesma, que isso é outra história).
Estamos numa região vinícola. Essencialmente vinícola. E como é que, numa região vinícola, não se lhe faz, anualmente, a sua sagração?
Povos de todo o mundo, sagram as suas terras, em rituais antiquíssimos de fertilidade e esperança. Ao Douro, sempre faltou essa sagração. Ou melhor, já a teve, noutros tempos em que o povo não necessitava de instituições públicas para o fazer. E depois, se o fizer, será, provavelmente, a única região vinícola do mundo a fazer essa sagração. Este acto, devidamente estruturado, publicitado, e se bem organizado, poderia tornar-se numa referência a nível mundial. Mas, quanto a esta sagração, por aqui me fico. Noutra crónica iremos ver de que se trata.
O Douro é a beleza que vemos, mas também é muita coisa feia que atiramos para debaixo do tapete. Precisamos de ter consciência do produto que pretendemos vender. Devemos ser humildes ao reconhecer que há muita coisa que, por cá, não funciona, ou funciona mal, devemos ter a noção de que grande parte do Douro está estragado, devemos consciencializar-nos que é impossível pretender criar alicerces para um Turismo do Douro, sólido, sem garantir que as bases da viticultura não se desmoronam. Trata-se de um trabalho que não se pode desligar um do outro. Turismo e vinicultura terão de andar lado a lado.
Há, ainda, a forma de publicitar este Douro, feito nos últimos tempos de uma forma caestra, de antanho, como se fazia há vinte ou trinta anos. Hoje em dia não é assim que se promove turisticamente uma região. A vertente comercial, a mais importante, impõe regras, as agências de viagens (as grande vendedoras do Douro e o resto é treta), exige outra organização, outras formas de tabelagem, outras variantes, uma política de preços, e por aí adiante. E o Douro não tem nada disto. Por cá, cada um rema no seu barco e os outros barcos que se cuidem. A divisão, nestes casos de promoção turística de uma região, é fatal.
Entretanto, vamo-nos entretendo a dar passeatas e barrigadas a embaixadores, a organizar Festivais de Cinema, a homenagear maestros, a realizar uns colóquios, a assistir às passeatas dos dirigentes.
Recentemente, e depois de muito avisar, já se acertou aquele 7º lugar EUROPEU na National Geografic, vendido semanas a fio como se fosse o 7º MUNDIAL. Vá lá, que a tempo corrigiram.
E é também sobre este prémio, que a seu tempo falarei. Porque o prémio é inútil e, para além disso, poderá ser até prejudicial para o Douro. Mas para se saber porquê, era preciso que se soubesse o que é a NG, que tipo de “clientes” segue a NG, e o que acontece na NG às regiões que “resvalam”.
Enfim, aqui ficam algumas dicas sobre do que irei falar.
Não quero dar lições a ninguém, porque o que sei foi fruto de ter ouvido e aprendido com quem sabe. É o que devem fazer os senhores políticos quando se sentam nestes lugares de responsabilidade sem que, alguma vez, tivessem contacto com as matérias de que agora são responsáveis.
É preciso estudar muito, meus senhores. Todos os dias e a todas as horas. O mundo não pára.
Ou que esperam? Que o Douro volte atrás para os apanhar?

(543)

Turismo do Douro (Parte II)

A SAGRAÇÃO DO DOURO

Francisco Gouveia, Eng.º

(Será o único evento que poderá trazer mais-valias reais à região: A Sagração do Douro – a Comemoração Anual das Vindimas.
Pensada com cabeça, com organização, com a participação de toda a região, e com objectivo apontado para um acontecimento único a nível mundial poderá colocar o Douro, de vez, na rota dos grandes eventos turísticos internacionais)

Dispersar é distrair, e distrair é a melhor forma de alimentar o esquecimento. Dispersar, tem sido aquilo que o Turismo do Douro tem feito. Apostando, aqui e ali, em iniciativas mirradas de significado, de envergadura, de objectivo. A tal estratégia de que tanto tenho falado, e que não existe no Turismo do Douro, poderia passar por um modelo de concentração. Isto é, em vez de tanto evento que o vento leva, porque não apostar num único. E qual?
Vejamos.
Estamos em terra vinícola. Falar de Turismo no Douro, é falar, essencialmente de turismo ligado ao vinho. Por outro lado, que eu saiba, em mais nenhuma região do mundo se realiza uma grande festa de consagração das vindimas. Há uns arremedos regionais, iguais aos que por cá fazemos, mas sem significado e, essencialmente, sem que tais eventos vindimeiros constem dos programas das operadoras turísticas.
O Douro, como primeira região demarcada do mundo, já há muito que devia ter pensado nisto, e realizar uma grande festa das vindimas que, anualmente, e ano a ano, se fosse impondo no calendário turístico vinícola mundial. Com um pouco de exagero (ou talvez não), como o Carnaval no Rio, como a passagem de ano na Madeira ou em Nova Iorque, como as largadas de Pamplona, etc., etc., etc.
Esta grande Festa das Vindimas, teria que obedecer estritamente à tradição duriense. E teria que contar com a colaboração de todos, desde operadores hoteleiros, autarquias, quintas, associações culturais, bandas de música, ranchos folclóricos, grupos etnográficos, empresas de camionagem, operadores fluviais, em suma, praticamente o Douro em peso.
E com cerimónia oficial, baile de casaca, mas também com arraiais, bailes populares, tocatas, foguetório na ponte e o mais que preciso fosse.
Os auditórios concelhios poderiam encher-se com um programa à feição, tocado pelos inúmeros músicos que por cá abundam.
Pelas calçadas das nossas vilas, ou assentes nos coretos, as 25 Filarmónicas que só o distrito de Vila Real possui, encheriam o Douro de fanfarra. As dezenas de Ranchos Folclóricos da região, também deviam dar-se a mostrar. E os grupos de música etnográfica, que poderiam, em cada canto do Douro, realizar concertos de música portugueses (Só pelo distrito, há cerca de 20).
Esta organização necessitaria de uma Comissão encabeçada pelo Turismo do Douro que planeasse todo este trabalho. Durante, pelo menos uma semana, o Douro teria sobre si as luzes do mundo vinícola, e o difícil seria organizar o primeiro.
Uma grande Festa Popular, na verdadeira acepção daquilo que é popular, e cuja tradição ainda há quem se lembre de saudosas ranchadas, estrada fora, ou nas pisas animadas nas Quintas, num esquema que fosse extensivo a todo o Douro Vinhateiro, e que envolvesse os turistas com recordações de voltarem no ano seguinte.
E que se realizassem as formalidades que achassem por bem. Aposto se a fina-flor do País não estaria presente.
Haveria, contudo, teimosias a limar, como a de tentar convencer o Teatro de Vila Real que, em tempo de Vindimas, não se dá Jazz, dá-se música portuguesa, e conseguir que escolhessem outra data para a realização do tal Festival (contra o qual nada tenho a não ser a infelicidade de ligarem Jazz a vindimas).
A Grande Festa das Vindimas, que hoje se realiza com a pequenez que nos caracteriza e com o amadorismo que nos tolhe, concebida com sentido de perpetualidade, e com grandiosidade capaz de chamar a atenção do mundo vinícola, poderia ser a melhor forma de o Douro marcar uma posição anual no calendário turístico planetário. É que, bem vistas as coisas, não há nenhum evento no mundo que sagre a vindima e o vinho. Pelo menos com a envergadura que está ao alcance do Douro.
Logo, o primeiro que aparecer, tem a vantagem de partir à frente. Isto, antes que alguém se lembre de o fazer.
Não nego que é uma organização complexa, que dá muito trabalho, e reconheço que é mais fácil convidar uns embaixadores para cá virem tirar uns retratos (e então se foram embaixatrizes com dois palmos de cara!) com o jet-set cá da terra ao lado, ou negociar com uma agência que de tudo trata e tudo recebe, a visita de um realizador de cinema e de uma actriz da moda a troco de um Festival de Cinema que nem se sabe se existiu, ou homenagear um Maestro que passou e foi-se, ou realizar um baile de fraque e sapatilhas na Casa que Ninguém Liga, na melhor tradição da saloiice lusa, ou andar a fazer umas Festas Vindimeiras pelas aldeias e que só servem para encher de briol o bucho dos seca-pipas usuais.
Organizar uma autêntica Festa das Vindimas, na melhor tradição duriense, algo com que se pretenda marcar uma posição no mundo, é, reconheço, uma tarefa imensa. Entre organizar um evento desta natureza, e assinar protocolos com a National Geographic, ou preencher as fichas para propor o Douro a Concursos Internacionais, ou viajar, em passeata, até às Feiras Internacionais com a desculpa de promover o Douro, vai uma diferença muito grande. É a diferença que vai entre a competência e a incompetência, entre o saber o que se quer, e o não se fazer a mínima ideia do que se lá está a fazer, é a diferença entre ser visionário, ou eternamente retrógrado.
A ideia fica: A Sagração do Douro, A Festa das Vindimas.
É a primeira. As outras virão a seguir.
E, se calhar, como esta, a darem demasiado trabalho para a vontade que há e para a sabedoria que se tem.

gouveiafrancisco@hotmail.com

A SAGRAÇÃO DO DOURO

(Será, talvez, o único evento, um acontecimento único a nível mundial, que poderá colocar o Douro, de vez, na rota das grandes realizações turísticas internacionais)
(in Turismo do Douro (parte II, pág. 2/3)

(544)

RECONSTRUIR AS ASNEIRAS?

por Francisco Gouveia, Eng.

(Para as vítimas da Madeira, deve o Estado dar tudo.
Mas será que o Estado – que somos todos nós – deve abrir os cordões à bolsa para que o Alberto João Jardim desbarate o erário público na repetição dos mesmos erros e irresponsabilidades?
É que o homem já diz que vai fazer um túnel aqui, um bairro acolá, uma estrada ali, e mais o que lhe dará na gana, sem se preocupar em planear com sensatez o que vai fazer.
Eu pergunto: não existe em Portugal um Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que é dos melhores do mundo, que já devia ter uma equipa estacionada no terreno para dizer como e o que se deve fazer a reconstrução?

O Estado está de tanga, mas vai ter que arranjar dinheiro, seja lá onde for, para reconstruir a Madeira. Aquela gente tem que ser ajudada, e é nossa obrigação ajudar. Hoje eles, amanhã nós. Não é isto que está em questão nem é isso que me traz aqui.
Escrevo estas linhas com uma forte preocupação de que o Governo Regional, à presa e ao desbarato, comece a fazer obras aos deus-dará, cometendo exactamente os mesmos erros que levaram a que a tragédia (que era inevitável, reconheça-se) atingisse as proporções que atingiu.
Governo Regional que se tem comportado de uma forma muito feia, brincando ao gato e ao rato com o reconhecimento do número de vítimas, e com as habituais críticas de mau gosto que tanto caracterizam o Dr. Alberto João.
Passados que foram os primeiros dois dias, altura em que foi tudo mesuras com Sócrates, já esbracejava e chamava de canalhas aos que, muito justamente, chamaram a atenção para os erros urbanísticos cometidos pelo Executivo madeirense ao longo destes anos.
Só não viu quem não quis: ribeiras encanadas e estreitadas para alargarem estradas, muros de suporte dos canais que eram, ao mesmo tempo, muros de suporte de construções de toda a espécie, bairros e prédios em cima de leitos de cheia, e um sem fim de disparates fruto da forma como por lá (e também por cá – porque não?) se fazem as coisas.
E as minhas preocupações – dizia eu – resultam do facto de o Dr. Alberto João já dizer que vai fazer um túnel ali, uma estrada acolá, reconstruir um bairro no mesmo sítio onde se desmoronou o que lá existia.
E as coisas não podem ser assim. Antes de tudo, e antes de gastarmos o dinheiro que não temos mas que havemos de arranjar, é preciso que se detectem os pontos nevrálgicos da ilha, as suas fragilidades, as transformações que, porventura, sejam precisas realizar na orografia, experimentar modelos deste tipo de catástrofe para que, num futuro, a ilha fique mais protegida e, acima de tudo, não se percam vidas humanas. E isso requer que sejam os técnicos a ter a palavra. Não os políticos, e muito menos Alberto João, homem de caprichos e que sofre de uma espécie de mania esquizofrénica que o leva aos limites da teimosia quando é contrariado.
Eu pergunto porque é que, nesta altura, já não está estacionada no terreno, uma equipa pluridisciplinar do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que é dos melhores do mundo, a estudar a reconstrução das infra-estruturas e a analisar a construção dos prédios que foram arrasados?
A reconstrução vai ser cara, muito cara, cara demais para que esteja no critério meramente político e pessoal de um homem que se habituou a gastar à tripa forra.
Ouvi atentamente algumas vozes, oriundas da Madeira, e durante a tragédia, que se manifestaram contra o facto de, em devido tempo, o Dr. Alberto João não ter tido a sensatez de ouvir o que os especialistas diziam sobre a forma como estavam a ser construídas as infra-estruturas e muitas construções naquela ilha. No seu estilo habitual, apelidou-os de canalhas, de inimigos da Madeira, e mais o que lhe dava na gana. É que, em abono da verdade, há que reconhecer que quem se atreve a tecer a mais ligeira crítica ao Dr. Alberto, arrisca-se a levar com uma data de insultos. Acredito também que, na Madeira, não é fácil ser-se oposição. Não estou com isto a dizer que o homem não tenha feito coisas positivas, e eu próprio, nas páginas deste jornal, louvei algumas, tais como, por exemplo, a fixação de preços da gasolina, quando aqui, na metrópole, as companhias faziam gato e sapato da nossa carteira. Mas também nunca lhe gabei o estilo, porque, se há algo que detesto, é a falta de estofo de alguns políticos quando lhes são feitas críticas. Quem não tem este estofo, não se deve meter na política. Como diz o ditado: quem não tem competência, não se estabelece. Daí que, na sequência do estilo habitual do Dr. Alberto João, estilo esse que apenas amansou nos primeiros dias da tragédia, mas que logo voltou ao habitual, é que eu receie que, à custa da mesma tragédia, e porque nestas alturas dizer “não” é quase heresia, os dinheiros que vamos gastar na reconstrução da Madeira sejam para que se repitam os erros e asneiras de um passado recente. É a hora da ciência e da tecnologia dizer como se deve fazer. Quando não, daqui a alguns anos (sabe-se lá quando) a Madeira estará a viver uma tragédia semelhante. E depois, o Dr. Alberto João tem mais ano e meio de mandato, o que significa que as obras de reconstrução (que demorarão, seguramente, mais de dois) terão que ser concluídas pelo seu sucessor. O Dr. Alberto João não quererá, com certeza, deixar à Madeira a herança de uma reconstrução mal feita. E nós, que vamos, afinal, pagar todos a reconstrução, e que para tal teremos que nos endividar ainda mais (porque os apoios que vêm da UE são uma míngua), também temos que exigir que, desta vez, as coisas sejam bem feitas.
Quanto ao resto, toda a nossa solidariedade e ajuda aos madeirenses que sofreram física e materialmente com esta catástrofe. Mas esta solidariedade não deve cegar a exigência. De quem dá, e de quem recebe.

(545)

ASSENTAR IDEIAS

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Depois da ebulição política que por aí anda, é certo que a regionalização vai regressar à agenda dos partidos. É preciso, por isso, que a região assente ideias.
Para já, Artur Cascarejo – presidente da Câmara de Alijó e da Comunidade Intermunicipal do Douro – defende duas opções: ou a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, ou caso seja criada a região Norte, que a capital seja instalada em Vila Real.
Parece-me uma boa base de discussão, e uma aproximação efectiva à Comunidade Intermunicipal de Trás-os-Montes. Mas é preciso avançar mais. Candeia que vai à frente…)

Logo que passada esta ebulição política motivada pelos casos em que Sócrates se viu envolvido (desde que não apareça mais nenhum) e pela eleição do novo líder do PSD (caso, também, logo depois de eleito, seja ele quem for, não lhe comecem a fazer o ninho atrás da orelha), o calendário político vai, de certeza, abraçar de novo o tema da regionalização.
Aqui e ali, em vozes dispersas mas de gente com influência, já se ouve o zumbir. A regionalização vai, muito brevemente, volta à discussão pública.
Desta vez, é preciso que não se repitam os erros da campanha anterior. Se começa tudo a querer espartilhar o país em regiões quase do tamanho de concelhos, temos o caldo entornado. Estou convencido de que, e como diz o ditado, não há amor como o primeiro, vai ser o primeiro modelo (o das 5 regiões continentais: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) a ser adoptado. Aliás, este modelo começou a ser iniciado aquando da criação das Comissões de Coordenação Regionais. Contudo, admito que poderá haver outras apostas fortes. E o grande perigo desta nova fase é que se repitam os erros dando azo a que se “assustem” os cidadãos e se perca a guerra de vez. É que, se da próxima o diploma não passar, podemos estar certos que, por décadas, a regionalização vai ficar enterrada.
Há, portanto, que assentar ideias: a nível nacional que haja entendimento entre os partidos sobre o modelo a sufragar, e a nível regional que haja, também consenso sobre o que se pretende.
Há dias, ouvi na Porto Canal, primeiro, e li, depois, uma entrevista num jornal de Artur Cascarejo (Presidente da Câmara de Alijó e da Comunidade Intermunicipal do Douro) as suas ideias sobre o assunto, em que ele defendia o seguinte: prioritariamente, a criação de uma região transmontana-duriense, e, nessa impossibilidade, e sendo inevitável a adesão ao um modelo com uma região Norte de Bragança ao Porto, que a capital ficasse instalada em Vila Real.
Foi uma opinião que me pareceu sensata, se bem que muito difícil de concretizar. Especialmente a de trazer a capital para Vila Real. É um facto que, em termos geográficos e de criação e extensão de pólos de desenvolvimento regionais, a ciência do Planeamento aconselha a que assim seja. É ver, por essa Europa fora, os países que adoptaram em boa hora a regionalização, que o seu desenvolvimento assentou na devolução da importância política e económica às médias cidades, dispersas pelo país. Porque um dos grandes problemas, senão o maior deste país, é a concentração demográfica no litoral, especialmente junto às grandes cidades, e a desertificação do interior. Um país não pode andar para a frente com estes desequilíbrios. Vila Real, em termos de localização, e desde que concluída a A4, reúne condições para que assim seja. Mas terá poder para se impor ao Porto? Que reclamará de imediato a primazia? Ou a outras cidades, como Braga, Viana ou Guimarães), bem servidas de estradas e que colocarão à frente da capital transmontana?
É por isso que julgo necessário que a região comece a discutir o assunto para que, quando a altura surgir, a região já vá à frente no consenso e no saber aquilo que quer. E também porque, agora, e depois da guerrilha habitual das autárquicas, se pressente uma “aproximação” regional entre os dois principais partidos, e numa altura em que o PS aparece com reivindicações ao próprio Governo (como é o caso da criação do curso de Medicina na UTAD).
Neste momento, está na mesa a discussão de muitos assuntos de importância vital para Trás-os-Montes e Alto Douro, quer a nível de financiamentos e de plano geral da acção governativa, mas também numa altura em que se têm de tomar medidas para ultrapassar a crise que nos afunda. Das duas uma: ou arrebitamos e ganhamos juízo, ou acabamos mal (muito pior do que o que já estamos). Os nossos níveis de endividamento, de défice e de ineficácia produtiva e exportadora, são alarmantes.
Por isso, seria uma perda de tempo que a região não aproveitasse este tempo que aí vem, para assentar ideias, discuti-las com honestidade e clareza, sem preconceitos nem sentido divisionista. É preciso que as Comunidades Intermunicipais do Douro e a de Trás-os-Montes se entendam, porque estas Comunidades estão a prazo. Todos os modelos alternativos de unidade regional falharam, ou só funcionaram para alguns (muito poucos) objectivos concretos de realização de uma ou outra infra-estrutura. Não restam dúvidas de que, se não for a regionalização, que é um modelo muito mais rigoroso, responsabilizador, e com competências muito mais vinculativas e importantes do que os modelos já experimentados e fracassados, nada fará a unidade regional. Aqui e no resto do país.
Portanto, senhores autarcas e responsáveis políticos regionais, há que começar a assentar ideias. É que se a região avançar com uma ideia consensual sobre o que quer, discutindo-se e acertando-se internamente, podem crer que, quando o quadro da regionalização for discutido, já iremos uns passos à frente, e candeia que vai à frente…

Nota: por motivos pessoais, tive que interromper a minha colaboração neste jornal durante três semanas, numa altura em que estava a escrever uma série de artigos sobre o Turismo do Douro, dos quais só os dois primeiros foram publicados. Prometo, brevemente, regressar ao tema, reiniciando a exposição das ideias que tenho sobre o assunto.

(546)
A HISTÓRIA DE UM PEC
(Processo para Enganar os do Costume)

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Portugal é o 8º país do mundo com a população mais velha! Contudo, esta tremenda realidade parece não espevitar as opções políticas.
Este PEC, puramente economicista, sem qualquer sinal de atender a este problema, vai levar o país ao maior descalabro etário e demográfico da sua História!
E depois, que contrapartidas teremos no futuro, para os sacrifícios de agora? Será que se vai repetir a história: depois do défice equilibrado, banqueiros e gestores vão repetir a roubalheira e mandar outra vez o défice para as ruas da amargura? E ainda recebam de “prémio” indemnizações chorudas e reformas principescas? E depois cá estão os “tansos” do costume para apertarem o cinto?
Este PEC não é um Plano de Equilíbrio e Crescimento, mas sim um Processo para Enganar os do Costume)

O ataque ao défice está a obcecar a vida económica do país. E parece que estamos condenados a não sair disto. Depois de termos apertado o cinto até esganar para baixar dos 7% para baixo do 3%, a roubalheira bancária conseguiu levar o mundo (e o país) à quase bancarrota, e eis que o défice disparou outra vez. Conclusão: torna a apertar o cinto! Mas, como o cinto já não tem espaço para mais furos, o melhor é os portugueses habituarem-se a andar de suspensórios. Isto é, suspensos sabe-se lá como e de quê!
Depois do descalabro dos Bancos, e porque as penalizações aos responsáveis não foram pedagógicas – antes pelo contrário, a desresponsabilização e a não criminalização das roubalheiras e fraudes que cometeram, aliadas às indemnizações e chorudas reformas com que foram “brindados”, são aliciadoras a que, num futuro próximo a brincadeira se repita. Aliás, há decisões, até na UE, que não se entendem: veja-se, por exemplo, que o Dr. Vítor Constâncio vai ocupar, no Banco Central Europeu, o pelouro onde em Portugal falhou: a supervisão bancária!
Presume-se que este PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) mais não seja do que uma forma de nos convencer de que temos que voltar a fazer sacrifícios, e então será um belo Plano para Enganar os do Costume. Que os sacrifícios são necessários, não tenho dúvidas, o que este PEC não esclarece é o quanto lucraremos no futuro. Porque podemos ter a certeza de que, mal as contas estejam equilibradas, logo hão-de aparecer outras roubalheiras escandalosas que nos atirem para novo aperto.
Mas, no que este PEC falha, é no facto de não ter em atenção este problema trágico da sociedade portuguesa: relativamente à idade média da população, somos o 8º país mais velho do mundo!
Perante esta alucinante realidade creio que nenhum documento de planeamento, seja ele qual for, especialmente os que se referem ao crescimento do país, a deveria esquecer. Somos um país de velhos e cada vez mais velho. Os nascimentos são poucos e a idade média do país não pára de subir. Já temos mais lares de terceira idade do que creches, e mais alas de idosos nos hospitais do que maternidades. Por este andar, o país fina-se!
Então, e perante esta cruel verdade, como pode este PEC esquecer e não a ter em devida conta? Que soluções para o equilíbrio demográfico territorial? Sabendo, como se sabe, que somos um país pequeno e ainda por cima com a população toda concentrada no litoral? Com os investimentos todos centrados em Lisboa? Onde é inexistente uma política de incentivos à migração de gente para o interior? Onde não há uma política de requalificação da médias e pequenas cidades e vilas do interior? Onde não há uma política eficaz de potenciação das riquezas locais? Onde está a política de inversão do envelhecimento médio catastrófico dos portugueses? Que medidas de apoio e incentivo à natalidade? Que protecção e segurança dá o Estado à constituição de famílias? Que benesses para as famílias numertosas?
Que adianta baixarmos o défice se havemos de continuar com os mesmos problemas? É que essa treta de que, baixando o défice, melhoraremos a nossa vida, não passa mesmo disso, uma treta, porque um PEC com cabeça, tronco e membros, deve integrar todas componentes do desenvolvimento do país, acautelando a resolução dos problemas que realmente tem. Baixamos o défice só para que Bruxelas bata palmas? Muito piores do que nós, no que toca a contas, estão os gregos, e não creio que eles estejam muito preocupados com isso. Aliás, as medidas propostas pelo Governo grego (duríssimas) terão muita dificuldade em ser aceites pela população. Isto porque, lá como cá, não há um pacto, uma aliança, um acordo entre as partes, garantindo concessões de futuro logo que o défice o permita. Exige-se esforço sem contrapartidas, somente com a “matraca” do medo: – Se não fizermos agora, mais tarde será muito pior! E a mesma classe política, que se ajavarda com tachos principescamente pagos, tenta convencer-nos de que tem que ser assim. Pois que seja! Mas depois? Que garantias há de que a nossa vida vai melhorar? Para quê fazer sacrifícios? Para que os políticos continuem a viver à nossa custa? Na maior? Ganhando rios de dinheiro e mordomias incompatíveis com a pobreza do país?
Somos pobres, estamos cada vez mais pobres, mas também cada vez mais velhos. Os jovens fogem do interior como o diabo da cruz, e, ou rumam para as grandes cidades, ou rumam para o estrangeiro. Os nossos licenciados mais competentes, espalham-se por esse mundo fora, deixando cá os ignorantes e os analfabetos. Por outro lado, uma política errada e não fiscalizada de atribuição à balda de subsídios e rendimentos mínimos a gente capaz, está a criar um país de madraços, sendo necessário recrutar no 3º mundo e no leste, gente que faça o que os portugueses já não querem fazer.
Os nossos cafés e esplanadas estão cheios de gente com boa saúde para trabalhar, mas é o negro angolano, o mulato cabo-verdiano ou o louro ucraniano, que passam por nós com a gamela de cimento à cabeça. O nosso comércio arruína-se, enquanto florescem as grandes superfícies e as lojas de chineses, paquistaneses e indianos.
Assim, sem haver quem tenha mão nestes desequilíbrios e abusos, caminha este país para o envelhecimento precoce, e a Pátria que descobriu o mundo e que, durante séculos, encheu de vida os quatro cantos do planeta, corre o risco de se tornar colonizada internamente.
Este PEC é uma treta económica que só serve para debates imensos nas TVs, e para que os economistas de serviço mastiguem argumentações. O objectivo de baixa do défice, como finalidade única, por si só não é nada. Ter um plano economicista do PEC sem atender à realidade do país e sem preparar a mudança, é o mesmo que ter dores de cabeça por causa de um tumor, e tomar aspirinas para que cessem as dores.
Velhos, cada vez mais velhos, e pobres, cada vez mais pobres, é esta a nossa triste realidade. Nas centenas de países que há no mundo, só temos sete à nossa frente no que toca à velhice. Não tarda, estaremos no topo. E, se calhar, nem teremos gente nova que chegue para tratar dos velhos. Nem gente, nem dinheiro.

(547)

OS PASSOS DIFÍCEIS DE COELHO

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(Já ninguém tem dúvidas de que Passos Coelho é o candidato que está melhor preparado, que tem mais carisma, e que reúne todas as condições para chefiar o PSD e defrontar, cara a cara, José Sócrates.
Só algumas concelhias transmontanas, a troco não sei bem de quê, insistem em lhe fazer guerra e em apoiar Rangel, chegado à pressa de Bruxelas para “salvar” a baronagem do partido.
A região não pode desbaratar a oportunidade de ter, talvez, pela primeira vez na História, um Primeiro-Ministro genuinamente transmontano, com raízes sólidas e responsabilidades para com a sua terra que, estou certo, não esquecerá)

O país está num lamaçal de suspeitas, corrupção, má gestão, compadrio, e em vésperas de entrar num clima de convulsão social. Deixem começar a aparecer os resultados deste PEC, a nível fiscal e do aumento do desemprego, e verão se tenho ou não razão. Torna-se necessária uma alternativa ao poder instalado. O PS tem-se passeado pelo palco do Poder com uma impunidade eleitoral que não o penaliza pela péssima forma como está a levar o país ao fundo poço. E essa impunidade deve-se ao facto de a Oposição não ser consistente nem estar centrada numa figura que se possa medir com Sócrates frente a frente, e derrotá-lo. O PSD tem-se esfrangalhado em questiúnculas internas, tem andado refém de barões bem instalados na vida (graças à política) e que tudo têm feito para que o próprio partido não avance, preferindo vender a alma ao diabo desde que o diabo lhes garanta a continuidade dos tachos que usufruem. A estratégia desses barões, de enfraquecer o PSD, elegendo para chefiar o Partido quem não tem carisma e é incapaz de ganhar umas legislativas, tem vingado. E tudo farão para que continue a vingar.
Contudo, apareceu-lhes uma pedra no sapato. Daqui mesmo, deste longínquo canto transmontano, onde se diz que a voz de três doutores não chega a Lisboa, apareceu alguém, inteligente, jovem, com bom discurso, com ideias novas, falando com segurança, sabendo o que quer, respeitando tudo e todos, com sobriedade e uma clareza que está a cativar os portugueses. Tudo isto, fruto de anos de experiência política, e muito especialmente dum trabalho árduo de dois anos onde se preparou irrepreensivelmente para ser um futuro Primeiro-Ministro. Chama-se Passos Coelho e é, neste momento, a esperança de que o PSD readquira a notoriedade que perdeu e reconquiste a confiança dos eleitores. Passos Coelho tem sido rigoroso, diplomata, transparente, seguro, e está em vias de pôr o PS em alvoroço.
Até aqui, nada disto me espanta. E o PS tudo fará para o denegrir, para o rebaixar, aproveitando, inclusive, as “deixas” que os amigalhaços que mantém no PSD lhe vão dando, porque no derrube de Passos Coelho anda não só o PS empenhado, como também os duques e condes do PSD.
Passos Coelho também sabe disto, e para quem segue a política com olhinhos abertos, nada do que falei é novidade.
Agora o que me espanta é o triste papel de algumas concelhias transmontanas, que andam para aí a guerrear Passos Coelho, fazendo propaganda aos candidatos que nada têm a ver com a região. Falo de Paulo Rangel, que foi recrutado à pressa pela elite lisboeta, quando esta se apercebeu que o “perigo” de Passos Coelho ser o novo líder do partido, podia ser uma realidade. E vai daí, o Sr. deputado europeu veio a correr de Bruxelas, baixou a cerviz à baronagem e prestou-se a este triste papel de mentir aos portugueses: afinal, elegeram-me para a Europa, mas o que eu quero é ser Primeiro-Ministro!
Já nenhum comentador político, da esquerda à direita, tem dúvidas de que Passos Coelho é o único capaz de bater Sócrates. É unânime a opinião de que está bem preparado, se tem comportado com um elevado sentido de Estado, que tem todas as condições para ser carismático, para cativar o leitorado, para se impor. Por outro lado, e no que nos toca como transmontanos, pela primeira vez temos a oportunidade de eleger um conterrâneo que tem, efectivamente, ligações umbilicais e de responsabilidade para com a região.
Durão Barroso nasceu em Lisboa e viveu sempre em Lisboa, e a Trás-os-Montes só o ligavam as origens da família (Valpaços), e o facto de os pais terem casado na Régua.
Sócrates, é natural de Miragaia, Porto, e foi registado em Alijó porque os pais eram de lá. Mas foi com oito meses viver para a Covilhã. Quer um quer outro, nunca souberam bem onde ficava Trás-os-Montes.
Passos Coelho, não. É de cá, foi criado cá, tem raízes profundas cá. E os transmontanos, que têm agora a oportunidade de ter alguém que até poderá ser Primeiro-Ministro, e a quem terão (tenho a certeza) acesso privilegiado, e que nunca se esquecerá da terra onde nasceu e se criou, querem desbaratar esta oportunidade só porque há por aí uns políticos sociais-democratas que pensam mais com a barriga do que com a cabeça.
Triste figura, a das concelhias do PSD que andam para aí a reboque dos interesses de alguns maiorais que os usam como eu uso sabonete. E não me venham falar que cada um é livre de escolher quem quer. É livre sim senhor, mas quando se trata da estrutura interna de um partido, há valores mais altos que se sobrepõem a um mero gosto ou tendência pessoal. A questão que se põe ao PSD, a nível nacional, é só esta: ou muda para melhor e solidifica, ou se extingue. Passos Coelho é a mudança e a solidificação. Rangel é a continuidade e a dissolução. A outra questão que se põe, desta vez ao PSD transmontano, é a seguinte: ou tem como líder da Oposição, e talvez Primeiro-Ministro, alguém que terá sempre a porta aberta aos seus conterrâneos, ou continuará a mendigar esmolas sentado na sala de espera dos Ministérios.
Passos Coelho tem uma dura luta pela frente. Tem, não só que derrotar Rangel, mas também toda a máquina infernal que a elite social-democrata instalada montou para o derrubar. Depois, caso vença, terá que se impor, pela segunda vez, dentro do Partido. A seguir, terá que o preparar para Governar. Mais tarde, terá que derrotar Sócrates. Passos Coelho tem uma tarefa imensa e penosa pela frente. Triste seria se os seus problemas começassem na sua própria terra. Triste e vergonhoso.
Senhores militantes transmontanos e durienses do PSD, pensem bem em quem vão votar no dia 28. Lembrem-se, pelo menos, da terra em que nasceram.

Nota 1: Não falei aqui do Dr. Aguiar Branco, que me merece toda a estima e a quem reconheço competência. Contudo, falta-lhe o tal carisma de líder. Só espero que o Dr. Aguiar, não desista da sua candidatura a favor de Rangel. Se o fizer, então, terei que rever a minha estima.

Nota 2: Esta crónica foi escrita em 18 de Março, respeitando o quadro eleitoral desta data e ainda sem saber os resultados eleitorais.

(548)

ATÉ AO PESCOÇO

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(Nós, os portugueses, até estaríamos na disposição de nos sacrificarmos para que um PEC tivesse sucesso. Mas para isso eram necessárias 3 condições: que fosse moralizador, que fosse precedido de um contrato social, e que estabelecesse objectivos de progresso.
Como este PEC não é nada disso, antes pelo contrário é imoral, trata os cidadãos abaixo de cão, e os objectivos são unicamente o controle de um défice, vai ser muito difícil implementá-lo.
Este PEC é a prova de que este Governo, apesar de estar em pé, está metido até ao pescoço no lamaçal de interesses que mina o país.
Só esperamos que o Governo se sente.)

Um país não avança sem a colaboração de todos. De todos, sem excepção. Foi assim que os países nórdicos chegaram ao topo do desenvolvimento mundial, e que os países da Europa se reergueram depois da II Grande Guerra.
Um PEC que somente pensa em baixar um défice, como se ele fosse a salvação da Pátria, não é nada. Ainda há dias o baixamos para cumprir as exigências de Bruxelas, e de que adiantou? Subiu logo de seguida para o dobro do que estava antes!
Esta coisa do PEC é algo de tem que ter o acordo de todos. Mais do que isso: é preciso que os portugueses percebam que os sacrifícios vão ser justamente repartidos, que os seus sacrifícios não vão ser em vão, e que o PEC é o ponto de partida para que, depois da tempestade, o País em definitivo entre no caminho do progresso.
Ou seja: é preciso moralizar a vida pública. É preciso retirar mordomias e reduzir salários que não podemos pagar. Vejam só o que aconteceu recentemente com os gestores das empresas públicas, que ameaçam ir para Tribunal caso lhes cortem os prémios! Cá por mim, era simples: RUA! Porque são bem pagos, porque estão a trabalhar em empresas que são quase todas monopolistas, e porque dão lucros mesmo que geridas por asnos. E depois, eu queria era ver para onde iriam trabalhar esses gestores se fossem despedidos. Quem os queria? Quanto vale essa gente? Que empresas em Portugal estão em condições de lhes pagar os ordenados chorudos que auferem e de lhes proporcionar tantas mordomias?
Os salários das empresas públicas deviam ser equiparadas aos da Função Pública, evitando-se assim a pouca vergonha. Antes de exigir sacrifícios, o Governo devia moralizar estes sectores, assim como os salários dos políticos. Afinal, alguém os vai buscar a casa para irem para a política? Se acham que ganham pouco, que vão para a privada para ver como elas mordem!
Moralizar, Sr. Dr. Prof. Eng. Sócrates! MORALIZAR! De alto a baixo. Políticos, gestores e todos aqueles que exercem funções de chefia e de responsabilidade no Estado. E olhe que não temos medo nenhum desse “fantasma” que nos andam a impingir, de que se não lhes pagarmos bem, o barco das empresas públicas vai a pique. E eu com medo!
Há também outro aspecto fundamental: o do contrato social. Para se exigirem sacrifícios, é preciso garantir que não são em vão. É preciso negociar as contrapartidas, ou seja: agora aperta-se o cinto com a garantia de que, logo que a borrasca amaine, o possamos folgar. Quem, até hoje, teve a coragem de avançar para um contrato social?
Se olharmos para os países cuja qualidade de vida e desenvolvimento estão no topo do mundo, havemos de verificar que foi com contratos sociais que lá chegaram. Compromissos sérios e honestos entre quem manda e quem obedece. Mas isso é em países onde a honestidade se escreve com H grande. Não aqui, onde se mente à descarada e onde a seriedade política há muito se enterrou a sete palmos de terra.
Há ainda os objectivos concretos, a definição do que queremos ser no futuro, a reforma das estruturas do país, a aposta na vanguarda.
Nós, pobres portugueses, andamos à deriva, sem saber onde estamos nem para onde queremos ir. Ninguém aponta uma meta, uma directriz. O Governo perde-se em minudências tentando disfarçar uma gritante falta de ideias. De ideias e de vontade. Completamente dominado por poderes obscuros e interesses de meia dúzia de magnatas, cercado pela corte de bobos que servem de testas de ferro a essa gente, sei lá se já aliciado por eles, praticando e consentindo no mais vil tráfico de cargos e influências, manobrando sem rédea dinheiros públicos a favor de “buracos” oriundos da roubalheira desenfreada, metido até ao pescoço em processos de contornos macabros que toda a gente já percebeu, este Governo já não merece a nossa confiança. E só (mas só) uma Oposição também já dominada pelos mesmos interesses e que boicota e atraiçoa quem quer fazer frente à mediocridade governativa, justifica que as sondagens apontem ainda uma maioria para quem tanta asneira faz. Mas também todos sabemos como são paridas essas sondagens!
Só sei que estamos na penúria, e sem solução à vista.
Porque quem governa, não se empenha em fazer as coisas como devem ser feitas.
A democracia não é isto que estamos a viver. A democracia é moral, social e progressista. E o país que temos é imoral, socialmente injusto e sem perspectivas de progresso. Por isso, este PEC está sem qualquer alicerce. Não se aguentará. Não o queremos. O aperto do cinto já chegou de fivela a fivela. Não há mais por onde apertar.
Estamos fartos!

Nota: Páscoa é Ressurreição, algo de que o País precisa. Que este período seja exemplo para todos nós.
A todos, os meus votos de uma Páscoa Feliz e que nos ensine algo.

(549)

TRÁS-OS-MONTES e ALTO DOURO, PERGUNTA:
PORQUE FICAMOS DE FORA, Srs. da CCDR-N?

por Francisco Gouveia

(Vão ser construídas 27 creches na Região Norte, ao abrigo do Programa Operacional Regional Norte, cuja condução cabe à Comissão de Coordenação Regional.
Destas 27, nem uma vem para Trás-os-Montes e Alto Douro.
Só queremos saber porquê)

Chama-se “O Novo Norte” (Programa Operacional da Região Norte) e terá vigência até 2013. É exclusivamente financiado pelo Fundo de Desenvolvimento Regional Europeu (FEDER), e a sua condução está a cargo da Comissão de Coordenação Regional do Norte, presidido por Carlos Lage, e com ramificação na Estrutura de Missão do Douro, presidida por Ricardo Magalhães.
No fim do mês passado, foram assinados os protocolos e contratos para a construção, ampliação e equipamento de 27 creches, distribuídas por vários concelhos do Norte do país. Estranhamente, e apesar do Programa pretender estender-se por toda a região Norte, como aliás o demonstra o seu nome, nenhuma destas creches se situa no espaço territorial de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Desde logo, a partir daqui, se levantaram as mais sérias apreensões por parte de muitos transmontanos-durienses. Entretanto, a Comissão de Coordenação Regional descansou os ânimos, afirmando que, até Abril, aos concelhos transmontanos será dada nova oportunidade para se candidatarem.
Não sei se será assim ou não, mas desde logo se colocam uma série de questões que, estão muito mal esclarecidas (talvez por falta de informação, ou até desinformação), e que se prendem com os antecedentes a que a região tem sido sujeita, e à forma como são equacionados estes programas.
Ou seja: a região anda tão traumatizada com o “roubo” de equipamentos a que tem sido sujeita, que já desconfia de tudo e todos. Por exemplo, o fecho de unidades de saúde, foi efectuado com a promessa de que era para melhorar os serviços. E o facto é que pioraram. Nem sequer o encerramento das urgências (ou pressupostas urgências, conforme defendeu o Governo), e que se garantia irem ser colmatadas com o reforço do INEM, foi minimamente resolvido, continuando as populações a correr risco por falta de atendimento atempado quando necessitam de ajuda imediata. E quando falo neste particular, falo também de todos os restantes equipamentos e serviços que, a pouco e pouco, foram sendo extraídos à região e que não foram substituídos. Será assim, lógico, que os transmontano-durienses andem de pé atrás, porque, lá diz o ditado: gato escaldado…
Por outro lado, não se entende bem esta lógica de coordenação do Programa, que, dizendo-se para o Norte, deixa de fora metade dele (Trás-os-Montes e Alto Douro). E mesmo que seja verdade que, em Abril, haja novas candidaturas e que a região seja então beneficiada, não se percebe a razão por que se “isola” uma parte do Norte nesta fase. Não seria mais lógico distribuir as tais creches pelo todo da Região Norte, e quando viesse Abril, se voltasse a fazê-lo? Isto se houver, de facto, em Abril, hipóteses da região apresentar as candidaturas. Porque todos sabemos que, hoje em dia, as chefias das instituições do Estado estão lá para assumir o odioso de certas atitudes dos Governos, que assim não se desgastam tanto.
A Comissão de Coordenação da Região Norte deve um esclarecimento aos transmontanos e durienses. Assim como a Estrutura de Missão, o deve. Senão, para que serve esta última? Já que a utilidade da segunda percebemos há muito?
E devem, também, assumir, as responsabilidades das promessas que fazem. Se, de facto, em Abril, a região vai poder candidatar-se, devem assumi-lo publicamente, e em nome do Governo (não devemos fazer a coisa por menos). E devem esclarecer, também, e com muita transparência, porque motivo Trás-os-Montes e Alto Douro não foi contemplado com nenhuma destas creches.
Porque, repito, esta situação é algo que, para o cidadão comum, traz água no bico.
Senão, vejamos quais os concelhos que beneficiaram com as creches: Amarante, Arcos de Valdevez, Arouca, Braga, Cabeceiras de Basto, Esposende, Felgueiras, Guimarães, Lousada, Matosinhos, Oliveira de Azeméis, Paços de Ferreira, Penafiel, Ponte de Lima, Tarouca, Viana do Castelo, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia e Famalicão.
E ao olharmos para esta lista, facilmente verificaremos que há lá concelhos com poderio económico para não necessitarem de tais “ajudas”, tanto mais que elas se destinam a instituições particulares.
Depois, há a considerar o tempo que demoram estes programas, de tal forma que um atraso poderá significar o toque de finados dos projectos, especialmente aqui no interior onde o tempo urge, porque a desertificação é galopante.
Para já, sente-se na região uma total descriminação, e pressente-se a preparação de mais um golpe contra Trás-os-Montes e Alto Douro. E nem sequer o facto de nos estarem a construir a A4, e poderem assinalar os montantes enormes envolvidos nesta auto-estrada, como compensadores de outros equipamentos não executados, pode servir de desculpa – como já ouvi por aí.
Uma explicação, é o mínimo que nos devem.
Só para a gente entender.
Entender, e se calhar, que nos andam a entreter.

(550)

ADEUS, LEANDRO

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Leandro, de Mirandela, morreu vítima da cobardia.
Da cobardia dos colegas que o agrediram, da covardia dos pais dos colegas que o agrediram, da covardia da Direcção da Escola que sabiam que os colegas o agrediam, da covardia do Ministério que sabe das agressões, da covardia de um Sindicato de Professores que só olha para o umbigo, da covardia de um Governo que já não sabe o que é governar, da covardia de um país que já não sabe onde está nem para onde quer ir.
E é tão fácil resolver o problema do bulling – se não houver covardia!)

As justificações dos entendidos que, nestas alturas, não perdem pitada para devanear a sua sapiência salobra sobre a tragédia dos outros, só nos podem provocar um imenso vómito. Vejamos o que diz quem julga que o que diz é a pólvora descoberta na era do nuclear.
De alguns sociólogos da nossa praça, esta aberração: bulling sempre houve nas escolas. E alguns até dão exemplos dos seus tempos escolares, de há 30 e 40 anos, onde esta prática de se juntar um gang para sovar repetidamente um colega que sabem de antemão não ripostar, era usual. Era usual aonde, meus senhores? Em que escola andaram nos vossos tempos que tais práticas tinham?
Tenho 57 anos, e lembro-me muito bem de, no meu tempo de escola, andar à pancada. Mas era colega contra colega. Eram as “bulhas”. Se numa jogatana de bola levava-mos uma canelada de um colega, lá ia a mão aberta ao estalo, e gerava-se logo ali um “dá e leva”. Noutras alturas, por criancices, engalfinhavam-se dois, ou três ou quatro. Mas logo depois, arrefecia-se o calor da “bulha” e, todos juntos, lá trepavam o muro para “gamar” as ameixas vermelhinhas do pomar do Ti António. A amizade não se derretia em meia dúzia de socos e estalos. O que era, então, isso de se organizarem em gang para açoitar um desgraçado?
Lembro-me tanta vez de, quando víamos um mais forte a medir-se com um mais fraco, logo aparecer um terceiro, tipo justiceiro, a defender o mais pequeno. Qual bulling, qual quê, senhores sociólogos?
Recentemente, uma eminência parda da nossa psicologia, veio a público com este primor: “ninguém se suicida só por causa do bulling”.
Como se fossemos todos iguais, como se não houvesse crianças mais sensíveis do que outras, como se a bitola psicológica humana fosse linear, como se todos sofrêssemos com o mesmo grau de intensidade. E o que é mais grave nas afirmações deste “especialista”, é tentar desviar o cerne do crime para problemas laterais, provavelmente existentes no seio familiar, tentando responsabilizar os pais da vítima por algo que não se sabe bem o quê, aumentando-lhes o incomensurável sofrimento (o maior do mundo) que é o de perder um filho. Para mais naquelas circunstâncias.
Estas explicações são um nojo!
A violência que se gerou nas escolas, isso sim, são o reflexo da violência que grassa na nossa sociedade. Mas nada que não se possa combater.
Desde logo há que meter isto na cabeça: um crime é um crime, seja praticado por um adulto, seja praticado por uma criança. A penalização é que deve ser diferente, mas nunca ignorada, porque pedagógica.
Se levassem esses “meninos” do bulling, perante um juiz e este os mandasse dois ou três meses para a obrigatoriedade de um serviço cívico à comunidade, algo que lhes retirasse tempo de vadiagem, bem certo era aprenderem. Se os “meninos” do bulling fossem obrigados a permanecer na escola uma ou duas horas depois do fecho das aulas, evitando assim “encontrar-se” com os colegas que pretendem sovar, evitar-se-iam muitos males.
Mas tudo isto passa por haver coragem política para clarificar este tipo de crime, clarificação que passa por alteração do regime jurídico.
Por outro lado, torna-se necessário responsabilizar (logo à nascença) quer os agressores quer os pais dos agressores, inclusive no que toca a indemnizações.
Passa ainda por alterações profundas no papel dos professores e na restauração da sua autoridade. Professor deve ensinar e deve ter autoridade para tal. Do mesmo modo deve retirar-se às Direcções escolares a carga pesada e burocrática que as inibe de agir. No fundo, toda a gente sabe quem são os agressores, e estes devem ser identificados, acusados, levados a julgamento, e penalizados de acordo com a idade.
Não pode haver mais desculpas para a não resolução de um problema que implica pedagogia imediata. Antes que os agressores de hoje se transformem nos futuros assaltantes e assassinos de amanhã. A impunidade é o maior adubo da delinquência.
E não me venham com as tretas dos problemas sociais e de outras desculpas que só servem para emoldurar os discursos dos incompetentes, ou os dos que, afinal, nada querem fazer.
Um grupo que sova sem piedade, repetidamente, diariamente, um colega de escola, é um bando de criminosos, e ponto final! E devem ser tratados como tal. Devem sentir que a sociedade não os desculpa, que está desagradada com o que estão a fazer, que o que estão a fazer é mau, que devem pagar pelos erros que cometem.
Não sou apologista de que sejam metidos na cadeia (porque aí só vão piorar), mas um trabalho cívico, à comunidade, severo quanto mais pedagógico, é indispensável. E se os pais destes delinquentes sentirem no bolso as indemnizações que devem pagar pelos actos dos filhos, vão ver se não prestam mais atenção à educação deles.
Este desleixo, este arrumar o pó para debaixo do tapete, é que não pode continuar. Assim como, um Ministério da Educação, não pode ser um organismo de acerto de carreiras e remunerações dos professores. A obrigação do Ministério é orientar a Educação e garantir a condições para que nelas se aprenda. Os Sindicatos que me desculpem, mas eu, se fosse Ministro, mandava-os discutir tabelas salariais e carreiras com o Ministério das Finanças. Que se entendessem como homem do dinheiro, porque um Ministro da Educação tem é que cuidar da Educação.
O Leandro morreu porque a covardia venceu. A negligência venceu. O umbigo de muitos venceu.
Como o Leandro, há muitas crianças nas nossas escolas que estão em risco.
E não vislumbro nenhuma vontade política séria para resolver o problema.
Em contrapartida, vejo sim, grandes movimentações em redor de interesses instalados, perante os quais o Governo cede.
Hoje foi o Leandro, de Mirandela, que se fartou de viver daquela maneira. E amanhã? Quem será o próximo?

(551)

AREIA PARA OS OLHOS DO POVO

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Vem aí uma lei que vai condenar à cadeia por 5 anos, os funcionários públicos e políticos que recebem prendas, por passarem a ser consideradas corrupção.
Mas, as melhores prendas deste país, estão legalizadas. São os prémios milionários a gestores, os lugares nos Conselhos de Administração, os empregos a filhos e afilhados, e o mais que abaixo descrevo.
Quem vai malhar com os ossos na enxovia, são os funcionários que recebem esferográficas, calendários, a garrafita pelo Natal ou o cabritito na Páscoa. Porque estes, sim senhor, são os grandes corruptos, os que estão a levar o País à miséria)

O PS está a preparar uma lei que equipara as prendas que são oferecidas aos funcionários públicos e políticos, a crime de corrupção, haja ou não contrapartida efectiva.
Manifestamente embaraçados com os escândalos que têm abalado o Governo PS, nomeadamente a sua principal figura, Sócrates, mas também uma série de figuras próximas dos socialistas, o PS precisa de lavar a cara. E é assim que prepara a tal lei, segundo a qual, desde o contínuo de uma Câmara até à Presidência da República (é assim que vai constar no documento), qualquer prenda será considerada crime. Com uma pena que pode ir até aos cinco anos de cadeia.
Esta demagogia barata, comparando e criminalizando o que não é comparável nem criminalizável, insere-se numa desesperada tentativa de mostrar ao Zé-povinho que o Governo está empenhado em moralizar a nossa vida pública.
Desde o projecto anti-corrupção de Cravinho, que o PS meteu na gaveta, que o partido anda incomodado, sem saber muito bem o que fazer para esta ceia lauta do fartar vilanagem.
Os recentes casos de corrupção, largamente noticiados e envolvendo figuras maiores do aparelho socialista (e não só), traz o PS com um nó na garganta. Algo havia a fazer. Vai daí: cria-se esta lei. Absolutamente ridícula, primária, inconsequente e demonstrativa de que este Governo não pretende combater a corrupção (porque fazê-lo era meter metade da classe política na cadeia), mas sim dar a ideia de que está a fazê-lo.
Trata-se então, de um “combate às prendas”. E já sabem: são cinco anos de cadeia, que nisto de moralização, o PS não o faz por menos.
Já estou a ver: as esferográficas, os calendários, as agendas, a garrafita de whisky ou de Porto pelo Natal, o pão-de-ló ou o cabrito pela Páscoa, usuais numa tradição portuguesa (discutível, é certo) de agradecer a este ou aquele funcionário um favorzito que se fez num requerimento que estava na gaveta, ou o desenrascanso de um processo menor que estaria encravado numa qualquer Repartição, vai mandar para a cadeia o desgraçado do funcionário que ganha mal, e que, ao receber a lembrança, se “corrompeu” ao nível de ser condenado às galeras.
As prendas, para o Governo, são estas ninharias, e condenar o recebimento destas coisas é, de facto, o combate eficaz à corrupção.
Mas esta lei não combate as verdadeiras prendas, as prendas legais, que todos os dias são oferecidas legalmente a políticos, gestores, filhos e afilhados destes.
Querem melhor prenda do que receber de bónus anual (para além do ordenado) 2 milhões de Euros? Ou 1,5 milhões? Ou 1 milhão? Que é o que recebem, legalmente (repito) esses tais gestores que gerem o que já está gerido há muito?
Querem melhor prenda do que os poleiros nos Conselhos de Administração de empresas privadas onde o Estado meteu o bedelho, colocando lá os seus servidores?
Querem melhores tachos do que ser Administrador de Galps, PTs, EDPs, e por aí além?
Querem melhor prenda do que os lugares pagos a ouro de gestores de empresas municipais? Das empresas com participação do Estado? Dos Presidente e Assessores dos Institutos Públicos que crescem todos os dias como cogumelos? Dos Directores de Museus, Centros de Estudos, Observatórios, Comissões disto e daquilo?
Querem melhor prenda do que os empregos que os políticos arranjam, entre si, para encaixarem filhos e filhas, noras, genros, netos e bastardos?
Querem melhor prenda do que as ajudas de custo? Os cartões de crédito? Os carros topo de gama? Os motoristas? As secretárias particulares? Os assessores?
Querem melhor prenda do que as reformas douradas com meia dúzia de anos de serviço dos senhores políticos? E dos tais gestores?
Querem melhor prenda do que os biliões que entraram nos bolsos das altas patentes da marinagem portuguesa com o negócio dos submarinos?
Querem melhor prenda do que a prescrição de dívidas fiscais aos senhores do capital?
Querem melhor prenda do que o empréstimo do Banco Estatal (Caixa Geral de Depósitos) a magnatas para que estes comprassem acções de Bancos privados?
Querem melhor prenda do que ceder galerias públicas para albergar (por uma eternidade) colecções de arte privadas?
E todas estas “prendas”, dentro da maior das legalidades. Prendas lesivas do património financeiro da Nação, mas legais.
Porque as “prendas” que o Governo considera como graves, não são estas: são as tais canetas de plástico, os calendários de publicidade, a garrafita de vinho do Porto, o cabritito. E são os desgraçados dos funcionários públicos que contribuem para a corrupção em Portugal. Não são os que recebem biliões, são os que recebem as tais garrafitas de vinho barato.
Sei, por exemplo, que são os pobres dos que diariamente nos aliviam do lixo que produzimos nas nossas casas (os “lixeiros” municipais), que correm todo o dia atrás do camião, pára aqui, pára ali, sujando as mãos e o corpo com os nossos dejectos, e que ganham o ordenado mínimo, e que, pelo Natal, nos vêm de mão estendida pedir a “consoada” de um míseros Euros para “ajuda do bacalhau”, que vão malhar com os ossos na cadeia porque se corromperam. Receberam a tal prenda proibida. São estes que estão a desgraçar o país. São estes que estão a levar o país à miséria. Não a cambada que suga (às escancaras e na nossa cara) o pouco que este país tem.
O PS prepara, no seu melhor estilo, mais uma lei aberrante e nojenta.
E, mais uma vez, os pobres vão levar a pancada, porque o PS só entende a moralização de um país dando pancadas a quem menos tem.
As cadeias estão cheias de ladrões de pé descalço, enquanto os ladrões de fato Armani se pavoneiam em BMs e Ferraris, pelos bairros chiques da capital.
Agora, a cambada vai ficar mais protegida: porque as prendas milionárias que recebem, estão previstas na lei.
A garrafita de 5 Euros, é que é corrupção.
E viva a República!

(552)

UM PAÍS MOLDADO POR UMA CLASSE,
PARA SUSTENTAR ESSA CLASSE

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(Com todas as pompas, a classe política festejou o 25 de Abril.
E tem todas as razões para o fazer: afinal, a Revolução dos Cravos, que deveria dar origem a um regime tendo como finalidade os cidadãos, acabou por se transformar num imenso albergue dourado onde se acoita a classe política e o mundo de interesses que dela depende.
Um país moldado pelos políticos para viverem à custa dele)

Portugal transformou-se numa imensa olaria onde o barro da nossa riqueza foi moldado à feição de que uma classe usufruísse dele.
O 25 de Abril deveria ter aberto a porta a um regime que tivesse como principal objectivo, o cidadão. A democracia que prometeu, deveria ter contemplado valores mais elevados, de dignidade, seriedade, de Justiça. E acredito – porque vivi esses tempos – que houve gente impoluta e séria que assim a entendeu. Restituir as liberdades básicas a um povo, foi essencial, como seria essencial encaminhar o país para a senda do progresso. E nem oportunidades nos faltaram: alturas de grande desenvolvimento económico a nível mundial, a adesão à UE que nos trouxe biliões para a modernização, gente com talento e competência, enfim, uma série de factores que nos podiam ter catapultado para o grupo dos países europeus mais desenvolvidos.
Reparem que até a Natureza foi pródiga connosco: uma situação geográfica estratégica invejável, junto ao mar, fazendo ponte entre a Europa, América e África, uma civilização de mais de 500 anos que, mesmo após a queda do colonialismo, manteve relações privilegiadas com os quatro cantos do planeta. E um clima soberbo, temperado. E uma topografia que tem de tudo, desde litorais extensos, a montanhas verdes, a serras inóspitas, a planaltos de sonho, a planícies insondáveis. E uma gente prazenteira, afável, hospitaleira. E uma mesa e pipo de truz! E o sol, e o mar, e tudo o resto!
E que fizemos disto tudo?
Nada!
Ou melhor: a classe política, que engrossou dia-a-dia, tratou de desbaratar todo este património, condições e oportunidades, porque decidiu moldar o país para que este a sustentasse. E como já não chegavam as Leis que pariu, que a protegia com desvelo, assalariava com generosidade, lhe criava cada vez mais mordomias e estabelecia excepcionalidades para quem queria fazer da vida política uma profissão, tratou de se rodear (ou de se deixar permeabilizar) pelos novos interesses económicos que, também, despontavam no país à sombra de insondáveis negócios e conluios entre a política e a Finança.
Foi assim que o lindo sonho de Abril se foi desfazendo a favor de quem mandava e em prejuízo de quem obedecia.
De longe a longe, e quando o mal-estar aquecia, algumas medidas demagógicas, todas de índole subsidiária, tentavam calar os descontentes mais violentos. Assim, a classe política, seguindo o princípio romano que sustentou tanto Imperador sanguinário: “circo e pão”, (no caso vertente: futebol e subsídios) foi distribuindo destas “iguarias” ao povo, entretendo-o dos reais problemas que assolavam o país.
O país, entretanto, afundava-se constantemente em negociatas de biliões, provocando o seu endividamento insustentável. Pedia-se ao estrangeiro para negócios dentro e portas que iam beneficiar magnatas e recompensar políticos. A corrupção, mal de todos os tempos, assumiu neste país a base da acção política. Já não era a Pátria, os cidadãos, que eram o objectivo das políticas, mas sim a traficância. Biliões e biliões eram, diariamente, evaporados dos cofres públicos em negócios nebulosos, em empreitadas derrapantes, em aquisições descabidas, em licenciamentos criminosos, ao mesmo tempo que se criavam condições de excepção aos políticos que não estavam ao alcance do comum dos cidadãos. Eram os ordenados volumosos, os bónus injustificáveis, as reformas com meia dúzia de anos de trabalho, a acumulação de cargos, e também essa manobra execrável de andarem os políticos a saltar da vida política para as administrações de empresas privadas, sem qualquer justificação curricular ou de competência, mas para se pagarem favores, para aliciar futuros candidatos, para acenar a essa classe política: que estivesse descansada porque, cumprisse o que os mandantes queriam, e depois teria lugare de ouro à espera (para continuar a traficar).
A envolvência corrupta era de tal modo, que foi necessário criar leis de protecção da corrupção, mecanismos de obstaculização das investigações, proteccionismos levados ao exagero, tendo como objectivo as prescrições, a conquista da impunidade por impossibilidade de criminalizar.
De escândalo em escândalo, diariamente, os portugueses foram ficando amortecidos, anestesiados, acabando por se conformar e já quase nem ligando à roubalheira a que assistia.
A classe politica tinha conseguido os seus objectivos: impor, finalmente e legalmente, um regime que a protegesse e permitisse viver à custa do Estado e, acima de tudo, que lhe permitisse manobrar em volta dos grandes negócios sem que fosse incomodada. E os pequenos apertos de que tem sido alvo, situações mediáticas, são só isso: puro mediatismo, que em nada resultaram de concreto. Quem o levou, bem o levou.
Portugal é hoje um país que já se afundou sem remissão. Nem outro 25 de Abril o salva. Todos os sectores da nossa vida pública (Justiça, Educação, Saúde, etc.) estão desacreditados, em pura falência efectiva.
Os portugueses temem o dia de amanhã como não temem o diabo.
É o país que temos. Um país onde uma classe dominante tiraniza, e todo o resto sofre.
Bem fizeram os senhores políticos em comemorar o 25 de Abril, porque a ele devem o ripanço.
E uma coisa estranha: não soube (para além das manifestações costumeiras e conhecidas) que a grande maioria dos portugueses tivesse, sequer, dado um viva à tal Revolução que dizem ser das flores.
Talvez porque se sintam abandonados: afinal, uma Revolução que foi feita para eles, foi apropriada por alguns.

(553)

CUIDADO, PASSOS COELHO!
NÃO VÁ NA CONVERSA DE SÓCRATES E DE CAVACO SILVA!

por Francisco Gouveia, engº

(É muito bonito que os dois principais líderes se unam perante a situação económica desesperada do país. Como é bonito que esta iniciativa do Presidente da República tenha resultado.
O problema é que Sócrates não pretende impor medidas estruturais, mas somente arranjar apoio para prosseguir o seu programa de esbanjamento a favor dos amigos e poderosos. E quanto a Cavaco, como já está em campanha e quer ser reeleito, precisa de um Passos Coelho, manso e conivente com Sócrates.
Tenha cuidado, Passos Coelho)

Foi bonito vê-los juntos, em nome da Pátria. E toda a gente percebeu que Cavaco Silva tinha conseguido juntá-los. Porque a situação desesperada do país assim aconselhava.
Até aqui, tudo bem.
Mas logo no dia seguinte, o Governo de Sócrates anuncia as medidas de combate à crise: manutenção da intenção de prosseguir na execução das grandes obras, diminuição nos valores das prestações sociais, que podem ir até ao pagamento de subsídio de férias e de Natal em Títulos do Tesouro (qual Tesouro, minha gente?), redução de salários, e por aí fora.
Ou seja, exactamente o contrário do que aconselham os especialistas não enfeudados à política.
Estas medidas de Sócrates, são meramente conjunturais, isto é, pontuais e temporárias, não resolvendo nenhum problema de fundo. Pelo contrário, agravam ainda mais a situação já ruinosa do país.
Para que este canto luso tivesse alguma viabilidade, seria preciso fazer três coisas: rever, extinguir e moralizar.
Primeiro, rever o plano de investimentos, congelando os grandes projectos e realizando somente os que se podem pagar e com um regime rigoroso de prioridades.
Segundo, há que reduzir o Estado. Já não é suficiente, emagrecê-lo. É preciso mesmo, reduzi-lo. E como?
Extinguindo muitos organismos públicos que, para além de improdutivos, só servem para gastar dinheiro e empregar a clientela política. Falo de Institutos, Comissões, Agências, etc.
E impedir legalmente a instalação de outros, como, por exemplo, as empresas municipais. Foi a criação destas empresas e do regime legal que as criou e protegeu, que as Câmaras Municipais, endividadas até ao pescoço para lá dos limites que a Lei permitia, conseguiram ainda endividar-se mais, transferindo para essas empresas encargos que, actualmente, representam 20% do seu grau de endividamento. Por outro lado, e para além de serem, também, empregadoras de clientelas políticas e de políticos em fim de carreira, em 2008, metade delas tinham dado prejuízo. Para que se tenha uma ideia do que são e de como funcionam estas empresas municipais, na área do Grande Porto (por exemplo) há empresas destas em que 90% do seu orçamento é gasto em salários e despesas do Conselho de Administração!!!!!
Não há nada que estas empresas façam, que não possa ser feito por um Departamento minimamente organizado de uma Câmara Municipal, com um número reduzido de pessoal e chefiado por um cargo não necessariamente superior a um Chefe de Divisão. Ou seja: a revisão da estrutura dos organismos do Estado (ou onde o Estado participa – seja centralmente, seja regionalmente via Câmaras Municipais), tem que ser revisto. Muitas terão que ser extintas, outras terão que reduzir pessoal e encargos, e em todas elas terão que rever quer os níveis salariais praticados (inexplicavelmente muito acima do praticado na Função Pública) que a extensão dos seus quadros.
E a terceira medida tem a ver coma moralização do país, acabando com o escândalo dos que, num país moribundo, à custa dele estão a enriquecer. E tudo isto teria que ser acompanhado, prioritariamente, pela reforma efectiva da JUSTIÇA. Os portugueses, sem esta moralização e sem Justiça eficaz, nunca entenderão nem aceitarão os sacrifícios que se lhes possam exigir.
Mas são estas as medidas estruturantes que Sócrates quer implementar?
Não!
Sócrates quer somente apoio para prosseguir uma política que vai reduzir salários a funcionários públicos que já ganham mal, que vai cortar com subsídios de desemprego (em vez de controlar as negas às propostas de trabalho), que vai acabar com subsídios de férias e de Natal, que vai continuar com rendimentos mínimos sem contrapartidas, que vai aumentar impostos ao mesmo tempo que mete biliões nos Bancos falidos para compensar os accionistas de topo, que quer continuar a gastar milhões em assessorias e pareceres exteriores, que quer manter a clique gestora a engordar à custas das facturas que pagamos ao fim do mês, que, em suma, quer manter tudo como está, remendando o fato com algumas medidas que lhe garantam a tranquilidade conivente da principal Oposição (PSD), para garantir a sua reeleição.
Quanto a Cavaco Silva, está, neste momento, no mesmo barco de Sócrates: quer ser reeleito, e precisa que o país não abane muito. Por isso, também lhe interessa que Passos Coelho faça figura de “bom menino”, e que entre neste jogo do empata.
Cuidado, Passos Coelho! Se esta “aliança” é para dar a volta a isto, tudo bem. Mas se é só para a fotografia, e servir de pau-de-cabeleira ao casamento de interesses entre Sócrates e Cavaco Silva, então é fugir já, com dois murros bem dados em cima da mesa, e impor-se. Ao fim e ao cabo, basta-lhe só prosseguir com as ideias que lhe nortearam a ascensão até à chefia do PSD.
Já reparou, Passos Coelho, que Cavaco Silva não tem qualquer interesse em que seja Primeiro-Ministro?
Já reparou quem lhe fez a vida negra dentro do partido, quem o retirou das listas à Assembleia, quem lhe tentou boicotar a candidatura?
Já reparou quem era o maestro desta banda?

(554)

EU NÃO QUERO EMPRESTAR 535 EUROS AOS GREGOS!

por Eng.º Francisco Gouveia

(Os nossos políticos resolveram emprestar 2.064 milhões de Euros à Grécia. São 535 Euros que cada família portuguesa vai ter que desembolsar.
Eu não quero emprestar, porque não empresto dinheiro a trapaceiros e ninguém tem o direito de decidir por mim a quem empresto o meu dinheiro!
Também entramos na UE, aderimos ao Euro, abolimos fronteiras, sem que nos perguntassem se era o que queríamos.
A classe política faz e desfaz, e depois, quando as coisas correm mal, cá está o Zé Pagode para pagar as contas)

A Assembleia da República votou favoravelmente (com excepção do PCP e dos Verdes) a proposta do Governo, de emprestar 2.064 milhões de Euros à Grécia. A justificação foi simples: há o perigo da situação grega ser sistémica. Isto é, da bancarrota grega se estender a outros países da zona Euro, estando nós a seguir na fila de espera.
Exactamente a mesma desculpa que levou o Governo a meter biliões em Bancos falidos. Chama-se a isto: premiar a má gestão, despenalizar a trapaceirice!
A situação grega é de bancarrota total. Os gregos gastaram muito mais do que o que produziam. Mas fizeram mais, e foram os próprios Governos que falsearam as contas dos seus Orçamentos. Durante anos, a Grécia viveu de Orçamentos fraudulentos que mascararam a situação gravíssima do país. Chegaram ao ponto de atribuir o 15º mês (subsídio de Páscoa) aos trabalhadores, para além de gastarem à tripa forra, dinheiro que existia nas contas mas faltava nos cofres. E não se tratou de uma fraude cometida por uma ou outra instituição (como aconteceu por cá no BPP e BPN), pois tratou-se de uma fraude imensa com origem nos Governos e no próprio Estado grego.
O que está em causa neste momento, é que, à sombra do Euro, e na convicção que esta moeda pode cobrir todas as manigâncias, têm-se feito os maiores disparates. É um facto que, a alastrar-se, isto é: se outros países começarem a entrar também em bancarrota (entre eles, nós) o Euro pode cair e, com ele, a própria União Europeia. Mas eu pergunto: fomos ouvidos para entrar na União Europeia? Fomos ouvidos para aderir ao Euro? Fomos ouvidos aquando do tratado que aboliu as fronteiras?
Não! A classe política decidiu por nós. E decidiu mal, ou, pelo menos, decidiu sem atender a que a Europa estava a ser construída do telhado para os alicerces.
Na altura de adesão ao Euro, os mais sensatos avisaram que era um perigo criar uma moeda única numa União que era uma amálgama de países, cada qual com o seu sistema financeiro. O Euro exigia um sistema financeiro único, o que implicava, praticamente, uma unidade económica europeia. Por exemplo: agora se vai entendendo qual a razão porque os ingleses não aderiram ao Euro.
Mas, na altura da adesão à moeda única, quem se consultou? Os banqueiros e economistas-políticos. A ambos interessava o Euro. Não seria tão claro que interessasse aos cidadãos.
O facto é que, em vez de obrigarem os gregos a resolverem a própria crise que criaram (mesmo que tenham que ser expulsos da UE, ou, pelo menos, suspensos até equilibrarem as suas contas) a Europa vai injectar-lhes a astronómica quantia de 110 mil milhões de Euros!
E este dinheiro virá do Banco Central Europeu, que terá de mobilizar esta verba durante os próximos 3 anos, sendo que nós, portugueses, por via da nossa participação nesse Banco, teremos que contribuir com uma fatia de 2.064 milhões!
E onde vamos nós arranjar tanto dinheiro? Pedindo emprestado ao estrangeiro e com juros agiotas.
Vai dando para perceber o que esta máquina infernal da grande Finança se prepara para fazer: para ganhar biliões à custa destes empréstimos. Então, porque não vai a Grécia, directamente, pedir emprestado a esses Bancos? Porque esses Bancos não confiam que os gregos algum dia lhes paguem.
Ora se esses Bancos não confiam, porque havemos nós de confiar?
Uma tramóia imensa, a que não é alheia a falta (ou a promiscuidade) de fiscalização efectiva da entidade reguladora europeia, o Banco Central Europeu. Agora se percebe o motivo pelo qual o Sr. Dr. Vítor Constâncio, que por cá também meteu o pé na poça no que se refere à fiscalização das fraudes bancárias, foi nomeado vice-presidente do tal Banco Central Europeu!
O resultado desta ajuda à Grécia, traduz-se (segundo estudos económicos recentemente publicados) em que, cada família portuguesa, vai emprestar 535 Euros aos gregos. Ou melhor, vai pedir ao estrangeiro para depois lhes emprestar. Nós, que nos debatemos com uma crise social grave, que estamos metidos numa onda de desemprego alucinante, que já estamos endividados até à raiz dos cabelos, que já não temos qualquer suporte para o que gastamos a não ser impostos cobrados ao consumo, que vivemos dos balões de ar dos empréstimos que constantemente fazemos ao estrangeiro, que já não ganhamos para pagar os juros desses empréstimos, nós que, muito brevemente, perderemos direitos sociais, veremos os ordenados a serem reduzidos, os subsídios de Natal e Férias a serem suspensos, os impostos a subir, nós que, estamos há muito a viver com o que não temos, ainda temos que pagar as consequências das fraudes e da má gestão dos outros!
Os senhores da Assembleia da República que, hipocritamente, decidiram ser donos dos nossos bolsos, e que votaram favoravelmente o empréstimo, deviam ser os primeiros a começar a pagá-lo. Mais uma vez, e em nome do povo que neles votou sem julgar que fosse apunhalado pelas costas, os senhores deputados decidiram por nós questões para as quais não tinham competência ética.
A União Europeia devia ser pedagógica, e obrigar os gregos a resolverem os seus próprios problemas. Assim, a Europa está a dar um sinal aos restantes países: façam lá as vossas candongas à vontade porque, depois, nós resolvemos a questão.
A União Europeia, se quer sobreviver, tem que ser dura perante este tipo de criminalidade económica ao nível dos Estados: correr com os trapaceiros ou suspendê-los até que se encontrem em posição de voltar a integrá-la.
Desta forma, só agudizamos o problema.
Mais uma vez se prova, que a UE está completamente controlada pelo grande capital internacional que está a conseguir o que queria: destruir o Euro e empenhar países inteiros.
Como o nosso!

(555)

PARA QUANDO
UMA UNIVERSIDADE SÉNIOR NA RÉGUA?

por Francisco Gouveia, Eng.º

(As Universidades para a Terceira Idade – UTI – têm demonstrado ser, para além de uma forma eficaz de combater a segregação e a solidão nos idosos, um meio excepcional para o desenvolvimento social e elevação cultural de uma comunidade.
Neste momento 1/3 do país já as tem. Contudo, em Trás-os-Montes e Alto Douro, só existem 3.
Vila Real e Lamego já as têm. Para quando uma, na Régua?
É o desafio que se propõe a este Executivo)

Somos um país de gente ignorante. O analfabetismo ainda assola o nosso dia-a-dia, herança de uma ruralidade medieva e de um cosmopolitismo de favela. A iletracia ganha terreno ante a ideia tecnocrata de que a cultura é um bem desnecessário porque improdutivo. O saber técnico, esse sim! Tem interesse, porque aporta riqueza. E foi graças a estas desgraças e a estes conceitos distorcidos, que Portugal viu génios a perderem-se nas rogas e nas fábricas, e grandes talentos que nem acesso ao abc tiveram.
Quantos dos nossos idosos, noutros tempos, não desejaram ir mais além, estudar, aprender, e nunca tiveram oportunidade de o fazer? E será que agora ainda acalentam esse sonho? E porque havemos de achar que a sabedoria só interessa a quem tem pela frente uma grande esperança de vida? Como se o fim da vida fosse património da idade?
A História acaba por desmentir toda este massame de mentiras, e colocar o saber no seu lugar. No lugar de quem quer adquiri-lo.
Por isso, hoje venho falar de uma experiência antiga, que nos últimos anos tem florescido por toda a Europa, e em Portugal se tem multiplicado, abrangendo já, um terço do nosso espaço territorial. Falo das Universidades Seniores, ou das Universidades para a Terceira Idade UTIs).
Comecemos pelo princípio.
Em 1727, um tal de Benjamim Franklim, em Filadélfia (EUA), ao observar o potencial que muitos idosos tinham e que não era aproveitado pelo preconceito, resolveu fundar um centro de estudos para adultos, criando assim os alicerces do que viriam a ser as Universidades Seniores. O certo é que a ideia, apesar do sucesso, não vingou, mas como que hibernou durante cerca de dois séculos e meio quando, em 1973, em Toulouse (França) uma cópia reformulada da ideia de Franklim, surgiu. Estava assim criada a primeira Universidade do género. Daí para cá, apoiando-se nos mais modernos métodos pedagógicos e no avanço da ciência, estas Universidades multiplicaram-se como cogumelos.
Em Portugal, data de 1978, em Lisboa, o aparecimento da primeira e, até hoje, já há cerca de 100, movimentando mais de 20.000 alunos e 2.500 professores. Mas o que pretendem estas UTIS ?
Acima de tudo dar aos idosos (geralmente admitem alunos a partir dos 50 anos de idade) a possibilidade de, finalmente, tirarem o curso que sempre ambicionaram, mas cuja vida lhes negou. Por outro lado combater a solidão, a exclusão dos idosos, reintegrá-los, fazer com que voltem a participar na vida social, e incentivar o voluntariado.
Estas UTIS funcionam sem fins lucrativos, geralmente da iniciativa das Câmaras, com ou sem a parceria de Associações Privadas, IPSS, Misericórdias, Escolas Profissionais, etc.
E não ficam nada caras, porque, para além das instalações, o corpo docente é formado por antigos e novos professores em regime de voluntariado. Cobram-se propinas simbólicas e tudo é feito no regime da boa vontade. De quem ensina, e de quem aprende.
A título informativo, em Portugal, em média, cada uma destas Universidades tem cerca de 150 alunos, 22 professores, as idades rondam os 60-70 anos, são frequentadas em 70% por mulheres, e as propinas reduzem-se a uma média de 12 € por mês. Mas estes números variam radicalmente quando se trata de UTIs das grandes cidades ou do interior.
Muitos professores, já retirados, regressam à vida activa para virem leccionar, algo que sabem fazer e que, muitas das vezes, abandonaram por motivos que não o desejo de continuarem a ensinar. Do lado oposto, os estudantes aprendem a reviver, a integrar-se numa sociedade que é tão escandalosamente segregacionista para com os seus idosos. E vêm, a princípio timidamente, tentar aprender mais, a tirarem o tal curso que sempre lhes foi negado. Depois, aliviam-se os temores e tudo corre bem. Muito melhor do que nas Universidades frequentadas por adolescentes.
Acima de tudo, e para além do bem-estar que a aquisição de conhecimentos dá, é uma forma da sociedade lhes agradecer, de lhes dizer que conta com eles, porque, quer queiramos quer não, aqueles que hoje arrumam os velhos de lado, amanhã serão velhos e serão arumados também. O que os novos fizerem hoje pelos idosos, irão encontrar mais tarde quando também o forem.
Na Régua, era bom que o executivo camarário começasse a pensar neste assunto. Tanto mais que, nos distritos de Vila Real, Bragança e norte de Viseu, só há 3 Universidades Seniores registadas (Ribeira de Pena, Vila Real e Lamego). Um enorme atraso relativamente a outras regiões desertificadas do país que, sob este aspecto, estão melhor apetrechadas.
Como, por exemplo, o Alentejo, onde a desertificação e a solidão é exasperante, e onde se regista a maior taxa de suicídios entre a população idosa, esta experiência da UTIS tem mudado radicalmente a vida de muita gente. Tem sido um sucesso fantástico!
A Régua, merecia uma UTI. Uma Universidade para a Terceira Idade. Além de que, como já referi, não é cara. Para além da implantação de uma logística básica (instalações que não precisam de ser de luxo, e pouco pessoal de apoio ao nível de serventes e um ou outro administrativo), a Universidade governa-se por si.
Das opiniões que colhi, sobre a influência que estas UTIS estão a ter nas comunidades onde foram criadas, obtive relatos fantásticos, sendo certo que, em pequenos meios, como é o da Régua e de grande parte dos concelhos transmontano-durienses, pode garantir-se que a vida social e cultural altera-se radicalmente para muito melhor. O entusiasmo dos idosos chega a ser de tal ordem que muitos, após os cursos, não se limitam a guardar o “canudo” numa gaveta, e regressam, também em regime de voluntariado, à vida activa. Mas há também a questão dos conhecimentos que adquirem e que transmitem a netos e familiares, para além de reclamarem maior exigência em tudo o que socialmente os rodeia.
Ter uma UTI num concelho, é uma prova de maturidade política, de alto sentido cultural, e de uma enorme sensibilidade social.
Penso em breve regressar ao tema. Porque o tema o merece.
Para já, aqui fica o desafio ao Executivo Camarário.

Nota: o autor agradece a colaboração do Dr. Silva Pinto, ilustre reguense, mentor e grande entusiasta desta ideia de uma UTI na Régua, sem a qual esta crónica não teria visto a luz do dia.
O meu bem-haja pela sua sabedoria generosa e dedicação a tão nobres causas públicas.

RUTIS
(Rede de Universidades para a Terceira Idade)
Instituição representativa das UTIS portuguesas
www.rutis.org

UNIVERSIDADES SÉNIORES NA REGIÃO

– Ribeira de Pena (Santa Casa da Misericórdia) – telf. 259 490 260
– Vila Real (Cooperativa Cultural) – telf. 259 324 845
– Lamego (Unv. Sénior Jerónimo Cardoso) – fax: 254 612 874

ainda nas proximidades do Douro:
Moimenta da Beira (telf. 254 582 501)

(556)

A QUEDA DA CASA DO DOURO

por Eng.º Francisco Gouveia

(Por termos destruído os alicerces do passado, que levaram séculos a erguer, e os termos substituído por barracas modernaças que nem o vento aguentam, é que o país está neste estado miserável.
A queda premeditada da Casa do Douro é, por isso, o começo da destruição do mundo duriense, porque o que está em curso é o espartilhamento do Douro em bocados, cada um para seu lobo)

A Casa do Douro necessita de um projecto de remodelação que a adapte às novas realidades do mundo vitivinícola. Um projecto consistente, que não deixe nenhuma iniciativa de fora e que seja congregador de tudo o que de novo e de qualidade tem surgido nos últimos anos. Falo, por exemplo, dos novos produtores-engarrafadores, dos novos projectos que têm surgido à margem das grandes companhias, de generosas ideias que se estendem desde o universo de uma nova geração de vinicultores que desponta, cresce e se afirma, até às academias, como a UTAD, escolas agrícolas, etc. Mas também que não abdique de patrimónios que lhe foram roubados, como o cadastro, nem o ajuste de contas (na real acepção do termo) com um Estado devedor e espoliar e que fez da CD gato e sapato.
Creio que a sua Direcção está consciente de que necessita de se apresentar à governação com propostas concretas, e mais do que há governação, aos seus cerca de 40 mil associados.
Se não o fizer, corre sérios riscos de extinção.
Ultimamente, e para além dos atentados de que tem sido vítima por parte do Governo (e na sequência de anteriores Governos, sejamos justos), quer as entidades oficiais que aqui na região se propuseram reestruturar a vida económica, quer as de índole privada, estão a fazer um “cerco” efectivo à instituição, no sentido de que ela acabe. É um “movimento” de cuja concertação já ninguém duvida. E, se por um lado, as instituições oficiais a atacam, por outro, as particulares ignoram-na, enviando nitidamente a mensagem de que a CD, na prática, já não existe. É como que uma espécie de velório, em vida, do futuro defunto.
Há, também, a considerar que a região está como que “embriagada” por uma febre turística, julgando que esta actividade será a salvação do Douro. Estou plenamente convencido que não será a salvação da região, mas será, com certeza, fonte de lucro para muito bolso. Adiante.
Mas é esta alteração das prioridades, da ordem natural dos factores, que me preocupa. Porque o ser Património Mundial (é bom que se entenda, e está a custar), não é o princípio de nada, mas antes o culminar de algo que se vem construindo ao longo dos séculos. Neste caso há mais de 300 anos. Julgar-se que o Património Mundial é o começo seja do que for, é um erro que se pagará caro. Ser Património Mundial traz vantagens, mas é uma grande carga de trabalhos e uma enorme responsabilidade.
O Douro é Património Mundial, graças à actividade vitivinícola, não graças ao turismo. Este último, quer se queira, quer não, será sempre subsidiário e condicionado às exigências da vinicultura.
E o que vejo, é que todas as atenções se têm virado para o Turismo, inclusive a angariação de fundos para este sector tem sido algo estonteante, enquanto que vinicultura duriense passa por problemas gravíssimos, de cuja solução ninguém quer saber para nada e nem cêntimo se despende. Uma coisa é certa: sem vinicultura, o Douro acaba-se. Mas não qualquer vinicultura. É a vinicultura de base, das pequenas empresas familiares, que salvaguarda os interesses do Douro. Por vontade das grandes Companhias, já tinham ido socalcos abaixo e aberto clareiras de cultivo. Por vontade deles, o vale já seria uma planície. E a questão, que também tem que ser vista em termos sociais e da própria tradição do empresariado português que, como sabem, sustenta o país e se apoia em pequenas e médias unidades, é se é mais importante uns milhares de turistas que por cá passam (a maioria nem quase põe os pés em terra) ou das cerca de 40 mil famílias que se sustentam graças ao que produzem.
Vivemos tempos conturbados e de uma grande violência, onde o respeito não existe, onde os valores se esquecem, e onde tudo se compra e vende. Inclusive, os homens. Nunca, como nos dias de hoje, as recompensas dos interesses foram tão tentadoras. E nesta avalanche completamente cega, não há lugar para que se medite em concreto no que deve realmente ser feito. Por isso, hoje em dia, numa hora se diz que não se aumentam impostos, e logo na outra se aplica uma subida. Por isso se pedem aos portugueses imensos sacrifícios porque não há dinheiro, quando no dia anterior, a horas mortas, se assina um contrato de um comboio super-rápido que nos vai atolar na lama da caloteirice. Por isso se diz às 15 horas, que o problema é passageiro e que está tudo bem, e às 15,30 horas, os banqueiros vêm dizer que não têm dinheiro para financiar seja o que for e que a Banca Internacional nos fechou a torneira.
Mundo de mentiras e enganos. E nós, pobres pagantes, e que do Poder só temos uma cruzinha que, de 4 em 4 anos, vamos pôr num papelito, sentimo-nos impotentes perante a tragédia que nos avassala.
E tudo isto, porquê?
Porque destruímos os alicerces de um passado que levou séculos a erguer, substituindo-os por modernices instáveis que nem a um sopro de vento resistem.
A nossa miserável situação, é o espelho do esquecimento criminoso de heranças que devíamos aprender a preservar.
A Casa do Douro, com o que arrasta de mobilização do sistema inter profissional, com o controle cadastral, com o seu património, sabedoria e aglutinação, é uma herança de que o Douro não pode prescindir se quiser sobreviver. A queda anunciada da Casa do Douro será, também, o início do fim deste mundo duriense tal qual o conhecemos (ainda). E o mundo duriense é este e nenhum outro: o mundo das serras esculpidas e das vinhas lá plantadas. Não há outro Douro.
O Douro dos hotéis, das piscinas, das esplanadas, dos eventos, logo se transformarão em ruínas silenciosas, mal o Douro comece a definhar. Ignorar este facto, é iludir o futuro, não saber interpretar os sinais do mundo, é uma prova da insuportável ignorância que todos os dias agride quem por cá anda observando com consciência e desinteresse pessoal, esta suicida mutação anunciada.

(557)

VALHA-NOS SANTA EDWIGES!

por Francisco Gouveia, Eng.º

Quem é Santa Edwiges?
Já lá vamos.
Antes, comecemos pelo princípio, e por essa tremenda patranha que constitui a presunção de que os países não vão à falência. Por muito mal governados que sejam, por muitas aventuras em que se metam, uma coisa era certa: as nações tinham uma garantia perpétua de nunca se enfiarem na bancarrota. E com este argumento assim nos foram embalando desde cedo, e nós, crédulos e inocentes, acabávamos por concordar. Podia lá ser? Que uma pátria com terra e gente, certificada por séculos de História, pudesse, alguma vez, sofrer a vergonha da ruína?
Mas quem é Santa Edwiges?
Tenham paciência, que já lá iremos.
Dizia eu que as contas eram boas de fazer. Por exemplo: Portugal tem um território com (números redondos) 90.000 Km2. São então: 92.000.000.000 metros quadrados. Ora se vendêssemos o país a 1 Euros / m2 (uma ninharia), só aí realizaríamos 92.000 milhões de Euros. Se somarmos o restante património (monumentos, edifícios, estradas, auto-estradas, pontes, benfeitorias afins, mais a costa marítima, as barragens, os rios e ribeiros, as nascentes de água, as indústrias, e tudo o mais de uma lista infinita) dá para ver que o país tinha património que chegasse para dar e vender. Portanto, a tal tese da impossibilidade de falência tinha uma consistência inabalável.
Mas quem é Santa Edwiges?
Tudo a seu tempo, meus caros leitores.
Contudo, havia um pormenor que nos era ocultado. É que os países não têm compradores. Há muita gente que os quer controlar, que os quer usar em proveito próprio, que os quer explorar, mas comprá-los, nunca! E por isso mesmo fomos dando conta de que, em tempos recentes, o Chile de Pinochet falira, a Argentina por duas vezes foi ao charco (com uma dívida de 62% do PIB quando, em Portugal, o valor da dívida já vai em 79% e a da Grécia em 114%). Mas isso foi lá na América do Sul – diziam os entendidos. E o Zimbabué de Mugabe? (Isso foi lá na África, nada tem a ver connosco – repetiam os “especialistas”). Mas ontem, foi a Islândia! (É um país lá muito para o Norte, cheio de gelo e frio, nada comparado com Portugal – justificaram os “cérebros”).
Mas afinal, quem é Santa Edwiges?
Calma, minha gente! Cada coisa a seu tempo!
Continuando.
De repente, desaba a casa na Grécia, e, como uma epidemia, fala-se na vizinha Espanha e na poderosa Itália. A própria UE treme, quase lhe dá o badagaio: afinal, os países podem mesmo ir à falência!
E porquê? O que é que a tal ciência económica, com que todos os dias nos massacram em overdoses, aponta como justificação para a hecatombe financeira? Tudo espremido, por entre palavreado técnico, gráficos para todos os gostos, eloquentes palestras e doutas opiniões, dá este sumo, ao alcance da mente de qualquer analfabeto, entendida por qualquer quarta classe tirada à noite, percebida por qualquer instrução primária obtida graças a uns cabritos ao mestre-escola: quem gasta mais do que o que ganha, paga a dobrar! Ou seja: contrair dívidas que não se podem pagar, são a falência garantida. O endividamento, é a causa primária, como sempre assim foi ao longo da História.
Portugal está na falência, está cheio de dívidas que não pode pagar, e o dinheiro que pedia (porque agora já não há mais bolos) era pagar juros de juros. Mesmo assim, ainda quer contrair mais dívidas, o que vai ser impossível porque a Banca Internacional não é tola ao ponto de emprestadar. Conclusão: estamos tramados! Tesos como virotes, já sem tanga que nos oculte as intimidades!
Com uma tragédia assim, estou certo de que só um milagre.
E é aqui que entra Santa Edwiges, alemã, nascida em 1174, falecida em 1243, e canonizada por Clemente IV em 1267. Trata-se da Santa padroeira dos endividados. Por isso, está a pensar-se numa campanha, para que cada português coloque nas janelas de sua casa, velas, pedindo a Stª Edwiges que lhes valha!
E já agora, para nós, contribuintes, umas orações a Santo Aleixo, padroeiro dos mendigos, não nos faziam nada mal!
Quanto à classe política que, ao longo dos anos, nos arrastou para esta situação de miséria, seria aconselhável que se mantivessem sobre a protecção de Santo Antão (padroeiro dos coveiros), de S. Crispim (dos sapateiros) e até de S. Gelásio (padroeiro dos palhaços).
A S. Nicolau, tem aqui todo o cabimento a sua interferência divina, especialmente nos nossos Administradores, Banqueiros e Gestores, pois é o padroeiro dos penhoristas.
Quanto aos portugueses, precisavam de se colocarem sob a protecção de S. Judas Tadeu e de Stª Rita de Cassia, padroeiros das situações desesperadas.
Mas não creio que toda a Congregação dos Santos seja já capaz de nos fazer o milagre, contudo, não custa nada tentar. Já que a falta de senso, a incompetência, o oportunismo e a desonestidade esgotaram os meios terrenos, que mais podemos fazer senão virarmo-nos, humildemente e com promessa de emenda, para os divinos?
Se é que ainda os Santos acreditam no nosso arrependimento.

(558)

VIVA O BB KING!
ABAIXO O “CHARME” DA RVP!

por Francisco Gouveia, Eng.

(Acho muito bem que BB King tivesse vindo ao Douro tocar. E acho muito bem que venham outros do mesmo gabarito.
Agora o que não acho bem, é ser todo o Douro a pagar um espectáculo que, pensado com cabeça, pagava-se a ele mesmo e ainda sobrava dinheiro para construir mais uma praça em Sabrosa. Para se pôr o nome do próximo que há-de cá vir!
Mais um deslize da Rota do Vinho do Porto, instituição cuja presidência aposta no “charme”, mas que resvala sempre para a chinela)

Acho muito bem que cá tivesse vindo o BB King.
E que venha o Eric Clapton!
E o Steve Vai, mais o Yingwie Malmsten, Joe Satriani, Petruci, Carlos Santana, Brian May, Jonh Mclaughim, Ai di Meola, Erik Mongrain, Andy Mckee, Tommy Emmanuel, Jonh Butler, Antoine Dufour, Don Ross, e todos os que arrastam multidões e praticam cachets compatíveis com aquilo que o Douro pode pagar, partindo da angariação de bilheteira! E todas as outras grandes figuras mundiais do rock, dos blues, da soul, e da pop que venham, que são bem-vindos.
E acho também muito bem que as instituições regionais e as autarquias fomentem este tipo de espectáculos.
Só não acho bem que seja de borla para quem quer assistir. Não acho bem que tenhamos que ser todos a pagar, com dinheiros públicos, o que é mais grave.
Porque mesmo nos que são financiados por fundos europeus, o dinheiro que vai para eles não vai para outros lados onde é mais preciso.
Vamos a factos.
Estiveram em Sabrosa cerca de 20 mil pessoas, quase todas oriundas dos quatro cantos de Portugal, e algumas (muito poucas) de Espanha. E poderiam ter estado muito mais se o concerto tivesse sido divulgado com outro profissionalismo.
Sabe-se também que, hoje em dia, estes espectáculos são caros. Por exemplo: uma noite no “Rock in Rio” custou cerca de 70 €! Um concerto do caseiro Tony Carreira, não se paga por menos de 20/25 € a entrada. E enchem todos. Português é assim: pode não ter dinheiro para o merceeiro, o padeiro ou o senhorio, mas para uma borga desenrasca-se sempre!
O concerto de BB King, números redondos, deverá ter custado cerca de 200 mil Euros. E é aqui que o disparate começa. Então, não seria racional levar 10 Euros a cada assistente (baratíssimo e não seria por isso que os que lá estiveram deixariam de ir), e o recital pagava-se a ele próprio?
Aliás, tomei conhecimento de alguns depoimentos dos presentes, que afirmaram estranhar que o espectáculo fosse de borla, pois vinham preparados para pagar e estavam a contar com o bilhete na ordem do 30 Euros!
Quando lá chegaram arregalaram os olhos porque era de borla! A muitos deles, que correm o país de lés-a-lés atrás de concertos, nunca tal presente lhes acontecera!
E, para isso, os “inventores” desta fórmula do “charme”, foram à CCDR-N (Comissão de Coordenação da Região Norte) buscar o financiamento que, de uma forma inexplicável, não o recusou. Isto é: a CCDR-N lá arranjou maneira de integrar este “evento” num tal programa Operação Norte (ON2) e financiá-lo com mais de uma centena de milhar de Euros!
Financiamentos dúbios e sinal de uma gestão muito discutível, que tem acompanhado o Dr. Carlos Lage, coincidindo esta gestão com o período de maior apagamento e definhamento do Norte. Talvez, por estas e por outras.
É certo que estes financiamentos para eventos sem qualquer consistência e (ou) nenhuns resultados práticos para o Douro, que não seja a romaria de vaidades que tapam a realidade das incompetências que gerem a região, têm muito a ver com o que diz e “manda” o braço direito do Dr. Lage, o Engº. Ricardo Magalhães da Estrutura de Missão, que parece ter metido a Resolução do Conselho de Ministros nº 116 / 2006 na gaveta (um dia explico o que é isto) e que, como todos sabem, parece querer ter mão em tudo, desde o Museu à Região de Turismo, passando pelas Câmaras Municipais!
Ou seja, na mesma altura em que a CCDR-N reprova 64 projectos de viticultores durienses (projectos que já tinham sido aprovados pelo Ministério da Agricultura) deixando-os descapitalizados e, inclusive, sob ameaça de multas pesadas, numa altura em que só consegue uma execução financeira de 6% para o Douro do tal Programa ON2, numa altura em que deixa de fora do sub-programa ON2 de construção, remodelação e equipamentos de creches, toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, numa altura em que, por 9 mil Euros, a 23ª volta a Trás-os-Montes corre riscos de não se realizar, numa altura em que faltam meios aos bombeiros para procederem à vigilância das praias fluviais da região, numa altura em que (pasme-se!) os Bombeiros da Régua nem dinheiro têm para comprar um motor novo para a lancha de intervenção em acidentes no rio Douro logo numa altura em que o turismo cresce, eis que, como por milagre, aparecem milhares de Euros para os forrós que a excelentíssima classe dirigente duriense decide organizar!
Áh país do caraças que nadas em dinheiro!!!
A iniciativa da vinda do BB King, foi da Rota do Vinho do Porto, instituição que já nos habituou com as suas operações de “charme”, a gastar rios de dinheiro em eventos descabidos. Só que, desta vez, o testo da panela saltou! A região, ao saber que o Sr. BB King ia ser pago com dinheiros oficiais, revoltou-se. Á boca cheia (mas tapada quando os responsáveis estão presentes) condenam esta aberração: uma região em crise profunda a dar-se ao luxo de financiar eventos destes.
Poderão alegar que se tratam de fundos comunitários, mas é preciso que se diga que os fundos comunitários também têm uma comparticipação do nosso Estado (dos nossos impostos) e que, dinheiro que é gasto ali, já falta acolá.
É o caso.
Por outro lado, acho muito bem que a Câmara de Sabrosa tenha aproveitado para receber o concerto. Afinal, se não fosse ali, seria no concelho vizinho. E nem se pode condenar por aí além o montante da sua comparticipação. Mas é preciso que se diga que Sabrosa continuará sem lugar no mapa, com baixíssimos índices de desenvolvimento, tendo das piores acessibilidades interiores, com uma interioridade que não se combate com concertos de BB King. Mas concertos destes, desde que organizados com cabeça, periodicamente, e com a junção de mais alguns atractivos, poderão até contribuir para aliviar os cofres da autarquia. Porque são rentáveis. Vejam só: se tivessem cobrado, somente, 15 Euros por cada entrada no concerto (que continua a ser um preço de saldo), daria para pagar todas as despesas e ainda sobrava dinheiro para compor uma estrada na depauperada rede viária local!
Contudo, é preciso cuidado, porque o exagero de pôr o nome do guitarrista na Praça, é uma parolice pegada (e quem o disse foi quem lá esteve, não fui eu). Há limites para tudo. E depois, se Sabrosa aprender com esta lição, e pretender organizar eventos semelhantes, pelo menos anualmente, tem que arranjar praças que cheguem para as vedetas que por aí poderão vir.
Em suma: esta operação de “charme”, saído da Rota do Vinho do Porto, é um alerta sobre a forma como se podem gastar dinheiros públicos sem retorno. Um péssimo exemplo a somar a outros que tiveram lugar, e ao próximo que não sabemos qual é, mas pelo historial, se imagina. Só falta saber donde vem o dinheiro para o próximo “baile de debutantes” da RVP. Pessoalmente, acho que uma gestão que assim gere, já devia ter sido demitida. Já não há pachorra para os actos “charmosos” da RVP. O Douro não pode dar exemplos destes. O Douro merece outra dignificação, outros exemplos, precisa de se mostrar tal como é, não como o querem pintar estes “aguarelistas” de circunstância. O Douro é um óleo forte que só precisa de alguma luz para que se veja. Luz que é incapaz de brotar das cabeças deste clube privado.
Pois para que se saiba, e respondendo a algumas críticas que me chegaram, aqui fica o esclarecimento: eu nunca poderia ser contra a vinda de BB King ao Douro. Foi também com ele, que a minha geração se habituou a ouvir blues, e eu e muitos músicos como eu, a aprender a tocá-los.
Sou, sim, contra o facto de ter que ser o Douro (directa ou indirectamente) a pagá-lo, quando um espectáculo destes se paga a si mesmo.
E o Douro significa, todos nós.

(559)

O PAÍS DOS COMENDADORES

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Comemorou-se mais um 10 de Junho. E mais uma vez, na hora da Pátria reconhecer os seus melhores, Trás-os-Montes e Alto Douro ficou na gaveta da Chancelaria das Ordens Honoríficas.
Quando António Cabral faleceu, nem uma carta de condolências chegou de Lisboa.
Agora, foi a vez de recusarem ao Padre Fontes a homenagem que o país lhe deve.
Ele, e todos os transmontanos-durienses, foram mais uma vez humilhados.
Uma Chancelaria que é o espelho de um país)

A demagogia e o oportunismo da nossa classe política, conseguiram transformar, ao longo dos anos, a data do 10 de Junho (dia do orgulho de ser português), num velório da Pátria.
O que devia ser uma festa dos portugueses, está transformado num feriado sempre bem-vindo e, neste ano, numa “ponte” de fim-de-semana, sem que ninguém saiba já a que se refere o 10 de Junho.
E o assunto que aqui me traz hoje, é um dos pormenores dessa cerimónia descolorida, e das tais condecorações com que, neste dia, se diz premiarem os melhores.
Mais uma vez, a indescritível cerimónia de entrega das comendas, resultou numa mistura de grelos, onde algumas figuras (muito poucas) de inegável mérito e a quem a Pátria deve gratidão, tropeçaram com outras, de inenarrável historial, de nulo merecimento, de oportunismo descarado.
A Comissão encarregue de propor ao Senhor Presidente da República as personalidades que devem agraciados, a dita Chancelaria das Ordens Honoríficas, transformou-se numa espécie de Comissão Liquidatária da dignidade das grandes figuras da Pátria. Desde militares que nunca dispararam um tiro, a políticos que asnearam toda a vida mas a quem fazia jeito uma medalha para ornamentarem uma prateleira mais mal decorada lá em casa, há por lá “cunhas” de todas as qualidades e feitios. E a dita Chancelaria, que deveria ser o espelho do rigor, a balança justa dos bons serviços prestados pelos portugueses à sua terra, é uma instituição permissível, vulnerável, provincianamente arreigada à tradição dos favores paroquiais. Mas o que é mais grave, é que o Sr. Presidente da República, a quem, em última estância, cabe aceitar ou não o que lhe é proposto, alinhe neste teatro com uma falta de sentido crítico assustador, e uma conivência que amedronta.
Não vou aqui citar nem um nome sequer, dos que foram agraciados. Quem, assistiu à cerimónia, sentiu, como eu, a mesma revolta ao ver subir ao tablado da homenagem, alguns decepcionantes portugueses que devem mais à Pátria do que a Pátria a eles, mas mesmo assim se cobram do que não lhe deram, e deviam.
Falo dos que lá deveriam estar e não estiveram. Falo dos que, há anos, já lá deveriam ter estado e nunca lá subiram. Falo daqueles para os quais já é tarde demais qualquer homenagem.
Falo do nosso António Cabral, que, quando faleceu, nem uma carta de condolências de Lisboa recebeu. Falo de um Bento da Cruz, de um Barroso da Fonte, de um Ângelo Minhava, de um Altino Cardoso, e de muitos outros de uma lista imensa de transmontanos e durienses, que para aqui andam neste recanto longínquo do país, esquecidos, e que, apesar de desprezados, continuam a segurar as amarras de uma cultura portuguesa que parece só existir nos corredores da arrogância lisboeta.
É claro que estou a falar de transmontanos-durienses, de gente que conheço, da minha gente, da gente que me ensinou valores de sabedoria, dignidade e portugalidade, que nenhum catedrático da tal Chancelaria alguma vez foi capaz de imaginar.
E falo desse roubo de lesa-Pátria, e só não digo de Igreja porque ele é padre: ANTÓNIO FONTES, Barrosão de Cambezes, figura ímpar de uma região que pôs no mapa, e de um país a quem ensinou a humildade da cultura, a sabedoria da simplicidade, e a coragem de, do nada, fazer um mundo!
E vejam só:
Foi elaborado um “dossier” de 300 páginas, incluindo testemunhos das mais variadas personalidades, propondo à Chancelaria das Ordens Honoríficas, a condecoração do Padre António Fontes.
Este dossier foi subscrito, entre muitos outros, por: Mendes Ferrin e António Colmonero, da Universidade de Santiago (Espanha), Alain Tranoy da Universidade de Poitiers (França), Vaquero Torreno da Universidade do Porto, isto só para falar de algumas personalidades de vulto estrangeiras que reconhecem o papel além fronteiras da obra do Padre Fontes. Quanto às portuguesas, não chegariam as páginas deste jornal para as enumerar.
Porque a Lei assim o determina, teve que ser um ministro a apresentar a proposta, missão que, generosamente, foi assumida pelo Dr. Rui Pereira, então Ministro da Administração Interna. Isto foi em Março.
Pois não sabemos o que a Chancelaria fez ao processo. Decerto, a meteu nalguma arrecadação.
Mas, por outro lado, achei que talvez não se tivesse perdido muito. Porque à força de distribuir comendas como quem dá milho aos pombos, Portugal está transformado num “país de comendadores”. Acho que chega a ser quase insultuoso, ser comendador em Portugal, atendendo à qualidade da maioria dos que, até hoje, receberam tal condecoração.
Mas isso é o que eu penso, e o que eu penso hoje, amanhã se esquece.
Apesar de tudo, não queria deixar de expressar, mais uma vez, a revolta dos transmontanos para com um Poder que só cá vem pedir votos. De um Poder sem sentido de Justiça, de uma Justiça tão simples e banal como poderia ser a atribuição de uma condecoração a um transmontano que a merece.
Mas que sabe Lisboa do Barroso? E de Cambezes? E de Vilar de Perdizes?
Sabem dos corredores lisboetas onde se conspira, negoceia, se trocam favores, se compram benesses, se vendem homenagens.
Depois, o triste velório deste 10 de Junho, iria concluir-se com o discurso do Sr. Presidente da República.
Altura em que desliguei a televisão.
Direito meu.
Só ouço o quero, e o Senhor Presidente já não tinha mais nada para dizer que eu já não soubesse.
Lembrei-me do Padre Fontes, dos amigos, da minha terra, e achei que, no fim da comédia a que assistira, é isto o que mais vale: o reconhecimento sincero que Trás-os-Montes e Alto Douro tem pelo Padre Fontes vale mais do que o formalismo circunstancial de uma medalha que lhe pusessem na lapela.
E, se calhar, até lhe fizeram um favor, porque o Padre Fontes não usa fato, e teria de pedir uma gravata emprestada para ir à cerimónia.
Por outro lado, o que há mais em Portugal, são comendadores.
Padre Fontes só há um.

Em nome dos muitos que me pediram para redigir estas linhas, aqui transmito ao Padre Fontes o grande abraço que me encomendaram e no qual me incluo, que julgo ser a melhor medalha que lhe podem dar: a da amizade e do reconhecimento da sua terra.

Francisco Gouveia, 10 de Junho de 2010

(560)

SERÁ QUE EXISTE UM DOURO TURÍSTICO?

por Francisco Gouveia, Eng.º

“O nosso turismo está entregue a amadores”
Prof. José Hermano Saraiva, 1999

Vou contar-vos a história de um Douro turístico que anda nas bocas dos dirigentes regionais como “doce da Teixeira” (que só sabe bem quando é fresco, mas ressesso até agonia), Douro que tem servido para foguetório caseiro, para que os pavões da terra abanem as caudas e tirem dos armários os fraques já comidos pelas traças, para pagar salários chorudos a responsáveis locais que sabem tanto de turismo como eu de lagares de azeite, Douro que, quando elas mordem a sério, nem num modesto catálogo de feira é mencionado.
Afinal, este tão propalado Douro Turístico, existe ou não?
A história começa assim:
Era uma vez um certame tido como o expoente máximo dos galardões turísticos portugueses, de seu nome (e pomposamente): GALA PUBLITURIS PORTUGAL TRAVEL AWARDS, que reúne sumidades e personalidades de relevo no panorama turístico nacional, e que, anualmente, atribui Óscares turísticos nos diversos sectores, desde o hoteleiro ao da região, passando por companhias de rent-car, campos de golfe, SPAs, etc., etc., etc.
Esta Gala, realizada no Algarve (Vilamoura), é apadrinhada pelo Governo com a presença do Secretário de Estado do Turismo. Mas mesmo que o governante não pusesse lá os pés, é bom saber-se que, do júri composto por 13 elementos encarregue da atribuição dos galardões, fazem parte, entre outros: 2 ex-secretários de Estado do Turismo, o presidente da Associação de Hotelaria de Portugal, o presidente do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo, o presidente da Associação Portuguesa de Viagens e Turismo, o presidente da Confederação do Turismo Português. Como se vê, as entidades mais importantes do sector.
Feitas as apresentações, lembro que nos três anos anteriores, foi a região do Algarve que ganhou o galardão. Algo que dá para desconfiar, mas que se há-de fazer? Estão lá todos os manda-chuvas do Turismo…
Acontece que, este ano, os nomeados para melhor região de Turismo foram os seguintes: Açores, Alentejo, Algarve, Lisboa e Vale do Tejo, Madeira, Porto e Norte de Portugal.
Resumindo: este ano ganhou o Alentejo.
Concluindo: do Douro, nem uma palavra, nem uma referência, nem um leve retoque na maquilhagem da cerimónia. ZERO ABSOLUTO!
Perante tal omissão, das duas uma: ou a dita Gala anda mal informada (algo que duvido que aconteça), ou então o tão propalado Douro Turístico, o tal dos Festivais de Cinema, das Operações de Charme, dos Missionários Estruturantes, do Museu do Quarteto, das Emoções, das não sei quantas camas a haver, dos barquinhos a passarem de um lado para o outro, do National Geographic, etc. e tal, não existe! Será tudo uma invenção, fruto da imaginação prodigiosa de certos dirigentes regionais que inventaram um Douro Turístico para se montarem a cavalo nele!
Afinal, tanto dinheiro gastamos na promoção deste Douro, e nem três doutores em Lisboa, deram conta da existência dele!
Mas a história não poderia acabar sem uma moral. Que seria das histórias sem uma moral no fim?
O caso é que este Douro Turístico anda entregue a amadores, a gente que não percebe patavina do que anda a fazer. E nem tem que perceber! Não se pode exigir a engenheiros, arquitectos, professores de liceu, mestres-de-obras, barqueiros, sapateiros ou capadores de porcos, que saibam de turismo!
Há, de facto, nas Universidades, cursos específicos sobre Turismo, mestrados, doutoramentos, e há também os currículos. Qualquer empresa que se preze, e que necessite de recrutar alguém para determinado cargo de importância, trata de se precaver com a competência técnica de quem vai escolher, do seu passado na actividade e dos resultados que obteve, porque sabe que da escolha acertada depende o bom desempenho dos objectivos que pretende.
Então, porque carga de água, no Estado não é assim? E os cargos de eminente competência técnica têm que ser entregues a políticos que, ao tomarem posse, a maioria das vezes nem sabem onde assinar um documento?
E a desgraça deste Douro Turístico, é somente este: maçaricos armados em iminências! Gente que não faz a mínima ideia onde está, para o que está, como fazer, como dirigir, como objectivar!
Depois, acontecem anormalidades como esta: no maior certame turístico de Portugal, o Douro não existe.
Existe somente nas conversas de treta com que os dirigentes regionais nos vão embalando, para garantirem os cargos descansados que usufruem, e nas páginas de louvor com que a imprensa regional vai pagando as dívidas.
E o pior é que esta gente gasta à tripa forra os nossos impostos com eventos inconsequentes, e a prova está que nem sequer no âmbito nacional conseguem impor a região como um destino turístico de referência.
Mas a culpa não será deles, mas de quem os lá pôs, e dos responsáveis locais (com especial relevo para algumas autarquias) que andam atrás deles como mendigos a ver se lhes tocam umas migalhas dos tais eventos disparatados.
Quanto ao resto, é ler as palavras sábias que encabeçam este artigo. Está lá tudo dito, tão clarinho que até era escusado eu escrever este artigo.

(561)

O FIM DA CASA DO DOURO,
É O PRINCÍPIO DO FIM DA REGIÃO DEMARCADA

por Francisco Gouveia, Eng.º

(E pronto: a Casa do Douro vai acabar. Aquela que foi o baluarte da região agrícola que mais impostos paga ao Estado, aquela que foi o suporte de 40 mil agricultores a quem se deve o Douro que hoje conhecemos, aquela que foi a mão-de-ferro que permitiu que o inter-profissionalismo vingasse como forma justa de gerir todos os interesses, aquela que foi a Casa Mãe do Douro, vai finar-se.
Por sobre as suas ruínas, vão crescer como ervas daninhas, a liberalização, a corrupção, os taludes “à chinesa”, a conspurcação do rio, a desertificação, em suma, o fim do mundo duriense que nos foi legado.
O Douro Património Mundial, estará, também, por dias)

O Ministro António Serrano devia saber que gerir uma instituição como a Casa do Douro, ou uma região agrícola como é o Douro, não é o mesmo que gerir uma empresa ou um grupo empresarial. Por outro lado, e mesmo que assim fosse, o Sr. Ministro é mau de contas, percebe pouco de política fiscal e tem um fraco sentido de previsão de consequências. O anterior Ministro sabia de agricultura, mas nada sabia de gestão. Este, sabe de gestão, nas não percebe nada de agricultura.
A solução que impôs à Casa do Douro, de entrega de vinhos para pagamento da dívida, é algo de tão absurdo, que não se sabe onde começa o ridículo da proposta nem onde acaba o disparate da solução.
Antes de mais, o Sr. Ministro devia saber que o Douro é a única região agrícola do país que dá lucro ao Estado. Isto é, a que mais impostos paga e a que menos recebe de subsídios. Feitas as contas, havia o Governo de andar com o Douro nas palminhas. Por outro lado, esta robustez da região, assenta num ancestral processo de conciliação entre partes historicamente desavindas por interesses antagónicos: a Produção e o Comércio. E a Casa do Douro, como representante de cerca de 40 mil agricultores (produtores) tem sido o baluarte dessa metodologia que tem permitido que, no Douro, as coisas se viabilizem sem percalços e atritos: o inter-profissionalismo. Quer isto dizer que, destruindo-se a Casa do Douro, destrói-se o inter-profissionalismo, e sem ele abrem-se as portas à liberalização total do sector. E a liberalização do sector ocasionará a que o mundo duriense, o tal que herdámos, o tal que é Património Mundial, o tal que move gente dos quatro cantos desta terra na miragem do turismo, acabará. Aliás, está já a acabar, a deteriorar-se, fruto de alguns oportunismos que se vão manifestando no meio da confusão e, especialmente, da fraqueza da Casa do Douro.
Eu pergunto: Há quantos anos não se constrói um muro de xisto ou pedra de apoio de um socalco? Há quantos anos não se remenda, sequer, um muro destes?
Pelo contrário, estes muros parecem terem sido abolidos das práticas das Quintas que os substituem por taludes. Taludes imensos, em centenas de hectares, no melhor estilo chinês. Sim, porque mestres em socalcos de talude, são os chineses! Continuem assim, a conspurcar a paisagem duriense com taludes, e depois queixem-se que o Património Mundial vai ao ar!
Mas, dizia eu, a solução encontrada pelo Sr. Ministro, é de uma crueldade atroz! Tanto mais que a Casa do Douro, ciente das dívidas que tem, não pede ao Estado que lhas pague, nas somente que lhe restitua os mecanismos legais, e que foram sua prerrogativa por séculos, de forma a que possa angariar receitas que lhe pernita honrar os seus compromissos.
Eu gostava de perguntar ao Governo, porque carga de água, por exemplo, não faz uma penhora às máquinas de filmar, aos cenários, aos estúdios, aos carros, e a tudo o mais que cubra os 100 milhões de Euros que a RTP dá de prejuízo ao Estado, todo os anos? E quem fala da RTP, fala das restantes empresas públicas que são uns autênticos mananciais de gastos e a quem o Estado, todos os anos, lá vai pagar a “congra”.
A Casa do Douro, uma vez, mas só uma vez, teve o azar de fazer um mau negócio. Reconhece-o. E quer redimir-se do erro, pagando as consequências desse erro. Para isso bastava somente que a deixassem trabalhar como trabalhava, como sabia, como devia, sem a intervenção do Estado em matérias que chamou a si numa clara e despudorada tentativa de liberalizar o Douro, fazendo a vontade a um Comércio poderoso que se mexe em Lisboa como truta na água.
Este Governo está por dias – já toda a gente sabe, mas não sairá sem que antes façam uns arranjinhos do costume. Se está farto de fazê-los às escancaras, que será capaz de fazer no sub-reptício da saída?
Depois de retirar à Casa do Douro todas as competências que eram por direito dela, e de a deixar sem as contrapartidas financeiras que daí advinham, depois de a sufocar com sucessivas ameaças de penhora, de cativação de bens, depois de lhe ROUBAR o cadastro, depois de não assumir os funcionários da Casa do Douro como integrantes do Ministério da Agricultura (que era o mínimo acto de Justiça que se poderia esperar de um Estado honrado), querem agora ROUBAR-LHE os vinhos que tem em stock, e que constituem um património inexcedível e, por isso, apetecido.
Estamos na região agrícola que mais lucros dá ao Estado – já o disse, naquela que foi a primeira Região Demarcada do Mundo, e é assim que a tratam!
Mais valia que o Sr. Ministro acabasse com a comédia de vez: mandava lá umas camionetas carregarem os vinhos, e depois os catarpilars para arrasar com a Casa. Pronto! Estava feita a vontade a Gaia.
Triste país que não educa o futuro com os vindouros sentados nos alicerces do passado!
É tão fácil destruir, Sr. Ministro!
Porque nem na sua vida inteira, era capaz de erguer metade de um socalco.

(562)

UM CONVITE:
FAÇAM UMAS FÉRIAS EM TABUAÇO

Por Francisco Gouveia, Eng.º

“Na serra alta duriense – muito para cima – há uma ilha, pedaço de paraíso, cercada pelas águas de três rios: o Tedo, o Távora e o Douro.
Lá, podem descobrir-se os cinco cantos de Portugal: o verde do Minho, as serras das Beiras, os planaltos de Trás-os-Montes, as planícies do Alentejo, o impressionante Vale do Douro.
Tudo no mesmo lugar.
Chama-se Tabuaço.

in Meiga (contos, Francisco Gouveia)
editado em 2002 (revista em 2010)

Este é o convite que faço a quem quiser conhecer Portugal sem ter a necessidade de percorrer todo o país.
Falo do Douro, mas de um Douro especial, que está lá à vossa espera com um misto de simplicidade rústica e complexidade natural.
Certo e sabido que puxo a sardinha à minha brasa – confesso – porque sou de lá (ou melhor, por contingências da vida vim nascer ao Porto sem que, contudo, as raízes dos meus genes deixassem de permanecer amarrados a este canto duriense onde conheci o mundo).
Falo do Douro, mas de um Douro diferente, onde a serrania tanto abre em vinhedos como, logo de seguida, se adensa no mais profundo pinhal.
Falo de uma terra algo inóspita, quase selvagem, onde esta se confunde com o que de mais belo a Natureza criou. Selvagem porque é assim, encastrada entre montes, onde se vislumbram serras de vertigem, onde rios se enclausuram, onde aldeias ainda se chancelam pelos parâmetros de tempos inóspitos.
Falo-vos de TABUAÇO.
A magnífica Tabuaço, que resistiu à pressão de um Douro que economicamente por vezes perdia a cabeça, e de uma Beira que se encolhia nas lendas de Aquilino, e no que as Terras do Demo lhe aportavam de memórias e aventuras.
Falo-vos de TABUAÇO.
De um baluarte do equilíbrio entre regiões. Isso mesmo: se eu quisesse escrever sobre o que Tabuaço é, diria assim: uma mesa de paz. Paz entre a violência de um Douro inconstante, e de uma Beira cabisbaixa e a tentar levantar a cerviz de uma pomba ferida.
Falo-vos de TABUAÇO.
Quem há-de falar dela, se não eu? Porque as paixões dão em cartas de amor – assim dizia o mestre Fernando Pessoa – pois quem havia de ser?
Tabuaço é terra que, geograficamente, é um fenómeno. Ou então vejam: tem lá os verdes do Minho, espraiados em prados, lameiros, e em fontes de água pura que nunca mais acabam (por lá há curas termais que aliviam as maleitas do corpo desde a antiguidade).
E lá cabem as serras da Beira, inóspitas, vigorosas, a desafiarem o alpinista mais atrevido.
E, mais acolá, lá para as bandas onde Chavães desce, Tabuaço tem a magnitude dos planaltos transmontanos. E estes, mais um pouco para sul, estendem-se em lençóis de horizonte, onde um homem, ali caído em desamparo, pode jurar pelo santo a que mais reza, que está no Alentejo.
Falo-vos de TABUAÇO.
E, acima de tudo, do mundo fantástico do Douro. Que se descobre em cada recanto desta terra. Sei, porque sei, e até juro, que por lá andam memórias de outros tempos. Dos tempos em que o Douro era um manancial de gente, de povos, de aldeias cuja lembrança nos faz cair uma gota ao canto dos olhos.
TABUAÇO de uma passado que nos aparece escrito em cada canto da vila, em cada curva do monte, em cada paisagem que, ao estender-se ante os nossos olhos, nos deixam a todos a vontade de um regresso a outros tempos, onde a bravia Natureza se encolhe à beleza que a distingue.
Faço-vos, então, este convite: venham até cá. Venham conhecer TABUAÇO.
Já agora, esqueci-me – e não devia – de vos lembrar, que aqui é terra de bom acolhimento, de boa e sossegada pernoita. E porque quem vem não prescinde da boa mesa, apreciem a de cá, que é de truz!
Já para não falar dos vinhos, oriundos da terra que se orgulha de ser a primeira região demarcada do mundo, e de já ser Património Mundial.
Deliciem-se com um repasto à moda de TABUAÇO, ao fim da tarde, e depois atestem-lhe com um “vintage” Porto que trás na seiva gerações de sabedoria. Depois, refastelem-se numa cama a primor.
E digam-me, no dia seguinte, se não conheceram o paraíso!

Para quem quiser saber mais pormenores:

Alojamento (telefone):

Residencial Satélite (na vila), 254 789 391

Quinta do Monte Travesso (Turismo Rural), 254 789 158

Casa do Brasão (Turismo de Habitação), 254 780 040 / 1

Casa Cimeira Turismo rural), 254 732 320

Quinta da Moita (Turismo de quinta), 254 789 120

Quinta do Panascal (Turismo de Quinta), 254 732 321

Boa mesa (telefone):

Tábua d’Aço, 254 781 711

Retiro da Avenida, 254 781 141

O Cruzeiro, 254 789 231

Satélite, 254 789 391

A Tarraxa, 254 536 164

Casa Cimeira, 254 732 320

Nota do autor: e com este convite, me despeço até Setembro, agradecendo aos meus leitores a generosidade com que me lêem, e desejando-lhes muita saúde e que se divirtam com as romarias que por aí estão a despontar por toda a região duriense.

(563)

TRÁGICO AGOSTO

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(Um país em chamas, bombeiros mortos, estradas pejadas de vítimas, catástrofes a envolver dezenas de viaturas, banhistas afogados nas praias, e sei lá mais o quê de tragédias que encheram telejornais, foi o balanço de um “querido mês de Agosto” transformado num inferno onde os políticos aproveitaram para falar de revisões constitucionais, de eleições presidenciais, e outras tretas que nada tinham a ver com os dias negros que se viviam)

Dizer que foi um mês em cheio para os incendiários, é uma banalidade. Dizer que, para o ano, lá estarão outra vez a gastar caixas de fósforos pelas florestas que restam, é uma certeza. Dizer que a Justiça continua cega, surda e muda à realidade, é algo que toda a gente já sabe.
Mas dizer que a imprevidência, a irresponsabilidade, e essa ideia tão lusitana que garante que os males só acontecem aos outros, também é uma verdade.
Quanto ao combate a tudo isto, os nossos políticos (que têm a faca e o queijo na mão, que o mesmo é dizer, o poder de fazer as leis e de as fazer aplicar), continuam a “pegar o touro de cernelha”, isto é, a insistir que o reforço de meios é cada vez maior e que, portanto, nada mais podem fazer.
E andamos nestas bolandas: se a direita diz que é de amarrar os criminosos a um pinheiro e deixá-los arder, logo vem a esquerda a dizer que os direitos humanos obrigam a que os coloquemos num hotel de 5 estrelas!
Não há o sentido do equilíbrio, da acção eficaz, da prevenção obrigatória, e os “coitadinhos” que, por alcoolismo ou demência, todos os anos trazem o inferno nas intenções, juntamente com os criminosos organizados, os cretinos com interesses nas florestas e nos pastos, os que não conhecem outros meios de vingança, e um sem número de corrécios por demais identificados pelas autoridades, todos os anos passam pelos gabinetes dos juízes com a certeza de que a impunidade é garantida.
Por outro lado, os milhões que a UE disponibiliza para o ordenamento florestal, ficam nas gavetas do Ministério não se sabe bem a fazer o quê. E fala-se no cadastro geral do país. Mas será que alguém sabe do que se está a falar quando se fala de um cadastro florestal a nível de um país? Nem um século chegava para o completar!
No fundo, fala-se e fala-se e fala-se, sem se saber o que se diz. E continuam-se a gastar biliões em material de combate aos incêndios, a reforçar as forças de bombeiros, de tal modo que, qualquer dia, somos todos bombeiros.
Mas as raízes do problema, que passam pelo tal ordenamento, que passam pela anulação dos incendiários dementes, pela detenção rigorosa e obrigação de indemnização dos criminosos, pela fiscalização do cumprimento da lei de forma a que cada um trate do que é seu e proteja os seus bens rapando os matos em volta das suas habitações, e um sem número de outras medidas que há muito estão diagnosticadas, e que custam quase nada ao erário público, continuam sem aplicação, sem que haja vontade de as lançar no terreno, sem que haja coragem para as implementar. Porque não interessa. O que interessa é, todos os anos, gastar cada vez mais em material, em alugueres, em contratos a empresas que vendem material para apagar incêndios.
E não nos queixemos, porque a culpa também é nossa, porque partilhamos todos um pouco de toda esta irresponsabilidade. Porque somos pouco exigentes. Somos tão servis que insultamos de filho “daquela tal”, um político, e no momento seguinte lhe apertamos a mão e sorriãmos apalermados se ele por acaso nos aparecer pela frente.
Somos assim, um misto de corajosos quando as causas são pequenas, e de cobardes quando as causas são imensas. Somos assim, capazes de matar um vizinho a caçadeira por dez centímetros de terra, e de fazer uma vénia a quem rouba um país inteiro.
E os políticos sabem bem das nossas fraquezas, do nosso “deixa andar”, e esse conhecimento de uma natureza que é violenta com os fracos mas benevolente para com os poderosos, dá-lhes todos os trunfos para que continuem a fazer de nós palhaços e a tratar-nos como súbditos fiéis e domesticados.
Que me interessam as revisões constitucionais e as eleições presidenciais, se as florestas verdes do meu concelho são agora uma manto negro e fétido, e a minha aldeia esteve a 5 metros de ser varrida do mapa?
Interessava-me era que esta gente governasse como deve ser, e, se não o fizesse, eu tivesse o direito de os correr a pontapé no sítio onde as costas mudam de nome.
Desde que Jesus expulsou os vendedores do Templo ao estalo e à bordoada, que ganhamos esse direito.

(564)

100 ANOS DA REPÚBLICA……DAS BANANAS!

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(Vão comemorar-se os 100 anos da República, com a inauguração de 100 escolas. É difícil ser-se mais demagógico. Nem o venezuelano Hugo Chavez conseguiu ir tão longe.
Na mesma altura, inauguram-se 100 e fecham-se 700!
É isto a República?
E o que são, de facto, estas novas escolas?
E quem nos garante que, se fossemos uma monarquia, o país não estaria melhor?)

A demagogia Socratiana atingiu os limites do ridículo. Inaugurar cem escolas novas, ao mesmo tempo que encerra 700 (não contando com as que já encerrou com menos de 10 alunos), e atendendo à pequena dimensão do nosso país, dá uma ideia de como, por cá, se governa. Há concelhos que vão ficar reduzidos a uma escola. Há concelhos que vão ser varridos do mapa. E o interior é que paga as favas de políticas sucessivas sem nexo.
Eu até acredito que não se pode manter uma escola com 2 ou 3 alunos. Que é desejável juntar as crianças de duas ou três ou quatro aldeias, numa escola de uma delas que esteja em melhores condições e mais centralizada relativamente às vizinhas. Da mesma forma que não acredito (porque há anos que os estudos o demonstram) que a concentração elevada de alunos dentro de um estabelecimento escolar, por mais moderno que seja, representa mais prejuízos educacionais do que vantagens.
Sócrates diz que a OCDE há mais de 20 anos que anda a aconselhar Portugal a não manter escolas com menos de 20 alunos. Não sei onde o Primeiro-Ministro foi buscar este disparate – talvez nos mesmos livros onde estudou para ser “engenheiro” – mas para um demagogo, qualquer coisa serve para vender o seu peixe.
Nunca foi provado que a concentração de alunos fosse essencial para a educação. Poderá ser uma forma de reduzir custos, mas só isso e nada mais.
Os maiores génios deste país, educaram-se em escolas de aldeia com um professor para os quatro primeiros anos do básico. É claro que os tempos mudaram e já ninguém defende que este sistema se pode manter. Mas uma escola com um número baixo de alunos, todos do mesmo lugar ou de aldeias vizinhas, é preferível. Porque há um controle sobre cada aluno, porque cada aluno sabe que as famílias de todos se conhecem, porque têm mais atenção, porque não são desinseridos do meio, porque se conseguem manter valores sociais essenciais.
Pelo contrário, numa escola com um número elevado de alunos, por muito moderna que seja, cada um é só mais um. Os alunos estão mais sujeitos às “modas”, à violência, perdem-se valores sociais porque estes se desintegram, é aí que começam os primeiros contactos com as drogas, não há a atenção devida a cada um, o meio é novo e diferente. E depois, há este fenómeno terrível: a permeabilização ao lado negro da globalização, do qual, a proliferação de uma cultura urbana cinzenta, anónima e viciosa, é o seu calcanhar de Aquiles. No fundo, esta concentração, é uma forma de “urbanizar” quem aprendeu os valores do meio rural. Estas escolas, transformam, para pior, o carácter dos alunos. O que lá lhes vai ser ensinado, e ao dizer ensinado não me refiro especificamente ao que vão aprender nas aulas, mas o que o meio envolvente, humano e material, lhes vai ensinar, são os valores da cultura urbana contemporânea, pejada de violência gratuita, desrespeito, má educação, facilitismo, desleixo, a arte do desenrasca, o subir a qualquer preço, e tudo o mais que, diariamente, nos é dado conta pelos órgãos de comunicação social.
E, no fundo, de ensino básico, de matérias efectivas, não aprenderão mais do que aprenderiam se se tivessem mantido nas suas escolas locais. Esta será, porventura, a última grande machadada final no mundo rural português.
Estamos, quanto a mim, perante uma solução educacional baseada no mais puro economicismo, pela tentação de concentração porque a dispersão representa, também, o não controle sobre os cidadãos, mas também porque os interesses económicos dos que defendem acerrimamente a globalização – porque têm muito a ganhar com ela – assim o exige.
E já não falo das demoradas viagens que as crianças terão que fazer, em estradas estreitas e sinuosas, cobertas de gelo no Inverno, saindo de casa de noite e chegando a casa de noite, e dos pais que, cientes disto, andarão todo o dia com o coração nas mãos. Porque em Lisboa, aquele “santo” Ministério, agora gerido por uma senhora escritora que chegou com paninhos quentes e que agora nos está a queimar a todos, continua pensar-se que Portugal é tão plano como o mapa, e que 20 quilómetros nas estradas do Douro, Trás-os-Montes ou Beiras, são os mesmos 20 quilómetros nas estradas das planícies do Alentejo!
A grande modernidade, está nas cabeças, na qualidade do material humano, na forma como se ensina, e na forma como se ensina a aprender, nos níveis de exigência. E enquanto esta não mudar, podem construir os mais modernos Centros Escolares que nada irá melhorar.
Encerrar 700 escolas no interior, é uma medida de doidos! Em Portugal, pensa-se tudo ao contrário. Parte-se do fim para se chegar ao princípio. O problema da educação está nos programas mal elaborados, nas negociatas que são os manuais escolares, na baixa de qualidade dos professores por perseguição que o Governos lhes faz e pela precariedade de uma classe profissional que é nómada, e por outros motivos que a seu tempo explicarei.
Outra questão que se coloca, é como as autarquias, na sua esmagadora maioria, aceitou esta solução concentracionista dos Centros Escolares. É algo que vou deixar para o próximo número, mas que confirma como nos estamos a afastar dos padrões de responsabilidades locais que são atributo dos países mais avançados do mundo.
Afinal, há cem anos, matou-se um Rei, o filho do Rei, e implantou-se, à força, uma República. Nunca foi referendada. E eu pergunto: será a Monarquia, um regime assim tão mau? Tão execrável que continue a fazer com que os republicanos se orgulhem da “sua” República? E é este país, o exemplo da República que tanto louvam?
O que nos deram, afinal, estes 100 anos de República?
A princípio, a pior das governações, com o país em convulsões sucessivas. Depois, uma ditadura de 40 anos. Pelo meio, uma guerra colonial. A seguir, uma democracia que desvirtuou valores pátrios e desgovernou o país de tal maneira que chegamos até onde estamos: na cauda da Europa!
Vamos comemorar, o quê?
Mas será inútil protestar contra estas comemorações dos 100 anos da dita. Porque o poder está nos republicanos para quem a Pátria é uma vaca de muitas tetas. Mas muitos deles seriam logo monárquicos caso se implantasse a Monarquia e lhes garantisse que as tetas não lhes seriam retiradas!
Esclareço que não sei se sou monárquico, como também não sei se sou republicano (cada um tem direito às dúvidas que entender), mas considero uma falta de respeito pelos monárquicos, que se comemore a República. São dois regimes legítimos que existem na União Europeia. E já agora, relembro que, na Europa, grande parte dos países com melhor nível de vida, são regimes monárquicos.
Creio que Portugal é o único país republicano da Europa que comemora a “sua” República. Não me recordo também que as monarquias europeias alguma vez tenham comemorado o seu regime. Só por cá é que, “por dá cá aquela palha”, se arranjam motivos para comemorar seja o que for.
O mínimo que se pode dizer de uma República que vai comemorar os seus 100 anos com a abertura de 100 escolas, e com o fecho de 700, é que é uma República das bananas.
E viva a República!

Nota: no próximo número dedicarei um artigo sobre os Centros Escolares, e esta mania de os Governos resolverem tudo com asfalto e betão.

(565)

CENTROS ESCOLARES:
A ÚLTIMA MACHADADA NO MUNDO RURAL

por Francisco Gouveia, Eng.º.

(São uma solução centralizadora, imposta por Lisboa, uma solução de betão que não resolve os reais problemas do ensino: os programas ridículos, o nível de exigência precário, a bandalheira dos livros e material escolar, e, acima de tudo, os problemas dos professores, porque este são a base do sistema.
Quanto ao resto, é machadada final no mundo rural. Um disparate que vai acabar de vez com um dos poucos suportes em que se podia basear a nossa recuperação: o renascer do mundo agrícola)

Os Centros Escolares não são uma solução estrutural para a educação. E não o são porque os problemas que têm estado na base do descalabro do sistema educacional do país, se mantêm. Lá iremos a eles.
Estes Centros são a fórmula habitual como os Governos vêm resolvendo os problemas do país: com betão, asfalto e mais encargos fiscais.
Resolver o problema básico da educação com a construção civil, e depois dizer-se que se está a fazer uma revolução no ensino, é tão falacioso e demagógico que nos devia fazer a todos corar de vergonha. Vergonha pelas 700 e tal escolas que irão fechar, vergonha por se utilizarem as crianças para campanhas políticas. Por outro lado, há que esclarecer o seguinte: caso Portugal pretenda seguir os padrões que ergueram a Europa mais avançada, tem que se convencer que, numa futura revisão da competências autárquicas (se é que ela se fará alguma vez), o ensino básico é a primeira das competências das autarquias, a que se seguem a saúde e depois a segurança social. Ou seja: a forma de organização escolar, devia ser uma competência autárquica, bem como a sua gestão. Contudo, por cá, e como tudo funciona num sistema de centralismo sufocante, e como ainda não se perdeu a mania Lisboa querer mandar em tudo, o Governo criou esta abantesma dos Centros Escolares, erguendo tijolo e cimento, e deixando por resolver aquilo que lhe competia resolver.
Primeiro, é da sua competência elaborar os programas. Coisa que faz mal, que muda constantemente, e fruto de uma “classe” de “pedagogos” que se rabeiam pelo Ministério da Educação como se fossem donos do mundo, e que asneiam programas educacionais que nem lembram ao diabo.
Segundo, porque os níveis de exigência, que se prendem com a qualidade de ensino, com a disciplina, e com as condições sociais que o aluno enfrenta depois das aulas, continuam a ser tratados com uma displicência de arrepiar, ao ponto de chegar muito aluno ao 12º sem saber ler nem escrever, e para quem uma simples conta de somar se transforma na mais complexa equação.
Terceiro, porque se deixa “à balda” a questão dos livros escolares, onde cada um dá o palpite que quer, transformando os inícios de ano numa dolorosa e cara peregrinação de pais e alunos, em redor das papelarias. As editoras, de freio nos dentes, fazem e desfazem, entram no bolso dos desgraçados encarregados de educação que levam um soco na carteira quer queiram quer não, sem que haja o bom-senso de pôr ermo a esta bandalheira especulativa e, digo eu, corrupta.
Finalmente, porque a base do sistema de ensino é a qualidade do mesmo, e esta qualidade depende dos professores. Dos professores que têm andado a ser levianamente perseguidos. Como é que um professor, que todos os anos anda com a casa às costas, sem estabilidade, a ver os anos a passar e sem resolver a sua vida, por vezes a ter que fazer centenas de quilómetros para ir dar aulas (que implica a que fique longe da mulher e filhos, se os tiver), ou, de quarto em quarto alugado, sem poder constituí-la, pode ter cabeça para ensinar seja o que for? E depois, estas regras de aposentação, sempre a serem alteradas e cada vez a penalizarem mais os professores, levaram a que muitos deles, com anos de experiência acumulada e ainda com muito para dar ao ensino, se reformassem precocemente porque a paciência se esgota e saúde já não a mesma de quando tinham 20 ou 30 anos.
E atentem no que lhes digo hoje: a grande maioria do Centros Escolares do interior, daqui a meia dúzia de anos, estarão sobredimensionados, porque o número de alunos vai reduzir-se drasticamente.
O encerramento das tais 700 escolas, quase todas no interior do país, representa que o Governo desistiu do interior e vai deixá-lo finar-se. Por outro lado, e por arrastamento, o mundo rural vai extinguir-se de vez. E o que é mais grave, é que este mundo rural é um dos pilares fundamentais da recuperação do país. Sejamos sérios, e consideremos que Portugal tem pouco onde se agarrar. Vejamos:
as pescas – definitivamente em declínio por sucessivas políticas de abandono. O turismo – se apoiado em programas que atentem na competência e não nos folclores saloios dos actuais dirigentes.
Alguma tecnologia de ponta – que aproveite os cérebros e os melhores licenciados que, todos os anos, debandam para o estrangeiro.
E uma agricultura de muita, mas muita qualidade.
São estes os pilares onde nos podemos agarrar. Não temos mais nada.
Havia outra, ou outras soluções, que impedisse o encerramento de muitas escolas do país, e aí devia-se deixar as autarquias definirem o seu próprio rumo. Continuo a dizer que os Centros Escolares são uma solução de betão, não uma solução educacional que mexa com a estrutura caduca em que assenta o actual ensino.
Estes Centros são, também, a “solução” mais fácil. E a mais cara. Por muito menos se fazia melhor. Mas é o Estado que temos, que onde devia mandar, não manda, e onde devia estar quieto, põe tudo em reboliço.
É claro que a esmagadora maioria dos senhores autarcas concorda com a “solução”. Aliás, os autarcas deste país são o espelho do sistema: desde que venha alguém do Ministério tirar-lhes trabalho e dar-lhes um doce, abanam logo a cabeça, que sim.
Infelizmente, só daqui a alguns anos (não muitos) se fará o balanço desta razia. E os responsáveis por ela, já estarão refastelados nas suas reformas, inclusive a Ministra que lá andará por Lisboa a promover os seus livros, ditos para crianças. As mesmas que agora dizem proteger, numa campanha que as arrastará para um mundo diferente e perigoso que neste 2010 começaram a palmilhar.

(566)

BOAS COLHEITAS,
MAUS RENDIMENTOS

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Boas produções sujeitas a preços de miséria impostos pelo Comércio, greve de trabalhadores desesperados numa Casa do Douro premeditadamente arruinada, desvirtuamento da arquitectura tradicional dos socalcos, produtores-engarrafadores à deriva, rio com índices preocupantes de poluição, entre outros, são factores da crise gravíssima que assola o Douro.
Pergunta-se: que fizeram ao inter-prodissionalismo?
Porque motivo se continua a tapar esta triste realidade com cenários de um Douro fulgurante assente em eventos reumáticos?
Quem anda a vender o Douro?)

O interprofissionalismo nasceu com a intenção de que nunca faltasse vinho ao Comércio, e que nunca os rendimentos dos Produtores perigasse de modo a colocar o sector em colapso. Princípio sábio este, de, entre os bons anos e os maus anos, equilibrar os pratos da balança e salvaguardar todos. Aliás, este sistema é o que continua a vigorar em países com mais juízo que nós e menos gente a tentar-se pelos interesses pessoais.
Todos sabemos da machada que o interprofissionalismo, por cá, sofreu, com uma roda tão bem orquestrada, que o Comércio está conseguir os seus intentos: impor preços e eliminar os pequenos produtores. O desmantelamento da Casa do Douro foi o primeiro passo para a instalação de um liberalismo desenfreado. Por outro lado, as grandes empresas, ao ampliarem as suas áreas de vinha, impunemente e sem que ninguém, mesmo os que deviam zelar pela integridade física da paisagem duriense, os impedisse, começaram a substituir os tradicionais muros de pedra, por taludes. É muito mais barato e mais rápido. Mas tem gravíssimos custos, não só na paisagem (que mais parece a China rural do vale do MeKong), mas também na qualidade das uvas, porque uma vinha criada em solo “preso” onde os muros de pedra fazem a contenção das águas é de muito maior qualidade do que a que medra em taludes, onde as águas não se aproveitam e criam escorrências nefastas que vão parar ao rio. Esse mesmo rio que já acusa índices de poluição preocupantes, fruto do intenso tráfego fluvial e o que isso representa de matérias residuais, quer dos próprios barcos, quer dos milhares de passageiros que neles navegam anualmente.
Há ainda a questão de uma nova classe que se está a afirmar pela qualidade do que produz, mas com pequenas produções (e não será este o caminho?), mas que tem andado à deriva, por falta de apoios efectivos (nem que fossem meramente administrativos, logísticos e promocionais) por parte das entidades oficiais e das que, regionalmente, representam o Governo.
Entretanto, a Casa do Douro está no estertor. Traída ignobilmente por sucessivos Governos, delapidada no seu património, esvaziada de competências que foram parar a outras mãos que as meteram na gaveta, porque são competências que não agradam aos “senhores” do Douro, está refém de uma dívida que em má hora contraiu (como se não houvesse em Portugal Empresas públicas mil vezes mais endividadas), e à custa da qual se pretende dar-lhe o golpe de misericórdia.
Por tudo isto, e muito mais, o Douro atravessa uma fase crucial da sua vida. E é a própria sobrevivência do Douro, como o conhecemos e que nos foi legado pelos nossos antepassados, que está em jogo. Sejamos claros: o Douro é assim, porque é o Douro das Quintas e dos pequenos proprietários. Entreguem-no às grandes Companhias e vão ver no que ele se transforma.
E é isto que se está a passar no Douro: o Douro está a ser vendido aos grandes interesses de forma, inteligente, discreta, e maquiavélica: dando ao mundo uma ideia de prosperidade, com base em eventos onde pontificam figuras mediáticas, ou em enfadonhas e inúteis Conferências, e desviando as atenções dos reais problemas de base vitivinícolas para um Turismo que, para já, é restrito, com limites de crescimento e não planificado. Tudo junto e cria-se um cenário de falsa prosperidade, encobrindo a miséria que já bate na porta de muitos durienses, deixando o campo aberto ao avanço do liberalismo desenfreado, éden sempre sonhado pelo Comércio.
E torna-se surrealista o cenário que se avizinha com a safra que decorre: uma produção farta e de qualidade, que corre o risco de não ter escoamento. As Grandes Companhias, de freio nos dentes, já se preparam para impor preços de miséria, deixando os produtores entre a espada e a parede: ou vendem para não perder ainda mais, ou deitam as uvas ao rio!
É claro que, nestas circunstâncias, só é enganado quem quer, mas eu pergunto: que há-de fazer o produtor se a instituição que o representava deixou de ter poder? Que há-de fazer se o interprofissionalismo é uma treta que ainda (e só) existe para emoldurar o tal cenário?
E então, numa região que se habituou há séculos, a não necessitar de se organizar, porque já estava secularmente organizada, como criar, de repente, hábitos sindicalistas ou afins?
E é neste clima de extrema insegurança, que o Douro caminha nestas vindimas. Não só o Douro produtivo, mas todo o Douro na integralidade da sua essência.
Todo este ignóbil processo, com o apadrinhamento das instituições regionais que, inexplicavelmente (ou explicavelmente), continuam a iludir o Douro com devaneios meticulosamente orquestrados.

(567)
A REPÚBLICA DOS OPORTUNISTAS!

por Francisco Gouveia, Eng.º

(10 milhões de Euros foi quanto custou a comemoração dos 100 anos da República. Para ser assim tão caro, com certeza que os oradores foram pagos à sílaba, a banda que tocou o hino devia ser o U2, e a cantora devia ser a Maria Callas.
À grande e à francesa, a elite política lusa, de Armani e sapato de verniz, com a boca ainda cheia de caviar e lagosta, deu vivas à esta República que nos fez cair para a fossa da Europa, e louvou os badamecos sem eira nem beira que em 5 de Outubro de 1910, foram cheios de cagaço dar uns tiros ao Rossio)

Em 5 de Outubro de 1910, implantou-se a República. Foi assim: depois de uns sanguinários terem assassinado um rei e uma criança, houve uma grande revolução no Rossio, onde meia dúzia de gatos-pingados gritavam vivas à República. O Rossio era Portugal. A partir daí, o novo regime tratou de espoliar os ricos e entregar as riquezas a uma cambada de republicanos que há anos andavam a afiar o dente ao ouro dos ditos. Depois, foram governos de 2 em 2 meses, num total de 47, que levaram o país à falência, até que, lá de Braga, um tal de Gomes da Costa, bebedola e jogador inveterado, por via de lhe pagarem as dívidas de jogo, aceitou marchar sobre Lisboa e implantar o Estado Novo onde se instalou Salazar. A seguir, foi uma República de 48 anos de ditadura, com prisões políticas, bico calado, tortura, ignorância, onde nos arranjaram uma bela de uma guerra colonial e atiraram Portugal para os confins do subdesenvolvimento, à mistura coma sangria da emigração clandestina, porque a República não dava de comer a ninguém (excepto àqueles de que falei). Depois, veio o 25 de Abril que, a troco de uma coisa chamada democracia (que ainda não sabemos bem o que é), nos lançou no último degrau da Europa enquanto os republicanos (e democratas) se encheram até fartar, fizeram fortunas colossais, meteram as mãos no erário público, conspurcaram o aparelho de Estado de amigos e familiares, sacaram dos cofres públicos para abrirem contas pessoais nos offshore, roubaram bancos, inflacionaram empreitadas, ajabardaram-se em tudo o que fosse Conselho de Administração, criaram um sistema jurídico para os proteger e meter na cadeia os carteiristas de feira, aprovaram prédios em cima de áreas protegidas, urbanizaram o país à medida dos seus interesses e dos solares onde vivem como nababos, acumularam reformas sobre reformas enquanto estrangulavam a classe trabalhadora, destruíram valores sólidos de séculos e trocaram-nos por novos princípios de desenrascanço, acabaram com a honestidade e em sem lugar colocaram a esperteza saloia.
Certos de que o Poder jamais lhes fugiria, seguraram o exército com uma negociata de submarinos, aumentaram as regalias e os salários de generais e afins, e para que houvesse que falar, soltaram assassinos para que as TVs tivessem muita violência para tratar e, enquanto o povo se entretia com a faca e o alguidar, iam fazendo as negociatas à socapa. E como nem só disto vive a imbecilidade do Zé Povo, deu-se-lhe futebol, com Scolaris a peso de ouro, carradas maciças de informação televisiva, apitos dourados e tunéis.
Entretanto, e para que a data não ficasse esquecida, decidiram comemorá-la com um evento que perpetuasse os seus 100 anos, e não o fizeram por menos: 10 milhões de Euros se gastaram no arraial, apesar de há muito se ver o fundo aos cofres do Estado.
E nós, que vimos o calibre da romaria, perguntamo-nos onde se gastaram os 10 milhões.
Será que os senhores que discursaram, cobraram à letra, ou à sílaba? Será que a banda que entoou o hino, era, afinal, os U2? Será que a senhora que cantou com voz potente, era a Maria Callas? Será que o jantar comemorativo era só caviar, lagosta e champanhe? Será que não ouve ali muita gente a “meter a mão ao prato”, porque não atinamos com tal gasto e tão pouco evento.

Portugal comemorou, com pompa e circunstância, os 100 anos mais negros da sua História. Os anos que transformaram um país evolucionista de séculos, num dos países mais retrógrados da Europa.
E toda aquela gente que, naquele dia, ali se apresentou de fato Armani e sapato de verniz, deu graças àquela minoria de corrécios que há 100 anos veio disparar uns tiros ao Rossio.
Todos sorridentes, todos submissos à Maçonaria que, afinal, ainda continua a mandar por cá, apesar das escandaleiras que envolvem os seus membros.
Viva a República! Vivam 100 anos de miséria! Viva o Rossio!

(568)

SOMOS UM PAÍS POBRE!
PORQUE QUEM MANDA É QUEM NOS ROUBA!

por Francisco Gouveia, engº

(Pobre país que tem tudo: mar, serras, planaltos, recantos verdejantes, sol, praias e montanha, imensidão de searas. E tem gente com cérebro, que sabe pensar.
Não tem é políticos à altura. Tem uma cambada que só olha para os bolsos, e o que mais lá pode meter à custa do erário público. E este, é o nosso único problema: temos um país rico cheio de políticos ladrões!)

por Francisco Gouveia, Eng.º

O tempo em que nos vangloriamos das nossas conquistas por esse mundo fora, o tempo em que por cá havia aforro que nos garantisse conforto de vida, tudo isso ruiu. E ruiu exactamente numa era onde devíamos ter sido fulgurantes. Tivemos o mar por nossa conta, tivemos campos agrícolas que tudo davam, desde o trigo, à fruta, ao vinho, tivemos perspectivas de turismo que mais ninguém tinha, tivemos gente com cérebro a medir genialidade com o mundo………………………………….
E o que fizemos desta riqueza?
Tão simples como isto: os nossos governantes, vindos de classes burguesas com a avidez de saltarem para os topos elevados da riqueza, pegaram no erário público e sacaram-no ao tutano. Enriqueceram como nababos, criaram metodologias de desenvolvimento que mais não eram senão a forma de como encobrirem o roubo que, constantemente, praticavam. E depois, tiveram a lucidez de criar um sistema que os protegesse, passando pelos Tribunais, por um sistema complicado e versátil de Códigos Civis, normas regulamentares, Leis assim-assim, mecanismos de contestação, prazos de prescrição, e um sem número de meadas legais que os protegessem do braço da Lei.
Por causa destas voltas, chegamos ao que chegamos: à ruína eminente, à pobreza, à bancarrota.
E vejam lá: um país que tem um mar a seus pés, de lés a lés, que tem campos que produzem do bom e do melhor, que tem vinhas do que há de melhor no mundo, que tem serras abruptas, planícies, planaltos, recanto verdejantes, costas marítimas de sonhos, uma gastronomia que não tem comparação em nenhum lado do mundo, um céu de deuses, um clima celestial, uma massa humana de gente que sabe fazer coisas boas, e que se vê obrigada a fugir para os quatro cantos do mundo em busca do que cá não encontram para alimentarem os espíritos.
Vejam bem: temos tudo! Menos juízo!
Temos tudo! Até políticos sem estirpe nem qualidade que nos andam a roubar!
Podíamos ser tão felizes, se essa cambada não andasse a tratar da vidinha e a fazer dos portugueses tolos!

Este Orçamento que aí vem, é a prova concreta de que o sistema continua a impor as suas regras, e a fazer pagar aos mais pobres a fatia maior da nossa desgraça.
Este Orçamento é a prova concreta da nossa incompetência, ou da incompetência de um Governo que nunca soube onde estava, o que fazia, para onde ir. Incompetência de um Governo que tratou com solicitude os amigos, e os deixou de freio nos dentes para se transformarem em magnatas. Mas fez mais, e consentiu que grupos, grupelhos, infestados de gente da área do Poder, tomassem conta do que é de todos. Um dia, ainda se há-de fazer a História da ROUBALHEIRA NACIONAL, se acaso houver gente que não tenha medo de se lançar nesta odisseia.
Este Orçamento, é a prova de que as mordomias, os altos poderes financeiros hão-de continuar a mandar na nossa vida.
Este Orçamento é o roubo de tirar o pouco que resta a quem já nada tem.
UMA VERGONHA!
É a herança que Sócrates nos deixa antes de se ir embora!
Até que um dia, quando já não tivermos nada onde ir buscar uns cobres para pagar impostos, a coisa mude. E então, que ninguém queira estar cá para ver como vai ser!

(569)

A GRANDE ILUSÃO

por Francisco Gouveia , Eng.º

(Uma região que tem os maiores índices de desemprego do país, que perdeu 36% da população nos últimos 20 anos, que vive uma das suas maiores crises estruturais no seu sector principal, que não possui uma estratégia de combate à feroz concorrência do exterior, que continua a desertificar-se, que está a ser invadido e arrasado pelos Adamastores Ibéricos da energia eléctrica, e que está na cauda da Europa como das mais pobres, continua a viver a grande ilusão de uma falsa prosperidade e de um futuro risonho que nunca chegará.
O dinheiro, no Douro, quando se ganha, não é para todos)

Anos a fio o país viveu a grande ilusão de que, sem esforço e só porque pertencia a um clube de países europeus desenvolvidos, poderia chegar aos níveis de vida desses países. E o facto é que oportunidades não nos faltaram, porque dinheiro abundou, vindo desse clube, dinheiro grátis, que devia ter contribuído para o nosso desenvolvimento. Contudo, em vez disso, parte desses biliões acabaram por ficar em boas mãos, outra foi gasta em obras de fachada, e uma terceira serviu para ampliar a máquina do Estado onde se encaixou toda a clientela política que via na vida pública um meio de emprego fácil e um modo rápido de enriquecimento. Perdidos num mar de incompetência e corrupção, chegamos a este estado deplorável de falência onde a milionária China e até a paupérrima Timor se oferecem para nos comprar a dívida. E esta questão da nossa ruína assenta, em muito, na incompetência e na falta de seriedade de quem nos governa. A todos os níveis. No país, nas regiões, nas autarquias, nos Institutos, nas empresas públicas e, de uma forma geral, todos os organismos dependentes do Estado estão a ser geridos por políticos sem a mínima preparação académica para os cargos que desempenham. E esta situação passa-se há décadas. Daí a incompetência e a falta de seriedade, dado que, quanto a esta última, as decisões são assentes em normativos políticos e não em princípios científicos. E os normativos políticos, quer se queira, quer não, são, de raiz, potencialmente corruptos.
Ou seja: temos os nossos licenciados, muitos com mestrados e doutoramentos, nas caixas dos hipermercados e a servir às mesas de restaurantes, enquanto políticos de segunda, que não percebem patavina de nada, se sentam em cargos de responsabilidade que exigem elevados níveis de competência técnica que eles não possuem. Em termos de gestão, este país é uma caricatura. Depois queixem-se, que os nossos melhores “cérebros” debandam daqui para fora para o estrangeiro onde podem trabalhar à vontade sem o empecilho da máquina política a fazer-lhes a vida negra.
No Douro, a gestão do que por cá se faz, não passa de arremedos de um amadorismo confrangedor, sem qualquer visão de como se há-de começar e se há-de acabar. Sem a distinção do que é fundamental e do que é acessório. Sem se perceber que uma região não pode crescer num sector que é o telhado, e deixar apodrecer o outro que são os alicerces. Sem perceber que não pode gastar à balda em inutilidades mundanas e perder serviços básicos. Turisticamente, a região tem mais camas, tem mais turistas, mas continua a perder população, não descola da cauda das zonas mais atrasadas da Europa, tem os maiores índices de desemprego do país, tem o seu sector agrícola a viver uma das maiores crises de sempre desnecessariamente porque produz um vinho ancestral, e depois, há a questão das barragens, onde parece que a EDP e a IBERDROLA já deram a volta ao miolo dos responsáveis locais, e que vão, a pouco e pouco, apropriando-se e estragando a região. E há um sem número de problemas que ficam muito bem nas discussões de seminários e conferências, e depois são puramente ignorados.
Em tudo isto, há algo que não bate certo. Há uma nova “grande ilusão” que está a ser criada e alimentada por uma certa elite duriense, sabe-se lá com que intenções. Há uma campanha destinada a fazer crer que há por cá um éden e toda uma máquina montada para publicitar esse éden, e as coisas não são assim. Por cá, há fome, desemprego, emigração, envelhecimento, falta de serviços básicos, e continuam a nascer crianças em ambulâncias, e continua a morrer gente por falta de assistência atempada.
O tempo, o grande juiz, dirá se tenho ou não razão.

(570)

AS HORAS DO DOURO

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Foi com agrado que assisti ao 1º episódio deste documentário que a RTP transmite aos domingos pelas 20,30 horas na RTP2.
Da autoria de António Barreto e Joana Pontes, este olhar sobre a história e a realidade do Douro, promete. Pausado, sem palavras a mais, deixando falar quem nunca é ouvido, com pausas que dêem tempo ao espectador para meditar no que acabou de ver e ouvir, este 1º episódio, sombrio e frio, aflora um Douro de dificuldades, a realidade de uma terra dura de trabalhar, longe dos édens que o olhar atraiçoa)

Quem poderá adivinhar as estórias e a realidade que encerram as gotas de um vintage que balança num copo de cristal, nas mãos de um apreciador de faces já rosadas pelo repasto, à mesa de um salão selecto de um restaurante do Michelin?
Mas bastava apertarmos as mãos de uma cavador ou de um podador, e sentirmos-lhes a pele mais grossa que as solas de um sapato, ou examinar a radiografia da coluna vertebral de um enxertador, para perceber-mos que o néctar que nos delicia o palato cobra um preço elevado pelo trato que exige.
Trata-se do Douro das “Horas Difíceis”, das horas cruéis, onde, sob o frio e as geadas, gente trata das vinhas. A beleza que vemos nas vindimas e, mais tarde, no Outono, é parte obra da Natureza, e outra parte obra do Homem.
O que este 1º episódio nos mostrou, foi o tal Douro negro, dos Invernos, dos nevoeiros, onde os durienses são, mais do que nunca, escravos da terra, sofrendo na pele a crueza de um clima e de uma orologia rude, mas que têm que enfrentar porque as videiras não esperam, e as coisas têm o seu tempo.
E ouvimos falar, por quem sabe, a razão dos muros de xisto serem essenciais, e porque os taludes em terra são a banalização e desvirtuamento do vinho duriense. E ouvimos empresários da nova geração preocupados com o facto de que aquilo que distingue o Douro é a sua diversidade de castas (mais de 85), quando agora no replantio das vinhas se estão a usar só 4 ou 5, situação que poderá colocar os vinhos do Douro, a médio prazo, numa situação concorrencial sem saída, porque se está a copiar o que faz no estrangeiro, quando o que distingue o Douro é essa identidade própria que, em muito, assenta na diversificação.
E ouvimos estórias de outros tempos, e de como se vivia precariamente noutros tempos. Para percebermos que, se não fosse a teimosia e a coragem dos durienses, o Douro nunca seria Douro. E sentimos o rio de outrora, revolto, manhoso, perigoso, traiçoeiro. E todo o trabalho era à força de braço. De tal maneira chocante, que meteu dó ver como se trabalhava, no dia a dia, naqueles tempos.
Contudo, ainda hoje, e apesar das melhorias tecnológicas, os passos e as metodologias continuam a ser as mesmas, porque tem que ser mesmo assim. E a braveza dos socalcos continuam a limitar o trabalho mecânico. O tratamento da vinha continua a ter que ser feito do mesmo modo. Aqui e ali, a introdução de algumas melhorias, amenizou a rudeza de alguns trabalhos, mas na generalidade, tudo continua como antigamente. E é por isso que o Douro é tão especial. Mas é por ser assim, que as autoridades competentes deviam olhar para este lado do Douro, para estas Horas Sombrias do Douro, e apoiar esta região na raiz da sua essência: a produção de vinho.
E sobre isto, nada vejo fazer. Vejo andar-se à roda do Douro, aproveitando-se o rio, as encostas e as paisagens, plantando-se hotéis, andar-se com a obsessão do número de camas para os turistas, com a ilusão de criar eventos sobre eventos. E vejo dirigentes, de barrigas proeminentes, a discursarem sobre o Douro, sem nunca terem plantado uma videira, sem saberem fazer uma enxertia, sem subirem dois socalcos seguidos que não abafem.
E era deste Douro difícil e das gentes que o sustenta, que gostava de ver tratado, discutido, e os seus terríveis problemas resolvidos.
Para já, fica-nos a promessa de que, pelo menos, aos domingos à noite na RTP2, António Barreto e Joana Pontes nos vão trazer um Douro verdadeiro.

(571)

OS MISTÉRIOS DA SOLIDARIEDADE NATALÍCIA

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Portugal está afundado na fome e na miséria. Por isso, bem hajam todas as instituições que lutam diariamente para aliviar este flagelo, porque se não fossem elas o país já estaria mergulhado numa grave convulsão social.
Mas eu pergunto: nesta altura de Natal, não haverá quem se esteja a aproveitar da miséria alheia, da boa vontade destas instituições e da generosidade dos portugueses, para encher os bolsos?
É o que vamos tentar desvendar)

Gostaria que os meus leitores entendessem o que a seguir escrevo como simples perguntas de quem questiona porque tem sérias dúvidas, legítimas dúvidas. Não de quem acusa. E tem dúvidas porque, infelizmente, vivemos num país de balda onde tudo é permitido e onde as notícias diárias nos dão conta de que vivemos no seio de uma classe política e gestora em geral, nada credível, onde os casos de corrupção, de desvios, de roubo, são o pão nosso de cada dia. E num país que está mergulhado até ao pescoço na desconfiança da corrupção, é caso para os cidadãos desconfiarem de tudo e de todos. É assim, sempre assim foi e sempre assim há-de ser. Mas vamos ao que interessa, e entremos já nesta coisa da solidariedade natalícia, nas campanhas de Natal, na publicidade imensa que enche páginas de jornais, nos imensos tempos de antena, envolvimento de figuras públicas, e, principalmente, que faz movimentar milhões de Euros.
Por exemplo. Comecemos pela Campanha do Banco Alimentar.
O meu amigo entra num hipermercado com o saco que lhe é dado à entrada pelo funcionário do Banco Alimentar, mete lá meia dúzia de produtos, paga-os na caixa e deposita-os nos carrinhos da instituição.
Agora repare: pagou uma quantia por esses produtos que doou da qual faz parte o preço base do produto, o lucro do hipermercado e o IVA do Estado. Ou seja: para ajudar a matar a fome a quem precisa, o meu amigo, com toda a sua boa vontade, ajudou conforme entendeu, sem reparar que, no que pagou, também deu o IVA ao Estado e o lucro ao Hipermercado. Agora, multiplique o seu donativo em géneros, pelas centenas de milhares de pessoas que, como você, contribuíram, e veja os milhões que caíram nos cofres do Estado com o IVA e nos cofres dos Hipermercados com os lucros desses géneros que, de outra forma, não venderiam. Ora, se estivéssemos num país decente, esses géneros deviam estar isentos de IVA e com um desconto substancial, situação logística que se resolveria se estivesse um representante do Banco Alimentar à boca de casa caixa para receber logo ali a oferta. Isso sim, seria solidariedade de todos.
Mas vamos a outros casos como o das Popotas e das Leopoldinas e quejandos. Prometem as Campanhas, largamente publicitadas nas televisões, que por cada CD, 1 Euro reverte para a Instituição Xis ou Ypslon. E eu pergunto: e o restante, reverte a favor de quem? Ou seja, o resto que se paga, quem o ganha? Os artistas vão lá cantar de borla? Os estúdios trabalharam de borla? A fábrica dos CDs trabalhou de borla? A produtora trabalhou de borla? E quem controla as vendas? Como temos a certeza de que esse tal Euro que dizem que é para a tal Instituição, de facto, lá chega? Quem fiscaliza?
E quanto aos arredondamentos? Que dizem ser também para Instituições? Ou seja: o meu amigo vai ao tal hipermercado, chega à caixa e tem uma conta para pagar de, por exemplo: 24,60 Euros, e a menina da caixa pergunta-lhe se quer arredondar para os 25 Euros, sendo que os 40 cêntimos que vai pagar a mais vão reverter para a tal Instituição que ela anuncia. E o meu amigo aceita, porque é generoso. Mas o certo é que os 25 Euros vão cair na totalidade caixa no Hipermercado, não vão cair 24,60 Euros na caixa e os 40 cêntimos noutra. Vai tudo junto. Quem lhe garante que os seus 40 cêntimos vão de facto, para a Instituição? Quem fiscaliza? Quem vai verificar a contabilidade da empresa promotora e ver o montante dos arredondamentos?
Já agora, e a talho de foice, veja o que aconteceu aquando da Campanha de solidariedade levada a efeito pela RTP aquando do temporal que provocou a tragédia da Madeira. Os portugueses foram convidados a participar telefonando para um número, sendo que a chamada custava 0,60 € + IVA, ou seja 0,72 €.
Ora todos ficamos convencidos que seriam, de facto, esses 0,72 € que chegariam às vítimas, mas não. A história foi assim: desses 0,72 €, somente 0,50 lhes chegaram às mãos, porque o Estado não prescindiu do IVA, e cobrou-se dele, e a PT também não prescindiu da sua comissão usual. Linda solidariedade, onde o Estado e a PT se aproveitaram para meter aos bolsos uns milhares. No final, a Campanha saldou-se por 2.000.000 de Euros, dos quais o Estado arrecadou 480.000 Euros e a PT 400.000 Euros.
É por estas e por outras, que desconfio seriamente de que, por detrás da generosidade e da boa-fé de quem está no terreno a tentar minimizar os efeitos da fome, da miséria e das consequências da ignóbil política que dezenas de anos de incompetência e corrupção governativa nos arrastaram, estejam os abutres que vêm em tudo oportunidades para enriquecerem, ou enriquecerem ainda mais. Para que estas Campanhas fossem sérias, deviam ser transparentes, límpidas, devidamente fiscalizadas por gente que nos merecesse confiança. E deviam ser as próprias instituições e agentes, directa ou indirectamente envolvidos, a pugnar para que assim fosse. A começar pelo Estado que devia prescindir do IVA e outros impostos que sobre os géneros ou produtos recaíssem.
Como disse, não acuso ninguém, mas constato factos, e questiono-me, seriamente, profundamente.
Porque este país não é de confiar. Ou acham que é?

(572)

UM 2011 QUE JÁ NASCE TOLHIDO

por Francisco Gouveia, Eng.º

(O ano de 2011, não vai ser um ano de recuperação, porque não vamos recuperar coisa nenhuma. Estruturalmente, não vejo medidas sólidas que levem a essa reestruturação. Vai sim, ser um ano em que, mais uma vez, serão postas a nu todas nossas limitações e a incapacidade dos nossos políticos de conseguirem gerir um país)

Este novo ano de 2011 já nasce cheio de mazelas, esclerosado, minado de reumático, roído de artrose, mais velho que o velho mais velho que ainda sobrevive neste país. E nem vale a pena que Sócrates o pinte como um ano de sacrifício – porque sabemos que vai ser de tortura, nem que diga que vai valer a pena – porque andamos a sacrificar-nos ano após ano para no fim ficarmos pior. 2011 vai ser um ano de profundas convulsões políticas, sociais e, mais uma vez, um ano em que o país andará gerido por contas de merceeiro, sem rei nem roque, sem destino, sem saber onde quer chegar.
Muito brevemente teremos a prova de que, ao nível dos grandes tachos nas principais empresas públicas onde se assenta a incompetência em grande parte responsável pelo estado da Nação, e com o término dos mandatos dessas administrações, nada mudará, e o Governo nomeará novos “boys” para os que decidirem abandonar ou trocar de cargo, ou reconduzir quem quiser continuar. Ou seja: ao nível das cúpulas do Estado, tudo continuará na mesma: compadrio, amigalhaços, corrupção política.
Ao nível das reformas de fundo, havemos de ver que tudo continuará na mesma, especialmente na Justiça, onde os mecanismos de combate à alta corrupção se ensarilharão mais, impedindo que os grande corruptos deste país sejam levados aos bancos dos réus e devidamente condenados. Ou seja: as relações de cumplicidade entre o poder político e económico, a troca de favores, a interligação entre os negócios do Estado e os negócios privados continuarão a ser o pão-nosso de cada dia. Em tempo de crise, a corrupção vai avançar, como é usual, e novas fortunas se vão fazer. A História assim nos demonstra.
Pelo meio, umas insípidas eleições para a Presidência da República, antecipadamente ganhas por Cavaco Silva, não vão aquentar nem arrefentar nada. Cavaco é situacionista, nem sequer é um reformista. Mas os restantes candidatos não se sabe o que são. São candidatos, e nada mais.
Entretanto, do outro lado, do lado negro da realidade, sobra a grande maioria dos portugueses, que vão apertar o cinto, sabe-se lá como. Um insuportável aumento de IVA vai fomentar o mercado paralelo onde o Estado não verá um cêntimo. Aumento de preços com aumento de desemprego, é uma mistura explosiva, e mesmo considerando que somos um país de brandos costumes, não está posta de parte o aparecimento de nichos de convulsão social que se podem alastrar.
Economicamente, o mercado interno estagnará. Os produtos aumentarão de preço e os portugueses não terão dinheiro para os adquirir. Restam-nos as exportações, que terão de aumentar exponencialmente para equilibrar a balança. E como? Se o nosso tecido industrial está desbaratado?
Sob o ponto de vista das competências, continuaremos a ver a nossa juventude mais bem preparada academicamente, a pegar nas licenciaturas, mestrados e doutoramentos, e a debandar mundo fora. Por cá, ficam os que não podem ir, ou os que não têm profissão definida.
O ano de 2011, não vai ser um ano de recuperação, porque não vamos recuperar coisa nenhuma. Porque estruturalmente, não vejo medidas sólidas que levem a essa reestruturação. Vai sim, ser um ano em que, mais uma vez, serão postas a nu todas nossas limitações e a incapacidade dos nossos políticos para conseguirem gerir um país. Porque a intenção deles não é governar, mas governarem-se.
E bem podem dizer que há outros países na UE que também vão fazer sacrifícios como o nosso. Pois vão. Mas esses, no final de 2011, terão o seu prémio, e nós não. Porque esses, têm estrutura, e basta-lhes um ano de contenção e recuperam. Nós, continuaremos orgulhosamente sós a carpir as nossas mágoas e aturar, pacificamente, uma classe política medíocre e interesseira, para quem o país é um saldo numa conta bancária suíça ou num “off shore” de qualquer ilha perdida desses imensos oceanos.

gouveiafrancisco@gmail.com

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