Vinhos

Eis a frase atribuída a Jesus nos evangelhos onde se lê «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus …

Eis a frase atribuída a Jesus nos evangelhos onde se lê «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.» (Mateus 22:21) significando que todos devem cumprir todas as obrigações, incluindo as profissionais, sempre com verdade e lisura!

A recente notícia divulgada pela comunicação social, intitulada “ASAE desmantela unidade ilegal de engarrafamento de vinho do Douro em Vila Real”, constitui um exemplo preocupante de como a precipitação informativa pode gerar danos profundos e injustificados, especialmente quando está em causa a reputação de uma das regiões vitivinícolas mais prestigiadas do mundo: o Douro. O impacto imediato foi estrondoso, mas a verdade dos factos ficou sacrificada em nome do sensacionalismo.
Em primeiro lugar, importa esclarecer que as instalações visadas não eram ilegais. A entidade estava, de forma clara e inequívoca, legalmente registada como armazenista, importador/exportador e engarrafador de vinhos DOP Douro, pelo que a presença de selos de garantia e rótulos adquiridos no IVDP era perfeitamente legítima. Não se tratava de clandestinidade, mas sim de uma atividade autorizada e devidamente regulada.
Em segundo lugar, a afirmação de que as 1326 garrafas apreendidas se encontravam indevidamente rotuladas como vinho Reserva DOC Douro, é falsa. As garrafas estavam separadas de quaisquer produtos certificados como DOC. Douro, utilizavam recipientes distintos e não continham qualquer referência à Denominação de Origem Douro, nem na rotulagem, nem na rolha, nem no vidro. Aliás, algumas já se encontravam etiquetadas como “vinho de mesa”, classificação que não induz o consumidor em erro quanto à sua origem ou qualidade. A alegada tentativa de falsificação simplesmente não existia.
Mais relevante ainda, é o facto de que as várias verificações efetuadas pelo IVDP, I.P. têm confirmado, de forma consistente, que não existia qualquer prática suscetível de configurar uso abusivo, falsificação ou irregularidade relacionada com a Denominação de Origem Douro.
Este caso expõe um problema maior: a criação de narrativas precipitadas para benefício mediático, desconsiderando o impacto económico, reputacional e cultural que podem acarretar. A operação tornou-se, efetivamente, um triunfo de propaganda para a ASAE, amplamente divulgada nacional e internacionalmente, mas suportada em pressupostos incorretos e numa ausência alarmante de rigor comunicacional.
O setor vitivinícola do Douro preserva um património histórico incomparável e projeta Portugal no mundo – não pode ser refém de manchetes apressadas. A confiança construída ao longo de séculos exige responsabilidade, precisão e respeito. Quando a especulação ultrapassa a verdade, não é apenas uma empresa que é colocada em causa: é toda uma região, a sua identidade e o prestígio conquistado globalmente.
Num momento em que a credibilidade é um bem precioso, impõe-se que as autoridades e os meios de comunicação adotem uma comunicação clara, equilibrada e devidamente fundamentada. O Douro merece mais do que o ruído. Merece justiça e verdade.

Justifica-se, pois,

«Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.»

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