Opinião🖋️ Engº Francisco Gouveia

PIOR DO QUE A FILOXERA?

(O Douro tem motivos para estar seriamente preocupado. No séc. XIX resistiu a uma praga. Será que vai resistir à do séc. XXI?)

Quando, em 1865, a praga da filoxera se instalou no Douro, provocando falências, destruição da vinha e muita miséria, ficou o duriense daqueles tempos ciente de que, ultrapassada a crise, nada de pior poderia acontecer ao Douro. Ninguém imaginou que pudesse haver tempos mais miseráveis.
Contudo, hoje, com os conhecimentos que se possuem e com a evolução do mercado vitivinícola, o duriense começa a perceber que dias piores se avizinham. Uma nova praga, com outros contornos, já começou a espalhar-se.
O mundo vinícola está dependente, não somente da qualidade e quantidade das produções, mas também do marketing, das exportações, das vendas em geral, da complexa teia de distribuição, da pulverização de clientes, e, principalmente, das políticas. Nacionais e internacionais.
Se ano passado o produtor se viu em sérios embaraços, quer pela incerteza dos preços e dos compradores, quer pelos aumentos dos custos de produção que subiram exponencialmente tendo de se defrontar com o preço da uva que há 25 anos está estática, a este ano somam-se as disparatadas tarifas impostas pelos EUA. Tarifas que, a bem dizer, se alteram dia a dia. O cancelamento de encomendas destinadas à exportação colocam as empresas em pânico, e se as empresas não vendem, também não compram. E o mais alucinante é que, ano passado, já compraram pouco e a preço incerto. Houve até quem não vindimasse, sendo cerca de 170 hectares de vinha que ficaram por vindimar.
Ainda a somar a este panorama, acrescenta-se a falta de apoio capaz do Governo. Mas sejamos justos: o Governo não pode acudir a tudo. E digo tudo, porque chegamos a um ponto onde tudo está a colapsar. Praticamente, não há um sector da nossa organização administrativa, eu não esteja como graves problemas, desde a saúde à educação, passando pela instabilidade social levantada pela imigração descontrolada.
Por seu lado, a União Europeia, metida no seu casulo de formalismos e conversa da treta, apanhada de surpresa por uma guerra e mil e um problemas para os quais devia estar preparada, mas não estava, parece uma barata tonta de pernas pró ar.

Internacionalmente, Trump lançou a maior instabilidade económica que me lembro, provocando uma recessão no desenvolvimento dos países, incluindo o seu.
O panorama que vislumbramos não é, por tudo isto, bonito de ver. As certezas sobre dias negros que se abaterão sobre um mundo que acha que os problemas se resolvem com a guerra, são cada vez mais justificadas.
A diferença entre a filoxera do século XIX, é que a daquele tempo a praga era visível, palpável, sabia-se a origem, e por isso houve engenho para a combater.
A filoxera de hoje, é na mesma uma praga, mas com origens múltiplas, desde o interesse dos mercados, a instabilidade política, as guerras que proliferam por esse mundo (quem acha que ainda não estamos na III Guerra Mundial?), passando por políticos medíocres que infestam os países. A era dos grandes diplomatas, dos grandes pensadores políticos, das grandes figuras de Estado, passou.
O Douro tem muitos motivos para estar seriamente preocupado. E o problema, é que não sabe o que fazer.
Ninguém sabe.

Por Francisco Gouveia, Eng.º

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