A Régua vista (e revista) por quem a escreveu
“Régua era bonita
Se não tivesse dois erros:
Ladrilha de vareiros,
Passeada de galegos”
(In “Sem Método”)

A convite da Dr.ª Helena Gil aceitei, sem reservas e sem hesitação, para participar na sessão da “Evocação de João Araújo Correia), nos 125 anos do seu nascimento”, com um tema que revisitasse a Régua no período século XX, através da sua obra literária.
Nascido no último ano do século XIX, o escritor viveu toda a sua vida duriense como cidadão, médico e patrão de uma pequena empesa comercial dedicada à tipografia e à venda de livros.
“Nasci no último ano do século XIX. Deveria ter nascido antes, a tempo de figurar como comparsa no grande teatro literário em que foram actores de primeira plana um Camilo, um Ramalho ou um Eça. Nasci tarde para me criar e fazer homem num mundo que não é o meu. Nasci liberal, tolerante e risonho debaixo de um signo que não é o signo de quem nasceu depois. Fiquei reservado, à beira do caminho, para presenciar painéis de almas sombrias por amor da bandeira que juraram. Ando a passear saudoso nas avenidas do século XX com um chapéu cortês do século XIX. Sou um desgraçado!
Sou, sem querer, escritor do nosso tempo.”
Ficamos a saber que o escritor preferia ter vivido no século XIX para poder ser um companheiro literário de escritores de que foi admirador e leitor devoto, principalmente do Eça e mais até do Camilo pelo seu estilo e pela linguagem clássica da sua escrita. Mas, não foi por não ter sido comparsas desses vultos da literatura e da língua portuguesa que se fez desgraçado. Nasceu com uma vocação para escrever e de fazer escritor universal enraizado no seu Douro, o que conseguiu, desde logo, em 1938, quando publicou o seu livro “Sem Método”, estreia literária que destacada como uma “obra distintíssima de um prosador que se afirma”, como referenciou o erudito prefaciador Vergílio Correia.
Se foi reconhecido pelos leitores e, especialmente, pelos críticos literários, como um dos grandes escritores, especialmente um dos melhores na arte de escrever contos, a sua terra elegeu-o como a figura da cultura mais importante.
Dedicado e apaixonado pela sua terra, o escritor envolveu-se em causas reivindicativas para a defesa do seu progresso e engrandecimento, sem que, a maioria das vezes, tenha sequer saído do seu ermitério. Quando foi necessário a defender, o escritor usava a sua escrita, nomeadamente as crónicas publicadas na imprensa regional ou nacional para alertar dos problemas – sociais, económicos ou até urbanísticos e ambientais- que foram os mais prementes da sociedade reguense do seu tempo.
Historicamente o passado século XX foi um período de grandes mudanças e eventos significativos, tanto a nível nacional quanto na vila da Régua, que alcançou o direito a elevação a cidade no dia 14 de Agosto de 1985.
Alguns eventos marcantes sociais e políticos desse período histórico incluem a queda da monarquia, a implantação do regime republicano, a primeira e a segunda guerra mundial, a vigência de regime autoritário denominado de Estado Novo que perdurou quase meio século de existência e terminou com a chamada Revolução dos Cravos e, como ela, se iniciou um novo regime democrático no nosso país.
A história da vila da Régua e dos cidadãos reguenses foi moldada por muito desses acontecimentos políticos, sociais e económicos, alguns dos quais o escritor vivenciou e até se deixou envolver activamente pessoalmente para lutar por causas que considerava injustas, como situação, que no tempo da instauração da república na vila da Régua, levou seu pai à prisão.
“Meu pai, embora afastado, por mil desilusões, da política militante, quis acudir à República no dia 3 de Fevereiro. Comprometeu-se com o major Varão, que lhe entregou, ao passar pela Régua, o comando civil do concelho.
Sufocada a revolta, andou meu pai de cadeia em cadeia, modo de dizer, até entrar na Penitenciária como grande criminoso.
Com a prisão de meu pai, bastante prejudiquei o meu último ano do curso de Medicina. Enquanto vi preso o meu velhote, que então contava 58 anos, não saí de Lisboa. Ia visitá-lo todos os dias, levar-lhe à prisão esperanças de liberdade.
Mal cheguei a Lisboa, tratei de procurar, na Parede, o Dr. António José de Almeida. Procurei-o para desabafar. Ver preso o meu pai, desiludido da Política sem ter perdido a fé republicana, era ver preso um inocente, arrastado a uma rebelião mal organizada, sem jogo suficiente para sair vitoriosa.
Não vi criado nem criada na casa da Parede. Quem me abriu a porta foi a esposa do antigo presidente da República. Disse-me que o marido, embora muito doente, me receberia.
Fui à presença do paladino. Vi-o deitado em modesta cama e, tão desfigurado, que apenas o reconheci. Tinha envelhecido a ponto de me parecer centenário. Da antiga barba e das antigas mãos, comparsas da sua oratória, restava uma poalha branca e dois molhos tubérculos presos pela rama.
-A noite passada foi horrível. Mas, a que aí vem…vai ser pior.
“Nada posso fazer pelo seu pai. Mas, vou dar-lhe um conselho, que talvez dê resultado. Não queira intermediário. Defenda o seu pai, conversando com o instrutor do processo. O senhor tem boa apresentação. Basta-lhe para ser recebido e escutado.
“Agora, uma palavra: Portugal não morre. Debaixo do jugo espanhol, durante sessenta anos, sacudiu-o…O povo português é invencível.”
Segui o conselho de António José de Almeida. Conversei, na Penitenciária, com o coronel Schiappa de Azevedo. Pediu-me que lhe apresentasse, escrito por mim, um relatório da acção de meu pai no movimento. Apresentei-lhe o relatório. No dia seguinte, estava o meu pai na rua.
O seu pai deve-lhe a liberdade. Não a deve a mais ninguém. O senhor, se não quisesse ser médico, seria um grande advogado.” (in “Pontos Finais”)
Não nos admiremos que, alguns desses acontecimentos, foram temas para as suas crónicas, destacando nelas os assuntos ligados à vitinicultura e à luta dos pequenos produtores de Vinho de Porto para terem uma organização associativa que os representasse, como foi a criação da Casa do Douro, com a sede na vila da Régua.
“O Douro, sempre em crise latente, podia contar, em horas de maior aperto, com os seus paladinos. Confiava neles, secundando-os com os seus vivas e assinaturas. Hoje, se não tiver alguém que o alumie, não sabe de onde lhe vem o mal nem de que lado lhe virá o remédio. Se lhe disserem que boa panaceia é queimar os vinhos, não acreditará. Se, em todos os continentes, há bocas ávidas de vinho bom, destruir numa caldeira o vinho óptimo parece-lhe ruína e sacrilégio. Parece-lhe que é queimar palácios para aproveitar as cinzas.
O Douro, região especial, só poderá manter-se com leis especiais rigorosamente cumpridas. Assim o compreendeu João Franco e outros estadistas. Território que não dá chá de tília, só poderá produzir vinho do Porto e vinhos de mesa tão bons como os melhores do mundo se não houver possibilidade de lhos falsificarem. Só poderá subsistir se lhe for possível acudir com eles às bocas sequiosas espalhadas por esse mundo fora. Não receia comparação com outros vinhos. Douro alcantilado, feito a pulso pela mão do homem, não tem irmão gémeo.
Sempre que o Douro sofre, com vinhos por vender ou à espera de pagamento, vou ao cemitério do Peso entrevistar Júlio Vasques. Subo ao cemitério de Poiares para conversar com o Dr. Antão. Fora de fantasia, é capaz de me apontar o bom caminho.”

A vila da Régua é geográfica e historicamente o palco principal onde se vão desenrolar os acontecimentos mais marcantes acontecestes ligados à vinicultura duriense, alguns dos quis o escritor reguense não deixa de evidenciar a sua importância para a vida local como ainda de tecer os seus comentários e notáveis reflexões, como esta:
“Pela sua posição geográfica e até de assento que tem ocupado na História da Vitinicultura, terá de ser a Régua a Capital do Douro. Foi na Régua e arredores que se originou o chamado vinho de embarque, o famoso Porto. Na corda de quintas, hoje situadas no concelho do Peso da Régua, desde a Quinta Velha à do Enxudreiro, no termo de Canelas, nasceu o Vinho do Porto. Note-se, desde já, que o nosso Enxudreiro não quer dizer lamaçal. Se o fosse, não choraria uma gota de vinho que lhe deu fama. A etimologia de Enxudreiro-Quinta deve ser especial.
Mas, vamos adiante. O cultivo da vinha generosa prolonga-se para o Nascente, encontrou em vários pontos microclimas muito apropriados. Mas, pode dizer-se que o berço é reguense.
Foi na Régua que se construiu, como palácio real, próprio de uma corte, o edifício da Companhia Velha. Foi na Régua que funcionou a Comissão de Viticultura. É na Régua que funciona, em prédio monumental, a monumental Casa do Douro.
Diga-se também que foi do cais da Régua que partiram, durante anos e anos, para a conquista da celebridade, bordo dos rabelos, pipas e pipas de vinho fino.
Tirar à Régua a hegemonia como Capital do Douro, é o mesmo que tirar-lhe do brasão os cachos de uvas. É esfarrapar-lhe a bandeira.
(…)
É agora ocasião de a Régua se opor à sua morte. Mais tarde, será tarde.”
O cidadão João de Araújo Correia foi um grande apaixonado pela Régua.
Na verdade, a sua escrita, para além de a evidenciar, reflecte também a sua postura atenta e comprometida com os problemas da sua terra, desde os mais simples aos mais problemáticos, e que exigiram muito dos seus esforços para que o podere público lhe desse mais atenção.
Atento a estas realidades, o escritor sentiu a necessidade de dedicar-lhe um livro de crónicas a que deu o título bem significativo de “Pátria Pequena”com o intuito de alcançar “genuínas variações de temas gratos à sua índole” e, assim denunciar muitas das fealdades e vícios comuns de sua terra natal, mas sem esconder a sua incondicional afetividade, ao ponto de afirma no prefácio o seguinte:
“A minha Pátria Pequena é a vila e concelho do Peso da Régua. Aqui nasci, aqui vivo e aqui morrerei sem espírito provinciano.” (…)
E, nesta sua “pátria pequena”, o escritor dedicou muita atenção, admiração e zelo a uma instituição de bem-fazer ao próximo, a Associação de Bombeiros Voluntários (1880) que, de um modo especial, era no seu tempo um baluarte da divulgação do apoio à cultura através de uma primeira biblioteca que os reguenses puderam frequentar nos seus longos serões.
Nessa instituição, o pai do escritor, António da Silva Correia (1864), natural das Caldas do Moledo, solicitador encartado e militante dos ideais republicanos na vila da Régua, foi um cidadão generoso que fez parte do primeiro corpo de bombeiros, como é por ele assim lembrado:
“Sei que por pouco tempo foi bombeiro. Desertou do apito mas continuou ou fez-se contribuinte. Foi-o até à hora da sua morte. Da atividade bombeiril de meu pai ficou em minha casa, durante muito tempo, uma recordação. Foram os botões, as charleiras e umas insígnias do uniforme. O que brinquei com estas maravilhas, meio oxidadas, só eu sei.” (crónica “Recordações de Barro – Os Bombeiros”, in “Manta de Farrapos”)
Assim, quem pretenda escrever uma nova História da Vila (hoje cidade) de Peso da Régua, uma versão mais atual da única que temos disponível, coligida pelo dedicado reguense José de Oliveira Soares, tem de ler e estudar as crónicas que escritor dedicou à sua terra natal sobre as diversas questões sociais, ecológicas, urbanísticas e culturais, algumas publicadas no semanário reguense “O Arrais”, assinadas com o pseudónimo de Joaquim Pires.
Assumindo uma missão verdadeiramente cívica e altruísta, no seu livro “Pátria Pequena”, o escritor reuniu um vasto leque de crónicas que, em nossa opinião, podem servir como notas introdutórias a um manual dedicado à História da Régua do século XX. Inicialmente, essas crónicas foram publicadas e divulgadas pelos leitores e assinantes do extinto boletim “Vida por Vida”, entre 1957 e 1974, o órgão oficial da associação humanitária dos bombeiros voluntários.
O “mestre de nós todos”, como lhe chamou o escritor Aquilino Ribeiro, era um ilustre e assíduo colaborador para os assuntos culturais, chamando a atenção para as muitas fragilidades sociais e urbanísticas que afetavam a denominada Capital do Douro do seu tempo.
No prefácio do livro “Pátria Pequena”, o escritor revela que a sua intenção foi alcançar “genuínas variações de temas gratos à sua índole” e, assim denunciar muitas das fealdades e vícios comuns de sua terra natal. Por essa razão, a dedicatória tem um destinatário pouco comum; em vez de louvar uma personalidade distinta ele, simbolicamente, dedica o livro à sua terra natal. Nas suas palavras, “à vila e concelho do Peso da Régua”, uma confissão de amor à sua terra que perdurou até o fim de sua vida, dando um sinal e um aviso aos seus leitores.
“A minha Pátria Pequena é a vila e concelho do Peso da Régua. Aqui nasci, aqui vivo e aqui morrerei sem espírito provinciano.” (…)
Bastava-nos essa confissão singular para confirmar que o amor à sua terra natal esteve presente em toda a sua vida, mesmo quando se assumia como um “denunciador lúcido e esclarecido,” na feliz definição da Dr.ª Hercília Agarez. Criticava erros urbanísticos e ambientais e destacava os atrasos no desenvolvimento social e turístico, muitos deles causados pela mesquinhez dos sentimentos dos habitantes que ele via como “um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento de uma localidade.”
Como um crítico atento da sua terra, o escritor confessa-se desta forma:
“É admissível e até louvável que o natural da Régua critique sua terra por amor, isto é, com o intuito de corrigir algum defeito grave ou pecha flutuante que a deslustre.”

No livro “Perfil Literário de JAC”, Cruz Malpique oferece um vislumbre da infância do escritor, descrita por ele mesmo, em um intitulado “Resumo Autobiográfico”.
Nas primeiras horas do dia 1 de janeiro de 1899, em uma casa branca cuidadosamente pintada pelo “mestre Lino”, nasceu uma criança destinada a se tornar uma voz marcante da literatura.
Essa casa, conhecida como “Casa da Fonte”, situada na tranquila freguesia de Canelas, foi o primeiro lar de João de Araújo Correia.
Aos três anos, o jovem e sua família mudaram-se para a Régua, estabelecendo-se na Rua de Medreiros, hoje conhecida como Rua Dr. Maximiano Lemos. Lá, o menino ingressou na escola primária, sob o olhar vigilante de um pedagogo severo, apelidado de “mestre Zézinho”.
“Na Régua, estudei as primeiras letras, instrução primária e, depois da instrução primária, francês e Inglês,” recorda o escritor, relembrando com ternura os primórdios de sua jornada educativa na Capital do Douro. Depois de fazer exame no Liceu de Vila Real, o jovem João de Araújo Correia foi ao Porto para realizar estudos preparatórios e se formar em medicina, concluindo o curso em 1927. No ano seguinte, em 1928, já médico, ele retornou à terra natal e escolheu morar na rua de sua infância, a Rua de Medreiros, passagem da parte baixa da vila para a parte alta, o Peso. Ali, viveu e cuidou de doentes por mais de cinquenta anos e, nas “horas mortas”, escreveu uma parte de sua vasta obra literária.
A rua de Medreiros foi lugar onde o escritor escolheu a casa para viver, escrever e montar seu consultório médico. Vejamos como descreve a sua importância geográfica para mobilidade urbana da vila:
“De simples lugar ou até de lugarejo da nossa freguesia, Medreiros veio a ser, à custa de relativa urbanização, uma das ruas da nossa vila. É uma rua íngreme, um quebra-costas que liga a parte alta à parte baixa da vila. Como entre nós se diz, liga o Peso à Régua. Liga o alcandorado e velho Peso à moderna Régua. Com esta ligação, a Régua e o Peso constituem uma única vila, oficialmente chamada Peso da Régua.”
A casa onde o escritor viveu e frequentou já não existe, fazendo com que a cidade da Régua perdesse a oportunidade de manter um museu para divulgação da sua vida e obra literária, considerado com um dos maiores cultores da língua portuguesa e autor de contos inesquecíveis que retratam a vida do homem duriense e os encantos da sua paisagem.
Hoje, infelizmente, o que nos resta dessa casa é apenas uma memória, tristemente dolorosa, descrita numa das mais belas crónicas do seu filho, Camilo de Araújo Correia que, como seu pai, foi médico e um notável escritor.
No último dia em que a porta da casa paterna se fechou para todos nós, seus leitores e doentes, apenas ecoava o som triste e, nesse momento, mais parecia que a sua alma se desfazia.

“Andamos agora os cinco irmãos a desfazer a casa onde envelheceram e morreram os nossos pais e onde vivemos até os casamentos e as profissões nos dispersarem. É uma casa antiga, do tempo em que as casas se viviam. Só se saía à rua por necessidade. Saía-se para ir às aulas, às compras, à estação apanhar o comboio ou despedir de alguém, fazer uma visita e no verão trocar o calor da casa pelo calor do jardim estreito, onde um chafariz repetia uma água mole à temperatura de toda a Régua. Também se saía, com uma certa circunspeção, para ir ao cinema e ao circo, quando os cartazes conseguiam tirar-nos do ramerrão doméstico. É uma casa que teima em não perder a alma pelas telhas porque foi uma casa vivida. (…) Vivida, muito vivida por meu pai. Salvo as saídas a ver doentes por terras e quintas das redondezas, passava o tempo em casa. Enquanto houvesse doentes na sala de espera, não saía do consultório, a não ser para tomar um café e fumar um cigarro no terraço das traseiras. Se o frio e a chuva não consentissem, saboreava-os na sala de jantar, no cadeirão onde vi o seu fantasma, até ao desfazer da sala. (…) Quando desfizeram a biblioteca, vi meu pai perdido no vazio, a estender os braços como se quisesse agarrar o consultório. Ilusão semelhante tive no desfazer do consultório. Aí meu pai era apenas uma imaculada bata branca rodeada pelos seus mestres da Faculdade, saídos das molduras para se despedirem. O desfazer da sala de espera foi mais dramático. Uma grande multidão de doentes pobres lutava por não perder aqueles bancos hospitaleiros, onde durante tantos anos esperaram remédio para os seus males.”
Voltemos, com os olhos perspicazes do escritor, a deambular pela íngreme Rua de Medreiros, para observar como era o seu ambiente e os seus moradores nas suas rotinas e afazeres diários:
“Rua de passagem entre Peso e a Régua. Antes de haver automóveis em barda, quem animava a Rua de Medreiros, de dia até à noite, eram as mulheres do povo miúdo sempre zangadas umas com as outras, batiam-se de sol a sol e lua a lua com a palavra aguçada e, às vezes, dente aguçado. A troco de nada armavam ralhos.”
Desta forma, era por esta sua rua que o escritor analisava as mudanças que, ao longo dos anos, nela e na vila se mais notavam:
“Medreiros, excepto em noites de verão, é hoje esmorecida. Os automóveis que passam e repassam não chegam a dar-lhe fisionomia. Morreu o ralho. Não há guerra popular, deixou de haver sangue estuante.”
E noutro momento da sua vida, uma vez mais, recorda-a assim:
“Pobre rua de Maximiano de Lemos! Não precisa de polícia, porque é rua de gente sossegada. Precisa de silêncio, uma pequena esmola de silêncio para poder dormir.”
Nas crónicas do livro “Pátria Pequena”, o escritor retrata com precisão o ambiente da íngreme Rua de Medreiros, como se tivesse uma lente de grande ângulo, através da qual nos permite observar os seus afáveis moradores. Na sua maioria eram gente do povo, pobre, analfabeta e humilde, mas ele não esquece de mencionar os nomes dos vultos de maior importância social.
Quase indo buscar os seus vizinhos aos confins da Eternidade, o escritor não se esquece de evocar figuras diversas que nos captam atenção e até a nossa simpatia, como a Rosa do Carvão, uma velhinha que vinha à porta ver passar a Senhora do Socorro; o Sr. Silva, contínuo na Câmara Municipal e “pronóstico e canvarista”; a Mariquinhas Taranta, uma ótima cozinheira barbuda curiosamente apelidada de “Sol na Rua”; o maluquinho Tantarrua a “anunciar festas e enterros”; e o Dr. Zagalo, um boêmio talentoso, advogado e escritor apaixonado pelo Douro que tinha um lugar especial na sua memória.
“Ausente desde menino, venho morar na mesma rua onde me criei e onde era a minha escola primária. Das janelas do meu quarto, ao erguer-me, descubro o mais gracioso e majestoso panorama que ainda gozei, aos anos que conto e que tenho visto, com magras posses, no meu país encantado. Linda vista! (…) Volto diverso e a vila é irmã da que ficou. As mesmas casas, as mesmas ruas. Só uma diferença noto, nesta íngreme rua de Medeiros, a mesma onde me criei e onde era a minha escola primária. Onde estará o meu mestre, o Sr. Zézinho, que todos os dias cortava um vergueiro no quintal, só com um vergueiro, dizia, para desorelhar os rapazes.”
No início do século passado, destacava-se na vila reguense a associação dos “Soldados da Paz”, quer pela utilidade no combate aos incêndios, quer pela sua função cultural e recreativa.
Vamos, então, fazer uma visita guiada pelas palavras do escritor ao seu quartel que, nesse último século, ocupava um velho edifício – ainda hoje existente, renovado para servir turistas em regime de alojamento local, situado no coração da vila reguense:

“O quartel dos bombeiros, situado ali em baixo, na Chafarica, no Largo dos Aviadores, como hoje se diz, era o clube da terra. Havia outro, mais aristocrático, presidido pelo monóculo do Dr. Costa Pinto. Clube, ponto de reunião, era o quartel dos bombeiros. Ali se jogava e conversava à vontade. Ali se davam gargalhadas que faziam estremecer o quartel. Guarda-lhes o eco algum ouvi, então, adolescente.”
Ainda na primeira “casa dos bombeiros” reguenses, não podemos deixar de subir ao seu primeiro andar e entrar nas suas salas recreativas dedicadas aos jogos e à leitura.
“Quando o quartel dos nossos Bombeiros funcionou modestamente numa casa situada no atual Largo dos Aviadores, frequentei-lhe as salas recreativas com o meu pai, era eu rapazinho. Na sala dos jogos, inofensivos jogos de cartas, dominó e quino, lembro-me de ver, encostada a uma parede, uma alta e larga estante de madeira rica, toda envidraçada e repleta de livros. Creio que ninguém lhes tocava. Quem se entretinha com a sueca, o dominó e o quino talvez nem reparasse na volumosa estante, abarrotada de livros. Reparava eu… E o meu regalo seria abrir aquela estante e colher de lá um livro para o folhear e ler antes de me deitar. Assim eu o percebesse. Era ainda tão novo… Teria onze, doze anos.”
O escritor nutriu, até ao fim da vida, uma dedicada e fiel admiração aos garbosos “Soldados da Paz”, com e sem farda, especialmente aos da velha guarda, que ainda os conheceu e os evocou nos seus escritos com exemplos de abnegação, coragem e altruísmo, como foi a morte do bombeiro João dos óculos, em 1953, no grande incêndio da Casa Viúva Lopes.
“Quando em 1953, ardeu por completo, nesta vila, a CASA VIÚVA LOPES, empório de secos e molhados, como se diz no Brasil, morreu no incêndio o Bombeiro João Figueiredo, mais conhecido por João dos óculos.
No dia seguinte ao fogo, vi o cadáver estendido de costas, do lado de dentro de uma abertura, que tinha sido, poucas horas antes, uma das portas da grande mercearia. O corpo do João, ligeiramente vestido, como que ostentava, em toda a extensão das partes descobertas, o que se diz, em medicina, queimaduras do primeiro grau.
Não sei se a rápida morte do João foi devida às queimaduras, talvez mais extensas do que as ostentadas, se foi devida a asfixia ou queda. Não li relatório de autópsia nem sei até se o João foi autopsiado. Sei que morreu durante o incêndio da CASA VIÚVA LOPES.
Era um pouco triste e um pouco frio, no trato, o João dos óculos. Mas era um homem bem comportado honesto compositor na IMPRENSA DO DOURO. Vi-o trabalhar, muitas vezes, sem erguer os olhos do componedor.
Tive muita pena do desgraçado bombeiro. Tanto mais, que me eram simpáticos os seus padrinhos e pais adoptivos, o já cansado tipógrafo João Monteiro e sua mulher, a senhora Glorinha, proprietários de uma arcaica tipografia quase morta chamada TRANSMONTANA. Tinham descido de Vila Pouca de Aguiar à Régua, com o seu prelo, como se tivessem embarcado para o Brasil. A Régua é chamariz de quem precisa de governar a vida.
Tive muita pena do João dos óculos, falecido em 1953.”
Para louvar um dos antigos aniversários da associação, o escritor dizia que esta era a única “associação era digna do seu zelo e até do seu sacrifício.” E, dúvidas não ficam, nunca se cansava de revelar esse seu afecto dedicado aos bombeiros da sua terra:
“É objeto que os nossos Bombeiros vivam sem envelhecer. Numa terra em que morrem no berço as mais luminosas iniciativas, é espantosa a vitalidade da sua Associação.”
Mas, se a associação dos bombeiros voluntários sempre prosperou e afirmou a sua vitalidade ao longo do tempo vivido pelo nosso escritor, o mesmo não aconteceu com o resto das iniciativas da comunidade reguense.
“Na Régua é tradição falharem todas as iniciativas. Falharam as touradas, as exposições fotográficas, o teatro de amadores, o orfeão, a parada agrícola, os desportos fluviais e até o carnaval inventado pelo Chico Pulga. Tudo falhou, menos a Associação de Bombeiros Voluntários, fundada em 1880 e, de ano para ano, mais florescente.”
Decorrido o tempo em que o escritor esteve ausente da sua amada terra, por se encontrar a estudar na cidade do Porto, ao voltar à vila repara que continuava igual à vila que conheceu no tempo da sua meninice. Numa pequena frase, o escritor, sem rodeios, revela a sua frustração:
“A Régua! Está como eu a deixei…” (in “Sem Método”)
Apelidada de “Capital do Douro” e de “Pátria do Vinho Fino” nos seus textos literários, a vila, apesar das suas naturais potencialidades económicas e turísticas no dealbar do século passado, estava muito atrasada no seu desenvolvimento e não proporcionava, a diversos níveis, qualidade de vida aos reguenses.
A esse tempo estava carente dos essenciais equipamentos públicos para o nosso escritor a considerar como uma terra civilizada e moderna.
Sabemos pelas crónicas do escritor que na vila da Régua faltava tudo, ou quase tudo: faltava uma escola para o ensino agrícola, comercial e industrial, faltava um centro dedicado à promoção do turismo local, faltava um parque ou um “bosque” verde, faltava uma central de camionagem de transportes, faltava até uma estalagem para receber os turistas, faltava uma sala para o teatro e era preciso um MUSEU DO DOURO, com sede na Régua, dedicado a conservar e divulgar as tradições ligadas à vitivinicultura duriense.
Com o passar do tempo, ainda durante o século passado, já depois de o escritor ter falecido, os políticos deram razão ao seu espírito pioneiro e visionário.
“Com este nome simples de Museu do Douro devia existir na Régua um estabelecimento de pura função cultural, uma casa onde se guardassem, com inteligência e carinho, curiosidades, livros raros, documentos históricos relativos ao país vinhateiro. […]
À entrada do vinhedo imenso que é o Douro, será o pórtico erguido em honra de hóspedes cultos.” “Em meio século, poderíamos ter plantado, para nosso regalo e de quem nos visitasse, uma formosa mata.”
(…) A Régua, no verão, é um forno. Viajante que aqui passa não para. Foge…”
(…) O turismo é fonte de receita. Mas, sem fontes e sem árvores, sem agasalho doce, o turismo não pega.”
E sempre com a intenção de promover o embelezamento da vila, o nosso escritor, sem nunca se cansar, reclama asseio para os miradouros localizados dentro do espaço urbano que oferecem uma vista magnífica para a deslumbrante bacia do rio Douro:
“Mas, no seio da nossa vila e junto dela, há miradouros que pedem asseado banco. São miradouros urbanos sem urbanização respectiva. Queremos referir-nos ao de Sergude e ao da Estrada Nova sobre o Americano, próximo do campo de futebol. São dois pontos donde se avista, com dois aspectos distintos, a bacia da Régua, tão decantada como se fosse de mármore e de pedras preciosas.” (…)

Mas o escritor reguense vai ainda mais longe nas suas críticas, sejam elas para situações urbanísticas, sejam para as ambientais. A um dado momento, lamenta que a vila duriense, banhada pelo rio Douro, não o saiba aproveitar e fruir durante todo o ano, especialmente nos meses de verão, para seu deleite e prazer e para a prática de desportos náuticos.
“Passa aí pela Régua o rio Douro como se passasse um rio morto. A Régua não o procura para tomar banho nem para barquear. É um dom da natureza inutilizado (…).”
Uma outra realidade que a vila do seu tempo não soube mesmo aproveitar foi o turismo, na sua boa definição, “a vindima permanente”, para se desenvolver economicamente, como o escritor bem salienta em análise fina e cuidada nas suas várias crónicas:
“A nós, durienses, depois de inventarmos o melhor vinho do mundo, que nem sempre vendemos, caímos numa sonolência que faz dó. Faltou-nos o caco para o invento supremo, que são pelo outono as vinhas coloridas. Faltou-nos a voz para apregoar: Vinde cá ver! Vinde ver! (…)
A Régua, capital do Douro, centro de excursões e turismo, como lhe chamou o nosso amigo José Afonso de Oliveira Soares. A Régua, como capital do Douro, não tem uma repartição que oriente o viajante no assombroso país vinhateiro. Parece impossível, mas… não tem.”
Abundam nas crónicas do livro “Pátria Pequena” mais preocupações do escritor com os problemas da sua terra que vislumbra, aparentemente, de menor importância, mas que merecem também a sua atenção por serem atentados à saúde e higiene pública ou por afetarem a mobilidade da circulação rodoviária em alguma artéria mais movimentada da vila reguense.
Sem papas na língua e, sobretudo, sem medo de pôr a mão na ferida, o nosso escritor assume-se como um ser livre e independente para defender qualquer causa social da sociedade reguense.
“A Régua não tem água e esgotos que bastem. Com água a jorros, dentro de casa, e competente autoclismo, daria à Régua o seu primeiro passo de civilização. (…)
Se ao menos a Régua tivesse vassouras, mas nem isso… Os varredores municipais não chegam a meia missa higiénica.” “Merecia outro arranjo a Rua do Rodo, como útil e linda estrada que é entre as demais estradas. Percorre, em toda a extensão, o famoso Vale de Jugueiros, aquele que Ramalho Ortigão denominou risonho e pingue. Serve carinhosamente as suas casas e quintas como diversos povos de S. Marta de Penaguião no seu trato diário com a Régua.”
Porém, talvez a sua maior preocupação de ordem social tenha sido aquela que o ocupou a escrever mais e mais crónicas e, por vezes, cartas ao poder político para defesa das termas e do parque das Caldas do Moledo que, a todo o custo, fez tudo para evitar que tivessem, no seu tempo, uma morte anunciada, causa que venceu com êxito, muito orgulho e vaidade pessoal.
“Posso dizer meu Moledo, porque tem sido filho dos meus cuidados. Desde que o vi decadente, que até lhe chamei Caldas Mortas, até que o vi ressurgir, com francos sinais de vida, não descansei. Escrevi, a seu respeito, artigos sobre artigos na imprensa local e na do Porto. Mas, à parte os artigos escrevi mil cartas a quem podia acudir ao moribundo ou já falecido. Com o meu amor, que chegou a ser de fé, movi montanhas. Consegui vencer a inércia e até a imortalidade de muita gente para reanimar o meu Moledo. E reanimei-o… Posso dizer que o reanimei. (…) O meu Moledo! Quando eu morrer, levo-o comigo.”
Peço-vos desculpa pelo tempo que vos ocupei para aqui vir repetir algumas das antigas preocupações e alvitres do escritor, mas elas, por si mesmas, refletem os ideais e os valores morais de um homem dedicado às letras e à medicina que, antes de tudo, foi exemplar cidadão ativo e interveniente na sociedade em que viveu, um defensor intransigente do bem comum e de causas cívicas, sem sair da paz do seu eremitério.
Razão e pensamento muito acertado é o de do poeta e escritor José Braga-Amaral quando nos afirma que ele “foi atento e útil à sociedade em que viveu.”
Voltemos então à prosa do escritor, a mais crónicas dedicadas à sua “pátria pequena”, para darmos um pequeno passeio pelas principais ruas da vila e irmos também revisitar alguns dos mais belos sítios, seguindo um roteiro por ele delineado para descobrirmos mais da Régua do seu tempo.
Antes de mais, o escritor, como se fosse também um pintor, começa por nos dar umas pinceladas da paisagem vinhateira, panorâmica e envolvente à vila reguense que, no dizer do nosso escritor, desenha a sua malha urbana entre “rampas e socalcos.”
Vejamos como ele consegue fazer a descrição das belezas naturais da sua amada Régua. “Diz-se que a Régua é bonita por fora e feia por dentro. (…) A Régua, donde quer que se aviste é uma jóia. Mas o que lhe dá realce e estojo, isto é, a concha em que assenta a bacia da Régua com as suas montanhas, as suas colinas e o seu rio. Tocada de perto, sem escrínio à vista, desfaz-se-lhe o encanto. É uma jóia de chumbo ou, quando muito, de pláque. Mas dentro da vila, os pontos donde se descobre a mimosa paisagem ambiente são belos. É belo o Cais, bela a Alameda e bela a Estrada Nova.”
Paremos um pouco, então, na rua principal, a quem os reguenses do seu tempo chamam Cimo da Régua, onde vamos encontrar as requintadas lojas do comércio tradicional, na qual o escritor veio abrir uma tipografia e duas livrarias, conhecidas pelo nome de Imprensa do Douro, de que o escritor era dono, onde se vendiam jornais, revistas e livros, divulgando os primeiros da sua autoria.

“A Rua dos Camilos, Chiado dos reguenses, pode facilmente com a boniteza. Mas, é menos feia, e até bonita, no alto da rua da Alegria e no alto da rua do 1º de Dezembro. É que, desses cumes, se descortina ao fundo, como num caixilho, um peregrino trecho de paisagem.”
Ainda a meio da Rua dos Camilos, caminhamos no sentido da estação de comboios, não vamos perder a oportunidade de ver, pela última vez, navegar no rio um barco rabelo.
“Vimo-los um dia destes, de uma das janelas abertas sobre o rio Douro na Rua dos Camilos. Olhávamos distraidamente para o fundo de uma das nossas rampas, a do 1º de Dezembro, quando eles surgiram de vela desfraldada, arfando, à direita da cena, como cisnes cansados. Mas, pouco a pouco, tomaram o quadro todo, parecendo-nos que se acomodavam para descansar.”
Sabemos que o escritor ainda fez uma viagem num primitivo barco rabelo, nesse “rio de mau navegar”, entre o cais da Régua e o Porto, mas, em toda a sua vida, deslocou-se sempre de comboio à cidade invicta, pelo que nos deixou um testemunho pouco favorável do edifício da Estação da Régua.
“A Régua, como capital do Douro, pátria do vinho fino, exige uma estação mais eloquente do que um simples letreiro pintado numa parede. Exige um edifício que proclame ao viajante, mesmo sem letreiro: aqui é a Régua! Uma estação que fosse o Douro escrito em azulejos que mostrasse o labor vitícola, a cava, a poda, a vindima, o lagar, o tonel, o carro de bois, o barco rabelo.”
Ao chegarmos à estação de caminhos-de-ferro da pitoresca vila da Régua, o apito do comboio para o Porto ecoava como uma melodia distante. Um sentimento de nostalgia tomou conta de mim. Pensei em um recanto encantador, um lugar que precisava compartilhar convosco. Subimos até as Fontainhas, afastados do burburinho da vila, onde a Capela de Nossa Senhora do Desterro se revela como uma jóia rara.
Com suas linhas graciosas e originalidade artística, era admirada pelo escritor, um verdadeiro poema esculpido em pedra:
“A começar pelo nome, é um belo sítio o das Fontainhas. Não desfruta de vista panorâmica da Estrada Nova, mas é gracioso, suave, evocativo (…). Passa por ele o velho caminho do Peso da Vila Real, por onde transitou Camilo num dos seus românticos amores. (…) É um ermo as Fontainhas. (…) As Fontainhas, com a sua graça, o seu mimo, a sua poesia, devem ser acarinhadas e protegidas pelo reguense. A Capela de Nossa Senhora do Desterro, a das sete esquinas, como lhe chama o povo, é tão harmoniosa em sua pequenez, que dificilmente encontrará irmão no termo do concelho. Deve ser considerada jóia municipal.”
A obra literária do escritor, seu amor pela terra onde nasceu, viveu e morreu, é compartilhada com seus leitores e descendentes numa prosa quase poética que nos deixa eternamente apaixonados, desde o início do século passado até os dias de hoje.
Pouco mais tenho para evocar sobre a nossa terra, a encantadora vila da Régua, no início do século XX.
Concluo com uma ideia que me é muito grata, a de um reguense apaixonado que correr nas sua veias ainda metade do sangue vareiro e outra metade do sangue galego como se fosse um daqueles antigos povoadores que vieram moldar a história da vila da Régua até ela se tornar nos nossos dias numa relevante e conhecida cidade vinhateira e turística.
Ao folhearmos as páginas de sua obra literária, é impossível não sentirmos o amor genuíno que o escritor reguense dedicou à sua terra, a sua “pátria pequena”, até ao último dia da sua vida.As suas palavras, impregnadas de um encanto inconfundível, brilham como se fosse uma poesia luminosa que nos leva a percorrer as velhas ruas da vila da Régua, como quem nos revela um mapa sentimental:
“Em noites primaveris saio de casa, às vezes a passear com minhas filhas. Dou uma volta pelo cais da Régua construído com uma boa ajuda dos vareiros. Contemplo os beirais de casas que vão envelhecendo. Como na minha infância, lá andam as andorinhas reparando os lares com lodo do rio. Subo a Rua das Vareiras, espreito a Rua Nova, entro na Rua da Ferreirinha. Uma fila de casas, com maior ou menor atrevimento, é ali precursora de nova arquitetura. Morre o crepúsculo. É a maneira de melhor se verem, numa esmola de luz silenciosa, aquelas frontarias. Digo a minhas filhas: este casario, meninas, é feito de sardinhas e sal. Há sal na Régua…” (in “Palavras Fora da Boca”)
Esta era a Régua do seu tempo, sentida, poética e memorável.
Esta é também nossa amada Régua, vista e revista pelo olhar atento e apaixonado do ilustre escritor reguense.
José Alfredo Almeida, DRº



