SER AGRICULTOR NÃO É SÓ SER UM PRODUTOR DE ALIMENTOS
(Ou a Europa arrepia caminho e entende que tem de defender os agricultores, ou continua nesta aventura de negociatas e, brevemente, estaremos na fila de racionamento, para comprar alimentos básicos ao preço do ouro)
Vivemos uma era tecnicista e economicista. Só se olha para os resultados imediatos e para a superficialidade de tudo e de todos. Não se aprofundam os assuntos, não se estabelecem co-relações entre factos, não se conseguem perspectivar a longo prazo, as consequências de uma apreciação feita agora.
Todos se preocupam com o ambiente, com as alterações climatéricas, com as secas e com as inundações, e enche-se o mundo de activismos balofos desgarrados do tempo e do espaço. Os políticos seguem-lhes as pisadas porque cada um representa um voto, e uma chamada de atenção ou uma correcção pode significar o fim de uma carreira.
Vem isto a propósito de, nos últimos anos, e num escalar nunca visto, o sector agrícola e, principalmente os seus sustentáculos: os agricultores, terem vindo a sofrer reveses, contratempos, falta de atenção de quem de direito, a que se somam regulamentos em cima de regulamentos e processos burocráticos maquiavélicos.
Se há uma classe profissional que mais tem sido desprezada e desapoiada, é a dos agricultores.
Entendem os tecnocratas que enxameiam a UE, que a eles compete produzir alimentos, preferencialmente baratos, que lhe compete defrontar os grandes potentados da produção massiva de alimentos e da distribuição, e que se a sua actividade não é viável, a culpa é deles. Sabendo-se que os agricultores são na sua esmagadora maioria, pequenos e médios empresários, e, como tal, com limitações a todos os níveis, incluindo o suporte dos acelerados custos de produção, dificuldades de investimento, incapacidade de aguentar o peso das papeladas imensas; sabendo-se destes factos – dizia eu – não há quem na política, quer interna quer a nível da União Europeia, tenha a lucidez de entender que um agricultor não é somente aquele que produz o que metemos à boca. Porque ele é mais, muito mais do que isso.
Sendo a terra o seu espaço de trabalho e as plantas as suas componentes, o agricultor trata do planeta. Dá-lhe vida onde ele definha, sustenta-o quando ele quebra, protege-o quando ele é ameaçado, e, para além disto tudo, o agricultor é um pintor, que embeleza a paisagem, dá-lhe cor e felicidade, regala o olhar de quem vê campos granjeados.
E os políticos nem se apercebem de quanto é dura esta profissão. Erguer antes do sol, suportar neves, alimentar o gado, suar o escaldar do Estio, prescindir de fins de semana e de férias, em suma: uma vida onde ele se confunde com a própria terra que desbrava.
E por muito que a tecnologia o tenha vindo a ajudar nas tarefas, ele continua o mesmo de sempre: um amante e tratador da Natureza.
A falta de consciência política do papel do agricultor na preservação de um mundo saudável, tem levado a que muitos agricultores desistam, por cansaço ou desânimo, porque por muito forte que se sejam, não são de ferro.
Por isso há cada vez menos agricultores, cada vez mais desertificação rural, cada vez mais os matagais invadem tudo.
Nesta hora onde a PAC parece mais uma sentença de palanque e corda, onde os acordos da Mercosul são o estertor dos pequenos e médios agricultores, das duas uma: ou a Europa arrepia caminho e entende que tem de defender os agricultores, porque defendê-los é defender a agricultura e o ambiente, ou continua nesta aventura de negociatas entre portas e, brevemente, estaremos na fila de racionamento, para comprar alimentos básicos ao preço do ouro.
Por Francisco Gouveia (eng.)




