Opinião

A fome boceja, a fartura arrota…

Sob o título “Sustentabilidade preocupa na região demarcada mais antiga do mundo” publicou o Dinheiro Vivo um texto subscrito por Ilídia Pinto.

Reportando que as “alterações climáticas, envelhecimento populacional, falta de mão de obra ou uma distribuição mais equitativa da riqueza gerada são alguns dos desafios com que se defronta o Douro”, entendeu ouvir a opinião de três personalidades directamente ligadas ao sector.

O Presidente do IVDP, Prof. Gilberto Igrejas, defendeu que “não basta sermos a primeira região demarcada do mundo, é preciso aportar mais valor e torná-la ainda mais sustentável para o futuro. É preciso valorizar aqueles que tão arduamente trabalham a vinha”.

Já o Eng. António Saraiva, Presidente da AEVP – Associação das Empresas de Vinho do Porto, “aponta, por seu turno, a sustentabilidade social como o grande desafio a ultrapassar”, problema que concretiza nos seguintes termos: “não temos pessoas para trabalhar. E sem mão de obra, os investimentos vão parar. Não serve de nada estar a investir em novas plantações de vinha se não há trabalhadores para a vindima, o que faz com que esta seja mais longa e que os custos aumentem. Assim, não sei como é que a região poderá continuar a desenvolver-se”, para concluir que “Se não há mão de obro, não se pode produzir e não se gera riqueza”.

Por outro lado ainda, o Eng. António Lencastre, Presidente da Casa do Douro / Federação Renovação do Douro, refere que “a preocupação maior, além das alterações climáticas, é o envelhecimento da população. “Dos 20 mil viticultores da região, 80 a 85% tem já uma idade avançada e embora sejam de pequena dimensão representam 50% da produção”. Exemplificando, afirma, contranatura, que “Um microviticultor com 80 anos e que não tem sucessores não vai abandonar o património dos seus ancestrais. Tem que ser com dignidade, não é a qualquer preço”.

Expressas as principais preocupações daqueles “responsáveis”, entendeu a articulista colher-lhes as soluções que preconizam para as ultrapassar.

O Presidente do IVDP, qual Pilatos dos tempos modernos e confessado estudioso, declarou que fez subscrever um “compromisso dos decisores políticos” para produzirem “estratégias e políticas para o desenvolvimento economicamente viável, ecologicamente correto e socialmente justo”. Para além disso “está a desenvolver trabalhos em cooperação com Espanha, França, Itália e Alemanha precisamente ao nível da sustentabilidade, para definir práticas mais amigas do ambiente” e, na esfera do próprio IVDP, “o instituto está, também, a desenvolver um estudo nessa área e espera ter resultados para apresentar em meados do próximo ano”.

Já para o Presidente da AEVP, “a solução estaria em trazer trabalhadores dos PALOP aos quais poderiam ser ministrados cursos, durante um ano, de noções básicas da cultura da vinha, aproveitando as escolas agrícolas, que estão sobredimensionadas para a realidade atual da região”; para este efeito, explicou que “As empresas estariam dispostas a financiar a iniciativa e a garantir trabalho”. Mais informou que “A ideia foi já apresentada aos responsáveis das escolas agrícolas e da Direção Regional de Agricultura, em Mirandela. “Toda a gente acha que é uma excelente ideia, mas que é tudo muito complicado para a implementar. Cheira-me que está tudo a baixar os braços antes mesmo de os levantar”.

Por fim o Eng. António Lencastre, reforçando a ideia de que “no minifúndio, tudo é mais caro e menos eficaz”, situação que reporta como existente para 50% da produção regional, acredita que “seria importante que este tipo de propriedade fosse integrada numa exploração intensiva”.

E pronto! Com este tipo de “responsáveis”, onde pensam que o Douro chegará?

Um, muito de acordo com a sua formação profissional, dedica-se ao estudo; outro, mais vocacionado para os saldos (um produto só é vendável se for barato!), pretende “importar” mão-de-obra para a região e, por fim, o último, mais enraizado nas economias de escala, pretende fundir propriedades ou, pelo menos, os produtores.

O facto é que nenhum vislumbrou que “envelhecimento populacional, falta de mão de obra ou uma distribuição mais equitativa da riqueza gerada” são consequências da política agrícola regional até aqui seguida e não as causas da actual situação.

Nunca será a “importação de mão-de-obra” ou a “fusão da propriedade” que irão determinar um integral escoamento comercial de toda a produção regional. Isto sim, utilizando as palavras da AEVP, é miopia na análise socioeconómica da RDD.

Arlindo Castro
13 de Setembro de 2021

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