A POLÉMICA SOBRE AS AGUARDENTES VÍNICAS E A COMPLEXA PROBLEMÁTICA DA VITIVINICULTURA NA REGIÃO DURIENSE
Parte 1
É evidente que se poderá usar mais aguardente vínica proveniente de destilação de vinhos da região do Douro na elaboração do vinho do Porto. Em anos de boa produção até poderá ser quase toda. Porque de facto bastam pouco mais de duas pipas de produção de mosto para uma pipa ( 550 litros ) de vinho fino – 430 litros de mosto e 120 litros de aguardente que corresponde a destilar 700 litros de vinho corrente, ou seja pouco mais que uma pipa. Como a região produz em média entre 250.000 a 300.000 pipas, consoante os anos, para as 90.000 de vinho do Porto seriam gastas 180.000 pipas da produção regional, ainda sobrando 70 mil ou 120 mil pipas, conforme os anos, para os DOC, moscatéis e espumantes. Apostando sobretudo na qualidade. Menos produção mas com muito mais valia, pois os vinhos do Douro ( todos eles ) são pagos demasiado por baixo do seu real valor! Com excepção dos que vão para benefício, são quase todos pagos abaixo do preço de custo, são pagos entre 50 e 60 cêntimos por quilo da uva e o peço de custo é em média cerca de 80 a 90 cêntimos. A pipa de vinho sem benefício a 450 euros já é considerada bem vendida e corresponde a isso mesmo, 60 cêntimos o quilo da uva! Como são 750 quilos que dão a pipa, a conta é essa mesmo. O que vai para benefício, esse cobre o custo de produção, nuns casos à tangente, quando a 800 ou 900 euros a pipa, noutros a 1100 ou 1200 euros dependendo do grau e das empresas ou cooperativas em causa o que já core relativamente bem (correspondentes a um valor entre 1,1 a 1,5 euros o quilo de uva). Mesmo assim não deixa grande margem e lucro aos viticultores pois estamos numa região de solos pobres, de baixa produção por hectare de vinha e em que os custos de produção são muito altos dada a sua orografia e bastante oscilante a quantidade produzida em cada ano.. Claro que há um grupo de produtores engarrafadores que escapam a esta mediania. Mas são uma muito escassa minoria! Cerca de 300 num universo de 30.000 viticultores. , Estes apostam na alta qualidade. E é por aí o caminho! Porque temos um grande trunfo a compensar as baixas produções. Qual é? A alta qualidade! Aqui há que chamar á atenção a muitos viticultores – caiam na realidade, vale mais produzir menos mas com a mais alta qualidade possível, seja qual seja o tipo de vinho que estamos a considerar. Além do mais, com este sistema actual têm ido uvas de menor qualidade para o vinho do Porto afim de valorizar as outras, um aparente contrassenso. É esse espírito de aposta na qualidade que temos todos de assumir. Voltando às contas da aguardente – em anos de produção média ou alta quase que temos produção suficiente para tudo, incluindo a produção de aguardente, embora se se caminhar nesse sentido se tenha de retomar a capacidade de destilação, havendo a Subvidouro na Folgosa, futura Destildouro, em reconversão para tal desiderato. Em anos de baixa produção aí teria de ser importada alguma. Ou melhor ainda, usar-se-iam stoks que a região terá de constituir nos anos de super grande produção e ou nos anos em que os mercados falhem, se quiser ter uma estratégia minimamente segura para o futuro! Mas para tal é necessário que a região se organize e se paguem as uvas, os mostos ou os vinhos a tal destinados por um preço compensador. Desse modo deixariam de entrar anualmente na região uma centena de milhar de pipas de vinho oriundas de fora da região sob a forma de aguardentes. O que tornaria a produção de vinho do Porto muito mais genuinamente duriense, evitando este negócio das aguardentes importadas o que só beneficia as grandes empresas. Para além de outra enorme vantagem – havendo menos excedentes, a competição pelas uvas seria maior e os preços aumentariam necessariamente. Porém estas grandes empresas iriam usar o alibi de ter de pagar ainda menos pelos mostos destinados ao benefício por passarem a ter a aguardente um tanto mais cara.
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Quando é óbvio que deveriam – e poderiam – pagar ainda melhor. Sinceramente fico perplexo nesta difícil equação e gostava de ouvir a opinião dos grandes defensores do uso de aguardentes oriundas da região sobre este assunto. Como obrigar este oligopólio que esmaga preços ao produtor desde sempre para abrir os cordões à bolsa e passarem a pagar melhor aos viticultores durienses. Vamos desenterrar o nosso Doutor Marta e fazer uma jogada de xeque mate como ele tão habilmente fez em 1973, passando os preços à volta dos 4 ou 5 contos a pipa para cerca de 12 a 15 ?…Por aqui se viu a enorme margem de lucro do dito oligopólio, sempre com alibis para manter esta submissão dos coitados dos viticultores e também sempre com o conluio dos governantes.
Que na maioria dos casos não percebem patavina sobre a região duriense e em paralelo fazem parte do poderoso «lóbi» que sempre mantém este sistema que é o que mais lhes convém.
Eu sei do que escrevo. Sou agrónomo e duriense e o meu avô materno instalou em 1920 na nossa terra, Vilar de Maçada, uma das primeiras destilarias de aguardente vínica de toda a região que funcionou até 1955, com a fiscalização da Casa do Douro a partir de 1932. Um exemplo a seguir. Pois só com boas aguardentes vínicas, destiladas de vinhos correntes sem defeitos, é que se pode elaborar vinho do Porto de qualidade. Claro que desde há décadas que é controlada a qualidade da aguardente mas nem sempre assim foi. Leia-se o oportuno artigo do João Rodrigues publicado neste Face e no semanário «Notícias de Vila Real» e pasme-se como no século XIX se usavam ou aguardentes vínicas de qualidade duvidosa através de contrabando de origem espanhola, ou, ainda pior, autênticas zurrapas provenientes de tudo o que é possível destilar como aguardentes para o vinho do Porto ! Ainda bem que não tenho nenhuma dessas garrafinhas antigas, pois o conteúdo não deve ser grande coisa. E com isto termino esta reflexão sobre uma temática tão importante para o futuro desta nossa região que tanto estimamos! Viva o Douro e vamos lutar por um Douro mais senhor do seu destino e da riqueza que produz!
Parte 2
No seguimento desta polémica, foram tecidas algumas considerações ao texto por mim publicado, o que é perfeitamente saudável. Uma polémica é isto mesmo, uma troca de ideias. Mas como a polémica continua, tomo a liberdade de tecer como complemento mais algumas reflexões sobre este assunto pois na realidade ele é bastante mais complexo do que se possa pensar. Foi referido que não considerei a variabilidade de produções. Pois está referida mais de uma vez a variabilidade de produções consoantes os anos, até coloquei números, entre 250.000 e 300.000 pipas. Referiu as regras europeias. Seria estranho que o regulamento europeu fosse contra se a região optasse por esta via e o governo também autorizasse ou até obrigasse a tal, pois na maioria das regiões vitivinícolas europeias há, pelo contrário, a preocupação na genuinidade regional dos vinhos nelas produzidos.
Um dos bloqueios a uma mudança de sistema seriam os contratos existentes e a cumprir. Ora tem que ser sublinhado que esta via agora proposta e que é defendida por muitos durienses, é um projecto para o futuro, e os contratos actuais teriam de ser revistos, como diria o General Delgado, obviamente revistos. Foi também chamada a atenção para a capacidade de destilação de vinhos. Sobre tal aspecto está escrita uma frase chave – «que a região se organize» Que se organize no sentido de formar stoks para anos de excessiva produção e para anos de quebra de mercados, pois como anda o mundo nesta fase de guerras, essa probabilidade é maior do que nunca. Mais ainda – que a região se organize no sentido de ampliar a capacidade de destilação de vinhos. Que eu saiba há uma destilaria em recuperação, a Destildouro, antiga Subvidouro na Folgosa. Foi instalada para quê? Foi também referida a necessidade de regulação de preços. Só que a formação dos preços não vai lá por decreto, terá de ser pelo jogo dos mercados e, como referi, havendo menos excedentes, a procura e a competição por boas uvas obrigará naturalmente a um aumento dos preços.
Outro ponto – o preço da aguardente. Feitas as contas, mesmo pagando as uvas destinadas a vinhos para destilação a 80 cêntimos o quilo, para se aproximar do preço do custo de produção, e acrescentando a despesa do transporte e destilação, o preço da percentagem de aguardente por garrafa de vinho do Porto fica cerca de 1,5 euros. O valor do mosto será cerca do mesmo. Um valor base na produção da garrafa de vinho do Porto perfeitamente viável para dar muita margem aos empresários que o elaboram, mesmo contando as imensas despesas posteriores. Vamos a contas – 80 cêntimos por quilo de uva, ou seja próximo do custo de produção, em 750 quilos para a pipa são 600 euros. Com o transporte e a destilação serão no máximo 800 euros e essa pipa dará 80 litros de aguardente, 10 euros o litro, de facto aparentemente muito cara. Mas vejamos – Como na garrafa de 750 ml. há 600 ml. de mosto e 150 ml. de aguardente, esses 150 ml. custariam a módica quantia de 1,5 euros.
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Quanto ao mosto, a 1200 euros a pipa para benefício, e nem sempre chega a esse valor, os 600 ml. de mosto também custam na base outra módica quantia dos mesmos 1,5 euros. Três simples euros na base, na produção, dão de certeza muita margem às empresas para poderem por no mercado a garrafa de vinho do Porto de aceitável qualidade, de 10 anos de envelhecimento à volta de 12 a 15 euros como é o que se observa nos supermercados e ainda ganharem bastante lucro. São 10 euros de margem. (Os vinhos do Porto a 5 euros até deviam ser banidos pela sofrível qualidade e pelo preço desprestigiante). Não acredito que nos 12 ou 15 euros a garrafa possam ter prejuízo, mesmo com as imensas despesas até à garrafa pronta para venda, transporte, armazenamento, envelhecimento, engarrafamento, promoção, etc. Porque resta bastante margem. E de certeza que a aguardente duriense seria sempre de melhor qualidade, o que beneficiaria o produto final. Mesmo com a aguardente mais cara, se for seguido este caminho, ainda poderão e deverão pagar melhor os mostos do benefício que os preços pagos no Douro pelos vinhos, todos eles de grande qualidade, são ridiculamente baixos. Que se aumente também o valor final dos vinhos, mesmo o do vinho do Porto pois até é desprestigiante o valor demasiado baixo dum produto tão nobre nas prateleiras dos supermercados, tantas vezes mais abaixo que vinhos de mesa de qualidade mediana. E que, em paralelo, se procure melhorar a qualidade em muitas das marcas que por aí se vendem…
Esta polémica não é tão enfrentadora das grandes empresas como possa parecer. Não nos podemos esquecer que são imprescindíveis à região, a principal saída para os mercados de muitos dos seus produtos, sobretudo do vinho do Porto. E tenho as grandes empresas durienses em grande consideração e na minha carreira na UTAD sempre lidei com elas na maior cordialidade. Há em todas um bom sentido de procura da qualidade, que começa nas uvas produzidas pelos viticultores (e nisso têm sido muito pedagógicas) e continua no rigor do controlo da qualidade da aguardente por elas importada para a elaboração do vinho do Porto. Contudo, sendo esta oriunda da região, além de ser simbólico, daria absoluta genuinidade regional ao vinho do Porto, com a origem do seu conteúdo todo ele da região. Além disso iria diminuir a pressão de 100.000 pipas de vinho de fora que entra sob a forma de aguarente. Que não é coisa pouca! Mas esta causa é complexa e há um ponto fulcral que temos de ter em consideração – a região duriense é estruturalmente uma região vitivinícola de montanha e como tal tem uma vocação marcada para vinhos de alta qualidade e não para vinhos correntes que são esses os indicados para destilação.
Só que, para mal dos nossos pecados, grande parte dessa produção é paga miseravelmente, como se de vinho corrente se tratasse. Claro que, dadas estas circunstâncias será impossível garantir que todos os anos se possa usar aguardente da região. Os defensores de toda a aguardente ser da região terão de cair nesta realidade. Por conseguinte terá de haver aqui uma janela para um compromisso – usar o máximo de aguardente oriunda da região, sobretudo nos anos de grande produção. Limitando o contingente de aguardente importada, o que faria menos pressão no mercado, aumentando a procura e a competição pelas boas uvas, fazendo aumentar os preços da uva que no Douro é, na sua maioria, vendida a preços miseráveis bem abaixo dos custos de produção. E apesar de ser uma região que vende bem, sempre surgem anos, como em 2024, em que as cooperativas e as empresas ficaram com excedentes e deu o que deu – um valho-nos Deus para se dar destino às uvas…Lá veio à pressa uma ajuda para destilação! Um remendo numa fazenda que tem de ser bem mais consistente.
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Por conseguinte há que ponderar as duas situações, a questão da aguardente é uma «espuma» nesta problemática que vai muito mais fudo – é urgente organizar a região e o seu sistema de funcionamento com todas as partes, empresas. cooperativas, viticultores, IVDP, Casa do Douro, governo, toda a gente, afim de se poder sair desta já demasiado crónica situação de justas lamentações dos viticultores durienses, que só têm o benefício como «chapéu de chuva» para cobrir despesas de granjeio e, mesmo assim, sempre nos limites da sobrevivência.
Uma das razões para que se lute pela aguardente vínica ser oriunda da região paga a 10 euros o litro é que a esse valor a pipa de vinho de mesa corrente seria paga a 600 euros, o mínimo que cobre à tangente o custo médio de produção. Seria uma espécie de preço se garantia, obrigando todo o vinho de mesa a ser pago nessa base ou acima disso. Claro que as empresas iriam berrar e dizer que arruinaria o seu negócio, o que não aconteceria pois o valor repercutido na garrafa de vinho do Poto seria apenas de 1, 5 euros, havendo muita margem ainda de lucro.
Com outro euro e meio do mosto, ficaria em média cada garrafa a três euros e não a dois como agora com aguardente estrangeira baratíssima. Mas dado o facto de os preços das garrafas de vinhos do Porto de aceitável qualidade com 10 anos de envelhecimento oscilarem entre 12 e 15 euros, ainda fica bastante margem. (Os vinhos do Porto que andam a 5 euros a garrafa nem deviam existir, duma qualidade sofrível e de um preço que até é desprestigiante, dado que qualquer vinho de mesa mediano é vendido acima disso). E a qualidade do vinho do Porto melhorava pois a aguardente duriense é de certeza de maior qualidade.
Toda a crónica crise começa nos preços de miséria da maioria dos vinhos de mesa correntes pagos ao produtor na região do Douro. O mal é que os viticultores durienses se têm conformado demais com tal situação, porque na maioria tb/ têm benefício, sendo este, pago acima do valor do custo de produção, a cobrir o prejuízo anual com os vinhos de mesa. Mas isto é no futuro mais longínquo ou mais próximo absolutamente insustentável, pois nem todos têm benefício suficiente para tal. Muitos continuam granjear as vinhas por amor à arte e sustentando-se por outros rendimentos. Fica no ar esta questão existencial – Até quando? Atenção, empresas – Tanto se espremeu a galinha que às tantas morre mesmo e adeus negócio. E atenção turismo – Não de esqueçam que são os humildes e mal pagos viticultores os «jardineiros» que mantêm esta paisagem majestosa…Portanto seria bom que todos os agentes da economia duriense se disponham a negociar uma situação que começa a ficar insustentável. E ainda resta mais uma razão de queixa – têm entrado muitas uvas, muito mosto e muito vinho todos os anos de fora da região, incluindo de Espanha e isso é outro aspecto que terá de ser revisto e de passar a ter uma muito mais apertada fiscalização. Fica no ar esta reflexão e aguardo que se continue este debate pois está em causa o futuro da nossa querida região.
Há que negociar. Não há escapatória para já para a dependência das grandes empresas pois são elas o quase único canal de escoamento dos produtos, sobretudo do vinho do Porto. Porém temos de lhes fazer ver que, primeiro, este aparente maior custo de uma aguardente oriunda da região não é tão influente como possa parecer, segundo que não usem isso como alibi para pagarem ainda menos pelos mostos e fazer-lhes ver que esta rotura no sistema também seria para seu bem. Este sistema está no limite. A situação da maioria dos viticultores não vai aguentar. Tanto quiseram «espremer a galinha» que a vão matar de vez e ficam sem negócio. E tb/ de acabaria o turismo, dado serem esses humildes viticultores os «jardineiros» a manter a paisagem duriense majestosa como é! E vejam-se os índices do nível médio de vida, um dos mais baixos do país.
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Uma região que é um tesouro turístico e que produz tesouros, sendo um deles um símbolo da nossa nação, o mui nobre Vinho do Porto! Como duriense não me conformo e vou continuar a lutar por mais justiça social na região que me viu nascer e que tanto estimo.
José Alves Ribeiro



