ANDANÇAS, ESPERANÇAS E MUDANÇAS
O mundo vai indo, e nós vamos andando. Umas vezes melhor, outras vezes pior, mas sempre em frente que é Lisboa e para trás mija a burra como diz o povo. Acaba de findar um ano, o novo está a começar e o século que parece que nasceu ontem, já vai com a sua segunda década a meio.
Como é compreensível e se recomenda, é tempo de se fazer um pequeno balanço e de se tentar perceber o que se esperar nos meses hoje ainda por acontecer, pois a vida é feita do que sucedeu e daquilo que está para vir. Erros cometidos, coisas bem feitas, bondades e vilezas, alegrias e tristezas, ensinamentos dados e recebidos, fazem parte das nossas andanças.
Olhando uma pessoa em seu redor, ainda que correndo o risco de andar em círculos por tudo parecer repetido, tende a desinquietar-se. Sem mais nem para que, cada instante, mais parece que nos anunciam o fim dos tempos. Não própria e taxativamente, mas enquanto forte possibilidade por causa da insanidade que campeia em tudo o que é canto, vila, cidade ou aldeia.
Mais parece que está tudo grosso, é o que é. Os poucos que mandam, fazem que se desentendem, os muitos que obedecem, fingem que se não importam como é devido com a atenção sem foco e a saltar de assunto em assunto em cada nada, como melros de bico amarelo que saltitam de árvore em árvore a cantar lindas melodias com a finalidade de mostrar presença e pertença.
Não notamos, mas andamos inchados e apavorados. Cheios de nós próprios, ufanos porque temos, mas desgostosos porque o possuído está muito aquém do desejado que se vai alargando à medida que se vai alcançando. Dificilmente nos quedamos ou nos aquietamos, porque só queremos estar onde não estamos. Cada vez mais, o foco sobre o que é, se centra no mundo alargado que nos cabe na palma da mão e que é remexido com um mero dedo polegar.
Não nos dizem dos verdeiros e importantes problemas. Os políticos a quem compete cuidar da nação guiam-se por aquilo que cuidam que os cidadãos querem, tratam de os contentarem com ilusões e com alusões, a informação acerca do estado das coisas, basta-se com a espuma que se enrola nos areais do nosso entretenimento, e vamos passando ao lado em que se fale do que inteligentemente devia ser falado, aflorado e tratado.
Dealbou o Ano Novo e nada mudou. Só as folhas nos calendários. Estão criadas as condições para a tempestade perfeita. A roupa a secar no estendal da democracia corre o risco de se não segurar no vendaval, os tarecos que adornam a entrada da casa comum correm o risco de serem espatifados pela ventania, a intolerância infiltra-se, influencia e sub-repticiamente espalha o temer em quem renega semelhante viver, mas aguardamos.
Portugal está minado com as metáteses da falta de ambição. Convenceu-se que não pode ser grande. Está no mediano entre os grandes, tomou-lhes o gosto, frequentemente finge que o é, mas nada faz para efetivamente o ser. Na sua frente está o mar imenso por onde um dia saiu para desbravar e mostrar novos mundos, mas tem-se como periférico, enquanto se nega a ser pindérico.
Reduziu-se e prostituiu-se. Muitos dos seus melhores abalam para outras paragens porque sentem que não cabem cá, e os outros, igualmente bons, frustram-se por cá utilizando a sua eficiência sem que se lhe recompense a competência. Os outros, que não são para atar nem para segar tanto lhes dá, sabendo que se não fizeram oque compete e é devido, alguém o fará.
Vai-nos restando esperança. Sabemos que um dia não são dias, nem um ano, são anos, sentimos que há sempre uma solução para tudo menos para a morte, e assim almejamos que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma. Não seria mau de todo em face ao que pode aí vir.



