ARQUIVO

Ano 2006 Francisco Gouveia Engº

(388)
IMPLACÁVEL GLOBALIZAÇÃO

Por Francisco Gouveia

(O recente acordo firmado entre a União Europeia e os EUA, relativamente à autorização dada aos americanos para continuarem a usar as designações de vintage, tawny e ruby, por troca com a eliminação da denominação “Port” nos vinhos que produzem, tem uma leitura muito própria e deve ser entendida como parte da estratégia americana no mercado.
Sinais de um tempo de globalização perante o qual não adiantam os protestos. A globalização é selvagem, incontrolável, invasora, e sem regras.
O mundo, contudo, dá-nos um aviso, fruto de milhões de anos de sabedoria: a extinção é fruto da inadaptação)

Não adianta tentar perceber as regras da globalização porque esta não as tem. A globalização tem natureza selvagem, invasora, desregrada, incontrolável e implacável. Melhor será aprender a viver com ela. E neste particular da aprendizagem, o Douro começa mal. Vem isto a propósito do recente acordo entre a União Europeia e os Estados Unidos que permitem àquele país continuar a utilizar as designações vintage, tawny e ruby, nos sucedâneos de Porto que lá produzem, se bem que, a partir de agora, a contrapartida seja a eliminação da designação de Port no produto.
Se analisarmos este acordo na tal perspectiva de globalização de que falei, tudo ficará muito mais claro. Ou seja: as três designações em causa identificam que o conteúdo da garrafa é de qualidade, ao contrário de Port que não traduz a mesma garantia. A designação de Port é genérica, demasiado genérica para ser, só por si, atestado de qualidade. Por outro lado, para os mais ou menos entendidos, as três designações já identificam que, dentro da garrafa há um Port.
A lógica desta vitória americana neste acordo, traduz, sem dúvida, uma intenção comercial evidente de substituição a médio prazo da imagem de marca que a designação Port implica. Esta estratégia será mais facilmente entendida se compreendermos que, hoje em dia, a imagem da marca (vulgo empresa) se sobrepõe à origem regional do produto e as denominações de origem tendem a servir meramente para os dados estatísticos e, mais benevolamente, para o controle fiscal. Neste mundo já altamente globalizado, a imagem da empresa está a sobrepor-se à denominação específica da região ou do país onde donde o produto é originário. E sobre esta perspectiva, há considerar que o Douro está demasiado pulverizado por variantes de Porto para que seja possível “encaixar” uma imagem forte nos olhos do consumidor que, como se sabe, cada vez compra mais com os olhos do que com a inteligência. Mas este mundo está assim, ao sabor das modas e, principalmente, ao sabor da publicidade e da força com que a mesma consegue “imprimir” certos produtos nos hábitos dos consumidores.
Em recente entrevista ao nosso colega “O Arrais”, o Engº Jorge Dias (membro da direcção do IVPD), afirmou que “a complexidade das gamas de Porto nas diversas categorias, tem-se revelado no mercado como positivo”. Concordo em parte, mas com esta ressalva: o que é demais é moléstia. De facto, verifico que há uma excessiva gama de variantes, perfeitamente entendida por quem é de cá, mas de difícil apreensão por aqueles que não lidam diariamente com o produto, ou seja, o consumidor comum, nacional ou estrangeiro. Entendo assim que há uma necessidade urgente de padronização, quer ao nível da imagem de rótulo (próprio de cada empresa), quer ao nível dos tipos de produto Port, quer inclusive ao nível da identificação do nível de qualidade. Não creio que, na situação actual, e tendo em vista aquilo que o futuro nos reserva com esta implacável globalização, seja possível continuar a afirmar o Port Douro nos mercados, com esta imensa dispersão de gamas e com a falta de uma estratégia de imagem. E a imagem é mesmo isto, aquilo que os olhos vêem.
Os americanos não são tolos, e garantiram com este acordo aquilo que, de facto lhes interessava. Interessava-lhes manter a designação de vintage, tawny e ruby, porque estas designações trazem implícita a ideia de um Port de qualidade. Ao contrário, a referência de Port na garrafa não traduz necessariamente que o produto que a garrafa contém o seja um Port superior. Como já disse, esta estratégia traduz uma visão a longo (e porque não médio ou até curto) prazo, é sinal de que pretendem impor-se no mercado com estas designações à cabeça e porque sabem que, cada vez mais, as denominações de origem estão condenadas a deixarem de ser suporte do que quer que seja. Perdoem-me o exagero, mas não me espanta se, dentro de algum tempo, não aparecer por aí Port fabricado na China a competir com os nossos e os outros.
Como disse, não adianta tentar perceber as regras da globalização. Adianta sim perceber-lhe os mecanismos e as consequências. E não é futurologia difícil.
Não adianta, portanto, protestar contra estas decisões. E as pressões que poderemos exercer nos órgãos europeus e demais internacionais, só terão sentido se for para ganharmos tempo necessário à adaptação. Os protestos, até serão justos, e a defesa dos direitos de autor é uma tarefa louvável e necessária para a protecção da criatividade e da genuinidade. Mas é uma guerra perdida. Também todo o mundo protestou contra a “invasão chinesa” e vejam no que deu: como cogumelos pelo mundo fora. E não se trata aqui de aplicar a velha máxima: se não os podes vencer, junta-te a eles. Trata-se tão somente de sabermos viver no mundo de hoje, o que traduz, seguramente, um desafio à nossa capacidade de adaptação. E quem não se adaptar a este novo mundo económico que despontou neste início do 3º milénio, não sobreviverá. Aliás, se existe alguma regra neste complexo processo da globalização, é mesmo esta: adaptação ou extinção. E o mundo, visto na globalidade das centenas de milhões de anos que leva no universo, é farto em exemplos de extinção por inadaptação.
Como exemplo de uma visão para lá do imediato, e como entendimento correcto do que iria passar-se no futuro, costumo citar este caso, um êxito comercial do Port no Douro, e que foi criação e iniciativa de uma saudosa e emblemática figura da região: Nicolau de Almeida. Pois foi este mesmo homem que, entre os muitos trabalhos notáveis que saíram da sua sabedoria e imaginação, um dia se lembrou de criar um Port de características padronizadas, de boa qualidade média, com rotulagem apelativa e imagem duradoura, de forma a que, de uma vez por todas, quem pretendesse adquirir um Port com segurança e mesmo sem perceber nada do assunto, ali tivesse um produto de qualidade garantida. Falo, como já devem ter percebido, do “Cálem Velhotes”. E este exemplo, saído da região e infelizmente sem seguidores, é a demonstração de que, nesta luta pela adaptação à globalização, não precisamos de sair daqui para encontrar as soluções necessárias.

gouveiafrancisco@hotmail.com

IVV e IVPD A CAMINHO DA EXTINÇÃO?

A entrada em funções no passado dia 5 de Janeiro, da ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), está a provocar séria agitação no sector vitivinícola e nos sindicatos da Função Pública. Estes últimos acusam-na de não possuir existência legal dado os seus estatutos colidirem com os de outros institutos e organismos públicos que, entretanto, se mantêm em vigor. Por outro lado, a ASAE tem algumas competências importantes que foram retiradas ao IVV (Instituto da Vinha e do Vinho), sendo certo que poderão assimilar algumas mais, e sendo também provável que aglutine outras tantas da actual competência do IVPD (Instituto do Vinho do Porto e Douro). Regularmente criticado pelo sector privado, nomeadamente o Comércio, o IVV e o IVPD são acusados de serem sustentados por taxas elevadas extraídas ao sector e responsáveis pelo aumento do IVA sobre os produtos vinícolas de 5% para os 12% actuais. Assim, e numa perspectiva de emagrecimento do Estado tão badalada por este Governo, será de equacionar a futura extinção do IVV e, por arrastamento, do IVPD, sendo certo que as competências que detêm a pouco e pouco irão sendo transferidas para organismos centralizadores do Ministério da Economia. O assunto está longe de ser pacífico e está a provocar uma onda de boatos que não são alheios a intenções nesse sentido já manifestadas em privado pelos responsáveis governamentais das respectivas tutelas. A esta remodelação também não é alheia a Viniportugal que, com entrada em funções da ASAE, vê a sua sobrevivência em risco. No fundo, o que se está a passar é uma transferência de competências, poderes e património do Ministério da Agricultura para o Ministério da Economia, numa acelerada tentativa de, através do controle financeiro, condicionar o sector vinícola a desígnios governamentais para já insondáveis.

(389)

MONARQUIA REPUBLICANA

por Francisco Gouveia

As campanhas eleitorais já não são como eram dantes: repenicadinhas, acesas, idealistas, iluminadas por uma certa aura romântica que coloria o despique. Agora, são cinzentas, calculistas, frias, agressivas no pior sentido que pode ter a palavra. Estas presidenciais 2006 não vão deixar saudades nem memória que force a História a lembrá-las. Estão bipolarizadas da pior maneira: por uma esquerda que se assume pela negativa, ou seja, por aquilo que não quer, e por uma direita com o seu quê de sebastianista e nebuloso. A bem dizer, ninguém sabe bem o que farão os candidatos se as ganharem. Sabemos que há cinco que não querem um, e há um que não esclarece o que quer. Contudo, há um ponto comum que os une a todos: a propaganda da estabilidade, como se a estabilidade fosse a salvação da Pátria. Mas o que a gente quer é progresso, haja ou não estabilidade. Querem maior estabilidade do que a paz dos cemitérios? E é em nome dessa pretensa e discutida estabilidade que todos evitam a pergunta crucial: e os Governos que não cumprem com os seus programas? Os Governos que se elegem graças a promessa demagógicas? Sejam da esquerda, da direita, do céu ou da terra? Que lhes fará o futuro Presidente? Puxa-lhes as orelhas? Tenta metê-los na linha que prometeram? Ou demite-os? E quanto aos problemas nacionais fulcrais, como a Justiça, a Educação, a Saúde? Vai intervir a sério ou vai somente ouvir os interessados?
Dizem também que vão colaborar com o Governo. Eu também, como mais dez milhões de portugueses, ando a colaborar há muitos anos com os Governos todos. E que lucrei com isso?
E vão colaborar com o quê? Com Governos que dão uma no cravo e outra na ferradura? No mesmo dia e à mesma hora?
Sejamos pragmáticos: um Presidente da República tem um único poder realmente eficaz mas que não pode usar a torto e a direito: o poder de dissolver a Assembleia e convocar novas eleições. A Presidência da República Portuguesa é assim uma instituição radical, que pode tudo ou não pode nada. Pelo meio não há exercício possível. Pode ouvir, aconselhar, exercer alguma pressão, manifestar-se, mas não mais do que isso. Vejam bem que, nem sequer pode demitir um Presidente de uma Junta de Freguesia que esfole os seus patrícios à facada. Isto é, sobre a maioria esmagadora da máquina institucional do país, o Presidente pouco mais é que um verbo de encher. Ressalva-se este poder imenso de poder mandar o Primeiro-Ministro apanhar bonés e de enviar os senhores deputados recambiados para a terra. É um poder magnânimo que, contudo, só pode exercer depois de fazer muitas contas e que não se atreverá a usar sob risco de não ser reeleito nas eleições seguintes. Se o que se passou com Santana fosse no primeiro mandato de Sampaio, este tê-lo-ia demitido? Duvido?
Assim, estrategicamente amarrado, cercado de impedimentos legais, sempre sob o foco da opinião pública que vê nele a última esperança quando tudo se perde, deve sentir-se como uma múmia, isto é, observado com curiosidade por todos mas apertadinho de ligaduras legais sem poder mexer um dedo. Restam-lhe então as visitas pelo país, as homenagens, os discursos no Ano Novo e no 10 de Junho, desgarradas tentativas para que esta Pátria não se desagregue.
Afinal, que pode um Presidente que não pode andar sempre a demitir Governos? É que até o desgraçado do poder de veto lhe é negado na prática, sujeitando-o à humilhação de ter que promulgar a lei xis ou ipslon, depois de reconfirmada por uma Assembleia que se está nas tintas para o que pensa o supremo magistrado da Nação.
A bem dizer, tirassem-lhe o tal poder supremo e bem que poderíamos trocar esta República por uma Monarquia ao estilo europeu, de jet-set, com golfes, divórcios, adultérios e tudo. Uma tragédia para o país mas uma maravilha para o falatório. Bem que mal acomparado, os nossos Presidentes são assim uma espécie intermédia entre a monarquia envergonhada e a república impotente.
Mas, apesar de todas estas condicionantes, nenhum candidato arreda pé. Trazem programas de Governo declarados, em vez de programas presidenciais. Mas haverá algum programa presidencial possível neste país de enganos e frustrações?
Afinal, que vamos eleger? Não digo quem, mas “o que”. Um cargo? Um cargo somente necessário para completar o puzzle republicano com que nos engalanamos desde 1910? Valerá a pena tanto alarido por um cargo? Cargos há-os aí aos pontapés. Onde estiver um magote de políticos, estão alguns cargos por perto. Será este mais um? Um dos tais?
E falava-se de AméricoTomás como o do ridículo: é a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive, como se o homem não fosse também um simples Presidente da República com poderes limitados como os de hoje, apertado no sistema como os de hoje, tão subserviente a poderes maiores como os de hoje.
O nosso sistema, a nossa República, está doente. A bem dizer, nunca teve grande saúde. Quarenta anos de Salazar e trinta desta democracia de engana-tolos, não lhe garantiram resistências. Os vírus infectam-na há demasiados anos para que se possa ser muito mais condescendente com ela. Esta República pariu um cargo, e pouco mais. Um cargo, meus amigos, um cargo com o restrito significado que tem. Um saco vazio de poder e uma imensa fantasia com que esta República falida nos brinda.
Apesar de tudo, no dia 22, lá irei, quer chova quer faça sol, pôr a cruzinha no papelinho, a ver se os calo.
Sem grandes esperanças, sem ilusões, votarei, se entretanto não me der na veneta de fazer as malas e embarcar no primeiro voo que me leve até ao Pólo Norte.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(390)

E TRÁS-OS-MONTES/ALTO DOURO, Sr. PRESIDENTE?

Por Francisco Gouveia, Engº

(Todos os candidatos passaram por cá a pedir-nos o voto. Contudo, pouco nos disseram sobre a forma como entendem o combate ao definhamento que alastra neste canto do País.
Vamos ficar sem escolas, sem centros de saúde, sem maternidades, sem postos de polícia, sem serviços e equipamentos básicos, a somar ao estado degradante provocado pela desertificação. Isto significa que, a manter-se este ritmo de subdesenvolvimento, a próxima geração (a que agora dá os primeiros passos) não ficará cá, isto é: daqui a duas décadas a região transmontana-duriense ficará reduzida a meia dúzia de centros urbanos insignificantes. Trás-os-Montes e Alto Douro precisa de um plano integrado de urgência e não de um mero redimensionamento de estruturas.
Agora, sem a pressão do voto, precisamos de saber do candidato que ganhou, o que vai fazer para resolver esta questão, que não é uma questão meramente governativa, mas uma questão de Estado, de coesão nacional, de sobrevivência de uma parte da Pátria.
Uma questão ao nível das competências de um Presidente da República.)

O programa de Sócrates para o interior resume-se a uma intenção generalizada a todo o país de redimensionamento das estruturas do Estado (rede escolar, rede de saúde, policial, etc). Trata-se assim de uma visão minimalista e restrita do problema. Se por um lado se torna necessário esse redimensionamento, por outro, ao considerar-se que só isto é suficiente, está a provocar-se um aperto sufocante nas condições de vida das populações, situação que já não será tolerável pela próxima geração. A questão é outra e reclamada há muitos anos por aqueles que têm uma ideia definida sobre como estes problemas se resolvem. É assim que se reclama há muito a elaboração de um plano integrado para a região, recusando-se meras medidas pontuais, dado se tornarem inconsequentes por desgarradas e desapoiadas de outras que as complementem. Mas sobre isto, pouco ou nada se falou nesta campanha eleitoral. E devia. Porque o problema global de Trás-os-Montes e Alto Douro já não se resume a uma simples questão de governação, mas a uma questão da própria sobrevivência do país, ou de uma parte do país, sendo assim uma questão que deve ser colocada ao mais alto nível dos órgãos representativos do Estado. O redimensionamento agora em curso, das estruturas e equipamentos, é um acto técnico ao alcance de qualquer directoria de uma subsecretaria de Estado. Não é um acto político que já não pudesse ter sido executado a pouco e pouco, ao longo dos anos, com a moderação e sensibilidade que o assunto requer. Tivesse sido implementado dentro de um esquema temporal alargado e dentro de uma lógica de melhoria das prestações de serviços, e não estaríamos agora a sofrer com cortes abruptos e radicais nas condições básicas para que uma comunidade viva com mínimos de dignidade. A situação de Trás-os-Montes e Alto Douro é dramática: dia-a-dia se torna mais difícil viver aqui. A manter-se este ritmo de definhamento, a próxima geração (a que agora dá os primeiros passos) já cá não ficará. E irá embora de vez, ao contrário de uma parte ainda significativa da actual que, contra ventos e marés ainda vai resistindo. Isto significa que as próximas duas décadas serão determinantes para o futuro da região. Ou se faz muito rapidamente o que se deve fazer, ou daqui a vinte anos Trás-os-Montes e Alto Douro será um imenso deserto onde meia dúzia de centros urbanos insignificantes (as actuais principais cidades) servirão de amostra do que foi uma região que se quis próspera. Como disse, a próxima geração já não tolerará condições de vida e de oportunidades abaixo de um nível condizente com o século XXI. Este alerta não é de hoje, pois há muitos anos que o aviso vem sendo feito. Mas, infelizmente, os sucessivos governos têm governado somente até 100 Km do litoral. Para lá desta fronteira parece não haver país. Esta afirmação, aparentemente alarmista e exagerada, traduz, contudo, uma realidade indesmentível: a de que a concentração de recursos e investimentos nesta faixa litoral do país tem sido por demais excessiva. As consequências desta prática perniciosa estão à vista de todos. Principalmente dos que residem para além desta faixa.
É preciso mudar, toda a gente o sabe, mas esta mudança está constantemente emperrada por políticas condicionadas a desígnios que não se compadecem com qualquer visão humanista e patriótica da governação. Há dez anos o país votou num socialista para a Presidência da República, com a esperança de que esses desígnios economicistas e contabilísticos (geralmente tidos como influenciados pela direita mais poderosa) fossem condicionados a outros parâmetros de índole mais social. Mas no fim deste período, constata-se que o resultado foi o arrastar do país para a beira do abismo. Agora, o mesmo país decidiu que 30 anos de Presidentes de esquerda já eram demais, e entregou o mais alto cargo da Nação a um homem de centro-direita. A lógica talvez tivesse sido esta (não sei se correcta mas também se não for, pouca importância terá): se aqueles que julgávamos alheios às pressões económicas, afinal, passaram a vida a condescender com ela, pode ser que aquele de quem se pensa que está apoiado por elas, no final, acabe por lhes ser alheio.
Assim, os portugueses do interior, talvez tenham votado com a esperança de que, de uma vez por todas, a tal fronteira que acaba a 100 Km do litoral se estenda até à raia de Espanha. No que toca à nossa região, esta lógica tem mais consistência na medida em que foi o Prof. Cavaco Silva que, nos tempos em que foi primeiro-ministro, nos trouxe, pelo menos, algumas infra-estruturas importantes, como o IP4, obra que foi determinante para a ligação definitiva do interior transmontano ao litoral, se bem que, depois, e por deficiências gritantes e escandalosas de projecto e de construção que não lhe podem ser atribuídas, se tenha tornado no grande cemitério que é. Esqueçamos então a irresponsabilidade de quem a fez e lembremos a boa vontade de quem a mandou fazer. E é nesse Professor, agora guindado ao mais alto cargo da Nação, que os transmontanos e durienses (que votaram nele maciçamente) depositam as suas derradeiras esperanças. Porque os primeiros-ministros governam por demais para o voto, para a conquista da eleição seguinte, e um Presidente da República não está tão condicionado ao garante de um novo mandato. Pode perfeitamente influenciar, aconselhar, e até impor políticas necessárias desde que as entenda como essenciais para a coesão da Nação, sem que coloque em risco os votos da eleição seguinte. Os seus poderes são limitados, como o afirmei no último artigo, mas não tão redutores como o fizeram crer os seus antecessores.
Agora que a eleição já lá vai. Agora que a pressão já não se faz sentir sobre cada sílaba do que afirma. Agora que detém o poder possível, é justo que nos diga o que pensa deste canto de Portugal que está a mirrar. O interior do país está há muito doente e com as moléstias a gangrená-lo. Por este andar, acaba. E nenhum Presidente da República de um país quer vê-lo reduzido somente à parte territorial que sobreviveu.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(391)

EUROTOLICE

por Francisco Gouveia, Eng.º

(O Euromilhões obedece à lógica boçal da criação dos excêntricos, isto é: os milhões servirão para que um premiado se emborrache e deboche dentro de uma limusina no deserto, para comprar um avião particular que meta na garagem para fazer inveja ao vizinho, para limpar o cu a notas de 100 euros. Todos os outros actos que aportem alguma felicidade espiritual e uma elevada realização pessoal humanística, não está no programa dos tais produtores do concurso. Ainda por cima, o tal jogo não foi feito para dar nada a ninguém: as probabilidades de sair são praticamente nulas, e os raríssimos prémios atribuídos só vêm confirmar esta regra)

Não acredito que nesta fantochada do Euromilhões, esteja por detrás a teoria da conspiração, mas acredito que a lógica que presidiu à elaboração do seu Regulamento e à fixação do montante do prémio, não é alheia a uma certa ideia que está a levar a Europa a pique e que tem a ver com subvalorização do trabalho como principal meio de enriquecimento, com a criação de uma mística artificial de que a riqueza é algo fruto do acaso e que, como tal, será inútil tentar esforçarmo-nos para subir na vida. A teoria das probabilidades demonstra que é impossível o prédio sair a alguém. As excepções havidas só confirmam a regra. Por outro lado, e perante tal facto, pode muito bem acontecer que o prémio se acumule indefinidamente, e, então, duas situações graves estão a acontecer: quem joga desbarata o seu dinheiro, e o prémio está a cumular-se para valores que se podem equiparar ao montante do Orçamento de Estado de um país. Isto significa que se está a roubar o dinheiro ao apostador, e que, caso o prémio saia, pode ser de tal maneira grande que o premiado até se pode dar ao luxo de comprar um país só para si. Exageradamente, mas é isto que perfila o actual e desastroso Euromilhões.
Este jogo foi parido no que de mais torpe tem a mentalidade dos actuais fazedores de mitos. E os resultados estão aí: todas as semanas, milhões de apostadores sonham dias a fio com as maluquices que irão fazer quando lhes sair a maquia. No fundo, toda a gente sabe que não vai ganhar, mas não se resiste a esse sonho. Um sonho doentio, diga-se em abono da verdade, porque a tal máquina enganadora que nos impinge o éden milionário, é a mesma que patrocina anúncios onde se faz a apologia da excentricidade e da loucura. Isto é: os milhões servirão para disparates e para dar azo ao que de mais imbecil existe no ser humano. Não falam na hipótese de um mega-milionário do Euromilhões, para além de viver no luxo (o que até é lógico) aplique os milhões que não saberá gastar, em obras filantrópicas, na ajuda a quem necessita, na realização de algo que lhe aporte algo de espiritualmente elevado e algum realização pessoal. Os milhões servirão para se emborrachar e debochar em viagens mirabolantes dentro de limusinas no deserto, na compra de um avião particular que meta na garagem para fazer inveja ao vizinho, para, em suma, limpar cu a notas de 100 Euros. É para tais excentricidades que os senhores promotores do concurso acham que servem os milhões do prémio. E tudo isto não é inocente. Esta onda do imediatismo, do fácil, do materialismo como objectivo de vida, tão do agrado dos “novos vendilhões do templo”, está a arrasar o mundo moderno de hoje, transformando-nos em meros consumidores de toda a porcaria inútil com que nos tentam controlar os hábitos. O Euromilhões insere-se nessa lógica selvagem e delirante. “Excêntricos” – chamam eles aos premiados. Podiam dizer: felizes, mas não, excêntricos é que eles acham que devem ser aqueles que conseguiram, da noite para o dia, um montante com tantos zeros à direita que nem os sabem escrever. Mas, para além da irracionalidade de um prémio tão medonhamente elevado, há também o perigo real de, quem o ganhe, perder a lucidez objectiva e a capacidade de ponderação. A sociologia está cheia de casos trágicos de ganhadores de prémios milionários. Quer se queira quer não, até para se ter dinheiro é preciso saber.
A Europa de hoje caminha a passos acelerados para uma das suas maiores crises. Á crise económica motivada por políticas irrealistas, somou-se a quebra fatal dos valores morais por troca com uma mitologia com o seu quê de pagão. Os novos deuses são de carne e osso, podemos tocar-lhes, e apregoam banalidades acessíveis segundo as regras do facilitismo. Coloca-se a ética ao nível da bosta, a honradez no plano da matreirice e a dignidade a rasar o oportunismo. Os valores que esta Europa tem acumulado nos últimos anos, são assim mesmo: para se ser rico basta jogar na roleta. Para se ser rico basta esperar que a sorte nos bata à porta. Não é preciso inovar, criar, trabalhar, usar a inteligência. Não, senhor. Nem é preciso esforçarmo-nos para adquirir conhecimentos académicos. Basta somente fazer cruzinhas num papel e, mesmo assim e se não se tiverem conhecimentos capazes para desenhar as tais cruzinhas, basta pedir que máquina as faça por nós. Está tudo programado para nos tirar todo o trabalho. Até o simples acto de jogar nos é aliviado com esta modernice. Depois, é sentar-se o jogador na sua poltrona e aguardar que a sorte caia em cima do boletim que preencheu.
Este Euromilhões está preparado para entreter os sonhos de uma população europeia desiludida e cada vez com a vida mais apertada. E é nos países mais pobres (como o nosso) que o jogo adquire a sua forma mais caricata e financeiramente mais volumosa. Os portugueses são os que mais gastam em apostas. Por que será?
A resposta está na essência deste Euromilhões, criado à feição de alimentar os sonhos de uma massa populacional intranquila. Alimentá-los mas não realizá-los. O Euromilhões é uma enorme fraude social, como se fosse possível, entre centenas de milhões de habitantes, que daqui saísse uma percentagem representativa de gente a quem o prémio trouxesse alguma felicidade.
Se é costume dizer-se que o prémio só sai a quem joga, neste Euromilhões a regra será a contrária: ganha quem não joga, ou melhor, ganha quem não gasta inutilmente.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(392)

COMO O PS ENJEITA OS SEUS MILITANTES DURIENSES

(O PS está a deixar a região abandonada. Como compensação, mandou-nos cá uma senhora muito simpática que nos deu o que já devia ser nosso há muito: o Museu do Douro, e que logo de seguida se foi com a certeza de que, lá por levar na pasta a proposta de entrega de alguns cargos a militantes destacados, o assunto da problemática do Douro estava no papo. Já anteriormente, Sócrates tinha resolvido apagar o princípio de incêndio que um certo grupo pretendia lançar sobre a madeira seca da crise duriense, nomeando o contestatário-mor para um cargo cómodo e bem remunerado duma instituição que coordena não sei o quê lá pelo Porto. Mas ainda muito antes disso, tinha arranjado maneira de controlar o controleiro regional, reservando-lhe um lugar de destaque na hierarquia governativa distrital. Para Sócrates, o Douro é isto, e nada mais. Que o digam os militantes de base da região)

por Francisco Gouveia, Eng.º

Nunca acedo a fazer uma crónica a pedido e muito menos por encomenda. Salvo situações excepcionais de interesse regional onde a minha voz possa ter alguma utilidade, não abro excepções. Vou quebrar o voto e abri-lo hoje, porque julgo que a particularidade do assunto tem algo a ver com a situação do Douro e com a forma como o PS o trata. Assim, e por uma insistência continuada de muitos amigos meus, militantes durienses do Partido Socialista, e que doutra forma não têm conseguido motivar a atenção dos maiorais do seu partido, aqui vai esta farpa em forma de crónica, a ver se a voz deste burro chega ao céu do Largo do Rato.
Recuemos um pouco no tempo e vejamos como era o PS ainda há poucos anos. Semana sim, semana sim, ele era ministro, secretário de estado, presidente disto e daquilo, director daqui e dacolá, a visitar o Douro em engalanadas procissões de que faziam parte a corte maciça dos socialistas durienses e afins. Bons tempos, em que o Douro estava na moda e em que a crise se diluía nas promessas que amiúde abençoavam as incertezas dos durienses. Chegava-se ao ponto de escolher o Douro como palco para o anúncio de grandes investimentos a nível nacional. Até reis por cá passaram. Mas a política é mesmo assim, e depois que o Governo Guterrista deu o tombo, nunca mais o PS se lembrou desta terra. Meteu-se no casulo lisboeta, a engendrar politicas, a desenhar cenários de poder, a distribuir as panelas maiores por amigos e afilhados, a escrever quantos decretos-leis pode para nos azucrinar a vida. Nesta azafama desenfreada, não lhe sobrou tempo para mais nada. Depois, vieram as autárquicas onde o PS se empenhou estupidamente em candidaturas que nem lembravam ao diabo, concentrando meios e disponibilidades nas principais cidades do país, onde se sabia não ganharem para o susto. Praticamente, todo o resto do país ficou por sua conta. Isto é, os militantes do PS do interior ficaram a ter que se haver com a prata da casa, sem meios financeiros, sem apoios logísticos, sem a presença sempre motivadora dos maiorais do partido. O PS levou no pêlo mas não aprendeu a lição e, nas seguintes, desbaratou-se numas presidenciais que tão cedo não quererá recordar. Pelo meio destas trapalhadas todas, ficou uma certeza comprovada: o PS já não é o partido com a implantação nacional de outrora. O mapa autárquico demonstra-o. Mas não só: o desalento dos seus militantes do interior, são outra prova da perda de vitalidade do partido. Pode mesmo perguntar-se se, em certos concelhos, o PS existirá. Os pobres dos seus militantes bem que se esforçam por tentar manter o partido de pé, mas a cegueira dos seus responsáveis nacionais é de mais para os horizontes além de Lisboa. O PS está a enlamear-se no mesmo mar que derrotou Cavaco nos seus dois últimos anos de primeiro-ministro. Os oportunistas estão a desencaminhar o PS para os seus interesses privados. O PS faz-lhes vénia e Sócrates subscreve. O frenesim em redor da carcaça dos tachos é tal que o burburinho dos abutres cala a voz dos desprotegidos militantes da tal base que fez do PS o partido grande que é. E, vejam bem, até por cá, aqueles durienses que se esticaram todos em bico de pés, ainda recentemente, em nome de um tal Douro a pique e para o qual reclamavam a justiça de medidas urgentes, se calaram de vez mal lhe meteram na boca o naco por que tanto ansiavam. Tacho conquistado, boca calada. Mas, por fora da corrida destes habituais “clientes”, gira um mundo de militância incompreendida, de gente simples que, por essas terras acima tenta ainda avivar a cor à desbotada rosa murcha. Lutam sem meios, longe dos holofotes, aguentam com a incompreensão dos próprios conterrâneos, e, em abono da verdade, nem sei como ainda têm pachorra para suportar um partido que os ignora. Testemunhei, nestas últimas autárquicas, o que foi o desleixo da Direcção do PS para com as Secções transmontanas, durienses e beirãs. Uma lástima! Nem uma palavra, nem um reconhecimento, nem uma visita, nem uma atenção. Nada! Pura e simplesmente, nada! Por essas e por outras se percebe como é que um partido que ainda na década passada detinha o poder autárquico, está agora reduzido a meia dúzia de municípios onde somente o carisma de alguns presidentes lhe garante a manutenção do poder. O PS encolhe-se na sua carcaça, concentra-se nos seus habituais barões, envelhece sem glória, suicida-se diariamente ao enjeitar o sangue novo que o interior lhe quer injectar. Mas é Governo com maioria – dizem. Pois esperem-lhe pela volta. Até aqui, o PS viveu no limbo, protegido pela sua vitória recente, pelo papão do deficit que ignorou no seu programa, pelas tréguas das presidenciais, pelo apagamento propositado dos opositores que, segundo creio, estão a medir com rigor o tempo político e a geri-lo com a sabedoria de quem sabe ter, do seu lado, as autarquias em peso e um Presidente da República pouco condescendente com a asneira. Sócrates que se cuide porque, depois destas derrotas sucessivas, já não lhe sobra mais espaço para falhanços políticos. E nem a certeza da colaboração prometida pelo novo Presidente, lhe poderá garantir que tem ali chapéu que o cubra de todo o temporal. E então, se a política do Governo falhar, que restará ao PS? Com que moral virá, depois, pedir à tal base que despeita, o apoio de que precisa para se reerguer?
E é por esta lógica que se entende o motivo por que o PS está a deixar a região abandonada. Mandou-nos cá uma senhora muito simpática que nos deu o que já devia ser nosso há muito: o Museu do Douro (objecto importante mas não essencial), quãe se foi com a certeza de que, lá por levar na pasta a proposta de entrega de alguns cargos a militantes destacados, o assunto da problemática do Douro estava no papo. Já anteriormente, Sócrates tinha resolvido apagar o princípio de incêndio que um certo grupo pretendia lançar sobre a madeira seca da crise duriense, nomeando o contestatário-mor para um cargo cómodo e bem remunerado de uma instituição que coordenada não sei o quê lá pelo Porto. Mas ainda muito antes disso, tinha arranjado maneira de controlar o controleiro regional, reservando-lhe um lugar de destaque na hierarquia governativa distrital. E, com esta política julgou dominar a contestação destas bandas. Mas, vejam lá como o destino morde: é de dentro do próprio PS regional que se estão a levantar as vozes discordantes. Isto porque os seus militantes de base, os tais que, segundo parece, não contam para o totoloto do PS, estão a perceber que não passam de “carne para canhão”, que andam a trabalhar para aquecer, que estão a servir de escadote, e que, quando precisam do verdadeiro PS, este desaparece do mapa e não os reconhece.
Há uma massa verdadeira e entusiasta que se situa no meio do PS, entre o Poder de Lisboa e o poder dos notáveis regionais que já estão com os tachos atribuídos. E é esse PS, o verdadeiro PS, que agora começa a dar mostras de descontentamento e de revolta. Sócrates está a reduzir o PS aos amigos. Quanto às personalidades socialistas contestatárias, distribui-lhes alguns cargos para os calar.
O PS socialista, é a elite mais autocrática que conheço.

gouveiafrancisco@hotmail.com

dodouropress

É o primeiro jornal on.line do país com cobertura geográfica extensiva a uma região, neste caso, a Região Demarcada do Douro. Num site atractivo e de fácil consulta, o Douro estará, finalmente ao alcance de todos através do sistema de comunicação mais avançado do nosso tempo. Abrangerá, directamente, 21 concelhos durienses e, indirectamente, todos os outros que interferem no circuito comercial dos vinhos do Porto e Douro. Este jornal, para além de manter um registo diário de tudo o que de importante se passa na região do Douro, terá repercussões na economia local, quer dando notícias de interesse sobre a actividade vitivinícola, turística, agrícola em geral, indústria, comércio, etc, quer noticiando oportunidades de negócio, evolução dos investimentos em curso e situação dos projectos em desenvolvimento. Focará ainda a sua atenção sobre alterações ao quadro ou regime jurídico das diversas actividades durienses, ouvirá com frequência responsáveis e individualidades locais e nacionais sobre os problemas do Douro, será porta-voz das resoluções que, ao nível da gestão do Douro, forem tomadas, e manterá permanentemente actualizado um ficheiro sobre comunicados e decisões dos vários órgãos que interferem na gestão da vida económica local. Servirá também de barómetro à economia regional, fornecendo todo o tipo de informação que permita estabelecer a cotação das várias actividades, dia a dia, hora a hora. Manterá actualizado e sempre acrescentado com novos dados que forem surgindo, um painel de consulta que versará, desde elementos como a História da Região, arquivo documental, actividades culturais, políticas, etc, até pormenores de interesse sobre cada concelho, cada freguesia, cada lugar, nomeadamente sobre o que lá vai acontecendo que, de certa forma, constitua apontamento de registo. O dodouropress constituirá uma autêntica revolução na informação disponível sobre o Douro, e ferramenta indispensável a todos os que investem ou pretendam investir na região, aos que pretendam equacionar intercâmbios de negócio, ou meramente culturais, informativos, ou simples curiosos. Pode dizer-se que, o Douro, como 1ª Região Demarcada do mundo, poderá agora, dar-se a conhecer integralmente ao mundo, e entrar definitivamente na era do futuro com um mecanismo de informação moderno e eficaz.

(393)

SEM GLÓRIA

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Por muita apreço que tenhamos pela bonomia do Senhor Presidente da República, e respeito pela sua boa-fé, não nos escusamos de criticar a visita que fez a alguns concelhos interiorizados do distrito de Viseu.
O Dr. Jorge Sampaio, quer se queira, quer não, ficará ligado aos dez anos em que o Portugal democrático mais se afundou. Tolerou o que não devia ser tolerado, demitiu sem critério consistente, deixou-se envolver na nebulosidade que ofuscou as últimas legislativas. Reagiu sempre muito tarde às questões fundamentais, não exerceu como esperávamos o magistério da influência, protegeu-se demasiado atrás dos bastidores quando o país aguardava que viesse à boca de cena.
Agora, já no rescaldo dos seus mandatos, resolveu visitar este interior ignorado, mais para satisfação de um compromisso pessoal do que para tentar resolver fosse o que fosse. Veio cumprir calendário, e pouco mais.
Sai da Presidência com uma imagem de simpatia, mas sem glória)

Que excelente Presidente o Dr. Jorge Sampaio teria sido num Portugal de prosperidade e sem os problemas dramáticos que o estão a minar! O Dr. Jorge Sampaio é um homem de cultura sólida, um orador desembaraçado e eloquente, fala inglês como um mestre britânico, possui uma imagem simpática e contagiante. Mas neste país conturbado, tudo lhe aconteceu: um Guterres sem competência para primeiro-ministro, um Durão ambicioso que se deixou seduzir pelos pedestais europeus, um Santana inconstante e trapalhão, um Sócrates que ascende ao Poder num clima nebuloso de ocultação do verdadeiro estado do país. A somar a estes problemas, levantam-se suspeitas de camuflagem do défice que, pela sua envergadura, não foi fenómeno repentino mas lento, em crescendo contínuo. E o cidadão pergunta: então o Presidente não sabia o que se passava. Se ele não sabia, quem sabia?
E se sabia, porque não reagiu a tempo e horas?
Depois do anúncio da catástrofe, vieram as medidas drásticas, como o aumento da idade da reforma, o corte de direitos adquiridos a funcionários públicos e outros trabalhadores, o encerramento anunciado de centenas de escolas, de centros de saúde, a desaceleração no apoio aos sistemas e instituições de apoio social, o congelamento de salários, os aumentos para além do suportável, o desemprego galopante, a criminalidade cada vez mais violenta, em suma: um país no fim da escala em todas as bitolas que medem o desenvolvimento dos países ocidentais. Política e socialmente falando, um desastre. Dá a sensação de que todos os males da má gestão se juntaram para explodir nos dois mandatos do Dr. Jorge Sampaio. Era fatal: alguma vez havíamos de sofrer pelos erros que se foram cometendo ao longo dos anos. Há sempre uma primeira vez, para o bem e para o mal. E o mal aconteceu no tempo do actual Presidente. Um desajuste histórico, creio. O Dr. Jorge Sampaio é um homem com qualidades que não se ajustaram ao período em que exerceu os mandatos. Pelo contrário, possui uma idiossincrasia que não o ajudou a defrontar os problemas graves e as crises políticas que com que se debateu. O tempo histórico que vivemos na última década, talvez requeresse um Presidente diferente, com outra índole e outras perspectivas do papel interventor de um Presidente da República. Noutras circunstâncias, talvez de maior desafogo, de maior prosperidade, era provável que o Dr. Jorge Sampaio fosse o Presidente ideal. Com a sua cultura e presença, decerto seria um elemento catalisador das sinergias do país e, acima de tudo, um digno representante de um Estado moderno. Mas exerceu os seus mandatos num país que está ainda muito longe de se equiparar ao nível mínimo exigido ao tal país moderno, de vanguarda, de topo, um país verdadeiramente integrado no grupo mais avançado da Europa. Nestas circunstâncias, perderam os dois: o país e o Dr. Jorge Sampaio. Desajustaram-se ambos, não se encaixaram como peças de uma máquina perfeita, como deve ser a ligação de um país ao seu Presidente, pois só assim uma República tem razão de ser. E não há dúvida de que a República sofreu um forte abalo nestes últimos dez anos.
Por isso, esta visita que fez a onze concelhos do distrito de Viseu, os últimos que faltava visitar, não foi tão entusiástica como devia ter. Muita curiosidade, muito carinho do povo, muitas formalidades oficiais, muitos discursos de circunstância, mas pouco mais. Foi uma visita apressada, a correr, e os beirões sentiram que a visita era louvável mas inútil: o Presidente já nada podia fazer para ajudar a resolver os problemas daquelas terras. Sentiu-se no ar e naquele acelerar com horário apressado, o cumprimento de um calendário. O Senhor Presidente da República não pretendia deixar Belém sem que, antes, tivesse visitado todos os concelhos de Portugal. E só por isso teria decidido a viagem. Foi o cumprimento de uma aspiração pessoal que o levou a terras de Viseu. Se não o tivesse feito, haveria como que um remorso a manchar-lhe os mandatos. Não teria sido Presidente de todos os portugueses. E se foi este motivo que o guiou, acho que fez mal. Aqueles concelhos mereciam outra atenção, não só porque são dos mais pobres do país, mas também porque o Poder nunca os ouve.
Sou de lá, de um desses tais concelhos, e gostava que o Presidente lá tivesse ido noutra altura, com outra disponibilidade, com outro empenhamento, com mais poder, quando ainda havia tempo para se mudar alguma coisa.
Paciência. As coisas são como são. Não se pode ter tudo: simpatia e glória. Aprecio ambas, mas confesso, para este interior abandonado, preferia um Presidente de glória.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(394)

CÂMARAS MUNICIPAIS INGOVERNÁVEIS

por Francisco Gouveia, Eng.º

(O Poder autárquico municipal não tem paralelo no nosso quadro legal. A prova está nos orçamentos que foram aprovados recentemente nas autarquias onde presidem autarcas com muitos anos em exercício e que, com este último mandato, se despedem em 2009 porque a lei os impede de se recandidatarem.
São orçamentos aventureiros, irrealistas, onde se acentua o endividamento já agora elevadíssimo. Parece que os senhores autarcas pretendem queimar os últimos cartuchos e, quem vier a seguir, que feche a porta.
Em 2009 estas Câmaras pouco mais poderão fazer para além do pagamento das dívidas. E são de tal monta os calotes que serão precisos muitos anos para que as contas municipais se equilibrem)

É evidente que nem todas as Câmaras do país nas circunstâncias descritas, estão a proceder deste modo, mas dado que as cumpridoras são uma minoria muito restrita, quase se pode dizer que o fenómeno é generalizado. No interior, esquecido do Poder, o campo para que estas diatribes aconteçam é mais favorável, tanto mais que a atenção da imprensa e dos mecanismos da Justiça, raramente sai fora do que se passa nos grandes centros urbanos.
Mas comecemos com esta triste realidade: há lapsos gritantes no nosso regime legal, que permitem que os nossos autarcas aufiram de imunidades que nem um Governo ou uma Assembleia da República. É, por isso, mais fácil derrubar um Governo ou dissolver uma Assembleia do que demitir um presidente de Câmara. Por outro lado, e sem razão de importância hierárquica a nível da estrutura do Estado que minimamente o sustente, um presidente de Câmara é praticamente intocável. E isto é tão verdade como se prova pelo facto de, actualmente, fugitivos à Justiça e acusados em processos de corrupção, poderem concorrer a eleições autárquicas e exercer mandatos sem que haja, na lei, possibilidade legal de o impedir. Chaga-se ao ponto de fugirem à cadeia, para o estrangeiro, e continuaram a receber salários como se nada fosse. É uma vergonha e motivo risível para o cidadão comum que, com estes escândalos, deixa de acreditar na Justiça e convence-se de que a tal Justiça cega e dura, afinal, só se aplica aos pobres e àqueles que não se cobrem com a manta da política. As nossas autarquias são pequenos reinos, fechados, quase autónomos, onde a Lei penetra com dificuldade, e um campo excelente para que caciques e manobradores de opinião se instalem no Poder por tempo indefinido, o mesmo que é dizer: enquanto o queiram. Paralelamente, o que se passa dentro das autarquias é nebuloso, caseiro, e os mecanismos de controlo são ali tão apertados que dificilmente algo transpira para o exterior. Por exemplo: as nossas autarquias não são de boas contas, e apesar de existir uma lei limitadora dos níveis de endividamento, ninguém a cumpre. Pelo contrário, todos os anos se excedem os limites legais. Há Bancos que já são donos de autarquias. E apesar de ser constantemente defendido pela Associação de Municípios, a “inocência” dos actos financeiros autárquicos, a verdade é que as nossas autarquias estão a transformar-se em instituições ingovernáveis, sem orçamento que lhes baste, sequer, para pagamento das despesas correntes e juros das dívidas. Somando a isto planos de actividades aventureiros, irrealistas, mais a falta de contenção nas despesas, e temos as autarquias a endividarem-se gradualmente, cada vez mais, numa espiral sem término onde a única garantia dos credores é o Estado, ou um conceito de Estado que tudo protege e que vai garantindo algum crédito a Câmaras falidas.
Pouca gente, ou quase ninguém, se atreve a arbitrar o peso do endividamento autárquico no nosso défice monstruoso. Creio até que ninguém possui dados concretos sobre a real situação contabilística dos municípios. Porque se, algum dia, houver coragem política para fazer um levantamento a sério da situação e, concomitantemente, se criar legislação que estanque a sangria, os níveis de endividamento terão de ser, necessariamente, zero, e as autarquias atravessarão o deserto de muitos anos até que paguem as dívidas contraídas. A situação é grave, demasiado grave para que o Estado continue a ignorar este cancro da nossa Economia. A bem dizer, os fundos transferidos anualmente da Administração Central para as autarquias, estão a servir somente para encher os cofres dos Bancos credores que, com empréstimos muitas das vezes sem critério que não seja a tal pressuposta segurança de que falei, transformam estas operações financeiras em autênticas minas de ouro. Por outro lado, reparem no seguinte: um autarca nunca será responsabilizado por uma má gestão. Se sobre ele não pousar suspeita de fenómenos laterais de corrupção ou afins, poderá cometer as maiores asneiras financeiras, gerir mal, gastar o que não tem, pedir emprestado, voltar a pedir, colocar um município em situação de falência técnica, ou de falência real, que não lhe acontecerá nada. Pelo contrário, no final, sairá ainda novo com uma reforma avultada, deixando a autarquia nas ruas da amargura.
A actual Lei que Sócrates gerou, de restrição de regalias e de mandatos aos políticos, vista à luz da eficácia, é uma treta. Primeiro porque a sua aplicabilidade se esvai num tempo demasiado longo para que possa surtir efeito prático na actual conjuntura, segundo, porque está a permitir que “velhos autarcas” se mantenham no Poder, desbaratando o que resta, cientes de que, em 2009 já lá não estarão e quem vier atrás que feche a porta. É relativamente consensual entre especialista que, já em 2009, grande parte das nossas autarquias será ingovernável. E ingovernável no sentido em que estarão praticamente impedidas de fazerem investimentos, até de fazerem a manutenção das infra-estruturas que são da sua competência. O pagamento de salários e as despesas correntes de funcionamento, somadas com os encargos das dívidas, ultrapassarão a globalidade dos orçamentos municipais, e então, das duas uma, ou são subsidiadas directamente pelo Estado ou terão de aumentar impostos e taxas para valores disparatados. Isto porque se duvida que, nessa altura, os Bancos arrisquem mais operações de empréstimo. E sendo certo que o Estado tão cedo não estará em condições de lhes deitar a mão, o cenário apresenta-se negro. Com as perspectivas da criação de leis que aumentem a autonomia das autarquias quanto à criação de impostos próprios e a liberdade que usufruirão de fixar taxas a seu bel-prazer, será certo e sabido que os pobres dos munícipes terão de suportar com a carga das asneiras financeiras dos seus eleitos. Trata-se de uma solução para o problema visto pelo lado mais fácil e demagógico, isto é, o Governo isenta-se do papel de mau, fazendo recair o odioso da cobrança de impostos sobre as autarquias, e dão-se mecanismos a estas para que continuem a gastar à tripa forra. O sistema não funcionará, disso tenho a certeza. E lamento que, em vez de se criarem leis que obrigam as autarquias a uma gestão límpida e de acordo com os meios financeiros de que dispõem, – responsabilizando quem gere mal da mesma forma que, agora, se premeia a incompetência – , se prepare legislação lateral que ignore a realidade do problema e coloque nas mãos de quem não sabe gerir, ferramentas tão tentadoras como a de, por simples deliberação camarária, conseguir angariar da noite para o dia milhares de Euros à custa do bolso do cidadão. Neste caso, as autarquias serão cada vez mais Estados dentro do Estado. E num país pequeno como o nosso, é muito perigoso deixar à rédea solta 300 e muitos municípios, cada um puxando a brasa à sua sardinha, cada um fazendo as suas próprias leis.
E não julguem que estou a ser alarmista. Os números são como o algodão: não enganam. E na moderna economia, a previsão do futuro não é processo que possa trazer grandes surpresas. Por este andar, quem se candidatar às Câmaras em 2009, vai ter que ponderar muito bem o que vai fazer porque, o mais certo, é, caso as ganhe, vai assumir funções com intenções de cumprir um programa e, depois, vai deparar com uma situação de tal forma desastrosa que o impossibilite, sequer, de pregar um prego na sede do concelho por falta de dinheiro. Entretanto, e perante esta realidade que é do conhecimento de todos aqueles que detêm nas mãos o poder de ainda poderem alterar (ou pelo menos minimizar) os efeitos destas gestões desastrosas, deixa-se correr o marfim. É imperdoável que a geração de hoje prepare semelhante herança para a geração de amanhã. Irresponsabilidade e egoísmo, para não lhe chamar outra coisa.
E já agora, acrescento: é evidente que o aqui denuncio é muito comum na nossa região, no nosso Douro, ou não fossem os nossos “velhos autarcas” também filhos do sistema. Filhos, pais, e alguns, pelos anos que levam no Poder, avós.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(395)

ZONA INDUSTRIAL DO PÓPULO: A PROVA DOS NOVE

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Os municípios de Alijó, Murça e Sabrosa decidiram avançar para a criação de uma zona industrial conjunta, no alto do Pópulo, próximo do IP4. Para a levarem a efeito necessitam de vários apoios, desde o financeiro ao logístico.
Está na altura de pôr à prova o empenhamento e eficácia de personalidades oriundas da região, e que, habitualmente, enchem a boca com o credo do Douro. Agora, que desempenham funções de responsabilidade a nível elevado da hierarquia das instituições do Estado, vamos lá a ver que ajuda dão ao tal Douro a que dizem ter tanto amor, e se sabem fazer algo para contrariar a crise duriense que tanto criticam)

A ideia não é original mas é boa, e pode servir de exemplo para um certo ostracismo que se instalou nas autarquias durienses. Fechadas sobre os seus problemas próprios, os municípios da nossa região têm manifestado uma certa relutância em aderir a programas conjuntos e, apesar das oportunidades de o fazerem até terem sido generosas, o facto é que os nossos autarcas se remetem para posições de individualismo municipal, fechando cercas em volta dos seus concelhos, pulverizando a região de pequenos núcleos sem força, isolados e sempre carentes. E até tem havido legislação com fartura para promover o associativismo, desde as Associações de Municípios, passando por programas intermunicipais, até à recente criação das Áreas Metroplitanas e Comunidades Urbanas. Contudo, esta é a verdade: os autarcas durienses não conseguem ultrapassar a fronteira das reuniões obrigatórias, das declarações de circunstância, da fotografia para a posteridade, em suma, do politicamente correcto. Correcto mas ineficaz. Em certa medida, e vistas as coisas à luz de uma exigente imparcialidade, muito da responsabilidade pelo estado em que se encontra o nosso interior, passa pela falta de “rasgo” das nossas autarquias. Falta de decisão e falta de coragem para mudar o rramerrame de um quotidiano demasiado pejado de lamentações. Assim, quando aparecem iniciativas que contrariem este espírito letárgico quase institucionalizado, é de louvar. Tanto mais que a ideia colhe pela vontade de mudar algo que, no fundo, é a pedra de toque de todo o desenvolvimento do interior: a criação de postos de trabalho aliciantes que impeçam a sangria juvenil para o litoral e outras andanças europeias.
Na base desta intenção existe, também, uma metodologia que está a ser seguida pelas grandes empresas e que, neste início de século, tem constituído uma matriz da moderna economia: a fusão das empresas. Diz-se, e é bem verdade, que a união faz a força, e se as grandes industrias mundiais já perceberam que só unindo-se conseguem ser mais eficazes e produtivas, por que não aplicar esta regra às instituições do Estado? Muito provavelmente, um futuro mais próximo do que o que se julga, vai trazer-nos uma amplitude para este conceito que ultrapassará a mera unidade intermunicipal neste ou naquele projecto, passando-se a processos mais densos de colaboração e, quem sabe, a fusões autárquicas muito mais complexas e intrínsecas.
Mas deixemos este assunto para outras calendas e atinemos no que aqui me traz.
Como disse, esta ideia há muito que é aplicada por essa Europa fora, e traduz uma necessidade de potenciar certas sinergias para objectivos que, de outra forma, não seriam possíveis de atingir. Assim, a criação de uma zona industrial para servir 3 concelhos vizinhos, ainda para mais nas proximidades de uma importante via como é o IP4 (que se espera venha a ser integral e rapidamente uma auto-estrada), pode ajudar a resolver alguns grandes problemas e, caso seja bem sucedida, abrir portas para outras iniciativas do género – ou até de índole diferente. Contudo, a procissão ainda vai no adro. Porque isto de, em Portugal, se criar uma industria, já é uma cruzada das antigas, quanto mais criar uma zona industrial sem tostão no bolso. Isto porque julgo que é (se for mentira corrijam-me) a situação com que avançam as autarquias de Alijó, Murça e Sabrosa. Pelo menos, grande dinheiro não terão para custear o grosso das despesas. Daí a candidatura ao IV Quadro Comunitário de Apoio. E é aqui que as coisas se começam a complicar. Este tipo de candidatura, para além do apoio necessário a nível do Poder Central, precisa também de apoio logístico e de um esforço suplementar de influência, pois, como se sabe, a elaboração e aprovação de um projecto desta envergadura, reveste-se de uma complexidade (quanto a mim exagerada) técnica e burocrática difícil de ultrapassar, salvo se as entidades nela envolvidas se empenharem em ajudar e, acima de tudo, conseguirem estabelecer uma estratégia eficaz. Resumindo, requer-se não só apoio logístico, como poder de influência e poder de imposição do projecto ao mais alto nível dos interesses do Estado. Se o Governo não der uma mão (para não dizer as duas) muito provavelmente este sonho tripartido lá para as bandas do Pópulo, não passará disso mesmo: um sonho lindo e nada mais. E esta ajuda do Estado terá de se manifestar nos dois sentidos, ou seja: o empenhamento das instituições regionais para levarem o assunto até lá cima, e, de lá de cima, o encaminhamento necessário até ao topo (União Europeia).
Quanto a este pormenor, a cumplicidade parece estar garantida, isto porque, actualmente, as instituições, quer regionais, quer a nível médio, quer a nível superior da estrutura do Estado, estão a ser conduzidas por muita gente de cá, e que não é de todo indiferente ao processo visto que, amiudadamente, se têm manifestado sobre matérias durienses, e, nalguns casos, até protagonizado situações de reivindicação premente sobre as carências do Douro. Assim sendo, parece-nos lógico que o tal apoio e empenhamento não faltará. Mesmo assim, esperamos para ver. É que, nestas coisas da política, nem sempre o que parece é, e nem sempre quem mais protesta o faz por questões de idealismo. Sem querer com isto ofender ninguém nem personalizar, o certo é que já nos vamos habituando a que certas iniciativas que se nos apresentam com elevados níveis de amor à terra, mais não sejam do que pretextos para se adquirirem protagonismos que guindem os autores a cargos refastelados na teta pública. E porque também já estamos velhos de presenciar governantes nascidos e criados aqui mesmo, nestas entranhas transmontanas, que, mal chegados ao poleiro de Lisboa, se esquecem do torrão que os viu nascer e logo se assumem como cosmopolitas avessos às tragédias aldeãs. É um milagre, um fenómeno da mudança de ares, esta faceta caricata e bizarra destes personagens que, da noite para o dia, esquecem a sua sã cultura rural em favor das poluídas modas metropolitanas. E também os outros, que continuando ligados às suas regiões de origem, nela se apoiam somente quando precisam dela, ou para o voto da ordem, ou para angariarem matéria eloquente, mas inofensiva, que lhes aporte alguns momentos de glória televisiva.
Mexido este veneno, concluamos.
Esta pretensão de três municípios transmontanos, está, de facto, a ser levado a sério por eles. A prova está no acerto que já fizeram nos seus Planos Directores Municipais, já de forma a adaptá-los à situação descrita, e a precaverem-se de percalços futuros de natureza burocrática, exactamente motivados pela tal falta das necessárias aprovações e restante tralha administrativa camarária. É que nisto do “encrava”, os meus leitores nem imaginam o que o Estado inventa para derrubar as boas ideias. Por isso, e porque homem prevenido é outra loiça, a nível municipal não haverá ponta de engano por onde a burocracia lusa lhe pegue.
Concluindo, finalmente:
o trabalho de casa de Alijó, Murça e Sabrosa, está já feito e bem feito. Falta agora esperar a entrada em cena dos restantes protagonistas. É a provas dos nove. Quer das aspirações de uma parcela do Douro, quer da competência e empenhamento dos tais que trazem o credo do Douro sempre na boca.
Vamos lá a ver se, afinal, o discurso reivindicativo de ontem é (agora que quem manda são os reivindicadores) o mesmo do de hoje.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(396)

O REGRESSO DO LÁPIS AZUL

por Francisco Gouveia, Engº

(A classe política anda assustada com a imprensa e com a forma como esta tem denunciado casos graves de corrupção que a envolvem. Vai daí, resolveu cortar o mal pela raiz: numa estranha confluência de posições, a Assembleia da República legislou, depositando numa tal Entidade Reguladora para a Comunicação Social a tarefa de “regular” as inflexões jornalísticas no mundo obscuro das negociatas.
Lendo o texto da Lei em causa, não vejo que outra interpretação possa haver para esta real limitação da liberdade.
Nunca pensei que, em 2006, isto pudesse vir a acontecer em Portugal)

Portugal está afogado num mar de corrupção com profundas penetrações na actividade política. Desde o topo dos ministérios até à pequena unidade autárquica, as relações promíscuas entre interesses privados e públicos estão a minar o país. O caso não é de agora, pois leia-se Eça, Ortigão, Camilo, e não é preciso ir mais longe para percebermos que a intriga corruptora é mal que nos rói há séculos. Contudo, noutros tempos de antanho, em que o acesso à leitura era sorte só de alguns e a coragem da denúncia, de muito poucos, roubava-se e desfalcava-se no santo descanso das Repartições invioláveis. A bem dizer, as iniciativas policiais que tivessem por finalidade combater o assalto ao erário público, o tráfico de influências e a candonga de favores, eram quase nulas. A polícia era como um marido enganado: era o último a saber, quando sabia. E se a polícia não sabia, quem sabia? A grande revolução no combate à fraude e ao crime por corrupção, começou quando os meios de comunicação adquiriram mecanismos e ferramentas céleres e eficazes, e profissionais com outra capacidade e outra maneira de ver o jornalismo. A primeira grande machadada no sistema aconteceu com o caso Watergate, (lembram-se?) em que dois simples jornalistas, depois de investigação apurada, reuniram factos que levaram à queda do senhor do mundo: um presidente dos USA. Estava iniciado o jornalismo de investigação, especialmente vocacionado para casos de corrupção envolvendo políticos e as altas esferas do poder económico. Daí para cá, foi um ver se te havias de casos, notícias, crimes denunciados, o topo do Poder a tremer quando um jornalista furão se metia na imundice da lixeira dos negócios suspeitos. Acelerando a História e reportando-nos ao caso português, verifica-se que os grandes casos, envolvendo figuras públicas de topo, se devem à denúncia de imprensa. Veja-se a Moderna, a Casa Pia, o Apito Dourado, o Isaltino, a Felgueiras, mais os casos de ministros, secretários de Estado, autarcas e altos funcionários com os seus rabitos de palha, etc., etc. Estamos a viver tempo onde a actividade policial, se séria, já não dispensa as muletas de uma imprensa livre e denunciadora e, muitas das vezes a fazer o trabalho inicial (o mais difícil) que depois permite aos investigadores judiciais prosseguirem. Mas esta actividade jornalística tem um reverso na medalha das boas intenções: o incómodo que provoca nos criminosos, especialmente nos criminosos de punhos de renda. E hoje em dia é raro encontrarem-se corruptores de punhos de renda que não tenham as suas ligações políticas (leia-se: políticos). A imprensa é, também, muito incómoda para a classe política. E sejamos claros: se não houvesse tanto político corrupto, a corrupção não teria campo para alastrar. E a questão é tão simples como isto: ora vejam lá se nas escandaleiras que aparecem todos os dias escarrapachadas nos jornais, não entra, quase sempre, um político? Não quero eu com isto dizer que a classe política é toda corrupta, mas que há uma grande parte dela que anda a estragar a classe, lá isso anda!
Resumindo: hoje, mais do que ontem, e amanhã com certeza, mais do que hoje, a imprensa está a transformar a corrupção em material jornalístico vendável, e a fazer sérias mossas quando decide entrar a matar numa investigação.
O último caso mais falado foi, como sabem, o caso da denúncia das escutas telefónicas e a irritação justificada do senhor Presidente da República. Foi o rebentar de um balão que já não tinha mais por onde esticar. Ou seja: o jornalismo era capaz de entrar onde a própria polícia não conseguia sequer chegar. O receio logo se instalou nas hostes comprometidas de muitos cantos do Estado onde, na camuflagem de cargos insuspeitos e aparentemente imaculados, saíam vozes em sussurro “aqui d’el rei” que os nossos arranjinhos vão a pique, nós na cadeia e a nossa reputação às malvas. Havia que agir, dar exemplo, devanear para confundir, fazer regressar o medo à cambada jornalista que assim afrontava o Poder. Vai daí, entra-se na Redacção do jornal denunciante, de artilharia em riste e com meirinhos à ameaça, rapam-se computadores e outros instrumentos maléficos destes tempos do diabo!
Estava dado o aviso: cuidadinho, muito cuidadinho com o que escrevem, com o que investigam, com o que publicam. Entretanto, do inquérito sobre as tais escutas denunciadas, sabe-se que o processo desceu do quarto para o terceiro andar. Num mês! Entretanto ainda, aquele que havia (e muito bem) exigido um esclarecimento sobre o assunto a quem de direito, remete-se para um silêncio incompreensível e assiste impávido às consequências do tal inquérito que encomendou. Trata-se do Senhor Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, que, segundo se sabe, também nos seus tempos de estudante (e não só), andou em bolandas com a polícia exactamente por motivos semelhantes: prepotência política, abuso da violência policial, luta pela democracia. Ninguém, por via disso, lhe pode dar lições de liberdade. Mas exigia-se, a quem tem um passado desta índole, uma intervenção de acordo com os pergaminhos devidos a um lutador pela democracia que, indiscutivelmente, foi e é. Tem a desculpa da saída eminente, mas isso não me basta. Devia deixar a casa arrumada para quem o vai substituir. E maior desarrumação do que esta, que envolve poder judicial, imprensa, inquéritos na prateleira e assaltos “oficiais” a Redacções de jornais, dificilmente se encontra. Para começar, o Presidente Cavaco Silva, vai ter um osso duro pela frente.
Mas concluamos, que a conversa já vai longa, azeda, e ainda digo o que não devo. Como se esta avalanche de “medidas” não bastasse, eis que Sócrates, ciente de que só com mimos aos políticos se conseguirá manter no Poder, depois de os acalmar com a manutenção de regalias, depois de lhes garantir as mordomias, depois de arregimentar para a gamela pública centenas de camaradas, amigos, afilhados e conhecidos, decide avançar para a criação de um Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tornando assim defunta uma tal Alta Autoridade para a mesma Comunicação Social, a bem da verdade inofensiva e preguiçosa, e por isso mesmo inútil (no entender dele). E esta Entidade cai no meio da imprensa com poderes policiais que nem lembram ao mais atrevido censor, com autonomia de treta (ou não fossem os seus membros principescamente pagos por quem os nomeou), e com cara de anjo, ou seja: vieram para regular o que estava em balbúrdia. Porque, para o Poder, o poder dos média é a balbúrdia, o desrespeito, um assalto aos bons usos e costumes, a promiscuidade, a traição à Pátria. Há então que discipliná-la, metê-la nos eixos, domesticá-la, enfim. Mas esta Entidade, vai regular, o quê? E vai regular, como?
Dei-me à pachorra de ler a legislação que a cria (Lei 53/2005 de 8 de Novembro), e confesso que fiquei assustado. Há lá pano para mangas para se fazer gato e sapato de um jornal, de um jornalista, do que se quiser. A partir de agora, vamos ser regulados, meus senhores companheiros de escrita. E não tenhamos dúvidas de que, num fósforo, teremos a dita “regulação” a cair, também, sobre a pobre imprensa regional que, sem grandes meios para pagar sequer o papel com que se edita, muito penará para arranjar advogados beneméritos que a queiram defender de borla, em casos entendidos pelos tais senhores como desregulados.
É o regresso ao lápis azul da Censura Prévia, agora Censura Pós. E já os vejo, de boquilha francesa, ajeitando a lapela de astracã das casacas de tweed, ostentando Rolexs nos pulsos ornados por botões de madrepérola, cabelos lustrosos do gel, perfumes da Boss aromatizando a passagem, assim uma mistura de gentlemans da Higt-Life de Eça com executivos da Hall Street deste milénio, à saída de um qualquer bar da moda, rosnando:
– Quem vamos azucrinar hoje? Os gajos do 24 horas, a comandita do Expresso ou os estupores do Notícias do Douro?
Com as devidas distâncias aos vespertinos nacionais, mas apesar de escribas regionais deste bairro duriense, também temos a nossa vaidade. E até ficamos deprimidos se a tal Entidade Reguladora não se meter com este modesto arauto de província. Venha de lá esse lápis azul, que também somos gente!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(397)

HÁ SÉRIAS CULPAS LOCAIS NO DEFINHAMENTO DO INTERIOR

por Francisco Gouveia, Eng.º

(É fácil atirarmos as responsabilidades totais pela situação do interior do país, aos Governos de Lisboa. Contudo, muito do que poderia ter sido feito no Douro e pela mão de responsáveis do Douro, ficou a ganhar bolor nas arrecadações do comodismo ou nas gavetas do esquecimento conveniente. E nem os autarcas durienses, nem os responsáveis regionais, se podem queixar de falta de meios legais. Demitiram-se das suas responsabilidades, foi o que foi, e o resultado agora aí está, cruel e nu: vão-nos retirar o pouco que temos. O interior está a definhar, vítima de desleixos a que os governantes locais não são indiferentes)

O assunto anda a ser comentado em tudo quanto é órgão de comunicação social como sendo o “fim das aldeias”. Trata-se, como já devem ter percebido, das medidas ditas de redimensionamento de várias estruturas do interior e que obrigarão ao encerramento de escolas, maternidades, centros de saúde, e, de uma maneira geral, muitos serviços públicos no interior do país. Como é óbvio, e porque quando toca à desgraça do interior aparecem por cá jornalistas a dar c’um pau, auscultam-se as populações locais que, entre nostalgia e muita angústia, manifestam as suas sérias apreensões, certos da reviravolta que o seu dia-a-dia vai levar, e, quase em pânico, questionam-se sobre como resolver questões tão comezinhas como a ida a um médico ou o mandar um filho à escola. O certo é que a situação parece irreversível, e apesar de eu julgar que anda o carro à frente dos bois, isto é, que está a pensar-se encerrar tudo e mais alguma coisa sem que antes se tenha providenciado para que as estruturas existentes garantam os serviços até agora prestados, a coisa é para avançar. Na base de toda esta tragédia está, como estamos já velhos de saber, a falta de uma estratégia de qualificação de vilas e cidades de média dimensão do País, e à inexistência de políticas de fixação de parte da população rural interessada, à semelhança do que fizeram os tais países que hoje cobiçamos e que queremos imitar, mas sem termos coragem para dar os passos para tal. O diagnóstico está feito há muito e, para nosso mal, julgo que o tempo correcto de o fazer já passou. Agora, só remendos em fato velho. E tem sido fácil apontar dedos acusadores aos tais de Lisboa que, sentados no pedestal da Capital, se estão marimbando para o que se passa no resto do país. E nesta comodidade de se atirar para longe a responsabilidade do caos, vamos vivendo com a consciência tranquila tentando convencer-nos que a culpa é dos outros. Andam neste limbo existencial, autarcas, responsáveis regionais, teóricos locais e a intelectualidade cá do bairro. Contudo, se analisarmos desapaixonadamente o problema, verificaremos algumas curiosidades interessantes, como esta: muitos ministros e secretários de Estado são de cá, e até temos (que me lembre) dois primeiros-ministros (um de Valpaços, Durão; e outro, salvo erro, da Covilhã, o actual Sócrates). Já para não falar daqueles que nos representaram como deputados, outros que exercem altos cargos de Estado. Todos eles têm conhecimento de como tem andado o interior. Contudo, não sei que estranha moléstia os infecta por que, mal chegados a Lisboa e depois de palparem o cadeirão de mandantes, esquecem-se de onde vieram e uma absoluta amnésia apaga-lhes da memória o rol de necessidades das terras que os viram nascer. Mas ainda mais grave do que a situação destes filhos ingratos, é o caso dos nossos autarcas que parecem enclausurar-se nas tocas dos seus municípios, e de lá só deitarem a cabeça de fora para ver se chove ou faz sol. Há que reconhecer e protestar contra a manifesta incapacidade da classe autárquica duriense (e do interior em geral) para defender direitos gerais da sua região e para, sequer, utilizarem os mecanismos que a lei lhes confere para assumirem a garantia da continuidade do interior como terras de Portugal. Como se sabe, a nossa classe autárquica local é, na sua maioria, tecnicamente muito limitada e politicamente muito incompetente, já para não falar do seu nível cultural que, esse, é de bradar aos céus. E quando falo em cultura, não falo da livresca, académica ou intelectual, mas sim da tal abertura cultural que dá asas ao entendimento do mundo e da forma como se integra este canto duriense no mapa nacional e mundial. E a prova desse “desenquadramento” (e chamo-lhe assim porque a palavra é simpática, de origem gramatical duvidosa e impeditiva de que se use coisa mais agressiva) está na forma como têm consciência da importância do Douro e das suas potencialidades, e a maneira como o têm deixado resvalar de crise em crise, molhando-o somente com o caudal das lágrimas que, habitualmente derramam sobre o seu corpo doente – quer carpindo o destino de interiorizados a quem ninguém ouve, quer arrumando a responsabilidade da questão para os “coveiros” de Lisboa. Contudo (e não me farto de o dizer), mesmo com mecanismos legais à mão de semear (que sempre estiveram ao dispor), foram, são e muito provavelmente, serão, incapazes de se servirem deles e de os colocar ao serviço de objectivos mais latos que as capelinhas das suas autarquias. Em termos muito directos, apetece-me dizer que, talvez, o mal advém do facto de não haver há muito no Douro, um político regional que marque o compasso, que se imponha pela diferença, que assuma a polémica como um meio de despoletar indiferenças e que não tenha medo de afrontar com severidade o tal “poder Lisboeta” de que tanto se queixam. E não é preciso ir muito longe nem sequer sair do país para se verificar o estado razoável de desenvolvimento de certas regiões e verificar quem as comanda. Uma coisa é certa, – e sem que com isto defenda que um líder regional tenha que ser deseducado, violento e prepotente (longe disso), – precisava-se de alguém (já não peço tanto, mas pelo menos um) que desse a cara pela região. Isto é, já que os nossos governantes regionais recusam a unidade e parece não estarem nada interessados em grandes revoluções (porque quanto menos lhes mexerem nas tais capelas, melhor), então que apareça alguém que assuma o comando. E nisto de comandar a região até não é nada difícil se percebermos que, nesta ânsia de não fazerem muito barulho, os nossos autarcas o seguirão sem grandes objecções. Mas é claro que eu sei o que estou a pedir é de mais porque, mesmo revolvendo o inventário dos possíveis disponíveis, não estou a ver quem sacrifique uma vida cómoda, quem arrisque uma carreira, quem tenha coragem para desencadear as guerras que depois terá de aguentar, em nome do Douro. Nesta fase do campeonato duriense, os muitos umbigos proeminentes já pesam mais que a vontade de mudar. Por outro lado, esta coisa de se consentir que haja dirigentes que se mantenham no poder por uma eternidade, está a transformar a actividade governativa local num exército de reumáticos intelectuais, sem outra ambição que não seja deixar correr o marfim até ao eldorado da reforma, à sombra de uma bananeira, com o dinheirinho a pingar, graúdo, todos os meses (e em dois a dobrar), e com juventude ainda de feição ao gozo dos prazeres do ócio. Não há volta a dar-lhe: as coisas são como são e, como sempre acontece, quem se lixa é o mexilhão – neste caso, o Douro que, segundo sei, não tem deste molusco no rio mas tem muitas lapas que ainda julgam que daquelas tocas ediliendas vai sair algum coelho.
Mas deixemos para trás este descarregar de fel na realidade inapelável, e voltemos ao caminho que aqui me trouxe. Dizia eu que é fácil culparmos quem está longe, da tragédia que se vem abatendo sobre o interior e que vai brevemente culminar com eliminação de muitos serviços locais, quando, na verdade, muito do que era possível fazer sempre esteve nas mãos dos nossos autarcas e demais responsáveis regionais. Não o fizeram nas alturas devidas – tiveram várias oportunidades – e agora limitam-se a fazer coro com as populações revoltosas. Mas sem convicção, como já é habitual. Creio que, no futuro, (ainda não sei se longínquo ou se próximo), algo tem que mudar, nomeadamente o nosso quadro de competências autárquicas e o nível de exigência regional. Se não for alterado para bem melhor, podemos aguardar de vez o toque de finados do país. Este Portugal já não aguenta com tanta incompetência e com tanta falta de visão estratégica. E a questão é simples: ou mudamos ou arriscamo-nos a ser absorvidos pela grande máquina económica mundial que, para já, tem nos espanhóis os principais interessados em, no mais curto espaço de tempo e de uma forma pacífica e até aceite pelos portugueses, tomarem conta do que eles pensam ser a parte da Península que lhes falta no mapa. E, sobre esta questão das competências autárquicas, seria bom que o ministro Sócrates, que ainda recentemente visitou a Finlândia e de lá veio com a boca aberta alegando que ali é que era e que o nosso modelo devia ser o modelo finlandês, atinasse com o que por lá se faz nesta matéria, e comparasse com o que por cá se vai fazendo. Uma simples e superficial comparação dará para entender as diferenças, tantas e, principalmente, tão profundas nos princípios que eu duvido que, com este nível de autarcas, conseguisse-mos sequer, dar o primeiro passo.
Mas tenho pena. Não por mim, mas pelas futuras gerações, a quem vamos deixar o pesado fardo de um país na ruína e, no que nos toca nesta canto lusitano, um Douro que teve e tem pernas para andar, que tem mecanismos para se sustentar e que se deixou envolver na avalanche desertificadora e sub desenvolvimentista que varre o interior.
A verdade é dura mas tem que ser dita. A minha verdade, entenda-se. E desculpem lá os senhores autarcas por estar a metê-los todos no mesmo cesto, injustiça que reconheço mas que não me permite separar a “minoria dos aproveitáveis”, do grosso dos “acomodados”. Mas a culpa será vossa e não minha. Afinal, quem tem o poder são os senhores, e eu, somente uma caneta na mão.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(398)

O “MILAGRE” FINLANDÊS E A BOCA ABERTA DE SÓCRATES

por Francisco Gouveia, Eng.º

(O “modelo português”, se algum dia o tivermos, terá que ser nosso e não deverá ser copiado de nenhum país. Mas tão importante como o modelo, é a coragem para o implementar. E a implementação depende da mobilização de todos os cidadãos. E é este o problema de Sócrates: não consegue mobilizar. Porque a aceitação da mobilização obriga à abolição das excepções. E o que Sócrates faz todos os dias é criá-las, mimando amigos e correligionários ao mesmo tempo que pede sacrifícios brutais aos portugueses.
Por isso ninguém acredita, ninguém lhe responde, ninguém se mobiliza.
E já que vieram da Finlândia de boca aberta, era bom que se esclarecesse o que de facto lá se passou.
Só para sabermos do que estamos a falar.)

Não é difícil a um português abrir a boca de espanto perante alguns exemplos de desenvolvimento vindos de países que, ainda há duas ou três décadas, andavam atrás de nós. Abrimos a boca aos irlandeses, aos espanhóis e, muito recentemente, viemos da Finlândia mais espantados que um jornaleiro frente ao impresso do IRS. O espanto habitual que estas visitas provocam, demonstram não só o nosso provincianismo perante o mundo de hoje, mas também é a prova de que, por muito que olhemos, continuamos sem ver nada. Os bons exemplos são para se apreciarem, estudarem e entenderem. Não com vista a elaborar um modelo que nos guie, mas com a intenção de perceber como se chega lá.
Por falar em modelos, seria bom que entendêssemos de vez que não há modelos a copiar. Cada país tem de encontrar o seu próprio modelo. E o nosso modelo tem a ver com a nossa índole, com o grau de disciplina social compatível com a nossa noção de liberdade, com os atributos que nos distinguem, com os defeitos que possuímos, com a nossa cultura, a nossa História, o nosso papel em cada Continente, o nosso lugar no mundo. Com todas estas e outras premissas se há-de conseguir estabelecer o tal “modelo português” por que ambicionamos. Mas já que, ultimamente, tanto se tem falado no modelo finlandês e da visita que Sócrates e o seu séquito lá fizeram, aqui ficam algumas achegas para que se entenda o lado de cá do modelo, ou seja: o que foi preciso fazer para o atingir. Porque é aqui que está o cerne da questão: como fazer? Como chegar lá?
A Finlândia é um país recente, com menos de cem anos, encaixado entre a Rússia e o Báltico, com a Suécia, país a que pertenceram, logo ali à frente. É um país nórdico, frio, polar. Com pouco mais de 4 milhões de habitantes era, até há 20 anos atrás, um país subdesenvolvido, com uma agricultura precária de subsistência, uma indústria artesanal, níveis de escolaridade baixos e grande analfabetismo. Se somarmos a isto um clima agreste, o facto de em grande parte do ano não haver diferenciação entre o dia e a noite, e noutra parte os dias (entendidos como de iluminação natural solar) serem curtos, podemos verificar que possuía todas as condições para que nenhum plano ou modelo lá pudesse vingar. Mas tal não aconteceu. E porquê? Porque os finlandeses tiveram duas virtudes tão simples como estas: souberam escolher o “seu” modelo, e souberam estabelecer o caminho para lá chegar. Logo à partida, consciencializaram-se de que a tarefa era comum, de todos, entendendo-se “de todos” como envolvendo toda a sociedade e todos os indivíduos. Ao aceitarem que seriam precisos cerca de 20 anos para darem a volta à sua situação, aceitaram que haveria uma geração de sacrifício. Uma geração de sacrifício, saliento, na sua globalidade, englobando integralmente todos os cidadãos. Assim, foi preciso um pacto social muito severo, rígido, sem estabelecimento de excepções, com obrigações universais, restrições universais, deveres universais. A excepção foi, por assim dizer, riscada do dicionário finlandês. E durante esses vinte anos viram-se políticos a receberem salários sociais e a abdicarem de quaisquer regalias, viram-se altos dirigentes a deslocarem-se de bicicleta para o seu trabalho, altos magistrados a lavrarem autos nas costas de papel usado, professores a darem 16 horas de aulas por dia e a receberem por seis, engenheiros a trabalharem sem horário, médicos a exercerem noite e dia, operários a suarem nos andaimes por um salário mínimo, e, acima de tudo e em todos os graus do Estado, níveis de exigência elevadíssimos a troco de salários ridículos (os que o Estado podia pagar). Os finlandeses, durante 20 anos, comeram o pão que o diabo amassou para atingirem a meta a que se propuseram. Mas foram todos os finlandeses, sem excepção, sem reticências, sem se consentir que esta ou aquela classe, corporação, associação, grupo de interesses ou a mera individualidade, ficasse ao largo dos sacrifícios que se pediam.
Qual compadrio! Qual reforma aos 40 ou 50 anos! Quais amigalhaços nomeados para ordenados de escândalo! Quais nomeações só com cartão do Partido! Quais benevolências com a corrupção! Quais dinheiros gastos em TGVs, OTAs, rotundas ridículas ou passeios de velhinhos no rio! Nada! Ali, não houve quem puxasse a carroça enquanto outros iam sentados nela! Tudo puxou, minha gente! E mesmo aqueles que eram muito ricos e que, como tal, poderiam evitar alguns cansaços, de uma forma ou de outra tiveram que contribuir. Em trabalho ou em dinheiro! E o facto é que, ainda hoje, este país goza de um notável regime fiscal, herdado desse tempo, onde todo o cidadão está devidamente registado como contribuinte e paga os seus impostos. Não há um único cidadão finlandês que esteja isento de o fazer, mesmo aqueles que recebem subsídios do Estado ou que são integralmente financiados por ele, como é o caso do “rendimento mínimo”, que por lá também existe com outro nome. Ou seja, na Finlândia ninguém pode isentar-se de, anualmente, dar contas ao Estado do que tem e do que ganhou. E a título de exemplo, é bom saber-se que a taxa mais elevada de IRS na Finlândia (para os grandes rendimentos) chega a atingir os 70%! E eu não sei se é bem isto que portugueses querem quando abrem a boca com os exemplos de sucesso vindos de fora.
É assim, nestes dois grandes bicos-de-obra, que assenta a nossa incapacidade de atingir qualquer modelo: primeiro, o querer levantar-se o país somente à custa de algun; segundo, não haver coragem para encarar o sistema fiscal como a primeira obrigação de um cidadão. E por muitos sapatos que o senhor primeiro-ministro tente arranjar para encaixar no nosso pé, sem conseguir mobilizar e sem conseguir estabelecer Justiça neste país, pode dar as voltas que quiser que não vai conseguir a tal unidade de acção necessária para que, durante vinte ou mais anos, o país se possa erguer. E não julguem que estou a ser pessimista. Tenho a convicção que Portugal nunca conseguirá sair da lamúria da crise permanente. Poderá, eventualmente, passar por melhores dias quando a conjuntura mundial for favorável, mas nunca terá estruturas capazes para se salvaguardar das oscilações que a economia e a política mundial provocam. Sócrates já demonstrou que é incapaz de sacudir a clientela habitual do erário público, que não consegue impor à própria classe política a necessidade do exemplo, que não é capaz de dominar os interesses corporativos que serpenteiam à volta do Estado, que é impotente para conter a avidez de grupos e a ganância de lobies. Sócrates exige sacrifícios aos que sempre se sacrificaram. Este é que é o problema. Até acredito que tenha boas intenções e bons projectos, mas não consegue mobilizar os portugueses. E não consegue mobilizar porque descrimina, porque exige sacrifícios aos cidadãos ao mesmo tempo que mima com mordomias amigos e correligionários. Assim, os portugueses não acreditam, perdem a fé, desconfiam, não se mobilizam.
E depois vem o outro bico-de-obra: a incapacidade para meter incumpridores fiscais na ordem. Afinal, de que é que está à espera? De que é que tem medo? Não tem a maioria na Assembleia? Por que não legisla em conformidade? Por que não acaba de vez com a escandaleira da evasão fiscal? Porque não legisla de forma a estabelecer de alto a baixo da estrutura penal do Estado, o pagamento de impostos como primeiro dever do cidadão?
Muito se tem feito – dirão, e sei que sim, mas esse muito não é bastante. O muito só é satisfatório quando é suficiente. Não é o caso.
E é por estas que Portugal se vai perdendo na ilusão de que, algum dia, poderá atingir o tal modelo que ambiciona. Deixar-se-á embalar por um bom resultado no Mundial de Futebol, porá bandeiras nas janelas, chorará a cantar o hino, embriagar-se-á a comemorar uma vitória, e, por momentos, sentir-se-á como uma Nação próspera. Mas, no dia seguinte, aguentará com a ressaca e voltará ao mesmo penar lamuriento.
E enquanto aqueles que nos dirigem (os que cá estão e os que virão) não perceberem que, sem justiça e sem mobilização integral do país nada se conseguirá, continuaremos a sonhar com o tal país desenvolvido e socialmente avançado, que só existe no canto de sereia dos discursos políticos para português ver.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(399)

Nome: José Manuel Pesqueira Duriense
Data de Nascimento: 12 de Março de 2008
Naturalidade: Ambulância dos Bombeiros, matrícula 54-75-LS

por Francisco Gouveia, Eng.º

No dia 25 de Março do ano de 2008, Jaquim Duriense dirigiu-se à Conservatória do Registo Civil da Pesqueira a fim de registar o seu filho que tinha nascido dias antes. Lá chegado, e depois de responder às perguntas da praxe, foi a vez de dar os elementos do nascituro. E eis aqui reproduzido o bizarro diálogo entre o funcionário da Repartição e o Jaquim.

Funcionário: Então como se vai chamar a criança?
Jaquim: José Manuel Pesqueira Duriense. Pesqueira da parte da mãe e Duriense da parte do pai.
Funcionário: Isso já eu percebi. E nasceu, quando?
Jaquim: no dia 12 de Março deste ano.
Funcionário: 2008, portanto. E aonde?
Jaquim: Ora bem, agora é que preciso pensar.
Funcionário: Pensar, homem? Então você não sabe onde nasceu o seu filho?
Jaquim: Quer-se dizer…a minha Micas começou c’o as dores ainda estava na Várzea. Depois, chamei a ambulância de S. João…
Funcionário: Do Hospital de S. João? Do Porto?
Jaquim: Não senhor! De S. João da Pesqueira!
Funcionário: Ah! Já percebi! Adiante.
Jaquim: Então…meteram-na lá dentro, a mim também, e…ora deixe lá ver… ali por volta de Ervedosa a dores aumentaram, depois, ali por volta da Folgosa a coisa complicou-se…
Funcionário: Em Ervedosa? Então não viraram no Pinhão?
Jaquim: Não. A ponte estava a compor.
Funcionário: Ainda? Desde 2006?
Jaquim: Sim senhor.
Funcionário: Está bem. Continue.
Jaquim: Ora, ao passar na Régua, na ponte, soltaram-se-lhe as águas…depois, deixe lá ver…depois, ainda andamos um bom bocado…e depois foi o caraças…a minha Micas não aguentou e, pronto, foi mesmo ali.
Funcionário: Ali, onde?
Jaquim: Na ambulância, onde havia de ser?
Funcionário: Já percebi. Nasceu em andamento (rindo).
Jaquim: Pois foi. Mas deixe lá ver…assim com certeza para dizer onde nasceu, é complicado. Olhe, foi entre Penaguião e a entrada de Vila Real. Disso estou certo.
Funcionário: O meu amigo, isso é muito vago. Puxe lá pela memória e veja se se recorda: quando a criança nasceu, a ambulância estava a passar por que sítio? Teria sido pela Ermida, S. Martinho, Nogueira…
Jaquim: Olhe que não sei. A aflição era tanta…
Funcionário: Então que lhe hei-de fazer se não sabe?…Bom: o melhor é pôr-se aqui no registo que nasceu na Ambulância dos Bombeiros da Pesqueira…Sabe a matrícula?
Jaquim: Homessa! Isso pode lá ser!? Então tem algum jeito que nos documentos venha lá escarrapachado que o meu Zé Manel é natural da Ambulância dos Bombeiros…não!? Então o meu rapaz nasceu num sítio que não está parado? E quando lhe perguntarem a naturalidade, que há-de responder? Olhe, nasci na 54-75-LS? E daqui a alguns anos, quando a ambulância for para a sucata? Olhe, sou natural da sucata? Isso não tem cabimento!
Funcionário: Não terá, mas tem que ser assim. Se você não se lembra onde ia a passar a ambulância quando o seu Zé Manel nasceu…

E assim será. José Manuel Pesqueira Duriense, que poderia muito bem nascer na Maternidade de Lamego, nascerá numa ambulância. Ele e muitos outros. Nascerão onde calhar, a maioria nas ambulâncias a caminho da Maternidade de Vila Real ou de Viseu, a horas de viagem; ou em casa, ao calha, com o esforço das mães e a parca sabedoria da parteira da aldeia. Será o regresso a um passado de triste memória, passado de nascimentos assistidos ao deus-dará e responsável pelos casos de atraso mental, paralisias e outras moléstias que hoje se sabe serem adquiridas no parto. Grande parte das doenças gravíssimas do foro neurológico, devem-se a percalços no acto do nascimento.
Por estas e por outras, não acredito na lógica (pretensamente científica) do encerramento de cerca de metade das maternidades do país. Do que ouço diariamente dos responsáveis clínicos destas unidades, retiro esta escandalosa conclusão: os motivos são economicistas e não técnicos. Contudo, ainda ninguém se pronunciou quanto às consequências médicas (já não digo sociais) desta medida. Porque há consequências médicas graves, lesivas da segurança de um parto. Eu até posso entender o encerramento de escolas, tribunais, e muitos serviços de índole administrativa. Já não compreendo como pode o mesmo princípio que rege estes encerramentos, ser aplicado às Maternidades. É não só um atentado contra a saúde pública, mas também uma séria violação do direito das mulheres. Porque, no fundo, são elas as primeiras vítimas do facto de não possuírem condições mínimas (sublinho com relevância: mínimas) para puderem dar à luz os seus filhos. E podem ter a certeza de que serão as ambulâncias as maternidades ambulantes do interior. Com meios limitados, sem pessoal tecnicamente habilitado, sem um médico sequer, em corrida sobre estradas esburacadas, os nascimentos serão uma aventura sem nada de romantismo mas muito de dramático. Já hoje assim é, mesmo com as Maternidades existentes. Imagino (e arrepio-me) como será no futuro. Acabar com as Maternidades do interior é um crime. Um crime na acepção real da palavra, sem desculpas políticas e sem atenuantes de orçamento. Um crime premeditado, fruto da irresponsabilidade, da falta de sensibilidade de quem manda.
Só espero que quem de direito, nomeadamente as forças locais e regionais, tenham consciência da responsabilidade que lhes cabe na luta sem tréguas que têm que encetar contra semelhante atentado.
No fundo, só se espera que estejam à altura dos cargos que desempenham. Só isso, e nada mais.
Termino com esta ressalva: a ficção que aqui narrei, contra o que se possa pensar, não é uma estória de humor. Longe disso. É, se o quiserem, uma tragicomédia – muito mais “tragi” que comédia.

gouveiafrancisco@hotmail.com

nota: juntamente com o texto da crónica, gostaria que, em destaque, fossem colocadas as seguintes frases:

O encerramento das Maternidades não é só um atentado contra a saúde pública, mas também uma grave violação dos direitos das mulheres

As ambulâncias serão as futuras maternidades do interior

Casos de atraso mental, paralisias e outras doenças do foro neurológico – sabe-se hoje – são provocados por incidentes nos partos

Espera-se que as forças locais e regionais, tenham consciência da responsabilidade que lhes cabe na luta sem tréguas que têm que encetar contra semelhante atentado

ESBOÇOS DURIENSES é o novo livro de Francisco Gouveia

No 250º Aniversário da Região Demarcada do Douro, Francisco Gouveia resolveu dar-lhe uma prenda editando este livro.

Já se encontra à venda nas principais livrarias da Régua, Vila Real, Lamego e Porto, o último livro do escritor Francisco Gouveia, com o título de Esboços Durienses, obra com a qual pretende comemorar o 250º Aniversário da Região Demarcada mais antiga do planeta. Trata-se de 22 apontamentos, ao jeito de conto, tirados da vivência duriense do autor. Num excelente trabalho gráfico, onde sobressai a capa e a contra-capa, o recheio promete alguns momentos de boa leitura, ou não fosse Francisco Gouveia um narrador com provas dadas. No seu estilo sempre truculento e vivo, a obra também resvala para um romantismo com o seu quê de terno. São estórias que povoam a memória do escritor, onde deambulam personagens, factos, alguns bem temperados de humor e outros batidos pela tristeza e, até, por uma certa saudade. A obra, segundo reza a dedicatória inicial, teve a sua génese nas crónicas que o autor em tempos escreveu para a Revista Veja, do nosso colega “O Arrais”. O livro, contudo, pode considerar-se mais um livro de contos do que propriamente um livro de crónicas.
É o primeiro livro a ser editado tendo como tema os 250 anos da Região Demarcada do Douro e, como tal, julgamos ser este o primeiro acto (privado) das referidas Comemorações.
O livro pode ser adquirido, também, por encomenda a este jornal, através do telefone 254 313129 ou pelo mail: editalma@gmail.com

(400)

MARCAR PASSO

por Francisco Gouveia, Eng.º

(20 anos a marcar passo para um país como o nosso, pequeno, dependente, e tão avesso a mudanças, é quase uma sentença de morte. Mas lá vai sobrevivendo aos solavancos. Desta vez resolveu ressuscitar um projecto que nunca devia ter enterrado. Portugal aprende muito devagar. Como consequência, chega sempre atrasado a todo o lado.
O regresso das “5 Regiões Plano” e da discussão sobre a regionalização, são a prova de que, quem não sabe aonde quer chegar nunca atina com o caminho)

Quando há cerca de 20 anos foi apresentada a proposta de divisão do país em 5 Regiões Plano, caiu o Carmo e a Trindade. Bairrismos mesquinhos, temor pela eliminação de cargos de nomeação política, e resistência à devassa de quintais privados, fizeram abortar o projecto. E, diga-se em abono da verdade, um projecto que já na altura era irreversível. As Comissões de Coordenação Regionais já se iam implantando no terreno e, em muitos casos, já iam substituindo o Poder Central nas decisões locais. Tinham vindo para ficar porque era a lógica do bom planeamento territorial. E há aqui algo de interessante na génese deste projecto: é que ele foi baseado em pressupostos e estudos técnicos, com uma sólida base científica, e não em meros condicionalismos ou interesses políticos. Foi seu pai, como se lembram, o engenheiro Valente de Oliveira, de quem tenho a honra de ter sido aluno e de ter, na altura, partilhado o grupo que iniciou na Faculdade de Engenharia do Porto a especialidade de Planeamento Territorial. Estávamos então no início dos estudos de ordenamento do território, com um país inteirinho por desbravar em termos de organização. Por tudo isto não posso ficar indiferente a este Plano apesar de o mesmo me trazer um profundo amargo de boca, ao perceber hoje o tempo que se perdeu. É que, passados 20 anos, volta-se a ele, depois de todos termos feito a vontade aos senhores políticos que, pelo meio, nos quiseram impingir as 8 regiões do referendo de 1998 e as 19 unidades territoriais da “Reforma Relvas” (Comunidades Urbanas e Áreas Metropolitanas). E não se trata agora de dizer que o Plano de há 20 anos era bom e que o que se passou depois não prestava. Creio que, a Reforma Relvas, apesar de demasiado pulverizadora, tinha as suas virtudes, pois permitia que se aproveitasse a experiência das Associações de Municípios e se adaptasse a gestão regional a parâmetros mais homogéneos e consentâneos com as características próprias de cada área de intervenção. E estou convencido que se tivesse havido maior empenhamento político, a solução Relvas poderia ter fermentado. Havia necessidade da sua consolidação, mas o desinteresse do Poder Central e o fraco empenhamento local, atiraram-no para o fracasso. Já não falo do malogrado plano de regionalização de 1998, que serviu de escada para todo o gato-pingado da política, e que foi o pior que podia ter acontecido às aspirações dos regionalistas, pois, a partir dele, criou-se como que um anticorpo na mente dos portugueses que começaram a recusar qualquer ideia de uma nova divisão administrativa do país. Foi o medo do retalhamento, da divisão, da desagregação do país. Quer se queira quer não, foi este o fantasma que se ressuscitou, até hoje. Não será, portanto, muito viável que um futuro referendo sobre a matéria venha a ter sucesso. Mas, sabendo-se como se sabe que existe um enorme vácuo entre o poder local e o central, e que todos os países da Europa que quiseram evoluir, tiveram que se regionalizar, entre um problemático referendo e uma acção nos termos dos poderes governativos, acho bem que o Governo tenha optado pelo segundo. Contudo, muito me espantaria se, a meio ou no fim do percurso, se quisesse homologar o processo através do tal referendo. Ou seja: neste dilema que 20 anos de hesitações e propostas inconsistentes trouxeram à reestruturação orgânica do país, o regresso ao Plano inicial não é de todo mal pensado se, concomitantemente, se perceber que a metodologia para o implementar tem que partilhar a mesma lógica da sua génese, ou seja, a pouco e pouco, sem sobressalto, gradualmente, até que, sem querer, o Plano esteja em vigor. A regionalização pode ser feita sem que haja fracturas. Por isso, da mesma forma que apoio a atitude do Governo em voltar a ressuscitar um Plano que, em termos científicos, está correcto, também discordo do estardalhaço que anda a fazer com o anúncio de medidas mais drásticas (como a extinção dos Governos Civis). É um procedimento que em nada ajuda ao tal Plano, antes pelo contrário, contribui para o desvio de atenções do essencial. Mas entende-se a forma de agir, segundo a lógica propagandística tão ao gosto de Sócrates. Vamos a ver se, por este excesso de anúncios (porque uma coisa é a informação e a outra é a propaganda) não se compromete a regionalização. Uma coisa é certa, depois de tantas variantes e experiências goradas, não sei se o país terá mais paciência para aceitar mudanças. Se este Plano falhar, o mais certo é ficar tudo na mesma, na situação mais cómoda, se bem que isso represente a ineficácia do sistema vigente e a estagnação administrativa.
Pretendia-se mais recato, mais prudência, mais reformismo e menos “revolucionismo”. Seja como for, há uma verdade que os cidadãos têm de perceber: a regionalização não é um papão. Nem muito menos representa qualquer divisão autonómica do país. A regionalização é um meio de distribuir o Poder pelo país, e é também, se o quisermos, uma forma prática de descentralização administrativa. Não deve, por isso, ser entendida para além disto. Aproveitar-se as “5 regiões plano” já em vigor, para daí reordenar administrativamente o país, é uma boa ideia se for para levar adiante. Já ninguém nos devolve os 20 anos em que andamos a curtir propostas que agora se abandonam. Podemos, quando muito, aprender com os erros, e perceber que há questões puramente técnicas em que a política não se deve imiscuir, a não ser para as apoiar caso as verifique correctas. Deixemos, portanto, e de vez, que o Plano avance. Não se pode é, constantemente, periodicamente, ao sabor desta ou daquela conveniência política, andar a lançar para a mesa projectos que nunca conseguiram ultrapassar a valia da ideia original. O país já andou tempo de mais a marcar passo. Se continua, fica para sempre a marchar na parada enquanto, fora da caserna, o mundo muda dia-a-dia.
Quanto ao Douro, com o abandono mais que evidente do projecto das Comunidades Urbanas, perdeu uma oportunidade única de se impor como individualidade. A partir de agora terá de a partilhar com uma vasta região designada por Norte.
E acreditem: é mais difícil impor-se no Norte do que no todo nacional. Se não, havemos de ver.

nota:
Esta é a 400ª crónica que escrevo para o Notícias do Douro. Parece mentira mas é verdade. E espanta-me: quanto papel não gastei ao jornal, quanta paciência não esgotei ao Director, quantas horas não tomei aos meus leitores. Só gostava que não tivesse sido em vão, mas a vida é mesmo assim: é difícil mudar o Douro com uma caneta na mão, quanto mais o mundo!
Mas cá vou tentando. Pela 400ª vez!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(401)

NOVA LEI DAS FINANÇAS LOCAIS ou
COBRADORES DE IMPOSTOS À RÉDEA SOLTA

por Francisco Gouveia, Eng.º

(A nova Lei das Finanças Locais não vai trazer nada de bom para os orçamentos familiares. Quando se pretendia uma Lei de contenção e que impusesse regras rígidas de boa gestão nas autarquias, eis que vem aí precisamente o contrário: o poder dado aos autarcas para meterem desenfreadamente a mão nos bolsos dos cidadãos que, assim, vão pagar as asneiras da administração local sem tugir nem mugir)

É ponto assente que a nova Lei das Finanças Locais vai permitir às autarquias criarem impostos e taxas novas, em cobrança por serviços prestados e que, consequentemente, lhes será dado o direito de arbitrarem aumentos das existentes. Com entrada em vigor para o próximo ano de 2007, o texto final ainda está no segredo dos deuses, não sendo de estranhar que prossigam fortes negociações entre o Governo que a promoverá, e as falidas autarquias que esperam por ela como pão para a boca. Pão que, aliás, se preparam para nos tirar. Desconheço o teor da Lei, mas tenho cá um dedo mindinho que adivinha o que nos espera. Não tenho dúvidas de que a carga fiscal que já nos sufoca, aumentará. E serão duas mãos a sufocar-nos: o Governo por um lado com os impostos nacionais, e as autarquias com os impostos locais. E como a maioria dos bens e serviços de que dependemos (água, recolha de lixos, drenagem de esgotos, reparação de estradas, etc) se encontram em poder dos municípios, está bom de ver que não teremos saída.
Mas vejamos o cerne da questão.
Quando se esperava uma Lei que, de uma vez, estancasse o frenesim gastador das autarquias, que lhes limitasse ou até impedisse o endividamento, que as obrigasse a pagar o que devem, que as obrigasse a uma contenção efectiva, vai-nos sair precisamente o contrário. É que, sabendo-se como se sabe, que as nossas Câmaras Municipais estão transformadas em pequenos reinos onde tudo se pode e tudo se faz, não será difícil imaginar que os meios legais que a irresponsabilidade do Estado lhe vai pôr nas mãos, será por elas usado no pior sentido, isto é: os cidadãos terão não só de as financiar directamente como também de as socorrer quando as finanças estiverem em baixo. Em termos concretos isto significa que, um por cento a mais neste imposto, e uns por cento acima naquela taxa e, grão a grão, os cidadãos terão de cobrir todas as asneiras, más gestões, opções erradas, caprichos, mordomias e o mais que se sabe existir na forma como andam a ser geridas as autarquias. O Governo, pelo seu lado, livra-se do odioso de ser o eterno mal-amado cobrador de impostos e livra-se também de ter de, anualmente, andar a tapar os buracos das desastrosas gestões municipais.
Mas há também outra questão que se coloca e que me traz intrigado: mas afinal, que serviços poderão as Câmaras criar, para além dos que já prestam, onde se possam cobrar? Já pagamos a água, aluguer de contadores, recolha de lixo, taxa de saneamento, licenças de construção, taxas de certidões, para além de que a grande fatia dos impostos de turismo, de circulação, predial, de transacção, etc, já revertem a favor das autarquias. Então, onde está a novidade?
A questão é outra. As autarquias precisam do poder de aumento imediato, na hora, por despacho ou deliberação. Precisam de dinheiro nos cofres e essa necessidade não se compadece com o atraso burocrático das leis actuais. Por ouro lado, os investimentos de que necessitam, e que quase sempre estão dependentes dos empréstimos bancários, não se compadecem com esperas. Um mandato dura quatro anos e é preciso fazer obra. E para se fazer obra é preciso ir aos bancos buscar o dinheiro. E os bancos já não emprestem mais sem a garantia de que os devedores têm possibilidades de pagar não só o que já devem como também as novas dívidas que pretendem contrair. Não me admira, portanto, que por detrás desta lei não ande um dedo da todo-poderosa banca portuguesa que, como se sabe, já é dono do país e o resto é treta. Eu, que há muitos anos deixei de acreditar na inocência de certos actos públicos, e que tenho já caminho andado que chegue para estabelecer analogias e paralelismos, sei muito bem onde tudo isto vai parar: na cobrança de impostos à rédea solta, numa sobrecarga intolerável sobre os direitos dos cidadãos. Porque temos o direito de exigir ao Estado, e às autarquias que fazem parte dele, que se contenha, que poupe, que gira com parcimónia os parcos recursos que tem. Afinal, são 360 e tal Câmaras, 3 mil e picos Juntas de Freguesia, uma regabofe! E estou-me nas tintas que me acusem de difamador, e que ando para aqui a julgar os autarcas como sendo uma classe de malfeitores que só querem fazer mal ao povo! Sei que nem todas estão assim, mas a grande maioria gasta mais que o que devia, e muitas delas gastam para lá do racional. E sei também isto, como, aliás, toda a gente: o país está como está, as Câmaras estão carregadas de dívidas, e aos cidadãos são exigidos sacrifícios tremendos que as autarquias não querem partilhar. E podem ter a certeza, o tal país aos bocadinhos, retalhado, que tanto medo faz aos anti-regionalistas, está à feição de acontecer caso a Lei em causa vá avante. Cada autarquia, cada reino. Cada autarquia, cada imposto. Cada autarquia, cada aumento. Vai ser lindo vai! Portugal transformado numa manta de retalhos fiscal! Até parece que os senhores legisladores não entenderam como se cosem as linhas da nossa gestão autárquica! Ou então, anda aqui gato escondido e os legisladores andam a fazer frete! Gato escondido e fedorento, como está na moda, e preparadinho para lançar as garras ao que resta no fundo dos bolsos dos cidadãos.
Pró quê, vão ver!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(402)

A GUERRA “SECA” DE ASCENSO

por Francisco Gouveia, engº

(Não se percebe muito bem a guerra que o Dr. Ascenso Simões anda a querer comprar com a “lei zero da taxa de alcoolémia”. É preciso que o Sr. Dr. entenda que a missão dos vitivinicultores é a de produzir vinho de qualidade e contribuir, com isso, para a riqueza do país. Não são fiscais nem promotores de propaganda anti-sinistralidade.
A nossa lei, só tem que se orientar pelo que é usual na União Europeia pois não tarda aí uma norma comunitária sobre o assunto e, quanto mais aproximados estivermos dela mais facilmente nos adaptaremos. Quando à questão do “ultimato” que fez aos vitivinicultores, sempre gostava de saber o que pensa o Ministro da Agricultura. E já agora – porque não? – o Ministro da Economia)

Os estudos e os dados estatísticos demonstram que nos acidentes onde a causa próxima é o álcool, as taxas registadas são superiores a 1 g/litro. Está também demonstrado que há muito condutor a guiar sob efeito de drogas, como o haxixe, a heroína, a cocaína e toda a panóplia de extasys e quejandos, drogas essas que não são detectáveis pelos meios à disposição das brigadas de trânsito. E há outra coisa que toda a gente sabe: quem se “enfrasca”, quer lá saber se está com 0,5 ou 0,9 ou 30 g/ litro? Bebe e pronto, seja o que Deus quiser! A questão não se põe ao nível de índices abaixo dos 0,5. Aliás, esta taxa é uma taxa de segurança e que só é conseguida por quem de facto se controla e sabe beber. Não adianta, portanto, estar a impor um regime de abstinência total porque este só vai afectar os que cumprem. Esses, vão deixar de beber, de vez, o seu copito à refeição. Os outros, os que bebem à balda, à balda hão-de continuar a beber, quer a taxa seja de zero ou de mil. Mas se esta análise está por demais discutida, e a prova é que a grande maioria dos países europeus tem taxas na ordem da permitida pela nossa lei actual, não se entende então que diabo de guerra é que o Dr. Ascenso Simões quer comprar. Eu acredito que as pessoas que nos governam o fazem com honestidade e alto sentido de Estado. Pelo menos é isso o que eu, como eleitor e cidadão, lhes exijo. Contudo, há factos que presenciamos e que estão longe de ser inocentes. Toda a gente sabe da pressão que certos potentados da indústria de refrigerantes e até da cerveja, exercem sobre o poder dos países para que a legislação, por proibitiva a outras bebidas, favoreça o consumo dos seus produtos. Toda a gente sabe que a guerra entre multinacionais das bebidas não alcoólicas está há muito instalada e a disputa é feita metro a metro, cliente a cliente. Não é por acaso que os custos publicitários dessas empresas constituem a sua maior carga de investimento. Contudo, ainda não conseguiram na Europa que a “lei seca” fosse implementada em nenhum país (que eu saiba). Então, seria uma vitória e uma lança em África, se Portugal adoptasse uma lei do género. A propósito, faz-me lembrar o caso do Casino que Stanley-Hoo conseguiu construir em Lisboa (e que vai ser brevemente inaugurado) depois de ver recusado os seus projectos em todas as capitais europeias. A única capital europeia onde o magnata do jogo conseguiu construir um Casino, foi em Lisboa. Ou seja, é muito estranho que projectos que são linearmente recusados por essa Europa fora possam ter acolhimento neste cantinho luso. Com isto não quero levantar que seja a mínima suspeita seja do que for, apenas constato factos. E è aos senhores políticos que compete protegerem-se destes factos. Não é a mim que compete ignorá-los. E a factualidade aponta para isto: aqui, em Portugal, tudo é possível. O que não é possível conseguir noutros lados, aqui é. E depois há este facto extraordinário: o Dr. Ascenso praticamente que exige aos vitivinicultores que substituam as brigadas de trânsito. E estes ficam entre a espada e a parede: se não diminuem os acidentes, a culpa é deles, se diminuem, o mérito é do Governo. Por esta lógica do senhor secretário de Estado, as empresas produtoras têm de prescindir das campanhas publicitárias necessárias para promoverem as vendas. E tem algum cabimento que se lhes atribua as culpas pelos acidentes? Será que quando um futebolista se lesiona a culpa é do fabricante da bola? Será que quando um guloso morre engasgado a culpa é do homem do talho? Será que, quando um condutor se estampa a 200 à hora, a culpa é do fabricante do automóvel? Será que quando o Dr. Ascenso dá um erro ortográfico, a culpa é do fabricante da caneta? Ora bolas Dr. Ascenso, e nós a julgarmos que o senhor era transmontano, da terra do melhor vinho do mundo e que, acima de tudo, não iria para o Governo misturar alhos com bugalhos! Sabe que mais: se o senhor, um dia, conseguir impor uma lei que apreenda a viatura ao infractor em vez da ridícula apreensão da carta; se um dia conseguir impor uma lei que obrigue as companhias de seguros a pagarem, de imediato, indemnizações aos acidentados no montante previsto nos contratos que subscrevem; se um dia conseguir impor uma lei que responsabilize criminalmente os responsáveis pelas entidades que cuidam do estado das estradas, então, Dr. Ascenso, tem o total apoio dos vitivinicultores, de todo o país e, pode ter a certeza, tem a sua guerra contra a sinistralidade meia ganha.
Sinceramente, não entendo – e julgo que ninguém ainda entendeu – o que pretende com a sua lei “zero” e onde quer chegar com o “ultimato” aos produtores.
O mundo de hoje está cheio de armadilhas. Todos os dias aparecem novidades tão engenhosas que fazem um homem pasmar. Por isso, reduzir as principais culpas da sinistralidade somente ao álcool, e particularmente à exígua taxa de 0,5 , é um erro. E com esse erro se vão governando os traficantes. A taxa de álcool quer-se controlada, por que é assim que deve ser, como também se aceita que certas profissões obriguem à abstinência total. Mas generalizar radicalmente, não faz sentido. Nem sentido nem aporta resultados práticos.
Era bom que o Dr. Ascenso, que até é de cá, da terra do melhor vinho do mundo (já o disse e não me canso de o repetir) não nos desiludisse e deixasse de inventar. Até já ouvi dizer, por esse Douro acima, que o Dr. Ascenso nos está a deixar ficar mal. A sua conduta não é a de um homem do Douro, mas a de um radicalista de cartilha, de um fanático cego, de um fundamentalista suicida.
Não sei o que se passa, nem sei se o convívio alfacinha lhe alterou a maneira de pensar, situação que, aliás, não seria de estranhar pois o que mais há por aí são políticos da “província” que, com alguns dias de Lisboa ficam piores que os de lá. Precisávamos que o Dr. Ascenso assumisse a sadia e sapiente humildade transmontana e mandasse às calendas a modernice balofa da capital, mesmo que isso faça torcer o nariz ao camarada cosmopolita, Sócrates, que também é de cá do interior mas esqueceu-se depressa.
Entretanto, continuamos a acreditar num conterrâneo, e aguardamos o esclarecimento das suas razões. O que disse até agora não chega e só serviu para baralhar o que estava quieto e em paz.
E que estou com a mão na massa, também precisávamos de ouvir o senhor ministro da Agricultura, porque o assunto também lhe diz respeito – e de que maneira!
E também o senhor ministro da Economia, por que não? Afinal, não é o Douro a região agrícola que mais contribui para a riqueza nacional?

gouveiafrancisco@hotmail.com
(403)
Documentação sobre a história do Património Mundial em google: “o patrim mundial como forma de leitura…”

UM PATRIMÓNIO MUNDIAL QUE NEM PARECE NOSSO

por Francisco Gouveia, Eng.º

(A atribuição pela Unesco do título de Património Mundial ao Alto Douro Vinhateiro é, acima de tudo, uma responsabilidade e um compromisso assumido entre o Estado que o propôs e a entidade que o aceitou. Ou seja: um contrato que tem que ser cumprido. Empolar o galardão concedido para além disto, é lavrar num erro. Criou-se a ilusão de que tal classificação era um fim, quando ela constitui somente um meio. Um meio de preservação e valorização de um legado.
Pelo que observo não sei se, antes de termos avançado com a candidatura, não avaliámos com rigor se estávamos preparados e organizados para dar cumprimento ao tal contrato)

Para que se perceba o real significado de uma classificação de “Património Mundial” atribuída pela Unesco, e o que ela traduz na prática, será bom fazer-se uma pequena resenha histórica deste galardão. É preciso, antes de mais e depois de ouvirmos incorrecções a tanto responsável que não entendeu sequer o que está em causa, sabermos do que estamos a falar e, acima de tudo, o que nos espera (ou o que esperam de nós) com a atribuição do título ao Alto Douro Vinhateiro.
A primeira concepção de “património mundial” surgir em 1931, por altura da Conferência Internacional de Atenas para a Conservação de Monumentos Nacionais, sendo ainda uma concepção baseada na mera preservação técnica de edifícios arquitectónicos e que estava ainda muito longe da ideia mais alargada que preside às regras actuais. Entre 1931 e 1964 (data em que se assentou o princípio de património mundial que hoje vigora), decorreram mais três Conferências: a de 1933 na Grécia, que definiu a Carta de Atenas onde se reforça e estabelece as bases legais do carácter arquitectónico definido na anterior reunião de 1931; a de 1954 em Haia, especialmente influenciada pela hecatombe da 2ª Guerra Mundial e da razia patrimonial que constituiu; e a de 1957 em Paris que, pela primeira vez, e como uma sequência lógica da Conferência anterior, institui a figura do “corpo científico” para análise, caso a caso, das situações susceptíveis de configurarem interesse patrimonial mundial. É nesta Conferência que se estabelece, pela primeira vez, a noção de defesa patrimonial em caso de conflito armado. Entretanto decorrem sete anos até que em 1964, em Veneza, o conceito inicial de património que esteve até ali muito ligado aos edifícios, é alargado para outros bens, tais como cidades, bairros, centros históricos, zonas naturais, espaços culturais, etc. Finalmente, em 1972, e já com a Unesco instituída a chefiar a Conferência, são criados os padrões e estabelecida a legislação internacional que há-de reger os bens classificados por ela como Património Mundial. Nos termos desses critérios, em 2000, já havia 630 bens a nível mundial que tinham sido beneficiados com o título em causa. Em Portugal, há 13 bens classificados, desde 1983 a 2001 e que são, respectivamente por ordem de entrada: Ilha Terceira (Açores), Mosteiros dos Jerónimos, Torre de Belém, Mosteiro da Batalha, Convento de Cristo em Tomar, Centro Histórico de Évora, Mosteiro de Alcobaça, paisagem cultural de Sintra, Centro Histórico do Porto, Vale do Côa, floresta Laurissilva (Madeira), Centro Histórico de Guimarães e Alto Douro Vinhateiro.
Actualmente (em 2006) creio que os bens classificados mundialmente andarão já perto dos mil (não posso precisar), número que nos deve fazer meditar para que aquilatemos da grandeza numérica patrimonial onde está o Douro inserido e para percebermos que não somos uma excepção tão extraordinária como o título pode transmitir.
Depois desta breve nota histórica, convém referenciar os sucessos e os fracassos deste processo e, muito especialmente, do significado que tem hoje este tipo de galardões, significado que se afastou em muito das intenções com que foi criado.
Pretendia-se, em primeiro lugar, que os bens fossem mantidos nas suas condições iniciais porque, ao serem classificados, ficavam sujeitos a regras de preservação obrigatórias a cargo dos Estados que apresentavam candidaturas. Em segundo lugar pretendia-se salvaguardá-los, por reconhecimento mundialmente aceite e legislação com âmbito de cumprimento internacional, da destruição ou danificação ocasionados por guerras ou até actos terroristas. Contudo, com o decorrer dos anos e com a agudização dos conflitos internacionais, cedo se verificou que seria impossível fazer cumprir a legislação protectora consagrada no segundo objectivo. A saga destruidora das potentes armas modernas, o terrorismo sem cara, o fundamentalismo cego, até os interesses económicos, não permitiam que houvesse força que impusesse o cumprimento da tal Lei Internacional. Ou seja, de toda a boa-vontade e boa-fé do processo encetado pela Unesco, salvava-se somente a eficácia simbólica do título e o poder (precário) da Unesco actuar sobre os Estados relativamente a falhas praticados por estes nas regras de conservação e protecção a que se comprometem aquando das candidaturas. Poder este que se resume à retirada do título, e pouco mais. O simbolismo do galardão e o poder de pressionar os Estados detentores do património, são as duas vertentes que, hoje em dia, pesam sobre os bens detentores do título de património mundial. Ou seja, uma classificação de património mundial, muito mais do que um empolar de expectativas, aspiração a aumento do número de turistas, vislumbre de ganhos financeiros, é, acima de tudo, uma responsabilidade. Se a Unesco tivesse a certeza de que, ao atribuir o título de património mundial a um local, este ficasse a salvo de guerras e agressões, classificaria o planeta na íntegra! Hoje em dia não é muito difícil convencer aquela instituição a atribuir a classificação, difícil é convencê-la de que, depois, há empenhamento e compromisso político suficiente para preservar o bem titulado. Faz-me lembrar o que se tem passado com a atribuição, a torto e a direito, do título de cidade a qualquer bairro deste país. Não tem havido qualquer mais-valia para a maioria delas, a não ser uma bolinha maior no mapa e uma carga fiscal imobiliária mais pesada e a condizer com o novo “título”. Antes “vila e barata” do que “cidade e cara”. O que se passa actualmente no Alto Douro Vinhateiro, é mais ou menos isto: tem um galardão, uma referência no mapa, faz parte de um roteiro, mas não mais do que isso, porque o que tem na realidade e acima de tudo, é uma responsabilidade. Responsabilidade de preservação e de continuidade. Extrapolar o título de património mundial para além desta responsabilidade é estarmos a enganar-nos. E que vemos?
Continuam a construir-se taludes de aterro em vez dos muros de xisto; continuam a “tapar-se” linhas de água em nome do aproveitamento exaustivo da área vinícola; continuam a criar-se lixeiras imensas e imundas nas encostas; continuam a entulhar-se as linhas de água com todos os resíduos imagináveis e descargas clandestinas; continuam a proliferar as construções agressivas e a privilegiar-se a arquitectura do pato-bravo; continuam a pintar-se edifícios com as cores do clube de cada um; continuam os centros históricos dos concelhos sem regras; etc., etc., etc.
No Douro, contabilizaram-se os ganhos prováveis com o reconhecimento mundial, julgando-se que só a “medalha” seria suficiente para encher os restaurantes, esgotar os hotéis, ter cá turistas a abarrotar todo o ano e ter a lojas cheias de compradores. No final, salvo alguns sectores que nunca estiveram dependentes da tal classificação, as expectativas criadas estão a ser defraudadas. Mas como eu ainda recentemente disse, por cá aprende-se devagar. Por exemplo: não temos o exemplo recente de Foz Côa mesmo aqui ao lado? Que interessou a classificação que a Unesco atribuiu ao Vale? Será que houve compensações visíveis para as populações?
No Douro está a passar-se por um processo idêntico, mas mais grave, porque, para além da falta do investimento prometido, nem as regras mínimas estão a ser cumpridas. E muitas delas tinham que ter tido execução imediata, mas vejam o que se passou: muitas das mazelas que continuam a ferir o Douro, podiam ser estancadas com a actuação dos municípios, que possuem órgãos próprios fiscalizadores e capazes de cobrirem todo o território com eficácia, para além de possuírem o poder de conceder as licenças de construção e do ordenamento urbanístico concelhio. Isto independentemente de, numa segunda fase, haver regras impostas por diploma alargado à região. Mas, da mesma forma que as autarquias, depois da classificação obtida, se encostaram aos Governos à espera que este tomasse a iniciativa, também os Governos deixaram nas mãos da região um assunto que julgavam ser só da competência dos interessados locais. Tudo somado tem dado a confusão do costume, à mistura com os “puxões de orelhas” da Unesco. Uma coisa é certa, nem o recente Plano de Eliminação das Dissonâncias Ambientais do Alto Douro (Plano com palavrões ridículos para designarem somente que se vão eliminar as lixeiras e afins) terá qualquer eficácia pois é certo e sabido que se elimina uma lixeira aqui e já está outra a ser criada mais à frente. E eu pergunto: quantas autarquias durienses têm, neste momento a funcionar, zonas de recolha de resíduos (de construção, domésticos, etc.)? E volto a perguntar: e os órgão regionais da dependência dos Governos? Que orientações lhes deram para contribuírem para o cumprimento do tal contrato que subscreveram com a Unesco?
Costuma-se dizer que, se não somos nós a cuidar do que é nosso, quem o fará? Se não formos nós a cuidar do tal Alto Douro Vinhateiro, quem virá fazè-lo? Temos um património mundial mas nem parece que é nosso.
Por exemplo:
Se a casa de um dos meus leitores (por muito modesta que seja) fosse classificada de património mundial, não trataria de a manter, pelo menos, devidamente limpa? Já não digo pintá-la ou embelezá-la porque, para isso poderia não ter dinheiro, mas lixo é que, com certeza, não deixaria que ela acumulasse! Então por que razão, no Douro que é de todos nós, deixamos que o sujem?
Como disse, por falta de dinheiro pode haver desculpa por não se embelezar mais a região. Agora o que não pode é haver desculpa (de ninguém) por o sujarmos! Nem desculpa que possa justificar os atentados urbanísticos que todos os dias se vêem por aí a serem perpetrados! Muito menos argumentos que validem a quebra de continuidade na paisagem original duriense!
Porque ter o Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial é, acima de tudo, uma responsabilidade que assumimos perante o mundo e as gerações futuras, de preservação e valorização do legado que os nossos antepassados nos deixaram.
É uma responsabilidade enorme, e pouco mais.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(404)

HOJE TREINO EU

por Francisco Gouveia, engº

(Gosto de futebol e gosto de me alienar à custa dele. Fica feito a aviso para o texto que se segue.
Mas gosto de bola, especialmente, por três motivos:
– Porque as bancadas dos estádios são os lugares mais democráticos do mundo;
– Porque se não fosse a bola andávamos todos ao estalo uns aos outros;
– E porque, droga por droga, o futebol sempre não tem efeitos secundários graves)

Seria suposto que uma pessoa como eu, que escreve livros, que tem crónica semanal em jornais, que se dedica a actividades de índole cultural, e que, como tal, deveria pertencer àquilo que o vulgo intelectualóide luso designa como “intelectual”, negasse a pé firme essa coisa alienante e primitiva que se chama futebol. Contudo, como pobre mortal que sou e ainda por cima pouco ciente que minha intelectualite tenha valimento que se veja, gosto de futebol, isto é, tenho cá a minha costela bárbara que me dirige o instinto para a “bola”. E – como nortenho que me prezo de ser, agravado com o facto de, com idade de seis anos ter entrado pela primeira vez no “extinto” Estádio das Antas pela mão de um tio que era azul e branco da cabeça aos pés, e, desde então, ser cliente habitual daquelas bancadas e de ter dado àquele espaço importância imediatamente a seguir à Igreja onde comunguei e me crismei (é um exagero herético mas o trocadilho é interessante) – sou do glorioso e revolucionário FCP. Estamos portanto entendidos quanto à minha clubite e ao facto de ser o futebol uma das poucas coisas que me tira do sério. E o FCP é o clube pelo qual já fui capaz de me zangar com amigos e de conseguir que o meu vocabulário resvalasse para os confins do calão mais boçal. Confesso que gosto de bola e confesso que gosto de me alienar. De vez em quando, é claro, mas ainda está para nascer quem me há-de convencer que uma “alienaçãozinha” de vez em quando não é necessária para o equilíbrio psicológico de qualquer um.
Não ignoro, também, o mundo de interesses que se jogam neste mundo futebolístico: a pouca decência, a imbecilidade de muitas declarações dos seus intervenientes, os oportunismos, a corrupção, as resmas de papel inútil que a imprensa especializada gasta, enfim, não nego que há um universo pouco claro e até mesmo irracional nesta coisa da bola. Mas, quando vejo aqueles jogadores, no rectângulo verde, aos pontapés no esférico, sinto que ainda há algo de salutar e de inocentemente justo no que fazem. Estão ali sem ajudas externas, homem contra homem, correndo e saltando, e é esta ilusão de que, neste mundo conturbado e corrupto, ainda pode haver uma actividade onde o homem se possa impor pelo que vale, sem disfarces, que me leva a, semanalmente, acreditar que ainda há coisas que conservam uma certa pureza original. No fundo, sei que as coisas não são bem assim, mas é possível acreditar que o sejam. Uma piedosa mentira que se aceita. E é este crédito inocente que me faz gostar da bola, como um regresso aos meus tempos de menino onde rompia as botas em ardorosos despiques no recreio e nos descampados onde se pudessem pôr duas pedras a servir de baliza. Belos tempos!
Mas também gosto da bola por outros motivos.
Primeiro, porque as bancadas dos estádios são os lugares mais democráticos do mundo. Ali esquecem-se os graus académicos, confunde-se o rico com o pobre, esbatem-se princípios religiosos, etnias, classes sociais. Até a linguagem se nivela pela bitola ligeira de um insulto ao árbitro, pela insinuação pesada ao treinador, pelo berro ao jogador que correu de menos. Mas também pelo aplauso e pela alegria, por que, neste particular, a gargalhada de um magnata é igual à de um pedinte. Durante hora e meia, democracia é ali: na bancada de um estádio.
Segundo, porque se não houvesse bola andávamos ao estalo uns aos outros. O futebol é um desporto eminentemente urbano. E é nos centros urbanos que existe maior violência. O futebol atenua essa violência e dá azo a que, pela discussão, mesmo que acesa, se escapulem energias negativas acumuladas no desgraçado de um dia-a-dia por vezes brutal e sem sentido. Já imaginaram o que aconteceria se não houvesse algo que fosse motivo de luta pacífica? O futebol é uma luta pacífica, mas é uma luta, com características tribais, regionais, pois nunca conseguiu libertar-se da índole de grupo que, quer se queira quer não, possui. Sem o futebol, como contestar o sul? Como contestar Lisboa? Como acertar contas com o concelho rival vizinho? Como arranjar motivo para gozar com o parceiro de que não gostamos? Se não fosse o futebol, muito provavelmente as rivalidades regionais acentuar-se-iam e as contestações poderiam assumir vias de facto com alguma gravidade. Assim, pomos num estádio onze jogadores, espécie moderna de guerreiros que representam a nossa cidade, o nosso grupo, a nossa região e, de pontapé em pontapé, acertamos as contas. As lanças, as espadas e as metralhadoras ficam em descanso.
Terceiro, porque o homem é um ser que desde que é sempre procurou com que pôr o miolo do avesso. Desde a antiguidade que o homem corre a arranjar algo que o faça alienar-se, viajar por mundos desconhecidos, procurando algo que o liberte dos limites apertados da sua consciência humana. Actualmente sabe-se como é, contudo é bom lembrarmo-nos que ainda nos anos 20 do século XX, a cocaína era receitada medicamente como anti depressivo e chegou a ser usada mesmo sem receita, fazendo parte dos hábitos de muita gente, como acontece hoje com o tabaco. Nessa altura, no norte do continente receitava-se Whisky para as “melancolias”. O haxixe, recém trazido de África no tempo da escravatura, fez mais adeptos na Europa do seu tempo, muito antes do próprio tabaco. O ópio foi recomendado e tolerado em muitas civilizações, especialmente as orientais, mas também se radicou cá no ocidente. E, ao longo da História, podemos encontrar para cada civilização, o seu vício. Hoje há as drogas brandas, como o tabaco e o álcool, as médias, as pesadas e, muito recentemente, as químicas (ansiolíticos, calmantes, relaxantes, hipnóticos, anti depressivos, etc., etc.). Ou seja, legal ou ilegalmente, o homem sempre procurar drogas que lhe pudesse lhe dar algumas horas de prazer ou de alívio. Não discuto aqui, por não ser ocasião nem altura para tal, a problemática em causa, nem quero com esta conversa aligeirada e brejeira justificar o uso da drogaria, apenas me limito a constatar factos e a concluir que esta coisa da droga não é nova, pois sempre acompanhou a história humana. Assim, e porque também há muito quem considere o futebol a droga da nossa civilização (e com alguma justificação, creio), droga por droga, consuma-se o futebol, porque esta, pelo menos, não tem efeitos secundários, isto é, a saúde não se recente do seu uso e abuso. Salvaguardando, como é óbvio, os desafortunados que tombam nos estádios com ataques cardíacos ou os que se atiram da ponte abaixo porque o seu clube perdeu a final. Mas isso é outra estória, outros excessos, que os há em tudo.
Por estas e por outros, gosto de bola sim senhor e, todas semanas, nas bancadas do meu Dragão ou em frente à TV, alieno-me como qualquer mortal, esqueço-me dos problemas da semana, não me lembro do que me devem nem do que tenho a pagar na segunda feira seguinte, fecho a sete chaves a agenda de compromissos, meto-me numa redoma intransponível às chatices do quotidiano, e vivo a doce alienação da sorte e do azar do meu clube. Porque também sou assim: quando perco, é azar ou mão do árbitro; quando ganho, nunca é sorte mas sabedoria, categoria, ser melhor do que o outro. Tudo faz parte da alienação que procuro, dos momentos de convívio democrático, do tal regresso a uma infância que de outra forma seria impossível de fruir.
Gosto de bola e não há volta a dar-lhe.
E gosto do meu clube, que é Campeão. Mas também de todos os outros que fazem parte desta imensa família futebolística sem a qual já não sabemos viver.

gouveiafrancisco@hotmail.com
(405)

FAZER A FERIDA
E DEPOIS VIR CÁ MUDAR O PENSO

por Francisco Gouveia, engº

(A visita de Sócrates a Trás-os-Montes para anunciar a construção de algumas vias importantes, foi uma espécie de romaria: um folclore que se repete todos os anos como uma obrigação. Por isso nada me garante que vá cumprir o que prometeu.
Quanto ao resto, foi assim: paulatinamente, foi esvaziando a região de serviços e equipamentos essenciais, abrindo uma enorme ferida numa região já debilitada, para vir cá agora, como bom samaritano, mudar-lhe o penso.
O senhor primeiro-ministro tem que saber uma coisa: já não lhe pedimos que nos dê nada. Só lhe pedimos que não nos tire o pouco que temos.
Depois, há a questão da A4, que vai ser pessimamente mal resolvida)

Por certo os meus leitores não viram o programa que a RTPN efectuou sobre as tais vias que o Governo anunciou para Trás-os-Montes. Trata-se de uma estação por cabo e o programa foi emitido a horas tardias. Contudo, o programa foi esclarecedor sobre o que pensa a região, o Governo e uma certa imprensa que continua a ver o interior como o bombo da festa. O programa, onde era suposto debater-se o enquadramento destas vias no panorama do desenvolvimento local, acabou por se tornar numa inexplicável guerrilha entre dois lados: o regional, representado pelo Presidente da Câmara Municipal de Mirandela e o Presidente da NERVIR, e o outro protagonizado pelo eng.º Ricardo Magalhães (representando o CCRN) e um jornalista de quem não sei o nome mas, pelo que foi anunciado, seria entendido na matéria.
Fiquei agradavelmente surpreendido com as declarações do Presidente de Mirandela que não perdeu tempo com análises mais que gastas do que se passa na região transmontana e passou a apontar soluções, com clareza, simples, muitas delas de inegável mérito e presumível eficácia. O Presidente da NERVIR, pelo seu lado, acompanhou correctamente o tema em causa, não só resumindo o diagnóstico da situação como também apontando as razões pelas quais a região está como está, sintoma de que (e outra coisa eu não esperava) sabem do que falam e sabem o que querem. Mas se, por este lado, estávamos a ser esclarecidos, pelo outro a baralhação era total. Não se entendeu o que pretendia o eng.º Ricardo Magalhães, com uma argumentação politiqueira, sem esclarecer o que pensa a CCRN sobre o assunto, sinal evidente de que ainda não conseguiu distinguir entre a Coordenação Regional e os Manifestos insípidos e inconsequentes que protagonizou sobre o Douro, e que tiveram como única eficácia prática a sua nomeação como vice-presidente da tal CCRN que, aliás, é dirigida por um tal Dr. Carlos Lage, outro político da nossa praça sem qualquer preparação académica para o cargo, sem qualquer experiência técnica em Planeamento Territorial, e que é mais uma peça da clientela política socialista metida na engrenagem com que Sócrates pretende serenar o interior do seu partido.
Mas adiante.
Ou seja: não serão precisos muitos estudos nem ir muito longe para que se possa, com eficácia e parcos meios, estabelecer um plano integrado para a região transmontana. Basta ouvir quem lá está. Mas há outra coisa: as estradas sempre prometidas e agora novamente anunciadas, devem ser acompanhadas de algo mais vasto, o tal plano integrado, pois elas, por si só, são importantes mas insuficientes. Mas porque são importantes era preciso que fossem bem pensadas e, pelos vistos, não estão a ser. Vejamos o exemplo da A4, no que diz respeito ao Douro. A questão é esta: ou se constrói a solução 4 e então tolerar-se-á a eliminação do IC 26, ou se opta pela solução 2 e o IC 26 é indispensável. Porque sim e porque não, já toda a gente o sabe. E mesmo que se escolha a solução 2, torna-se necessário prever a melhoria das ligações às sedes de concelho da região duriense. Contudo, apesar de avisados, parece que a solução 2 está já dada como certa sem que as lacunas deste traçado sejam colmatadas com a complementaridade de obras nas vias existentes. Quanto ao resto, continua-se na mesma: ainda se está na fase de “estudo” do tal plano estratégico. E no tal “estudo” andamos há anos a chafurdar. E a baralhar. E a prova está na forma como a CCRN tem encarado este problema, como se as coisas funcionassem em compartimentos estanques, se não veja-se: promoveu debates (mais debates ainda) sobre “Acessibilidades e transportes” e sobre “Turismo”, esperando-se para outra altura um debate sobre (quem sabe) “Agricultura”, talvez a seguir sobre “Indústria”, talvez mais tarde sobre “Formação Profissional”. Uma coisa de cada vez para render. E, ao fim destes anos, ainda se está a “estudar”, ou melhor: “vai estudar-se “ o modelo estratégico para a região, estando, para o efeito já definida uma equipa técnica. E pronto, de estudo em estudo, de conversa em conversa, de reunião em reunião, vai-se fazendo a triste história do encolhimento transmontano como se não se soubesse há muito do que região precisa e o que é preciso fazer-se!
Mas tudo isto se entende, porque é preciso, como disse, fazer render, fazer render o tempo, estender os estéreis debates para além dos limites da paciência, criando uma espécie de desistência por esgotamento, anestesiando os transmontanos, protelando as soluções. E, entretanto, a pouco e pouco, o Governo desiste de pedaços da Nação, como seja Trás-os-Montes, em favor de outros interesses que já não se compadecem com gastos no interior que consideram inúteis. E nesta conversa da treta, vão dando a ilusão de que se estão a tratar da nossa vida, que estão atentos, que têm soluções.
Paulatinamente, o Governo vai retirando serviços e equipamentos a Trás-os-Montes. E quando a coisa começa a aquecer, quando o escândalo começa a fazer mossa no Governo, vem cá o Primeiro-Ministro, com uma saca de rebuçados no bolso, anunciar as tais estradas que estamos fartos de ver anunciadas. Boa táctica esta de, depois de sem dó nem piedade abrir feridas no corpo já debilitado da região, vir sorridentemente e como bom samaritano, mudar-lhe o penso.
Já não se pede nada ao Governo. Que fique com o que tem e faça bom uso dele. Mas que, pelo menos, não nos tire o pouco que temos.

nota: dispenso-me de comentar as declarações do tal jornalista que fazia parte do painel. Tenho mais que fazer do que dar atenção a disparates.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(406)

OS TRUNFOS NA MANGA DO SR: MINISTRO DA SAÚDE

.por Francisco Gouveia, eng.º

(O Ministro vai encerrar as Maternidades e dali não arreda pé. E todos os dias tira trunfos da sua manga que vai lançando para a mesa, como se isto fosse um jogo. E não é! O sr. Ministro anda a cozinhar argumentos que, nas alturas cruciais, anuncia como irrefutáveis. Por que não diz tudo de uma vez só? Agora, veio com afirmações muito graves: a elevada mortalidade infantil e a sua relação com as condições antes e depois do parto. É sobre isso que vou falar porque, se o que disse é verdade, então o encerramento das Maternidades não basta e é bom que o Governo se prepare para largar os cordões à bolsa com internamentos prolongados das parturientes.)

Neste Governo há propaganda a mais e esclarecimento a menos. Mas também muita precipitação, muita falta de tacto para se lidar com situações melindrosas, falta de sentido de oportunidade e, essencialmente, há uma metodologia terrorista que lança decisões (ou intenções de decisões) sobre as populações, fazendo-as entrar em pânico até às raias do desespero. É uma estratégia de tratamento de choque pelo máximo prejuízo, que se atenua depois com a benevolência generosa de decisões mais brandas. Sinceramente, ainda não entendi a lógica desumana desta forma de agir, mas alguns dividendos políticos hão-de estar por detrás de tão bizarro modo de procedimento. Na questão das Maternidades (como já acontecera no caso do encerramento das escolas) lançou-se o pânico e só depois se veio esclarecer as razões dos tais encerramentos, e, muito mais tarde, apresentar as alternativas, e, ainda muito mais tarde, anunciar que o assunto ainda não era definitivo e se estava a estudar a logística da mudança. Mas, se aquilo que o Sr. Ministro da Saúde disse recentemente, é verdade, o assunto é muito grave, demasiado grave, e então, o encerramento das Maternidades irá agravar ainda mais o problema que o ministro levantou, e não atenuá-lo como pretende.
Mas vejamos o que foi que o Sr. Ministro afirmou no dia seguinte às grandes manifestações de contestação que aconteceram um pouco por todo o lado.
Disse o Sr. Ministro da Saúde que Portugal ainda tinha uma taxa muito elevada de mortalidade infantil, mortalidade que acontecia num período de cerca de quinze dias, um para cada lado do parto. Ou seja: os óbitos infantis ocorriam, ou na semana anterior ao parto ou na semana seguinte ao parto. Os motivos que alegou para os óbitos foram estes: falta de capacidade das Maternidades para darem apoio às grávidas antes do parto, dificuldades com pessoal especializado na altura dos partos, e a mesma falta de meios que não permite o apoio antes do nascimento, também ocorre depois do nascimento.
Estes novos argumentos só foram dados a conhecer nesse dia, o que é lamentável. O Sr. Ministro, antes deste chinfrim todo, bem podia fazer jogo limpo e apresentar todas as suas razões e argumentações, e não guardar trunfos para os lançar na mesa quando lhe convém.
Mas partamos do princípio que o Sr. Ministro tem razão, e as coisas são mesmo assim. E imaginemos que vão mesmo ser encerradas as tais Maternidades que constam da sua lista negra. Aliás é incompreensível que só no dia 11 de Maio, depois de pôr o país em polvorosa, tenha feito uma conferência de imprensa onde se fez acompanhar da tal Comissão Técnica que elaborou o relatório que baseou o encerramento de algumas Maternidades. E é interessante verificar que esta Conferência de Imprensa surge logo a seguir a um estudo publicado por especialistas num jornal diário, que dava conta do seguinte: nas tais Maternidades ditas como exemplares, o número de óbitos infantis é superior aos que se verificam nas Maternidades que vão encerrar. Tudo muito estranho.
Mas, acreditemos na boa-fé do Sr. Ministro e aceitemos que, se de facto as causas da mortalidade infantil neste país acontecem nestes quinze dias, o Sr. Ministro vai ter que concentrar meios nas que existirem e, acima de tudo, vai ter que prever alojamento para efeitos de internamento das parturientes uma semana antes da previsível data do parto e mantê-la internada na semana seguinte ao parto. É que se o problema é este, não vejo outra solução. E, para isso, tem de remodelar as Maternidades que vão ficar, criando-lhes condições mais amplas de internamento, prevendo corpos clínicos mais alargados, investindo em material, planeando uma rede de transportes com os bombeiros de forma a que estes garantam o transporte da parturiente em boas condições e na tal semana antes do parto. Vai ter também de criar mais enfermarias com toda a logística que isso implica.
Seja como for, até se pode aceitar a solução do Sr. Ministro, isto é, que encerre as Maternidades, desde que alargue o âmbito de aplicação dos seus argumentos, prevendo um esquema de alta segurança com o tal internamento. Se uma parturiente que está a cerca de uma semana de ter o um filho, for internada numa boa unidade hospitalar, sendo-lhe prestados todos os cuidados, e depois do parto ainda se mantiver mais uma ou duas semanas internada por questões de segurança, então o Sr. Ministro pode lá encerrar o que entender. Agora se a sua argumentação só serve para justificar o encerramento e dela não se extrapolam as consequências lógicas que devem orientar a criação de um modelo diferente que, de facto, melhore a qualidade dos serviços prestados e contribua de vez para nos livrar desses índices vergonhosos de mortalidade, então, Sr. Ministro: a sua argumentação é demagógica, lançou-a V/ Ex.cia como uma justificação, com laivos de humanitarismo à mistura com uma sementeira de medo, tentando dar a atender que: se não se acabarem com as tais Maternidades, será o caos. E se a sua argumentação só serviu para justificar os encerramentos e não serve para, então, organizar o sistema de saúde para a prevenção da tal mortalidade infantil a que de se agarrou na altura efervescente da contestação, está o Sr. Ministro a cometer uma injustiça, a praticar a mais leviana demagogia, a fazer politiquice de um assunto demasiado sério: um assunto de vida ou de morte.
Seja como for, a forma como o assunto tem sido encaminhado pelo ministério é deplorável. Pensa-se primeiro em destruir antes de se ter algo consistente e planeado para a substituição. Mas a isto já nos vamos habituando. Queríamos mais esclarecimento, mais planeamento, mais ponderação, e sai-nos sempre esta malfadada mania da propaganda. Por vezes, chego a pensar que este Governo é alguma empresa publicitária, mais interessada em vender o seu mau produto, mesmo que, para isso, tenha que dizer maravilhas dele. Quem não tem cão, caça com gato, é o que é!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(407)

AS “MANOBRAS DE DIVERSÃO” DE SÓCRATES

por Francisco Gouveia, eng.º

(A estratégia de Sócrates assenta em manobras de diversão como a estória das Maternidades. Ele sabe que, no interior, pode bater à vontade que a sua margem eleitoral não se abala. E, por outro lado, reforça a sua imagem de pretenso reformador. O litoral – que tem tudo ao pé da porta – aplaude e o interior protesta sem força, porque o interior não tem peso eleitoral.
Entretanto, o país encolhe-se. Economicamente, a fronteira com Espanha já entrou para aí uns 30 Kms dentro do nosso território. Muito brevemente metade de Portugal passará para o lado de lá. Vamos lá comprar, vamos lá trabalhar, vamos lá nascer.)

Enquanto os espanhóis se preparam para uma nova era, aproveitando o crescimento e a prosperidade que, neste momento, auferem, para continuarem a fazer o que têm feitos os seus sucessivos Governos, isto é, governar em contra ciclo, nós continuamos a penar nas nossas políticas deprimidas e moribundas. Os espanhóis devem a sua prosperidade a um enorme consumo interno e a uma estratégia que a alimenta, estratégia baseada na abertura quando as coisas estão mal e a uma grande contenção quando as coisas estão bem. Há dias, foi possível aos nossos vizinhos acordarem com os sindicatos normas mais rígidas e uma maior flexibilização de trabalho (numa altura em que tinham todas as condições políticas para fazerem exactamente o contrário) e calendarizaram os próximos investimentos públicos num sistema de grande contenção, optando prioritariamente pela investigação científica, educação e formação profissional, quando têm dinheiro para gastar à tripa forra. Ou seja: os espanhóis investem nas alturas de depressão e apertam quando os cofres estão cheios. A isto chama-se criar riqueza. Nós, por cá, somos o que se sabe: quando há, é gastar vilanagem; quando não há, é sopa com broa. Não admira, portanto, que o país viva em constante crise e em constante pessimismo. Sócrates, apesar de apelidado de corajoso e reformador, não consegue inverter este esquema maquiavélico a que nos habituamos. Mas sabe que tem de mostrar serviço, demonstrar que o que está a fazer é bem feito, provar que é um grande reformista. É evidente que, na sua mira estão as próximas (mas ainda algo distantes) eleições de 2009, e há que segurar o eleitorado. E a prova é que, apesar das dificuldades e das decisões polémicas, a sua popularidade tem aumentado. E porquê?
Perante as óbvias dificuldades pela falta de dinheiro, pela confusão administrativa em que chafurda este país, mas, acima de tudo, por falta de políticas consensuais à volta dos desígnios nacionais, havia que desviar as atenções do país para algo que fosse efectivamente polémico, onde ele pudesse provar a “excelência” da sua governação e, acima de tudo, onde o desgaste eleitoral fosse menos comprometedor ou até lhe trouxesse alguns dividendos. Terá sido assim que o nosso Primeiro resolveu virar as metralhadoras do seu “reformismo” para o interior. Ou seja: quando as coisas começaram a aquecer com a estória do défice acima dos 6%, com o crescimento económico abaixo da linha de água, com o desemprego a atingir números insuportáveis, etc., etc., os brilhantes estrategas de Governo começam a sua investida contra os parcos equipamentos do interior. Começam pelas escolas, depois pelos Tribunais, depois pelos Centros de Saúde, e por aí adiante até desaguarem num sector sensível e particularmente afectivo, como são as Maternidades. É claro que, em termos eleitorais, as mossas são mínimas e praticamente não existem: o eleitorado do interior quase não tem representatividade eleitoral e, aos olhos dos habitantes do litoral até parece que o Governo está a agir correctamente. Ao cabo e ao resto, o pessoal das grandes cidades do litoral tem os equipamentos ao pé da porta e, nesses, Sócrates nem mexe mesmo sabendo da má gestão e dos desperdícios que por lá se cometem. Assim, será fácil aceitar que um qualquer cidadão do Porto ou de Lisboa ache muito bem que, por exemplo, muitas das Maternidades do interior devam fechar. Mas mexam-lhe no hospital que tem ao pé de casa ou na escola que tem ao virar da esquina e veja lá se já concorda ou não! É que isto de pimento no tutu alheio não custa nada!
Sócrates está assim, aos olhos do país potencialmente eleitor, a fazer um bom trabalho. E também já entendeu que, com estas manobras de diversão, com um tiro mata dois caçapos: dá a entender que é um grande reformista e não abala a sua margem eleitoral.
Contudo, tudo isto cheira a uma grande treta, a algo sem nexo, como é o caso das Maternidades. Se as que vão encerrar têm deficiências pontuais, havia que supri-las. Não é nada do outro mundo nem nada que os cofres do Estado não pudessem suportar. Sócrates parece que não entendeu que o país está a encolher. Ainda recentemente, o Sr. Presidente da Câmara de Mirandela afirmou que a nossa fronteira com Espanha está a deslocar-se para 20 ou 30 quilómetros dentro do nosso território. E é verdade. Os portuguesas que vivem junto da fronteiras ou perto delas, já fazem todas as suas comprar do lado de lá. Muitos deles (especialmente no Minho) já compram casa em Espanha, seja primeira ou segunda habitação. Gás, gasolina, bens alimentares, materiais de construção, electrodomésticos, já se compram do lado de lá. Se a isto se soma o uso dos equipamentos básicos, temos que, num futuro próximo, Portugal vai ficar reduzido a metade.
Sócrates não é o homem corajoso que quer dar a entender. Se o fosse já tinha dado combate a quem devia: aos lobies poderosos, aos interesses corporativos, às regalias e à impunidade da classe que faz parte, ou às escandaleiras das gestões públicas. Um homem corajoso “bate” nos de cima; não dá “pancada” nos de baixo.
Sócrates vai fechar escolas sem ter ainda um plano de reforma efectiva da Educação em Portugal. Vai fechar muitos serviços públicos no interior sem planear alternativas. Vai encerrar Maternidades por mera questão de “demonstração de autoridade”. Sócrates quer dar ao país uma imagem positiva de homem decidido, de homem de convicções, de grande político. E sabe como fazê-lo mas pelo pior caminho: pelo da propaganda e não pelo das medidas correctas. Sócrates veio substituir Santana, seu amigo de painel televisivo e seu colega na ambição. Tenho dúvidas de que o país tenha beneficiado com a troca. Afinal, são pão da mesma fornada, farinha da mesma masseira. Com uma diferença: Santana era um ingénuo. Este é o que se vê.

nota: depois de escrever este artigo soube de duas propostas do Governo que vêm mesmo a jeito para confirmar o que disse nesta crónica: a primeira é a nova lei do arrendamento que vai permitir aos inquilinos adquirir as casas e que ameaça com a perda das mesmas aos senhorios que não lhes façam obras. Eu nem lhe discuto a constitucionalidade, nem a justiça, nem nada. Somente digo que é uma lei inútil porque é ineficaz. Não vai resolver nada e só vai provocar mais conflitualidade entre as partes, sendo de prever muitos casos de oportunismo a coberto desta lei. A segunda é que retira a representatividade à Igreja Católica no protocolo do Estado. É também, uma proposta para criar polémica e distrair as atenções, e nada mais. A lista protocolar proposta, em termos hierárquicos, é a anedota do ano. Quanto ao resto, o Estado que pense bem: se é a Igreja que precisa do Estado ou se é o Estado que precisa da Igreja.

gouveiafrancisco@hotmail.com

FRANCISCO GOUVEIA:
A ARTE DOS CORDOFONES POPULARES PORTUGUESES

Fomos ouvir um escritor falar sobre música. Sobre a música popular portuguesa, a música do Douro e os instrumentos de corda tradicionais. A guitarra braguesa, a toeira, a requinta, o cavaquinho, são instrumentos que Francisco Gouveia executa como ninguém.
Quem sabe do assunto, considera-o um mestre, e, diz quem já ouviu um recital seu, que é coisa que nunca mais se esquece.
Perante isto, e já que as páginas de um jornal não têm som, fomos entrevistá-lo sobre este seu novo projecto.

(entrevista dirigida pelo Dr. Armando Mansilha)

ND: Tem-se dedicado ao estudo e execução de instrumentos de corda populares portugueses. Como é que tudo aconteceu?

FG: É uma história antiga. Comecei a tocar aos 15 anos e iniciei-me na guitarra clássica. Na altura havia uma grande dificuldade de aprendizagem dado não haver professores e o curso não ser reconhecido pelo Conservatório. Foi uma caminhada lenta, com muito de autodidáctico, mas quem corre por gosto…

ND: Como faz então o salto da música clássica para a música popular?
FG: Depois dos meus estudos comecei a dar aulas de música e de guitarra. A primeira orquestra de guitarras clássicas do país foi fundado por mim, no Porto. É uma das minhas glórias e algo que me alimenta a vaidade, acredite, mas como tudo o que é inovador neste país, acabou por ser extinto.

ND: Extinto?
FG: É um velho problema de um país mesquinho. E muito egoísta. Não lhe vou contar o que se passou porque é penoso lembrá-lo, mas apenas lhe digo que muitas das boas ideias e das boas iniciativas se perdem por politiquices e interesses dúbios. Em Portugal é assim: nunca aparece ninguém para, desinteressadamente e “de borla”, fazer seja o que for. A carolice morreu. Mas se alguém cria algo de interessante, há-de aparecer sempre alguém para se aproveitar do que esse outro fez, afastando-o e tomando-lhe o lugar e a ideia. A obra feita acaba assim por ser destruída por esses interesses que nada têm a ver com a causa, com o ideal.

ND: E é então que aparece a música popular?
FG: Mais ou menos. As bases da guitarra clássica deram-me condições para estudar a guitarra portuguesa. São dois instrumentos diferentes, mas o que já sabia quer tecnicamente, quer teoricamente, ajudaram. Foi assim que comecei a estudar a obra coimbrã de António Brojo, António Portugal e, como é óbvio, a obras dos Paredes, dos três: o avô Gonçalo, o pai Duarte e o filho, Carlos Paredes. Desse trabalho resultou o meu disco de 1988, de originais para guitarra portuguesa, “Uma guitarra sobre o rio”, de parceria com José António Neves, professor de música e actualmente ligado ao Conservatório de Música de Vila Real e que, há mais de 30 anos me acompanha nesta aventura da música portuguesa. Nesse disco já se nota a influência da música popular, e foi precisamente a necessidade de aprofundar os meus conhecimentos sobre a música portuguesa que me levou aos cordofones. Era inevitável.

ND: Quer dizer que trocou a guitarra portuguesa pelos cordofones?
FG: Não, nem pensar. Continuo sempre a executar guitarra portuguesa. Toco-a todos os dias. No entanto achei que a minha atenção devia incidir sobre os cordofones populares portugueses pelo simples facto de que, na guitarra portuguesa felizmente já há muitos executantes que não a deixarão morrer, mas quanto aos cordofones, se não houver quem os estude e toque, em breve serão uma memória.

ND: Explique-nos então o que é isso de “cordofones populares portugueses”.
FG: São instrumentos de corda dedilhada, populares, e Portugal é o país do mundo que mais variedade tem neste tipo de instrumentos. Pouca gente o sabe, mas é para que veja como tratamos o que é nosso! Os mais conhecidos são o cavaquinho e a guitarra braguesa, também denominada por amarantina, mas há outros, muitos outros, a maioria já praticamente fora de uso como sejam a viola toeira, a campaniça, a da terra, a beiroa, a requinta, e por aí adiante. São instrumentos rústicos com alguma limitações mas que têm vindo a ser aperfeiçoados graças ao trabalho de alguns construtores, nomeadamente Domingos Martins Machado, em Tebosa, Braga, meu particular amigo e com uma modesta oficina que tem sido um autêntico “santuário” onde estes instrumentos têm sido aperfeiçoados. Há mais de 20 anos que a frequento e ali tenho contactado com muitos tocadores populares. Lá se aprende e lá se transmite. Há também a guitarra portuguesa, mas essa é um cordofone urbano, com as variantes conhecidas de Lisboa, Coimbra e também do Porto, se bem que actualmente quase sem seguidores. Dos cordofones a que me refiro e que fazem parte do actual projecto, constam, para já, só os de origem puramente rural.

ND: Mas esses instrumentos podem ser encontrados nos ranchos folclóricos.
FG: Podem, mas são geralmente tocados de uma forma primária, quase arcaica. Os bons tocadores foram praticamente afastados desses ranchos a partir de meados do século XX, altura em que a propaganda política de então resolveu servir-se desses ranchos para promoção do país, mas da pior forma. Era a moda do cartaz turístico para estrangeiro ver. Nesses ranchos cuidava-se prioritariamente do traje e da dança, em prejuízo da genuinidade musical. Depois veio a moda dos acordeões franceses e das concertinas italianas, cujo volume de som abafava quaisquer outros instrumentos, especialmente os de corda, mais delicados. Muitos bons tocadores acabaram por abandonar esses grupos. Já não havia espaço para a sua música. Que adiantava estarem a tocar se ninguém os ouvia? Era só acordeão e bombo! Os melhores tocadores não se conformaram, e debandaram. Por isso hoje é muito difícil arranjar material, pois eles não sabiam música e a sua arte passava de tocador para aprendiz. Com a falta de quem quisesse aprender, toda essa arte corre o risco de se perder. Os vestígios do que tocavam e como tocavam, hoje em dia, são muito poucos, contudo ainda se podem encontrar alguns bons tocadores, se bem que (acho eu) o melhor já se perdeu. O meu trabalho começa exactamente aqui. Tentar recuperar essa tradição dos grandes tocadores de cordofones populares.

ND: Mas se não há, como diz, grandes vestígios, como faz?
FG: Não me expliquei bem. Há vestígios, muito ténues, que é preciso saber interpretar. Mas acima de tudo há as matrizes, a lógica da execução. É uma espécie de código que vamos desvendando na medida em que vamos avançando. Os antigos tocadores populares, – os melhores bem entendido -, aqueles a quem o povo apelidava de “mestres”, eram exímios executantes, instrumentistas admiráveis. Na sua maioria detestavam acompanhar os cantadores e preferiam tocar sozinhos. Tocavam tudo, desde a música folclórica, à música ligeira da época, até adaptações de trechos de música clássica que tiravam de ouvido. Mas, na altura, entre o povo, o que não servisse para dançar não prestava. A maioria desses tocadores tocavam para si, isolavam-se, e a sua arte acabava por morrer com eles. Mas há elos comuns, como a técnica de execução, muito ligada à técnica da guitarra portuguesa, especialmente de Coimbra. Se ouvirmos muitos trechos de Duarte Paredes, de Brojo, etc, ali vamos encontrar matrizes exactas da música popular. Houve sempre uma grande relação entre a tradição instrumental coimbrã (por exemplo) e a música popular. Por vezes confundem-se. É ordenando este imenso puzzle que se consegue chegar lá.

ND: Mas esses tocadores populares não eram eruditos. Como atingiam esse elevado patamar?
FG: O patamar só é elevado relativamente ao comum da música folclórica, entenda-se. Em termos técnicos e até de composição, fica muito atrás da música dita erudita. Mas isso não é importante. O importante é provar que a música popular não é nem nunca foi “popularucha” nem se pode confundir com essa moda “pimba” que invadiu o nosso quotidiano. É algo de sério, algo que traduz uma faceta muito peculiar da genialidade portuguesa, isto é: fazer muito com muito pouco, princípio que temos esquecido com as consequências que conhecemos.

ND: Afinal, qual é o seu papel actual neste campo?
FG: Estudar e divulgar. Só que, neste momento, achei que era chegada a altura de divulgar. As experiências anteriores, tentadas por José Lúcio e Júlio Pereira, apesar de excelentes, não tiveram continuidade. Marcaram uma época de revitalização das cordofonia portuguesa mas depois, inexplicavelmente, não tiveram seguidores à altura. Por isso resolvemos avançar. Eu e o Prof. José António começamos no ano passado com uma experiência de apresentação pública, planeando um recital que exibimos em auditórios restritos. A receptividade excedeu tudo o que de melhor tínhamos imaginado. As pessoas aderiram de uma forma imediata, pois é algo que as toca, que está nas suas raízes. No final dos recitais não é raro comentarem que nunca imaginaram que um cavaquinho ou uma braguesa pudesse tocar assim. É a prova de como as entidades responsáveis têm tratado o que é nosso. Por exemplo: em Espanha (nomeadamente na Galiza) somos integrados em qualquer programa cultural, com todas as condições de auditório e de apoio logístico. Aqui, é o que se sabe: a moda é chamar um “pimbalhão” qualquer que nem sabe cantar e que lhes impinge um play-back musical, levam uma fortuna e no fim o que se lucrou foram mais alguns pontos na escala da imbecilidade portuguesa.

ND: Quer dizer que têm dificuldade em tocar em Portugal?
FH: Não é dificuldade. É uma questão de exigência. Não se pode tratar a música popular portuguesa como uma coisa menor. A música popular portuguesa, no patamar onde a colocamos, tem de ser ouvida ao nível de um concerto de câmara, de um recital de violino ou de piano. Quem nos vai ouvir tem de ir preparado para um recital com o formato clássico. Por isso recusamos tocar ao livre, ou em espaços que não cumpram com estas garantias. Não é um recital de música clássica, é certo, mas também não é um espectáculo de música ligeira. É também uma questão de respeito. Somos muito exigentes quanto a isso. Respeito por anos de trabalho, pela herança musical que recebemos, respeito pela cultura popular, a raiz de toda a forma de cultura. Mas não se trata de um recital soturno. Longe disso. É alegre, vibrante, de adesão imediata. Mas não abdicamos do formato de recital. E depois, tocamos sem rede, isto é, sem efeitos especiais, sem as muletas da electrónica, sem nada. O que se ouve é o som puro dos instrumentos e aquilo que o tocador sabe. Sem truques na manga.

ND: Então este ano vamos ter oportunidade de os ouvir?
FG: Ano passado, por vários impedimentos, que tiveram a ver com a precariedade do planeamento que fizemos, não tivemos oportunidade de apresentar esse programa onde pretendíamos. Este ano planeamos as coisas com mais calma e estabelecemos um calendário que nos vai permitir tocar com mais frequência. Começamos no Porto, depois temos agendado Vila Real, Mirandela, Caminha e estamos a preparar uma ou duas idas à Galiza, eventualmente Orense, Vigo ou Santiago. Interrompemos o programa durante o Mundial por razões óbvias, e Agosto, e prosseguimos em Setembro.

ND: E há mais projectos?
FG: O mais arrojado é o que estamos a preparar para Internet. Temos algumas propostas de editoras para gravação, contudo chegamos à conclusão que era preferível avançar para a construção de um “site” na Internet onde, gratuitamente, seja disponibilizada a nossa obra. Preferimos assumir esta abertura do que “encaixar” a nossa música numa qualquer editora. Se o que pretendemos é a divulgação, há que assumi-la sem reticências. A nossa música é para ser dada, não para ser vendida. As raízes de um povo não são para se negociar.

ND: Contam com alguns apoios oficiais?
FG: Nenhuns. Não estamos à espera deles nem sequer os pedimos. Somos contra esta moda da pedinchice. As entidades oficias, se de facto querem proteger o que é genuinamente português, têm de vir ter connosco. Não vamos ter com ninguém. Em Portugal criou-se o hábito desta aviltante mendicidade cultural. Quem manda no sector deve andar atento e tomar a iniciativa de o proteger. Por exemplo: o ministério da cultura já devia saber quem anda por cá há anos a defender o que é português. Não o sabe porque não se interessa. O entendimento do Ministério não ultrapassa a lógica dos subsídios, a protecção das barulhentas elites culturais da capital, dos amigos do partido, etc., etc. O ministério é capaz de gastar rios de dinheiro em pseudo-vanguardismos sem pés nem cabeça, é capaz de subsidiar projectos que deviam estar no campo do mercado comercial, e não dá um tostão furado para preservar a nossa cultura tradicional. Os nossos verdadeiros investigadores andam a produzir obra à sua custa. Há nisto tudo uma enorme promiscuidade, uma espécie de proxenetismo de Estado que deixa o que tem valia e interesse nacional a cargo dos bolsos dos carolas, enquanto alimenta a voragem de uns quantos que não têm qualquer qualidade, nem trabalho demonstrado, nem sabedoria, mas têm uma lábia capaz de convencer um indiano a comer um bife de vaca!
Eu não peço nada a ninguém! Não tenho jeito nenhum para pedir e muito menos para andar a bater à porta do Poder com o chapéu na mão! A obrigação do Estado é reconhecer quem trabalha e vir ter com as pessoas. Não é estar sentado nos gabinetes a estudar as propostas de subsídio de quem anda sempre a par dos dinheiros públicos disponíveis. Isso é desvirtuar o sistema, inverter a ordem dos factores. O Estado tem que estar atento, avançar e não esperar que venham ter com ele. Já editei nove livros e nunca pedi subsídios a nenhuma entidade, oficial ou particular. O último, por exemplo, foi a primeira obra dedicada aos 250º Aniversário da Região Demarcada do Douro. Vendeu que se fartou e continua a vender. A Editalma, que não persegue fins lucrativos, pô-lo à venda quase pelo preço de custo, e mesmo assim distribuiu imensas “borlas”. Recebeu encomendas do Brasil e algumas instituições privadas fizeram-no chegar aos PALOP’s. Já perdi a conta aos mails e cartas que recebi de apoio à obra. Contudo, nenhuma entidade oficial ou para-oficial, se dignou agradecer ou sequer mencioná-la em qualquer catálogo ou programa. Repare que, nem na RTP2 o Ministério reservou um espaço destinado a divulgar as acções daqueles que contribuem para a defesa da nossa cultura e que não possuem influência nem meios para divulgarem o que fazem. Mas como eu anda por aí muita gente, a dar o melhor do seu trabalho por mera carolice, amor a causas, e que é sempre ignorado por aqueles que detêm o poder. Somos um país inculto e iletrado onde os ministérios da cultura mais não têm feito se não reflectir esse estado de subdesenvolvimento intelectual.

ND: Noto-lhe algum desencanto.
FG: Não é desencanto, é revolta. Estou farto de ver a mediocridade, o interesse particular, o oportunismo no poder. Anda por aí gente a armar à cultura só para se amancebar a cargos. Quando conseguem esses cargos, arrebanham-se de amigalhaços que em três tempos rebentam os orçamentos em superficialidades. E o que é importante fica por apoiar. Quem não fizer parte do “rebanho” é posto de lado, ignorado. O que se está a passar em termos culturais no Douro, por exemplo, é exemplo do que falo. Mas vamos mudar de assunto. Falemos do outro Douro. Do Douro das coisas notáveis, do que vale a pena.

ND: Sabia que havia de tocar no assunto do Douro. Pergunto-lhe: há uma cultura popular duriense evidente? Isto é: há uma cultura popular genuinamente duriense?
FG: Se me pergunta se há uma definição folclórica, ou até etnográfica, como a que existe no Minho ou no Alentejo, por exemplo, digo-lhe que acho que não. No Douro a música popular é de influência. O Douro está encaixado entre Trás-os-Montes, onde a cultural musical é arcaica, rude, demasiado frágil para se expandir. Dali não veio grande influência. Donde veio, ou melhor, donde vieram as grandes influências do Douro, foram de três lados: Galiza, Minho (via Amarante) e Porto (via fluvial). Nesta mescla assenta a música tradicional duriense. Sobre o assunto aconselho a leitura do 1º volume do Grande Cancioneiro do Alto Douro, recentemente editado, da autoria de Altino Moreira Cardoso. Olhe: é mais um exemplo de uma obra que devia ser subsidiada e não o foi. É uma recolha notável, indispensável para quem se meta a estudar a música duriense. Mas respondendo à sua pergunta, não havendo algo de genuinamente duriense há, contudo, formas folclóricas muito próprias. A dança de eleição no Douro é a “chula”, mais propriamente a “chula rabêla”, que é diferente da chula minhota ou da chula litoral. Houve aqui como que uma mutação derivada da influência que, julgo eu, é puramente instrumental. Com uma forte componente portuense, mas, saliento, ainda sob a perspectiva instrumental. Sempre defendi que foram os tocadores que “inventaram” as modas, as toadas, as danças. É uma tradição que vem na senda trovadoresca do errante músico medievo, e que aqui no Douro se exemplifica pela forma como o rio exerceu uma pressão enorme sobre o folclore. Especialmente nos dois últimos séculos (XIX e XX), em que as “novidades” eram trazidas quase todos os dias pela via fluvial. Sabia que é no Douro que aparecem mais guitarras portuguesas incluídas nas rusgas? A guitarra portuguesa não é um instrumento de tradição folclórica rural. A guitarra portuguesa é um instrumento predominantemente urbano, contudo, aqui no Douro era usual cantar-se o fado (só o fado maior, bitonal), como moda folclórica e até como cantar de desgarrada. Até se dançava o fado. Algumas modas da zona de Barqueiros, por exemplo, demonstram a influência de algum instrumento mais completo na concepção da melodia e até do próprio arranjo. Era a influência da guitarra. Possuo alguns registos pessoais de tocadores que ainda conheci em vida e que demonstra essa influência. Com consciência do risco do que estou a dizer, posso afirmar que a música duriense sofreu uma grande influência de um tipo de fado que se extinguiu, o fado do Porto, que foi trazido pela via fluvial. Desse tipo de fado brevemente disponibilizarei na net e no tal site, alguns trechos. Há também a viola (ou guitarra) braguesa, que chegou ao Douro via Amarante, trazida pelos contratados ás vindimas que, pelo seu lado, já haviam importado do Minho. Baptizaram-na de amarantina, aumentaram-lhe mais três trastos, mas no essencial é a mesma. Tocava-se o fado na braguesa e dançava-se ao som da braguesa. Era quase uma heresia, porque dançar era ao som da concertina. E há a rebeca, espécie de violino pequeno que aqui era tocado como em nenhum outro lado. Esta facilidade de execução instrumental que excedia os conhecimentos populares da zona deve-se, quanto a mim e continuo a ressalvá-lo, à influência musical vinda do Porto e trazida pelos tocadores que embarcavam nos rabelos. Só lá podiam ter aprendido e evoluído, mesmo que rudimentarmente. Há também uma riqueza imensa de modas, toadas e canções, só justificada por essa influência variada e, convém não esquecer, contínua, pois as vindimas eram anuais e as migrações também.

ND: Estou a ver que tínhamos conversa para um século.
FG: A passar. Mas eu sei muito pouco. Recolho o essencial para o meu trabalho: a investigação instrumental. E creia que só este ramo me dá água pelas barbas. É o que me interessa aperfeiçoar. Mas é claro, acabo sempre por ter de mergulhar em assuntos profundos. Há, contudo, muita gente que sabe a sério da etnografia duriense. Eu limito-me a tentar interpretar as formas de tocar de outras eras, de as preservar, de aproveitar as novas condições tecnológicas, quer dos instrumentos que hoje se constroem com uma qualidade deslumbrante, quer das modernas tecnologias sonoras. Por exemplo: há cem anos era impossível tocar cavaquinho para um auditório de 500 pessoas. Hoje já é, e os da última fila ouvem com a mesma fidelidade como se estivessem na primeira.

ND: Uma última pergunta, inevitável. Como estamos de livros depois de Esboços Durienses?
FG: Tenho um romance pronto na minha editora comercial, a Bizâncio. A obra está em apreciação. Continuo com o meu projecto de escrever um livro anualmente. Se o romance não sair em 2006 ou 2007, sairá, pela Editalma, o segundo volume de Contos Serranos, que já está pronto.

ND: Esta é mesmo a última. E na Régua? Ou em Lamego? Ou noutro qualquer lugar do Douro? Quanto tocará por cá? E qual é o vosso cachet?
FG: É possível que aceite alguns convites que nos têm chegado de algumas autarquias e instituições. É só uma questão de acerto de calendário. Quanto ao cachet é barato: tocamos de graça desde que não se cobre à entrada ou, em caso de se cobrar, que seja para fins de benemerência devidamente justificados. Há também as situações onde é necessária a amplificação sonora e, para isso, não prescindimos o nosso técnico de som e o seu equipamento, e isso tem que se pagar, mas não é nada por aí além.

ND: Por cá não é muito habitual este tipo de “borlas”.
FG: A começar por quem manda. Por esse Douro fora não vejo idealismo, entusiasmo por causas, nada. Somente interesses em cargos remunerados, carreirismo político, proteccionismo clientelar, e por aí fora. Quase que apetece dizer que, neste quadro, estar de fora ou ser excepção, é uma honra.

(E, depois desta entrevista em sua casa, onde recolhemos as fotografias que a acompanham, encerramos com um almoço de fim de tarde na Foz do Douro esta agradável troca de impressões com Francisco Gouveia, que avança com um novo projecto, desta vez no âmbito musical, como se a escrita não lhe bastasse. É uma polivalência que nos deixa, por vezes, embaraçados. O escritor, o cronista, o etnólogo, o músico, o professor, o engenheiro? É o universo de Francisco Gouveia, e está tudo dito. O que vem aí, não é para se ler, é para se ouvir.)

foto 1

Francisco Gouveia e parte da sua colecção instrumental. Toca todos os instrumentos que possui.

foto 4

Francisco Gouveia e José António Neves em concerto. Tocam juntos há mais de 30 anos.

(408)

COISAS DO CARAÇAS!

por Francisco Gouveia, engº

Ela há dias do caraças! – como diz o meu barbeiro. Dias em que acordámos com a “telha” e até parece que o mundo se juntou inteirinho para se virar contra nós. No dia em que escrevo esta crónica, estou assim: de mal com o mundo. Hoje não capaz de fazer nada que me saia bem. Possivelmente nem devia escrever este artigo e limitar-me a sentar-me debaixo de uma tília à espera que o temporal passe. Mas é impossível! Vai daí, resolvi ir dar um jeito às melenas e desabafar com o meu confidente, o tal barbeiro que, enquanto me tenta dar à cabeleira de cinquenta o ar da de um jovem de vinte, me atura as confidências e dá o seu palpite, ao jeito de filósofo experimentado por anos e anos a ouvir desgraças e alegrias dos clientes que fazem da sua cadeira de barbeiro o divã de um psiquiatra. Se Freud soubesse o que se diz naquelas cadeiras enquanto a tesoura nos poda a capilaridade, teria mudado de profissão!
E veja lá – digo eu ao meu confessor – Aqueles bananas nem um golo lá enfiaram! Referia-me, como já adivinharam, ao resultado dos sub-21 que levaram uma ensaboadela duns tais sérvio-montenegrinos que a gente nem sabe donde são!
– Ele há coisas do caraças! – responde o barbeiro.
Pois há. Uma selecção de ressabiados, é o que é, que andam para ali a correr, perdidos nas tácticas inexistentes, com o pensamento na selecção principal e em muitos marretas que lá estão, enquanto eles, que se esfarraparam todos esta época, são convocados para o refugo. Uma selecção de esperanças deve ser isso mesmo, de jovens a despontar, não de jogadores que já desabrocharam e a quem se deviam dar oportunidades mais altas.
E, enquanto disparatamos com considerações futebolísticas de quem não tem mais que fazer, a televisão da sala – que nisto de comunicação o meu barbeiro é moderno e quer os clientes entretidos – dá a última novidade da guerra em Timor.
– Ele há coisas do caraças! – insiste o homem parando o corte, tesoura numa mão e pente na outra, olhando para o tiroteio timorense que passa de repente na TV. É triste: um país ainda criança, criado com muito sangue, inaugurado com pompa, e agora, meia dúzia de dias depois, desatam a matar-se uns aos outros!
– Mexêro c’os soldados, fodiscaram tudo! Ele num é bom desempregar gente com armas na mão! Também, num têm que comer, os desgraçados. Já biu, senhor inginheiro, um país tão pequenino! Ele há coisas do caraças! – o barbeiro abana a cabeça em sinal negativo.
Nem como padrinhos de uma pátria nos safamos! E agora? Quem vai controlar aqueles revoltosos? Que fazer de um país que não tem um tostão de rendimento e tem uma população inteira desempregada, com fome, e com as esperanças de melhor vida a dissiparem-se no dia-a-dia das dificuldades insanáveis?
E por falar em más notícias, recebi uma que me dá conta de que um amigo meu sofreu um acidente grave. Por uma imprevidência. Desabafei-o ao homem da tesoura.
– Ele há coisas do caraças! – suspira o barbeiro – Um homem nunca está bem! O diabo tenta a cada esquina quando menos se espera! É o caraças, o diabrete!
Por falar em diabrete (salvo seja) parece que Sócrates tem agora um problema gravíssimo que nos deve preocupar a todos. Mas parece que só eu me preocupo. O resto da sala continua a malhar na selecção B e a dar pancada na A. Mas eu torno com a minha: os cofres do Estado estão vazios, disse hoje um jornal daqueles que se alimentam de escandaleiras e das imbecilidades das vedetas de pés de barro. A continuar assim vamos à bancarrota!
– Quem gasta mais có que ganha, é no que dá. Estes políticos deram-nos cabo das economias. E andou cá o velhinho a poupar para esta cambada gastar tudo de uma vez. Ele há coisas do caraças! – o “velhinho” é um tal Salazar, homem sempre providencial a quem o meu barbeiro recorre quando quer estabelecer comparações radicais, e a tal “cambada” já os meus leitores adivinharam quem seja.
Mas o meu amigo não me sai da cabeça. Desastre escusado. Se a gente adivinhasse! Mas somos todos assim, sempre a correr, cientes de que os azares só batem na porta dos outros. Acidente escusado, sim senhor, mas que se lhe há-de fazer? Pior ficou o Jorge Andrade. E eu a dar-lhe com a mania do futebol!
E a gasolina? Quem a aguenta? Qualquer dia tenho que andar com uma bomba da GALP colada na porta do OPEL (passe a publicidade, tenho desta marca, pequenino, económico. Esta do económico, nos dias de hoje dá vontade de rir!
– É a salvação do Governo! Então o sinhor inginheirio num bê? Sobe o pitrol e é mais imposto que entra! Ai se num fôsse o dinheirinho da gasosa! Ele há coisas do caraças!
Um mestre de economia, este meu barbeiro. De facto…
– Bocê já biu essa tropa a mamar reformas de milhares? Donde bem o pilim se está tudo teso? Do caraças? – “tropa” designa a elite reformada pelo Estado e pelos organismos públicos com valores de reforma a que o meu barbeiro nunca chegará. Ele, coitado, nem sabe se algum dia terá direito a ela! Também para quê? Para coçar os fundilhos num banco a jogar à “sueca”? Quanto a “mamar”, trata-se de uma expressão popular que tanto designa a boca de um bébé no mamilo maternal como a bocarra de um adulto no erário público. Está feita a tradução.
Penso outra vez no azar do meu amigo, quando nessa altura a TV anuncia mais um incêndio numa fábrica. Pára o corte! Novamente plantado em frente do écran, tesoura na mão e pente na outra, ninguém o distrai enquanto não ouvir a notícia.
– É uma desgraça! As fábricas neste país, ou fecham ou ardem! Ele há coisas do caraças! – o meu barbeiro dava cá um comentador televisivo! Marcelo havia de se ver aflito para segurar as audiências. Mas é assim: todos os dias lá vão elas para o Leste ou para a China. Política industrial baseada em salários baixos tem destas contrariedades. Mas todos os dias ficam centenas no desemprego e as autarquias, no geral do país, estão a admitir cerca de 500 novos funcionários por mês! É o que diz o senhor que está a ler o noticiário.
– Ele um dia deste somos todos funcionários do Estado. O sinhor inginheiro bai ber! Eu a cortar cabelo com horário, a ganhar tanto se cortar um como se cortar cem! Ele há coisas do caraças – o homem risse. Sabe que nunca será funcionário público, mas se pudesse!…
Volto à vaca fria: o meu amigo descuidou-se, foi o que foi. Já tinha idade para ser mais cuidadoso! – e o pensamento foge-me outra vez até ele. Sou salvo da depressão pela TV.
E pronto! Lá vem outra vez a história do Fernando Santos e do Rui Costa! De minuto a minuto, há uma reportagem especial sobre o assunto. É assim há dias.
– Estes benfiquistas debe andar tôlos! Olha o Nandinho, o amigo do nosso patrão! É um treinador muito medroso. E o Rui Costa! Que rico fim de carreira, com 34 dele nas pernas! O Benfica parece o Lar do Comércio! Ele há coisas do caraças! – o meu barbeiro dá uma gargalhada.
Eu traduzo: o “nosso patrão” é o Pinto da Costa e, como já adivinharam, o meu barbeiro é dragão como eu. Nem podia ser de outra maneira: eu tinha lá confiança que um sportinguista ou um benfiquista me encostasse uma vez por mês a navalha à garganta! Dragão confia em Dragão, carago! Quanto ao Lar do Comércio, é uma das mais antigas e honráveis instituições do Porto que se dedica ao acolhimento e protecção da terceira idade. Que me desculpem os benfiquistas, mas este barbeiro é uma boca pior que mulher de soalheiro.
Nisto, tenho o cabelo à maneira!
– Está pronto, sinhor inginheiro!
Ora bolas! Lá se foi a minha meia hora de psicanálise naquela bendita cadeira!
Pago, despeço-me, visto o casaco e saio.
O dia parece-me melhor e o sol mais quente. Fez-me bem a cavaqueira com o meu barbeiro. Paga-se mal aos barbeiros, porque a consulta foi de borla.
Lembro-me outra vez do meu amigo. Que é que eu posso fazer?
Passo a mão pelo cachaço a ver o assentamento do corte, olho para o relógio e dou graças porque o dia se aproxima do fim. A noite acalma-me.
Meto a chave na ignição do carro e arranco, devagar, a fazer render o tempo. No rádio tenho sempre um CD com música clássica que, quase diariamente, mudo. Desta vez tenho lá Bach – umas tocatas para cravo interpretadas por Richter. Um grande intérprete que fez a gravação quando já tinha quase noventa anos. Uma obra-prima!
Consta que também teve um acidente, como o meu amigo.
Ele há coisas do caraças!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(409)

A RAZÃO PRINCIPAL

por Francisco Gouveia, engº

(Ontem a agricultura, hoje as pescas. A extinção da actividade está à vista para os homens do mar, como já aconteceu com o mundo rural. Sabem hoje que lhes pagam a dez o que é chega ao consumidor a cem!
Mudam-se os tempos mas permanece a razão de fundo da nossa desgraça colectiva: quem produz é quem menos ganha)

Há factos tão evidentes que derrotam todos os estudos, todas conjecturas, todas as estatísticas com que temos pretendido justificar a desertificação do interior. Estafamo-nos a arranjar desculpas que nos aliviem a consciência e, por vezes, não percebemos que as grandes crises, as grandes derrotas, têm motivos óbvios, lineares, evidentes. O interior está a desertificar-se por causa da falência do mundo rural, e o mundo rural faliu porque caiu numa teia medonha de interesses que não o compensavam justamente como primeiro factor (o produtivo) da cadeia comercial alimentar. A semana passada o país estremeceu com a notícia de que o peixe que nos chega à mesa é dez vezes mais caro do que na origem (o pescador). Como se não estivéssemos fartos de saber! Ainda me lembro, era eu menino e moço, que vinha um tal senhor de camioneta, comprar a batata a 10$00 a arroba que depois era transaccionada no Porto pelo mesmo preço, mas ao quilo! E era assim na fruta, no cereal, no vinho. Chamavam-se a esses “tais”, os “candongueiros”, gente que – dizia-se: “vinha comprar galinha gorda com um tostão furado”. E havia uma teia bem articulada desses candongueiros que combinavam entre si o preço, este aqui e o outro acolá, e arrebatavam ao pobre lavrador os produtos por uma miséria. Fizeram-se fortunas assim. Mas o pior é que ainda hoje se fazem. E se agora se sabe que o mundo piscatório está à beira da falência, é porque o país não aprendeu com a lição do mundo rural que faliu exactamente pelo mesmo motivo. Quando o lavrador, espezinhado pelos intermediários e sem ouvidos no Poder que o protegessem, resolveu abalar por terras da Europa em busca de sustento, fê-lo por causa da exploração a que era sujeito. Era um círculo vicioso: quem tinha terras não ganhava para pagar ao justamente ao pessoal, e quem não as tinha não ganhava para a elas ter acesso. O mundo descontrolado (permissivo e sempre tolerado pelo Poder) dos intermediários, deram e continuam a dar cabo deste país. Compram por um o que vendem por dez. E o elo principal da cadeia, o produtor, que devia ser o mais forte, é assim o mais fraco. E nem nisto o Poder tem esperteza, porque é muito mais fácil controlar fiscalmente a partir da produção do que, depois, tentar palpitar pelo que circula. Não tenhamos receio de o dizer: o mundo rural faliu por que não era compensado pelo que produzia. E mesmo agora me espanto com as campanhas levadas a cabo por CAPs e outros, assentes em contestação a subsídios e outras coisas que sabemos irem acabar, e não se mobilizarem contra a exploração de que a agricultura continua a ser vítima. Se tivéssemos um controle eficaz sobre os preços, desde a origem até ao destinatário final, veríamos se havia agricultura ou não! Contudo, tudo serve para inviabilizar qualquer tentativa de controle: ou é a economia de mercado que não o permite, ou é a lei que é antidemocrática, ou são os espanhóis que produzem mais barato, ou é isto ou é aquilo. Contudo, ninguém assume esta realidade: por exemplo, cai-nos a batata na cidade a 45 cêntimos quando é paga a 5 na origem!
O que se está a passar nas pescas, prenúncio de uma extinção mais do que anunciada, é, passo por passo, o mesmo que aconteceu no mundo rural. E nem sequer o fato de termos 2/3 do país banhados por mares e uma tradição marítima invejável, nos faz parar e meditar sobre o que estamos a fazer a uma parcela importante da economia nacional. Noutro país, com outra mentalidade e com as nossas condições naturais e experiência ancestral, já teríamos uma das melhores frotas pesqueiras do mundo, os melhores cais, os melhores técnicos, os melhores centros de estudos marítimos do planeta. Assim, ficamos com a chancela dos eternos coitadinhos que recebem com cara alegre subsídios para abater barcos, que aceitam o que a Europa quer que sejamos e não o que queremos ser, e que vemos, com olhos arregalados, o poderio piscatório espanhol a crescer. A nossa pobreza, meus amigos, está na pior das pobrezas: na mental. Não está nos bolsos vazios, nem na pequenez do país, nem na parca população, está sim nesse mal que nos assola desde sempre e do qual não nos conseguimos libertar: esta mentalidade bacoca e derrotista que nos tolhe a ambição. Esperamos pelo Euromilhões em vez de nos fazermos à vida, sentamo-nos de cerveja na mão à espera que a selecção nos dê a alegria que o quotidiano nos recusa, lamentamo-nos constantemente como se o desabafo fosse por si só uma vitória. E, ao mesmo tempo, vemos a raiz dos problemas mesmo à nossa frente e somos incapazes de a arrancar. Não me admira, portanto, que as pescas vão “de vela”, como foi a agricultura, e pela mesma razão: desprezo por quem produz. E o que mais me custa é verificar que as causas que derrotaram a produção antes do 25 de Abril, são as mesmas que agora arrasam com sectores básicos da nossa economia. As redes intermediárias assumiram em Portugal um peso excessivo. Entre o produtor e o consumidor final há todo um mundo obscuro que engorda à custa de ambos: por pagar pouco a quem produz e exigir muito a quem consome. Há dias, quando o Expresso publicou uma reportagem explosiva onde denunciava crianças de Felgueiras que coziam sapatos de marca por 40 cêntimos/par, sendo esta uma das principais operações de um produto que chega ao mercado a 40 e mais Euros, estava só a pôr o dedo numa das feridas: o trabalho infantil. Mas este facto ignóbil está relacionado com outro muito mais medonho: a tal rede de intermediários que já não se contenta em explorar o adulto, pois até crianças servem para lhes aumentar o lucros. Esta sofreguidão pelo lucro fácil, esta mentalidade doentia que vê em tudo forma de ganhar dinheiro, é algo que se foi enraizando na nossa torpe mentalidade. Hoje em dia é mais louvado o cretino que tem boa casa e bom carro à custa de traficâncias, do que o competente e honesto que vive em apartamento velho e tem carro a desfazer-se. Esta maneira de pensar está a matar-nos aos poucos. O país desfaz-se em corrupção, em tolerância com interesses ilícitos, em deixar à rédea solta uma corja de exploradores que soma atrás de si terra queimada e só terra queimada. Ontem a agricultura, hoje as pescas, amanhã o que resta da indústria. Pelo mesmo motivo: quem não produz a ponta de um corno é quem mais ganha. Seja em que ramo de actividade for. É o país que temos e que, todos os dias, inventa desculpas para a sua situação caótica, não vendo que a razão principal é tão simples como esta: a desonestidade. Mas a questão é mais grave, e eu pergunto: a epidemia, por antiga e altamente contagiante, será que já não terá infectado tanta gente que se torna impossível combatê-la?
E é esse o meu medo!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(410)
artigo p/ o aniversário

OS ANOS PASSAM…

por Francisco Gouveia, eng.º

Parece que foi ontem mas não foi. Já lá vão muitos anos de colaboração neste semanário. E, todas as segundas-feiras, lá redijo o meu texto para edição dessa semana. O hábito deste ritual enraizou-se de tal forma no meu dia-a-dia que, se por acaso me esquecer de escrever a tal crónica no dia referido, chego à noite com a sensação de que me falta algo. E como não quero que me falte nada, corro para o computador. É que, para que saibam, eu também sou um cronista moderno, apesar de provinciano e sempre de dente arreganhado, mas que já usa há muito essa máquina infernal que enriqueceu o Sr. Bill Gates e nos facilita de que maneira o trabalho, mesmo com a paga de nos transformarmos em escravos da tecnologia informática. Sobre este aspecto (e outros mais) não sou muito saudosista, e reconheço que a escrita jornalística de outros tempos era cá uma estafa que nem vos conto! Agora, as coisas são mais fáceis (acho eu), mas ao mesmo tempo essa facilidade técnica exige um apuramento mais exigente. Isto é: tem que se escrever melhor ou então de nada valerão computadores e facilidades editoriais. Pessoalmente, acho que, hoje em dia, em média se escreve com melhor qualidade, se bem que se tenha perdido alguma veia satírica, alguma acuidade, alguma independência, aquele algo a mais que transformou a imprensa regional num caso à parte no jornalismo. Hoje em dia há mais apuramento de texto, e o prato gastronómico da pulverizada imprensa regional, está mais adornado, mais atraente à vista, mas com falta de tempero. Parece que caiu numa dieta de sal e pimenta. É tudo muito sensaborão, desinteressante. Dizem-me que se trata de uma questão de elegância, de cordialidade, de educação, mas eu não acredito. Escreve-se hoje sem pimenta por outra razão: a falta de coragem, no pior, e, mais brandamente, por não se querer molestar este ou aquele (por arrastamento, para não se comprometerem interesses). A escrita jornalística regional, hoje, peca por essa coisa inquietante que a desvirtua e que se chama: sobrevivência. Económica e financeira, está bom de ver. Se não, vejam lá: grande parte dela depende de anúncios oficiais (municípios, instituições do Estado, tribunais, etc) e de anúncios de particulares. E então é assim: acham que fulano, presidente disto ou director daquilo, depois de se ver criticado num jornal, lhe vai enviar publicidade? E a empresa Xis, que depende dos despachos da entidade Ypslon, acham que vai continuar a anunciar num jornal que anda de candeias às avessas com a tal entidade que a salva nos despachos? E depois há as amizades pessoais, terras de ruas estreitas onde todos se cruzam. Como criticar beltrano que se senta na mesa ao lado do café e a quem diariamente cumprimentamos?
Tudo muito complicado, como vêem. Contudo, ninguém se escudaria nestas desculpas se houvesse uma outra cultura na crítica. Se se criticassem os actos, as decisões, dentro de parâmetros justos e de respeito pela dignidade individual, as coisas seriam diferentes. Mas não é assim: quase sempre, a uma má decisão se associa logo uma má índole, e, de degrau em degrau, o cronista conclui que é melhor não ir por ali. Tem medo de se meter num caminho que o possa levar à barra de um tribunal ou à perda de um conhecimento importante. E, neste caso, a situação é pior, porque, à tal cobardia se acumula a ignorância. As duas juntas são uma mistura explosiva.
E vem isto tudo a propósito de que “os anos passam”. Passam sem que possamos fazer nada para os deter. Sendo assim, resta-nos uma única saída para contornarmos a inexorável marcha do tempo: aprendermos com ele. Isto porque o tempo é um chato que não nos dá nada! É um ladrão que só nos rouba, principalmente os anos, a juventude, os dias. Então, pelo menos aprendamos com ele e tiremos algum partido da sua crueldade. Nada mais podemos fazer.
Nestes anos que para aqui escrevo, há, pelo menos, duas coisas que aprendi com essa larápio do tempo: a cultivar a coragem e a combater a minha ignorância. Quero ter muito da primeira e muito pouco da segunda. E é neste combate diário contra a minha situação de humano pressionado por todos os lados, que persisto em manter algum arrojo que me permita escrever algo que valha a pena ser lido. Da mesma forma que continuo ávido por saber o que não sei. Não entendo a existência de outro modo.
Os anos passam mas, pior do que os anos a passarem, é o tempo perdido. Escrevi um dia, num dos meus contos (Meiga, como a voz da montanha), pela voz de um velho personagem que inventei, que se voltasse ao passado faria tudo igual, as coisas certas e as asneiras, pois ambas fazem parte da caminhada do homem nesta terra. Uma coisa, porém, evitaria a todo o custo: perder tempo. Esse ladrão do tempo é, apesar de tudo, de muita valia. Perdê-lo é perdermos a coisa mais valiosa que possuímos. Não é o dinheiro, nem as honrarias, nem os cargos, nem o património, aquilo que de mais valor temos. O tempo sim, é a única moeda com cotação garantida e segura neste mundo oscilante de altos e baixos.
Por isso, querem um conselho: não percam tempo. E, para quem escreve ou pensa escrever nestes semanários, que façam o mesmo. O papel está caro, a tinta também e, ou se escreve algo que valha a pena ou é melhor nem pegar na caneta (no computador, neste caso).
Escrever é, também, não perder tempo.
Os anos passam – e deixá-los passar. Eu, pela parte que toca, nem dei por eles. Sinal de que dei o meu tempo de escrita neste Notícias do Douro por bem empregue.

Aos meus colegas de escrita, ao pessoal da redacção e da tipografia, à Direcção e, muito particularmente, aos leitores que me vão aturando, o meu obrigado pelo tempo que me têm dedicado. É, para mim, uma honra, que tenham gasto um pouco do vosso precioso tempo com o que escrevo.

Ao Notícias do Douro os meus parabéns por mais um aniversário.
Com ele, envelheço também eu, mas não me importo.
Tem valido a pena.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(411)

QUEM ANDAR MAL COM A VIDA,
NÃO DEVE LER ESTA CRÓNICA

por Francisco Gouveia, Eng.º

(A história que aqui vos conto, aconteceu realmente no passado dia 8.
As conclusões, inventei-as eu.)

Agora, volta e meia, passo na Ribeira do Porto a caminho da Foz. Quase dia sim, dia não, e lá vou eu em direcção à Catedral de S. João Baptista por causa das obras de recuperação deste templo setecentista, coisa complicada e trabalhosa que dirijo com dedicação acrescida por se tratar da casa de quem é. Assim, amiúde, percorro a marginal do rio, quase sempre distraído nos meus pensamentos, alheio ao corrupio das gentes e sem reparar na beleza que me cerca. Faço mal – confesso – mas as tantas vezes que por lá passo já me gravaram na memória a paisagem pelo que – julgo eu – nada de novo posso reter se parar para a ver. Excepto nesse tal dia 8 quando, já muito perto da ponte D. Luís, observo um movimento anormal no rio, com vários barcos rabelos (turísticos) parados no mesmo lugar. É raro poder observar-se um ajuntamento assim pelo que, parei o carro e muni-me da minha máquina fotográfica para tirar umas fotografias àquele espectáculo fluvial. Lá fui batendo umas chapas (chapas é maneira de dizer porque a máquina é digital) até que, subitamente, reparei que estava a mais naquele filme, ou então havia algo ali que eu não estava a perceber. No meio dos rabelos, um barco dos bombeiros navegada de um lado para o outro obedecendo a ordens que lhe vinham da margem, mais acima. Um senhor de idade, sentado na amurada, mesmo ao meu lado, saiu-se com esta:
– Está bem, está! Agora é que nunca mais o apanham!
Foi então que caí em mim e reparei que a minha distracção tinha ido longe de mais e que qualquer coisa de grave tinha acontecido. Informou-me então o tal idoso, perante a minha pergunta sobre o que se havia passado:
– Foi alguém que se atirou da ponte abaixo – e apontou para a ponte lá ao longe, a recente Ponte S. João – e veio a boiar até ali – e apontou novamente para o sítio onde o tinham visto pela última vez antes de submergir nas águas verde-escuras do Douro.
E, desta vez sem que eu lhe perguntasse mais nada, foi narrando:
– Tem sido isto dia sim, dia não. Umas vezes é desta (ponte D. Luís), outras vezes é daquela (ponte S. João, em betão, última obra de mestre Edgar Cardoso e que dista da primeira aí quilómetro e pico).
Confesso que fiquei meio apalermado, como se tivesse desembarcado num planeta distante, e a minha primeira reacção foi a de apagar as fotografias que tinha tirado. Foi uma espécie de repulsa pelo facto de ter gravado despudoradamente a cena trágica das buscas do corpo, mesmo sem saber que o estava a fazer.
Neste entretanto patético, mais uma vez, o velhote interrompeu-me os pensamentos. Ele, da maneira que falava e pelo que dizia, devia ser dali, da zona ribeirinha, e, pelos anos que já carregava no lombo, já devia ter visto muitas cenas iguais.
– É a puta da crise, meu amigo. Mal a coisa aperta, é vê-los a atirarem-se da ponte abaixo como tordos. Esta semana já vai no terceiro.
E, num desabafo, como se tivesse encontrado a razão daqueles suicídios, acrescentou:
– Não é coisa de desgosto, de paixão assolapada, que eles e elas agora mudam de namoro como de camisa, nem é por doença nem nada. É por causa disto – e esfregava o indicador com o polegar no sinal que o tempo codificou como sendo a representação popular do “vil metal”.
– Alguns andam por aí desesperadinhos, sem saber que fazer pr’á ceia! Filharada em casa sem comer, dívidas por todo o lado, a mulher a berrar, e eles sem saberem como arranjar com que os calar. Depois, olhe, é como vê, atiram-se da ponte abaixo e acaba tudo. A crise é no que dá.
– Foi homem ou mulher? – indaguei eu, como se isso tivesse alguma importância ao caso.
– Parece que foi homem. Mas são homens e mulheres. A maluqueira tanto dá nuns como noutros. O pior é dar. E quando dá, trás!: Ponte abaixo e está o caso resolvido. E olhe que não faltam cá na cidade, pontes a dar c’um pau!
Enquanto me contava o sucedido, os rabelos retomavam a marcha. Já nada podiam fazer e estavam carregados de turistas que não tinham pago para ver tragédias.
O barco dos bombeiros lá continuava, de um lado para o outro, com um sapador pendurado na proa a olhar o rio a ver se descortinava o afogado suicida.
Depois, reparei que estava ali a mais. Havia quem se fosse aproximando e a amurada já estava cheia de gente, cada qual a debitar razões e a murmurar queixumes, mas aquela curiosidade mórbida provocava-me uma profunda repulsa.
Entrei no carro e arranquei muito devagar. Na Catedral estavam à minha espera. O relógio acusava o meu atraso, mas, contra o que é meu costume, não me importei. Agora, sentia que o tempo já não tinha significado. A pressa arrepiava-me e estava esvaziado de ideias. Lembrava-me somente do desgraçado que escolhera o rio para solução do que o atormentava. E eu sabia lá o que o atormentava! Sabe-se lá o que vai na cabeça de cada um! O que levaria aquele homem a tal estado de desespero?
E, num ápice, pela minha memória passaram as centenas de mesas redondas a que assisti, os debates sobre o estado da Nação, os pareceres das eminências da nossa vida pública, as guerrinhas mesquinhas e ridículas da classe política, enfim, o mundo frio e cruel dos palpites de quem está bem na vida. Como é fácil falar de barriga cheia!
De repente, num momento, o acto louco do suicida tinha descrito o que todos os tratados juntos eram incapazes de contar: o desespero. O desespero de quem quer trabalhar e não tem aonde, o desespero de ter filhos para sustentar e não saber onde buscar sustento, o desespero de ver a vida parada sem saber que rumo tomar. Por outro lado, todas as políticas, as promessas, os planos, se esvaziavam de sentido perante a crueldade de uma realidade que aporta já em si a solução: a solidariedade, a tal que pode resolver as questões do mundo e que recusamos porque o nosso egoísmo se sobrepõe à nossa razão. “É a puta da crise” – dizia o velho, atirando para o concubinato as maleitas económicas, reservando-lhes assim um lugar no mercado carnal, onde pedaços de vida se compram e vendem como se fossem mercadoria de feira. Nunca a palavra “puta” me soou tão a propósito. De tal forma que nem me inibi de aqui a reproduzir. Bem quis trocá-la por outra mais branda e retocar a frieza da língua do velho, mas era desvirtuar a cena, adornar a realidade, fazer, ao fim e ao cabo, o mesmo que se anda a fazer a este país: a ornamentá-lo com tolices!

Cheguei atrasado ao templo do meu santo, está bom de ver. Mas o santo não se importou. Á entrada, olhei para a estátua dele que sobressai num nicho sobre a portada, e ainda lhe disse, na telepatia que só eu e os meus santos entendemos: – “Foi de uma ponte com o teu nome que o homem se atirou” – como se ele tivesse culpa alguma por o homem se lançar dela abaixo, como se ele tivesse culpa de terem posto a uma ponte o seu nome, como se ele tivesse culpa da minha depressão.

Era já fim de tarde quando abandonei a Catedral.
Despedi-me do santo e tive raiva por, naquela altura, nem disposição ter tido para rezar um padre-nosso pela alma do desgraçado.

Na volta passei pelo mesmo local. Ainda lá andavam os bombeiros, a polícia, o arraial dos curiosos.
Não parei o carro, mas abrandei. Tentei ver se o velho ainda lá estava mas não dei com ele.
Segui.
No ar pairavam farrapos da tal crise, a meretriz, à espera de catar à vida mais uma vítima, qualquer desesperado que escolhesse o Douro para jazigo.

gouveiafrancisco@hotmail.com

FRANCISCO GOUVEIA apresenta ESBOÇOS DURIENSES
na FEIRA DO LIVRO DO PORTO

No passado dia 9, o escritor Francisco Gouveia esteve na Feira do Livro do Porto onde apresentou a sua mais recente obra: ESBOÇOS DURIENSES (obra que o autor dedicou ao 250º Aniversário da Região Demarcada do Douro) tendo para isso contado com a colaboração da Editorial Bizâncio que cedeu o seu stand para o efeito. Já aqui noticiado, a obra encontra-se à venda na região desde o mês de Março, e passa agora a estar à venda, também, nas principais livrarias do Porto (Latina, Leitura, etc). Francisco Gouveia faz parte do catálogo de autores portugueses daquela editora, que está a analisar o seu mais recente romance (inédito) com vista à sua edição. Foi uma boa altura para conversar um pouco com os seus leitores portuenses, conviver com outros colegas de escrita e ajudar a divulgar o Douro.

(412)

OS 7 PECADOS MORTAIS DESTE PAÍS

por Francisco Gouveia, Eng.º

Nunca estivemos tão perto da hecatombe económica. Ando a dizê-lo há meses. E eu, que até nem dou grandes ouvidos aos “velhos do Restelo”, já percebi há muito que isto ia acabar mal. Muitos como eu (que sabem muito mais do que eu), já detectaram sintomas da situação complicada que vivemos. A mais evidente foi a referida há cerca de duas semanas onde se dava conta da pressa de Sócrates em vender algum Património para fazer frente a uma possível falha de Tesouraria. Sublinho bem: Tesouraria. Ou seja, já não estamos perante uma mera questão de desacerto económico ou de crise financeira momentânea, mas sim de falta de dinheiro – erário esgotado ou cofres vazios, como queiram. O recente encerramento da Opel da Azambuja, colocando no desemprego mais de mil operários, é a prova de que, mesmo o que funciona bem, cá não tem viabilidade. O que se passa então? Quais as razões que nos conduziram a este muro?
As razões da nossa derrota prendem-se com vários factores, mas com um denominador comum: a má governação. E entenda-se como má governação, a forma, ou as formas, como temos vindo a ser governados desde há trinta anos a esta parte (para trás não falo que é proibido). Os pecados de que padecemos, serão, quanto a mim, estes, não necessariamente pela ordem que escolhi.
Primeiro, porque somos um país governado aos solavancos: gasta-se quando há e aperta-se quando não há. Conclusão: não criamos riqueza.
Segundo, porque nos contentamos com a nossa boçalidade lusa, como se ela fosse parte integrante da tal hospitalidade de que fazemos questão de nos orgulharmos, esquecendo-nos de que tanta ignorância acaba sempre por ter um preço elevado. E, sob este aspecto, há que considerar que Portugal está insuportável. Já não há pachorra para tanta imbecilidade, tanta venalidade, tanta ignorância, tanta falta de educação (científica e social). A Cultura em Portugal ou há-de ser inacessível e elitista ou de garrafão na mão.
Terceiro, porque fomentamos a desonestidade, dando-lhe valor, sobrepondo-a à honra, à dignidade, à seriedade. Vergamo-nos todos a cumprimentar o “espertinho” que enriqueceu nas contravoltas do oportunismo, e cuspimos no chão ante o homem que não se corrompeu, apelidando-o de “burro” e atirando-lhe piropos de “atrasado mental”.
Quarto, porque deixamos a nossa economia ser tomada de assalto pelos novos “monopólios”, encapuzados de “grupos”, uma nova classe milionária saída tesa do 25 de Abril e que rapidamente enriqueceu, tomando as rédeas dos sectores chave. Estes grupos são, actualmente, um dos grandes estranguladores da nossa economia, tanto mais que controlam o sector da distribuição, sector fundamental e onde as empresas portuguesas muito dificilmente têm tido acesso.
Quinto, porque não há Justiça. Até mesmo o único “nicho” onde poderíamos esperar que restasse alguma esperança, se desfaz dia-a-dia nas malhas do intriguismo, de conluios suspeitosos, de bloqueios legais impensáveis, de burocracias alimentadas, de decisões incompreensíveis, de tácticas cretinas consentidas e estratégias só possíveis pela permissividade. Um exemplo: do processo central da Casa Pia já emanaram outros processos que foram já julgados (o último foi na semana passada onde um pedófilo daquela Casa foi condenado a dezasseis anos). Entretanto, o processo central arrasta-se já há quase dois anos, sem vislumbre de terminar.
Sexto, porque os fartos e prolongados dinheiros que a CEE nos deu, e que se destinavam a investimento proveitoso (educação, infra-estruturas, formação técnica. etc) foi parar aos stands dos Ferraris e afins, às quintas, às herdades alentejanas, aos palacetes com piscina, aos apartamentos de Vilamoura, às contas na Galiza e em Badajoz, e ao mais que o pudor me impede de relatar. Tudo isto, com a conivência da classe política onde, e também, houve muito senhor que se amancebou à sua quota.
Sétimo, porque andamos há trinta anos a alimentar uma classe política que julgávamos que vinha para resolver e, afinal, resolveu mas foi a vidinha dela. E esta verdade é, quanto a mim, a mais cruel: andamos há décadas a sustentar uma classe política que nos devia governar bem e que, afinal, nos governou mal. Ao mesmo tempo, e acreditando nas lamúrias que a mesma debitava sobre a dificuldade do mando, o stress da grande decisão, o desgaste da responsabilidade, e outras tretas que nos foram impingindo, fomos-lhe dando regalias complementares, tais como: reformas bem pagas por meia dúzia de anos de serviço, ordenados muito acima do comum dos portugueses, cartões de crédito, viaturas à disposição, para além de orçamentos à tripa forra sobre os quais nunca (ou quase nunca) nos importamos de controlar. Estas regalias, atribuídas a torto e a direito, somadas ao facto de não haver penalização legal pelas más gestões, tiveram exactamente o efeito contrário ao que se pretendia, ou seja, em vez de cativar os melhores, arrebanharam a mediocridade deste país que logo viu na vida política uma forma de se governar, promover socialmente, e até enriquecer, sem responsabilidades e sem problema que não se resolvesse nos bastidores escuros do Partido. Mas, para além de se saber que a vida política era uma rica forma de governar a vida, sabia-se que também dava acesso a outros cargos, também dependentes do Estado e com uma maior envergadura de mordomias e salários. Foi assim que, em meia dúzia de anos, as nossas empresas públicas foram tomadas de assalto por gente que se plantou em Directorias e Conselhos de Administração, sem perceber patavina, sem preparação académica ou profissional, e que, para além de levar à ruína estas empresas, criou uma rede de interesses ligados à gestão pública, de tal forma politizada e “apadrinhada”, que já se transformou numa enorme e pegajosa teia. Pergunto: quem tem acesso ao topo de uma empresa pública que não tenha cartão deste ou daquele Partido?

É assim que, tomados estes sete exemplos de causas prováveis para a nossa desgraça (os “meus” sete exemplos, entenda-se) conclui da existência de um denominador comum a todos eles: a má governação. Tenho que reconhecer que há trinta anos (não falo para trás porque é proibido, como já disse) que andamos mal governados. Pessimamente mal governados. E, de má governação em má governação, chegamos a este ponto: à beira do abismo. Não adianta muito, portanto, estarmos para aqui, agora, a atirarmo-nos para cima do actual Sócrates, porque ele tem a sua parte da responsabilidade (a de agora, porque agora continuamos a estar mal governados), nem faz mossa a Durão dizermos que também nos governou mal. E muito menos a Guterres, ou a Cavaco, que também não escapa a muita asneira. E, daqui para trás, que adianta agora ir buscar esta gente toda? Chover no molhado?
Uma coisa é certa: ninguém escapa a esta má governação que nos tolhe.
Diz-se com alguma ironia, que os portugueses têm a mania de arranjar sempre culpados para isto e para aquilo, e que são incapazes de assumirem uma falha ou um erro como uma culpa colectiva. Talvez seja verdade mas, neste caso, não concordo. Eu não me sinto culpado pela situação actual do país. Trabalho como um moiro desde que me conheço. Nunca escapei com um chavo a um imposto. Pelo contrário, esta minha mania de querer ver tudo a “andar nos eixos”, só me tem trazido dissabores. Porque sou o tal “burro” que devia alinhar com os outros. E como eu, decerto anda por aí muita gente, que trabalha e que cumpre. A maioria dos portugueses é assim. Os que não o são é que andam a estragar o país e, por isso, é natural que não pensem como eu. Por isso, não acho que o nosso colapso seja um erro colectivo. É um erro, sim, cometido pelos que nos governam e governaram. A nossa “classe política” (pese o carisma negativo e a recusa de muitos em aceitá-lo como, sequer, existente) é a responsável, a todos os níveis do Estado, pela situação que o país vive. Porque governou mal. E governou mal por ignorância, por falta de coragem mas também, o que é pior, por interesses aquém dos interesses colectivos.
Temos o abismo à nossa frente e só espero que, a mesma classe política que até ele nos levou, não se lembre, agora, de nos atirar dele abaixo com um pontapé ao fundo das costas.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(413)

PORQUE NÃO UM CONSELHO PERMANENTE?

por Francisco Gouveia, engº

(Reunida em Lamego, a Comissão Executiva da Associação Ibérica de Municípios Ribeirinhos do Douro – AIMRD – decidiu que deveria participar no Plano Hidrológico Espanhol.
Com o Mundial a ferver, a reunião passou quase despercebida, mas é bom que se dê conta de uma iniciativa de vital importância para o Douro. Tão importante que julgo que desta Comissão deveria sair um Conselho Permanente que representasse a Associação, ultrapassando as vicissitudes orgânicas e burocráticas a que o regimento impõe, e que respondesse com urgência aos desafios que aí vêm)

O povo anda distraído e não há volta a dar-lhe. O povo e quem o ordena. Agora que a bola terminou, passado o tempo de “férias” onde descansamos das maleitas do dia-a-dia difícil que vivemos, é tempo de assentar a cabeça e começarmos a pensar que temos uma terra para cuidar e futebol não enche barriga (pelo menos de quem o vê, porque para os que lá andam dentro a gente sabe como é). Assim, a reunião que teve lugar em Lamego e que juntou municípios portugueses e espanhóis pertencentes à AIMRD, não teve a divulgação que se esperava nem a atenção que merecia. A Associação, já em si, constitui um facto deveras importante, quer no relacionamento entre os dois países a nível regional, quer na força de pressão que poderá constituir na defesa da região envolvente ao Douro contra eventuais veleidades que se pretendam perpetrar contra ela. Mais uma vez, e porque o assunto nunca estará encerrado, se colocou o problema do nuclear. A região ainda está traumatizada com a história recente da central de Aldeia d’Ávila, que mais do que produtora de energia, se pretendia como tratadora de resíduos. Nuclear, energia, transvases e outros assuntos afins, reportam-nos inevitavelmente para o sempre polémico e enigmático Plano Hidrológico Espanhol sobre o qual a AIMRD quer ter uma palavras (ou muitas palavras) a dizer.
Para quem não saiba, a Associação foi fundada em 1994, engloba 40 Municípios, sendo 30 espanhóis e 10 portugueses (Paiva, Lamego, Régua, Miranda, Mogadouro, Penafiel, Moncorvo, Vimioso, Gaia e Porto), estando em estudo a adesão do Marco, Baião e Foz Côa, e tem como dois objectivos principais, promover o desenvolvimento e cuidar da ecologia da região ribeirinha do Douro.
Poderá pensar-se que, para uma Associação com esta envergadura, e tendo em conta os programas extensos que orientam associação do género, os objectivos são poucos. Poucos serão mas têm grande amplitude e, mais vale que se cuide bem do que se julga pouco, do que mal do muito que se acha viável. A Associação está assim de mãos dadas com o bem-estar ambiental da região, bem-estar que não quer ver afectado pelo desenvolvimento, mas também não pretende que, em nome desse bem-estar, os projectos de desenvolvimento apodreçam nas gavetas.
Feita esta rápida apresentação, entremos já no assunto que aqui me traz.
Todos sabemos das inúmeras aglutinações de municípios que enchem os noticiários de nomes complicados. O mal de quase todos eles é que, a maioria das vezes, as suas louváveis intenções não passam das mesas de reuniões e ficam eternamente consagradas em actas que, pelo seu lado, acabarão a fazer monte nos arquivos, sem história nem lembrança. A vida pública actual está pejada desses exemplos. E esta Associação, pela importância que julgo ter, tanto mais que junto á mesma mesa dois países aparentemente adversários no terreno curto da Península, não se pode confundir com outras iniciativas cujos frutos ainda estão por se ver. Seria de todo lamentável que se deixasse escapar esta oportunidade de criar uma força viva e poderosa que possa, de facto, influenciar decisões políticas e cativar algum “empreendedorismo” para a região, mesmo resultante do intercâmbio empresarial – tão falado e tão pouco conseguido. Contudo, se há algo que deve preocupar estas associações é exactamente a falta de poder executivo, de acção prática, de resultados visíveis. Esta Associação (e bem) possui uma Comissão Executiva que, pelo que sei, se reuniu agora em Lamego e se voltará a reunir lá para o próximo mês de Outubro. Esta Comissão Executiva é necessária dado que se torna muito difícil tomar-se decisões que englobem 40 municípios, atempadamente, com a urgência que certos assuntos necessitam. Se há algo em que o mundo de hoje é radical, é na noção temporal, quase sempre ligada à vertigem, ao fazer-se tudo na hora, ao resolver-se na hora, ao não se contemplar com períodos de defeso e muito menos com atrasos. Por isso, e ponderando não só a importância que referi, mas também a eficácia que se pretende de uma Associação como esta, julgo que a mesma merecia mais do que uma Comissão Executiva. Talvez um Conselho Permanente, com autonomia para decidir em nome de todos, com poderes para resolver na hora aquilo que a complexidade do colégio nunca poderá resolver em tempo satisfatório. Mas também porque hoje as matérias em jogo não se compadecem com o conhecimento superficial das mesmas ou com o acto de, de cada vez que é necessário, se expor exaustivamente os dados de um qualquer problema.
E porquê?
Em primeiro lugar porque, por muita boa vontade e empenho que a Comissão Executiva possua, continua com o tal cariz colegial, formalmente representativo mas com pouco eficácia prática. Em segundo lugar porque as matérias que hoje em dia se colocam ao Douro, quer em termos de energia, quer em termos de desenvolvimento, são técnicas de mais para se compadecerem com a morosidade da apreciação política, apreciação esta que, por calculista e sujeita a influências de outra índole que não as meramente racionais, não raras vezes descamba para o silêncio oportuno ou para o impasse. A prova está em que esta Comissão Permanente voltará a reunir daqui a três meses, lapso de tempo demasiado longo para a voragem dos acontecimentos que varrem o mundo e que arrastam também os dois Governos Peninsulares. Julgo que havia a necessidade de esta Comissão funcionar em regime de permanência absoluta, com um número muito reduzido de membros, com autonomia de decisão (com limites regulamentares, como é óbvio) e cuja actuação estivesse sujeita a igual responsabilização. Não é difícil encontrar, tanto lá como cá, quem possa, tecnicamente, arcar com estas tarefas. E também porque um regime de permanência teria outra força e seria o sinal de que a região duriense, como um todo, existia, estava presente e tinha poder.
Deixo por último um reparo ao facto já aqui referido, e que tem a ver com o formalismo acentuado das reuniões desta Comissão Executiva, os elevados períodos de tempo entre reuniões, o próprio teor das reuniões onde muita matéria fica adiada, o facto de a presidência estar num lado e o Secretariado no outro, e, fundamentalmente, a ideia geral que pode transparece desta Associação e que se confunde com muitas outras, ineficazes, e que existem só para preenchimento de calendário. O mundo de hoje funciona a outra velocidade. É bom que as instituições se habituem a acompanhá-la.

nota: suspendo temporariamente a minha colaboração neste jornal, fazendo coincidir esta ausência com o período de “defeso” jornalístico do ND. Era bom que este “defeso” coincidisse também com alguma acalmia nos inúmeros problemas com que se debate o Douro. Mas assim não é, e, na “época” que se avizinha, infelizmente não há-de faltar matéria com que preencher as minhas crónicas.
Até lá, aqui fica a minha gratidão pela v/ atenção, desejando que gozem bem o Verão e gozem (principalmente) de boa saúde.
Até Setembro, se Deus quiser.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(414)
UMA GRANDE VOLTA

por Francisco Gouveia, engº

(Pressente-se no ar que o Douro vai dar uma grande volta, resta saber se depois dela ficará igual ao que conhecemos)

Não sei se vai ser para melhor, pois para pior já basta assim, mas o facto é que se pressente que algo vai mudar no Douro. Goradas as tentativas institucionais e oficiais, que se perderam em lutas pessoais por cargos, em projectos restritos, em tentativas de subsidiação estatal, em jogadas de interesse meramente político nos corredores tristes e sombrios da politiqueirice duriense, restou àqueles que correm por fora deste emaranhado, meterem pés ao caminho. Há realidades económicas, sociais e culturais que o Douro tem ignorado. Na prática, bem entendido, porque na verborreia dos discursos e nos infindáveis e incontáveis colóquios, conferências, seminários, palestras, etc, essas realidades são bem definidas e toda a gente sabe que já não se podem ignorar. Falo das realidades económicas, como, por exemplo, o aparecimento e crescimento de um novo grupo: a dos produtores/engarrafadores, que tem corrido fora da pista mas mesmo assim colado a ela. O certo é que o Douro os tem praticamente ignorado e eles representam já uma valorização na qualidade e na diversidade. Falo, socialmente, da nova geração que por aí desponta, praticamente alheia às guerrilhas, sem grande apego ao oficialmente instituído e muito mais interessada num futuro que lhe vai abrindo as portas em programas que só não têm mais êxito porque quem os promove parece mais interessado em guardá-los nas gavetas do que em divulgá-los como devem ser. Falo também de novas realidades culturais, do aparecimento de corredores de fundo à margem da troupe cultural habitué no Douro e que mais não tem feito se não repartir mordomias e prestar vassalagem aos donos dos subsídios. Falo também da iniciativa privada, que se vai arrojando cada vez mais, em projectos que poderão mudar a face da região. E do Governo, porque não?, que apesar de tudo vai remodelar uma rede viária (tenhamos esperança que assim seja).
Mas a questão de fundo é esta: será que este Douro ficará igual ao que conhecemos?
Institucionalmente, o Douro falhou: o IVP é um fardo pesado e a Casa do Douro não deverá ter solução. Pelos vistos, não há Governo (de esquerda, de direita, de cima ou de baixo) que aposte nela. Quanto às autarquias, recusam as variadas fórmulas de junção que a Lei lhes permite para unirem esforços em torno de projectos de interesse comum. Quanto aos Governos, é o que se sabe: cabritinho assado e bem regado, e “ala para Lisboa que se faz tarde”. Numa fase do campeonato, gerou-se por cá a maior das confusões (nem sei se os estilhaços ainda não andam por aí) e desde então até hoje, a situação mantém-se. Há uma burocracia mesquinha no Douro, regional, dispersa, entranhada em cada instituição, em cada autarquia, incontrolável. Cai um pingo de mel no meio da ponte, e é ver as abelhas a voarem à volta, as moscas a aparecerem, e os ursos a treparem pilares acima. É difícil fazer algo de válido sem que a comandita do costume não venha reclamar a sua quota. Falta de liderança –dirão alguns, e talvez tenham razão: no Douro não há um político que se distinga, que sobressaia, que bata o pé, que represente com lealdade as aspirações de toda uma região. Poderá ser este um dos motivos do apagamento duriense. Poderá?
Tenho também este receio: de que esta tal liderança seja encabeçada pelo poder económico, pelos privados. Os seus investimentos são bem-vindos, a hegemonia, não.
Como vêm, não tenho certezas nenhumas, só pressentimentos.
Pressinto que o Douro vai dar uma grande volta, resta saber, como já referi, se o Douro que por aí vem será o mesmo que conhecemos, ainda igual ao berço onde nascemos.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(415)

SOBRE A URGÊNCIA DA RÉGUA, A MATERNIDADE DE LAMEGO E OUTRAS CONFUSÕES

por Francisco Gouveia, engº

(O que deve determinar a classificação de um serviço de saúde, é o seu grau de qualidade e não a quantidade de utentes. É a velha questão da qualidade ou da quantidade))

Volto à questão da Maternidade de Lamego com a convicção de quem ainda não se deu por vencido e ciente de que não há decisões perpétuas ou definitivas. Se é certo que era conhecido de todos as dificuldades por que passava a Maternidade, também é verdade que o Ministério foi displicente quanto baste para resolver o assunto. Assunto que passa, principalmente, pela fixação de médicos e enfermeiros no interior. Mas não é disso que vou falar agora. O assunto resume-se a este princípio que julgo ser o mais correcto para a resolução de questões idênticas: um serviço mede-se pela eficácia e competência e não pelo número de utentes. E a lógica que tem andado implícita na questão das Maternidades baseou-se na afluência e não na eficácia. A seguir-se este princípio numérico, bem pode o interior fazer uma cruz sobre os serviços básicos que ainda possui, pois todos estarão condenados. Mas aquilo que me faz mais confusão é o seguinte: para que estão a construir o Hospital de Lamego? É que, numa lógica de melhoria de serviços, seria de admitir racionalmente que a Maternidade ficasse integrada no Hospital. Ou seja: por questões óbvias de falha de condições, aceitar-se-ia o seu encerramento como provisório, até que o novo Hospital estivesse pronto. Porque há algo de intolerável: o Douro sul não possui uma Maternidade e apesar das vias de comunicação terem melhorado, Vila Real continua muito longe de uma região vasta e quase perdida entre o longínquo centro administrativo de Viseu e a distante fonte de serviços de Vila Real. Ou seja: há um espaço no mapa do país que fica isolado, desapoiado, como um tolo no meio da ponte.
E agora, aí vem outro problema com o encerramento da urgência da Régua. E aqui o problema é o mesmo: esta urgência funciona com eficácia ou não? E se não, porquê? E nesta questão das urgências é preciso que se diga que o problema é muito mais grave dada a falta de cobertura do INEM. Então, se numa zona do país onde não há cobertura de primeira linha, como se pode pensar em acabar com a segunda? E não seria possível, em vez de encerrar as tais 14 urgências, tentar recuperar algumas? Então o problema da falta de pessoal também não se põe nas 25 novas unidades que pretendem abrir? E na mesma ordem de ideias, também a prometida compensação com o reforço dos Centros de Saúde, a questão não é igual?

É óbvio que a intenção do Governo é concentrar tudo em Vila Real. Há uma certa teoria no seio do Governo que aponta como única solução viável para o interior, o fortalecimento de algumas cidades, a concentração de meios e recursos à volta das mesmas e, pura e simplesmente, aceitar que a desertificação é já irreversível, e que grande parte do território luso será terra de ninguém. Os defensores desta tese, tecnocratas puros, sem ideal para além do materialismo frio dos números, estão a fazer vingar as suas opções, perante um Primeiro-Ministro que até julgo não pensar assim, mas que se encontra fragilizado pela enormidade do défice, pela falta de meios financeiros e pela galopante catástrofe social que se vive. Mas só se pode alarmar quem não tem conhecimento da História, e sob este aspecto a incultura da classe política justifica muitas opções erradas. A desertificação seria uma crise passeira (como já o foi noutros países que lhe deram a volta) se não se cometessem erros em cima de erros.

Mas voltemos à questão da Maternidade de Lamego e da Urgência da Régua. E também ao Douro Sul. E ao Hospital de Lamego, ainda agora iniciado.
Pergunto: não seria mais lógico repensar na harmonização destas três realidades? Dentro deste mapa, admito transferências, nunca eliminações. Eliminar è fácil, construir nem tanto, harmonizar é que é o cabo dos trabalhos. E parece que este esforço é demasiado para a lógica dos consultores que dão conselhos ao Governo.
Um Hospital novo para quê? Para se ir lá tomar a pastilha e levar a injecção?
Não me conformo: é a eficácia que deve classificar uma unidade, e nunca a frequência. É a velha questão da qualidade ou da quantidade.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(416)

ANIVERSÁRIO SEM ALMA

por Francisco Gouveia, engº

(Estão a comemorar-se os 250 anos da primeira Região Demarcada do Mundo, e parece que ainda ninguém se apercebeu do facto.
Os de cá vão-se lembrando vagamente, mas o resto do país não sabe de nada.
Entretanto, entre eventos vanguardistas a despropósito e outros retóricos e entediantes, o programa lá se vai arrastando, penosamente, como que a pedir que acabe depressa o suplício do bocejo)

A TV dá mais relevo a uma velhinha que faça 100 anos do que aos 250 anos da Região Demarcada do Douro. Desculpem-me o despropósito da comparação, mas é mesmo assim. Quanto ao resto da imprensa afina pela mesma nota. Isto é, apesar de um rol infindável de iniciativas, o certo é que as Comemorações não estão a passar para lá da fronteira da Região Demarcada. Não critico o programa das Comemorações pelo que lá está, mas sim pelo que lá falta. E falta, quanto a mim, o principal.
Primeiro, a inexistência de iniciativas que dêem a conhecer ao país a grandeza do Douro. Ao país e ao estrangeiro. Portugal ainda não se apercebeu do que se está a passar no Douro e que é possuidor de uma riqueza imensa neste vale. As Comemorações estão fechadas dentro de si, perdendo-se em excessivos colóquios, conferências, palestras, actividades formais, numa onda de erudição despropositada.
Não digo que estas iniciativas não sejam necessárias, digo é que a hora não é a apropriada. Afogar os durienses em retórica não é propriamente comemorar. Sob este aspecto, o programa não está a conseguir mobilizar, sequer, a gente de cá.
Segundo, porque esta era uma excelente oportunidade para fazer a tal mobilização de que tanto se fala, quanto mais não fosse para pressionar quem de direito para os problemas com que se debate a região e que me escuso de repetir aqui.
Terceiro, porque se está a comemorar o Douro das individualidades, o Douro dos notáveis, o Douro dos do costume, e não o Douro do povo, do Homem duriense, do lavrador.
Quarto, porque o programa está a mostrar-se incapaz de aproveitar a oportunidade para se dar a conhecer um pouco mais ao mundo, inclusive e, pelo menos, junto do nosso velho aliado e também cúmplice na aventura duriense, a Inglaterra.
Quinto, porque o programa se fechou em si, sem capacidade para aglutinar quem por cá anda anonimamente a lutar por este Douro. E falo de poetas, populares, mais ou menos eruditos, escritores, músicos, artistas plásticos, actores, cientistas, professores, comerciantes, industriais, enfim, uma mão cheia de gente que teria um grande contributo a dar à divulgação do Douro e que, pura e simplesmente foi ignorada (como, aliás, continua a ser).

Estas são as Comemorações de uma certa elite política e cultural que está sempre presente nestas coisas. As Comemorações dos 250 anos da Região Demarcada do Douro parecem terem sido apropriadas como se fossem coisa de alguns. E são esses tais que, hoje aqui, amanhã ali, aproveitam a visibilidade (bem restrita) que o evento dá, para se mostrarem como sempre acontece quando a ocasião se proporciona.
Não minto se disser que estas comemorações estão enjoativas, sem chama, sensaboronas, em tudo contrárias à matriz duriense e à alma alegre e abnegada que criou aquilo que o Douro hoje é.

Tristes, bolorentas, pseudo-intelectualizantes, com alguns laivos vanguardistas para dar o toque de requinte erudito à coisa, assim vão as comemorações.
Estamos quase em Novembro, amanhã é Natal e o fim do ano já se vê. Entretanto, o Douro está a fazer 250 anos e pouca gente deu por isso.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(417)

DOURO-SUL ABANDONADO

por Francisco Gouveia, engº

(Não há uma visão global do que se passa no Douro-sul. O Governo age pontualmente, encerrando isto e aquilo, sem se aperceber que está a fragilizar cada vez mais uma zona do País já de si débil. Ontem foi a Maternidade, hoje é a Urgência, e amanhã sabe-se lá o que será. Entretanto, está a construir-se um Hospital novo não se sabe bem para quê. É a descoordenação absoluta.
Entretanto, tudo isto se faz nas barbas dos autarcas sul-durienses, que até são todos do mesmo partido, partido esse que é Oposição ao Governo.
Afinal, os senhores autarcas do Douro-sul foram eleitos para quê?)

O Governo anda a encerrar serviços pontualmente, segundo discutíveis e duvidosos critérios que, aplicados ao interior, assentam como uma luva no lado negativo, isto é, a desertificação do interior é tão acentuada que dificilmente qualquer serviço básico nele instalado cumprirá com mínimos exigíveis nos tais critérios. Uma das regiões mais afectadas com esta política, tem sido o Douro Sul, também denominado por Ribadouro, e que abrange uma vasta zona que se estende desde Resende a Figueira Castelo Rodrigo, passando por Lamego, Armamar, Tabuaço, S. João da Pesqueira, Foz Côa, Figueira Castelo Rodrigo, e ainda algumas franjas a norte dos concelhos de Tarouca, Moimenta, Penedono e Meda (vejam lá que estamos no século XXI e ainda tenho que andar a explicar isto).
Situada a sul do rio Douro, esta região tem uma especificidade muito própria e uma divisão física marcada pelo rio que, efectivamente, divide. Não será uma fronteira na acessão correcta do termo, mas que é um limite, é. E é uma região complexa – porque está fisicamente separada do norte (Vila Real) e muito longe de Viseu (distrito onde pertence). Por motivos deste afastamento dos dois pólos referidos, tem-se apoiado em Lamego, cidade que, graças à importância que o facto de, em tempos, ter sido centro religioso, conseguiu congregar em si alguns serviços básicos, nomeadamente os hospitalares, de que a região em causa se servia. Nesta vasta área, Lamego seria o núcleo de atracção mais à mão.
Acontece que, com esta política governativa de encerramento desenfreado de serviços, e porque os estudos foram realizados pontualmente, isto é: houve estudos para as maternidades, e outros estudos para as urgências, e outro estudo para as escolas, e outro estudo para os tribunais, e outro estudo para sei lá mais o quê, é lógico que seria muito difícil que os serviços situados em Lamego cumprissem com os parâmetros mínimos que esses estudos definiam. O Douro sul está num processo de desertificação mais lento do que noutras regiões, mas que se está a desertificar, é um facto. E a desertificação é mais evidente na medida em que caminhamos Douro acima. Seria, portanto, racional que, ao se encerrar isto e aquilo, houvesse o cuidado de verificar se estaria a encerrar tudo na mesma região. E o que se está a passar no Douro-sul é exactamente isso: encerra-se pontualmente sem se entender que se está a colocar uma vasta franja do país ao abandono. O recente anúncio de que a urgência do hospital de Lamego iria encerrar, vem comprovar que não há no Governo uma atitude de racionalidade, de visão global das regiões, mas somente uma visão parcial, sector a sector. Isto é, com os encerramentos verificados e anunciados (urgência da Régua incluída), que será feito do Douro sul? Que futuro? Que solução?
É aqui nesta questão da solução (ou soluções) que se verifica um facto que nos desvia envergonhar a todos, especialmente os senhores autarcas do Douro sul (e não só).
Assistem impávidos e serenos a todos estes atentados sem se preocuparem (ou se se preocupam, a gente não dá por nada). Nem uma reunião conjunta, nem um voto de protesto conjunto, nem uma acção da Associação de Municípios do Douro Sul, nem uma atitude da ComurbDouro, nada! O vazio absoluto. Afinal, e apesar de todas as vicissitudes, para que efeitos está programada o novo Hospital de Lamego? Mesmo que venha a construir-se muito para lá dos prazos inicialmente previstos?
É evidente que, com autarcas assim, o Governo faz o que quer.

O Presidente da Câmara de Lamego tem sido a face mais visível da ténue e única contestação. Também, pudera, estes atentados ocorrem no seu concelho, na cidade que dirige. Mas é pouco, muito pouco. Isoladamente não conseguirá nada, tanto mais que sendo um autarca que está em exercício há apenas dez meses, ainda não possui peso político nem traquejo que baste para fazer frente à poderosa máquina socratiana. Mas, acima de tudo, é preciso que entenda: não adiantam protestos avulsos. Exigem-se, sim, medidas colectivas. Por seu lado, os seus colegas autarcas doutros concelhos, fazem de conta que não é nada com eles deixando a Francisco Lopes o cargo de protestar sozinho, assumindo assim uma cómoda posição de não intervenção (é uma grande de maçada!), apesar de os encerramentos terem sérias consequências para os seus concelhos.

O Douro-Sul, região vasta e importante, está afastada do centro administrativo a que pertence, separada fisicamente da área económica a que pertence, esquecida do país a que pertence, e que precisa de rever as estruturas com que pode contar. Neste momento, e depois das razias a que foi e será sujeita, ficará ao abandono. Viver nestes concelhos do Douro-sul, é um risco sério. E um país europeu, com oito séculos de História e com uma dimensão territorial facilmente governável, como é o nosso, não pode permitir guetos de exclusão no seu interior.
Repudio a atitude do Governo porque age como uma galinha que bica aqui, bica ali, da mesma forma que me revolta a passividade dos autarcas do Douro-sul que, se com esta crónica estão a ficar com as orelhas quentes, mais ficarão para a semana onde contarei algumas verdades que os senhores eleitores precisam de ouvir.

(418)

A “DOLCE VITA” DOS AUTARCAS DURIENSES EM FIM DE CARREIRA

(Os senhores Presidentes de Câmara durienses que foram eleitos para um último mandato, estão numa apatia que só vista. Até parece que estão nos cargos somente para cumprirem tempo de serviço para as ambicionadas reformas.
É o mal de se elegerem autarcas em fim de carreira.
O Douro está em crise profunda, o Governo a malhar-lhe, e é como se não fosse nada com eles – apesar de possuírem órgãos colegiais representativos, terem competências regionais atribuídas, e de serem quase todos do mesmo partido, que é o partido da Oposição.
Mas a culpa não é deles, é dos eleitores que os lá repuseram)

por Francisco Gouveia, engº

Raras vezes o Douro viveu uma crise tão grave como a que agora ocorre. E nunca, como hoje, se assistiu ao espectáculo degradante da passividade de um sector que poderia fazer muito mais para alterar o panorama negro da região: os autarcas. O Douro não só está sofrer com uma série de problemas relativos à sua principal actividade económica, como está a ser vítima de uma política cega por parte do Governo que, em nome de uma discutível e ambígua noção de eficiência, lhe está a retirar estruturas básicas, transformando este vale num imenso deserto social.
Perante esta situação, e por que os problemas que estão a surgir a nível autárquico também são graves (correndo-se o risco de os planos de actividades dos municípios ficarem todos na gaveta), seria lógico uma maior dinâmica dos senhores Presidentes de Câmara, tanto mais que possuem organismos colegiais representativos e com poderes legalmente instituídos. E muito poderiam fazer para enfrentarem esta avalanche que desaba sobre o Douro. Falo das Associações de Munícipios, a norte e a Sul do rio, e falo também da ComurbDouro. Para além do mais não seria nada difícil concertar posições nestes órgãos, dado que a quase totalidade dos autarcas durienses é o do mesmo partido. Sendo assim, existindo meios e estando garantida a unidade política, o que falta para que estes senhores acordem?
Sinceramente, não sei. Mas sei de outras coisas.
Como, por exemplo, do erro que é manterem-se os autarcas (e os políticos em geral) no Poder, para além do tempo razoável. E o que aconteceu nas últimas eleições foi que, a grande maioria dos autarcas durienses, em face da nova lei, recandidatou-se para um último mandato depois de anos a mais à frente das Câmaras. Era certo e sabido que, os próximos quatro anos seriam somente para acumularem tempo de serviço que lhes desse acesso às reformas, sem mais nenhuma responsabilidade dado que, a seguir, já não se poderiam recandidatar. E o que se está a assistir neste Douro é o degradante espectáculo do “virar de costas aos problemas” dos senhores Presidentes, quer aos regionais, quer, inclusive, aos que enfrentam dentro dos seus concelhos. O ano vai no fim e as queixas acumulam-se. Os munícipes já torcem a orelha pelo facto de os terem reconduzido, mas já nada há a fazer. E levam uma vida folgada, estes senhores autarcas, entretidos com questões secundárias e de mera publicidade de imagem, passeando-se em nobilíssimas excursões, entretendo-se com actividades pseudo culturais, etc, etc. Quanto ao resto, é ir aguentando o barco, encobrir as dívidas e, se possível, não dar muitas nas vistas do Tribunal de Contas, do IGAT e da Procuradoria. O lema é: acima de tudo não fazer muito barulho. Entretanto, o tempo vai passando, a região vai ficando delapidada de estruturas essenciais e, mesmo aqueles que berravam contra o encerramento disto e daquilo antes das eleições autárquicas, agora estão caladinhos como anjos. Lembro-me de um caso em que o autarca em questão, perante a eminência do fecho de muitas escolas no seu concelho, gritou “às armas” e até prometeu que só sobre o seu cadáver se encerrariam escolas. O certo é que elas fecharam e ele lá anda, cheio de saúde, a dizer ámen com os encerramentos.
Rica vidinha a dos senhores Presidentes de Câmara em último mandato, não há dúvida! Sem a responsabilidade de arriscar, sem as dores de cabeça de resolver, sem a maçada de andar sempre a correr para Lisboa, sem o incómodo de ter que fazer obra que justifique uma nova reeleição, enfim, a dolce vita em pleno, deixando o tempo passar, refastelados, descansadinhos, quatro aninhos de ripanço à portuguesa.
E os pobres dos munícipes, que hão-de fazer? Afinal, foi graças ao voto deles que os autarcas foram reeleitos. Não é que os eleitores não fossem avisados para a gravidade do que se estava a passar: votar em autarcas em fim de carreira era como votar em branco. Mas o povo, e particularmente o duriense que nisto de avisos parece masoquista, quis lá saber! E, no dia das eleições lá foi lampeiro reelegê-los, ou seja, arranjaram lenha para se queimar.
Que fazer então, perante esta apatia autárquica?
Não sei. Limito-me a protestar e pouco mais posso fazer.

Restam, talvez, os novos autarcas, aqueles que foram eleitos pela primeira vez e, caso pretendam voltar à cadeira do Poder daqui a três anos, têm que dar à perna. Mas mesmo esses, coitados, estão apertadinhos pela falta de verbas, pelas dívidas deixadas pelos antecessores e, diga-se em abono da verdade, muito mal aconselhados. Mal aconselhados e a cometerem erros de palmatória, que vão desde erros de gestão primários (até compreensíveis pela falta de experiência) até ao desbaratar de “tachos” pela sua clientela, este sim, erro imperdoável e a fazer demonstrar que, afinal, não são muito diferentes dos que vieram substituir.

Fracos dias se auguram para o Douro. O Governo a malhar e os Presidentes de Câmara fechadinhos no seus casulos. No Douro, o Governo pode fazer o que quiser que por cá ninguém irá para além do protesto obrigatório.
Mas há outras culpas, com a dos deputados regionais e algumas traições à região que aqui já denunciamos. Mas isso são outras estórias.
No meio deste Douro em crise, sei somente de duas coisas: que no Douro já nada será como dantes e que os senhores Presidentes de Câmara durienses são futuros clientes do Tallon.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(419)

UM GRANDE PORTUGUÊS

por Francisco Gouveia, engº

(Há um grande português esquecido. Construiu uma das mais impressionantes paisagens do mundo e nele fez o néctar mais perfeito.
Mas, infelizmente, se nem consta da lista das Comemorações dos 250 anos da terra que criou, como poderia fazer parte da lista do tal concurso televisivo, que abrange o todo nacional?)

Velho e hirto, olhava o seu Vale sagrado com o orgulho dos construtores de mundos. Olhava-o em vida e continuava a olhá-lo depois de morto. Era um velho pobre, sem nada, quase indigente. Nasceu em cama de pinho agasalhado por um trapo de flanela e na rudeza de lençóis de serapilheira.
Foi educado com a boca na fome e os braços no arado. Aprendeu a ler somente os sinais do tempo, da tempestade e da bonança, deram-lhe de caneta a picareta, de lápis a sachola e um caderno de leiras onde escrever. Fácil é apelidá-lo de ignorante. Nunca o foi. O seu alfabeto não era o nosso, só isso. Sabia coisas que nós nunca aprendemos e falava com a serenidade de quem sabia do que falava. Que enorme qualidade essa, se comparada com a retórica daqueles que por cá andam a falar do que não sabem. Hoje todos sabem de tudo. Ele não. Sabia do que sabia e não ia além disso.
Tinha outra qualidade: sabia ouvir. Quem sabe, hoje, ouvir?
E havia a fome, negra no Inverno, mais branda no Estio. Mas sentiu-a, da mesma forma que se habituou a arrancar da terra o seu sustento, sem assistência social, sem conta bancária, sem empréstimos, sem reforma aos 65 anos. A sua reforma era o caixão, essa sim, garantida e sem negociação sindical.
Trabalhava toda uma vida agarrado à terra-mãe, por um vintém. Via com desgosto que não era recompensado pela maravilha que estava a criar, mas continuava. Casava de bolsos vazios e elegia por companhia perpétua outra grande portuguesa: aquela que lhe havia de garantir uma ranchada de filhos, aquela que havia de procurar na arca vazia algum pão para as bocas famintas, aquela que havia de lhe aturar as bebedeiras, aquela que o havia de seguir até à morte, fielmente, sem um queixume, uma lamúria. Casar era uma espécie de amparo, onde a miséria, repartida a dois, custava menos.
Descia e subia as encostas do seu Vale com a agilidade do gamo, e as pernas já estavam ensinadas para o esforço.
E, de degrau em degrau, erguia a escadaria imensa na terra bruta. Depois, lá plantava a sua videira, só dele, como carinho como se estivesse a embalar um filho. Como podia a planta, assim mimada, recusar-lhe o que fosse? Por isso o sumo que brota daqueles cachos, é diferente, matéria viva e cintilante, sangue do seu sangue. Regada de suor, mas também de muito sacrifício. Principalmente sacrifício.
E vieram doutores, engenheiros, literatos, industriais, políticos, gente dos mais altos patamares da sociedade, louvar o feito. Mas, premiava-se a obra ignorando-se o obreiro. E ele, ao longo de séculos, habituou-se a ficar sempre na penumbra. A glória era de outros, dos tais. Até hoje.
Envelheceu tolhido de reumático que as geadas lhe plantaram no corpo. Mas continuava, sempre, até ao desfalecimento, até ao fim.

Quem se lembra do velho homem duriense?
Ontem como hoje, é um velho ignorado, sem presença em lado nenhum.
Calça botas cardadas que não podem pisar as alcatifas dos salões, tem a roupa remendada, cheira a suor, exala um hálito de tabaco barato, fala com a economia das palavras, tem as mãos demasiado calejadas para os selectos cumprimentos de circunstância. Em resumo: não tem postura para cerimónias.

O Douro é de outros. Dos tais.

Mas o velho homem nasceu sobre o Douro, viveu a moldar o Douro e foi enterrado nele.
O Douro também é ele.

Ou talvez não.
O Douro é de outros. Dos tais.

Merecia outra sorte, o tal velho. Merecia outra homenagem.
Merecia até estar na galeria dos Grandes Portugueses. Como a do tal concurso televisivo.
Mas como?

Se nem na sua terra o consideram, como havia de ser considerado pelo País?

gouveiafrancisco@hotmail.com

(420)

INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ?
INTERRUPÇÃO?…

por Francisco Gouveia

(Os apoiantes da despenalização têm medo das palavras. A expressão escolhida -“interrupção voluntária da gravidez”- está errada ou, pelo menos, é enganadora. Por sua vez o termo “abortar” não tem o significado que se lhe atribui correntemente. Basta consultar qualquer bom dicionário de língua portuguesa para o confirmar.
Uma maioria votou na Assembleia da República, uma pergunta que não traduz o que realmente se passa. Continua-se a brincar com coisas sérias)

Os defensores da despenalização têm um medo terrível das palavras. E o caso não é para menos. Sabendo, como sabem, do incómodo que representa um novo referendo para os eleitores, e cientes de que uma nova derrota nas urnas seria o golpe final nas suas aspirações, tentaram moldar uma pergunta que “suavizasse” o crime de abortar e, ao mesmo tempo, contornasse a questão fundamental: abortar, mesmo que seja no segundo a seguir à fecundação, é ou não matar a vida?
Não sendo eu um especialista em língua portuguesa e longe de ser um filólogo, tenho, contudo, a percepção destas coisas, inerentes a quem lida com o português diariamente e tenta, dentro das suas limitações, dignificá-lo. Sendo assim,
a expressão escolhida (“interrupção voluntária de gravidez”) peca por não traduzir o que realmente se passa no acto abortivo. Explico porquê.
“Interrupção” tem como um dos seus principais sinónimos, “suspender”, sendo este o que, usualmente é mais corrente aplicar, ou seja:
– interrompo a leitura de um livro porque o telefone tocou (para depois recomeçar a leitura);
– interrompo uma viagem para tomar café (para depois voltar à estrada);
– o árbitro interrompeu o jogo para que um jogador fosse assistido (para depois o recomeçar);
Interromper significa parar algo que se pretende retomar logo após. Assim, na linguagem corrente, “interromper” não é sinal de paragem definitiva, antes pelo contrário significa que, logo que sejam ultrapassados os motivos da paragem, se recomece.
Ora, no tal acto de “interrupção voluntária de gravidez”, não é isso que se passa, porque não se interrompe nada: acaba-se sim, de vez. Nem sequer a palavra: “parar”, será aqui bem aplicada, pois ela traduz também, em certa medida, um conceito de suspensão. Veja-se este exemplo: “o carro parou, avariado”. Significando que, logo que reparado, seguirá a sua marcha.
Estamos assim perante uma expressão que é de todo enganadora. E a escolha da palavra “interrupção” não é inocente dado que, assim, o acto de abortar fica como que “limpo” da carga tétrica que carrega. Por outro lado desanuvia-se o ambiente de anos e anos de clandestinidade abortiva. Abortar é uma palavra que pesa como chumbo, interrupção tem o peso do fardo de algodão. A primeira é um estalo forte, a segunda um ligeiro puxão de orelhas.
Mas vejamos o outro lado da questão: o aborto.
Esta palavra, contrariamente àquilo que muita gente pensa, não significa matar, nem parar, nem suspender, nem apagar, nem nada disso. O verdadeiro sentido da palavra é: expulsar. Aborto significa, em português de lei, expulsar o feto do seu ambiente por meios naturais ou artificiais. Expulsar, repito.
Verifica-se que este termo (que é médico) há muito que foi absorvido pela linguagem popular. O facto de o povo ter, no seu vocabulário, uma palavra que é exactamente igual ao termo científico, é algo de raro, mas aqui aconteceu. Portanto, não se entende a razão pela qual o termo foi eliminado da pergunta e substituído por uma expressão tão longa. Suficientemente longa para “amenizar” a brutalidade do acto, imprecisa quanto baste para descomprimir o eleitor. É que uma coisa é votar a favor da despenalização do aborto, outra é votar a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. A primeira choca, a segunda nem sequer impressiona.
E eu pergunto: se acaso a pergunta que vai a referendo, referenciasse precisamente a palavra “aborto”, seria que muitos daqueles que a vão apoiar, o fariam? E aqueles que são contra a despenalização não se mobilizariam para que a legislação portuguesa não ficasse manchada com esta nova regra?
Então, porque não se utilizou o termo correcto? Quem tem medo da palavra: abortar?
De qualquer forma, e relevando estas questões linguísticas, a questão de fundo prevalece: “interromper voluntariamente uma gravidez” é um homicídio ou não? E expulsar um feto do seu meio natural, quer tenha semanas quer tenha um segundo, é ou não matar a vida humana?
A ciência já respondeu a estas perguntas: há vida humana a partir da concepção, quer sejam duas células, quer sejam um milhão.
Termino com esta certeza: esta lei não é mais do que uma porta que se abre a um grande negócio. Grande negócio que já existe na clandestinidade do país e que se processa legalmente do lado de lá da fronteira. Muitas clínicas espanholas estão a preparar-se para o “assalto” ao território português. Há já espaços comerciais apalavrados e prédios estrategicamente sinalizados com Euros espanhóis (e também nacionais), nas grandes cidades portuguesas, à espera somente do referendo.
E nós para aqui sem poder fazer nada perante uma maioria de manipuladores da palavra que, na Assembleia da República, trocou os bês pelo vês, confeccionando, segundo as suas intenções, uma pergunta a que grande parte dos portugueses se recusa responder.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(421)

DEFESO AUTÁRQUICO

por Francisco Gouveia, engº

(Quando não há dinheiro é quando a imaginação é posta à prova.
Quando não há dinheiro é quando os bons gestores se destacam.
Quando não há dinheiro descobre-se muita coisa para fazer que é de graça.
Este Douro autárquico está uma pasmaceira como nunca esteve. Os novos autarcas parecem terem sido infectados pelo mesmo vírus que mantém adormecidos os velhos autarcas.
Entretanto, de Lamego, vem alguma luz. Mas, até ver, só de lá)

A actividade autárquica está no defeso. Não há dinheiro para nada. Dívidas até ao tecto, compromissos inadiáveis, encargos para além do suportável e um Governo sovina colocam as autarquias numa situação de quase paralisação. Cá pelo Douro é o que se sabe: talvez porque não há nada para fazer, assiste-se a este triste espectáculo: vereadores a tempo inteiro que nem uma hora estão nas vereações, presidentes em excursão lúdica constante, assessores que até nem sabem quem assessoriam. As autarquias durienses estão de férias. Mas nem todas pelos mesmos motivos. Em artigo recente falei da pasmaceira em que caiu a maioria das Câmaras por motivos do “envelhecimento” precoce dos seus edis, a olharem para a ampulheta do tempo a ver se os quatro anos passam depressa. Mas há outras que, efectivamente, respiram ar novo e que se estão a comportar como se o ar estivesse infestado. Esquecem-se que há uma máxima operária que nunca caducou: “acaba tudo menos o trabalho”. É evidente que este princípio só toca quem quer realmente trabalhar. E a pergunta que se coloca é a seguinte: que fazer quando não há dinheiro para nada? E eu, que até trabalho que me farto em actividades onde nada ganho, respondo: aprenda-se a fazer muito com muito pouco. Um dos segredos da boa gestão está aí. Criou-se um espírito de “mestres-de-obras” nas autarquias locais, de tal forma que já ninguém consegue mexer uma palha sem que tal represente mais asfalto ou mais betão. As actuais autarquias portuguesas estão transformadas em empresas de obras públicas. Assim, faltando o dinheiro já ninguém sabe para que lado se há-de virar. Ora, quem sabe o que é a gestão, sabe também que as alturas em que o dinheiro não abunda são óptimas para se preparar o terreno futuro. Isto é: preparar a barriga no tempo da fome para quando vier a fartura. Quero com isto dizer que a altura é boa para se repensarem os concelhos, para se estabelecerem estratégias, para se reformularem e reestruturarem serviços, para se planear, para pôr ordenar o que está mais desarranjado, para se optimizar os recursos humanos e meios existentes, enfim, pôr a casa e as ideias em ordem.
Há cerca de quinze dias, no meio deste marasmo duriense, ressaltou um bom exemplo vindo de Lamego. Francisco Lopes – que não tem tido a vida fácil pois a oposição não o tem poupado e praticamente ainda não se tinha sentado na cadeira-mor da Câmara, e já estava levar “porrada” – apresentou, tintim por tintim, o que pretende fazer nos próximos anos no concelho que dirige, num plano amplo, ambicioso e, segundo disse, sustentado financeiramente. Não creio que até ao fim do mandato tenha dinheiro para fazer o que anunciou, contudo louva-se a iniciativa, não só porque demonstra trabalho, mas também porque aproveita este tempo de vacas magras para planear o futuro. Os seus adversários políticos, que nem lhe deram tempo de respirar (e talvez por isso se sinta alguma dor de cotovelo nas acusações que lhe fazem), decerto não se calarão, mas a audiência que os ouve é cada vez menor. E louvo-o também porque está a trabalhar num ambiente hostil, que lhe devia dar, pelo menos, as tréguas do estado de graça. É o mínimo que se pode exigir a uma oposição responsável e que perdeu as eleições. A vida política tem regras, e uma delas é a de que se deve deixar que, quem tomou o poder, possa demonstrar do que é capaz. Pelo menos um ano de “expectativa” não era pedir demais. Mas a oposição lamecense não entendeu assim. E fez mal. Francisco Lopes está a dar a volta por cima. As críticas, por extemporâneas e ciumentas estão a passar por baixo do alvo.
Desde as tomadas de posse, foi este o acto duriense que me lembre de ter sobressaído entre a modorra que está a grassar neste Douro. É que nem as bafientas comemorações dos 250 anos da Região Demarcada o animam.
Seria bom que as autarquias onde há gente nova, procedesse do mesmo modo e, os senhores responsáveis municipais, em vez de andarem a fazer gazeta e nas passeatas, poderiam debruçar-se um pouco sobre os problemas dos seus concelhos, as necessidades das freguesias, a estrutura administrativo-técnica dos seus serviços, aproveitando bem este tempo de defeso. O ano já vai no fim, presumo que no próximo se mantenha o mesmo ritmo e, daqui a nada, as eleições estão à porta e o trabalho de casa por fazer. Depois, não se venham queixar que os eleitores são injustos e as oposições oportunistas.
Recado este que reservo para quem chegou, já que, os que cá andam há muito, não têm salvação.
Há que acordar, meus senhores, há que acordar!

gouveiafrancisco@hotmail.com

(422)

SÓ SE A COMISSÃO PARLAMENTAR DE SAÚDE NÃO SOUBER LER

por Francisco Gouveia, engº

(A Câmara Municipal da Régua elaborou um excelente documento justificativo da manutenção da Urgência do D. Luís I, rebatendo o execrável estudo que aconselhou o seu encerramento.
Contudo, duvido que a justeza da argumentação invocada tenha eco na maioria socialista – 13 deputados – da Comissão Parlamentar de Saúde. Mas se a Oposição – 12 deputados – na dita Comissão votar a favor da Urgência, falta só um voto para que se ganhe, pelo menos, um parecer favorável. Um voto que terá que ser de um socialista. Por coincidência, há só um deputado socialista na Comissão, que foi eleito por Vila Real e é da Régua)

Está pejado de erros o estudo apresentado ao Governo e que aponta para o encerramento da Urgência do Hospital da Régua. Mas outra coisa não seria de esperar. Estudos baseados em pressupostos meramente académicos, sem atender às características da região, elaborados lá longe na longínqua e plana Lisboa, haviam de dar nisto. E eu pergunto se perante a responsabilidade da decisão de encerramento ou não de uma unidade de urgência, não era de se exigir maior rigor e, sem dúvida, uma constatação dos factos no terreno.
Por exemplo: só um citadino de uma grande metrópole pode acreditar que, cá no Douro, a distância entre dois lugares se pode medir num mapa em linha recta aumentando-a depois em mais 50%! Por cá, a sinuosidade do relevo duplica e triplica essa distância. Assim como arbitrar que a velocidade média nas estradas durienses é de 60 Km/h! Sabemos nós que, em alguns casos o melhor que se consegue é 40! E depois, dizer que uma cidade que só no primeiro semestre de 2006 já recebeu 230.000 turistas, não deve ser considerada como Pólo Turístico Relevante, é de bradar aos céus!
Estes são alguns dos inúmeros erros de que enferma o tal estudo que está a ditar o encerramento do Hospital D. Luís I. Recentemente, a Câmara Municipal da Régua divulgou um estudo sobre a matéria que todos os reguenses, e durienses em geral, deveriam ler. Li-o de fio a pavio e concluí que está bem feito, está bem documentado, bem justificado e, por si só, constitui uma achega de peso para que, quem de direito, reconsidere o encerramento. E a tal entidade em causa, que irá analisar o estudo e sobre o qual se pronunciará, chama-se Comissão Parlamentar de Saúde. A decisão final sobre a nova rede de urgências será tomada pelo Sr. Ministro da tutela depois de a ouvir. Então, se a tal Comissão Parlamentar não estiver infectada pela trica política e agir com a honestidade que se lhe exige, decerto não será indiferente aos argumentos do documento da Câmara da Régua. Mas eu temo que, nesta altura, já a decisão esteja tomada e a tal consulta resulte de um mero pró-forma, mais no sentido de escudar as intenções do Ministério do que, de facto, resolver o caso com justiça e ponderação.
Mas vejamos, então, a composição e origem desta Comissão Parlamentar de Saúde. É composta por 25 membros, sendo 13 do PS e os restantes 12, sendo: 6 do PSD, 2 do PC, 2 do CDS/PP, 1 do BE e 1 do PEV. É presidente desta Comissão a socialista Maria de Belém e a vice-presidente a social-democrata Ana Manso. Ainda como curiosidade, acrescente-se que o único membro desta Comissão, eleito pelo distrito de Vila Real, é o Dr. Jorge Almeida, do PS.
Pela aragem se adivinha no que isto vai dar. Com uma maioria PS, apoiante indefectível do Ministro, e só com um representante de Vila Real, que ainda por cima já deu a entender o que pensa sobre a matéria (em recente entrevista ao Arrais), e o que disse que pensava não nos agradou, o mais certo é a referida Comissão estar-se nas tintas para o estudo da Câmara da Régua e a maioria socialista dizer ámen com o Governo. Por outro lado, verifica-se que na Comissão Parlamentar, PSD, PC, CDS/PP, BE e PEV, perfazem 12 deputados. Se estes votarem a favor da manutenção da urgência e se a estes votos se somar a do deputado de Vila Real, Dr. Jorge Almeida, ficam 13 a favor da urgência e 12 contra. Mas será que o sr. deputado Dr. Jorge Almeida vai votar com a Oposição?
Não querendo fazer juízos precipitados sobre a idoneidade dos senhores deputados, tenho, contudo, a experiência de casos semelhantes onde, nas discutíveis Comissões Parlamentares, a razoabilidade e o bom-senso foram derrotados pelo alinhamento político. Pelo mais certo, duvido que alguém vá ler as razões da Câmara da Régua e o destino da Urgência do Hospital D. Luís I já esteja há muito traçado. Este Governo tem demonstrado pouca ou quase nenhuma receptividade à argumentação opositora, por muito acertada que seja. Não estou, assim, nada confiante que este trabalho louvável da autarquia tenha reflexos na decisão já politicamente tomada. Tudo o resto será mero formalismo para no fim se dizer que se cumpriram as regras e se ouviu quem havia a ouvir.
E o que mais me incomoda é o facto de o encerramento se basear num estudo irresponsavelmente errado, e que as teses pelo não encerramento, apesar de correctas, serão eventualmente postas de lado. É a injustiça de um país que ainda não aprendeu a conviver com a verdade.
Não sei que mais poderá fazer a Câmara para segurar a urgência do Hospital. Estamos num país onde a razão quase sempre perde.
Não pretendo ser derrotista, mas o rumo que esta governação tem tomado, nomeadamente sobre a política para o interior, aconselha-me a duvidar. E muito. Mas não quero que esta nuvem negra que paira sobre a cabeça dos utentes durienses sirva para os desmobilizar. Se há alturas em que os protestos se devem fazer ouvir, esta é uma delas. Calarmo-nos é pactuar com a injustiça.
O passo seguinte será tentar cativar a tal Comissão Parlamentar de Saúde para a causa da manutenção da Urgência. Se os deputados da Oposição se mostrarem receptivos, a causa terá 12 votos garantidos. Falta um para a maioria. Qual será, nesse caso, a posição do deputado vilarealense do PS?

gouveiafrancisco@hotmail.com

(423)

GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO – Uma obra fundamental para o estudo da etnografia do Douro

Por Francisco Gouveia

Este livro, de 640 páginas, englobando um estudo notável das origens das cantigas durienses, emoldurado por 600 músicas devidamente transcritas (musical e poeticamente), transcende em muito a simples recolha etnográfica patente em muitas obras congéneres por esse país fora. E também é obra que está para além do simples gesto de amor à terra-mãe, às suas raízes e tradições. Este Cancioneiro é um acto de profunda paixão. Sem este sentimento não seria possível ao seu autor, Altino Moreira Cardoso, levar a cabo esta tarefa quase hercúlea, devoradoras de horas e horas de trabalho. E é um livro fundamental, porquê? Há muito que se tem da etnografia musical do Douro, uma ideia simplista e muito primária, sendo comum ouvir-se de especialistas, que a região duriense é muito pobre musicalmente e sem um enquadramento de originais que a possam demarcar de qualquer outra. Por exemplo: a música folclórica minhota, a alentejana, a algarvia, a açoreana, etc, possuem uma matriz muito vincada facilmente reconhecida aos primeiros acordes. No Douro pensava-se que tal não acontecia. Mas não é verdade, e este livro vem demonstrá-lo. Sem enjeitar a hipótese de se tratar de uma zona de influência e, como tal, muito sujeita à pressão de várias formas musicais, a verdade é que, no Douro, as influências eram inevitáveis. Primeiro porque as migrações anuais para as quintas, por alturas das vindimas, aportavam à região gente de vários pontos do país, segundo, porque foi aqui, mais do que em qualquer outro lugar, que a influência galega se fez notar. A terra era rica e propiciava nessa altura um rendimento salarial significativo aos trabalhadores rurais que nos demandavam. Aceita-se também sem reticências, que não há folclore puro, isento de “achegas”. Mas acontece que aqui, no Douro, essa influência foi, talvez, mais expressiva do que noutras regiões. Contudo, um fenómeno muito peculiar havia de se processar no talento das gentes durienses, fenómeno que só é possível quando existe uma propensão natural já vocacionada para a música: a selecção do bom do menos bom. Isto porque na música folclórica, não há boa ou má música, há música simplesmente. De facto, no Douro processou-se essa selecção e, das imensas toadas, modas, cantigas, etc, o duriense soube sempre aproveitar o melhor acrescentando-lhe o seu cunho pessoal. Mas, porque se pode quase que garantir que as influências chegavam de todos os cantos do país, o repertório adoptado é rico. De tal maneira rico que Altino Moreira Cardoso consegue reunir neste livro 600 cantigas e, segundo sei, está por aí um segundo volume complementar. E o livro é suficientemente completo para nos explicar as origens da música duriense, desde as suas raízes medievais, passando pela galega, pela assimilação de árias mais elitistas ou nobres, até à actualidade, numa tentativa de recuperação do que de mais genuíno tem a nossa tradição musical. Ao ler este livro – coisa que me deu água pelas barbas dada a sua extensão – e porque a minha qualidade de etnólogo instrumental amador me exigia uma atenção mais cautelosa, tive a certeza de que ainda há obras nesta terra que não nos fazem desistir. O livro é notável, da mesma forma que é quase uma aventura dantesca editá-lo numa edição de autor. Editar uma obra desta envergadura sem apoios é o mesmo que abrir um talho de carne de vaca na Índia! E eu pasmo! No ano das Comemorações dos 250 aos da Região Demarcada do Douro, nenhum dos promotores do evento se apercebeu que, cá pelo Douro, há coisas de importância extrema que devem ser apoiadas, e muito mais importantes que as obras formais que nestas alturas se editam com subsídio integral e que, no fim, nem aquentam nem arrefentam ao panorama cultural da região. Esta obra não é obra de momento, temporã, pelo contrário, é algo com o selo da eternidade, elemento essencial de consulta para estudiosos ou simples curiosos. Hoje e amanhã. Indispensável em todas as Bibliotecas da região, em todas as escolas e, passe o exagero, em todas as casas dos que se interessam pela sua terra. Espera-se agora o 2º volume, fazendo-se votos para que as entidades oficiais atentem na importância de obras como esta e que lhe prestem o devido apoio. Ao Altino Moreira Cardoso, os meus votos para que a mesma paixão que o fez dar à luz esta preciosidade, o guie nos futuros trabalhos que aguardamos ansiosamente.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(424)

CERCO À CASA DO DOURO

por Francisco Gouveia, engº

(Aperta-se o cerco à Casa do Douro. A actuação do IVPD para com ela só se pode justificar por quem segue directivas superiores, ministeriais, governamentais, ou seja: por quem tem as costas protegidas. A pouco e pouco começam a denunciar-se as verdadeiras intenções dos que apostam no derrube da Casa do Douro e na destruição do modelo interprofissional vigente. Não sei se será altura da Produção mudar de estratégia e passar ao ataque)

Há muito que se pressente que a Casa do Douro está ameaçada. Sem que ninguém, até agora, tenha declarado abertamente que está no comboio dos que a pretendem extinta, o certo é que cada vez se torna mais claro que ela é um entrave a um “novo” modelo comercial que se vem desenhando, que não é alheio a uma certa concepção liberal da actividade vitivinícola. A Casa do Douro está no meio de muita coisa, de muitos interesses, e perante este novo esquema liberalizante, representa um muro que urge demolir. Tudo isto não me espantaria se esta tese fosse somente defendida por aqueles que desde sempre se opuseram ao modelo interprofissional, e que sempre se manifestaram por um mercado aberto, liberto das formalidades de licenciamento, da obrigatoriedade de compra à produção, das regras obrigatórias dentro de um sistema onde não há muito espaço para ditar leis comerciais. Por outro lado, a tendência actual para fusões, concentrações, crescimento empresarial através da eliminação concorrencial, não se compadece com uma estrutura produtiva pulverizada em cerca de 40 mil intervenientes que teima em persistir. Esta gente que assim pensa, está nas tintas para o Douro, para as suas perspectivas turísticas, pela manutenção do património paisagístico, enfim, para a manutenção das características que fazem deste canto do país um lugar único e mundial reconhecido. Basta ver os recentes atentados perpetrados contra a paisagem tradicional e os métodos de assentamento tradicional de patamares, executados impunemente em algumas quintas, para se verificar até que ponto lhes vai o amor ao Douro. O negócio do vinho do Porto e os milhões que movimenta, sobrepõe-se a qualquer lógica afectiva. Negócio é negócio e a liberalização total é um desejo indisfarçável. Mas, para aqueles que continuam a defender o modelo interprofissional e o equilíbrio concertado de interesses que o norteia, facilmente concluem que são estes 40 mil produtores os herdeiros dos obreiros do Douro e os que, pela sua actividade específica, garantem que este Douro permanecerá inviolável e ao abrigo do assalto dos liberalizadores. E estes produtores existem ainda com algum peso e força, graças à instituição que os aglutina, defende e instrui. A Casa do Douro, com certeza. Mas se por um lado nada disto nos espanta, por outro ficamos seriamente apreensivos perante a forma como certas instituições oficiais, como seja o IPVD, agem. Com um nível quase despótico, fazendo-se lei, interpretando-a a seu bel-prazer, incumprindo contratos sabendo como são essenciais para a subsistência da casa do Douro. Os recentes acontecimentos desta “guerra” surda atingiram o ponto crucial do desentendimento, de tal forma que duvido que aja já da parte do IVPD algum empenho em resolver pacificamente os seus compromissos. Ensarilhado numa extinção de uma tal CIRDD, que por seu lado encheu os cofres à custa da CD, o processo esbraceja nas ondas da burocracia, parecendo até que existe um conluio já devidamente orquestrado para “amarrar” de pés e mãos a Casa do Douro. O que faz o IVPD agir assim, com tanta impunidade, como se fosse senhor absoluto da razão? E esta questão é que me assusta, pois ninguém age deste modo sem ter o apoio da tutela. Na melhor das hipóteses será um mero apoio, na pior serão ordens emanadas do ministério, e aí é que coisa fia fino. Por muito que procure razões, e perante os factos amiúde divulgados pela imprensa e que culminaram com o último comunicado da Direcção da Casa do Douro, não me é possível achar outros motivos para a actuação do IVPD: o Ministério tem uma concepção sobre o assunto, concepção essa que está a alinhar pelas teses da liberalização, dando guarida a uma metodologia de apagamento progressivo da Casa do Douro por retirada de funções, esvaziamento legal, pressão e condicionamento do uso do seu património, asfixiamento financeiro. Nesta altura já não é possível ao Ministério (e ao próprio Governo) desmentir que existe uma intenção manifesta de acabar com a Casa do Douro, entendendo-a como mero organismo gremiário, sindical, associação profissional, ou que quer que seja. Isto é: a Casa do Douro como interveniente na gestão integrada do negócio vitivinícola, não interessa ao Poder. E percebe-se: hoje em dia o negócio do vinho do Porto já não se decide no Douro, mas sim no Porto e, muito especialmente, em Lisboa.
Há, também, uma certa imagem depreciativa que tem vindo a ser empolada, e que tem afectado a Casa do Douro desde o célebre negócio com a Real Companhia, e cujas primeiras abordagens governativas foram protagonizadas pelo Dr. Pina Moura, e uma conflitualidade que se gerou desde então, sendo certo que, por este “pecado” accionista da Casa do Douro, ainda hoje repousa sobre as cabeças de quem a dirige, uma mácula negativa. Sob este particular há que referir que este pecadilho em nada se compara com os autênticos escândalos que diariamente recaem sobre instituições públicas sem que, por isso, haja da parte do Governo qualquer sentido condenatório. Parece que, por cá, um estilo pressecutório estava à espera de uma escorregadela para apanhar a ponta do fio da meada da extinção.
Ceio que, nesta fase do problema, e nada confiado em como as auditorias que aí vêm resolvam o que quer que seja, talvez a Direcção devesse mudar de estratégia e pensar em reclamar os seus direitos noutras instâncias. Nas internacionais, por exemplo, e nos órgãos da Comissão Europeia. Este tipo de actuação, demasiado virada para o interior do Douro, quando o eixo das decisões está em Lisboa, requer outro tipo de estratégia, porventura mais dura e incisiva. Não adianta muito perderem-se em comunicados, multiplicarem-se em entrevistas, encherem páginas da imprensa regional com explicações que já sabemos, num esquema de esclarecimento interno que não chega sequer ao Porto, quanto mais a Lisboa.
A Casa do Douro está perante um cerco que vai apertando e que vê, dia-a-dia, aumentar os sitiantes. De cada vez que a Casa do Douro sufoca, muitos outros respiram fundo e erguem taças de champanhe.
Posso até estar a exagerar nos meus receios e ser acusado de estar a ver fantasmas a mais, mas que há um cerco à Casa do Douro, disso não duvido. E um cerco premeditado.

gouveiafrancisco@hotmail.com

O VERGONHOSO PROGRAMA TELEVISIVO SOBRE OS 250 ANOS DA REGIÃO DEMARCADA

Foi um requiem, um autêntico velório, o programa que a RTP1 transmitiu no dia 29, em horário nobre, sobre os 250 anos da Região Demarcada. Do princípio ao fim foi o deambular por aldeias desertas, prédios em ruínas, relatório das desgraças, augúrios de rápida extinção, culminando o programa com um casal pastores de cabras a assar castanhas e a desejar emigrar. Nem uma palavra sobre as potencialidades turísticas da região, sobre o sistema interprofissional, sobre a Casa do Douro, sobre o futuro que se abre, sobre as soluções, sobre as culpas que cabem ao Poder Central por ignorar a principal região agrícola do país, nada! No Douro, só viram desgraças, desertificação, miséria, uma história de violência, enfim, o programa que deveria ser a exaltação de uma região e uma porta de esperança e de divulgação turística, transformou-se num execrável deambular por memórias que já só pertencem ao passado mas que querem fazê-las como parte do presente. Uma vergonha!
Ressalvo aqui a posição dos entrevistados que, naturalmente, responderam ao que lhes foi perguntado sendo depois as declarações “encaixadas” segundo o critério da realização. Com excepção de algumas declarações desacertadas de António Barreto, a eles não lhes cabem as culpas. Mas à realização do programa, sim. É que ficaram longe da verdade, sendo nítida a intenção de dramatizar negativamente toda uma região. Neste naufrágio salvaram-se algumas excelentes imagens de documentários antigos, do tempo do preto e branco, e alguns outros documentos fotográficos. Quanto ao resto, foi para esquecer. Nem a narrativa histórica foi clara e fluente, mas uma tremenda confusão onde se misturou revoltas de taberneiros, pressupostas “candongas” do Marquês, costumes ingleses e decretos-leis.
Para trabalhos destes, mais valia não terem feito nada.

Francisco Gouveia

(425)

REQUIEM PELAS REGIÕES DE TURISMO:
O 8 ou o 80!

por Francisco Gouveia, engº

(Vão ser extintas as actuais Regiões de Turismo e substituídas por Agências de Turismo. O plano é razoável, com o óbice de ter englobado na região duriense uma extensão significativa de território pertencente a concelhos sem qualquer identificação com o Douro.
Não era bem assim que tínhamos imaginado o modelo que temos andado a defender há tanto tempo para o Douro. Este plano é obra dos burocratas da capital que continuam a parir leis sem levantarem os traseiros das secretárias e verificarem no local a exequibilidade do que projectam. O Douro vai dissolver-se na Região onde foi encaixado. A Trás-os-Montes acontece o mesmo)

Finalmente que o desgarrado mapa actual das Regiões de Turismo vai ser remodelado. Eu diria mesmo, extinto. De facto não fazia já qualquer sentido a forma como se estendiam pelo território nacional, sinal evidente de que as Regiões de Turismo tinham sido criadas por meras questões de conveniência política (e até de um certo oportunismo na criação de cargos) e não por um plano lógico de cobertura do país por instituições que o divulgassem e protegessem as áreas territoriais vocacionadas para a actividade turística. O passar dos anos demonstrou da quase inutilidade das mesmas e, salvaguardando uma ou outra que trabalhou bem, a maioria perdeu-se em iniciativas sem alma, em programas artificiais, em acções sem nexo. Por isso vemos com bons olhos a constituição de um novo mapa e da alteração substancial dos princípios e competências. A nossa espartilhada região de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde se digladiavam as Regiões Turísticas do Nordeste, Alto Tâmega e Barroso, Serra do Marão, Caldas do Moledo e Douro-Sul, ficará unida por uma só e que terá a denominação de Agência Regional de Turismo do Douro. No país serão constituídas as seguintes outras Agências de Turismo: Minho, Porto, Centro Atlântico, Serra da Estrela e Beira, Oeste e Centro Portugal, Lisboa, Alentejo, Litoral Alentejano e Planície, Algarve. São, desta forma, extintas as 19 Regiões de Turismo, 8 Juntas de Turismo e 18 Comissões de Turismo existentes actualmente no país.
No que se refere à nossa região, a futura Agência de Turismo do Douro abrangerá todos os concelhos dos distritos de Bragança e Vila Real, para além de Foz Côa (distrito da Guarda), Castelo de Paiva (distrito de Aveiro), Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto (distrito de Braga), Armamar, Cinfães, Lamego, Moimenta da Beira, Penedono, Resende, S. João da Pesqueira, Sernancelhe, Tabuaço, Tarouca (distrito de Viseu) e ainda Amarante, Baião, Felgueiras, Lousada, Marco de Canavezes, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel (distrito do Porto).
Analisando a extensão do mapa da Agência do Douro, parece-nos demasiado alargada e demasiado multifacetada para que se possa meter tudo no mesmo saco. Isto é, se por um lado se louva a reforma anunciada, por outro põe-se sérias dúvidas à eficácia de uma gestão turística que terá que se defrontar com concelhos tão díspares. Como já referi em muitos artigos de opinião, somente a região duriense (entendida como a da região Demarcada) possui características fortes e unas que a distinguem de qualquer outra no país. Esperava-se, portanto, que para ela fosse criada uma só Agência. E até se entenderia que esta região fosse estendida para mais a sul do Douro-Sul e englobasse, também a norte, alguns concelhos transmontanos. Contudo, a expansão a norte, sul e oeste parece-nos exagerada e eventualmente conducente a uma atrapalhada gestão. É difícil gerir o que é diferente dando a ideia de que é igual. Haverá programas que não terão aplicabilidade no todo da região e haverá necessidade de se criarem mini-planos regionais para este ou aquele concelho, ou conjunto restrito de concelhos.
Sem querer, para já, entrar a fundo nas razões que levaram à criação deste mapa, deixo contudo, uma séria observação ao facto de que não era bem isto de que estávamos à espera. Visto que, se por um lado houve regiões que ficaram bem definidas (Minho, Alentejo, Beira, Algarve), há outras, e especialmente a nossa, onde presumo ter havido muita confusão, de tal forma que se meteu no mesmo saco áreas incompatíveis ou, pelo menos, diversas.
Mas, como se trata de uma proposta de decreto-lei, seria bom que as instituições regionais estivessem atentas e se pronunciassem atempadamente sobre ela. Particularmente o Douro que, com este novo mapa, continua sem ver resolvido o seu problema. Se antes estava espartilhado por meia dúzia de regiões, a partir desta nova lei passa a estar metido no meio de uma amálgama de regiões com quem nada tem a ver. E então, será a emenda pior do que o soneto.
Do 80 passamos ao 8.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(426)

TUDO NO MESMO SACO?

Por Francisco Gouveia

(E já lá vão 30 anos de Poder Autárquico, galhardamente comemorados pela Associação Nacional de Municípios que, este ano, contesta com veemência a nova Lei de Finanças Locais – talvez com alguma razão – mas que, por outro lado, acoita autarquias associadas que precisam de ser postas na ordem. Não se pode meter tudo no mesmo saco: há quem cumpra e quem, à sombra de um certo corporativismo da ANP, gasta para além do tolerável)

O recém aprovado (e atribulado) orçamento da Câmara Municipal de Lisboa, veio pôr a nu uma dívida acumulada de 195 milhões de Euros. O caso teria passado na penumbra dos corredores lisboetas não fosse a confusão gerada pela quebra da coligação que segurava Carmona Rodrigues. Seja como for, Maria Nogueira Pinto acabou por viabilizar o Orçamento, mesmo não concordando com ele, situação que nos faz meditar se as razões da política muitas das vezes se acertam com a coerência. Segundo se ficou a saber pelo programa Prós e Contras (bom programa mas que acontece noite dentro, a uma segunda-feira, como se no dia seguinte ninguém tivesse que ir trabalhar), o Orçamento de Lisboa assume dívidas passadas, algumas escandalosas, de tal forma avultadas que nem no próximo século estarão amortizadas pela metade. E são situações como esta que desvirtuam e causam uma péssima imagem a um Poder Local que, diga-se o que se disser, na sua contabilidade de negativo e positivo, se salda por um exercício que tem mudado o país para melhor. Pode dizer-se que há um país sem o Poder Local e outro com o Poder Local. É certo que se pode questionar se os montantes de que usufruíram as autarquias têm correspondência matemática com as melhorias efectuadas, e se os critérios de gastos dessas verbas foram os mais acertados. Em muitos casos, não, como é óbvio, e neste deve e haver, pesa sobremaneira a velha ideia de que se deve gastar, mesmo mal. Aliás, a questão da poupança, ou melhor dizendo, a problemática de os executivos manterem uma orçamentação sustentável, é uma questão com os mesmos 30 anos que agora se comemoram. Gastar tudo até ao último cêntimo, tem sido uma norma que se estendeu como uma epidemia aos nossos autarcas. A regra é chegar ao fim do ano com os cofres vazios. Mas isto até nem seria grave caso as contas, no final, batessem certas. Mas o facto é que os gastos muitas vezes excederam as receitas. E este “vício” que se instalou de norte a sul do país, e apadrinhado por sucessivas leis permissivas, está agora a comprometer a actuação dos novos executivos, perfeitamente amarrados de pés e mãos a compromissos financeiros (a maioria de natureza bancária) inadiáveis e até já sem hipóteses de renegociação. Um dia a casa haveria de vir abaixo, e agora, quando o país se encolhe financeiramente, a Lei aí está, com todas as restrições inerentes, com todos os limites definidos, com cortes até à raiz das unhas. E haverá que protestar?
A Associação Nacional de Municípios bem o faz, pois sabe que, descontando os encargos das dívidas mais as despesas correntes, não há dinheiro para quase mais nada. E, numa atitude que tem muito de corporativista, contesta em uníssono, não se apercebendo que até são aquelas autarquias que mais abusaram do endividamento, que agora mais se revelam contra o aperto. E a ANP devia entender o seguinte: não pode querer que os cidadãos a apoiem quando ela se mantém impávida perante as diatribes de alguns seus associados. Não é aceitável nem tolerável que a maior autarquia do país se tenha endividado daquela maneira, da mesma forma que outras o fizeram. Chama-se a isto comprometer o futuro com o vislumbre da glória do presente. Muitas autarquias estão com a forca na garganta de tanto dinheiro que pediram e, se algo haveria que ser feito, era na altura devida. Agora é tarde. A ANP deverá aprender a separar o trigo do joio e a não dar cobertura a actos aventureiros que desprestigiam toda a classe autárquica. Com que argumentos vem agora contestar a nova Lei das Finanças Locais? Se se fizer a contabilidade correcta das dívidas globais com que se debatem as autarquias, é certo ficarmos a compreender o motivo de tanta preocupação. É que chegou a hora do aperto, porque algum dia havia de chegar. E nem as despropositadas declarações do Dr. Fernando Ruas, mais uma vez ameaçando que muitos serviços seriam prejudicados por falta de verbas – numa atitude, aliás, já costumeira e a roçar as bordas da chantagem – podem justificar qualquer simpatia pela argumentação apresentada. A verdade é esta: muitas autarquias do país andam mal geridas, sem rei nem roque, gastando à tripa forra, segundo conveniências pessoais, seguindo critérios de calendário político, sem a racionalidade que deve nortear o gasto do dinheiro que é de todos. Mas também porque estas autarquias desrespeitam as suas congéneres que cumprem. Se a ANP fosse, de facto, uma Associação no verdadeiro sentido, já se teria partido em duas: aglutinando numa parte, quem cumpre, e na outra quem não cumpre. Mas a ANP não é bem uma Associação, mas mais um clube de circunstância, onde, muitas das vezes, se jogam interesses que não são os de todos. E quando as autarquias sem dívidas perceberem que têm andado a dar a mão a quem não merece e que têm servido de muleta aos incumpridores do costume, aí sim, a ANP poderá mudar de rumo e assumir-se como o organismo responsável que nem sempre tem sido.
Vêm aí novas competências para as autarquias, que têm a ver com a Segurança Social, a Educação, a Saúde. A era do betão e das rotundas está a acabar. E agora é que vamos ver se o nosso Poder Local tem pernas para andar neste caminho complicado da gestão de assuntos que requerem uma visão mais ampla do mundo e um nível cultural e de competências que até agora não têm demonstrado possuir.
Se uma nova era não nascer, era essa resultante da necessária adaptação dos poderes locais aos desafios dos novos tempos, então nada valeu a pena, e nem sequer os vastos dinheiros já gastos servirão de alicerce ao que de exigências por aí vem. E então, perdemos todos, ficando demonstrado que as dívidas não justificaram as melhorias que pressupostamente criaram.

gouveiafrancisco@hotmail.com

No próximo dia 20 de Janeiro

Francisco Gouveia e José António Neves
em
RECITAL DE MÚSICA PORTUGUESA NA BIBLIOTECA MUNICIPAL

Numa organização do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Régua, realizar-se-á no próximo dia 20 de Janeiro de 2007, pelas 16 horas, um recital de música instrumental portuguesa executada por Francisco Gouveia (cavaquinho, viola braguesa, viola requinta) acompanhado por José António Neves (guitarra clássica).
Do programa constam trechos do repertório popular português e trechos adaptados de música clássica, executados nos nossos instrumentos de corda tradicionais. Há vários anos que ambos se dedicam ao estudo dos cordofones populares portugueses, tendo a efectuar vários recitais em Portugal e Espanha. Pela primeira vez a cidade da Régua terá oportunidade de assistir a um recital diferente, genuinamente português, e que tem encantado audiências. Este recital abre uma época de actuações a que se seguirão outras salas de espectáculos da região. Um concerto a não perder.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor desative o Ad Blocker neste site