Ano 2007 Francisco Gouveia Engº
(427)
ENROLAR PARA REINAR
por Francisco Gouveia
(Diz o povo: dividir para reinar. Mas nesta terra lusa outro provérbio se criou: enrolar para reinar. Os problemas enrolam-se interminavelmente e quem os pode resolver parece não estar interessado em fazê-lo. A não resolução dos problemas tornou-se uma forma de manutenção do Poder. Porque enquanto eles existirem, vai cimentando a ideia da necessidade de alguns “sacrificados” continuarem nos seus poleiros. Os burocratas da política sabem muito bem que de cada vez que um problema se resolve, cai um “tacho”)
Portugal está a transformar-se num imenso muro de lamentações. O muro nem é tão alto como isso, mas a multidão de lamentadores é avassaladora. Fala-se das crises e da problemática de tudo quanto é actividade. A bem dizer, não há nada neste país que não esteja pelas ruas da amargura. Tudo é complicado, tudo é de resolução difícil, tudo necessita de sérias meditações e profundas reflexões. As Tvs enchem-nos de mesas redondas e de quanta geometria há onde, selectas e eruditas, as sapiências lusas lavram elevadas sentenças sobre o labirinto onde esta terra se meteu. Em Portugal, nada é de fácil resolução. Para tudo há-de haver intrincadas conexões que limitam e asfixiam as mais geniais ideias. Portugal é um beco fechado de ambos os lados: à entrada e à saída. Por cá, nem adianta profetizar uma solução: há-de estar enfermada de todos os vírus. Por isso, multiplica-se a verborreia da discussão, tentando-se com isso demonstrar que por cá se praticam os mais altos padrões da democracia. E este manancial de palavreado, muitas das vezes debitado por quem nesta arte já se especializou até às raias do sufoco, atinge níveis caricatos. Por vezes, não raro é vermos o mesmo cérebro a debitar bitaites em duas estações televisivas na mesma hora, descontando as crónicas que, também nesse mesmo dia, saíram no jornal A e B, e, nessa semana, na revista C. E ai de nós se ligamos o rádio em certas alturas críticas, pois nem a música esperada e paga com a nossa paciência para a publicidade, escapa a momentos infindáveis de debates! A problemática transformou-se numa instituição, e ai da instituição que não tem o seu problema irresolúvel para resolver! Assim, à custa desta necessidade de que sobre estes assuntos (que ultrapassam o entendimento do pobre cidadão que, no seu dia-a-dia, tem mais com que se preocupar – o ganha-pão, por exemplo), haja quem os entenda e sobre eles possa opinar, criou-se uma clubite especializada em saltar de cargo em cargo e, dando a entender que só eles possuem a solução esperada, se vão abotoando aqui e ali, com grossas maquias de salário, avantajadas regalias, gordurosas mordomias, e o mais que os seus imaginários conseguem inventar quando é hora de assentar rubricas de despesa nos orçamentos dos organismos que fazem questão de dirigir a bem da Nação. Há então que se criar problemas em cima de problemas, pois quantos mais problemas houver, mais necessidade há de que estes “consultores” se debrucem sobre as matérias em causa, especialmente sobre os recibos dos vencimentos na boca das depauperadas tesourarias das instituições que tão bem dirigem. Ou, pelo menos, mantêm a salvo da derrocada total – segundo dizem, pois sem eles há muito que o Armagedon teria desabado de vez sobre as contabilidades regulares. Enrolar, é o termo: enrolar lentamente o novelo, com uns nós aqui outros ali, criando-se uma imensa bola de que nem se sabe onde começa nem acaba o fio. Enrolar sempre e, se por acaso, alguém descobre a ponta do novelo, é de imediato calá-lo. Regra geral, e porque a tal de democracia tem regras, não se amordaça a voz que é coisa de ditadura, mas silencia-se, ignorando-a, fazendo de conta que não existe. Das duas uma, ou a voz alinha no coro ou vai pregar para o deserto. A táctica destes fazedores de problemas é velha como o mundo. Quantos ditadores não se consolidaram no Poder só porque havia problemas que eles próprios criavam?
É por isso que, de cada vez que ouço certa gente falar, já sei que vêm por aí mais problemas. Fala-se pouco de soluções porque as soluções não alimentam os “tachos”. As soluções são incómodas, não propiciam a criação de cargos. Para cada problema deste país, há dez cargos para o resolver. Se esses dez criarem outros tantos problemas, dali a dias serão necessários mais cem cargos. E por aí adiante.
Do que tenho ouvido por estas andanças, do que tenho presenciado, do que tenho participado, ressalta-me esta amargura de estar cansado do fala-baratismo nacional. E há coisas tão fáceis de resolver! Mas a quem interessa fazê-lo?
E é triste que, neste país, os cidadãos tenham que viver eternamente amarrados a esta cola da problemática eterna só porque a clientela política e dita gestionária, necessita dela para a sua sobrevivência. Avantajada e folgada sobrevivência. Ganhá-lo sem fazer nenhum – como diz o povo que, nisto de problemáticas, é bem avisado. Só que não é ele que manda, apesar de julgar que sim.
gouveiafrancisco@hotmail.com
(428)
UM SACO CHEIO DE NADA
Por Francisco Gouveia, engº
(Depois de, em Setembro, o Primeiro-Ministro ter vindo ao Douro anunciar uma estratégia para o seu desenvolvimento, e em vésperas de ser nomeado quem irá chefiar a Unidade de Missão que a executará, eis quando os senhores deputados regionais socialistas resolvem apresentar um Projecto de Resolução recomendando ao Governo que tome medidas relativas ao desenvolvimento económico e social do Douro. Das duas uma, ou os senhores deputados andam muito desfasados do que por cá se tem passado, ou então este Projecto traz água no bico: pelo mais certo, uma forma de continuar a entreter os durienses com mais burocracia, mais formas de adiar as soluções por que tanto anseiam. O Plano já estava no Douro e os senhores deputados recambiaram-no para Lisboa. Foi o que fizeram.
Este Projecto de Resolução é um manancial de trivialidades e de retórica inútil.
Mas percebe-se: depois das bordoadas que o Governo tem dado nas infra-estruturas, serviços e equipamentos da região, era preciso que os senhores deputados socialistas mostrassem algum serviço.)
Trata-se de uma iniciativa politiqueira, agendada no calendário do entretém socialista, e sem qualquer conteúdo, quer prático, quer inovador. Este Projecto de Resolução nº 139/X, da iniciativa dos deputados regionais socialistas e que recomenda ao Governo certas medidas para o desenvolvimento económico do Douro, é também mal dirigido, ou seja, vai para o remetente errado. Mas vamos aos factos.
Em Setembro de 2006, em visita à região, o Primeiro-ministro anunciou uma estratégia para o tal desenvolvimento onde se incluía uma Unidade de Missão para a levar à prática. Esta novidade (vejam bem) até foi anunciada em sessão solene na Casa do Douro. A tal estratégia englobava vários sectores fundamentais das actividades regionais e, ao que parece, descansou as vozes mais críticas. Entretanto, com o passar dos meses seguintes, a região viu passar por ela vários quadros governamentais que garantiram a execução da tal estratégia e que, brevemente, seria nomeado um Encarregado de Missão para concretizar o prometido. É evidente que, já nessa altura, toda a gente sabia que seria o Engº Ricardo Magalhães o escolhido para tal cargo – e, até ver, nada contra isso. Ora, nesta ordem de razões, estamos perante dois factos assumidos: a promessa (até bem pormenorizada) de um Plano para o Desenvolvimento do Douro, a curto prazo, e a nomeação de alguém que responderia pela sua exequibilidade. Assim sendo, aquilo que os durienses pretendem é que, rapidamente, essa Unidade de Missão entre em funcionamento, que apresente o seu programa, que diga como vai levar a efeito a estratégia, como pensa resolver os problemas mais prementes da região, como entende a planificação do futuro à conta dessa estratégia. Será, portanto, de todo inútil que venham a terreiro mais achegas. Por isso, este Projecto de Resolução agora inventado pelos senhores deputados regionais socialistas, é descabido e dirigido à pessoa errada. Trata-se sim, de uma manobra dilatória, de desvio de atenções, tentando centralizar num ambíguo Projecto de Resolução algo que há muito se encontra definido pelo Governo. Ou será que Governo não pretende levar a efeito o que prometeu e ordenou aos seus militantes locais este artifício para fazer “render o peixe”? O Plano de Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro, por exemplo, está aprovado, e já não cabe na cabeça de ninguém que possa andar para trás, contudo, é citado neste Projecto de Resolução como se houvesse receio de que caísse no esquecimento do Engº Sócrates.
Para além do rol infindável de trivialidades de que o documento em causa vem imbuído, ressaltam-se também algumas descaradas hipocrisias. Por exemplo, diz-se a certo passo que “no processo de reforma da administração pública e na reorganização dos serviços, seja tida em atenção o processo de desertificação da região”. Ora valha-os Deus, senhores deputados! Então nessa reorganização de serviços, não está incluída o fecho da Maternidade de Lamego, o encerramento da Urgência da Régua, e outros atentados contra o pouco que por aqui vamos tendo? É assim que acham que se combate a desertificação: eliminando valências e equipamentos? Quem para cá vem? Ou quem quer cá ficar neste deserto onde nem um sítio há onde se tome uma injecção?
A bem da verdade, a retórica deste Projecto de Resolução é um manancial de banalidades, uma espécie de resumo das matérias há muito tratadas em infindáveis Conferências e Colóquios que se têm multiplicado pela a região duriense.
Mais do que um acto consequente, trata-se de uma manobra dilatória, ao jeito de “quem quer mostrar serviço”, mas, ao mesmo tempo, uma forma acrescentada de, possivelmente, se retardarem as acções por que todos esperamos. Mas, com este Projecto, como que se remete novamente todo o processo à procedência, à sua origem, a Lisboa. Os senhores deputados regionais socialistas não terão muito que fazer, acredito, e já nos habituaram a estas jogadas. Quem não se lembra de como, muito recentemente, e depois dos temporais que desabaram sobre a agricultura duriense, terem visitado a região, apoiando a instituição do regime de calamidade para o Douro, e depois, chegados a Lisboa, virarem “o bico ao prego” e darem o dito pelo não dito?
Estas politiquices, meus senhores, tresandam e, acreditem, aborrecem por demasia. Mas também porque nos tomam por atrasadinhos que tudo comem. O que o Douro quer, senhores deputados, é que a promessa do Primeiro-Ministro seja cumprida, que quem de direito comece a trabalhar e que, muito em breve, possamos ver os resultados da tão esperada estratégia. Quanto ao resto, bem dispensamos. Papel de embrulho é o que este País tem de sobra. Que embrulha Resoluções e outras maneiras de empatar promessas.
gouveiafrancisco@hotmail.com
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POR QUE CARGA DE ÁGUA A VIDA HÁ-DE SER MAIS CARA NO INTERIOR?
por Francisco Gouveia, engº
(Não devia ser, porque as populações têm menor poder de compra e o país não é tão grande que justifique as disparidades. Mas a verdade é que o custo de vida por cá é muito superior ao resto do país. É uma assimetria só justificável pela miopia, a todos os níveis: político, social e – aqui é de bradar aos céus – económico. Reflexos de um país entregue ao critério de gestões públicas e privadas que, na maioria dos casos, sabem pouco da matéria e agem em conformidade com a ignorância)
Todos sabemos que a estratégia comercial das empresas não passa pelo princípio da solidariedade nem sequer se deixam cativar por questões sociais. A tecnocracia economicista que rege as suas gestões não se compadecem com a problemática do subdesenvolvimento, da desertificação, da interioridade, etc. E, se calhar, estão cheios de razão e não deveriam nunca atender a estes factores. Ao cabo e ao resto, não são instituições de solidariedade social. São empresas. Contudo, há algo que não se entende. Num recente estudo publicado nos órgãos de informação nacionais, dá-se conta de que o custo de vida no interior é muito mais caro do que nas restantes regiões do litoral. Isto é: onde os aglomerados populacionais são menos numerosos, aumentam os preços. E esta situação é tanto mais inexplicável quanto o facto de sermos um país pequeno, já razoavelmente servido de vias, e onde a disparidade de preços praticada não se justificaria. É que não se trata de pequenas diferenças mas sim de desequilíbrios no preço ao consumidor quase escandalosos. E, sabendo-se como se sabe, que o poder de compra no interior é muito menor do que o resto do país, não se percebe onde se quer chegar com estas subidas. Dizem os entendidos (ou pretensamente entendidos) que se trata de ajustes derivados ao facto de se vender menos no interior e que, segundo as regras comerciais conhecidas desde sempre, só em grandes quantidades de venda de bens os preços podem ser diminuídos. Que seja assim, não discuto, mas, a aplicar-se cegamente este princípio não se estará a contribuir para que as vendas diminuam? Eu, caso fosse empresário (e porque o que vou dizer a seguir tem apoios em recentes estudo de Economia) tenderia a ajustar os preços dos meus produtos para que incentivasse o consumo junto de populações que possuem baixos níveis de recursos. Ou seja: os bens deveriam estar mais acessíveis, mesmo reduzindo-se as margens de lucro que se tentariam compensar com a quantidade vendida. O incentivo tem que ter um rosto, e esse rosto passa por preços apelativos. O que acontece em Portugal, e agora demonstrado de vez, é que, quanto mais debilitada economicamente está uma população, mais cara tem que pagar os bens. Este facto é não só uma injustiça social como (penso eu) uma péssima estratégia das empresas. Vendem menos, contribuem para acumular mais um factor aos que determinam a desertificação, ajudam a que, a médio prazo, as vendas diminuam e os lucros se extingam. É evidente que há empresas e empresas. E até sei que as empresas locais e que, talvez por isso, vivam de mais perto com os problemas da população, são aquelas que tendem a controlar-se e a ajustar os seus preços às condições do mercado local. Mas sei também de grandes empresas, geralmente ligadas ao ramo da distribuição, que, para atingirem os níveis impostos pelas administrações, aumentam desenfreadamente os preços no vislumbre de conseguirem alcançar os tais objectivos. E a questão é sobremaneira grave quando se trata de bens essenciais. Seja como for, trata-se de uma estratégia meramente matemática, que não equaciona outras variáveis nem perspectiva qualquer futuro. É uma estratégia só para resultados imediatos, mesmo que, procedendo assim, se aniquile o futuro, quer das populações e das próprias empresas.
Mas se até agora se percebeu que estive a falar das empresas privadas, é preciso que esclareça que a mesma retórica se aplica às empresas públicas, nomeadamente as regionais e que – sabe-se lá porque desígnios – insistem em aplicar preços também superiores à média nacional. Água, saneamento, electricidade, gás, são mais caros no interior do que no litoral. E porquê? Alegam os seus responsáveis com argumentos que são exactamente os mesmos que justificam a desertificação e a debandada das populações do interior: a dispersão de aglomerados, o número baixo de habitantes dos mesmos, elevados custos de produção, infra-estruturas mais caras per/capita, etc, etc. E se o Estado não pode intervir na gestão das empresas privadas, o mesmo já não se passa com as públicas onde, aí sim, poderia muito bem impor limites e até legislar dentro de um plano estrategicamente definido, de forma que o custo de certos bens pudesse ser, no interior, mais aliciante do que no litoral. Neste aspecto, uma certa solidariedade nacional não seria de todo descabida. Mas o que se passa é exactamente o contrário, ou seja: cada vez mais as empresas públicas, mesmo as de orientação e génese municipal, possuem autonomias mais alargadas, pondo e dispondo. E como sabemos que, na sua grande maioria, os gestores políticos que as comandam possuem um nível técnico muito pouco recomendado e enfermam de alguma incompetência, resulta daqui um primarismo na resolução do problemas correntes e que, quase sem excepções, passa pelo cego aumento de preços sempre que as tesourarias gemem.
Os tempos para o interior não vão de feição. A bem dizer, todos lhe dão porrada, desde os privados aos públicos. E, quanto maior liberalização, maior a pancadaria. Os prometidos planos de recuperação para o interior, até hoje não têm ultrapassado a fase retórica do discurso adornado, uma infindável colecção de promessas. Toda a gente sabe que o interior só se poderá reabilitar – e é necessário que se reabilite, que se povoe, que se desenvolva – se as condições que o litoral oferece forem ultrapassadas pelas condições disponíveis no interior. E estes aumentos despropositados e especulativos dos bens não são de tolerar. A manterem-se, é para acabar de vez com o interior. Assim, qualquer plano que para cá seja estabelecido, por muito boa vontade que haja e até boa-fé, nunca vingará se se mantiver esta tendência de esfolar as populações locais.
Associações comerciais, empresas públicas, municípios, Governo, têm que consertar algumas regras para que a vida por estas bandas não se transforme num inferno onde se pague a peso de ouro o que nem prata é.
E, por muita volta que se dê, não é de acreditar que a questão seja alheia aos citados. É, acima de tudo, competência e dever dos citados.
gouveiafrancisco@hotmail.com
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TEMOS DEBAIXO DOS PÉS A RIQUEZA DO FUTURO
por Francisco Gouveia, engº
(Não é ouro, nem diamantes, nem petróleo. É agua potável, meus amigos, água pura como há pouca no mundo. Norte e Centro do país têm uma fortuna debaixo dos pés. Quem o diz são os recentes relatórios sobre as alterações climatéricas e as carências futuras do planeta onde a água potável será o bem mais precioso. Cada vez se torna mais evidente que o país precisa de um Plano urgente de inventariação e protecção das suas nascentes, ribeiras e rios. Um Plano que envolva desde as Juntas de Freguesia ao Ministério do Ambiente. Estamos à espera de quê?)
Um homem fala, fala, escreve, alerta, chama a atenção, mas é o mesmo que estar a dar um sermão pr’ás pedras. Há anos que eu, e muitos como eu, andamos a avisar este país retardatário que tem bens em excesso, que despreza, e que a outros faltam. Temos um clima privilegiado, um território fértil e variado, um posicionamento invejável no mapa-múndi. Temos serras e vales verdejantes, centenas de quilómetros ao lado do mar, nascentes de água por todos os cantos, um céu azul e um sol brilhante que prima pelo equilíbrio. E, ao analisarmos aquilo que de bom temos e ao compará-lo com o que falta a muitos, ficamos espantados como desprezamos aquelas pequenas coisas onde pudemos ter alguma valia. Faz-me lembrar a estória do merceeiro que andava à procura do lápis e com ele enfiado na orelha. Eram outros tempos, porque agora as máquinas registadoras informatizadas já não cabem no lóbulo auditivo. Somos assim um misto de desleixo, com muita lamúria carpideira e, o que é pior, um constante sedentarismo mental que nos leva a colher tardiamente as lições do mundo.
Recentemente, um estudo a nível planetário alertava com veemência para as tragédias que esperam a Humanidade num futuro que cada vez está mais próximo. Em suma, as hecatombes que se previam para lá do fim do século, com o agudizar das agressões humanas à Natureza, vão estreitando o tempo, de tal maneira que muitos presságios de ontem se vão transformar nas realidades de amanhã. O planeta está esgotado, violado, sacudido por uma violenta ganância que não respeita o mais elementar princípio de preservação. Assim, os fenómenos de alteração climatérica, de degelo, de rasgamento da calote atmosférica, já são um facto, e as consequências já se sentem. Por exemplo, é um dado adquirido que, cada vez mais, as cheias serão uma realidade, e a periodicidade a que estávamos habituados, deixará de existir passando a anual. Isto só para falar de algo que toca o Douro. Contudo, outras alterações serão sentidas a muito breve prazo, afectando a vida do planeta. Uma delas será a inevitável falta de água potável. Já não falo em água pura, como a que aqui temos com fartura, tanta que até a desperdiçamos. Falo de água bebível, mesmo sem grande grau de pureza, mas com condições suficientes para que possa ser assimilada pelo organismo humano. Ao cabo e ao resto, somos 70% de água! Assim, sem ela, não sobreviveremos. E como somos pródigos neste bem! Especialmente a zona Norte e Centro, é um manancial de nascentes paradisíacas, de rios ainda despoluídos e ribeiras bravas. É bom que nos lembremos que, apesar de amiudadamente a imprensa nos brindar com atentados ambientais, como sejam os dejectos lançados nas linhas de água, ainda há muito rio que permanece em estado de pureza quase virginal. Ou seja: aquilo que fará falta crucial à Humanidade, temos nós em elevada qualidade. Vem isto a propósito de muita coisa, particularmente do facto de acordarmos sempre tarde e a más horas e, muitas das vezes, andamos à procura do tal lápis com ele no sítio que contei. Se tivéssemos o mínimo de visão de futuro, se possuíssemos algum sentido que nos guiasse para além da mesquinhez do apertado presente, saberíamos que devíamos salvaguardar este bem fundamental. Há muito que o Ministério do Ambiente deveria ter um Plano Nacional de protecção da água. Não um Plano como o que existe (ou acho que existe, mas não tenho a certeza) de mera gestão dos principais rios. Um Plano que teria de passar necessariamente por uma séria inventariação das nascentes, de todos os rios ainda não poluídos, das ribeiras, etc, etc. Teria que ser um Plano que envolvesse desde as Juntas de Freguesia até ao Ministério. E, por tantas campanhas que se fazem, por isto ou por aquilo, às vezes por causas sem pés nem cabeça, ainda não se fez uma campanha de sensibilização sobre a água, a tal, a pura, a que deveria ser protegida. Se pensarmos que poderemos, num futuro muito próximo, ser um país exportador de um bem que não pode ser produzido em fábricas, que não está dependente da tal competitividade que nos justifica o atraso, que não fica à mercê das especulações dos mercados, concluiremos do potencial que temos a nascer sob os pés e de que nem dele damos conta. O ouro acabar-se-á, um dia, assim como o petróleo, o gás, mas a Humanidade não acabará por esse motivo. Arranjará sempre alternativas energéticas alternativas ou substitutivas. E até, eventualmente, arranjará maneira de produzir água por meios artificiais. Afinal, o H2O não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Mas a água pura de uma nascente serrana, essa valerá ouro. Bem geridos, poderíamos ter hoje uma indústria de engarrafamento de água dez vezes superior há que existe. Poderíamos já ter uma quota de exportações neste sector mais determinante que qualquer Auto-Europa. Mas não temos. Os nossos planos de desenvolvimento passam, sempre, pela cópia do que outros fizeram – e somente. A nossa imaginação, espírito empreendedor, capacidade de ir buscar soluções onde nem o diabo se lembra, características com que rasgamos meio mundo e o demos a conhecer ao outro meio, estão a perder-se. Olhamos mal para nós, para as nossas potencialidades, para a exploração daquilo que temos e, por vezes, só nós temos. Entretanto, o mundo vai correndo e nós a olharmos para ele, cobiçosos, copiadores, desprovidos de invenção. E, quando por cá as coisas apertam, vamos para o estrangeiro fazer o que cá não tivemos coragem para implementar. É a nossa triste sina: sermos bons, óptimos até, mas só em terra alheia.
gouveiafrancisco@hotmail.com
(431)
CASO O “SIM” VENÇA, HAVERÀ MULHERES QUE SERÃO PRESAS
por Francisco Gouveia
Se até agora ainda nenhuma mulher foi condenada a prisão efectiva por abortar, tal já não acontecerá caso o referendo dê a vitória ao “sim”. É que, com a legislação actualmente em vigor, uma certa maleabilidade da lei, aliada a uma instituída condescendência dos magistrados sob o assunto, têm permitido que os casos que caem nos Tribunais sejam apreciados de ânimo leve e com muita, mas muita benevolência. Contudo, a pergunta que é colocada neste matreiro referendo, é taxativa quanto ao período de tempo em que as mulheres podem abortar livremente: dez semanas. Prevê-se então que, em caso da vitória do “sim”, a lei que venha a regulamentar o processo abortivo, estabeleça um parâmetro de pena de prisão para actos além das tais dez semanas, pena variável entre um tempo mínimo e um máximo de reclusão, a aplicar pelos Tribunais consoante a gravidade do acto abortivo que, em meu modesto parecer, poderá ter a ver com o tempo de gestação do feto na altura do aborto. E não duvido: abortar para além das dez semanas constituirá já um crime e, como tal, sujeito a pena de prisão. Não estou a ver que o actual sistema condescendente possa vir a manter-se numa futura legislação regulamentadora e penalizadora do aborto para além do tempo permitido pela lei que for elaborada. Mas tem mais: como o aborto só pode ser efectuado em estabelecimentos para tal habilitados, muito provavelmente, a mulher que pretenda abortar para além das dez semanas, das duas uma: ou tentará à força de dinheiro corromper uma clínica legal e, caso não o consiga numa clínica legal, terá de recorrer a uma clandestina. Então, se um caso desta natureza cair em tribunal, teremos uma situação complexa de duplo crime. Ou seja: esta pergunta que agora vai ser referendada, para além de ser um logro sob todos os aspectos que já se falaram, induz também a uma ratoeira, isto é: a mulher julga que sob a protecção desta lei estará a salvo de penalização caso aborte, quando, de facto, e caso se engane nos cálculos (ou por qualquer outro motivo) e a gestação ultrapasse as tais dez semanas, correrá risco de cadeia como não corria com a lei vigente. Esta é mais uma das armadilhas de um referendo que, como toda a gente sabe, mais não pretende do que iniciar um processo de liberalização integral do aborto. Este referendo, de facto, não leva a despenalização nenhuma, antes pelo contrário cria condições de suporte legal para que seja instituída uma pena efectiva para os abortos “fora de prazo”, pena essa que, com certeza, já não poderá beneficiar da “generosidade” que tem guiado as decisões judiciais com base na lei em vigor. Aliás, é bom que se refira que todo este processo tem pactuado em demasia com a insensatez, o oportunismo, a demagogia barata. Demagogia já herdada do processo de discussão na Assembleia da República e que levou à elaboração da infectada pergunta que é colocada aos portugueses. Uma coisa é certa: olhe-se para um feto com dez semanas e digam-me se o que lá está é ou não um ser humano. Todos nós já fomos assim. Abortar é, indiscutivelmente, com ou sem penalização, dentro ou fora de estabelecimento para tal habilitado, matar. Palavra crua mas a única aplicável. Interromper uma gravidez é matar. Mas, para aqueles que acham que um feto com dez semanas não é uma vida humana e que, mesmo sendo, a mulher tem direito a eliminá-la, alerto para o seguinte: com o seu voto não vão despenalizar coisa nenhuma. Pelo contrário, vão abrir uma porta para que, efectivamente, seja criado um regime legal que, desta vez, condene à prisão quem abortar fora dos limites daquele prazo, situação que, actualmente, não acontece.
gouveiafrancisco@hotmail.com
(432)
AINDA ONTEM FOI 2000
por Francisco Gouveia
Estávamos muito preocupados com os presságios do fim do mundo no ano 2000, quando bruxos e adivinhos amedrontavam as almas crédulas com nebulosas sentenças do término dos tempos, o coraçãozinho a bater ansioso nas badaladas da meia noite à espera do anunciado cataclismo que varresse o planeta do espaço universal, quando, de um momento para o outro, nos damos de taça na mão a dar vivas a 2007! Então seis anos passaram tão depressa? Pois passaram, correndo-nos por entre as pernas, quase sem darmos por eles.
Os mais antigos dizem que o tempo de hoje anda mais depressa que o de antigamente, mas, que se saiba, ainda ninguém alterou a cadência dos relógios nem a galáxia resolveu acelerar. Contudo, a realidade é esta: desde aquele mágico 2000, estamos seis anos mais velhos. Assim, de um momento para o outro, ainda parece que foi ontem. E eu, que de vez em quando me dou a estas maluqueiras de tentar interpretar os desígnios do tempo, concluo que pouco ou nada posso concluir. Só sei esta verdade: o tempo corre depressa demais para os nossos sentidos. Ou será que são os nossos sentidos que, de tão distraídos, nem dão por ele? De facto, o mundo de hoje cerca-nos por tanto problema que nem tempo temos para apreciar o tempo. A vida – ou as vicissitudes de uma vida cujo granjeio não anda fácil – absorve-nos os minutos, os segundos, todos os instantes. A vida de hoje cria mil e um problemas que nos tomam o todo de nós, permanentemente. Há quanto tempo não paramos para olhar o rio a correr, o ondular das ramagens nos dias de vento, o sol a bater nas penedias? Que sabemos dos sons da natureza que nos rodeia? Ainda nos lembramos do zunir do vendaval, do canto dos grilos, do chilrear da passarada, da água que cai na cascata? De que nos lembramos nós? Do relógio impiedoso que nos marca os passos, hoje às tantas horas ali, dali a pouco acolá, na freima de uma papelada que se tem de tratar, de um assunto em fim de prazo, do saldo bancário que anuncia eminente colapso. Corremos de um lado para o outro sem saber muito bem porque corremos. Sabemos que temos que correr, porque algo nos impele as pernas para que corramos, mas, chegados à noite, assola-nos essa frustração imensa de quem correu em vão. Afinal, para quê? Chegamos ao fim do dia precisamente como o iniciámos, se não, pior. E dia em que não aprendamos nada é dia perdido, dia a menos, dia não vivido.
Ainda ontem nos espantávamos com o “milagre” do ano 2000 e já hoje nos arreliámos por o tempo lhe ter arreado com mais seis em cima, e nós sem darmos por nada. O pior de tudo é que alombamos com mais seis no Bilhete de Identidade. Meia dúzia! E ao olharmos para trás, dificilmente encontramos memórias que justifiquem tanto ano! No geral – digo eu – quando a saúde não nos prega rasteiras e as desgraças não nos batem à porta. Caso contrário, a estória é outra, mas nem é bom lembrar!
Anestesiados, damos então vivas a este novo 2007!
Ele que se cuide, e aproveite esta hora de glória efémera, pois, logo cedo, envelhecerá. O Inverno vai findando, a Páscoa está por aí, logo depois o repentino Verão, as vindimas a seguir, e pronto: está o ano feito! Afinal, quem julga ele que é, este vaidoso 2007, que anda por aí cheio de peneiras a julgar que vai dar um pontapé no défice?
O tempo também não vai ter pena dele. E, contudo, é este mesmo tempo que é o maior curador do mundo. Que lhe havemos de pedir? Que ande um pouco mais devagar? Ai se pudéssemos!
Assim, resta-nos a esperança de que este 2007, pelo menos, nos traga a saúde perdida (para quem a perdeu), ou que a mantenha a quem tem a graça de a possuir.
Pelo que me cabe, não desejo mais.
Que se lixe o défice, a reforma administrativa, as escandaleiras da Justiça, a fuga ao fisco, o livro da Catarina. Com a velocidade a que corre o tempo de hoje, quem tem tempo para pensar no resto?
(433)
A DESORGANIZAÇÃO É A GRANDE INIMIGA DA COMPETITIVIDADE
por Francisco Gouveia, engº
(Planeia-se para se resolver um problema e não pensar mais nele. Por seu lado, o planeamento é o culminar prático de um processo organizativo. A tão falada competitividade portuguesa, depende destes dois factores e de mais nenhum. Somos tão bons ou melhores do que os outros desde que bem dirigidos em esquemas de trabalho bem planeados. Mas, em Portugal, não se planeia coisa nenhuma. Nem convém.)
Há dias, e depois de um incêndio urbano que destruiu algumas habitações e provocou a morte de duas pessoas, queixava-se o Presidente da Junta da freguesia onde ocorreram os factos que, a actuação dos bombeiros tinha sido gravemente comprometida pelo motivo das bocas- de-incêndio terem dimensões de acesso incompatíveis com o sistema que os bombeiros possuíam. Tal situação sei que não é nova e que se estende a todo do país, não existindo uma normalização que permita a que, qualquer Corporação tenha acesso ao uso das referidas bombas, seja no Minho ou no Algarve. Em Portugal, quando se urbaniza, cada qual coloca as bocas-de-incêndio que quer. O resultado está à vista, mas merece uma profunda reflexão que extrapola para além do caso descrito. Num assunto tão linear e de tão grave importância para a nossa segurança, quem manda, quem faz as leis, quem as aconselha, não teve até agora o discernimento para verificar que não é possível ser-se eficiente com problemas desta ordem. Isto é: a eficiência tão propalada, tão ligada à competitividade que nos tolhe a economia – segundo os “cérebros” cá do bairro luso – compromete-se sempre que à desorganização. Neste caso foi na acção dos bombeiros, mas o assunto pode alargar-se a todos os ramos de actividade. O nosso problema nunca foi o da competitividade. Somos tão ou mais competitivos do que os outros, e a prova está nalgumas empresas nacionais de referência que por cá dão cartas na matéria, e nos nossos trabalhadores emigrados que, quando integrados em esquemas organizados de trabalho fazem autênticos milagres. O nosso problema, então, não é essa mazela quase endémica que querem atribuir aos trabalhadores, mas sim a uma impressionante falta de poder de organização. E esta questão da organização leva-nos ainda mais longe, até às franjas do planeamento. Existe um conceito nórdico de planeamento, amplamente difundido nas escolas destes países e que assenta no princípio de que se planeia para não se pensar mais no assunto. Planear é, assim, organizar logicamente para que o problema alvo da intervenção planeadora deixe não só de existir como o sistema criado seja capaz de se auto gerir. E nesta questão do planeamento, temos de considerar que estamos a léguas do que deveríamos estar. Aliás, estou perfeitamente convencido de que o nosso atraso estrutural assenta essencialmente no facto de não possuirmos uma cultura de planeamento. O que por cá se faz neste aspecto, é retórico, descritivo, quase entediante. Isto é: escrevem-se resmas de relatórios para, no fim, a montanha parir um rato, ou seja, não se conseguir estabelecer um modelo que resolva o problema suscitado. Lembro-me de, há cerca de 25 anos, ter estado no Porto uma equipa Suiça de engenheiros especialista em trânsito, e que cá veio com o intuito de analisar os inúmeros problemas de circulação viária naquela cidade e, quando deu o trabalho por concluído, apresentou, não um relatório pejado de páginas literatas, mas sim um esquema prático de resolução dos diversos pontos críticos da cidade. Os nossos “especialistas” ficaram de boca aberta porque nem sequer uma folha havia com qualquer memória descritiva, qualquer justificativa, nada. Somente o esquema de resolução. É certo que para nós já era, naquela altura, muito difícil de perceber o aspecto prático que guiava a actuação dos suíços e a sua enorme competência que os aconselhava a apresentarem soluções sem perdas de tempo. Não sei o que a Câmara Municipal fez ao estudo, mas parece que ficou na gaveta porque faltava, segundo eles, o principal: a conversa fiada. Daí até hoje, confesso que não acho que Portugal tenha mudado muito sob este aspecto, e do planeamento continuamos a ter uma ideia de que o mesmo é para se ir fazendo e não para se fazer. A prova está nas instituições que têm a seu cargo o referido planeamento e que produzem, não o tal planeamento prático, mas resmas e resmas de páginas com estudos muitas das vezes elaborados só para fazer crescer o volume do trabalho e dar-se a entender que se debruçaram a sério sobre a matéria em causa. Mas, como resultado eficaz, há um enorme vazio, uma falência de ideias e, essencialmente, falta de objectividade. Somos, definitivamente, um país de burocratas que ainda não se habituou a distinguir o verdadeiro planeamento da intenção de o fazer.
Veio tudo isto a propósito de umas simples bocas-de-incêndio e da falta da sua normalização. Coisa sem importância mas que talvez tenha sido responsável pela perda de duas vidas humanas. Convenhamos que não somos perfeitos, nem melhores do que os outros, mas tenhamos a coragem de não admitir que nos considerem inferiores, improdutivos. Somos é mal dirigidos, não temos organização, não sabemos planear. E não nos faria nada mal seguirmos este espírito nórdico que tanto parece encantar o nosso Primeiro-ministro: planear para não nos preocuparmos mais com o assunto. Mas, infelizmente, neste país parece que tem que haver muitos assuntos com que nos preocuparmos, se não, para que seriam precisas tantas instituições oficiais, tantos cargos, tantos tachos? E, todos o sabem, a máquina do Estado também emagrece de cada vez que se resolve um problema. Por isso (ou talvez por causa disso) temos cada vez mais problemas e uma máquina do Estado que, ao contrário do que se pensa, emagrece no essencial mas cresce no acessório (leia-se: cargos públicos desempenhados por políticos e excepcionalmente bem remunerados). E enquanto as coisas continuarem assim, planeamento para que te quero!?
(434)
ENTÃO DEPOIS DA VITÓRIA DO “SIM” É QUE VAI COMEÇAR A DISCUSSÃO?
por Francisco Gouveia, engº
Como era de esperar, a apressada discussão que antecedeu o precipitado referendo não esclareceu aquilo que devia ser esclarecido. A pressa no aproveitamento da maré do “sim” deu no que deu. E agora, depois de festejada a vitória (não sei bem de quê), começam a levantar-se vozes críticas, vindas exactamente do lado que tanto badalou a favor da tal despenalização que, afinal, parece que não vai despenalizar nada. E da série enorme de problemas que a execução prática trará, levantam-se já sérias dúvidas sobre a forma como há-de ser, como não há-de ser, como talvez deva ser. A saber:
– Já se sabia que o Serviço Nacional de Saúde não estava nem estará, sequer, a longo prazo, preparado, para efectuar abortos nas unidades hospitalares, sabendo-se das listas de espera que existem para intervenções cirúrgicas primárias e sabendo-se também que, e de acordo com o referendo, os abortos têm que ser feitos de imediato sob pena de ser ultrapassado o prazo de dez semanas estabelecido na lei.
– As unidades médicas de obstetrícia e ginecologia têm nos seus quadros uma maioria de técnicos que vão alegar objecção de consciência para a realização de tais actos, pelo que aquelas unidades, pelo mais certo, ficarão na maioria das vezes impossibilitadas de efectuarem os abortos.
– Por outro lado, coloca-se o problema de, muitos médicos não aceitarem que as suas unidades pratiquem abortos, mesmo dispensando-os. Ou seja:
“- Agora como vamos fazer um aborto e como o senhor doutor não concorda, vá-se lá embora que a gente cá se desenrasca! Quando acabarmos, pode voltar!”
Sinceramente (e esta ideia tem-me sido transmitida por médicos amigos), não estou a ver como poderá ser conciliável esta logística abortiva com questões de consciência.
– Outra questão coloca-se com o apoio prévio (psicológico e psiquiátrico) que deve ser dado às mulheres que pretendem abortar e como conciliar prazos, situações específicas, disponibilidade de pessoal, etc, sabendo-se que se trata de um assunto onde o prazo conta sobremaneira e de como os prazos são tão maltratados na logística da Saúde lusa.
– Há ainda uma questão fundamental e que se prende com a despenalização. Isto é, se até agora havia uma certa condescendência perante a condenação, de tal forma que, actualmente, se desconhecem condenações por prática de aborto, tal já não acontecerá com a nova lei visto que, a partir do referendo, depois das dez semanas o acto constituirá crime e, como tal, sujeito a pena. Ou seja: este referendo, ao contrário de despenalizar, vai arranjar maneira de que depois das dez semanas, quem pratique o aborto corra o risco de ser presa. A tolerância que constituía já como que uma jurisprudência, vai terminar.
– Prende-se ainda este assunto com o facto de já não ser novidade para ninguém que será um grande negócio para as clínicas privadas. Foi recentemente noticiado que, só em Lisboa, se preparam já quatro para abrir. Parece que, duas delas (espanholas) estão até já prontas para funcionarem de imediato. O Sr. Ministro já garantiu que, quanto a verbas não há problema, declaração que nos deixa a todos de boca aberta. Afinal, o Sr. Ministro tem dinheiro bem aconchegado lá no Ministério!
– Há ainda uma série de questões que se prendem com a idade das mulheres que pretenderão abortar (e se forem crianças? E se forem menores?), com a maneira como a nova lei vai regulamentar a actividade destas clínicas – atente-se que, numa recente entrevista dada à TV pela directora de uma dessas clínicas espanholas, aquilo que era verificado antes do aborto era somente se a situação em causa se enquadrava na lei. Nada falou sobre acompanhamento psicológico dissuasor, sobre a análise da situação com vista a evitar-se o acto, nada! Somente se a parturiente se enquadrava nos casos e prazos previsto na lei (e eu sei lá se é assim), e em caso positivo abortava-se e mandava-se a conta ao Ministério da Saúde.
Questões éticas, morais, de simples análise clínica, de ponderação de consequências, ficaram de fora de uma vertiginosa discussão que foi curta, politicamente manobrada pelo partido do Governo, com a escandalosa participação de membros do Governo que quase garantiram com o seu aval que o Estado estava em condições para garantir o cumprimento da futura lei resultante da aprovação do “sim” e que, afinal, vem agora a saber-se, não está preparado para nada. Nem podia estar. Como é possível acreditar-se que no actual estado do Serviço Nacional de Saúde (se é que ainda existe) há condições para albergar com mais esta imensa responsabilidade?
Mais uma vez, o Governo deu a volta ao texto, hábito seu muito peculiar e que herdou da tramóia financeira com um tal défice que o levou ao Poder como se não soubesse de nada. È mestre na manipulação dos argumentos, um artista de primeira na publicitação, um sábio na arte do ilusionismo. Este Governo é assim. Mas agora, que se desunhe. Uma coisa é certa: o que se devia ter pensado a tempo e horas, com ponderação, foi precipitado num frenesi quase histérico pelo “sim”. E outra coisa é certa: membros do Governo já avisam que, desde o estudo da lei, à sua elaboração, à sua execução prática, vão dois ou três anos. Ou me engano muito, ou este “sim” foi uma rasteira passada a muita gente. Melhor dizendo: a quem quis ser rasteirada.
(435)
ADMINISTRAÇÕES POLÍTICAS, ASNEIRAS PÚBLICAS
por Francisco Gouveia, engº
(O que aconteceu na linha do Tua nada tem a ver com o acaso, a má sorte ou o imprevisto. Tem sim a ver com a falência de um sistema de conservação e manutenção das infra-estruturas ferroviárias que, em tempos, foi considerado dos melhores do mundo e que hoje está desmantelado por políticas oriundas de burocráticos e incompetentes Conselhos de Administração que não só arruinaram financeiramente a CP como delapidaram o melhor do seu material humano. A nobre, voluntarista e abnegada tradição dos nossos ferroviários foi, nos últimos anos, destruída por grupos de políticos incompetentes que se plantaram nos Concelhos de Administração graças a um único currículo: o que estava escrito no seus cartões de militantes)
Qual pedra, qual meia-pedra! Qual azar, qual treta! Um aluimento sob os carris e foi o suficiente para que a máquina, nesse ponto, tombasse. E vejam bem: estamos em terrenos de granito sólido, onde durante anos e anos circularam milhares de composições, pejadas de gente, sem que tenha havido mal maior. A Linha Ferroviária do Tua começou a construir-se em 1885 e ficou concluída em 1906. Desde sempre foi considerada como sendo a mais bela ferrovia de Portugal, mas a beleza que possuía tinha o seu reverso: também era considerada como sendo a mais perigosa. Encravada entre taludes a pique, agarrada à bitola dos carris que, pelo seu lado, se amarravam a plataformas rasgadas nas penedias vertiginosas, não se garantia que, numa viagem, uma pedra traiçoeira ou um aluimento instantâneo, não pudessem provocar uma tragédia. Mas, naqueles tempos, havia equipas que batiam o terreno, que verificavam possíveis anomalias, e eram essas brigadas que garantiam as condições para que as viagens se processassem com mínimos de segurança. Aliás, este princípio da existência de equipas especializadas que percorriam os trajectos na procura de irregularidades, era também usado na JAE (quem não se lembra dos cantoneiros, estrada fora, a taparem um buraco aqui, a cortarem um gestal ali, a limparem uma linha de água obstruída). Existiam também, e ainda dentro deste princípio, os guarda-rios, que zelavam pela qualidade das águas e eram elementos dissuasores de abusos e prepotências privadas. Que é feito desta gente? Onde andam essas brigadas? Essas equipas?
O certo é que, como sabemos, há muitos anos que deixaram de existir, e porquê?
Recuemos.
Entre 1915 (aproximadamente) e 1948, acontece o período fulgurante dos caminhos-de-ferro, especialmente no interior. Principal meio de transporte, era raro o comboio que não viajasse apinhado, de gente e coisas, e bichos também – nos velhos tempos da lavoura saloia que encantou estes vales do Douro. Durante esses anos, a azáfama dos serviços ferroviários era excitante, e essas equipas constituíam um elo sobremaneira importante para o bom funcionamento de todo o sistema. Desconhecem-se desastres de monta, para além de pequenos encraves sem significado.
Mas os anos foram-se passando e é precisamente a partir de 1975 que a CP começa a dar ares de claudicar. Muitos dos seus projectos de manutenção e beneficiação das vias começam a ficar nas gavetas, em nome de novos conceitos de gestão que, entretanto, começam a tomar conta da empresa por mãos de quem nunca na vida tinha, alguma vez, sabido com quantos parafusos se fazia um comboio. De um momento para o outro, a estrutura humana que sustentava o funcionamento ferroviário, começou a ser desmantelada, quer por decisões discutíveis, novos esquemas de trabalho, novos conceitos de gestão das manutenções, enfim, por uma série de pressupostas inovações que, a bem dizer, viraram do avesso a CP. É um facto que, na altura, as reivindicações salariais e de reestruturação dos quadros de pessoal, consequência do período em que se vivia, tiveram uma importância fulcral no estado posterior em que caiu a CP. Contudo, só isto não justifica o caos que se abateu então sobre a instituição. Qualquer gestor minimamente competente saberia conciliar os interesses dos trabalhadores com a melhoria dos serviços. Uma coisa era certa: a estrutura básica que, até ali, tinha garantido ao país uma das mais respeitadas redes ferroviárias do mundo, não podia ser assim desmantelada. Mas foi-o.
E foi assim, resumidamente, que as nossas ferrovias vieram por aí abaixo, caindo finalmente num desinteresse absoluto, e, a principal via de comunicação que tinha sido até ali, era agora renegada para um lugar subalterno.
O que aconteceu recentemente na linha do Tua não é mais do que a consequência de não se ter uma estrutura ferroviária que, efectivamente, funcione como tal. O nosso sistema ferroviário é, também, uma das grandes mais-valias que o país possuía e que, imperdoavelmente, perdeu. Em qualquer altura pode acontecer um aluimento igual. Em qualquer altura pode acontecer a queda de uma pedra. A linha do Tua já não é o que era antes. Continua bela como sempre foi, e perigosa como sempre foi, mas com uma diferença: já lá não andam aqueles que zelavam para que estes imprevistos não acontecessem. E o desmantelamento de um sistema que funcionava, sem ser sequer substituído por outro – como ainda se quis fazer crer – responderá agora por estas tragédias.
Estamos num tempo de loucuras faraónicas. Só se pensa em construir coisas enormes, imensas, gigantescas. Somos capazes de gastar milhões num via rápida e, mesmo ao lado, manter uma estrada de uso necessário toda esburacada porque não há uns tostões para a reparar. Vamos ter TGVs de milhões de milhões, contudo, nem um planozinho temos para salvar as nossas pontes, os nossos pontões, as nossas vias-férreas, as pequenas estadas locais de ligação entre lugares. Queremos é coisa grande, que dê a ganhar, logo de uma assentada, milhões aos clientes do costume. Isto de se ganhar hoje aqui o dia-a-dia, e amanhã ali o mesmo, foi chão que deu uvas. O mal é que, nos dias de hoje, as empresas já não se contentem em ganhar pouco. Por isso não se interessam por obras pequenas. No fundo, querem ganhá-lo todo de uma vez. E é este espírito, espécie de febre do Euromilhões que nos tolhe o pensamento, que está a levar este país à derrocada.
Ontem, no Tua, um comboio caiu ao rio por falta das tais obras pequenas. Como amanhã cairão as obras grandes, se calhar pelo mesmo motivo. Afinal, o vírus é o mesmo.
(436)
TERRORISMO POLÍTICO
por Francisco Gouveia, engº
(Isto de se andar a lançar o pânico e o desespero nas populações, com o fantasma do encerramento de urgências e desclassificação de unidades hospitalares importantes, para depois se dar o dito pelo não dito, recuando, e assinando protocolos de manutenção dos tais serviços, é uma manobra da mais execrável moral e um autêntico acto de terrorismo político, inadmissível num país de Constituição democrática. Mas as razões de tão vergonhosa campanha tem um objectivo: o de criar a sensação de que se está a dar algo às populações. Isto é, primeiro cria-se uma enorme sensação de desespero, e depois vem-se aliviar o mesmo desespero com a notícia de que, afinal, nada de mal acontecerá. Um alívio que é confundido com uma dádiva, quando, de facto, o Governo não se dá nada)
Correia de Campos já não sabe o que diz e muito menos o que faz. O seu descontrolo vai ao ponto de gracejar com os mortos nas estradas, admitindo que se morre menos nelas porque a gasolina está mais cara. Este raciocínio que não lembra ao diabo, faz-me lembrar casos idênticos que, por muito menos, levaram ministros à demissão. Mas Correia de Campos não de demite. Não faz parte do código moral deste Governo que os abusos insultuosos ou que as condutas menos próprias dos membros do Governo seja punidos com a demissão. Mas, por outro lado, Correia de Campos tem a lição bem estudada, lição essa que, sem dúvida, passou pela cabeça de Sócrates. O nosso Primeiro-Ministro já demonstrou a sua enorme aptidão para transformar situações críticas a seu favor, mesmo que, para tal, tenha que utilizar demagogas metodologias antigas e que se julgavam já arredadas das práticas democráticas mas que, afinal, ainda têm o seu préstimo. Uma delas é o pânico, a insegurança, mesmo o medo. A sua imagem de homem inflexível, ajuda. Os portugueses sabem que ele, quando se lhe mete uma coisa na cabeça, não há alma que o demova. E, assim sendo, começando a dizer-se que vai fazer isto ou aquilo, os portugueses sabem bem que o fará. Começou este fadário com a questão das escolas, das maternidades, e agora plantou-se na questão dos serviços de urgência. Isto é: uma dita Comissão, que deveria trabalhar no anonimato, sem burburinho, apresentar o seu trabalho para que, depois, o Ministério fizesse o planeamento geral do país, acabou por transformar um mero estudo numa poderosa arma de amedrontamento das populações. O relatório da dita Comissão foi considerado como lei e divulgado pelos serviços de propaganda do Governo como se já de um projecto definitivo se tratasse. Assim, e ainda antes de o Governo ter estabelecido as alternativas e organizado o mapa integral, já se considerava como facto consumado o encerramento deste e daquele serviço de urgência. O Sr. Ministro deixou que os boatos crescessem tomando posições formais tímidas, numa nítida demonstração da sua cumplicidade perante o que Sócrates estava a tramar. As populações desesperaram, entraram em pânico, chegando mesmo a efectuar manifestações públicas de desagrado com alguma violência à mistura. Estava criado o campo ideal de manobra para que, a seguir, viesse o Ministro dar o dito pelo não dito e estabelecer os tais protocolos com algumas Câmaras que, ingenuamente ou partidariamente, aceitaram as condições do ministério como uma vitória pessoal dos autarcas e como uma dádiva do Ministro. Estavam assim os louros repartidos. Contudo, feitas bem as contas, o Ministério não deu nada. Quando muito, manteve. Mas, perante o desespero que se instalara, soube a dádiva.
Ninguém duvida de que os serviços de urgência necessitam de ser reformulados a nível do país. Há muita coisa no país que tem que ser reformulado. Não se entende é por que razão as coisas não se fazem integradas e por que se andam a reformular serviços de urgência avulsamente, ao sabor de meras conveniências políticas ou, pior, ao sabor das cedências de alguns senhores autarcas. Por exemplo: a Câmara da Régua não assinou o protocolo, e bem. E porquê? Actualmente o Hospital D. Luís possui serviços de atendimento 24 horas por dia. Chamem-lhe ou não urgência, o facto é que se a meio da noite um reguenses se sentir mal, é lá que vai. A proposta do Sr. Ministro de melhorar os serviços de dia e encerrá-los à noite é, a meu ver, inadmissível. Porque não melhora os serviços de dia e os mantém à noite? Isto sim, seria dar alguma coisa à Régua – pouca coisa, acrescente-se – mas já era algo. Diz o senhor Ministro e concorda em coro o PS local (que sobre a matéria tem tomado uma posição execrável), que a Régua nunca teve um serviço de urgência. Pois não. No sentido lato, como seja a urgência médico-cirúrgica, nunca o teve de facto, mas então o que se deve fazer? No mínimo, acho eu, lutar para que a tenha, ou pelo menos que suba um escalão acima do que tem. O que nunca se deve fazer é dar azo à hipótese de nunca a ter! Por isso pergunta-se: que reguenses são estes que em vez de pedirem aquilo que têm direito se limitam a defender as teses redutoras do Ministro? Eu sei que não é usual os socialistas adoecerem de noite, pois, como toda a gente sabe, estão proibidos de o fazerem pelo Ministro. Pelo menos na Régua é assim. Mas, segundo parece, há outros cidadãos, que não têm a felicidade de serem socialistas, e que estão sujeitos a moléstias nocturnas. E a esses, quem lhes acode? Eu tenho cá um plano que talvez resolvesse a questão. Era assim: todos os reguenses se filiavam no PS local e, assim, estavam vacinados contras as doenças súbitas nocturnas. Nesta perspectiva já o sr. Presidente da Câmara poderia assinar o protocolo descansado. Parece ridículo mas não o é porque, neste país, cada vez mais ser-se filiado no PS é um certificado de acesso e protecções. Até médicas, pelos vistos.
A realidade dos factos, contudo, é bem diferente. O país está no caos. Os portugueses vivem dias de apreensão, de grande tensão, de grande incerteza. O futuro apresenta-se negro. Necessitavam-se sim, de políticas serenas, apresentadas para todo o país, devidamente justificadas e com o especial cuidado de evitar as rupturas sociais. E, acima de tudo, de se evitarem situações avulsas de corta aqui, corta ali. Mas, em vez de se seguir uma metodologia de planeamento racional aliado a estratégias de mobilização geral, o que se faz? Lançam-se para o ar atoardas, criam-se confusões em tudo o que é sítio, chegam-se a criar estados de medo que, aliadas às dificuldades presentes, se transformam em verdadeiras fogueiras de desespero público. E isto não é clima de que um Governo se deva orgulhar. É um martírio em cima de martírio. E como não acredito que quem nos governa não saiba destas coisas, não tenho dúvidas que muitas destas situações são premeditadamente criadas. Com o tal objectivo de desesperar para depois vir aliviar. Aliviar sem acrescentar nada. A um doente com dores, a quem se tira as dores (mesmo que temporariamente), se não se curar a moléstia que o atormenta, não se lhe está a resolver nada. Simplesmente a aliviar o sofrimento. As populações do interior, particularmente afectadas por todas as medidas restritivas do Governo, que já pouco possuem e cada vez têm menos, estão em estado de choque. Afinal, não foi nada disto que o Governo prometeu. Não estava escrito no programa do Governo acabar com o interior de vez. Mas, infelizmente, é o que está a acontecer. Porto, Lisboa, Coimbra, etc, estão fora desta confusão. Por lá não há crise: têm hospitais centrais uns em cima dos outros. Sai-se pela porta de um, entra-se logo na porta de outro. Mas aí o Governo pouco mexe. Afinal, é por lá que estão os votos. E precisam desses votos para se elegerem, para levarem a efeito as Otas e os TGVs, para financiarem as clientelas partidárias, para pagarem os salários chorudos dos seus correligionários em cargos públicos, para empregarem os militantes. O que representa a Régua neste mundo eleitoral? Meia dúzia de votos? Então, para quê gastar com ela?
Como já disse em tempo próprio, a Câmara demonstrou num excelente estudo, que o concelho e circundantes cumpriam com as condições mínimas para uma urgência no D. Luís na verdadeira acepção da palavra. Por isso não creio que lhe tivesse sido possível fazer mais do que o que fez. Que mais se poderá fazer depois de se demonstrar que se tem razão? Mas o PS local, ao contrário do PS de outros locais, numa atitude perfeitamente condenável, alinhou pelas teses do ministro e até o deputado regional abençoou a vontade de Correia de Campos. O PS reguense vai de mal a pior, pois de uma coisa tenho a certeza: se o Dr. Vítor Almeida fosse presidente da Câmara, ter-se-ia oposto ao ministro. Ao seu próprio ministro. Não tenho dúvidas de que seria assim que agiria. Porque, é justo que se diga, nem todos os militantes do PS da Régua estão a concordar com este alinhamento da Direcção Socialista reguense. Aliás, a Direcção Socialista concelhia reguense é uma coisa complicada. Muito complicada. Mas lá iremos, mais tarde, não agora que a festa é outra. E tem sido esta falta de unidade política local que tem prejudicado todo o processo. Se a actual direcção concelhia do PS da Régua acha que o Ministério está a propor uma boa solução para a Régua, é lá com ela. Mas o aviso fica feito: a procissão vai no adro e ainda vão amargar a atitude de subserviência que tomaram. Digo eu, que não sou bruxo mas sei esperar.
SITE NA NET DE CORDOFONES PORTUGUESES EM ABRIL
Francisco Gouveia e José António Neves estão a ultimar um novo site na internet onde divulgarão os cordofones tradicionais portugueses. Serão cerca de três horas de interpretações dedicadas ao cavaquinho, viola braguesa, requinta, viola toeira e guitarra portuguesa, executadas por Francisco Gouveia e acompanhadas pelo Prof. José António Neves que se encarrega da guitarra clássica, viola baixo, piano e teclados. O trabalho que estão a desenvolver contemplam a recuperação de vários recitais e gravações que vêm efectuando desde a década de oitenta, até à actualidade, motivo pelo que se têm mantido em aturado trabalho de estúdio visto que o site terá também diversos originais e gravações de clássicos do nosso folclore que agora beneficiarão da qualidade sonora das modernas tecnologias de audio. O trabalho está a ser elaborado num estúdio do Porto e os autores pensam terminar ainda este mês, pelo que pretendem que o site esteja disponível aos interessados já em Abril. Francisco Gouveia é um conhecido colaborador da imprensa regional Transmontana-Duriense, autor de várias obras de ficção e conhecido etnógrafo instrumental. O Prof. José António Neves possui um extenso currículo musical, quer a nível da investigação quer a nível do ensino da música, trabalhando actualmente como director executivo do Conservatório Regional de Música de Vila Real. Este site permitirá, gratuitamente e sem limites, que qualquer um possa gravar na íntegra todas as peças disponibilizadas, situação que será inédita dado que, a regra é que, neste sites promocionais, se reproduzam apenas pequenas partes de peças musicais remetendo-se depois para a compra via net, do respectivo CD. Acrescente-se que o site está a ser construído sem qualquer tipo de apoios, quer oficiais quer privados, muito à imagem de independência que os dois cultivam. O site está a ser aguardado com alguma expectativa pelos melómanos e pela imprensa especializada.
(437)
CASA DO DOURO DEBAIXO DE FOGO
por Francisco Gouveia, engº
(Os ataques à Casa do Douro atingiram níveis de violência intoleráveis: violência administrativa e violência verbal. Já não existem dúvidas que a CD é um alvo a abater. E porquê? Que mãos misteriosas manipulam os sucessivos Governos para, um a seguir a outro, lhe irem cavando a cova? Afinal, quem lucra com a extinção da Casa do Douro?)
Os ataques à Casa do Douro estão a atingir níveis de violência que esta está longe de merecer. Depois de uma auditoria de resultados muito discutíveis de que foi alvo, relativamente às pressupostas dívidas que tem para com o IVPD, auditoria essa que ignorou diversas questões pendentes como sejam as dívidas também reclamadas pela CD ao IVPD, e logo a seguir aos avisos que recebeu por parte de deputados, de que haveria uma certa má vontade e até hostilidade da parte do Ministro da Agricultura para com ela, esta sucessão nada inocente de factos culminou num acto também muito pouco inocente, perpetrado pelo ex-Governador Civil, Dr. Artur Vaz que, de uma forma para mim totalmente inesperada e que me provocou algum espanto, anunciou, de forma velada, a quase extinção da CD, acusando-a de ser “um cancro”. Posteriormente, esperei do Dr. Artur Vaz que ele viesse a terreiro justificar o porquê de uma afirmação tão grave, contudo, isso não aconteceu (pelo menos até hoje, 5 de Março, data em que escrevo esta crónica). Como já afirmei, o estatuto daquele dirigente político, e também o seu historial e percurso público, em nada faziam prever estes arremedos. Mas ele lá sabe, e se sabe mais do que nós, e já que as suas afirmações foram assim tão graves, acho que devia justificá-las. Mas, dizia eu, nunca como hoje a Casa do Douro esteve tão “oficialmente” ameaçada. Feitas as contas e até parece que uma série de factos se consertaram para que a instituição se transformasse num alvo a abater. É um facto que, desde os tempos de Guterres que a CD nunca despertou nenhuma atitude de benevolência ou sentido de ajuda da parte dos Governos (e já por lá passou o PS, o PSD e o CDS). Parece que a CD já não interessa. Isto é: aquela que foi um baluarte do equilíbrio que, em tempos, permitiu ao Douro impor-se como zona agrícola organizada e onde era possível o planeamento (coisa rara em Portugal) e que foi (e é) a mais lucrativa região agrícola do país (e, como tal, aquela onde a Administração mais montantes de impostos cobra), está a ser tomada como um peso subsidiário, inútil, problemática, desnecessária, “um cancro”. E eu não sei se no pensamento daqueles responsáveis políticos que premeditam o seu fim, há alguma alternativa para ela, ou se, por outro lado, acham que a Produção deve funcionar sem ela. Todos sabemos que este Governo tem uma noção de socialismo que se confunde com o neo-liberalismo. E sendo assim, deixar que os produtores se rejam pelas leis de mercado, impostas por um Comércio poderoso e que, afinal, detém o capital, não seria de todo descabido. Por isso, nesta perspectiva, já não me espanta que o fim da CD seja um facto consumado na estratégia do Ministério, faltando somente esperar pelo tempo certo e que o desgaste a que a têm sujeitado, cumpra a sua missão: enfraquecê-la e cercá-la para lhe dar o golpe final. Mas, digo eu, nenhum de nós é tão inocente que julgue que estas coisas acontecem sem que haja muitos interesses por detrás a comandar a “operação”. E o que eu acho apreensivo é que, durante todos estes anos, nenhuma atitude boa-vontade tenha sido vista, ou sequer vislumbrada, pelos responsáveis governativos que tivemos e que temos. Há, evidentemente, algo que ata as mãos dos que querem defender a CD e que, por outro lado, dá freio nos dentes aos que a pretendem derrubar. Sob o ponto de vista externo, é claríssimo que a CD está debaixo de fogo cerrado. Mas se a visão externa não é favorável, vista do lado de dentro as coisas também parecem não correr da melhor forma. Senão, vejamos: já em tempos disse que não entendo a estratégia da Direcção da CD. Os argumentos a que apelam são suficientes e constitutivos de matéria susceptível de acções em Tribunal. Isto é, julgo há muito que a Direcção da CD devia ter accionado mecanismos de índole judicial e passado ao ataque. As justificações que têm dado e a perseguição de que se diz vítima, não me leva a outra conclusão. Ou então, há coisas que desconheço e estou a falar de cor. O que é mau, não para mim, mas para a opinião pública (especialmente os associados) que continua a interrogar-se sobre o futuro da instituição e para quando a resolução da catadupa de problemas que tem desabado sobre ela. Assim, bem pode o Governo preparar-se para a estocada final porque a maré está pôr-se de feição.
Uma coisa é certa: a Casa do Douro foi um organismo que serviu o Douro, alicerçou o Douro, desempenhou tarefas mandatado pelo Poder Central, organizou, calendarizou, negociou e foi, em suma, um baluarte da Região que hoje conhecemos. Baluarte indispensável. E julgo que continua a sê-lo. Sinceramente, não estou a ver o Douro a manter-se dentro dos padrões que o individualizam, sem a sua CD. E isto não é saudosismo. É uma convicção real, actual, moderna (julgo eu). Assim sendo, se não percebo a estratégia da Direcção, muito menos percebo das razões da intenção do Governo em acabar com ela. Eu sei que muitos estarão a pensar neste momento que, afinal, o Governo ainda nada disse sobre esta intenção, mas todos sabemos que Sócrates nunca diz nada. Manda outros dizer por ele. Aparece no fim, depois da balbúrdia e do rescaldo, para tentar pôr água na fervura, aparecendo aos olhos do Povo como aquele que, afinal, é o menos responsável pelas desgraças que nos acontecem. Por isso nas sondagens, o Governo está nas ruas da amargura e ele lá nos píncaros.
Recentemente, rumores de que poderia haver entre a CD e o empresário Joe Berardo, um pré-entendimento sobre a entrada deste último num negócio de venda dos stocks de vinho da CD, e que esta operação poderia ajudar a CD a resolver alguns dos seus problemas financeiros, veio trazer novamente a lume a teoria de que a “reforma” do Douro passa necessariamente pela intervenção de capital privado. Ou seja: já pouco há a esperar da Administração Central. Aliás, como se pode esperar algo de uma Administração Central que nunca foi de boas contas. Por exemplo: será que já foi feito o balanço da extinta Comissão Inter-Profissional? Será que as contas estão fechadas? Dizem que não, inclusive a CD que, pelos vistos, tem lá cativos nunca resolvidos.
A CD faz, este ano, 75 anos de existência. E navega num mar encapelado de dúvidas e de dívidas. Que o Governo tem a obrigação de esclarecer o que pensa do papel da CD e se concorda ou não com as suas responsabilidades na sua actual crise, é algo necessário. Mas não estou certo se o fará. O Dr. Artur Vaz foi muito claro. Claro de mais para que as suas palavras pudessem passar sem que fossem interpretadas como uma missiva, um recado sério de quem manda.
A CD, pelo seu lado, prepara-se para um debate alargado sobre o seu futuro. Não sei se a crise que atravessa se resolverá com debates. Mas se a Direcção acha que sim, quem sou eu para dizer que não!
Uma coisa é certa: há uma animosidade por parte dos sucessivos Governos, evidente. Demasiado clara para passar despercebida. E, no meio disto tudo, há 40 mil agricultores que vivem na ansiedade. Era bom que, quem tem o Poder, esteja ele onde estiver, se lembrasse disto. 40 mil, mais as famílias, é muita gente. E o Douro é, essencialmente, essa gente.
gouveiafrancisco@hotmail.com
(438)
O ACORDAR DA SEITA
por Francisco Gouveia, engº
(Há atitudes que só se explicam pela ignorância que, aliás, sempre foi bom pasto para a besta da demagogia. E nada melhor do que o discurso político para disfarçar a ignorância.
Há seitas que se formam há custa da ignorância.
E há seitas que de ignorância têm muito pouco.
Então, o que as move?)
Os recentes apelos de unidade entre os viticultores, proferidos pelo senhor Presidente da Casa do Douro, são mais que um apelo: são o reflexo de que algo de muito grave se está a preparar contra a instituição representativa da Produção. E, dia-a-dia, se vão reconhecendo os contornos de uma estratégia de destruição da CD, perpetrada por interesses de todos conhecidos e que, agora, encontraram finalmente apoio político numa certa ala do PS, neo-liberalista, partilhando mano-a-mano as teses mais liberalizantes do Comércio e, (sei lá!), se já não seriamente comprometida com os cadeirões que se disponibilizarão depois da queda da CD. A liberalização total na actividade duriense tem sido aspiração de alguns ultr-conservadores que nunca viram com bons olhos qualquer tipo de concertação entre os intervenientes no processo. Pesa-lhes o Estado como inútil e atrapalhador, sem se lembrarem que é a ele que recorrem frequentemente quando as crises lhes arrasam os lucros. A utopia que representa um Douro ao deus-dará, à mercê das contingências comerciais, é isso mesmo: uma utopia. Mas é esta utopia, porque nunca experimentada cá, mas seguramente conhecida de outras tragédias mundo fora, que alimenta a lógica dos que agora conseguiram pôr o pé no ramo da dita ala do PS. No fundo, esta ala pouco sabe do que se está a tratar. As justificações de índole política sempre foram um excelente meio de encobrir a ignorância. E a ignorância, neste como em todos os assuntos, é a porta aberta a qualquer demagogia. Tenho assim que, só por pura ignorância, se pode aceitar que uma “seita” dentro do PS encha a boca com disparates sobre o Douro e aja como uma barata tonta a quem viraram de patas ao ar. Ignorância, digo eu, porque sou benévolo, acho-me bem intencionado, e não quero sequer imaginar que outros interesses que não os do Douro anda a tal “seita” a partilhar com os liberalistas do costume. Mas nem mesmo a minha benevolência acredita na tal “pura ignorância” que, como disse, anda por aí a alimentar-se de demagogias neo-liberais. Entretanto, a meu lado, algumas vozes vindas de tugúrios insondáveis onde as consciências malévolas acoitam as más intenções, sussurram-me queixas de arrepiar. Uma até é capaz de me avisar, ao jeito do comum cidadão iletrado: “estão todos feitos!” Todos? Que todos? E feitos? A quê? Tento dissecar a frase mas a minha fraca sintaxe não se compadece com a volta que pretendo dar-lhe. É mesmo assim: “todos” são aqueles que a gente sabe e, “feitos” é o cimento filosófico que une a tal “seita”. Num ápice, vejo passar-me pelo pensamento a imagem absurda das conspirações paridas somente pelo interesse no vil metal. Nada de filosofia, nada de generosidade social, nada de entendimento do futuro, nada de revolucionário, nada de autêntica mudança benéfica. Nada de nada! A não ser o vil metal, já o disse. Rodeado de ignorância, acrescente-se. E um mestre, vestido de larga batina e capuz, brandindo o bastão de iniciado-mor, faz a oração de finados em honra da vítima. Ouvem-se outras vozes, carpindo o mal-estar da cerimónia, ao mesmo tempo que outros as animam com promessas e visões paradisíacas do éden duriense todo à mercê da “seita” e dos tais demagogos que a alimentam. Um mais ansioso olha para o relógio maldizendo o tempo que corre devagar. O raio da encomendação nunca mais acaba, e ele com pressa, amante à espera e champanhe no gelo. Bem que podiam ter marcado a reunião para outra altura. Impossível, pois só assim poderiam comparecer todos. “A seita tem um radar” – grita um, ao lembrar-se do verso do cantor luso da moda. A despropósito, comenta outro que, bocejando, diz só ter ali vindo por disciplina partidária. Estranho! – ninguém imaginaria que havia ali laivo de disciplina. E, quando o cheiro das velas baratas infestou o antro, o mestre acocorou-se e, ao ver a barata tonta às voltas, pô-la direita. Estava reposta a ordem no pensamento colectivo. Um alívio! Mesmo na altura em que a noite caía pesada e o breu aconselhava o recolher. Estavam combinados! Depois, tratar-se-ia da partilha. Depois, arrumar-se-iam os cadeirões. Haveria cadeirões para todos, que descansassem. Ah! Então está bem! – regozijou-se um que, amiúde, almoçava alarvemente nos chiquérrimos restaurantes da ribeira, a convite de um tal comerciante que, pelos vistos, o tentava com marisco e branco reserva. Mais ao longe, um bigodaças entediado lançou uma ideia: metade ao almoço, metade ao jantar. Era justo. Ou comiam todos ou lá se ia a moralidade. A ideia não pegou. O sussurro cresceu na sala. O mestre perdia a paciência. Apre! Gente mal comportada! E dizem que é por disciplina partidária!
Não corria bem a cerimónia. Mais parecia uma reunião ordinária, daquelas muito chatas a que era obrigados a ir se não queriam perder o barco. Era melhor encerrá-la. O mestre deu os trabalhos por findados, ao mesmo tempo que suspiros se soltaram das bocas domadas. E, afinal, nem tudo se tinha perdido: nenhum adormecera, sinal de que a “seita” se tinha mantido acordada. Era preciso comemorar o acordar da “seita”. E logo, num ápice, juntaram ideias para que a sua posição fosse conhecida e propagandeada. Um atacaria por ali, outro por aqui, mais um pelo norte, ainda outro pelo sul, os que quisessem por nascente, os que sobrassem por poente.
Em nome do vil metal, lançaram-se de regresso com a estratégia alinhada. Amanhã é que seria! Tudo junto, ao molhe, a dar-lhe porrada de criar bicho! A pobrezinha havia de ganir como um perro, guinchar como um reco.
Nessa noite, não houve membro da seita que não tirasse o melhor fato do roupeiro para o mandar limpar no dia seguinte. Uma cerimónia de tomada de posse requeria traje a condizer. Contudo, alguns mais avisados, aquietavam-se: e haverá cadeirões para tantos?
A terra é grande, o Vale imenso, e as algibeiras de 40 mil lavradores, inesgotáveis. E, com este bálsamo, serenavam. O vislumbre da riqueza certa sempre foi o melhor Xanax.
Lá longe, onde o rio encontra o mar e a grande cidade desce à ribeira, havia quem esfregasse as mãos. Tinham conseguido acordar a “seita”. Melhor: unido a “seita”. Ainda melhor: conquistado a “seita” para a sua causa.
Entretanto, a utopia ia alimentando o cancro fantasma.
(439)
14 MILHÕES DE EUROS?
por Francisco Gouveia, engº
(Já vai no montante inexplicável de 14 milhões de Euros – 2 milhões e oitocentos mil contos na moeda defunta – o gasto do Estado com “estudos” relacionados com o novo aeroporto da OTA. Desde o Governo de Guterres até ao Governo actual, foi a verba que o dinheiro dos nossos impostos já pagaram em pareceres, informações, análises, etc, etc, sobre uma localização tão duvidosa quantos os interesses que estão em jogo neste processo. Duas coisas são certas: primeiro, não há interesse em que o novo aeroporto seja barato, se faça depressa e com preço certo; segundo, sem nós sabermos, há muito que já se começou a gastar por conta)
Por este andar os tais “estudos” acabarão por sair mais caros que a obra em si. Esta verba de que vos falo não tem a ver com algo de substancial, consistente, conclusivo, sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa. Tem a ver com meros pareceres e pressupostos estudos que, a pouco e pouco, vão sendo desmontados pela intervenção pública de alguns especialistas, que até agora estiveram calados por prudência ou porque nunca ninguém lhes perguntou coisa nenhuma. E vamos ficando a saber que, no essencial, todos esses estudos têm pecado por uma manifesta falta de competência, ignorando factores importantes como sejam o movimento colossal de terras necessário à implantação, a colisão com rotas de aeronaves militares, a envolvente urbana em altura, a proximidade a importantes linhas de alta tensão, a impossibilidade de expansão a médio prazo, o índice sismológico elevado do local, etc, etc, etc. Ao cabo e ao resto, estes pressupostos “estudos” que parece não terem levado a conclusão nenhuma a não ser uma grande confusão, apenas se limitaram a apontar a localização na OTA como a mais conveniente. E como em cima da mesa estavam somente duas propostas (OTA e Rio Frio), fácil foi arredar a segunda hipótese. Ninguém se atreveu a opinar outras alternativas, as mesmas com que, agora, conhecidos especialistas recentemente solicitados pela imprensa a intervir, avançam. Nomeadamente, e segundo os mesmos, ficamos a saber que a localização da OTA é demasiado cara, com a certeza de que qualquer orçamento será largamente ultrapassado, e (o que é mais grave), nem sequer será uma localização de futuro, acarretando até alguns riscos de funcionamento. Segundo os mesmos, há outras alternativas, muito mais baratas e geograficamente mais correctas, na margem sul do Tejo. Mas percebe-se: há interesse dos promotores para que o aeroporto seja caro e o seu preço resvale, derrape, e coloque uma obra inicialmente de 100 em 300 ou mais. Em Portugal, o mercantilismo ganancioso da nossa Construção Civil não sabe trabalhar de outro modo. A OTA tem que ser uma obra para render. A OTA, nos moldes que tem sido comentada, e a ser verdade o que esses especialistas manifestaram, vai ser um “pingadouro” de dinheiro, uma árvore de patacas, uma mina de ouro, ou o que quiserem chamar-lhe, para as construtoras e financiadores. Ou seja, teremos, por esta via, um constante assédio ao erário público, legalmente justificado e devidamente apadrinhado pelo Poder. Nem precisamos de ir muito longe para demonstrarmos o que será esta OTA. Os 14 milhões de Euros já gastos, não se sabe muito bem em quê, entraram nos bolsos de alguém. De muita gente, suponho, contudo, ainda há dias o senhor ministro das Obras Públicas manifestava a sua ignorância sobre a existências dos tais estudos. A pergunta que o modesto cidadão contribuinte faz, o tal cidadão que se espreme todo quando tem que encostar a barriga ao balcão da Repartição de Finanças para pagar IMIs, IRS, IVAs, IAs, Imp. circulação, Taxas e contra taxas, e toda o rol de impostos com que o Estado nos sangra sem escrúpulos, é aonde foi parar tanto milhão de Euro. E quem os recebeu e porquê. Que pareceres ou estudos justificaram o gasto de tanto dinheiro? Acho que, por uma questão de transparência, lisura, honestidade dos governantes para com os seus concidadãos, se deveria revelar o conteúdo destes tais estudos, os montantes por que ficaram, quem os emitiu, quanto custaram. Ficaríamos assim mais descansados e esclarecidos.
Hoje em dia, apesar de ainda não totalmente convencido, já não questiono a necessidade de um novo aeroporto em Lisboa. Também se diz que o do Porto muito em breve vai rebentar pelas costuras. Sei que, noutros países, os planos para a resolução de assunto semelhante, estão a passar por outras soluções mais baratas e eficazes. Contudo, já não é tanto isso que me interessa discutir. O país político, depois de sérias contestações à necessidade do tal aeroporto, acabou por se render a não sei o quê, e também não sei como mudou de opinião da noite para o dia. Parece então que, agora, tem que se construir o aterradoiro de aviões der por onde der. Seja. Mas, pelo menos, que haja clareza no assunto. E, pelos factos até agora registados, já se começou a gastar por conta de algo que nem sequer existe, não se onde vai ficar, nem se sabe se há dinheiro nos cofres para o pagar. Mas isso pouco importa porque, em fazer obras sem dinheiro, em deixá-las derrapar até aos confins da especulação, em encobrir o lado obscuro dos processos, somos nós mestres.
Assim como antes, agora e sempre.
gouveiafrancisco@hotmail.com
(440)
ORA AGORA, DESCALCEM LÁ ESSE PAR DE BOTAS!…
por Francisco Gouveia, engº
(Afinal, o tal hediondo, torcionário e odiado António Oliveira Salazar, acabou por ser eleito o maior português de sempre, num concurso televisivo que nem tinha sido criado para ele. É evidente que Salazar teve sérias culpas no cartório desta Pátria. Mas é também evidente que aqueles que o elegeram, deixaram uma mensagem clara à classe política. Tão simples como esta:
Salazar foi enterrado com a mesma camisa que vestira, quarenta e tal anos antes, quando tomou posse como Ministro das Finanças)
Salazar foi um governante absolutista. Criou uma polícia política que torturou e matou, anulou as liberdades fundamentais de expressão, eliminou a democracia, teve uma visão restrita e retrógrada do problema colonial, encravou o desenvolvimento tecnológico do país em favor de um conceito provinciano e boçal da ruralidade, foi o responsável pela avalanche da emigração para Franças e Alemanhas, foi, em suma, e durante mais de quarenta anos, um travão à modernização do país. Para que não restem dúvidas, é isto que eu penso o que Salazar foi. Mas também penso o seguinte: apesar de tudo, era um homem de valores, de princípios, de uma honestidade inquestionável, de um temperamento sóbrio e de uma devoção sacerdotal à causa pública. Por isso, não me espantei que, neste concurso da RTP1, tivesse ganho. E ganhou sem claques, sem partidos organizados a votarem nele, sem quem o gabasse publicamente e contra a opinião global de todos aqueles que, naquele programa e noutros, o denegriram até aos confins do inferno. Foi, portanto, uma vitória “sem espinhas”. E esta vitória, ao contrário da opinião de muitos comentadores que menosprezaram o primeiro lugar obtido por tão “odiada criatura”, e que, nos dias seguintes, se remeteram para um silêncio envergonhado, deve ser comentada e dela se devem extrair as devidas lições. A realidade é esta: apesar de ser uma figura constantemente denegrida, e passados que são já demasiados anos para que a História o eliminasse dos anais portugueses, o facto é que o “tal” Salazar continua a despertar simpatias ao ponto de conquistar concursos contra personagens de inigualável envergadura. Há, com certeza, razões para que isto aconteça, sendo a prova de que os portugueses não são tolos e, quando colocados perante situações de decisão, sabem enviar as suas mensagens à classe política, mesmo que essa mensagem não passe para além de um simples voto. Haja, então, quem saiba interpretar e descodificar este mistério salazarista que, pelos vistos, continua vivo e a abanar com as estruturas democráticas de um país cada vez mais parecido com o caranguejo: anda muito para trás e hesita quando tem que dar um passo em frente. Não quero eu, na minha modesta sabedoria, e porque não sou mestre de nada nem entendido em coisa nenhuma, dar lições de interpretação superior, especulando filosoficamente sobre matéria tão complexa e vasta como é esta de descodificar uma figura que nos governou durante meio século. Mas, como todo o cidadão, tenho o direito de supor os porquês da vitória de um homem que todos julgavam enterrado e bem enterrado. Esta explicação, quanto a mim, repito, passa por uma ideia que os portugueses têm da sua classe política e da qual não gostam. Mais, sentem-se traídos por ela. Sentem que aqueles que lhes fazem promessas de os governar bem, afinal, passam a vida a governar-se ainda melhor. Todos sabemos de inúmeros exemplos de políticos que entram na vida pública com uma mão à frente e outra atrás e, nem são passados meia dúzia de anos, já se assentam na riqueza como lordes nababos. Os portugueses sabem que, hoje em dia, quem não tem cartão do partido (qualquer) tem mais dificuldades em conseguir emprego. Os portugueses sabem que os seus filhos são preteridos em concursos públicos a favor de afilhados de políticos. Os portugueses tomam conhecimento todos os dias de indemnizações milionárias a gestores públicos que não valem a ponta de um corno, de reformas douradas de milhares a políticos que nem aqueceram o local de trabalho. Em suma, os portugueses têm da classe política o entendimento de que os que para lá vão, vão por dois motivos: não sabem fazer mais nada e vão à procura de um tacho. Disse um dia um Presidente da Assembleia da República, durante uma discussão acalorada sobre o vencimento dos deputados, e tentando contrariar uma certa corrente que alegava princípios de igualdade perante as dificuldades económicas da maioria dos cidadãos para que os vencimentos dos deputados não devessem ser aumentados (pelo menos nos montantes que pretendiam), que “um político não tinha que ser necessariamente pobre”. Concordo. Contudo, acrescento o seguinte: se alguém pretende enriquecer, decerto que a carreira política não será o caminho mais correcto. Mas infelizmente, o que presenciamos todos os dias é uma corrida quase frenética a lugares, a cargos, a posições de destaque e de influência. Os grandes valores por que se deve guiar um político, e que têm a ver com os princípios éticos do serviço público, da defesa de valores sociais, de vontade de prestigiar as estruturas do Estado, de fidelidade a modelos altruístas de convivência humana, de defesa da democracia plena e do humanismo global, esfarrapam-se nos interesses mesquinhos, individualistas, egocêntricos, com que a classe política nos brinda todos os dias. E Salazar, diga-se o mal que se quiser dizer dele, foi um homem que chegou à política pobre e pobre partiu. Nunca se serviu do seu cargo (e poderia tê-lo feito e de que maneira!), para daí angariar bens pessoais, honrarias, fortuna. Nada. Salazar foi um governante exemplarmente honesto neste sentido. Lembro-me, a propósito, de outro político de outras eras, Fernandes Tomás, excepcional parlamentar e governante que morreu à fome. Vejam bem: um deputado que exercia também altos cargos na governação, e porque naquela altura não era permitido aos detentores de cargos políticos usufruírem, sequer, de um vencimento, por mais miserável que fosse! Salazar representa ainda, para muitos portugueses (e pelos vistos não são tão poucos assim) um exemplo de honestidade permanente, daquela a que nem o tempo foi capaz de apagar. E pode perguntar-se: mas se foi assim, os outros candidatos também não eram honestos? Com certeza que sim, contudo, ninguém personificou essa qualidade (eventualmente das poucas que possuiria) como Salazar. De um lado ao outro do espectro político actual, de cima abaixo de qualquer tendência, ninguém se atreve a negar que o homem nunca usou o imenso poder que detinha em seu proveito pessoal. Nem sequer aqueles que o rodeavam, família incluída e amigos próximos englobados, alguma vez lucraram com a proximidade ao chefe. Ele, muito simplesmente, não consentia em tal. Mas poderia imaginar-se que, mesmo não se aproveitando do cargo, teria todas as condições para levar uma vida faustosa, com carros topo de gama, chalés á beira-mar, quintas de veraneio, grandes viagens à volta do mundo. Mas nem isso. Vivia como um monge, trajava com descrição, deslocava-se num carro velho, passava férias em casa de amigos. Nos seus bolsos não havia um tostão.
Os portugueses, com esta votação, no fundo quiseram dizer à classe política que gostavam que esta prezasse mais a honestidade, que a governasse com sentido de Estado, de serviço público, com humildade, que os políticos não usassem os cargos para proveito pessoal, que gerissem com rigor e parcimónia o erário público, que cedessem à tentação de lá meter as mãos, que fossem fieis a princípios e valores. Em suma, que fossem honestos. E, para o dizerem, e já que, doutro modo, não viam maneira de o fazer, utilizaram o meio que estava imediatamente à mão: um concurso televisivo. Salazar, no fundo, foi só o interlocutor de uma mensagem forte e clara que apela à necessidade de se cultivar a honestidade.
E só não quer perceber isto quem tem o rabo atracado em qualquer porta de qualquer cargo político.
(441)
“CANUDOS” DE AVIÁRIO
(Ultimamente, a propósito da licenciatura do Primeiro-Ministro, certos meios de comunicação estão a tentar passar a ideia de que é indiferente para o desempenho de um cargo político ou público, o ter-se ou não uma licenciatura. Que o mesmo é dizer-se que qualquer iletrado pode ser ministro ou qualquer analfabeto pode se gestor. Num país tão tristemente pobre culturalmente, esta ideia demagógica até tem pegado. Contudo, a ignorância e a falta de preparação académica são os principais motivos do nosso atraso. Este princípio, no fundo, tem justificado que muitos políticos sem preparação assumam posições de alta responsabilidade e maior remuneração, exibindo como atestado de competência o único diploma que possuem: o cartão de militante)
por Francisco Gouveia, engº
Mariano Gago não podia gaguejar nesta questão da Universidade Independente. Contudo, o único e presumível impedimento que levantou sobre o motivo do encerramento daquela escola, fica a léguas das muitas dúvidas que permanecem sobre este e muitos outros estabelecimentos de ensino superior que, por um balúrdio de propinas, prometem lançar no mercado competentes e competitivos licenciados. Na Universidade Independente há muita coisa por explicar que presumo graves. E presumo porque o direito de um cidadão presumir perante factos, é legítimo e até louvável. E convenhamos que o silêncio prolongado e embaraçado do Primeiro-ministro sobre a “regularidade” da sua licenciatura, mais alimentou estas presunções. Presunção e água benta, cada qual toma a que quer – diz o povo, mas, deixando a água benta de fora que aqui não é chamada, concentremo-nos nas presunções. A barafunda da Universidade Independente não é de hoje. Isto é, contrariamente àquilo que Mariano Gago quis dar a entender, de que os problemas da UNI seriam recentes, os factos contradizem-no. Começa logo pela entidade patronal e detentora da UNI, das suas ligações ao pouco recomendável capital angolano, às suspeitas (em investigação) sobre gestão danosa que atravessa o sub mundo do tráfico de pedras preciosas, da lavagem de dinheiros, do uso em proveito próprio por parte dos responsáveis da escola, de bens da UNI, do afastamento de professores mais exigentes que, ao não pactuarem com algumas “facilidades” nos exames e ao “chumbaram” demasiados alunos, estariam a prejudicar o negócio (qual negócio?), das provas de acesso à UNI com níveis de exigência científica de um 9º ano de escolaridade, da permissão de promover exames junto de alunos que não apresentavam frequência académica, do “apagamento” de arquivos académicos e outros com mais de cinco anos, e, o que é muito mais grave, da questão da licenciatura de Sócrates e as equivalências autorizadas e que lhe permitiram, num fósforo, chegar acelerado à licenciatura. Mas também com a descoberta de que a licenciatura de Armando Vara, conhecido militante socialista que começou como funcionário de balcão numa dependência da Caixa Geral de Depósitos e que, para espanto de colegas e chegados, também lá foi à UNI licenciar-se e, actualmente, detém um lugar no Conselho de Administração do Banco. Mas se tudo isto já não constituiria matéria de sobra para que o “zé povo” arreganhasse o sobrolho, o aparecimento à última hora, de um outro funcionário da Caixa Geral, por sinal e infeliz coincidência, subalterno de Armando Vara, e que se comprometia a repor como reitor a ordem na UNI, funcionário esse que também omitiu no seu currículo o facto de trabalhar na Caixa criando mais uma trapalhada no assunto, veio dar o remate final a um processo vergonhoso que vai arrastar dezenas de alunos para a situação desesperada de ficarem sem dinheiro e sem curso. Assim, este encerramento da UNI, para mim, é tiro que mata dois coelhos: tenta acabar-se com o falatório e dará oportunidade a que certa papelada que, pelos vistos desapareceu, “ressuscite”, ou não estivéssemos em período Pascal.
A questão da UNI transporta-nos para mais longe e para as fronteiras da seriedade com que o Ensino Superior è ministrado neste país. Sem querer generalizar porque as generalizações são sempre perigosas e injustas, o facto é que as Universidades privadas são um grande negócio. As propinas são exageradamente elevadas e não sei se a qualidade do que por lá se lecciona justifica os preços pagos. E digo isto porque é voz corrente de que, quem lá sai com o tal “canudo”, nem sempre vem protegido por uma bagagem sólida de conhecimentos. Há muito que o “canudo” deixou de ser um atestado de sabedoria para se transformar num galardão social e num apetrecho necessário à progressão nas carreiras políticas. Quem precisa de bons licenciados, sabe aonde ir buscá-los e, digam o que disserem, ainda nada se compara às escolas oficiais. Não quero com isto dizer que não haja boas escolas privadas, mas quando vejo os parques de estacionamento dessas escolas pejado de Mercedes e BMWs, novinhos a estrear, e constato o poder económico de quem lá anda, e somando o cariz acentuadamente comercial dessas Universidades, duvido. Do quê? Sou eu sei, mas porque há coisas de que duvidamos mas que não temos o direito de propagandear só por mera suspeita, por aqui me fico, e mudo já de assunto.
Ultimamente, e ainda à custa do caso Sócrates, tem-se tentando criar a ideia de que para se ser um bom Primeiro-Ministro ou um político com aspirações ao Poder, um curso ou uma licenciatura não é importante. Discordo em absoluto e renego veementemente esta ideia de que o estudo, a sabedoria académica não são necessários a um político. Ou seja: quem, um dia, há-de gerir milhões e há-de ter nas mãos o Poder de decidir sobre matérias importantes que mexem com a vida dos outros, não necessita de ter uma bagagem cultural e científica. Ridículo e absurdo. Acreditar nisto é menosprezar o trabalho intelectual, é não perceber que uma licenciatura, para além da competência específica que dá, permite também a que o aluno desenvolva formas de raciocínio, desenvolva a capacidade de inferir, treine os mecanismos de correlação, apure o sentido de análise, adquira bagagem que lhe permita, mais tarde, abordar temáticas variadas. O ensino, desde a escola ao superior, faz isso: desenvolve a inteligência, ginastica a mente, abre as fronteiras do pensamento. Assim, será de todo inaceitável que se cultive (ou continue a cultivar) esta grande mentira de que os “canudos” não são necessários para a actividade política. Com esta aberrante forma de pensar têm-se governado muitos ignorantes que, incapazes de fazerem carreira na vida privada porque ninguém os quer, assumem lugares na vida pública de grande importância (e basta olhar para o país para se ver a qualidade das nossas gestões públicas).
Portanto, não é indiferente que Sócrates tenha ou não uma licenciatura. Faz muita diferença. Mas faz também muita diferença e será mais importante verificar as condições em que a conseguiu. Não sei se a UNI era o recanto escolar preferencial onde certa classe política ia tirar o “canudo” cuja falta lhes atrapalhava as ambições. A Justiça o dirá e deverá esclarecê-lo rapidamente. Não sei se a UNI era o refúgio a que muitos “inadaptados” endinheirados recorriam para conseguir o tão almejado diploma que lhes permitiria anteceder o nome por um Engº ou Dr. Não sei mas precisava de saber. Eu e os portugueses que, dia a dia, se exasperam cada vez mais com esta promiscuidade latente, quase endémica, que grassa numa classe política onde vai cair quem não sabe fazer mais nada. Os portugueses precisam de saber da qualidade de quem manda no dinheiro dos seus impostos. Porque há um Portugal cheio de licenciados sem emprego pelo simples motivo de não possuírem cartões de filiados partidários. Muitos deles competentes e excelentes alunos que, apesar disso, nunca conseguirão chegar aonde chegam muitos iletrados e preguiçosos que, nunca conseguindo singrar na vida académica, se acoitaram nas tocas das privadas e nas sedes dos partidos para governarem a vida. Sei que sei cada vez menos e o dia-a-dia traz-me constantemente provas da barafunda em que este país caiu. É desanimador verificar a vitória da promiscuidade, o trepar da violência, o velório dos valores, o endeusamento dos demagogos. Perante isto vou duvidando de que a Justiça ainda ande por aí.
Numa época em que os frangos caseiros são raros e em que os de aviário são a maioria, não me custa acreditar que os “canudos” sigam esta tendência galinácea. Ao cabo e ao resto, não é tudo uma questão de “galos” e de poleiros?
nota do autor: os factos aqui relatados são do conhecimento público e foram extraídos dos grandes órgãos de comunicação social. O que sei foi, portanto, resultado da leitura desses jornais e da audição de rádios e TVs. As conclusões são meras opiniões de um cidadão que se preza de pagar os seus impostos rigorosamente e que é engenheiro há trinta anos, em licenciatura tirada em escola oficial e que custou o forro dos bolsos aos seus pais e anos de trabalho árduo para aprender o pouco que sabe.
(442)
AO MURRO E Á PAULADA, COMO ANTIGAMENTE!
por Francisco Gouveia, engº
(Depois de pôr o interior de rastos com o encerramento de tudo e mais alguma coisa, chegou a vez dos Tribunais. Também a Justiça se afasta assim das regiões mais desertificadas. É o convite à resolução de conflitos à moda antiga: ao murro, à paulada e ao tiro!)
O Governo vai encerrar bastantes Tribunais no interior do país. A justificação é mesma de sempre: falta de movimento que justifique a continuidade. Assim, consuma-se a estratégia Central de fazer regressar o interior à idade da pedra. Fecham-se as maternidades para que as mulheres vão parir no meio do milho; fecham-se os hospitais para que os doentes regressem às mesinhas, às bruxas e aos indireitas; fecham-se as escolas para que as crianças aprendam de pai para filho, sacho numa mão e copo no outro. Agora, a sentença caiu mais uma vez como uma trovoada – sim!, porque este Governo não sabe tomar uma medida sem primeiro fazer cair Carmo e Trindade e pôr as populações em pânico (aterrorizá-las é o termo). E a sentença foi o encerramento de muitos Tribunais, a sua esmagadora maioria na “província”, a tal que, há séculos, é gozada pelos selectos e requintados políticos da capital. Já Eça o dizia. Ora, com estes encerramentos coercivos dos palanques onde era ainda possível dirimir questões e consensualizar interesses em litígio, vai ser o bom e o bonito. Se fizermos um estudo sobre o que representaram estes tribunais de província para a diminuição de um certo tipo de violência muito característica dos tempos de regedores e abades, verificaremos que contribuíram fortemente para que as questões (outrora de morte) passassem a ser aliviadas por intermediação da figura vetusta do juiz, homem que se guindou no topo da hierarquia social das províncias, como o justo que apaziguava. Hoje em dia, o hábito instalou-se (exactamente porque os Tribunais estão ao pé da porta) de se ir a juízo fazer valer um direito, apresentar queixa, reclamar de uma aleivosia. Os Tribunais são tão necessários como todos os outros serviços, se não, mais. Contudo, o Governo, por causa de mais um dos tais estudos que encomenda não se sabe bem a quem, chegou à conclusão que muitos destes Tribunais deveriam encerrar por não terem movimento que justifique a sua continuidade. Já disse mais do que uma vez, que, caso se façam estudos sobre as frequências de atendimentos no interior, e basta apertarem as bitolas só um pouquinho, e nada por cá resistirá. Tudo se fechará. Portanto, o Governo escusava de gastar dinheiro nesses estudos e mais valia encerrar tudo quanto por cá há. Mas a questão dos Tribunais é diferente dos restantes serviços. E porquê? Ora, caso um determinado Tribunal não apresente movimento de processos que justifique o número de juízes, de funcionários e a extensão de instalações que possui, o remédio é fácil: é redimensioná-lo à medida das necessidades. Ou seja: reduzir o número de juízes para darem conta do serviço que há, igualmente dos funcionários. E pegar neste pessoal que em determinado Tribunal está a mais, e colocá-lo noutro onde seja mais necessário. E se as instalações são demasiadas para a actividade processual de um Tribunal pequeno, rentabilizem-nas, isto é, determinem fisicamente um espaço autónomo para a actividade do Tribunal, e as instalações que sobrarem podem colocá-las à disposição das autarquias, de associações culturais ou cívicas, de escolas, com ou sem renda que é coisa a estudar-se caso a caso e em regulamento próprio. Pode até pensar-se em alugar instalações a privados (porque não), mediante certas regras. Porque não rentabilizar as instalações excedentárias? Não é hoje que se fala a torto e a direito na questão das boas e más gestões? Então, porque não optar por uma boa gestão do património público?
O encerramento puro e simples, para além de ser mais uma falta de respeito para com as populações, traduz também uma certa forma de governar, estilo terra-queimada, fazendo-se ouvidos surdos ao diálogo e às soluções alternativas que, nestes casos, sempre aparecem.
O encerramento do Tribunais é, assim, mais um passo no retrocesso a que estão a condenar o interior. Não tardará muito, e as questões litigiosas, os conflitos, as desavenças, voltarão a serem resolvidas à moda antiga, como no tempo em que o pau e a pistola eram a lei. Não se admirem, pois, que dentro em breve se ouça nos telejornais que fulano abriu a cabeça de sicrano por causa de uma dívida, que beltrano matou albano por uma demarcação de terras, que germano espetou a navalha em menano por via de um insulto. Os tribunais passarão para a rua, para a justiça popular, para os ajustes de contas, para o remoer ódios antigos, para as tocaias de vingança. E todo um trabalho civilizacional que, durante os últimos 50 anos, estes Tribunais tiveram na socialização da conflituosidade como questão tratada racionalmente e onde só a força da argumentação teria lugar, irá por água abaixo. Um homem está doente, quase a cair de morto, e evita ir ao hospital só porque este fica lá nos confins do concelho vizinho, quanto mais pagar léguas de táxi para ir apresentar processo ao Tribunal da sede do concelho!
Tenho ainda esperança de que o senhor ministro da Justiça, adopte o modelo do seu camarada da saúde que, atira a matar primeiro e depois vem com paninhos quentes a dar o dito por não dito, e assim ainda lá se vai salvando alguma coisa. Tenho esperança de que haja a sensatez de se rever todo o processo de encerramento e se tomem medidas alternativas, de redimensionamento, que preservem os Tribunais existentes nos seus locais. E digo que tenho esperança, porque é preciso estar-se de muita má-fé para não entender que o encerramento é uma medida desnecessária, errada e socialmente perversa. E que a mesma sensatez aconselha a que se faça o mais lógico: redimensionar.
Mas nos tempos que correm, não sei se a tal sensatez a que se apela todos os dias, será bem atendida por quem de direito. Esta gente está numa de fechar, e pronto!
Este Governo parece-se cada vez mais com uma Comissão Liquidatária.
(443)
O MUSEU DOS INSUBSTITUÍVEIS
por Francisco Gouveia
(Em todo este imbróglio que se gerou à volta do Museu do Douro, com demissões, reuniões, declarações, deserções, etc, etc, etc, há uma mensagem clara, vinda do notabilíssimo grupo dos “insubstituíveis”, e que reza assim: o Museu é nosso e, caso não sejamos nós a mandar nele, não há Museu para ninguém!)
Pensemos bem no desperdício de tempo, no tão preciso tempo que desbaratamos em discutir o acessório. O Douro está numa crise profunda, quer de natureza social quer económica, as suas instituições estão falidas, o tão prometido plano tarda em ser aplicado, enquanto uma recém-nascida Estrutura de Missão assenta os seus princípios em vagas probabilidades de que a conjunção exacta de uma série de factores favoráveis, ajude à resolução da crise. Desejemos-lhe sorte e que os deuses do talento estejam com ela.
Mas adiante, que o assunto que aqui me traz é outro.
A bem dizer, nos últimos anos, o Douro afogou-se em discussões estéreis que mais não provocaram se não um enorme bocejo. E, de tanto diagnóstico que lhe fizeram, acabou o Douro por não tomar remédio nenhum. Pelo menos, não vai morrer da cura. Valha-nos isso. Mas aquilo que mais sobressai neste Vale onde os que o merecem permanecem no anonimato do trabalho desinteressado, é o jogo. Sim, o jogo. O Douro está transformado num grande jogo. Subitamente, a irresponabilidade oficial veio à tona para digladiar razões de questões menores. E quem devia providenciar a união, ao fim e ao cabo, separa. Mas, sobre esta entidade caricata, a quem não se lhe reconhecem outras qualidades que não sejam a mendicidade política junto dos maiorais de Lisboa, e que, por via de uma manifesta incapacidade em assumir atitudes que congreguem a região à volta de valores tão caros aos transmontanos que pretendeu representar, e que agora deambula como uma barata tonta em redor de afilhados e padrinhos a ver se lhes garante os cadeirões prometidos, falarei mais além, não hoje. Mas, e porque quem avisa amigo é, não queria deixar de, neste preambulo, avivar um pouco a chama da candeia que lhe há-de esquentar as orelhas. A arder, estarão já, de certeza, e não pelo que agora escrevo.
Sigamos, então, o jogo.
Como se não bastasse a estrutura administrativa, executiva e técnica pesadíssima, que vai gerir a meia dúzia de patacos que é o Orçamento do Museu do Douro, Orçamento esse que vai servir principalmente para pagar salários e, depois, o pouco que sobrar, para desenvolver acções já prometidas a A, B e C, que aguardam com a ansiedade dos culpados, que Deus lhes perdoe os pecadilhos que perpetram em nome de um Douro que dizem servir mas que, afinal, não passa de um pretexto para lhes aforrar as algibeiras, como, dizia eu, se não bastasse este autêntico disparate – para não lhe chamar outra coisa – perde-se o Museu em birrinhas e amuos. E em nome de quê? E porquê? E para quê?
Situemos, antes de tudo, a questão. O Museu é quatro paredes com meia dúzia de cacos lá dentro. Depois, à volta disto, o Museu é um mundo de interesses e de cargos. É isto que a Régua tem por garantido. A Régua, a quem falta quase tudo em termos de imobiliário cultural, já tem um Museu e uma guerra aberta.
Convenhamos: o Museu é pequeno, o Orçamento baixo, as tarefas que o esperam até podem ser garantidas por um técnico em part-time, contudo, um exército já se perfila para o tomar de assalto. Administradores, gestores, directores, técnicos, colaboradores, contínuos, cicerones, escrivães, pessoal de limpeza, seguranças, tudo se alinha. E ele, coitadinho do Museu, muito encolhido nas suas quatro paredes, tresandando aos poucos cacos que uma defunta unidade de missão conseguiu angariar, treme. Treme porque ainda está no útero da mãe e já se vê assim ameaçado.
Repito: o Museu é pequeno. O Douro é grande. O Douro não cabe num Museu assim. Mas atenção, que o Museu não é um Museu qualquer: é um Museu de território. Mas território de quem? E aqui voltamos á vaca fria. Território dos durienses? Ou território dos que em nome do tão vergastado Douro o querem como meio de se empoleirarem nos cargos e nas mordomias?
Cada vez mais se percebe que o Museu é uma escada, tal qual as escadarias que se estendem pelas encostas repletas de vinhedos. Mas essas, quem as fez, vestia camisa puída, calçava chancas de madeira, trazia as calças amarradas a um nagalho e nem sabia escrever o nome. Aqueles que agora querem trepar pela escada do Museu, são bem falantes, letrados, colarinhos tesos da goma com que esfregam, de mansinho e cara alegre, o verniz da politicagem gentia. E berram, a altas vozes, que o Douro lhes deve muito. Meto as mãos à consciência – coisa que raramente lhes vejo fazer – e descubro que foram pagos a peso de ouro, com edital em Diário da República e ordenados pouco abaixo de Ministro. Então, o Douro deve-lhes o quê? Dedicação? Carolice? Trabalho voluntário? Nem nisso souberam ser sóbrios. A dedicação, a carolice, o trabalho voluntário, saíram dos cofres do erário público, o erário de todos nós, transfigurados em milhares de contos de réis. E o trabalho foi o que se viu: tudo pela rama, desgarrado, com o disfarce de que haveria lugar em cada concelho para o tal Museu. Estranhamente, em jantaradas e tertúlias avinhadas, noite fora, plantavam sementes de conluio na conspiração que os foi juntando. Até hoje, aquele juramento de fidelidade à Causa, qual cimento de betão forte, ainda os mantém agregados.
E temem. Porque há quem não se cale. Eu, por exemplo, a quem atribuíram o rótulo de “inimigo do Museu”. Porque eles inventaram o Museu. Eles criaram o Museu. O Museu é a coisa mais importante do Douro. Sem o Museu o Douro não sobrevive.
Mas esta gente sabe pouco. Ou disfarça que não sabe. A ideia do Museu do Douro já vem do tempo do saudoso Araújo Correia. E depois deles teve defensores de gabarito. E que gabarito! Mas não seria bem este Museu em que estariam a pensar. Este não é, também, o Museu que eu esperava. “Então venha cá e faça melhor!” – berram-me. Não posso. Não estou habituado a trabalhar para o Douro e a receber seja o que for em troca. Por isso, sou “inimigo do Museu”, um conspirador contra o Museu, um dos “tais” que só sabe dizer mal! Pois sou. E depois? Nasci assim, com o coração ao pé da boca. E tenho raiva: das injustiças que vejo praticar, dos oportunistas que vejo saltar para o palanque de um Poder que não merecem. Sou um “inimigo do Museu”, identificado, de cabeça a prémio, comem-me vivo se eu o deixar. Mas não deixo!
Entretanto, o amuo deu em guerra. Guerra surda. Porque há quem nos queira impingir esta bagatela: de que há homens insubstituíveis. Insubstituível, só conheço um: Cristo, que nem devia para aqui ser chamado. Os outros, todos nós, somos tão insubstituíveis como uma lâmpada que se funde. Tretas, meus amigos! Grandes tretas que nos querem impingir. E bastou só um ligeiro abano, um pequeníssimo acidente de percurso, para que o Clube dos Insubstituíveis se levantasse em armas. Mas surdamente, claro.
Á socapa. Hoje aqui, amanhã ali, e vão arrebanhando fracas vontades para o abaixo-assinado. Grão a grão, hão-de fazer ver a Lisboa que os insubstituíveis existem aqui, em pleno Douro. Aqui, na que quer ser a capital, onde não há um espaço onde ver uma peça de teatro, um concerto, um cinema, onde não há onde aprender seja o que for – nem música, nem dança, nem nada! Mas há um Museu de quatro paredes e meia dúzia de cacos. E uma monstruosa máquina administrativa para governar o destino dos cacos!
O grupo, o velho grupo da Causa, das jantaradas, das luminosas e caras ideias culturais, o grupo dos insubstituíveis, está de volta. O Museu é deles e de mais ninguém.
O Douro está cheio de “casos”. Mas não era necessário cobrir-se de ridículo. O provincianismo tem limites. Ou não terá. Afinal, o provincianismo só existe quando há provincianos. E, quase sempre, os provincianos têm uma mania: a de que são insubstituíveis.
(444)
E$TE AMOR AO DOURO, QUE TANTO NO$ CU$TA
(Dizem amar o Douro, trazem o credo do Douro na boca, esfarrapam-se todos pelo Douro. Especialmente se, no horizonte, se perfila um bom cargo.
Fora isso, andam com o tal “amor ao Douro” muito esquecido.
Afinal, eu, que julgava que o Douro era um Vale, enganei-me: é, talvez, uma mina.
Também tenho o direito de me enganar)
por Francisco Gouveia, eng.º
Era bom, era muito bom que se pudesse pesar o amor-duriense de algumas personalidades que se dizem trazer o Douro no coração desde pequeninos, tal qual os jogadores de futebol que se apresentam a um clube depois de assinarem chorudo contrato. Pesá-lo, bem entendido, com taras de ouro num dos pratos da balança. O amor ao Douro é uma moda – digo eu – algo que entrou na cassete desses tais, e que o fazem apregoar aos quatro ventos como se esse sentimento fosse património exclusivo dos que circulam de um lado para o outro onde pinte instituição a criar, cargos a ocupar, vislumbre de renda salarial garantida com ripanço que baste. O Douro está enxameado deles mas, infelizmente, parece que o mal não é só de cá. A moléstia começa lá por cima, no maioral centro decisório de Lisboa, e estende-se pelo país como uma praga. Vejam só o descalabro: na Câmara de Lisboa descobriu-se agora que há por lá uma grosa forte de assessores e avençados, encaixados à força de formão e muita vaselina política, que só lá vai um dia por mês receber e, que se saiba, nos restantes dias do mês nem lá põe os pés. Pelo Governo, a lista de “encaixados” também vai abonada. Está visto: o exemplo que vem de quem os devia dar, estão podres, e podres se estendem em virose, excrementando o resto do jardim luso à beira-mar plantado. Não será, portanto, novidade, que esta praga exista por todo o lado. No fundo, todos eles, nas horas onde uma declaração pública pode ser fundamental para a manutenção da panelinha, apelam para profundos amores à terra mãe, pátria, concelho ou região – tanto faz porque o amor é assim amplo e sem limites fronteiriços.
Cá pelo Douro, contudo, agonia este desplante. Eu sei, porque vejo e sinto, o que é o amor pelo Douro. E vejo os verdadeiros apaixonados pelo Douro, engolidos no tsunami dos que não largam nem despegam uma oportunidade de se porem em bicos de pés na defesa de um mundo duriense que, para eles, só existe nas alturas em que “pinta o bago”. Antes e depois, os que não largam nem despegam, não existem. Por isso coro de vergonha ao vê-los sempre à porta principal. Contudo, o Douro foi construído por aqueles que nunca puderam, sequer, espreitar pela porta dos fundos.
O amor pelo Douro, meus amigos, tem servido para aforrar muitas algibeiras. E é estranho porque, quando é preciso trabalhar pelo Douro sem promessa de reverso financeiro, ninguém aparece. Invocar o amor pelo Douro e depois, à custa dessa nobre confissão, arrecadar mordomias e altos proventos, é algo que remói as entranhas – e olhem que, neste particular, as minhas não são das mais fracas.
Rio-me também, e muito, com um riso que, contudo, não me diverte. E não me diverte porque os actos que o provocam não têm piada nenhuma. Mas, não sei porquê, continuo a rir-me desta tremenda infelicidade que é trazer o Douro no coração e os mesquinhos interesses nos bolsos.
Disse há dias que o Douro não deve nada a ninguém. E disse-o com a certeza de que o Douro tem sido generoso demais para com aqueles que o têm servido nos últimos tempos (leia-se: desde que por aqui ando a constatar estas diatribes). Mas, vendo bem, talvez esteja a ser injusto, porque o Douro talvez deva muito a outros, os tais que não se põem em bicos dos pés, os anónimos que por ele sacrificaram o melhor de si, por uma mão cheia de nada. Mas não é desses que falo, já entenderam muito bem.
Por outro lado, quem me conhece, sabe que, pelo certo, e quando este escriba começa a escrever assim, vem por aí, de certeza, borrasca da grande. Tenham-na como certa.
E tenham como certo também que, qual cirurgião de meia tigela, não descansarei enquanto não dissecar este imenso lamaçal que se chama “por amor ao Douro”, insigne parangona que tem aniquilado o verdadeiro Douro em favor do protagonismo de meia dúzia de interesseiros que julgam que esta terra é só deles e, como tal, tem que lhes sustentar as idiotices e a vida regalada.
Ai este “amor ao Douro” quanto nos custa!
Em paciência, também.
Já me canso de ouvi-los.
Mas tenho esperança de que, um dia, não muito longe, os verdadeiros amantes do Douro se levantem para reclamar da sua indignação.
Porque a indignação dos verdadeiros obreiros do Douro, pressente-se.
Tal qual o temporal que por aí vem.
DO DOURO PARA O MUNDO:
GUITARRAS DE PORTUGAL
JÁ ESTÁ ON-LINE NA INTERNET O SITE MUSICAL DE FRANCISCO GOUVEIA E JOSÉ ANTÓNIO NEVES, COM MAIS DE 40 MÚSICAS DEDICADAS AOS INSTRUMENTOS DE CORDA PORTUGUESES, PARA ALÉM DE EXTENSA DOCUMENTAÇÃO ESCRITA E FOTOGRÁFICA.
UM IMPORTANTE ACRESCENTO Á CULTURA PORTUGUESA, FRUTO DE ANOS DE DEDICAÇÃO E UMA HISTÓRIA QUE AGORA CONTAMOS NESTA REPORTAGEM.
WWW.GUITARRASDEPORTUGAL.COM
Francisco Gouveia é um escritor e cronista duriense que junta também a estas facetas, uma dedicação à etnomusicologia portuguesa, com particular destaque para a execução instrumental dos instrumentos de corda tradicionais portugueses (guitarra portuguesa, cavaquinho, guitarra braguesa, requinta, viola toeira, etc). É não só um estudioso e teórico, mas também um rigoroso executante como o prova o site agora à disposição de todos.
José António Neves, professor de música, é actualmente o responsável executivo pelo Conservatório Regional de Música de Vila Real, tendo no seu vastíssimo currículo acções de dinamização cultural em Trás-os-Montes, desde que para cá veio residir há cerca de 20 anos. Executante sóbrio mas artístico da guitarra clássica, domina também as teclas (piano, órgão, etc).
Andam juntos nestas andanças da música, há mais de 30 anos, percorrendo um caminho que agora vem retratado no site.
Como nunca se cansam de dizer, a obra que agora dão a conhecer na íntegra, nunca foi alvo de qualquer apoio oficial, situação que, longe de constituir um obstáculo, mais os incentivou a continuar.
Com um percurso musical que, sinceramente nunca imaginámos, ficamos agora a conhecê-lo com alguma surpresa.
Ambos oriundos do Porto, cidade onde nasceram, ali cultivaram e desenvolveram a arte musical que, posteriormente, trouxeram com eles quando regressaram à terra de seus familiares: o Douro e Trás-os-Montes.
O site é uma viagem impressionante a um mundo musical que, apesar de nosso, tem andado escondido, ou melhor, abafado por outras manifestações artísticas de qualidade mais do que duvidosa. Pode ser que, a partir de agora, as coisas se alterem um pouco. Pelo menos é essa a esperança de ambos.
Assim, o site apresenta-nos temas para cavaquinho, guitarra braguesa, guitarra requinta, guitarra portuguesa, etc. Trata-se de uma primeira fase do site, dado que está prometida uma actualização para breve, onde se ouvirão outros instrumentos de cordas, alguns já “extintos”, como a Toeira, para além de vídeos de recitais, reportagens televisivas, etc.
O site proporciona-nos também uma viagem à oficina do mestre artesão Domingos Martins Machado, uma das referências da arte da construção cordofónica do país, amigo pessoal de ambos há mais de 20 anos. O seu Museu dos Cordofones também pode ser aqui visitado.
Para além disto, há toda uma documentação fotográfica de muitos anos de música, textos sobre matéria musical, etc.
Desde a década de setenta que estes dois apaixonados pela cultura musical portuguesa, pisam os palcos de todo o país. Desde recitais em casas de espectáculos consagradas, até simples associações culturais de bairro e do interior, passando pela RTP, rádio, etc, pode dizer-se que já se exibiram em todos os ambientes.
O NOTÍCIAS DO DOURO, não só porque são ambos nossos colaboradores, grandes amigos, mas também porque sentimos estar na presença de uma obra notável e inédita, convida os seus leitores a uma visita ao site. E, podem também ouvir e registar toda a matéria musical que lá vem, gratuitamente. Isto é, os seus autores pretendem que o site seja de pura divulgação da música portuguesa e, como tal, aberta a toda a gente, sem quaisquer encargos.
Ao Francisco Gouveia e ao José António Neves, aqui fica, em nome do Douro donde nasceu este site, e do país que vai ficar mais rico com esta obra, os nossos parabéns.
Vão, então, ao vosso computador e escrevam o endereço:
www.guitarrasdeportugal.com
(445)
E AS CONTAS DO MUSEU, MEUS SENHORES?
(Agora que a “crise” do Museu do Douro parece amainar com a nomeação do novo Director, está na altura de se esclarecer muita coisa.
Por isso seria de todo conveniente que soubéssemos, antes desta entrar em funções, o que se gastou com a gestão da anterior direcção. Mas não se pretende um mero resumo orçamental, tipo balanço geral. Alínea por alínea, em pormenor, devíamos saber quanto custaram as acções desenvolvidas, quando se pagaram a assessorias e colaborações, quem as recebeu.
Longe de pretender levantar, sequer, a mínima suspeita, sobre quem quer que seja, o que pretendo é que digam ao Douro quanto é que o Douro gastou só neste início do projecto de Museu de Território.
Trata-se de dinheiros públicos e é direito de todo o cidadão saber o destino dos seus impostos. É só isto e mais nada.
Deixemo-nos de conversa fiada e vamos lá ver as contas, meus senhores, porque, das duas uma: ou nada do que se diz é verdade, e, nesse caso, compete a quem duvidou apresentar públicas desculpas, ou então estaremos na presença do maior escândalo financeiro que caiu sobre o Douro, e então, também, é preciso daí tirar ilações: todas!)
por Francisco Gouveia, eng.º
A questão polémica do Museu do Douro, que agora parece ter amainado com a escolha de um novo Director está, contudo, longe de ser encerrada. Aliás, para mim, ainda nem começou.
Tenho sido acusado de ser demasiado crítico e até inconveniente, no tratamento desta matéria. Contudo, não creio que os meus escritos alguma vez tenham tido influência no desenrolar do processo, especialmente na crise aberta com a demissão do anterior Director. Anda por aí muita coisa por esclarecer. A questão do Museu do Douro é numa questão que tem que ser rapidamente resolvida, a bem do Douro, especialmente porque se trata de uma instituição com um modelo de financiamento muito complexo, pulverizado e, por isso, frágil. Aliás, não é preciso procurar muito para se verificar o estado calamitoso em que se encontram muitas Fundações que não assentaram as suas bases financeiras numa estrutura sólida, que o mesmo é dizer, simples mas eficaz. Na Fundação do Museu do Douro está tudo lá metido, e quem o fez pensaria que, pelo facto de angariar muitos fundadores, o problema do financiamento estaria resolvido. Para que se saiba, a Fundação é custeada pelo Ministério da Cultura, pelas autarquias do Douro (com quota maioritária, entre elas, da Câmara da Régua) e várias instituições públicas e empresas privadas. Esta amálgama, ou melhor, esta mistura de interesses é desaconselhável. Ainda muito recentemente se fez prova de como, para uma despesa de meia tigela do Museu, os privados assobiaram para o ar.
Por outro lado, as oscilações políticas nas autarquias e as restrições orçamentais dos fundadores institucionais, podem, de um momento para o outro, ocasionar suspensões no financiamento. Na prática, é sobre o Ministério da Cultura e à Câmara da Régua que recai a grande responsabilidade de manutenção do Museu. Esta é que é a verdade. E porque há quem o pense mas não o confesse publicamente (fundadores incluídos), de que há situações incompreensíveis com as despesas do Museu, compete aos órgãos de comunicação dar voz a essas apreensões. Inexplicavelmente, e apesar de, em tempos, eu ter levantado a questão e de ser acompanhado por muitos nessa intenção, nunca o Douro soube das contas do Museu. E eu também nunca percebi porque nunca foram divulgadas. Ou seja, seria de todo aconselhável que, para uma compreensão definitiva e completa do projecto assumido pela anterior Direcção (o tal Museu do Território), fossem publicamente divulgadas as contas de gestão, isto é, precisávamos de saber quanto custaram as acções, quando se pagaram a assessorias, quanto receberam os colaboradores, quanto receberam autores de iniciativas contratadas (que na altura foram alvo de algumas críticas), etc., etc., etc.
Ou seja, sem querer levantar aqui qualquer suspeição sobre quem quer que seja, aviso já que, unicamente o que pretendo é que se publicite, abertamente, os resultados da gestão do Museu do Douro. Isto não é acusar ninguém de nada, mas somente não prescindir do direito que qualquer cidadão tem de saber que destino é dado aos seus impostos.
Por exemplo: quanto custou os “Jardins Suspensos”? Houve ou não assessores para este projecto? E se houve, quanto receberam? E as edições de livros, de discos, etc? Quanto custaram? Quem as produziu? E os filmes? E as reportagens? E os colóquios? E os passeios no Douro? Quanto nos ficou cada uma destas acções?
É que, sem que tudo isto seja divulgado, andamos a falar do que não sabemos. Talvez até eu. E não quero com isto dizer que pretendo acusar seja quem for de qualquer ilegalidade. Que fique bem assente que não se trata disso. Trata-se somente de que é preciso que a região saiba onde anda a gastar o seu dinheiro.
E precisa também de saber o peso dos montantes. Ou seja: pagar-se 500 Euros a alguém por prestação de serviços ao Museu, é montante que ninguém discute. Mas se forem 100.000? Então, aí há que perceber a razão de uma despesa desta índole. E se, ao organizar-se uma exposição, se gastar 10 mil Euros, nada há a opor. Mas se se gastar 1 milhão ou mais de Euros, então há que saber o porquê de tal gasto?
Trata-se somente de um exemplo para ilustrar melhor o que penso – entenda-se, e nada mais do que isso.
Se calhar, estou a pensar que gastaram 1.000 ali, e vistas as contas, só gastaram 1. E, se assim for, tenho de vir publicamente pedir desculpas pelas minhas injustificadas crónicas.
Portanto, em lugar de andarmos a gastar tinta e papel de jornal, em vez de andarmos para aqui com manifestações de apoio de um lado e com sérias críticas do outro, não há dúvida de que, a apresentação das contas na íntegra, ajudaria com certeza a esclarecer muita coisa.
Uma instituição pública, seja ela qual for, tem o dever de divulgar perante os cidadãos onde e como gasta os dinheiros públicos, e de divulgar, também, quem os recebe. E é só com o espírito de que as coisas sejam, de vez, esclarecidas, que me atrevi a escrever este artigo.
E as contas, meus senhores, não são um mero resumo. São uma descrição, alínea por alínea, tostão por tostão, do que se gastou e a quem se pagou.
Esta é uma obrigação, não só do Museu, mas também de todas as instituições que, cá pelo Douro, têm passado, e é uma obrigação de todas as empresas que lidam com dinheiros públicos.
E, enquanto não soubermos das contas, tudo o resto será conversa fiada.
Os números hão-de falar por si.
Das duas uma: os números hão-de dar razão a quem critica, ou hão-de desmentir quem injustamente duvidou.
(446)
UNIDADE DE MISSÃO
ou
DEMISSÃO EM UNIDADE
por Francisco Gouveia, eng.º
(Deseja-se mais do que nunca que a Estrutura de Missão do Douro seja um sucesso. Mas uma coisa é certa: terá de caminhar sozinha, disso podem estar certos os seus responsáveis. Porque os autarcas durienses não estão a dar-lhe a mão, mas unicamente a proteger-se na sua sombra protectora.
Entrou em funções a Unidade de Missão porque os autarcas durienses, até hoje, sempre se demitiram das suas responsabilidades para com a região, em unidade)
Vai ainda curta a viagem da Estrutura, Unidade (ou como entenderem chamar-lhe) de Missão do Douro, para que se possa fazer qualquer balanço sobre a sua eficácia. Para já, apraz-nos registar alguma clareza no sistematizar de soluções e, muito especialmente, algum entendimento prático sobre a desburocratização administrativa de muitos assuntos que emperram o desenvolvimento da região. Contudo (há sempre um contudo), algo nos assusta: o excesso de aparições protocolares do seu principal responsável, hoje aqui, amanhã ali, numa infindável sucessão de palestras, muito ao jeito do que, por cá, temos tido de sobra. Mais eficácia e menos retórica, como dizia um prezado amigo meu que já por cá não anda e que, no tempo em que as palavras não se gastavam tanto, dirigiu com mestria o tal organismo que, anos mais tarde, iria dar origem à actual CCRN de onde foi recrutado o actual Encarregado de Missão do nosso Douro. Fala-se uma vez, esclarece-se, apresenta-se o plano, e passa-se à prática. Pelo menos, é assim que eu entendo a forma de gerir. O resto, para mim, é embalo.
Mas, dizia, eu, há pelo menos uma orientação, uma linha de rumo, algumas ideias e algum empenhamento visível. E há também algo que esta Estrutura de Missão veio resolver: retirou aos autarcas durienses a responsabilidade que sobre eles cai há muito, de nunca terem tido uma conduta correcta perante as exigências que a região, vista na sua globalidade, lhes exigia. Os autarcas durienes, ao longo dos anos, deram péssima conta das oportunidades que se lhes depararam de bandeja, e nunca conseguiram impor qualquer unidade em torno dos grandes problemas da região. Isto é, quando era para se reunirem à volta da mesa das conferências, dos fóruns, congressos e colóquios (e de outras mesas mais atractivas e suculentas), não faltava um, mas depois, quando era preciso passar à prática, que o mesmo é dizer-se, dar o corpo ao manifesto, aí sim era um ver se te havias, cada um para seu lado, assobiando para o ar e, neste embalo (outra vez o embalo), deixaram escapar a excelente oportunidade do Eixo (Lamego/Régua/Vila Real), deram pouco ou nenhum uso às potencialidades do regime de Associação de Municípios e nem sequer mexeram uma palha na ComurbDouro. Assim, a criação desta Estrutura de Missão veio como que sacudir-lhes a água do capote, aliviar-lhes as responsabilidades, tirar-lhes o trabalho que, ao fim e ao cabo, nunca tiveram. Por isso os autarcas durienses a receberam com histérico entusiasmo, tecendo louvores exagerados e dando já como ganha a batalha do desenvolvimento do Douro. Porque, pensando bem, que bom que vai ser agora, com um responsável a responsabilizar-se por tudo o que faz falta ao Douro e eles, de ripanço, olhando as suas quintarolas concelhias com o alívio do capataz, que nunca faz mas manda fazer. Que jeitaço que esta Estrutura de Missão lhes veio dar, que alívio para os seus anseios de continuarem a governar os poucos munícipes que ainda lhes povoam as áreas territoriais afectas, com a pacatez de lavrador em fim de tarde de verão, ao pôr-do-sol, sentado no alpendre a ver passar a roda do tempo.
Sempre disse que um dos maiores problemas do Douro era de natureza política, e que se prendia com uma gritante falta de liderança. Apesar de haver estruturas onde alguém pudesse sobressair e dar voz em nome de todos, nunca apareceram candidatos. O Douro sempre foi assim, encolhido, um Douro de quintas, bem entendido, de quintas de vinho, de quintas culturais, de quintas políticas, de quintas onde o benefício era a roda dos amigalhaços. Fora dela, era como se o mundo não existisse. Sempre assim foi e ainda é. O que mata este Douro são as cercas e arames farpados que cada um monta à volta da sua quintarola. A abertura, aqui, é parca, e se algo acontece de novo tem que vir de fora. Há ainda um provincianismo latente nas mentes de muitos responsáveis regionais. Mas não só. Assim, a manutenção do status destes quintais, o afastamento de deveres, a negação de promessas, ocasionaram uma aura de repulsa perante a novidade. Nestas circunstâncias, é difícil gerar, cá dentro, algo que medre com fulgor. Há ainda muita filoxera na forma de entender o Douro. E, ao cabo e ao resto, é olhar para ele e ver que não é assim tão difícil de governar: uno em morfologia, uno em actividades, uno em clima, tão uno que só um rio é capaz de lhe soldar as margens. E há também o passado, ordenado com o rigor administrativo de um Pombal e desenvolvido com a estrutura sólida da concertação interprofissional. Bem vistas as coisas, que nos falta? Talvez essa vontade de fazer, de desbravar, de ser, enfim, diferente. Foi a diferença que criou o Douro. Foi a fé que criou o Douro. Diferença e fé são hoje valores que se arredaram daqui. Em sua substituição veio o laxismo, a estagnação, um certo entendimento retrógrado e conservador do futuro. E também a falta de coragem. Detesto políticos sem coragem! Aliás, sem coragem não se faz um político. E foi também isto que foi falecendo aos autarcas durienses. Em suma, os autarcas durienses falharam! Falharam de mais!
É neste clima que esta Estrutura de Missão aparece, e, para já, pelo menos teve esta utilidade: a de livrar os autarcas durienses de algumas dores de cabeça e muitas críticas. Agora, a responsabilidade não é deles, é da Estrutura de Missão. E é bom que a Estrutura de Missão não se esqueça deste pormenor (aviso eu), porque isto de sacudir a água do capote, em política, tem o seu preço. Sacode-se a água de um capote e ela vai parar a outro.
Mas sejamos optimistas. A Estrutura de Missão vai ter sucesso. Mas uma coisa é certa: terá de caminhar sozinha, disso podem estar certos os seus responsáveis. Porque os autarcas durienses não estão a dar-lhe a mão, mas unicamente a proteger-se na sua sombra protectora. Mas isso, certamente que já toda a gente adivinhou.
Entrou em funções a Unidade de Missão para o Douro porque os autarcas durienses, até hoje, sempre se demitiram em unidade.
Que seja bem-vinda, então, esta unidade, mesmo que concentrada numa figura só.
(447)
UM CENTRO DE NEGÓCIOS NO DOURO
Por Francisco Gouveia, eng.º
(Já não aceito a justificação de que há coisas de que o Douro necessita mas que não se podem fazer por falta de dinheiro. Pelo que sei, parece que por cá até há dinheiro a mais.
Vem isto a propósito da necessidade de um Centro de Negócios vinícolas no Douro. A realidade social duriense está a mudar e, com ela, novos desafios se apresentam. O aparecimento e expansão dos produtores-engarrafadores, está a mudar o quadro económico da região. Para melhor, bem entendido.
E pouco ou nada se está a fazer para os ajudar)
A face social do Douro está a mudar. Dentro de uma década ou duas, a multidão de agricultores, os tais 30 e tal mil que fizeram do Douro o que ele é, acabará por dar lugar a uma nova realidade. Todos os indicadores apontam para que a exploração agrícola (ou vitivinícola, como é o caso) não poderá ser exercida por pequenas unidades familiares que apenas produzem e vendem a matéria-prima. Aliás, muitas delas já não possuem dimensão que, no contexto actual, lhes permita sequer sobreviver. Esta é uma realidade que, mais tarde ou mais cedo, o Douro terá de enfrentar. Entretanto, e a par com o potentado das grandes quintas, das grandes companhias, uma nova classe desponta: a dos produtores-engarrafadores. Com uma maneira de pensar mais científica, moderna, aliada a uma dose cultural elevada, esta nova classe (e chamo-lhe “classe” por uma mera questão de sistemática) começa a salientar-se no mundo agressivo e comercialmente duro da vinicultura actual. E, honra lhe seja feita, praticamente sozinha. São estes produtores e fazedores de vinho que produzem qualidade, vendem qualidade, melhoram ano após ano, e estão sempre a contas com tudo o que há de novidade na actividade. Serão eles a substituir o pulverizado mundo agrícola duriense, criando a diversidade impossível de fazer pelas grandes Companhias, e servindo de fiel num negócio onde um dos trunfos é a variedade de escolha, dentro da alta qualidade. Foi há alguns anos, quando se discutia o novo regime regulamentar para o Douro que, numa das reuniões havidas então e patrocinadas por este jornal, fui alertado para esta realidade pelo Eng.º Mesquita Montes que, na altura, propôs que estes produtores fossem integrados (reconhecidos) pelo regulamento que então se estudava. E, de facto, desde então até hoje, vê-se crescer em quantidade e qualidade estes novos intervenientes da economia duriense. Ainda recentemente a Casa do Douro testemunhou o fulgor desta gente.
Vem este intróito a propósito de uma ideia antiga que tentei impor anos atrás quando, em disputa com o anterior Presidente da Câmara, Dr. Vítor Almeida, apresentei um plano de acção para a Régua que desenvolvi em (creio eu) quatro edições seguidas deste jornal. Nada do que vos vou falar é, portanto, novo, pelo menos para mim que, volta e meia, me lembro de quanto faz falta no Douro um Centro de Negócios permanente. Em edifício próprio, bem entendido. E um Centro de Negócios ligados à actividade vitivinícola onde, durante todo o ano seja possível aos produtores-engarrafadores, e não só, apresentarem os seus produtos e comercializá-los, quer interna quer internacionalmente, não estando sujeitos a calendários de exposições, de mostras, etc. Por outro lado, a crescente onda de turistas que semanalmente demanda o Douro, necessita de se abastecer, especialmente num local onde se concentre o húmus da produção. Desde a venda a retalho até à venda por grosso, este Centro seria o empurrão que muitas empresas estão a precisar para darem a conhecer os seus produtos, publicitá-los, vendê-los. E durante o ano inteiro. Esta ideia que, como outras, já devia ter avançado, é defendida por muito boa gente, especialmente aquela que não se perde com questões laterais e acessórias. Mas eu sei que seria pedir muito, especialmente à Régua que, depois do edifício do Instituto de Navegabilidade do Douro (um disparate Guterrista que não se sabe muito bem para o que serve, ou serviu), não conseguiu mais nenhuma obra de vulto. Bem, na realidade não é bem assim, porque há o tal Museu, onde se gastaram e vão gastar milhões sem que se saiba, também, para que servirá. Aliás, e se a questão é de dinheiro, deixem-me que lhes confesse uma coisa: bastavam os milhões de Euros que se gastaram com esse sofrível, espampanante e culturalmente inútil, “Jardins Suspensos”, para se erguer um Centro de Negócios na Régua. E é por estas e por outras que, muitas das vezes, me enraiveço contra esta falta de critério nas prioridades de uma região. É claro que nem discuto o que se gastou nesses “suspensos jardins”, pois fá-lo-ei na altura própria quando (se é que vai haver um quando) os números inenarráveis daquele despesismo quase insultuoso forem tornados públicos. Discuto sim a necessidade deste Centro recusando-me aceitar que tal não seja possível por falta de dinheiro. O que não há é critério de prioridades. Dinheiro, há, o que não há é bom-senso e rigor na aplicação dos dinheiros públicos. O que não há é vontade política para equacionar de vez os problemas da região e de os enfrentar com vigor.
O Centro é tão necessário como o pão para a boca. Tal e qual. E se houvesse na região alguma lucidez sobre como dar a volta por cima, era olhar para aqueles que, sem apoios, o estão a fazer. Ignorar esta nova realidade duriense é meter a cabeça na areia. Não a apoiar é cometer mais um erro contra a economia da região. E, no fundo, as coisas são tão claras quando se olha o Douro com os olhos desprendidos de outros interesses que não sejam os do Douro!
Fico à espera, como sempre, que este Centro fique para as calendas. Mas se calhar, até nem é uma boa ideia e eu estou errado. Contudo, não seria mau que se ouvissem os interessados. Os interessados é que devem saber. Falta saber é se o poder político está interessado em ouvi-los. E, já agora, a aprender alguma coisa com eles.
(448)
No Aniversário do Notícias do Douro (jornal velhinho mas ainda com algumas coisas no sítio e muito funcionáveis)
E SE O NOTÍCIAS DO DOURO ACABASSE?
por Francisco Gouveia, Eng.º
(Para alguns, garrafas de champanhe abertas. Para outros, uma grande saudade logo na primeira semana em que faltasse.
Infelizmente, para os primeiros, as rolhas vão apodrecer.
Felizmente para os segundos, porque ainda não é desta vez que a saudade os há-de atormentar.
Mas o segredo do sucesso deste jornal está neste princípio simples:
Estar ao lado dos que nada podem contra os que julgam poder tudo.
E há também o Douro, o Douro que amamos verdadeiramente, desinteressadamente, o Douro que queremos que seja a nossa bandeira.
O Notícias do Douro é do Douro. É o Douro, e está tudo dito!)
Já me disseram que algumas consciências pesadas se atormentam à Quinta-Feira. Diga-se em abono da verdade que a Quinta-Feira é um bom dia para se atormentarem, pois têm a Sexta-feira seguinte para recuperar sem que deixe mazelas que atrapalhem o fim-de-semana que se aproxima. Contudo, é assim: abrem o jornal com a ansiedade dos que esperam uma carta de promoção, de despedimento, enfim, uma boa ou má notícia. A boa será que, nessa edição, as canetas afiadas dos seus colaboradores não arrepiem o papel almaço da edição com algumas verdades que os ditos pretendem esconder. As más são quando, de facto, as tais canetas debitaram a história que não queriam que se contasse, de fio a pavio. É assim o Notícias do Douro, um jornal onde nunca se morre de tédio. Semana a semana aqui está ele, dissecando os tumores durienses, satirizando a palhaçada da vida política local, espetando o bisturi mesmo no cerne das moléstias. É assim este caderno de meia-dúzia de folhas onde, semanalmente, se atormentam as consciências pesadas e se dá oportunidade a outras a que se aliviem. Até nisto o Jornal é humanitário. Tem que o ser. Nem só de crítica vive o jornalista. Também vive do esclarecimento, especialmente do esclarecimento, da verdade, dos pontos nos is. E por falar em pontos nos is, há que reconhecer, no panorama imenso da imprensa regional, que, talvez, nunca nenhum outro ponteou de tal maneira os isolados postes alfabéticos com a bolinha redondinha e minúscula que lhe dá a identidade. Está assim justificado que o i é uma letra importante, especialmente quando carregado com o ponto por cima da cabeça, o tal que o distingue. O Notícias do Douro é, portanto, um jornal que não se esquece de pontuar os seus is. E, justiça lhe seja feita, às vezes até carrega demais ficando o ponto a sobressair do resto da letra. Mas adiante.
Dizia eu que, há gente que abre o jornal à Quinta-feira com o coração nas mãos. É mau sinal, porque não queremos que enfartem do miocárdio por tão pouco. Mas a culpa não é nossa. Culpa é dos rabitos que por aí andam atracados em portas de quartos sabe-se lá com que escuridão! Então, que culpa temos nós em acender a luz e dar a conhecer o dono do tal rabito que por lá se queria esconder? Dar á luz é uma obra de caridade, mas acima de tudo de coragem e alegria, que o digam as nossas santas mães
Mas voltemos à questão com que titulei esta crónica. E se o Notícias do Douro acabasse?
Haveria garrafas de champanhe a abrir-se. O incómodo, metediço e irreverente Notícias do Douro, carpia a finados. E, assim sendo, a paz regressaria ao Douro. A paz podre, bem entendida, a passerelle estendida a todas as diatribes, a certeza de que muitos galifões por ela passariam altaneiros com a certeza de não serem incomodados. Porque se há coisa que arrelie os altaneiros que, para além do que julgam ser a protecção que os cartões partidários presumivelmente dão, para além dos amigalhaços que jogam à sueca com eles na sede dos partidos, para além dos favores que trocam como crianças a jogar aos cromos, (como dizia) se há algo que os arrelie, é esta mania de o Notícias do Douro meter o bedelho onde (julgam eles) presumivelmente não é chamado. Estamos então, convictos de que, no dia em que este jornal der o badagaio, os suspiros de alívio vão ser tão fortes e impetuosos que (sabe-se lá?) a corrente de ar provocada é capaz de provocar um tsunami no pacato rio Douro.
E por falar em rio Douro, gostava mais dele como era antigamente. Anos sessenta. Para quem queira saber, andei ali embarcada pela mão possante de meu avô, então responsável pela Quinta das Carvalhas, que me levou vezes a fio encavalitado nos rabelos, acima e abaixo. Era um rio do caraças! Parecia um mar encapelado, num tempo em que as barragens não existiam e a gente tinha que lhe suportar o mau feitio. Depois, amassaram-no, domesticaram-no, como um cachorro a quem se ensina a trazer o jornal à mão e os chinelos ao pé.
Pois é! Mas esqueceram-se do outro lado do rio. O tal Notícias do Douro a quem não fizeram barragens e a quem não regularizaram o caudal.
Por isso, este caudaloso jornal continua sem ser domesticado. Não há barragens que nos parem.
E ainda bem que assim é.
O Notícias do Douro (toda a gente o sabe) faz a diferença na imprensa regional. Também, se não o fizesse, não estava aqui a escrever para ele.
Assim, aqui deixo a minha declaração de amizade a todos os que colaboram neste jornal, com uma especial referência ao seu responsável pelo exemplo democrático que transmite a este Jornal, o Dr. Armando Mansilha.
E, também, muito particularmente, aos leitores que fazem o favor de me ler. O meu muito obrigado. O tempo que gastam com o que escrevo é algo que respeito, me orgulha e me faz devedor.
Quanto aos outros, os políticos da treta, os interesseiros, os que amam o Douro com o coração numa mão e a conta bancária na outra, os vendedores de sonhos com mordomias garantidas e, de uma maneira geral, os corruptos, corrompidos e candidatos a sê-lo, aqui ficam os meus agradecimentos pelo extenso, caricato e interessantíssimo material que nos dá tema para as nossas crónicas semanais. Que seria delas sem esta fauna?
Parabéns ao Notícias do Douro, e parabéns ao Douro por ter um jornal assim.
nota: o director deste jornal, o meu sempre jovem Dr. Armando Mansilha, é um homem da imprensa e com uma concepção da democracia que eu, aqui, não podia deixar de louvar. Ele é quem faz deste jornal aquilo que ele é: democrático, aberto, e que nunca por nunca condicionou qualquer artigo ou crónica, viesse de quem viesse. Aqui se critica, aqui se replica.
Aqui se diz bem do que merece ser elogiado, ou se denuncia o que está mal. Tem que ser assim a imprensa regional. Tem que ser assim.
(449)
O NEVOEIRO DURIENSE E O ESPÍRITO MESSIÂNICO
por Francisco Gouveia, eng.º
(E no dia em que o Douro souber reconhecer aqueles que desinteressadamente – mas os verdadeiramente desinteressados – aqui estão para construir e não somente para aforrarem as algibeiras com o “tal amor ao Douro”, verão como um novo sol vencerá a névoa da crise que persiste em não largar esta terra.
O Douro há-de ser aquilo que os verdadeiros durienses quiserem que ele seja, não o cofre aberto com que alguns o sonham.
O Douro ainda sonha com os seus el-réis dom Sebastiãos)
As grandes obras constroem-se com os da terra e a grandes causas defendem-se com os que, nelas, se batem diariamente. Em 1998 escrevi um livro de contos sobre esta tenaz névoa que embaciava o Douro (Há Névoa no Rio), na certeza de que a sua teimosia em se arredar do Vale seria um presságio já aceite, uma espécie de maldição que é tida por uns como nefasta e por outros como de grande utilidade. A névoa, como mancha difusa, de matéria volátil mas suficientemente capaz de encobrir vultos, demonstra-se de grande eficácia para aqueles que por cá andam saltando de esquina em esquina, escondendo-se nos vãos de escadas, atravessando as praças quando elas estão vazias de gente. O nevoeiro, longe de constituir um empecilho ao dia radioso, é um óptimo ajudante aos movimentos pouco claros dos que deambulam por este Douro como zombies. Por outro lado, este intenso nevoeiro que nos tolhe a maneira de pensar, que nos torna mais depressivos, que nos pressagia a triste sorte de pertencermos a um interior cada vez mais mirrado, fomenta, a pouco e pouco, a maneira de ser muito portuguesa que pressagia que, quando os homens falham, há-de aparecer alguém que virá salvar a terra da derrocada. Este país, um pouco por todo o lado, ainda sonha com Sebastiãos a romperam nas manhãs de nevoeiro. Em toda a nossa vida pública se espera por estes salvadores de pátrias. Sempre assim foi e julgo que continua a ser. É assim que, neste momentos de ansiedade colectiva, o campo se propicia ao aparecimento de alguns que, munidos da sabedoria torpe do oportunismo e engalanados com a encenação de cerimoniais de apresentação pré-estudados, se encavalitam no lombo da besta que os aguenta, como comandantes em frente a exércitos desmoralizados e, como tal, fáceis de manobrar.
A recente história do Douro (leia-se de há 20 anos a esta parte), está pejada deles. Todos apareceram com a auréola da santidade imaculada, da competência inexcedível, da sabedoria inigualável, transportando no bornal das intenções as fórmulas mágicas com que iam salvar o Douro. O certo é que falharam todos redondamente, puseram este Douro pior do que o encontraram, disparataram às raias do inconcebível, tiveram ideias capazes de assustar os idiotas, mas no fim (e durante), receberam aclamações, foram idolatrados, alguns até ainda hoje continuam a ser desejados porque ainda há quem pense que os insubstituíveis existem. O mundo duriense é assim: de espírito pouco crítico, pouco ou nada exigente, facilmente influenciável por este canudo mais ornado ou por aquele espalhafato mais pimba, em suma, no mundo duriense entra-se como faca quente em manteiga fria. Eu sei que a ignorância é a mãe da falta de exigência e a responsável pela inexistência de uma prática crítica, logo, do uso de hábitos de análise e reflexão. A ideia duriense mantém, sob este aspecto, a clausura de outrora: outros que pensem por nós, que decidam por nós. Há algo de muito salazarista nesta herança que ainda hoje marca a maneira de pensar dos durienses. Mas as coisas são como são.
Visto isto, está o campo aberto a que, de todo o lado, quer económico, quer político, quer cultural, etc, se apresentem por cá esses tais Sebastiôncios com promessas de dar a volta a um Douro que se afunda.
Mas a História é que não vai em cantigas, e se para alguma coisa serve, serve para nos dar algumas lições de como as coisas se devem fazer. Para já, a História demonstra-nos que não há crises espontâneas. As crises são os Homens. E só eles podem dar fim ao que criaram. Se criaram as crises, que as anulem. Neste Douro de crises permanentes, de conflitos escusados e de muito, mas muito oportunismo, só os de cá, dentro das estruturas de cá e com a vontade de cá, poderão acabar com esta peste que tolhe o futuro do Douro. Sempre defendi que seriam os que cá estão a mobilizar-se para defender de vez esta estrutura (ainda) brilhante de um mundo vinícola que só precisa de uma coisa: que os seus acreditem nele. Os novos tempos que se aproximam, e digo novos porque serão efectivamente novos e não se compadecerão com mais tretas retóricas, com mais formalismos académicos, com mais demonstrações de erudição pessoal, com mais promessas de que agora é que vai ser. O Douro que se avizinha está nas mãos dos durienses que, numa perspectiva de organização dos seus interesses, se devem reorganizar, quer aproveitando as estruturas já existentes, quer criando novas estruturas. E, também, exigir as infra-estruturas de que necessitam para desenvolveram as suas actividades. O Douro tem que ser novamente dos que nele labutam, dos que vivem da sua principal actividade, dos que agora aparecem com vontade, experiências, projectos, necessidade de expansão. No Douro as coisas estão a clarificar-se, de tal maneira que temo que o Poder não os consiga acompanhar e, como burocrático e cansativamente retórico que é, embrulhe estas intenções nos cardápios políticos de que são representantes e guardiães.
O nevoeiro do Douro, tal qual como no meu livro, nunca existiu a não ser na mente cansada e fustigada de um velho para quem a vida foi madrasta. É então entrar nele porque ele não mata nem mói. Nem sequer molha. O nevoeiro do Douro é um fantasma que se esvai com a coragem de quem o enfrenta. E, ao mesmo tempo que o obrigamos a dissipar-se, retiramos o campo propício a que esses tais Sebastiôncios deixem de ter palco para entrar na vida duriense. O que por cá fizeram foi mau demais para que alguma vez pensem em cá voltar. Esses, bem os dispensamos. Queremos, sim, os de cá, os que produzem, os que trazem vontade e novas ideias, os que, de facto, estão na disposição de mudar a face rugosa e abatida deste Douro, os que podem trazer alguma mais-valia ao Douro e que não venham cá buscá-la para seu proveito pessoal.
E no dia em que o Douro souber reconhecer aqueles que desinteressadamente (mas os verdadeiros desinteressados) aqui estão para construir e não somente para aforrarem as algibeiras com o “tal amor ao Douro”, verão como um novo sol vencerá a névoa.
O Douro há-de ser aquilo que os verdadeiros durienses quiserem que ele seja.
E os verdadeiros durienses estão atentos. Muito mais atentos do que se julga.
(450)
ABENÇOADO MEIO ANO QUE AÍ VEM!
por Francisco Gouveia, eng.º
Abençoado meio ano que aí vem! Com o Governo em força na Presidência da tal Europa que, pelos vistos, toda se pela nossas presidências – plenas de sol, boa mesa, tocatas e copos de água – vamos andar seis meses livres de que os ministros andem atrás de quem cola cartazes “jocosos”, movam processos disciplinares a comediantes, metam em tribunal os bloguistas, etc, etc, etc. Para além disso, e como o momento é cheio de formalidades, de grandes actos simbólicos, de grandes salamaleques, a coisa também não se propicia a que os nossos ministros asneiem muito. Serão, quanto a isso, comedidos, que o mesmo é dizer-se: calados. Sim, porque a única maneira de evitar que os nossos ministros debitem arreatas pelas cordas vocais, é mantê-los calados ou, pelo menos, dentro dos limites apertados do verbalismo formal.
E foi bonito: concerto na Casa da Música, ripanço estomacal na Câmara, dia de sol, prenúncio de que os nossos caríssimos confrades europeus hão-de levar estes seis meses para toda a vida. E depois, o trabalho não é de matar ninguém. Quase tudo está já contratado. Faltam só uns pormenores para dar corda à grafonola. Os discursos, esses, parecem tirados a químico, agora aqui, depois ali, mais adiante acolá e, isso sim, é que deve dar um bocado de trabalho ás hostes europeias.
Mas, dizia eu, a nossa elite governativa vai assim ter com que se entreter durante seis meses. Seis meses em que estes desgraçados portugueses que lhes aturam as manias dia sim dia sim, podem enfim respirar um pouco de liberdade, adormecer sem medo de que, no dia seguinte, acordem sem o seu Centro de Saúde, a sua Escola, o seu Tribunal, e sei lá mais o quê. Por outro lado, o educador-mor da classe dos “rapas”, Sócrates, deixará que os nossos ouvidos descansem pelo menos alguma vez. A sua voz sapiente terá agora toda a Europa a ouvi-lo, e não somente esta cambada de portugas ignorantes que não sabem distinguir uma peça de retórica de um carro de mato.
Por seu lado, a OTA vai descansar a passarinha. Daqui a uns dias ainda haverá um burburinho por causa de umas tais eleições que uns desocupados resolveram arranjar lá para Lisboa, no pino do Verão. Pró que lhes deu! Mas logo logo as coisas amansarão. Meia dúzia de foguetes e está a festa feita. E tudo voltará ao normal: às reuniões sem hora marcada, às recepções à beira rio, aos concertos, às exposições, aos jantares comemorativos de tudo quanto for efeméride europeia, e, à socapa (que ninguém há-de dar por nada) até pode ser que alguns senhores deputados se aventurem num banho na Caparica, numa fugida a Sintra, e, quem sabe?, numa visita ao Algarve, melhor dizendo: Allgarve, que também faz parte da Europa e constituiria forte motivo de depreciação se a nata política desta Europa que já tem mais países que piolhos a cabeça da Ti Maria Choca, se esquecesse do nosso mais solar e luminoso pedaço de pátria!
Bem feitas as contas, aquela gente vai andar entretida e vai entreter também os nossos mandantes. Tenho, contudo, algumas dúvidas: como é que, por exemplo, o nosso ministro da Saúde vai conseguir andar seis meses sem dizer um disparate? Como é que os “bufos” do partido vão conseguir aguentar-se seis meses sem uma delação? É que, seis meses é muito tempo e um homem não é de ferro, caramba! A não ser que, entretidos que possam andar com os canapés, os cocktails, a petisqueira, etc e tal, não lhes dê o instinto para o bufo. Sim, porque isto de se bufar com a boca cheia, para além de feio pode provocar um desastre vomitório. Tenhamos então esperanças de que os petiscos estejam de feição que lhes sublime a raiva perseguidora.
Entretanto, até nós, os jornalistas amedrontados, aproveitamos para darmos umas larachas mais picantes, fazermos umas críticas mais mordazes, divulgarmos mais uma piadinha sobre o curso do nosso primeiro. C’os diabos! O homem não havia agora de fazer má figura, com tanta gente estrangeira por cá, e mandar a cavalaria, a armada e a polícia toda junta em cima do desgraçado do escriba. Não senhor, que a compostura é um posto. Vai rir-se, sorrir-se, como quem governa o país mais democrata da terra, e até é capaz de convidar algum detractor dos mais rijos a sentar-se a seu lado. Sim senhor!
Abençoado meio ano que aí vem!
Abençoado!
(451)
ETERNAMENTE PROVINCIANOS
Por Engº Francisco Gouveia
(O problema de Portugal é a falta de seriedade e de exigência, e nada mais. Cá pelo Douro, o problema é o mesmo. O interior não pode exigir do Poder Central essa mesma seriedade e exigência, se também não as pratica.
Mas o interior tem outro problema: um espírito fechado, por vezes tacanho, pouco votado a celebrar o trabalho e a dedicação de quem por cá anda a tentar erguê-lo, e uma relutância quase patológica em denunciar os casos de desonestidade que o envergonha. Um provincianismo de que não se consegue libertar e que, por isso, tende a eternizar-se)
Queixam-se da desertificação e, espanto dos espantos, as metrópoles megalómanas de Lisboa e Porto têm o mesmo problema dentro de si, endemicamente, desde que, há anos, um iluminado qualquer, imbuído do tal espírito socialista que hoje nos dá água pelas barbas ao ser pior do que a direita das direitas, resolveu congelar as rendas. Resultado, as grandes cidades são autênticos despovoados que se enchem de dia com a azáfama dos escritórios e serviços e, à noite, caem na mais profunda solidão sem vivalma que as habite. Os seus prédios caducos e arruinados, não diferem muito dos casebres destelhados das nossas aldeias, há muito sem sopro de voz humana. E significa isto, o quê? Significa que há espelhos que reflectem com tal precisão o estado de um país, que quase nem é preciso acrescentar mais retórica nenhuma ao que os olhos vêem.
Os espelhos deste país estão em toda a parte, nas grandes cidades e nas aldeias, e só não os vê quem não quer ver. E há quem não queira ver.
Não queira ver que, por exemplo, o país bateu no fundo, algo que não seria grave pois não é a primeira vez que tal acontece. Somos mestres a desperdiçar as oportunidades da História, relapsos a recusar o ensinamento dos erros. Só que, desta vez, não haja ilusões: entramos num processo sem retorno. Bem podem gemer as carpideiras do poder a ver se a alma da crise se apazigua, bem podem os televisivos tecno-economistas deste regime alisar a aspereza da nossa agreste tesouraria, bem podem os mandantes de agora deitar foguetes e mostrar as canas ao povo na tentativa de os iludir com as décimas da invisível recuperação, que a verdade é crua e dura: já lá não vamos! Acabou! O que havia a fazer já devia ter sido feito. Agora é tarde de mais. Resta somente saber até quando vão as nossas Finanças aguentar a sangria.
Ouvi este primor, ainda esta semana, nas palavras de alguém que ainda por aí anda a ensinar História e a tentar dizer-nos que somos um país grande, em tudo, inclusive na incompetência. Dizia então o mestre José Hermano Saraiva, que era injusto falar mal da classe política, pois o mundo é como um relógio, em que o mecanismo que o comanda é poder económico e os políticos são somente os ponteiros.
Isto, vindo de quem veio, dá que pensar.
E, quando olho para tudo isto, olho também para este Douro. Quanto mais não seja, alguma desculpa lhe pode sobrar se comparado com o estado do país. O Douro não está com uma crise maior do que a do país. E o mal talvez seja esse: aqui parece que só se consegue sobreviver quando a pátria apascenta uma manada de vacas gordas. Mas a grandeza do interior, que já se mediu em arremedos de génio e de coragem, hoje em dia quebra-se nos salamaleques das vénias, na cegueira que teima em não ver o evidente, num provincianismo de quintas e quintarolas com cercados fortes à volta de uma mesquinhez que nunca cultivou a não ser agora, chegados que somos ao século da democracia condicionada. E é este interior, representado pelos seus responsáveis políticos, pelas suas proeminências e eminências, pelos seus órgãos de comunicação, que teima em não ver. O Douro arde nas labaredas dos interesses pessoais, ferve nos tachos dos grupelhos, reza missas negras nas capelinhas dos vampiros e, no final, a comandita que devia denunciar os atropelos, vira a cara para o lado, assobia para o ar, faz que não vê. Porque o mal, a corrupção, estão lá longe, nos confins lisboetas do Poder onde, aí sim, as negociatas pegaram de estaca. Por cá não há nada, estamos isentos. Por cá só o bem existe. E, neste limbo onde se pretende colocar o escravizado interior, não há espaço para mais nada a não ser a honestidade.
Esta treta com que nos alambazamos mina-nos como térmita em madeira mole porque, escalpelizada esta terra – e nem precisa da certeza do cirurgião – medra em cada canto o giestal da mesma corrupção que, noutra escala ou se calhar a mesma, empurra a nação para o fundo do poço com a bota bem carregada no pescoço para que não tenha hipóteses de subir.
Espreme-se o trapo imundo da nossa derrocada, e que sobra? Um trapo seco mas um trapo onde, a letras de estrume se escrevem as razões da nossa infelicidade: falta de seriedade e de exigência. Lá como cá. Tanto no centro como nas bordas.
Será isso: uma imensa falta de seriedade com que se trabalha e, também, uma falta tão grave de exigência que leva este interior a louvar a mediocridade e a adorar os imbecis.
Ainda o ano vai a meio e, por exemplo, já assisti à segregação de tanta gente capaz neste canto transmontano, que mete dó! Pelo contrário, basta que um palerma qualquer, só porque as TVs se enfeitam com as fuças do dito, por cá passe e é um corrupio de pataratas logo lhe corre atrás. Por outro lado, os de cá, só por favor e muito pedido conseguem alguma atenção. E é este provincianismo que também ajuda a que a região se definhe.
Por vezes, as raias deste espírito roçam a fronteira da tacanhez. E luta-se, luta-se, mas que adianta? O provincianismo tem as suas raízes na ignorância que, por sua vez, é atrevida, contudo, é de um atrevimento que só lhe dá para ser cada vez mais provinciana.
Precisava-se de um Douro sério e exigente. Como o são a maioria dos seus poetas, dos seus escritores, dos seus músicos, dos seus verdadeiros artistas. Mas o Douro pouco ou nada quer com eles.
O Douro é outra estória.
Eternamente provinciana.
nota: interrompo aqui a minha colaboração no ND, desejando aos meus leitores muita saúde e que passem um bom Verão. Cá estarei por volta de Setembro, se Deus quiser.
(452)
A CONSTANTE INCONSTÂNCIA DO DR. CONSTÂNCIO
por Francisco Gouveia, engº
(Tarde e a más horas, os avisos do Sr. Presidente do Banco de Portugal de nada nos servem. A sua última entrevista, sobre as consequências para a nossa economia do aumento das taxas de juro, foram um desfiar fastidioso de trivialidades.
Como sempre, avisa-nos tarde demais. Foi assim na questão do défice e foi assim na questão do endividamento das famílias. E foi assim também em muitas outras ocasiões.
Mas o Dr. Vítor Constância nem precisava de aparecer, e pode dormir descansado pois o seu lugar está seguro)
Habituados que andamos às trivialidades com o que o Senhor Presidente do Banco de Portugal nos brinda, nem demos pela sua inenarrável intervenção na TV, onde nos alertou para os perigos das subidas das taxas de juro. Como se nós não soubéssemos!
Assim, e ao longo de uma fastidiosa exposição, repleta de lugares comuns e onde, por arremedos de pretensa ciência económica, tentou dar-nos a imagem de que a sua instituição tinha tudo sobre controlo, ficamos cada vez mais com a certeza de que vem por aí borrasca da forte.
Esta minha quase repulsa pelas intervenções do Dr. Vítor Constâncio tem vindo a consolidar-se ao longo dos anos em que chefia o Banco de Portugal onde, para além daquelas minudências tão ao seu jeito onde, laboriosamente, se entretém a digladiar-se com centésimas percentuais sobre índices ridículos de eventual crescimento, inflação ou poder de compra destes desgraçados que o ouvem, se acrescentam dois erros gravíssimos que, noutros países, seriam motivo mais que de sobra para que fosse demitido. Falo do escandaloso défice de 6 e tal que nos foi ocultado durante meses e que resultou no que se sabe, e também do grau quase suicida do endividamento das famílias portuguesas e que tem passado ao lado das preocupações do Banco de Portugal.
Para que se saiba, esta questão do défice e do endividamento das famílias é assunto que deve estar na ordem do dia do nosso Banco, e cuja evolução tem que estar diariamente controlada pelo mesmo. Mas, e sabe-se lá porquê, sobre tão delicadas matérias nem o seu Presidente se pronuncia atempadamente e, quando o faz, ou o faz desviando as atenções para outras matérias ou o faz fora de prazo, quando os factos já se consumaram, quando já pouco ou nada há a fazer.
Eu não sei se o Dr. Vítor Constâncio é um bom economista. Sei que não é um excepcional economista, coisa que não é de estranhar nem é de envergonhar ninguém. Mas, para este cargo particular de Presidente do Banco de Portugal, não chega ser bom ou muito bom. Tem que se ser excepcional. E, como disse, o Dr. Constâncio não é excepcional. Mas é um bom político. Á sua maneira, bem entendido, pois quando esteve à frente do PS, foi facilmente derrotado e substituído. Mas é um político que já entendeu que o lugar que ocupa é óptimo para fazer política, conceito que discuto e me arrepia. Assim, e durante todos estes anos, tem actuado na chefia do Banco com mestria política, isto é, a mestria suficiente para agradar a todos os ministros da Economia e Finanças que têm sucedido nos vários Governos, mesmo que esta “subserviência” seja tão prejudicial para o nosso dia-a-dia. Assim, quando um ministro anda aflito com um índice negativo do crescimento económico, lá vem o Dr. Constâncio pôr água na fervura e acrescentar uns pontitos ao malandro do Índice. Quando outro ministro precisa de um empurrãozito para justificar a cavalgada da inflação, lá vem o Sr. Dr. Constância serenar o Zé Povo com uns valores “aceitáveis” do custo de vida. E assim por diante. A bem dizer, e apesar da situação ruinosa a que chegamos, nunca se ouviu da parte dele uma declaração a pôr os pontos nos iis. Aliás, sempre fiz esta pergunta que nunca ninguém me respondeu: quando o défice ultrapassou os 6%, espantou-se o país porque ninguém o sabia! Ninguém? Então se o Banco de Portugal não o sabia, quem o havia de saber? Eu?
Mas tem mais.
Como se sabe, por toda a Europa existe uma especial preocupação com endividamento das famílias, de tal forma que as restrições ao referido endividamento chegam a ser drásticas. As consequências sociais e económicas de um processo de endividamento descontrolado, são gravíssimas para o bom funcionamento de qualquer Estado. Mas em Portugal, e sabendo-se como se sabia (e o Banco de Portugal possui esses elementos), que os níveis de endividamento estavam a atingir patamares suicidas, deixou-se rolar. É claro que era de todo o interesse dos Bancos que esta escalada de endividamento se mantivesse. Uma das principais fatias dos lucros dos Bancos reside no crédito (à habitação, ao consumo, etc). Daí que o que se passou foi um fartar vilanagem. Foi emprestar dinheiro até enfardar os devedores com mensalidades que ultrapassavam em muitos os seus rendimentos. Ora, todos os que se dedicam com um mínimo de atenção a estes assuntos (e nem precisam de ser doutores nem economistas), sabem que para além de um índice de endividamento familiar superior a 1/3 dos rendimentos, a coisa começa a ficar preocupante. O próprio Banco de França (por exemplo) a certa altura foi particularmente rígido com pedidos de crédito que ultrapassassem este limiar. Mas, por cá, deixou-se andar. O Banco de Portugal calado, mudo, afónico, e os Bancos a emprestarem ao deus-dará.
Pergunta-se: onde estava o Banco de Portugal na altura em que podia ser feito alguma coisa?
Não sei. Sei, talvez, que estava onde sempre esteve: dirigido por uma gestão que não alerta, que não avisa, que não nos diz a verdade quando ela é precisa, por mais dura que seja.
Por isso, estas últimas declarações do Dr. Vítor Constâncio têm um certo sabor a pão ázimo, sem sabor, sem fermento nem sal, e que só foram proferidas porque o senhor doutor à muito que não falava. E como quem não aparece, esquece…
E veio dizer-nos, o quê?
Que a subida das taxas de juro do Banco Central Europeu eram muito prejudiciais à nossa economia, como se os portugueses não o soubessem.
Mas o Dr. Vítor Constâncio pode dormir descansado porque o seu lugar continua de pedra e cal – vitaliciamente, julgo eu. Pois quem faz assim todas a vontades ao Poder e deixa os Bancos apertarem à vontade o pescoço dos endividados, tem, com certeza, o seu lugar garantido por muitos e muitos anos.
(453)
IBERISMO E AS CONFUSÕES DOS SENHORES DO PODER
por Francisco Gouveia, engº
(Saramago falou com demasiada ligeireza da unidade política da Península Ibérica, e logo os Senhores do Poder desataram em histeria condenando a ideia.
Estranhamente são esses mesmos que, politicamente, são responsáveis pela entrega sub-reptícia e paulatina do nosso país ao poderio económico espanhol)
Antes de mais, é preciso sabermos do que estamos a falar e o que é esta coisa do Iberismo, expressão que encerra algo parecido com uma fusão entre Portugal e Espanha, isto no entender de algumas ilustres “sumidades” da nossa vida pública que, perante uma declaração de apoio à unidade política Ibérica (leia-se: criação de um único país na Península Ibérica) proferida pelo nosso Nobel José Saramago, quase faziam cair o carmo e a trindade.
A unidade Ibérica é uma questão antiga. Há quem a defenda e há quem a repudie, quer do lado de cá, quer do lado de lá (Espanha). Existem duas filosofias iberistas: uma de natureza cultural, outra de natureza política. A primeira é mais ligeira, e encerra um conteúdo de unidade cultural afim aos dois países, apoiando-se na História muitas das vezes partilhada e das afinidades lógicas resultantes da proximidade, mas também do espaço delimitado da península, devidamente cercado pelo mar e estrategicamente isolado do resto do mundo. A segunda engloba uma concepção mais violenta, e defende que na Península Ibérica só deveria haver um país, uma só Nação sob uma só bandeira.
Quando Saramago proferiu a dita declaração, é sabido que defendia a segunda, pelas razões que apontou, e é livre de a defender. Mas, pensando bem, é inexequível mesmo que houvesse vontade política de o fazer. E a questão é somente esta: não adianta discuti-la porque, formalmente, não pode ser aplicada no terreno. Quando muito, Portugal poderia espartilhar-se em três ou quatro regiões que ficariam englobadas na Espanha. Mas o que é Espanha? Há uma unidade absoluta na Espanha? Claro que não. A Espanha é constituída por uma série de autonomias regionais, qual delas a mais poderosa, qual delas mais afastada do controlo do Poder de Madrid. Um galego distingue-se e não se quer confundir com um catalão, do mesmo modo que um basco repudia ser considerado espanhol, da mesma forma que um andaluz se separa de um valenciano. É, portanto, inútil e despropositado discutir-se o assunto nesta perspectiva. Contudo, alguns senhores do Poder escreveram resmas de página sobre a matéria, contestando veementemente a posição do nosso nobelado, numa histeria que, felizmente, durou pouco mais de uma semana. Tenho, assim, para mim, que esta questão está encerrada. Portugal é Portugal e Espanha é Espanha, e ponto final. Mas, há algo que me assusta verdadeiramente e que, isso sim, constitui uma ameaça à nossa independência e cuja responsabilidade é precisamente dos que, agora, tão fortemente se manifestaram contra esta opção Ibérica do autor do Memorial. E a minha apreensão resulta do seguinte: é que, de facto, Portugal está a mingar, a encolher-se, e a ser absorvido pela Espanha. E esta nem precisa de nenhum acto político, nem mesmo de uma invasão militar para tomar conta de nós. Senão vejamos:
– a fronteira terrestre já entrou cerca de 30 ou 40 Km dentro do nosso país. Junto à zona raiana, bastou somente que o preço dos combustíveis fosse mais barato do lado de lá, e que o IVA tivesse uma diferença de 5%, para que, num ápice, os portugueses passassem a fazer a sua vida do lado de Espanha. E esta situação não tem só a ver com a actividade comercial, mas também afecta os serviços (mais baratos lá), a assistência médica (que não existe no nosso interior), inclusive as sedes de empresas que se passam a fronteira como visco na procura de regime fiscal mais macio.
– Por outro lado, são esses mesmos senhores do Poder que, paulatinamente, têm vendido empresas aos espanhóis, exactamente no dia seguinte a terem feito votos de fidelidade pátria e a terem repudiado a deslocação dos nossos centros de decisão económica para Espanha.
O Alentejo, por exemplo, está a ser alvo de uma corrida às herdades, por parte de nuestros hermanos, que compram tudo: terra, gado, casas, chaparros, rios, ribeiros e lagoas, e, sei lá, talvez já o próprio céu alentejano. Para não falar de grande parte dos centros históricos das nossas grandes cidades que despertam também a avidez do capital espanhol.
Espanha está, pacificamente, com a força do dinheiro que tem e aproveitando os nossos erros de palmatória, a tomar conta do que vai restando de nós.
A questão é tão simples como isto: não se pode viver paredes-meias com um país, ainda por cima mais poderoso do que nós, e praticar preços e impostos nas transacções correntes com um diferencial como o que se verifica actualmente. Mesmo que a manutenção de preços e taxas equivalente nos custasse um equilíbrio do défice mais lento, era preferível à situação actual onde, praticamente, se destruiu o tecido comercial português de uma faixa fronteiriça importante, onde se extinguiram serviços, e onde as sedes das empresas se sediam do lado de lá, onde pagam os impostos, se abastecem de combustíveis, e gozam de preços mais baixos em viaturas, serviços, etc.
Mas este medo dos Senhores do Poder ao iberismo, tem uma justificação. Já viram o que aconteceria aos tachos dessa gente se, de um momento para o outro Portugal passasse a ser administrado por Espanha?
É claro que tudo isto é uma utopia barata. Nada disto tem hipóteses de acontecer. Pois se até a própria Europa tende para a unificação!
Façamos um esforço para ver se conseguimos projectar o futuro da Europa daqui a cem anos.
Com certeza que haverá, nessa altura, para além da unidade monetária agora (quase) em vigor, uma unidade política, económica, sei lá se até social!
Sendo assim, será possível, nessa altura, falarmos em Portugal, Espanha, França, Lituânia, etc., como países autónomos e independentes?
Penso que não.
Daí que, perante a declaração de Saramago, só se tenha assustado quem não sabe como o nosso José Nobel, de vez em quando, aparece em cena deitando algumas achas para a fogueira do nosso provincianismo, ele, que conhece como ninguém a jaez deste povo e a pataratice da nossa classe política.
O homem atirou o barrete ao ar, e logo apareceram os entendidos do costume a enfiá-lo.
Contudo, há outro iberismo: o cultural, que tem – para que se saiba – muitos adeptos, nomeadamente neste canto lusitano por detrás dos tais montes.
Mas isso é outra história. Um dia destes talvez fale nela.
Para já, o meu espanto, conclusivo: os responsáveis pela entrega sub-reptícia de Portugal a Espanha, são os mesmos que, agora, vêm protestar contra uma pretensão união Ibérica.
(454)
UMA PAC ASSENTE NA TRADIÇÃO EUROPEIA E NA CONCEPÇÃO CONTEMPORÂNEA DE “AGRICULTOR”,
E NÃO UMA PAC À AMERICANA
por Francisco Gouveia, engº
(A recente visita da Comissão Europeia ao Douro poderia ter sido histórica. Mas não foi, porque o modelo agrícola para a Europa ficou por discutir, bem como o papel do tradicional agricultor no mundo de hoje.
Mas ouviu-se muito disparate, como a questão da produtividade, do rendimento dos agricultores, da diversificação das plantações, do arranque de vinhas e afins.
Estes ministros europeus são um simpático e divertido grupo excursionista)
Os senhores ministros da União Europeia cá estiveram, comeram, beberam e passearam no Douro como é boa norma da hospitaleira terra.
Toda esta respeitável gente, que agora é apadrinhada e presidida por nós, veio do seio de Bruxelas com ideias predefinidas sobre a forma como a política agrícola europeia deve ser conduzida no futuro. Resta saber se estes ministros, que não passam de simples mandatários de outros poderes que desde há muito regem os destinos da UE, vinham com intenções de ouvir, de analisar e decidir, ou se vinham só para cumprirem a formalidade de estarem presentes. Mas responsabilidade acrescida tinha o nosso ministro da Agricultura que, contudo, não se portou à altura. Como noutras vezes, saliente-se. Desde logo porque, perante uma manifestação de agricultores, menosprezou o acto definindo-o como normal nestas reuniões, pelo que o país não sairia machucado com ela. Por aqui se dá a entender o valor que os senhores ministros europeus dão aquilo que pensam os agricultores que dizem representar. Mas também porque se perdeu em considerações técnico-económicas de clareza duvidosa, para, no final, ficarmos com a sensação de que não teria dito absolutamente nada.
Tenho assim que esta visita ao Douro se desenrolou como um passeio protocolar sem mais significado do que esse. Por estas e por outras se vai vendo como passam o tempo aqueles que nos pedem o voto para o tal Parlamento Europeu, e para que servem os seus cargos. Mas o mais gravoso de tudo isto reside no facto de, desta vez, se decidir muito do futuro agrícola da Europa, futuro esse que assenta num modelo ainda não definido, mas cujos contornos se vão apercebendo.
A Europa tem a base da sua agricultura na estrutura familiar, nos pequenos agricultores a quem, hoje mais do que nunca, se atribuem qualidades de garantes de uma certa preservação da qualidade ambiental, do povoamento de zonas em desertificação acentuada, e, também e muito especialmente, pela diversidade de produtos com que encaram a sua actividade. Dentro dessa diversidade há que salientar que, regionalmente, existe na Europa uma tradição produtiva selectiva que serve de base à subsistência dos agricultores e que, ao longo de séculos, tem sofrido uma evolução qualitativa impossível de igualar por outras regiões mesmo que possuindo estas as mesmas condições geo-meteorológicas.
O Douro é, sobre este aspecto, uma das regiões europeias com maior carácter e individualidade. E estas qualidades só são realidade graças a uma estrutura produtiva assente na pequena e média empresa, no pequeno e médio agricultor. Alguma tecnologia veio facilitar a execução de certas tarefas e a melhoria de condições sanitárias, mas só isso. A boa qualidade do produto resulta de uma certa forma artesanal de trabalhar a terra. As coisas querem-se com o seu tempo e as suas artes. Por outro lado, numa Europa que é auto-suficiente em matéria alimentar, questões de produção não se deveriam colocar. É ridículo que se venha falar de produtividade quando a Europa produz para dar e vender. A questão coloca-se em termos, sim, de melhoria da qualidade. Contudo, os senhores ministros europeus continuam a debater essa questão da produtividade, como se a Europa corresse risco de morrer à fome. Mas entende-se: tenta-se adaptar ao modelo agrícola as fórmulas modernas de gestão económica, como se uma exploração agrícola fosse uma fábrica de automóveis. E este princípio está a derrotar a agricultura europeia e a transformá-la numa central de produção de matéria híbrida, numa grande fábrica de ração para humanos. Por arrasto, as pequenas empresas agrícolas vão-se desagregando, espezinhadas pela produção massiva e exaustiva, tão característica do modelo americano (e não só).
Os novos tecnocratas da agricultura querem a Europa entregue às grandes empresas, garantindo que só desta maneira haverá hipóteses de sobrevivência de uma população de agricultores. E a questão já não é somente um problema de gestão, mas também social. Afinal, aquilo que os agricultores que se manifestaram perante nós e os nossos convidados europeus queriam dizer era que estava nas mãos dos tais ministros o futuro da própria Europa, da sua identidade, da qualidade de muitos dos seus produtos regionais, da própria saúde pública. E eles (pequenos e médios agricultores) eram também os sustentáculos de qualquer modelo adicional, quer florestal, ambiental, até energético.
Voltando ao Douro, a ideia de arrancar a vinha e substituí-la por plantações de outros produtos, apesar de garantida como sendo uma opção voluntária de cada agricultor, é não só descabida como manifestação de quem não sabe rigorosamente do que se está a tratar. Aliás, é manifesta a ignorância destes altos responsáveis sobre a Agricultura e todos os assuntos laterais que envolve. É incrível mas é verdade.
Mas vamos a questões mais práticas.
Por exemplo: a questão do rendimento dos agricultores.
Sabendo-se que (números gerais), do preço final de um produto agrícola, só 15% (máximo) reverte a favor dos produtores, logo se pode ver que o problema está nas margens de comercialização absurdas do armazenista (ou distribuidor a grosso) e do retalho. Contudo, a velha Europa continua sem encarar este assunto (nem sequer o discute), preferindo ir calando o mundo agrícola com subsídios inexplicáveis e programas de apoio desgarrados e sem nexo. Não sei se é cedência aos grandes interesses das distribuidoras que, como se sabe, à custa da monopolização do mercado alimentar obtêm lucros absolutamente astronómicos – não sei se é, digo eu – mas que parece, parece. Mais do que nunca, a regulamentação do mercado é fundamental para garantir preços razoáveis a quem produz, e a regulamentação está nas mãos dos senhores ministros que nos visitaram.
Por outro lado, há que discutir qual o papel do agricultor no mundo actual. Isto porque a concepção ancestral do lavrador mero plantador de terra, pertence já a outra história. Actualmente, é consensual que o agricultor é um protagonista privilegiado no planeta, alguém a quem se exigem outras tarefas tais como a defesa do ambiente, a manutenção dos equilíbrios ecológicos e, acima de tudo, um produtor a quem se exige cada vez mais qualidade no que produz, mais preocupações sanitárias, melhores produtos isentos de contaminação, etc. E é esta faceta que tem que ser subsidiada, não é a outra. Ou seja, numa Europa super produtiva alimentarmente, é ridículo falar-se em questões de produtividade, e será pernicioso subsidiar sistemas que a promovam. Pelo contrário, tem toda a lógica subsidiar a produção biológica e, também, a comparticipação ambiental do agricultor. Um exemplo: nalguns países da Europa (Holanda, Suiça, Finlândia, etc.) é entregue ao agricultor uma parcela significativa de território (floresta, a maioria das vezes), cabendo a este mantê-la limpa, gerindo-lhe os recursos que, no final, lhe serão integralmente atribuídos. Aqui, reconhece-se este papel fundamental do agricultor. A experiência tem tido resultados que superam as expectativas.
Ou seja, o agricultor já não é o ser passivo que vive na angústia do sol e da chuva, que come o pão que o diabo amassou, quase um marginal no fim da cadeia hierárquica da sociedade. O agricultor será, hoje, talvez, o baluarte mais precioso da defesa do ambiente e da qualidade do que comemos. Por outro lado, a problemática da sua subsistência resolve-se garantindo-lhe uma comparticipação maior na rede comercial (bastava que subisse até aos 40%, como noutras actividades) para que o agricultor já não necessitasse de subsídios nenhuns e pudesse viver desafogadamente. Mas, a haver subsídios, estes teriam de ser aplicados em tarefas adicionais, como as que referi, segundo programas e regras rígidas.
O monólogo já vai longe e, com certeza, espero voltar ao assunto, porque muito ficou ainda por dizer.
Nesta ponta final, ressalvo uma certa tristeza porque, afinal, esta problemática do modelo agrícola europeu, e o papel do agricultor actual na Europa, ficou mais uma vez por discutir. A bem dizer, parece que os senhores ministros que por cá vieram ver este Douro de dar cartas à Europa e ao mundo, padecem de um certo desconhecimento destas matérias. As questões económicas roubaram-lhes todo o tempo, e não deviam.
Uma última palavra para os responsáveis regionais que não souberam aproveitar a ocasião para dar “um murro em cima da mesa” e acordar os sonolentos ministros visitantes. Intervir a sério, era agora meus senhores.
Mas, no fundo, como exigir-lhes mais se os próprios ministros europeus, para além de uma passeata bem condimentada, pouco mais levaram?
(455)
REGIÃO DE TURISMO DO NORTE:
O ACORDAR DA MUSA ADORMECIDA
por Francisco Gouveia, engº
(Porto, Douro, Minho e Trás-os-Montes, brevemente ficarão ligados por uma única Região de Turismo. O projecto saiu da Comissão de Coordenação da Região Norte que, desta forma, aproveita a filosofia que presidiu, há muitos anos, à constituição das CCRNs.
A ideia não é má, como já não o era nos anos oitenta, altura em que nasceu.
Impressionante é a forma como este país desbarata o maior bem que temos: o tempo!)
O plano de reestruturação das regiões de turismo recentemente apresentado pela Comissão de Coordenação Regional do Norte, e que prevê a criação de uma só região de turismo a norte, englobando o Porto, Minho, Douro e Trás-os-Montes, longe de ser original, reflecte afinal a tendência regionalista assente nas Comissões Regionais (5 continentais: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) criadas pelo ex-ministro Valente de Oliveira no tempo dos Governos de Cavaco Silva, e cuja filosofia assentava no principio de que estas Comissões acabariam por, pacificamente, sem convulsões e metodicamente, se impor no país, efectuando no terreno a regionalização constitucionalmente prevista. Através da transferência de muitas competências que recaiam sobre o pulverizado e confuso sistema administrativo português, para essas mesmas Comissões de Coordenação, poderia o país ir lentamente assimilando uma nova forma de concentração regional e, a pouco e pouco, por esvaziamento de funções e tarefas, as inúmeras e por vezes inúteis instituições regionais iriam sendo extintas. Em seu lugar as Comissões de Coordenação acabariam por aglutinar um sem número de competências até se transformarem nos órgãos representativos das 5 regiões continentais. Grosso modo, foi esta a tal filosofia que esteve subjacente à criação das referidas Comissões. E o certo é que, durante algum tempo, o país aceitou sem reservas esta forma de se ir desamarrando do Poder Central, até que a regionalização veio à baila sob a forma de acto político, referendável, num turbulento processo que originou a sua derrota. Interessante constatar foi a forma como, na altura, o Partido Socialista, baralhou os dados, apresentando um seu projecto com a criação de múltiplas regiões, situação divisionista que ocasionou a respectiva contestação política, veemente, à mistura com inúmeras propostas vindas dos mais diversos lados, e que provocou uma cada vez mais divisão entre os portugueses, culminando o processo na derrota da regionalização nas urnas. Ao tempo, havia sectores importantes da opinião pública, bem como várias personalidades de reconhecida competência na matéria que defenderam o modelo do Ministro Valente de Oliveira. Contudo, este modelo, apesar de se rodear do apoio de um sector importante da sociedade portuguesa, veio a ser desbaratado por pequenas questões bairristas, interesses regionais instalados, politiquices caseiras que acabaram por o derrotar. Ou seja, contas feitas, a tal regionalização que a Constituição previa, a tal regionalização que era o éden descentralizador tão esperado, acabou por se finar e, nos anos que se seguiram, o país viveu numa letargia nostálgica, continuando a marcar passo ao sabor dos ventos de Lisboa. Até hoje. E foi o que se viu: sem o tal poder regional intermédio que pudesse impor as aspirações do interior, o interior viu-se delapidado de escolas, maternidades, serviços de saúde, e o mais que se sabe. Hoje, mais do que nunca, o poder centralizador da capital faz-se sentir no dia-a-dia das populações interiorizadas. E perante isto, pouco ou nada há a fazer. Portugal cultivou durante estes anos, um sistema democrático com demasiados vícios, vícios esses que, por força do uso, se foram institucionalizando, de tal maneira que ocasionou a que a máquina do Estado emperrasse por ela própria.
Vem toda esta conversa a propósito do tal programa ou projecto de unificação turística-administrativa das quatro grandes regiões nortenhas. E espanta-me que seja exactamente o mesmo partido que, noutros tempos, o derrotou, que venha agora servir-se dele para impor um modelo. Modelo esse que, ao fim e ao cabo, não é se não a tal regionalização das 5 regiões apoiadas nas Comissões Regionais. Estou certo que não ficarão por aqui e que, no resto do país, o aproveitamento do modelo prosseguirá. Pena é que se tenha perdido tanto tempo. E é pena também que a Comissão de Coordenação Regional do Norte ainda apresente este projecto como sendo um projecto-piloto. Piloto? Então há mais alguma coisa a discutir? Não é que, reconhecidamente, a necessidade de pôr ordem na desbaratada e trapalhona divisão do país nas actuais Regiões de Turismo não reclama uma solução, pelo menos, como esta?
É evidente que o Douro, como unidade característica, há muito que reclama o direito de ser considerada uma Região de Turismo autónoma. Mas esta questão era premente no sistema vigente. Será aceitável que o Douro integre uma região mais ampla, como o Norte, desde que não se esqueçam das suas especificidades, da sua idiossincrasia, que não permite que a baralhem no meio de outras. E é de nos acautelarmos relativamente à promessa de que, neste quadro, o Douro seria prioritário. Sinceramente não acredito que, numa região alargada que integra a cidade e área Metropolitana do Porto, Braga, Guimarães, o Alto Minho, o Douro se possa impor aos interesses dominantes que, de certeza, essas regiões vão tentar fazer prevalecer dentro do novo sistema. Bem como a distribuição do 100 milhões com que os responsáveis dizer querer iniciar o processo.
Que algo tinha que mudar, disso ninguém duvida. Que o novo quadro não é muito do agrado das pretensões do Douro, também é verdade, mas, nisto tudo, a questão que se coloca é a da capacidade de trabalho. Especialmente da capacidade de trabalho e do nível de exigência que o projecto exige. É que, de Comissões de Turismo inúteis e preguiçosas, estamos nós fartos.
gouveiafrancisco@hotmail.com
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UM MENEZES NA ENGRENAGEM
por Francisco Gouveia, engº.
(Filipe Menezes tem três desafios pela frente: combater Sócrates com eficácia, derrotar o tal círculo “sulista e elitista” do seu partido que, apoiado pelos grandes órgãos de comunicação da capital, já começou a fazer-lhe a vida negra, e descolar-se rapidamente dos autarcas a contas com a justiça – e outros barões afins – que esperam atrelar-se a ele para retomarem o contacto com o Poder Central.
Destes três desafios creio que o primeiro será, porventura, o mais fácil)
Foram demasiados os amargos de boca com que alguns notáveis do PSD, lá pela capital, receberam a vitória de Filipe Menezes. No mesmo dia, apareceram em blogues sérias críticas à sua eleição e as declarações públicas de algumas figuras daquele partido espantaram-nos pelo tom quase histérico. Depois, subitamente, e cientes da calinada, calaram-se. Calaram-se mas não desarmaram. Filipe Menezes tem assim pela frente, a tarefa muito difícil de remar contra esta tal (nem sei como lhe hei-de chamar) “equipa”, lobi ou grupo de interesses, que lhe fará a vida negra, assim como já o fez a Santana Lopes. Este, coitado, nem senhor foi de aquecer o lugar, torpedeado a torto e a direito pelo próprio partido. E porquê? Afinal, feitas as contas, não foi nem melhor nem pior do que outros que por lá passaram. Tinha, contudo, o “defeito” de não pertencer ao tal grupo.
Mas o que é este grupo? De onde veio? Como se formou? Quem faz parte dele? O que pretende?
Não é um grupo homogéneo, e não começa nem acaba somente no PSD. Aliás, nestas coisas dos interesses estão lá todos (de todos os partidos, entenda-se), o que torna a tarefa mais difícil para quem o enfrenta.
Recuemos até ao último mandato de Cavaco Silva.
Pois foi precisamente aí que começou a pressentir-se este lobi. O historial da sua formação já vinha de trás, mas teria sido durante o período cavaquista que se organizou, ou melhor, que começou a materializar-se. Pode mesmo dizer-se que foram os seus excessos que ocasionaram a derrocada de Cavaco Silva. Na altura, Cavaco Silva acabou por ser vítima de uma onda de desencanto que assentou precisamente no facto dos seus colegas de Governo (e afins) já começarem a olhar mais pela vida própria do que para as tarefas do Estado. Os tempos seguintes vieram a dar razão ao povo que os tinha apeado do Poder. Mesmo tendo pouco ou nada a ver com os abusos dos seus subordinados, Cavaco, como primeiro-ministro, seria a face da situação e, nos tempos seguintes, coube-lhe uma longa travessia do deserto político até que o tempo repusesse alguma calma no seu caminho. O certo é que, dali para a frente, este grupo de interesses assentou arraiais no Poder. A sua influência estende-se por três pilares: comunicação social, empresas públicas e empresas privadas. Todos os três partilhando interesses mútuos quer a nível político quer de hegemonia, quer de negócios, a pouco e pouco foram consolidando uma estratégia de aproximação entre os seus membros sem que, para tal, fosse necessário organizarem-se em qualquer sociedade secreta ou associação. A junção é natural, fruto de um meio permeável, pequeno e provinciano, como é o meio político da capital. É fácil de perceber: ministros que depois passam a gestores de empresas privadas, gestores de empresas privadas que dão em políticos, militantes partidários que monopolizam (num círculo fechado) os cargos de administração das empresas públicas, infiltrações na comunicação social, ingerência do poder económico (nomeadamente o bancário) na esfera do Poder, enfim, uma máquina infernal que põe e dispõe, que levanta quem lhe agrada e faz cair quem a contesta. E uma máquina infernal que acaba por unir gente de todos os credos partidários. É gente que se apoia mutuamente na sombra, e faz alguma guerra política à luz do dia para dar a entender que estão ideologicamente separados, quando, afinal, a sua ideologia assenta nos ordenados chorudos, nas regalias com que são brindados em lugares de luxo. Sócrates, se quis ascender ao poder, teve que pactuar com o mesmo lobi do seu partido (da mesma forma que outros o fizeram e da mesma forma como esses “outros”, hoje em dia, já fazem também parte desse lobi). Atente-se na forma como preservou certos cargos públicos a militantes do partido e como até ampliou esses cargos. Calou os que lá estavam lá dentro e os que entretanto berravam cá fora. Ou seja: calou-os a todos: quem tinha poder ou quem poderia criar-lhe embaraços dentro do PS.
Mas adiante. Continuemos no PSD, ou melhor, no grupo PSD do lobi (complicado, não é?).
Este círculo (talvez agora tenha encontrado a palavra exacta), sedia-se na capital, está bom de ver, apesar da maioria dos seus supostos “membros” nem ser de lá. É um círculo de interesses na melhor tradição das denúncias de Eça, prova de como, afinal, este Portugal de hoje não é muito diferente do de ontem.
Em abono da verdade, este círculo não queria Marques Mendes, mas teve de o aceitar pelo simples motivo de que não apareceu mais ninguém. E porquê? Porque, neste momento, aqueles que, eventualmente, poderiam ser do agrado do tal lobi, não estão disponíveis. E não estão disponíveis porque desempenham cargos altamente remunerados, carregados de mordomias, e não estão para largar o doce ripanço dos seus altos pelouros para se sujeitarem ao governo de um país, ainda por cima ganhando muitíssimo menos (fora as chatices) do que ganham. Vai daí, nada a fazer: haviam que apoiar Mendes. Contudo, não o fizeram abertamente. Resguardaram-se, encolheram-se, e Filipe Menezes aproveitou. Fez ele senão bem.
Mas que teria Mendes que lhes desagradasse? No fundo, nada. Marques Mendes até poderia ser um bom primeiro-ministro, contudo a falta de carisma era-lhe fatal. E, se por um lado, Mendes seria um bom líder para manter uma certa apatia na vida política (Sócrates, com ele, não teria grande adversário), situação de todo favorável à manutenção deste clima de “equilíbrio” tão necessária para que o tal círculo se mantivesse na mó de cima, por outro seria impeditivo a que certas figuras pudessem aspirar a mais altos voos. Ou seja: o PSD pretendia um líder que litigasse alguma oposição a Sócrates e, ao mesmo tempo, deixa-se o campo aberto para que se pudesse manobrar sem atritos. Mendes poderia satisfazer a segunda permissa, mas estava muito fraco na primeira.
Menezes, por seu lado, era um espalha-brasas, capaz até de se assumir e desfazer-lhes os nós. Os mesmos nós que apertaram Santana até à sufocação. Menezes não lhes convinha. E, com a treta do populismo (não estou a ver onde Menezes seja mais ou menos populista que os outros) foram tentando fazer-lhe a cama. Do resto, já sabem: distraíram-se e Menezes aproveitou.
Daí as cautelas que tem tido, e justificadas: quer na escolha da sua equipa (traidorzinhos à sua volta, não faltam), quer na escolha do líder parlamentar (Santana não é o ideal dada a sua vulnerabilidade), quer na manutenção do cargo de Presidente de Gaia (que lhe trará algum direito de antena quando a comunicação social lisboeta começar a “malhar-lhe”). Menezes tem pela frente a tarefa de derrotar este círculo infernal que, definitivamente, não o quer. Porque sente que ele é um pauzinho na engrenagem controleira que tem montada.
Menezes tem, por seu lado, a vantagem de saber da experiência de Santana e ver como elas cá se fazem. Mas que está tudo preparado para se atirarem a Menezes como se atiraram a Santana, não tenho dúvidas. Mas Menezes tem outra vantagem a seu favor: não é primeiro-ministro, é só secretário-geral do PSD, e por isso estará menos vulnerável às críticas.
Feitas as contas, este lobi de interesses que trespassa a nossa vida política e pública, que arrasta consigo gente de todos os partidos, das duas uma, ou tentará “domar” Menezes, ou, caso não o consiga, tentará derrotá-lo, nem que para isso o PSD tenha que perder as próximas eleições.
Mas Menezes é um nortenho, com fortes ligações ao Norte, e com dificuldades em se afirmar no resto do país. Impor-se ao partido foi importante, mas é pouco. E o país, o país real, o país que lhe poderá dar os votos para que ganhe as próximas legislativas, precisa de o olhar com olhos de confiança. Daí o segundo dos desafios: convencer o país. E anda uma agulha espetada nas declarações de Menezes durante esta campanha: os discursos em que declara a sua intenção de chamar novamente ao partido aqueles foram excluídos, nomeadamente autarcas importantes que, a contas com a justiça, se afastaram da esfera do Poder (pelo menos, aparentemente). Aqui, Menezes terá que ter cuidado: pode ganhar esses autarcas e perder o país. E depois, contas são contas: esses autarcas são excelentes a ganharem eleições para si próprios nas suas autarquias, mas perdem sempre nas legislativas. Fazê-los regressar ao partido, para quê? Esses autarcas são muito populares ao nível dos seus concelhos, mas muito impopulares no contexto nacional. E Menezes, agora, tem o país global nas suas intenções.
Mas Menezes lá sabe.
Falta a sua última tarefa que, por ser referida em último, constitui a prioritária: combater Sócrates. Mas, sinceramente, presumo ser esta a mais fácil que terá. Combater um partido político, uma política, na actual situação, não é difícil. Difícil é combater um outro partido, constituído por pedaços importantes de todos os outros partidos, que não possui ideologia, que não tem filosofia política, mas que tem poder económico, quadros estrategicamente colocados e uma comunicação social afecta.
Termino só com esta observação: Portugal está a subir, anualmente, no ranking dos países mais corruptos do mundo. Porque é e porque não é, deixo esse exercício ao cuidado dos leitores.
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TOPONÍMIA INSUPORTÁVEL
por Francisco Gouveia, Engº
(O caso da Avenida e do Estádio no Marco de Canavezes com o nome de Avelino Ferreira Torres, vem trazer à baila a ligeireza com que se atribuem nomes às nossa avenidas, ruas, praças, etc., etc. Por oportunismo político, pagamento de favores ou mera vaidade pessoal, há gente sem mérito que tem nome em rua, por essas cidades, vilas e aldeias.
Para além da irresponsabilidade de se baptizarem os espaços públicos com nome de quem não o merece, comete-se o erro de, pela falta de consistência do currículo dos nomeados, estes sejam posteriormente apeados a favor de outros, situação que será humilhante e escusada)
Infelizmente não há concelho nenhum neste país que algum dia não tenha caído na tentação de atribuir o nome de um espaço público a um qualquer cidadão que, bem vistas as coisas, pouco ou nada fez que merecesse para que os vindouros o recordassem como patrono de uma rua ou uma praça. O nosso sistema legal de atribuição toponímica, de facto, é quase inexistente, e refere somente a norma de procedimento que faz transitar um mero processo administrativo pela aprovação do executivo camarário. Usualmente, as propostas emanam das Juntas de Freguesia, mas não é obrigatório que assim seja. Sem regulamentação, encontra-se assim o caminho aberto para as maiores diatribes. A atribuição de denominações toponímicas de quem, efectivamente, pouca ou insignificante importância teve na colectividade, é o pão-nosso de cada dia neste canto da Europa cada vez mais bacoco e oportunista. A título de exemplo do mais puro narcisismo egocêntrico, cito o caso de vários presidentes de Câmara que têm o seu nome atribuído a pavilhões municipais, estádios, avenidas, praças, pracinhas e pracetas.
Esta irresponsabilidade traduz-se muitas das vezes em autênticos atentados contra o bom-senso e obrigam também a que os moradores de certos locais tenham que gastar uma pipa de tempo e dinheiro, em actualização das suas moradas. Mas isto não seria grave se as novas denominações fossem merecidas. Grave é que as mesmas provocam amiúde situações de protesto e de divisão.
A nossa tradição toponímica aproximava-se muito da tradição religiosa (em tempo e em ponderação) e assenta em dois princípios que têm muito a ver com a forma cautelosa como um processo deste tipo deve ser conduzido: nunca se atribuir nome de rua a alguém que ainda é vivo, e deve verificar-se pormenorizadamente o currículo do candidato. Foi assim durante muitas décadas, até hoje. Estes dois princípios cedo se esbateram nas mentalidades populistas, incultas e irresponsáveis de muitos dos nossos autarcas. Vai daí, e por dá aquela palha, espetam com uma tabuleta numa rua com o nome de alguém que, bem pensado, até se irá cobrir de ridículo com o acto. Mas há também este hábito de se esquecerem os antigos, quem por cá passou e deixou coisa que se devia ver mas que, por esta ou aquela razão, não tiveram os favores do poder que pudessem guindar a tal tabuleta com o seu nome, nem que fosse numa simples viela. Se repararem, esses novos nomeados, são gente de hoje, temporalmente próxima. A bem dizer, parece até que as autarquias foram acometidas de uma amnésia e só se lembram das figuras de 74 para cá. Assim, desde o benemérito que contribui para a campanha do afilhado, pelo filho-político que põe rua com o nome do pai, passando pelo controleiro que leva e trás as cunhas, até ao citado autarca-narcisista que julga que, pelo facto de fazer uma obra com o dinheiro de todos nós, lhe dá direito a baptizá-la com o seu nome, ele há de tudo. Chegam a fazer-se habilidades destas: empresários da construção civil que urbanizaram terrenos (e com isso ganharam rios de dinheiro) vêm atribuídos às ruas principais dessas urbanizações os seus nomes, em memória pelo grande serviço que prestaram ao desenvolvimento do lugar!
Mas tem mais: o incógnito senhor fulano, só porque tem um filho ou um sobrinho no Poder, lá arranja maneira de que uma placa numa parede de uma rua lhe dê a notoriedade que a sua apagada e triste vida não conseguiu. Ou o senhor sicrano que, exercendo um cargo público irrelevante e para o qual foi devidamente remunerado, quando de saída, e como prémio para o que não fez e devia ter feito, lá recebe uma praceta com o seu nome. Ou um tal rico beltrano que, apesar de mal visto pelos seus porque nunca dos seus bolsos saiu esmola que aliviasse o sofrimento dos conterrâneos, à força de influência e de cheque “prá campanha”, lá consegue que, depois, o eleito lhe pague a filantropia com mais uma tabuleta na próxima rotunda.
Entretanto, gente notável, alheia à roda dos mandantes, vê-se lançada para o esquecimento. Especialmente a gente da cultura (espécie não particularmente grata aos que detêm estes caciqueiros poderzinhos locais) que, geralmente e porque bem formada, não come da gamela do Poder e, sempre que pode e há razão, o critica. Ou aqueles que, simplesmente, não andam por aí aos abraços e às palmadinhas nas costas aos poderosos. A segregação, o isolamento, sempre foram uma forma do Poder eliminar (ou apagar) aqueles que não lhe interessavam. No fundo, julgamos viver numa democracia, mas é um erro pensarmos que o regime tortuoso e cada vez mais desvirtuado em que vivemos, está em evolução qualitativa. Porque não está. O regime está em forte consolidação de uma classe política cada vez mais retrógrada e reaccionária. O nosso regime democrático não evolui no sentido do seu aperfeiçoamento. Pelo contrário, diariamente se observam sintomas de uma decadência preocupante. A liberdade, que deveria ser absorvida em sintonia com um elevado sentido de responsabilidade e de cultura (especialmente de cultura), anda a ser desbaratada, e a liberdade é um bem demasiado caro para ser assim tão maltratado.
O que se está a passar no Marco não é de estranhar. Só se espanta quem não sabe como as coisas funcionam neste país. Pena é que, aqueles que agora tão veementemente se opõem a que a Avenida e o Estádio tenham o nome de tão controversa personagem, não tenham em devido tempo, isto é, quando era arriscado fazê-lo, denunciado e tomado medidas para que tal fosse, pelo menos, publicitado. Não me lembro de tal ter acontecido, e é meu costume andar atento.
Este exemplo quase ridículo de como, por cá, para se atribuir um simples nome a uma rua se movem por vezes interesses tão mesquinhos, é a prova de como o nosso regime não cuida em se aperfeiçoar. E é por estas e por outras que estamos como estamos.
E se é assim nestas coisas tão pequenas, como não há-de ser nas grandes.
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DEMAGOGIA BARATA
QUE NOS SAI CARA
por Francisco Gouveia, eng.º
(O Governo contemplou no Orçamento do próximo ano, uma redução do IRS para quem vive junto da fronteira, bem como reduções no IRC para as empresas instaladas ou que se venham a instalar no interior.
Pergunta-se: mas alguém se convence que pelo simples facto de ir pagar menos 100 ou 200 euritos de impostos, haja quem esteja na disposição de vir para um interior onde não há hospitais, escolas, maternidades, polícia, serviços administrativos, em suma: nada!
Trata-se de uma medida só para constar no papel e sem qualquer tipo de eficácia prática, uma pura demagogia barata só para dizerem: “estão a ver como nós até estamos a criar condições no interior”)
O limite para a demagogia é a vergonha. Para lá dela, a demagogia já deixa de o ser para se transformar num atentado ao pudor, numa violação da inteligência, num crime de lesa-honestidade.
O Governo estabeleceu para o próximo Orçamento de 2008, as seguintes “benesses”: uma redução no IRS para aqueles que moram junto da fronteira com Espanha, para além de reduzir o IRC das empresas já instaladas no interior do país para 15%, e um IRC de 10% para as que se vierem aqui instalar.
Á partida estas medidas até parecem muito convidativas e já mereceram do Governo uma empolada chamada da atenção de que, assim, se iriam criar atractivos para que as pessoas se fixassem no interior, e as reduções do IRC seriam, também, altamente atractivas para os empresários. Mas todos sabemos bem (e o Governo mais do que os outros) como cá pelo interior da terra lusa as gentes são bem intencionadas, crédulas e, acima de tudo, receptivas ao pouco que recebem. Contudo, estas medidas – que vieram na sequência da razia com que outras medidas do Governo esfrangalharam o pouco que cá havia – agora já de nada valem. Valem sim para o Governo que até pode dizer à boca cheia que criaram condições de excepção para que as pessoas regressassem e para que as empresas optassem por se fixar por cá. Isto é: as medidas agora anunciadas não mais são do que conversa da treta, uma boa intenção exarada em papel timbrado mas sem qualquer tipo de eficácia prática. É uma espécie de cumprimento de calendário, uma formalidade.
E vejamos porquê.
Será que passa pela cabeça de alguém que, só pelo facto de ver o seu IRS reduzido anualmente de 100 ou 200 Euros, alguém quer vir para cá viver, sujeitando-se à falta de cuidados de saúde, com os bancos das ambulâncias transformados em maternidades, as urgências que passam mais depressa à porta do cangalheiro do que do Hospital, as escolas que agora são excelentes recintos de dança para idosos, os serviços púbicos que ficam a 2 horas de estrada, a internet que chega aos solavancos (quando a há), e, caso tenha de tratar de um documento, é viagem garantida á sede de distrito (pelo menos)?
Será que pelo facto de só pagarem 10 ou 15 % de IRC, as empresas se sujeitam a vir estabelecer-se onde não há apoio logístico nenhum. Onde se levam horas em estradas de cabras para chegar à cidade mais próxima? Onde não há ligação aérea? Onde não há pessoal especializado em nada nem em coisa nenhuma? Onde uma remessa de correio leva mais 2 dias a chegar (no mínimo), onde os custos com transportes aumentam exponencialmente (e nem é preciso falar no preço do gasóleo)?
Isto é: primeiro, o Governo pôs o interior em pantanas, retirando-lhe os poucos serviços que poderiam garantir um mínimo de qualidade de vida às suas populações, e agora vem amaciá-las com uma pressuposta redução do IRS. É triste. Triste que uma estratégia tão vil venha de um Governo. Triste que haja demagogos que pensem assim e que julgam que as gentes do interior são uma cambada de brutos ignorantes e idiotas analfabetos que comem toda a ração que lhes servem.
O que de facto está a contar na carteira, é o tal IVA maluco que nos faz correr a Espanha (os que vivem na fronteira e os outros), é o preço dos combustíveis, é o preço dos serviços, são os médicos que abundam do lado de lá e faltam do lado de cá, são as oportunidades de emprego que se abrem do outro lado da fronteira, são os benefícios (esses sim, aliciantes) que levam as nossas empresas (junto da fronteira e afastadas delas) a se estabelecerem numa qualquer vila da vizinha Espanha.
Quanto ao resto, este Orçamento 2008 é a prova da nossa falência e da nossa incapacidade. Afinal, a tal redução do défice não é algo de sustentável, algo que assentasse em medidas perenes, mas antes em condicionalismos avulsos e temporais, sacrifícios a que se sujeitam os portugueses sem perspectivas de que, desses sacrifícios, algum dia tenham alguma recompensa. Esta redução só é efectiva se se continuar a carregar os portugueses com uma metralha de impostos e se se continuar a retirar direitos elementares. Basta aliviar um bocadinho a corda que nos sufoca a todos, e lá vai o défice a trepar por ali acima!
Pretendia-se um orçamento de relançamento da economia, de abertura do investimento e, afinal, temos mais um orçamento de aperto, asfixiante, impeditivo da criação de riqueza. A baixa do défice vai, assim, continuar a assentar na tributação desalmada.
Entretanto, lá pelo meio deste Orçamento de merceeiro, aqui e ali, uns rebuçados para que se diga que nem tudo é mau, mesmo que esses rebuçados sejam amargos de boca. Tais como as tão propagandeadas benesses fiscais para o interior.
E por falar em propaganda, aqui fica um apelo.
Olhe, senhor Primeiro-Ministro: preferíamos ter cá as escolas, as maternidades, as urgências, etc., etc., etc., e dispensávamos bem essas reduções de impostos. No fundo, a migalha que poupamos nesses IRS, vamos gastá-lo a dobrar em deslocações aos serviços lá longe e em prejuízos mais graves.
Digo-lhe mais. Como medida pedagógica que contrabalançasse tanta demagogia, eu convidava o Governo a passar um ano a trabalhar no meio do planalto transmontano: ali entre a serra de Bornes, Mogadouro e Vimioso (para não ir mais lá para riba) para ver se V/ Excias aprendiam de vez o que é, de facto, este Portugal real.
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QUANTO MAIS SE BAIXAM
MAIS SE LHES VÊEM OS FUNDILHOS
por Francisco Gouveia, engº
(Não acredito que os órgãos regionais do PS sejam, de facto, o espelho das suas bases. A campanha violenta contra as estruturas da região e do interior, têm sido severamente contestadas por muitos militante deste partido. Contudo, os seus órgãos distritais e concelhios continuam a ser os advogados do diabo das políticas governativas.
Esta gente assentou-se no Poder regional e age com um servilismo ao Governo quase doentio, perante os constantes atentados às parcas estruturas da região.
Estes dirigentes estão à espera de alguma coisa. Algo que escapa aos militantes de base. Porque se sabe que, nestas coisas de recompensas, Sócrates é generoso)
O Governo está a destruir o que resta do interior do país. Não existe uma política autêntica para a reorganização demográfica do território, que o mesmo é dizer-se que a política actual anda a reboque das contingências. E não devia ser assim porque governar é solucionar. Perante os problemas das regiões interiorizadas e em encadeado processo de desertificação, o que se faz é adaptar o sistema administrativo a esse mesmo processo, ao contrário do que era exigível, isto é: tomarem-se medidas para o reverter.
Tenho defendido insistentemente que o desenvolvimento do país passa necessariamente por um maior equilíbrio na distribuição da população pelo território, evitando-se a concentração em alguns pontos do litoral. Podem perguntar-me como é que isso se faz e se eu, daqui deste pedestal de crítico de meia-tijela, tenho a solução milagrosa. E eu respondo-lhes que neste pequeno e globalizado mundo, já pouco há para inventar. Resta então a solução de copiar o que por esse mundo fora se fez com sucesso. Não tem nada que saber. E valha-nos Deus se nem sequer sabem copiar! O nosso Primeiro-Ministro, que se baba todo perante a organização dos países nórdicos e que (segundo ele) os modelos ali praticados deviam ser exemplo para nós, podia ser mais concreto e aplicar por cá (pelo menos) alguns princípios da política desses países. Contudo, tem o mandato a caminhar para a sua fase final e, de progresso, de medidas, das tais cópias, nem vê-las! O nosso Primeiro quer vestir a capa de monge sem o ser.
No meio desta absoluta confusão administrativa que anda enrodilhada na problemática do défice, numa paranóia quase histérica e da qual ainda nada se resolveu de concreto, isto é: o tal défice persiste porque os valores mais baixos agora propagandeados não são sustentáveis e, ao mais pequeno alívio do assalto às carteiras dos contribuintes, trepará novamente por aí acima, no meio desta absoluta confusão – dizia-a eu – o interior é arrasado de uma forma quase criminosa, esquecido das políticas, sem qualquer plano onde se possa vislumbrar uma luzinha mesmo que ténue. O interior definha e o país perde. E perde porque não é possível que um país tão pequeno como o nosso se possa dar ao luxo de prescindir da fatia maior do seu território. Trata-se de um desperdício, de um enorme desperdício, situação que não me espanta num país onde o desperdício constitui um dos seus grandes males. Contudo, a verdade é esta: o interior está a transformar-se numa enorme ilha isolada, espécie de colónia menor de um país que está lá longe, nos confins de uma Lisboa colonialista e déspota.
Esta situação não nos devia deixar apáticos. Devíamos reagir de outro modo. Contudo, todos sabemos que as populações do interior cada vez têm menos força política porque os seus votos não elegem Presidentes nem Primeiros-Ministros. Quem os elege são os grandes centros do litoral. Por cá vota-se sem que o voto que emana daqui tenha algum efeito prático pois a votação de uma vila do interior é absorvido pela freguesia mais pequena de Lisboa, Porto, Almada ou Matosinhos. Esta é a grande verdade e, talvez, a justificação para o descalabro em se traduzem as políticas governamentais para o interior.
Que nos resta, então?
Resta-nos a esperança de que, pelo menos, os nossos responsáveis regionais, que nos representam, lutem para mudar este estado de coisas. Mas mesmo assim até nisto temos azar. Os nossos deputados regionais à Assembleia da República são meras figuras de retórica, não existem como deputados regionais pois transformaram-se em médicos anestesistas das populações da região. Perante as medidas gravosas que o Governo assume perante a região, que fazem estes deputados? Os da oposição calam-se e vão tratando da vidinha, e os da situação passam a vidinha a pôr água na fervura, tentando justificar as medidas impopulares do seu Governo como sendo as mais correctas.
Mas há também os órgãos regionais dos partidos, distritais e concelhios. E aqui é que a situação se torna mais incompreensível. Porque afinal esta gente está cá, é de cá, cruza-se com os seus conterrâneos todos os dias e, contudo, vêem diariamente o definhamento da sua região, sentem o que representa a perda de muitas estruturas fundamentais, e apesar disso insistem em apoiar estas medidas numa subserviência quase esclavagista às decisões do patrão. Sob este particular, não poderia deixar passar as atitudes continuadas e estrábicas, especialmente da distrital do PS que, das duas uma, ou se cala, ou quando fala é para apoiar a destruição da sua terra. É grave. E é grave porque esta gente, no fundo, está a trair as bases do seu próprio partido. Que se entenda: não acredito (porque o verifico diariamente) que esta gente tenha alguma coisa a ver com os seus conterrâneos socialistas. Dominam os órgãos distritais, os concelhios, mas não representam, de facto, o sentir dos militantes e, especialmente, dos simpatizantes. Os militantes não querem isto para a sua região, e presumo que estes dirigentes também não, contudo, a forma como agem é altamente suspeita de que, por detrás de uma conduta anti regional estejam desígnios mais poderosos que passam com certeza pela recompensa que esperam receber nas próximas legislativas (quem sabe com um assento na Assembleia), ou talvez nomeações para as candidaturas às Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia e, mais pelos corredores, alguns cargos que sobrem (ou se criem) por esta região fora onde, infelizmente, tachos inúteis não faltam.
Eu, que sei pouco do interior dos partidos porque nunca passei por nenhum deles nem penso passar, não entendo. E não entendo talvez porque se lá estivesse seria o primeiro a questionar seriamente o Governo sobre a forma como está a tratar a região. Mas isso sou eu que não sou político, mas isso somos nós os cidadãos que, uns por uns outros por outros, simpatizamos com este ou aquele partido e que não entendemos estas razões que levam órgãos partidários regionais responsáveis a assumirem o papel de advogados do diabo.
Sabe-se, porém, que é muito provável que as próximas legislativas dêem novamente a vitória ao PS. E esta onda vitoriosa (da qual não tenho muita certeza) que está a invadir o país, tem as suas consequências, quanto mais não seja no aumento da onda de servis encostados ao Governo na esperança que a fidelidade lhes aporte alguma benesse pessoal, a tal recompensa em que o Primeiro-Ministro é mestre. Porque verdade seja dita: nisto de recompensar quem o serve bem, é Sócrates bem generoso.
É isto a política – dizem – e assim sendo nada há a fazer – insistem. E neste limbo das coisas impossíveis de mudar porque se acham naturais, repousa a irresponsabilidade de um PS regional perfeitamente domado pelo poder de Lisboa e devidamente encantado com cadeirões de ouro e marfim.
Uma tragédia, este PS cá da terra. Ou melhor, uma tristeza estes órgãos regionais do PS.
Porque, insisto, a base do PS regional não é isto.
Mas a característica principal da tirania é o divórcio entre quem manda e quem obedece.
UM POETA NÃO MORRE
SÓ DEIXA DE FAZER VERSOS
E pronto, num ápice termina a vida. A morte é uma soturna e traiçoeira feiticeira que não pede licença a ninguém. Aparece, faz o seu serviço e, da mesma forma subtil como veio, assim se vai. Até à próxima. Sabemo-la assim deseducada e por isso já não nos espanta a sua maneira de agir.
Espantam-nos outras feiticeiras, essas mais terra-a-terra, deste mundo, deste continente, deste país. Essas outras são também tenebrosas. Não matam mas moem.
O falecimento de António Cabral mereceu à imprensa nacional somente uma singela nota de rodapé num telejornal fora de horas. E nada mais. O país real, parco em cultura e generoso em idiotice, ignorou-o da mesma forma com o foi ignorando durante anos e anos. Não é que agora a publicidade lhe fizesse grande diferença, mas merecia muito mais que uma simples chamada que passou em 5 segundos e que, provavelmente, ninguém leu. Mas este procedimento, afinal, foi o mesmo com que os média o brindaram ao longo de mais de 50 anos de uma brilhante carreira na investigação e nas letras. Mas deixemos os tristes e falemos dos gloriosos.
António Cabral era, acima de tudo, um homem profundamente generoso. Que era culto, um investigador atento e inteligente, um escritor brilhante, um poeta inspirado, toda a gente o sabe e não faltará quem, nesta hora, narre a sua indelével passagem por este mundo com outra arte que eu não possuo. Por isso, falo-vos da generosidade de um homem bom. Da forma como acarinhava os que começavam, da maneira como apoiava quem o procurava, das palavras de incentivo para os desanimados. Foi um transmontano de gema, sem vaidades despropositadas, sem vedetismos acessórios. Era um homem simples, sendo esta simplicidade uma espécie de carapaça que encobria a imensidão do seu saber e amplitude do seu talento. Foi também, um dos mais emocionantes oradores que ouvi – e olhem que já levo no meu arquivo uma grossa estante deles.
Foi um homem que, entre todas as suas actividades, cultivou a poesia, assim como que uma espécie de cimento que ligava as outras todas. Poesia bela, natural, precisa, incisiva, sem pretensiosismos nem modernices balofas. E esta forma de ver a poesia e de a cultivar foi, talvez, a maneira que encontrou para apaziguar a sua mente sempre cheia de novidades e ideias.
Diz-se que não há homens insubstituíveis, algo que recuso linearmente. Há quem o seja. O legado cultural que António Cabral deixa, prova que não será tão cedo que aparecerá outro vulto que, nas suas artes, faça façanha igual.
Um enorme vulto cultural, é o que ele é. De Trás-os-Montes para o Mundo.
E já que o país real continua a ignorá-lo, nós, os de cá, amigos, conterrâneos e aqueles que o conheceram e que com ele colaboraram, não havemos de deixar que o mundo o esqueça. Por muitos anos havemos de continuar a lembrá-lo e a sentir a mágoa da sua ausência. Uma ausência muito atenuada pelo que nos deixou escrito. Porque lê-lo é também estar com ele. Por isso a sua obra servirá para remediar o vazio da sua presença física.
No fundo, um poeta nunca morre. Simplesmente deixa de escrever. Deixa de fazer versos.
Á memória de António Cabral
o amigo
Francisco Gouveia
(460)
POLÍTICOS DA SOMBRA
por Francisco Gouveia, eng.º
(São os políticos da sombra, sempre subservientes ao Poder, como quem diz:
“ – paga-me bem que faço tudo o que quiseres, dá-me um cargo dos altos que eu cubro-te os erros, faço de culpado para te aliviar a carga, calo-me quando me mandas calar, falo quando me mandas dizer o que queres que se diga, conspiro a teu favor, sou teu escravo a lamber-te os pés.
A partidarização da nossa cidadania transformou-se num execrável exercício de compadrio, uma porta aberta à corrupção)
Portugal está infestado de barões e tubarões. Saídos das zonas mais sombrias onde a política se negoceia como em leilão, são aquela espécie de gente mesquinha e umbigal, soturna, que olha de soslaio, as faces rígidas como estátuas, as vozes brandas, cavas, e sempre, mas sempre, a vénia subserviente ao Poder, como quem diz: paga-me bem que faço tudo o que quiseres, dá-me um cargo dos altos que eu cubro-te os erros, aturo-te as más disposições, faço de culpado para te aliviar a carga, calo-me quando me mandas calar, falo quando me mandas dizer o que queres que se diga, conspiro a teu favor, sou teu escravo a lamber-te os pés.
Ao longo de três décadas de regime, para além de uma democracia que atira no pé todos os dias e um subdesenvolvimento gritante, as elites políticas deixaram-nos esta praga: a dos gestores públicos, ou também chamados de: políticos da sombra. Esta gente não quer nada com o desenvolvimento, nem com o país, nem com o bem-estar dos portugueses, nem sequer com a boa gestão. Quer, isso sim, tirar partido da sua influência e manobra política para agarrare a nata dos vencimentos patrocinados pelo Estado. E é vê-los, hoje aqui, amanhã ali, numa dança de roda que os mantém sempre ao compasso. Nunca estão desempregados pois, mal são afastados na empresa xis, logo se colocam na empresa ypslon.
Anos a fio chuchando na sumarenta teta, e já julgam que o país é só deles. Mexem nas empresas como suínos na pia, pois tudo lhes pertence. O erário público e as formas de lhe meter as mãos são o campo onde melhor caminham, conhecendo-lhe as ruas principais, as vielas, os atalhos.
A sombra é onde estes políticos se manobram melhor. Assim, não raro é vermos este ou aquele, de quem não tínhamos notícias há anos, a aparecer de surpresa à frente de uma qualquer empresa pública onde (pensávamos nós na nossa ignorante consciência) julgávamos ser necessária mais aptidão e sabedoria. No fundo, esta gente não é especialista em nada, a não ser nessa tal arte de se movimentar por entre as necessidades dos maiorais a troco de salário chorudo e mordomias anafadas. Mas se existem, é porque têm a sua utilidade.
Há neste mundo duas espécies de políticos: os que querem deter o Poder, fazer carreira, chegar ao topo, e os outros, que não querem assumir responsabilidades governativas mas que servem as ambições dos primeiros. São estes últimos uma espécie de degraus por onde hão-de subir os primeiros em segurança. Por isso assumem esta função de escada com a descrição que lhes é exigida. E aguardam, porque uma das suas funções é aguardar, na tal sombra, a altura em que os seus serviços são reclamados. E então é vê-los a assumirem o papel de maus da fita para que o senhor ministro não saia molestado, a assumirem a execução de outras tantas que indignarão os cidadãos. Nesta questão de “assumir”, reconheça-se, são mestres. A vergonha é coisa que não cultivam. Mas também servem para manobrarem dados, torcerem estatísticas, disfarçarem catástrofes, ou, em sentido contrário, embelezarem o podre da decisão, perfumarem o estrume da ordem dada, pintarem de rosa o negro da situação.
Quando muda o Governo, lá andam eles, baratas tontas nos corredores de S. Bento, nas sedes dos partidos, nos bares da boémia política, nos bordéis das amantes dos ganhadores. Cedo conseguirão, por trocas e baldrocas, o tal posto.
Como vêem, já falamos de tudo menos de competência. Nem é preciso. Quem pensa em competência numa altura destas? Quando o chefe precisa de todo o apoio, quem quer saber da boa gestão?
Portugal está infestado destes barões. As nossas empresas públicas estão como estão porque são mal dirigidas. Não são geridas com sapiência porque quem as dirige é pouco sapiente. As nossas empresas públicas transformaram-se hoje numa enorme casa de repouso (de luxo) onde se amontoam centenas de políticos no mais completo lazer. E a nossa tragédia é esta: é impossível que alguém, por mais competente que seja, sonhar sequer que algum dia pode estar à frente ou fazer parte da gestão dessas empresas. Hoje em dia é impossível aceder a qualquer cargo nas administrações dessas empresas sem ter o cartão de militante deste ou daquele partido. A nossa juventude corre assim às sedes dos partidos a inscrever-se, pois os mais avisados sabem que, quanto mais cedo o fizerem, melhor. Afinal, esta coisa da antiguidade ainda não é um bem desprezível como se pensa.
A partidarização da nossa cidadania transformou-se num execrável exercício de compadrio, uma porta aberta à corrupção, à indignidade, à traição à pátria. E também num impressionante sorvedouro do dinheiro que é de todos nós. Porque toda esta gente está escandalosamente bem paga. Ganham não sei quantas vezes o que ganha um Primeiro-ministro ou um Presidente da República, e antes dos cinquenta já estão com reformas de milhares. Trazem carros das empresas, os telemóveis, os cartões de crédito, as casas e sei lá mais o quê! Rapam tudo como uma praga em milheiral maduro. Políticos da sombra, são uma das tragédias de um país que ainda não entendeu como esta gente afoga a pátria. Em Portugal, os partidos existem para se arranjarem empregos, e não acho que a grande maioria dos portugueses pense que servem para mais alguma coisa. Podiam e deviam servir, de facto, para melhorar a nossa qualidade de vida, o nosso progresso, a nossa afirmação como nação. Mas aquilo que têm conseguido, para além das crises económicas sucessivas que nos arrastaram para a cauda de uma Europa onde arrancámos com alguma folga, é somente sacrificarem-nos, sugarem-nos o tutano, enquanto que eles, os tais políticos da sombra, vivem como nababos no conforto dos seus cargos.
Se tudo isto que eu disse fosse mentira, há muito que tinham posto um ponto final nestas mordomias inexplicáveis e os salários teriam uma maior contenção. Mas não. Quem Governa reconhece os excessos, concorda que é necessário pôr um travão nos abusos, assina por baixo o aumento dos níveis de exigência funcional, mas, no final, deixa tudo como está. Um retoque aqui, um remendo ali, para dar uma imagem reformista, mas tudo fica igual.
Afinal, que seria deles se não fossem os políticos da sombra? Espécie de anjos (salvo seja) da guarda, de uma classe política que nos levou à miséria em que vivemos.
(461)
UMA AUTÊNTICO GALINHEIRO
por Francisco Gouveia, eng.º
(A discussão do Orçamento Geral do Estado para 2008 devia ter sido uma sessão de esclarecimento sobre as acusações gravosas que sobre ele pesam e de conhecimento real sobre o que o futuro ano nos reserva.
Mas não foi.
Engalfinhados, Sócrates e Santana portaram-se como dois galos numa capoeira onde não faltou sequer a atitude de galinhas cacarejantes dos restantes deputados.
Das duas umas: ou Menezes não preparou bem a lição, ou então atirou a primeira casca de banana ao seu líder parlamentar. Só ele o sabe.
Uma coisa é certa: Sócrates saiu vitorioso de um debate onde chutou as bolas que quis não faltando quem, ingenuamente, as apanhasse.
No final, esta grande dúvida: não será este Orçamento, nomeadamente a tão propalada baixa do défice para 2,4%, uma grande – mais uma – fraude?)
Devia ser um fórum privilegiado onde os portugueses se pudessem esclarecer. Mas não foi. A Assembleia da República mais uma vez deu uma péssima imagem ao país quando da recente discussão do Orçamento de Estado para 2008.
Sobre este Orçamento havia duas versões interpretativas:
a do Governo – que defendia o carácter progressista do mesmo, com medidas inovadoras no campo da Saúde, incentivos ao crescimento e um sucesso na redução do famigerado défice para 2,4%;
e a da oposição – que garantia que o Orçamento é constrangedor do investimento, que continua a aumentar os impostos e que o tal défice apontado, para além de não ser sustentável, tinha sido resultado de habilidosas técnicas contabilísticas que disfarçaram a realidade de um número que continua muito acima dos 3%.
Ora, era precisamente sobre estes assuntos que os portugueses esperavam ser esclarecidos. Por outro lado, e com a entrada em funções do novo líder do PSD, aguardava-se com uma certa curiosidade a forma como Filipe Menezes (apesar de ausente) iria enfrentar esta primeira prova de fogo. Assim, tornava-se necessário um debate incisivo sobre o conteúdo do Orçamento, que não só denunciasse as tais “habilidades” (caso existam) mas também apontasse outras soluções. Sabia-se que, eventualmente, o debate seria extremamente técnico, mas era assim mesmo que teria que ser. Um texto tão eminentemente científico como deve ser um Orçamento de Estado, não se compadece com amadorismos nem com análises políticas inócuas.
Mas, afinal, o que aconteceu?
A onda de expectativa que nos dias anteriores emoldurou o quadro da discussão, com uma promessa de Menezes em como Santana Lopes iria brilhar, aguçou o interesse público para um folclore acessório, desviando as atenções do essencial. No fundo, Filipe Menezes, que deveria ter preparado esta intervenção do seu grupo parlamentar com muito mais cuidado, delineando uma estratégia de ataque ao Orçamento com argumentos técnicos, por um lado, e, por outro, políticos, que muito claramente demarcassem a sua opção sobre o que deveria ser este Orçamento/2008, acabou por ser o responsável pelo fracasso da intervenção do PSD.
Sócrates, muito certamente ciente de que o seu antagonista Santana Lopes não resistiria à tentação de, na primeira oportunidade, tentar exorcizar os odiosinhos que a sua passagem pelo Governo lhe criou, atirou-lhe a bola, e ele, ingenuamente, apanhou-a. Resultado, grande parte da discussão foi gasta em “piropos” entre ambos, em acusações delambidas e no avivar de memórias que, bem vistas as coisas, seriam de evitar porque são particularmente penosas para os portugueses.
Entretanto, e perante isto, como reagiram os restantes membros do Parlamento? Gozaram a bom gozar com a situação, fartaram-se de rir, atiraram alguns “mimos” para o ar no meio da confusão, e neste bem-bom passaram a tarde: numa pura e completa gozação. Feitas as contas, mais uma vez os senhores deputados deram uma péssima imagem daquela casa. Não é para isto que lhes pagamos!
No fim, há que realçar que Sócrates saiu vitorioso da sessão. Santana perdeu e Menezes apesar de limitado pela ausência física, acabou por não preparar bem a lição e deixar que Santana Lopes se exibisse no seu pior.
Mas o mais importante é que perdemos todos nós. Ficamos sem ver esclarecidas as nossas dúvidas: há ou não uma manipulação deste Orçamento que o arrasta para um défice de menos de 3% quando, segundo alguns especialistas, ele é muito superior? Há ou não, efectivamente, um aumento de impostos? Quais são as medidas no âmbito da Saúde que nos vão beneficiar e quais são as regalias que vamos perder? Como estamos de projecção relativamente às perspectivas futuras de sustentabilidade do sistema de reformas? Que se passa com a tutelação da exploração das auto-estradas por um período que se diz de cem anos? Qual o peso nos nossos impostos da teimosia em não acabar com o regime das SCTUs? Qual o orçamento real para a educação e como se vão financiar as universidades quando o Orçamento do ano transacto as bloqueou pouco depois do meio ano? Há ou não verbas para o aumento dos efectivos nas polícias? Qual o peso que continua a ter nos nossos bolsos a compra dos submarinos? Como se prevê conter as despesas originadas por ajustes directos em empreitadas públicas? Qual o volume efectivo (em milhões de Euros e não em percentagens comparativas) de crescimento das nossas exportações? Qual a poupança no próximo ano com o deslocamento de funcionários públicos para o quadro de excedentes? Será que o valor da poupança é de tal maneira ridícula que não justifica a medida e a crise social e familiar que se criou nas famílias afectadas? E qual o montante previsto para o próximo ano para novas admissões?
Enfim, poderia estar aqui a preencher a totalidade deste jornal com as perguntas que gostaria de ver respondidas e não o foram.
Mas vamos à questão do défice e da tal pergunta crucial que não vimos respondida.
Tenhamos então em conta, os seguintes aspectos:
O nosso IVA está insuportável, cerca de 5% acima da média europeia, e não será possível mantê-lo neste valor por muito mais tempo, pelo que, quer se queira quer não, terá de regressar muito brevemente ao seu valor de 16%, ou menos;
A carga sufocante de impostos que, anualmente é aumentada com uma sofreguidão suicida, atingiu também valores incompatíveis com o que os portugueses podem pagar;
As subidas sucessivas da gasolina têm sido um maná para o Governo que tem visto o imposto que recaiu sobre este (e outros) combustível a aumentar exponencialmente sem mexer uma palha. Lembremo-nos que quando Sócrates formou Governo, o barril de petróleo estava na ordem do 50 dólares e agora está a cerca de 100! Exactamente o dobro.
Façamos então este simples exercício de aritmética que recai sobre os três aspectos que referi:
Recoloquemos o IVA a 16% e retiremos das receitas do Estado os 5% que estão a mais;
Imaginemos os impostos com as taxas ao tempo em que Sócrates entrou para o Governo, e faça-se também a respectiva redução nas receitas do Estado;
Imagine-se o barril de petróleo a 50 dólares, reponha-se o preço da gasolina no valor correspondente, e retire-se das receitas o excesso de imposto motivado pela escalada do aumento deste combustível.
Agora, com estes valores das receitas, calcule-se o valor do défice.
E vamos lá ver se o mesmo desceu ou não abaixo dos 6%.
Creio que o resultado é uma arrepiante e assustadora surpresa. Isto é, acabaremos por concluir que andamos aqui a fazer sacrifícios para nada. Afinal, continuamos na mesma, e o mais pequeno alívio na nossa carga fiscal implicará o regresso do défice a números catastróficas. Afinal, não tem sido a boa gestão que tem permitido esta redução do défice, mas sim três factores: aumento do IVA, aumento de impostos, e o aumento do petróleo. Afinal, esta redução tão gloriosamente propalada, não passa de pura demagogia, de reclame para ignorante aplaudir. Porque também, o Governo não conseguiu reduzir a despesa. E a questão está aí. E mesmo ao nível das receitas, só um louro tem direito: o facto de ter conseguido reaver alguns impostos em atraso.
Continuamos a segurar o défice graças aos impostos extraordinários (que é o que eles são), mas de todo impossíveis de manter no futuro, caso não queiramos cair numa profundíssima crise social e abafar de vez as hipóteses de crescimento económico.
Ou seja: eu acho que o que aqui expus está correcto, mas será que tenho razão? Será que o meu raciocínio é acompanhado pela realidade dos números? Será que os nossos esforços orçamentais estão a ser em vão? Quem responde?
Ora era esta e outras questões que eu gostava que fossem debatidas e esclarecidas naquela Assembleia. Era isto que interessava, e nada mais. Contudo, os senhores deputados deambularam por politiquices sem qualquer interesse, ao jeito da boatice que tresanda pelos corredores do Parlamento, cacarejaram em disputas de comadres, e deixaram que as grandes questões fundamentais do Orçamento funcionassem como motivo para mais umas sessões lavagem de roupa suja. Uma lástima!
Resta como imagem final desta atabalhoada discussão parlamentar do Orçamento para 2008, o espectáculo degradante dos senhores deputados que mais pareciam estar a assistir a uma comédia depois de um repasto bem regado, do que a tratar compenetradamente um assunto que é do máximo interesse para a Nação. E resta também a fotografia da luta rancorosa e pessoal entre dois adversários. Um selecto galinheiro, foi o que foi aquela casa durante aquela sessão onde nada faltou: dois galos engalfinhados, as galinhas cacarejantes a aplaudirem ou a patearem, e também o poleiro (esse não poderia faltar), onde um agora está e onde o outro já esteve.
Nos bastidores ficou Menezes de quem eu, na minha boa fé, continuo a pensar que não preparou bem a lição (falta de tempo, talvez, porque o homem ainda não aqueceu a cadeira). Mas tenho aqui uma vozinha que me pergunta se Menezes estaria zangado com a actuação do seu líder parlamentar, se a rir.
(462)
PENHORADOS E ABANDONADOS!
por Francisco Gouveia, eng.º
(À nossa classe média, heróica responsável pela baixa do défice, deram-lhe como prémio a penhora e o abandono.
É a recompensa que recebe daqueles que não fartam de se vangloriar pela vitória que alcançaram sobre os 6%!
É uma história complicada, a da nossa classe média. Nasceu do nada, do nada fez uma Nação, e agora desfaz-se em nada!)
Os Tribunais abarrotam de processos por incumprimento de compromissos financeiros – a maioria com génese em Bancos e instituições de crédito –, os jornais duplicam e triplicam as páginas com o anúncio de editais de penhoras – todos os dias centenas de contas bancárias são congeladas (só esta semana foram 150 mil!), já para não falar das pequenas e médias dívidas que crescem como cogumelos nas relações comerciais do dia-a-dia. O país está a ser penhorado aos bocadinhos, lentamente, como um jogo sádico onde o sangue vertido vai alimentar de forças os algozes, no dia seguinte. A crise económica instalou-se de pedra e cal com todos os seus guerreiros apetrechados: o desemprego, a fome, a marginalidade, o crime, o “salve-se quem puder”.
Em pouco mais de 30 anos, a heróica pátria que aguentava nos próprios cofres três frentes de guerra mais o que cá se gastava, desfez-se como uma insolvente pobretanas, sem eira nem beira onde ir buscar uma migalha que aconchegue o saco mirrado da barriga. Em três décadas, a resistente classe média portuguesa, que subiu a pulso no meio das dificuldades do Estado Novo, que se instalou apesar do aperto da ditadura, e que soube conquistar por valor próprio o seu lugar na sociedade, desfez-se. Como eram as coisas então: meia dúzia de ricaços de quem se dizia serem monopolistas, uma enorme classe média tradicionalista mas assente em valores sólidos que ela mesmo cultivava, e uma também significativa massa popular de gente pobre, proletária e camponesa, mas que, apesar das dificuldades, dava à perna como podia. Contudo, era essa classe média, a tal que cultivava valores sólidos, que segurava o país. Dela saíam os governantes, os médicos, os engenheiros. Dela saíam os tributos que haviam de sustentar o erário público. Forte era essa classe, aburguesada mas nem tanto, um pouco boçal, dirão outros, e não digo que não haja alguma quota de razão nestes adjectivos, contudo, era uma classe média que se fez graças a si própria e a algumas condições que entretanto se foram criando.
Até ao 25 de Abril, foi essa classe que segurou o Estado. Contudo, algo a manchou: foi dela que sairam os responsáveis pelo descalabro político-económico dos anos que se seguiram. Sem querer fazer aqui um juízo de valor sobre a matéria-prima da nossa classe política, é certo e sabido que a sua origem assentou nessa mesma classe média que, apesar de tudo, tinha muitas dificuldades em trepar na escala social. Ainda hoje se discute com alguma acuidade, se a raiz do 25 de Abril foi, de facto, a revolta contra a ditadura, ou se foi essa vontade da classe média em atingir patamares sociais mais elevados e que lhes estavam vedados.
O certo é que, decorridos que são estes anos, a sociedade portuguesa apresenta-se hoje muito mais desagregada e decadente. Porque a sua classe média, que é em todas as sociedades o fiel da balança, pura e simplesmente está moribunda. Hoje em dia a nossa estrutura social aponta para uma classe super-rica que enriquece todos os dias até à loucura, mais uma amálgama imensa de miseráveis a viverem abaixo do limiar da pobreza e, no meio, uma falsa classe média, ou o que resta dela, que vive ainda com os galões de o ser mas que, na verdade, há anos que sufoca, que vive acima do que pode, que se endivida porque não pode baixar o padrão de vida em que se instalou, que se endivida a cada dia, que não paga o que deve, que deixa relaxar dívidas maiores, que já esgotou todos os mecanismos legais para renegociar os seus débitos, que se atola em impostos, taxas e tributações em avalanche, em suma, que já não sabe o que mais há-de fazer para normalizar as suas contas.
Todo este processo de rápida desagregação do tecido social português, que caminhou ao lado do laxismo fiscal, da incompetência governativa, do desleixo institucional, da corrupção generalizada ao nível do Estado e do privado, ocasionou não só as escandaleiras que todos os dias enchem as páginas dos jornais, mas também os pequenos escândalos deste e daquele bairro. E, hoje em dia, já não são somente as dívidas dos maiores que se plantam nos ecrãs das internetes, são também as dívidas do vizinho do lado, do da frente, do amigo xis, do desconhecido ypslon.
Durante anos fomos deixando que o acto de não se pagar o que se deve, se transformasse numa espécie de cultura quase idolatrada. Durante anos achamos que dever algo a alguém, era uma moda que toda a gente vestia. Durante anos fomos gastando o que não tínhamos, esquecemo-nos da estória da cigarra e da formiga e, quando demos por nós, estávamos empenhados até à raiz dos cabelos. E os credores demonstraram que era uma ilusão pensar que perdoariam as dívidas. Era o perdoam!
O resultado está aí: o descalabro!
Criminosamente, aqueles a quem era devido darem-nos conta da nossa situação e até instituir mecanismos que impedissem endividamentos catastróficos, foram pactuando com quem emprestava. Criou-se uma nova classe de usurários, tecnicamente perfeitos, legalmente resguardados, politicamente protegidos. E enquanto grande parte do país nem tinha o que comer, e enquanto a classe média esbracejava de sufoco, meia dúzia deles, depois uma dúzia deles, mais tarde, algumas dúzias deles, multiplicavam dividendos como grãos de areia, ganhavam milhões de milhões, especulavam, comandavam, ordenavam, diziam como era sem nunca conterem como tinha sido. As fortunas fortuitas e fáceis que se criaram neste país, deslumbraram os mais cépticos. Até as subsidiantes maquias com que Bruxelas pretendia contribuir para o nosso progresso, ficaram em boas mãos: uma por via directa logo na origem, outras por via indirecta das empreitadas, das campanhas agrícolas, dos cursos de formação, e sabe-se lá que mais. Multiplicaram-se os carros topo de gama à mesma velocidade com que se desfaziam nas estradas as velhas carripanas, compraram-se quintas ao mesmo tempo que se desertificava o interior, gozavam-se apartamentos de luxo enquanto ruíam moradias no centro das cidades. Uma onda de novidades caríssimas andava a par com o paupérrimo em ruína progressiva. Nunca um país teve tanto bem de consumo de luxo ao lado de miseráveis e obsoletos objectos.
O resultado anda por aí. Vê-se. O caminhar penoso de uma miséria crescente.
Portugal está uma selva capaz de amedrontar o mais valente dos Tarzans. Uma selva penhorada e abandonada.
Daqui a tempos, já de pouco valerá este bocado de jardim que se quis aqui plantado. Estará então no ponto óptimo para ser adquirido. Se é que já não o está a ser.
Um país em saldo, endividado, que olha para as coisas boas do supermercado e deita as mãos aos bolsos a fazer contas.
Pelas ruas e vielas, deambulam os que já trabalharam e agora sabem que nunca mais o farão, porque a idade conta. Depois dos quarenta, um homem já não tem préstimo!
Lá ao fundo, mesmo muito ao fundo, por entre os outros, como que amedrontada e até envergonhada, espreita a tal classe média a ver se ainda dão por ela. Mas quem olha para uma penhorada!
Tem o abandono por sentença. E a sensação de extermínio. De extinção.
Contudo, os novos heróis dominadores do défice, dirão que foi graças a eles que derrotaram a besta dos 6%. Mas eles estão de saúde, ricos, desempenados. Não estão doentes, miseráveis, paralisados, como está essa tal classe média que foi responsável pela tal derrota dos 6 que agora são 2,4, e que por isso paga as consequências irreversíveis.
A História sempre se fez com os chefes. Nunca uma batalha foi ganha pelos soldados rasos. Foi sempre ganha pelos comandantes e generais.
E comandantes e generais não se penhoram, nem abandonam. Lembram-se, recordam-se, fazem parte das páginas de uma História brilhante de sucesso onde a plebe que foi sugada nem sequer é mencionada.
E nem na penhora, a tal classe média foi arrematada por montante que valesse a pena.
(463)
CARRAÇA FISCAL
por Francisco Gouveia
(A máquina fiscal resolveu, neste fim de ano, atiçar-se em cobrança de ninharias a pequenos devedores, na tentativa de se cobrar de mais uns cêntimos.
Pelo contrário, as dívidas avultadas continuam sem resolução à vista.
Estranha cultura fiscal, a portuguesa, que incomoda quem deve uns tostões e deixa escapar quem finta o fisco em milhões. Começa mal, o novo Director das Contribuições e Impostos.
Cada vez mais se pressente a necessidade de criação de um tribunal especial: um Tribunal Fiscal)
Começa mal o novo Director das Contribuições e Impostos. Ao contrário do seu antecessor, o tal que ganhava cinco mil contos, este novo responsável daquela directoria não traz nenhum programa definido a não ser dar cumprimento, sem qualquer espírito crítico, às ordens em solavancos do seu chefe, o Ministro das Finanças. E digo aos solavancos porque o Dr. Teixeira dos Santos é para onde está virado, isto é, para tapar um buraco do orçamento é capaz de ir buscar dinheiro a qualquer lado. Desta vez, e em fim de ano, época de Natal, resolveu executar dívidas que estavam pendentes. Mais quais dívidas? As grandes dívidas? As dívidas de milhões? Aquelas que pertencem a gente que tem dinheiro para as pagar e muito mais?
Não senhor! As dívidas que está a cobrar são ninharias, uns euritos aqui e outros acolá, provenientes de atrasos em IMIs, IRSs, etc, na sua grande maioria oriundas de gente com problemas financeiros. São famílias que estão com a corda na garganta pela subida das taxas de juro do crédito à habitação, desempregados, alguns devedores já com penhoras a decorrer, outras já sem esperança de poderem equilibrar o barco orçamental do dia-a-dia. O que o senhor Director Geral está a fazer é apertar ainda mais o cerco a quem já está cercado há muito. Tudo junto, o montante da cobrança dessas dívidas não chegará para nada, a não ser fazer descer umas milésimas no tal défice.
Eu não estou a defender que essas dívidas não devam ser cobradas. O que estou a dizer é que há devedores ao fisco cujo montante, se fosse cobrado, era superior ao que devem os actualmente executados, todos juntos!
Exigia-se ao novo Director que tivesse ideias como acabar com as grandes dívidas, como acelerar os processos de execução, como criar mecanismos legislativos que permitissem uma rápida resolução dos contenciosos que esses devedores, matreiramente e porque possuem meios para isso, mantêm nos Tribunais. O que se pretendia do novo Director era que entendesse a situação real de muitas famílias (que não têm que comer quanto mais pagar ao fisco) que se encontram em situações muitas das vezes desesperadas e sem hipóteses de levantarem a cabeça porque a espada fiscal está sempre sobre as elas.
Eu sei, porque sempre assim foi, que é muito mais fácil executar quem não pode “fugir” aos impostos. Quem tenta estar dentro da legalidade, quem é honesto, tem garantido a perseguição das Finanças.
Por exemplo:
A ASAE tem feito (e bem) apreensões, em feiras e mercados, de material contrafactado, e tem levantado os respectivos autos. Mas eu pergunto: já verificaram se a documentação desses vendedores está em ordem? Se o material que vendem, tem recibo? Se esses recibos são legais? Se o vendedor tem as suas obrigações fiscais em dia?
Em suma: juntamente com a ASAE vai alguém da Direcção de Contribuições e Impostos?
Por outro lado, o comerciante que tem porta aberta, é constantemente incomodado por fiscalizações das Finanças que lhes vasculham a contabilidade toda, revolvem material, e sempre, mas sempre, onde encontrar um pintelho onde tramar o desgraçado do comerciante que não pode fugir para lado nenhum e está sempre ali, no seu estabelecimento, sujeito a estas rusgas sem cabimento.
Em Portugal, existe ainda uma cultura fiscal voltada para o “mostrar serviço”, em quantidade e não em qualidade. Isto acarreta como consequência que as pequenas dívidas andem sempre em bolandas, porque os seus devedores também são gente frágil. Entretanto, e perante dívidas de milhões, o fisco encolhe-se, como que se paralisa, não sei se de medo se por estar infectado dessa tal cultura de que falei. E mesmo o anterior Director, o tal dos cindo mil contos, apesar da áurea de extrema competência (competência que não discuto mas que considero que não foi tanta nem tão eficaz como se pensa), largou o lugar sem ter resolvido este problema. Afinal, e se se analisar com pormenor a sua actuação, acabaremos por constatar que o seu êxito se deveu à cobrança de dívidas fáceis de cobrar, pequenas dívidas que atolavam as Repartições e que corriam o risco de ficar esquecidas pela sua quantidade e impossibilidade prática de as executar. Criaram-se mecanismos de cobrança mais eficaz, concordo, apertaram-se os relapsos que, por malandrice, já se tinham habituado a ficaram a dever ao Estado – também concordo, modernizou-se a tecnologia das Repartições – igualmente certo, mas no fundo no fundo, o Estado continuou e continua sem ter resposta pronta e mecanismos legais que evitem as escandalosas prescrições, o arrastamento de processos nos Tribunais, as contabilidades tecnicamente correctas mas legalmente falaciosas das grandes empresas, etc, etc.
Ainda muito recentemente, o Secretário de Estado concordou que, em Portugal, existe uma ideia de que as grandes empresas não fogem ao fisco, isto é, que têm uma organização contabilística que não permite qualquer desvio, e esta ideia que também faz parte da tal cultura de que falei, está actualmente a ser posta em causa. A confirmarem-se as apreensões que o senhor Secretário de Estado manifestou, então, uma dívida fiscal de uma dessa grandes empresas pode representar, se cobrada, um acréscimo substancial nas receitas fiscais.
E aqui está, também, uma demonstração de como a nossa máquina fiscal emperra quando se lhe exigia que rolasse a grande velocidade. Quantas fiscalizações, com gente capaz, em quantidade e com minúcia, têm sido feitas às grandes empresas? Eu digo:
o senhor Américo, comerciante de retalho do meu bairro, e que faz um movimento de 1 ou 2 mil euros por mês (num mês bom), tem sido mais visitado pelas Finanças do que o Grupo Financeiro Xis, que movimenta milhões de milhões. E mesmo quando o fisco se atreve a “incomodar” essas empresas, as fiscalizações resumem-se a mera rotina, ou seja, como eu já disse: para mostrar serviço. Aliás, é muito difícil que, nessas vistorias, as Finanças se façam representar por técnicos com arcaboiço para a envergadura da tarefa.
Continuamos assim a ser óptimos a incomodar quem cumpre com os seus tostões, e extremamente despicientes para com os que fintam o fisco em milhões.
Se queremos realmente resolver este problema da fuga ao fisco, cada vez se torna premente a criação de um tribunal especial, isto é: de um Tribunal Fiscal onde, rapidamente, com juízes especializados, pessoal habilitado e procedimentos específicos, se resolvam estas questões da fuga e fraude fiscal, bem como se atenda a quem reclama razão. O Estado arrecadaria milhões e, acima de tudo, disciplinaria uma actividade fulcral para o nosso equilíbrio financeiro. Hoje em dia, o cumprimento fiscal é a pedra de toque dos países verdadeiramente desenvolvidos, e se formos analisar as razões pelas quais, em certos países, é quase impossível não pagar atempadamente os impostos, e todos cumprem, verificaremos que tal se deve à rapidez e dureza com que o Estado age em casos de incumprimento. Qual prescrições, quais quê? Quais malabarismos financeiros?
Custa a todos, aqui, na Suécia ou na Conchichina, pagar impostos, e não se julgue que nos países onde há o bom hábito de cumprir com as obrigações fiscais, os cidadãos o fazem alegremente sem torcerem o nariz. Na hora de pagar, toda a gente bufa. Só que, por lá, sabem que, não pagando, lhes cai de imediato a espada da Justiça, sem apelo nem agravo. Por ser assim, habituaram-se a cumprir há décadas e, de geração em geração, vai passando esta mensagem de que é um dever que têm, inexoravelmente, de cumprir. A penalização é demasiado gravosa.
Então por cá, de que estamos à espera? De andar com penhoras despropositadas e execuções ridículas? De deixar, nas barbas da Justiça, prescrever dívidas de milhões de milhões?
Querem receitas? Saibam como, legal e moralmente, as angariar.
Ao menos, saibam copiar por quem sabe mais do que nós.
(464)
Uma Santa Aliança contra a Casa do Douro:
UMA COMISSÃO LIQUIDATÁRIA,
E OS HABITUAIS VASSALOS DO PODER
por Francisco Gouveia, engº
(No Douro, o Ministério da Agricultura comporta-se como uma Comissão Liquidatária da Casa do Douro e do modelo inter-profissional que não convém ao novo “capital vinícola” que olha para a região como para um Banco.
Entretanto, cientes da recompensa que virá por alturas de eleições, os habituais “vassalos do Poder” continuam a imacular as políticas governativas para com a região.
A Santa Aliança está em marcha)
Reconheçamos que dificilmente se conseguia unir semelhante aliança para um objectivo único: acabar de vez com a Casa do Douro. E a altura não seria mais oportuna para desanimar as hostes: o aniversário dos 75 anos, numa ironia quase maquiavélica dos seus protagonistas.
O Estado caiu em peso sobre ela, alegando dívidas para com três Institutos Públicos: IVV, IFAD e IVDP. E daqui não sai. E bem pode a Direcção da CD gritar que essas dívidas não existem, que de nada adiantará: o Ministério da Agricultura quer fechar o cerco de vez à CD, e está surdo perante a realidade dos factos. Ou melhor, surdo não está, faz é de conta que não ouve. Porque não lhe convém ouvir:
Primeiro: como pode a CD pagar o que deve (ou o que o Ministério diz dever) se não tem meios legais para angariar receitas porque esses meios lhe foram retirados pelo Estado?
Segundo: como pode a CD pagar as suas dívidas, se tem um património actual de 40 mil pipas nos seus armazéns e não as pode vender?
Faço, portanto, daqui, um desafio ao senhor ministro e também aos seus correligionários locais para que apresentem uma solução que permita, neste quadro, garantir receitas à CD para que possa responder aos seus compromissos. Façam-nos o favor de tirar lá da cartola a tal magia que dizem existir para solucionar o problema.
Mas vamos a factos e às declarações.
Diz o senhor deputado do PS, Dr. Jorge Almeida, defensor-mor das políticas arrasadoras do Governo para com a região e para o qual as decisões do Governo são imaculadas, que “não é possível continuar com um tipo de gestão como o actual”. E remata dizendo que os dirigentes da CD são incapazes de dotar a instituição dos serviços que uma agricultura moderna, virada para a competitividade, precisa de ter.
Ora faça-nos o favor de explicar, Dr. Jorge Almeida, o que é a agricultura moderna no Douro. E o que é a competitividade no Douro. E o que é que essa tal “agricultura moderna” precisa de ter cá pelo Douro, para ser rentável. Digo-lhe uma coisa, senhor doutor Jorge Almeida, se o senhor souber do que consta essa tal de agricultura, acredite que descobriu a pólvora.
Agricultura moderna? Que será? Tractores a mondarem nos socalcos? Regas por aspersão de helicópetro? Adubos ultra-químicos? Produção super abundante de jeropiga rotulada de Porto? É isto que é agricultura moderna no Douro?
Um pouco depois, acrescenta: Não há nenhum drama na actual ameaça de execução fiscal”.
Não há nenhum drama na ameaça? Não há drama? Ameaça? Então os senhores vão penhorar uma instituição que é o suporte de sobrevivência legal e financeira de mais de 30 mil pequenos lavradores, e não há nenhum drama nisso? E diz: ameaça? Então o Ministro mandou executar ou ameaçou mandar executar?
E diga-nos lá outra coisa: então o senhor ministro não é capaz de justificar ao Douro, pessoalmente, a atitude que tomou? É preciso mandar recados pelo senhor deputado? E o senhor acha razoável servir para tal papel? Ainda por cima o senhor, que pertence à Comissão de Saúde e não pertence à Comissão Parlamentar de Agricultura?
Na parte que me toca, não acho correcto atacar a Direcção da CD, principalmente nas actuais circunstâncias. E pela simples razão de que não tenho soluções milagrosas para o problema. Porque se o tivesse, seria o primeiro a declará-las. Vai daí, tenho aceitado como lógica e suficiente as justificações da Direcção para o colete-de-forças em que está envolvida. Isto é: há dívidas que a Direcção não reconhece, e justifica porquê, mas reconhece a existência de outras, e diz quais. Mas também diz não possuir mecanismos legais que lhe permitam angariar receitas, e constato ser verdade, ao mesmo tempo que acusa o Ministério de premeditação na acções que tem tomado para com a CD, apertando-lhe, lenta e solidamente, o cerco que a levará à extinção – e isto também eu observo quotidianamente. Ou seja: por muito que se duvide da competência da actual Direcção da CD, por muito que se diga que não tem uma gestão moderna (se é que alguém sabe o que é isso na agricultura duriense), por muito que se lhe questione as decisões, há uma coisa que é verdade: as razões que a Direcção da CD aponta são reais, constatáveis, e ainda não apareceu ninguém que apresentasse uma gestão alternativa que, de um momento para o outro, conseguisse angariar meios para que as dívidas fossem pagas. É que não se pode dizer: paga mas não consinto que arranjes maneira de ganhar dinheiro para me pagar!
Torna-se cada dia mais evidente que existe um plano premeditado de liberalizar a produção, fazendo assim a vontade às grandes Companhias e ao sector comercial sedeado em Gaia. E este plano passa, na sua fase inicial, por desmantelar a instituição que representa e defende os pequenos e médios agricultores: a sua Casa do Douro. Depois da sua queda, tudo será muito mais fácil. O interprofissionalismo, que quer dizer acima de tudo: consertação, entendimento, não poder o mais forte abafar o mais fraco, obrigação de haver regras, dever de as cumprir, o interprtofissionalismo – dizia eu, não convém a muita gente que o cerca em favor da liberalização desenfreada.
Este petisco apetecido pela onda de monopolização que tem invadido o país, e que já traz ao Douro capital que nada tem a ver com ele e, em abono da verdade, apenas pretende angariar lucros desmesurados a curto prazo, tudo está a fazer para o papar. Estamos na presença, não só, de um processo de liberalização integral do sector, como também de monopolização. E, numa altura em que o Douro “renasce” graças ao trabalho inteligente e dedicado de uma classe emergente: a dos produtores-engarrafadores, os mesmos que representam uma ameaça aos interesses concentracionistas do alto capital vinícola, esta acção de execução vem mesmo a calhar, não só porque os desmoraliza, como também os obriga a repensar uma estratégia que estava correcta, para uma outra de mera sobrevivência perante o cenário que se desenha no Douro.
Há, também, uma enorme covardia num Ministério que, das duas uma, ou dialoga com a CD e assume que há necessidade de se encontrar uma solução, ou então declara a sua ruptura com a CD, diz porquê, justifica, e, acima de tudo, dá uma resposta aos 30 e tal mil agricultores. E o problema está aí: o Ministério quer acabar com a CD mas não quer assumir a responsabilidade de o fazer. Daí fazê-la ferver em lume brando, até que se evapore de vez.
Noutras circunstâncias, talvez noutro país, era assunto para demissão de ministro e para que certos advogados do diabo que este Douro tem em demasia, fossem de vez confrontados com a região que dizem representar e que, afinal, só tem servido para escadote da sua ascensão política.
A Casa do Douro está entregue nas mãos de um Ministério da Agricultura que, aqui como noutros casos, tem sido uma autêntica Comissão Liquidatária da nossa Agricultura e Pescas. Comissão Liquidatária bem apoiada pelos “vassalos do Poder” cá da terra, cujo discurso, por insistente na defesa do indefensável e por vazio de alternativas porque as não têm, tresanda. Haja paciência!
Porque sim e porque não, havemos de ver. O prémio da vassalagem, não tarda.
O futuro não mentirá.
(465)
ASSIM, TAMBÉM EU, Dr. COSTA!
por Francisco Gouveia, engº
(Depois do escândalo que constituiu o empréstimo de 80 milhões de contos da Caixa Geral de Depósitos à Câmara de Lisboa, aconselho também as Câmaras da região, que têm para aí uma dívidas mixurucas de uns tostões, a irem reclamar o mesmo direito junto do Banco do Governo.
E já agora, uma pergunta: se por uma dívida discutível de 3 milhões, O Ministério da Agricultura quer penhorar a Casa do Douro, porque é que, por uma dívida indiscutível de 100 milhões, o Ministério da Administração Interna não penhora a Câmara de Lisboa?
Esta gente do PS parece ter aprendido pela cartilha de Sócrates: antes das campanhas, não sabem de nada, nem de défices, nem de dívidas, e apresentam-se aos eleitores com promessas e mais promessas, mas depois de ganharem as eleições, aqui d’el rei que a situação está muito má e vá de virar o programa eleitoral do avesso!
Governar contraindo dívidas novas para pagar as velhas, também eu era capaz.
Eu e todos os portugueses)
Sejamos claros: a Câmara Municipal de Lisboa não vai contrair um empréstimo de 80 milhões de contos à Caixa Geral de Depósitos. Vai sim arranjar maneira de que a sua dívida colossal seja paga por todos nós. E os 80 milhões de contos nem chegam para a cova do dente das dívidas monstruosas que aquela câmara tem. Serve somente para pagamentos a pequenas empresas (dizem eles). De facto, o que se está a passar (e o que se passou na Câmara de Lisboa ao longo destes anos) é um caso de polícia, diria mesmo: de todas as polícias. Mas há muitas questões que ficam no ar, como precedentes graves e situações escandalosas que se estão a tentar branquear.
Mas vamos por partes.
O que precisávamos de saber era quando começou a nascer esta dívida, como cresceu, quem foram os responsáveis. Atenda-se a que não estamos falar de 4 ou 40 mil contos! Estamos a falar de uma dívida imediata de 100 milhões de contos, e de outras cujo montante (talvez por mais escabroso) ainda não foi divulgado. Quem foram, afinal, os responsáveis pelo acumular de tanto “calote”? E depois de o sabermos (o que não é nada difícil), porque não accionar os mecanismos para o efeito previstos na Lei? De que é que se está à espera para os meter no Tribunal?
A questão do empréstimo ser patrocinado pela Caixa Geral de Depósitos, trás à baila outra questão. Todos sabemos que a CGD é o Banco do Estado. Eu diria mesmo: o Banco do Governo (deste e dos outros). Sendo assim, eu pergunto: se amanhã, outra qualquer autarquia lá for pedir um ou dois milhões, para equilibrar as suas contas, que moral, que ética, que razões pode alegar a CGD para dizer que não? E se forem as 300 e tal Câmaras do país lá reclamar tratamento igual, como vai ser? Será que se pensou nisto? Nas consequências? Nos precedentes? Ou será que todo este empréstimo já estava há muito urdido pelo Governo e que o avanço António Costa à Câmara se baseou na garantia de que iria usufruir de semelhante montante?
Porque, se for assim (e já ninguém me convence do contrário), estamos na presença de uma forma de ganhar eleições já experimentada pelo nosso primeiro-ministro, em que Costa, alegando desconhecer o montante da dívida (do défice, no caso de Sócrates), se apresenta às eleições com um programa que, depois, muda radicalmente com a desculpa que tem muitas contas para pagar.
Outra questão tem a ver com esta forma caricata de gestão, isto é: contrair dívidas para pagar dívidas. Inexplicável e irresponsável, mas parece que esta é a única forma que alguns senhores políticos arranjaram para governar. Eu pergunto: a Câmara não tem receitas? Porque não paga as dívidas com os montantes com que pretendia fazer investimentos? Ou será que a Câmara de Lisboa quer pagar as dívidas à custa da CGD e continuar a investir? Então o que é que o Governo prega? Não é o aumento das receitas e o corte nas despesas? Porque terá de ser diferente na Câmara de Lisboa? Porque será que, em Lisboa, só se sabe gerir com dívidas em cima de dívidas?
A questão é outra. Lisboa sabe da força que tem a nível eleitoral. Lisboa sabe que é a primeira e a maior Câmara do país. Lisboa sabe que, mesmo sujeita às maiores diatribes, nunca o Governo a pode deixar ir à falência. Lisboa está consciente destes factos, aproveita-os, abusa deles, gasta à tripa forra, como se fosse um Estado dentro do Estado (que o é). Lisboa terá sempre um tratamento de excepção, de impunidade, e sabe jogar com isso. Á sua sombra, acoitam-se centenas de cargos principescamente pagos, assessorias remuneradas a peso de ouro, um exército de funcionários que, se apresentassem ao serviço todos os dias e ao mesmo tempo, nem espaço tinham na Câmara para estarem de pé, quanto mais sentados. Lisboa tem um arraial de empresas municipais, com os seus inúmeros administradores, gestores, assessores, directores, chefes de divisão, secretárias, ajudantes de secretárias, etc., etc., etc. Lisboa é um mundo gastador onde o dinheiro se evapora. Lisboa é um fartar vilanagem que nos faz raiva. E faz-nos raiva porque, cá pelo interior, vemos o Governo fechar-nos maternidades, escolas, centros de saúde, tribunais, postos de polícia, retirar-nos serviços básicos, e tudo pela ninharia de uns tostões enquanto que, na capital, se esbanjam os cofres do país! É assim que nascem as divisões, que o país se parte, que se criam anticorpos contra tudo o que vem “lá de baixo”. É assim que se cria um sentimento de injustiça generalizado.
Perguntamos: então nunca mais se constrói o Hospital de Lamego, encerra-se o da Régua, anda-se há anos a mastigar a A4 até Bragança, penhora-se a Casa do Douro por dez réis, e, lá em Lisboa, basta um autarca vir ameaçar demitir-se e logo lhe caem nos cofres 80 milhões de contos?
Assim, até eu, Dr. Costa. Governar assim, até o jornaleiro que me enxerta as vinhas. Essa sabedoria de governar com o dinheiro dos outros, até eu. E qualquer um. E foi essa solução que o senhor apresentou aos lisboetas quando concorreu às eleições? E não me venha dizer que não sabia de nada! Que não sabia dos montantes das dívidas! Sabia, sim senhor, como, aliás, o sabiam todos os senhores deputados e vereadores de Lisboa. Mas toda a gente se calou. Esta negociata com a Caixa Geral de Depósitos, há muito que estava cozinhada. É para isso que ela tem servido.
Mas o que mais nos custa, é sabermos que, no final, quem vai pagar as dívidas da Câmara de Lisboa, vamos ser todos nós, com os nossos impostos, com os cortes em investimentos na nossa terra, com o negar do que nos é essencial.
O que se está a passar em Lisboa, já não é uma vergonha nem um escândalo. É um autêntico atentado à Pátria. Aos seus valores. À sua obrigação de tratar por igual todos os que nela vivem.
É por isso que nós, que por cá sentimos na pele o que é a sovinice deste Governo, nos enchemos de raiva por ver que, na capital, se desbarata em romarias o que nos negam p’rá boca!
(466)
UM BALANÇO BALANCEADO
por Francisco Gouveia, engº
(Façamos então, um balanço deste ano de 2007 no Douro.
Um balanço bem balanceado, porque o vento por cá, soprou forte e feio.
Não foi um ano bom para o Douro, mas também não havia necessidade de lhe baterem tanto!
2007 foi o ano de um Douro fustigado.
Fustigado pelos que lhe querem mal, e pelos que dizem querer-lhe bem – se algum bem daí os compensar)
Começo por falar nas Comemorações dos 250 anos da Região Demarcada do Douro, evento que o vento levou, sem deixar marca nem matriz, e que serviu, mais uma vez, para a meia dúzia do costume se pavonear em inconsequências. Ninguém deu por nada, nem a região nem o país, o dinheiro gastou-se e o Douro nem chegou a saber que fazia 250 anos.
Um pouco no mesmo jeito, Torga viu-se agraciado com um manancial de comemorações dos seus 100 anos de nascimento. Se fosse vivo, recatado e humilde como era, exasperar-se-ia com tanta vénia. Assim, o homem a que, em vida, poucos deram atenção, depois de falecido deu mote e tema aos mais rasgados elogios. De salientar que, alguns dos que, nestas homenagens, se puseram em bicos de pés para aplaudir, conheceram Torga e nunca lhe ligaram nenhum.
Do Governo, veio a primeira pedrada na imprensa regional, com o corte do porte pago. Estava-se em poupança – disseram, e depois viu-se como pouparam! Mesmo assim, ainda não foi desta que a calaram.
Depois veio uma boa notícia: as obras do Museu do Côa tinham-se iniciado, e previa-se estarem concluídas em 2008. Ficamos, ansiosamente, à espera do próximo ano. Ver para crer.
Logo a seguir, algo que fez tremer a Régua: os deputados regionais do PS tinham visitado o Hospital D. Luís! Mau agouro, como se viria a verificar depois com o encerramento das urgências. Contudo, a pacata população reguense, de quem muitos julgam ser demasiado branda e acomodatícia, transcendeu-se, e saiu à rua em protesto, numa manifestação que julgávamos impossível. Afinal, ainda ferve sangue nos durienses. Foi bonito de ver, mas de nada valeu.
Entretanto, começavam a pairar nuvens negras sobre a Casa do Douro: o ex-Governador Civil, Artur Vaz, em Vila Real, tece críticas pouco educadas à Direcção da CD, e o deputado Ricardo Martins vem à baila, despropositadamente, com pretensas dívidas da CD ao IVV e IVPD. Começava a desenhar-se o mapa do cerco àquela instituição, que vem a culminar neste fim de ano, com a ordem de execução das dívidas da CD e a passagem ao quadro de mobilidade dos seus funcionários. O Ministro da Agricultura está mesmo entusiasmado com o facto de ir dar cabo de mais uma instituição que tanta falta faz ao Douro. O invasor bárbaro, Átila, que por onde passava só deixava terra queimada, teria muito que aprender com este Ministro.
Mas, no horizonte, uma luzinha de esperança dá-nos a impressão de que os senhores autarcas durienses começam a entender o chão que pisam e o mundo que os rodeia. Juntam-se num Plano geral com vigência até 2013, de forma a concorrerem com mais argumentos ao próximo Quadro Comunitário de Apoio. É uma luzinha, mas já é alguma coisa!
Em bolandas, o Museu do Douro vê o seu “mentor”, o Dr. Gaspar Martins Pereira, demitir-se. Questões de falta de condições, segundo alega, mas, no fundo, discutia-se era o Poder naquela casa. Mesmo a propósito, numa altura em que voltava à baila a velha questão da gestão do orçamento do MD. O certo é que o Dr. Gaspar foi substituído, segundo consta foi tomar conta de outro projecto lá pela FLUP (este também, subsidiado pelo Estado), e a senhora ministra, apesar das nossas preces, guardou a sete chaves as contas do Museu e não há divulgação para ninguém. Termina assim, com sérias dúvidas, esta primeira fase do Museu.
E há uma novidade que nasce na região: as ambulâncias, de chapa e rodas, são agora as maternidades da região. Nascem lá mais crianças que nos hospitais. Afinal, o encerramento das maternidades no interior, justificava-se, eu diria mais: foi premonitório e revolucionário. Já viram a adrenalina que dá, nascer numa ambulância, em andamento, a cem à hora!
E, com pompa e circunstância, nasce mais uma Unidade de Missão. Quanto mais para o Douro, que era região que nunca teve Unidades de Missão! Uma novidade, portanto. Veio com a missão de organizar a vida económica e desencantar investimentos. Não sei se o está a conseguir, pois ainda não vi nada, mas lá que tem feito colóquios, conferências e palestras a dar com um pau, lá isso tem! Pelo menos, de estarem calados, ninguém os pode acusar.
Ou melhor, até pode. Porque, quando aqueles senhores do INAG (Instituto Nacional da Água) vieram a terreiro fixar uma cota de 68 metros abaixo da qual nada se poderia construir no Douro, e sabendo-se que os principais investimentos hoteleiros previstos para o Douro colidem com esta imposição, foi o bom e o bonito. E, de repente, tudo se calou. Como vai ser? Como será? O certo é que, até agora, a Unidade de Missão ainda não disse nada sobre o assunto. E devia. Ou então, andam a falar de tudo menos do que interessa. Mas a isso também já nós nos habituamos. Adiante.
O ridículo também por cá pairou. E foi por causa de uma fábrica de ácido tartárico, que custou umas centenas de milhares de Euros, e que nem uma gota do tal ácido produziu. O autor da anedota foi a Subvidouro, pois quem havia de ser? Depois vieram dizer que a culpa era dos chineses, que produzem o tal ácido muito mais barato. Convenhamos: a Subvidouro gasta dinheiro que se farta e sem préstimo, mas faz-nos rir como perdidos, lá isso faz!
Como nos faz rir aquela do Projecto de Erradicação das Dissonâncias Ambientais no Alto Douro Vinhateiro, que o mesmo é dizer-se, em português que se percebe: “acabar com as malditas lixeiras que sujam este nosso belo Douro!”
O certo é que as lixeiras ainda por aí andam, mas o vocabulário duriense ficou enriquecido com esta: – Ó Manel! Quando fores à rua, leva o saco de dissonâncias ambientais e deita-o no contentor!
Mas o melhor estava para nos acontecer. Só faltou o petróleo. E havia esperança de que aparecesse. Ora vejam:
uma abóbora de 200 quilos nasce em Resende, uma cabaça com 16 quilos em Murça, e batatas com mais de quilo em Vila Pouca de Aguiar! É obra! Santa terra que só não dá petróleo. Porque se desse, havia de ser cá um poço do caraças!
E por falar em coisas fenomenais, foi aquela de o senhor Secretário de Estado ter cá vindo anunciar que o IC26 estaria pronto em 2010!
Temos de concordar que, cá ao Douro toda a gente vem mentir, mas a gente até se ri muito. É o que nos vale.
E tanto mais que havia para falar! Mas, porque a minha memória não dá para tanto, foi disto que me lembrei, neste ano de 2007.
E lembrei-me também de recordar aqueles que partiram e que nos deixam uma grande saudade. O poeta Castro Reis, o Dr. António Cabral, o Dr. Camilo Araújo Correia, o Padre Jorge Ferreira.
Afinal, num Douro que afina pela ridicularia de um país que, pelo seu lado, vai acertando as agulhetas com a imbecilidade deste mundo, é uma pena que a seriedade se vá perdendo com o desaparecimento destes vultos.
E é com a nostalgia da partida que termino, desejando a todos um Bom Ano de 2008. E, se Deus permitir, um pouco mais atinadinho que o de 2007.
É que, a bem da verdade, sacrificamos de boa vontade o nosso riso, em louvor sério das coisas bem feitas.
gouveiafrancisco@hotmail.com

