ARQUIVO

Ano 2008 Francisco Gouveia Engº

(467)

Ângelo Minhava

por Francisco Gouveia

(Faz 89 anos no próximo dia 15, um dos maiores vultos culturais do século XX português. É transmontano e chama-se Ângelo Minhava)

Este ano, começa bem a minha escrita. Então, lá vai.
Foi em 1919, em Ermelo, que viu a luz pela primeira vez. E, sem saber, aportou desde o berço esta carga similar que persegue os transmontanos: se querem deixar pegada no mundo, têm que ser excepcionais.
Aos outros, que deambulam por esse país fora, especialmente aqueles que eclodem nas modernas maternidades do país litoral, a vida nasce-lhes facilitada. Por cá, onde as maternidades deixaram de ser a prioridade para dar lugar aos cangalheiros, não se nasce impunemente. Trepar o monte da vida é, para os transmontanos, sinónimo de que a, a eles, nada lhes será perdoado: algum erro, omissão, falha mesmo que momentânea. A aventura de nascer em Trás-os-Montes é hoje, como o foi no passado, uma difícil escalada na vertente íngreme do futuro. Nada mudou. E, se pensávamos que esta democracia – parida a talho de foice e martelo na mente dos que as empunharam algum dia para hoje as trocarem por ripanços públicos – alguma vez nos traria a igualdade de nascer igual qualquer que fosse o canto pátrio, bem nos enganámos. O país continua igual, senão pior do que já foi. As parcas ilusões da nossa condição de interiorizados, apelidados de pacóvios, provincianos e parolos, continuam hoje a pairar sobre a terra transmontana como se fôssemos uma tribo de incréus a chafurdar seminus na Amazónia do primitivismo. Aqui, não há lugar para a segunda oportunidade. Uma sequer. Ou acertamos à primeira ou temos as contas feitas e saca às costas.
Pelas outras bandas, onde o sol nasce mais forte á custa do erário público que por cá erguemos a suor, pode-se errar vezes em conta, repetir oportunidades, insistir na modulação do talento mesmo onde ele não existe. Por lá, há a roda dos que sem mérito nem qualidade, são salvos pela cola tolerante e permissiva do compadrio, capaz de juntar a horda dos medíocres num bando de eternos endeusados. A nós, os transmontanos, não nos dá o país a benevolência do erro.
Por isso, temos que aprender a ser excepcionais. Como ele.
Falar de Ângelo Minhava como filólogo, ensaísta, escritor, poeta, dramaturgo, músico ou compositor, é banalizarmos o discurso com descrições que constam, em pormenor, de qualquer manual que sobre ele fale. O seu currículo e percurso não cabem num texto de A4, nem a sua grandiosidade cultural se pode esganar num simples memorando. De Ângelo Minhava, há-de aprender-se a sublime lição do interesse pelo saber. Do gosto pela sabedoria. O prazer de ser culto e descobrir que a cultura está aqui e ali, à mão de todos. Esta será, porventura, o grande legado de Monsenhor.
A um dos maiores vultos culturais do século XX português, que caminha escorreito para os cem, não se dão os parabéns – muito menos aqueles parabéns acelerados de circunstância, do género de despachar num ápice a formalidade obrigatória. A um homem assim, dá-se-lhe estima, consideração e, acima de tudo reconhecimento.
O país, obeso de disparates culturais e boçal na memória dos seus melhores, parece ter mais que fazer do que homenagear a verdadeira sabedoria e a verdadeira arte daqueles que efectivamente têm contribuído para o seu engrandecimento. O país da triste ignorância, quer lá saber deles! Especialmente quando vindos deste canto a nordeste, onde nascer é uma aventura, sobreviver uma odisseia e onde o valor só se mede pela bitola da excepcionalidade!
Mas Trás-os-Montes? E Vila Real? De que está à espera? De sofrer da mesma mazela amnésica que tolhe o país?
Aos 89 anos, Ângelo Minhava já terá parabéns que lhe cheguem, por isso, da minha parte, aqui vai o meu reconhecimento, e, já que não ouço ninguém dizê-lo, o agradecimento em nome de um país que lhe deve parte da sua identidade.

(468)
MINISTROS P’RA CANHÃO!

por Engº Francisco Gouveia

(Muitos dos ministros deste Governo, estão demasiado desgastados. Não só pela impopularidade, mas também pela forma constante e submissa como servem de escudo à vaidade do seu chefe, que evita assim assumir as responsabilidades das medidas que impõe.
Por isso, vão ser mudados por outros, que serão igualmente impopulares e continuarão a servir submissamente de carapaça protectora à imagem de José Sócrates.
Ao cabo e ao resto, mais Ministros frescos, para o canhão da má política)

A penosa campanha que os ministros deste Governo têm prosseguido, chega a meter dó. Fiéis à irredutível vaidade do chefe, lá vão andando submissos e cabisbaixos, levando com as pedradas da opinião pública numa espécie de escudo protector da imagem de Sócrates. No fundo, a culpa pelos desastres que este Governo vem acumulando (com o interior a servir de bombo da festa) não será absoluta culpa dos ministros, mas sim de quem orienta tal política. Neste caso, José Sócrates que, matreiramente, vai escapando ileso às diatribes governativas, como se nada fosse com ele, deixando que sejam os seus ministros, os odiados, e ele a imagem imaculada da boa governação.
Não vou aqui cometer a leviandade aos meus leitores, de relatar os factos que são todos os dias comentados na imprensa, e que têm levado os portugueses ao desespero. Nem sequer me vou entreter com as escandaleiras que nos deixam boquiabertos, das quais a actuação do Governador do Banco de Portugal, é paradigma. Não será assim difícil de perceber, até que ponto estes ministros andam desgastados. Todos – entenda-se. E de tal maneira desgastados que já não há cosmética que os salve. Daí que, muito brevemente, se preveja uma remodelação governamental. Bem vistas as coisas, quase todos os ministros necessitavam de ser substituídos, mas a dita remodelação passará, ou pela mudança dos mais odiados, ou pela troca de pelouros, e pela manutenção dos restantes com, talvez, algumas mudanças nas Secretarias de Estado. Com esta remodelação terminará assim a saga de algumas figuras caricatas deste Governo, que se estão a prestar ao papel de coveiros, faltando saber-se onde irão parar depois de saírem. Sim, porque – não me farto de dizer – Sócrates é bem generoso com quem o serve. Por isso me questiono seriamente: o que faz correr esta gente, o que as leva a assumir atitudes tão violentas, radicais, e que de reformismo apenas têm o nome, o que os leva a ficarem com as suas imagens manchadas?
O futuro nos há-de dar a resposta, se bem que a gente já desconfie que há por aí muitos cargos de ripanço para descanso dos “heróis” de Sócrates.
Temos então que, em breve, outros virão substituir estes impopulares ministros. Outros que, certamente, comungam da mesma filosofia de fidelidade absoluta ao chefe. Outros que, certamente, serão escolhidos pelas suas índoles de subserviência e não pelas suas qualidades. E aqui é que está a questão, quase nuclear, que pode justificar o pobre país que temos. Já lá vai o tempo em que a competência era a bitola que regia as escolhas. Agora, um primeiro-ministro está-se nas tintas para competências! Quer é gente que diga ámen com ele, que sirva de testa de ferro nos conflitos, que se ponha à frente dos ataques que lhe são dirigidos. O primeiro-ministro procura escudos. Acima de tudo, escudos que o protejam. E há pobres coitados que se prestam a este papel! Sempre houve, há, e há-de continuar a haver.
Questionamos a falta de ideias, de estratégia, de planos dos senhores ministros, e espantamo-nos com o facto de muitos andarem por lá sem saberem o que andam a fazer. E custa-nos entender que não sejam necessárias grandes qualidades para se ser ministro deste país. Mas a realidade é esta e não há volta a dar-lhe. É certo que, num Governo, a união é essencial. Como também é essencial que, na globalidade, se concorde com o programa proposto do Primeiro-ministro. Mas qual programa? O tal que foi prometido antes das eleições e que deu no que deu? Ou o programa avulso, conforme a ocasião, conforme a disposição do nosso primeiro. Este Governo, a bem dizer, não tem programa, a não ser um objectivo de combate a um défice que, pelos vistos, se mantém elevado. E com esta treta, tem angariado a benevolência de um Presidente da República que, a meu ver, se obceca demasiado com o assunto.
Brevemente, Sócrates irá escolher novos cordeiros para a matança. E dos meandros da política sairão os do costume, gente aparelhada à engrenagem pública que, com a “promoção” também pretenderá subir mais uns degraus na escadaria que leva aos tais cargos de que falei. Ninguém passa impunemente pelos Governos. Contam-se pelos dedos os que, realmente, assumiram funções por elevado sentido de serviço público. E esses, reconhecem-se a léguas, mas são tão poucos e tão raros que constituem a excepção que confirma a regra: os ministérios são trampolins.
E nesta roda, se vai desgastando, também, o país que, na verdade, já vai tendo cada vez menos ponta por onde se lhe pegue. Uma roda terrível, que esmaga a esperança dos que ainda sonham com um país diferente.
Brevemente, repito, o país assistirá a mais uma volta da roda e, mais uma vez, o país verá a carroça dos políticos a avançar à custa dos pobres cidadãos que a puxam.

RECITAL DE FRANCISCO GOUVEIA E JOSÉ NEVES
com homenagem a ÂNGELO MINHAVA

Decorreu no passado sábado, no Auditório do Conservatório de Vila Real, mais um Recital de instrumentos de corda portugueses, interpretados por Francisco Gouveia com acompanhamento de José António Neves em guitarras clássica. Durante cerca de uma hora e meia, o público presente teve oportunidade de apreciar a sonoridade de alguns instrumentos da memória musical portuguesa e que, infelizmente, pouca ou nenhuma divulgação têm. Vão-se salvando as boas tradições graças à carolice de instrumentistas como os citados que, persistentemente, continuam a divulgá-los. Assim, o recital iniciou-se com alguns temas executados em “toeira”, guitarra que (explicou Francisco Gouveia) antecedeu a entrada da guitarra em Coimbra e que foi, durante muitos anos, o instrumento de eleição dos estudantes de Coimbra. Depois, seguiu-se a “requinta”, instrumento de romaria, também já fora de uso, com características musicais muito peculiares, som gritante, alegre, e que percorreu alguns temas do nosso folclores regional. Seguiu-se o incontornável cavaquinho, que se recreou entre temas populares e temas de música clássica adaptada, tais como a marcha militar de J. Philip Sousa, ou o Can-CAn de Offenbach, ou ainda a cantata 149 de J. S. Bach. Terminaram com a apresentação da guitarra braguesa que, como também salientou Francisco Gouveia, é, talvez, a mais interessante guitarra portuguesa popular e que possui maior número de cultores. Também aqui um repertório variado e muito bem escolhido, deliciou a audiência. No final, e porque se estava em Vila Real, e os músicos foram avisados de que Monsenhor Ângelo Minhava se encontrava na plateia, tocaram a Marcha de Vila Real em sua homenagem, antes de Francisco Gouveia ter lembrado que Ângelo Minhava é um dos maiores compositores portugueses do século XX, a comprová-lo pela bela marcha que tinha escrito em louvor da sua terra, e que, este mês fez no dia 15 a bonita idade de 89 anos, pelo que aquela interpretação deveria ser tomada como uma prenda de anos. Este gesto sensibilizou Monsenhor Minhava que fez questão de ir ao palco abraçar os músicos e agradecer, e ainda tecer algumas considerações honrosas sobre o trabalho de ambos.
No final, para quem lá esteve, foi um excelente final de tarde. A TVI fez a cobertura do evento, pelo que poderemos rever parte do espectáculo por um destes dias.
Francisco Gouveia e José António Neves mantêm um site na net, sob o título: www.guitarrasdeportugal.com

(469)
COMPLEMENTO SOLIDÁRIO PARA IDOSOS:
INDECENTE DEMAGOGIA

por Francisco Gouveia, engº

(Era uma medida para complementar reformas mínimas a idosos em situação de miséria.
Mas a miséria acabou por ser a forma como foi elaborado o regulamento da mesma. Papelada em cima de papelada, exigências disparatadas, declarações inúteis, em suma, arranjar mil e uma maneiras para ninguém se candidatar)

Foi com foguetório pegado que, há uns meses, o Governo anunciou um Complemento Solidário destinado a idosos que recebessem a reforma mínima e que estivessem em condições de grande precariedade e miséria. A medida, atendendo a que seria eventualmente impossível um aumento significativo das reformas que os tirassem da aviltante situação em que vivem muitos dos nossos pensionistas, até foi recebida com louvor. Por isso, nada a opor, antes pelo contrário, se bem que, em abono da verdade, esta medida sempre cheirou a demagogia barata. E isto porque a forma como foi propalada logo fez suspeitar que seria mais uma acção meramente publicitária do Governo, e nada mais. Tanto mais que, actualmente, o Estado possui já mecanismos administrativos que permitem, com relativa rapidez, detectar os casos mais gravosos e acudir-lhes. Há o sistema informático, a possibilidade de cruzamento de dados, há assistentes sociais dos serviços da Segurança Social, levantamentos já efectuados pelas autarquias, etc., etc.
Por outro lado, é fácil de constatar que a avassaladora maioria desses idosos em situação precária, têm um baixíssimo nível de escolaridade, vivem em zonas ou bairros degradadas, e não seguem com consciência o desenrolar das coisas da política, isto é: pouco ou nada sabem do que se passa no país. A preocupação com a sobrevivência do dia-a-dia não lhes deixa mais tempo para se recrearem com as nuances da nossa vida pública.
Traçado este quadro geral, vamos então ver como é que o Governo pretende levar à prática tal medida. E, para não estar a falar de cor, dei-me ao trabalho de, um destes dias em que o tempo me folgou um pouco mais, de me plantar em frente ao balcão de atendimento da Segurança Social de uma Loja do Cidadão do Porto, e observar o movimento.
Como era de esperar, estava a casa à pinha, com velhos a encherem os corredores, papelada na mão e um monte de dúvidas. Confesso que foi constrangedor observar o que observei, mas mais constrangedor foi (justiça lhes seja feita) para os funcionários encarregues do atendimento.
Começava logo a odisseia pela exigência de os candidatos terem de preencher uma imensidão de papelada, cuja complexidade até a mim me baralhou. Depois, os dados que são exigidos, são absolutamente disparatados. E são disparatados porque todos eles constam dos ficheiros da Segurança Social, não se percebendo a obrigatoriedade de os repetir em infindáveis folhas de requerimentos. Ou seja: se alguém viesse com intenções de se candidatar, perante a amálgama de papelada que teria de preencher, desistiria. Mas havia também exigências aberrantes, como esta: a obrigatoriedade de apresentação do IRS dos filhos. Toda a gente se perguntava o que é que o IRS dos filhos tinha a ver com a sua situação. A maioria que lá estava, ou tinha sido abandonada pelos filhos, ou não lhes sabia o paradeiro, ou não tinha coragem para lhes pedir a declaração de rendimentos. E depois, para quê o IRS dos filhos? Para acrescentar ainda mais miséria (humana) à miséria material em que vivem? Será que o Governo, ao descobrir que os filhos têm um bom nível de rendimentos, vai recusar o tal Complemento, remetendo para os filhos a responsabilidade de sustentar os pais? Afinal este Complemento é um complemento adicional de reforma ou é uma lição de moral aos filhos que não cuidam dos pais?
Há ainda uma outra declaração onde o candidato autoriza a Segurança Social a vasculhar no Banco de Portugal se o idoso tem contas bancárias ou bens imobiliários.
Haja Deus! Então era preciso tanta coisa para se saber se fulano ou sicrano têm contas bancárias?
Enfim, feitas as contas deste meu périplo pelos meandros da Segurança Social, saldou-se a tarde por isto: os velhinhos lá foram para casa carregadinhos de papelada, cansados, desesperados por não saberem preencher sequer uma linha dos infindáveis questionários, e com a certeza de que tinham perdido o seu tempo.
Afinal, a tal boa intenção governativa, será somente mais uma forma de o Governo propalar uma medida paliativa do estado de indigência em que vivem muitos dos nossos idosos, como se fosse uma grande ajuda, sendo que, efectivamente, o número de pensionistas que conseguir chegar ao fim daquela aventura burocrática, será tão pequeno que o Orçamento de Estado nem sentirá a cócega.
Mas o que acrescenta ainda algo de trágico a tudo isto, é o facto de o tal complemento se resumir a uns míseros Euros. E a situação é de tal desânimo, que já nem se houve falar do tal Complemento Solidário.
No fundo, se a medida fosse de aplicar efectivamente, não seria necessária qualquer papelada. Nem IRS de filhos, nem autorizações ao banco de Portugal. Os ficheiros da Segurança Social contam tudo, e se alguma coisa faltar, estão lá as assistentes sociais e outras entidades, para traçarem o quadro do idoso.
Sabemos que estamos num mundo cruel, onde os filhos não querem saber dos pais, onde a velhice é tida como um fardo inútil, onde a idade veneranda é desconsiderada. Os nossos idosos estão ao abandono, assim como aqueles que agora os abandonam, um dia também o estarão. Cá se pagam, meus amigos, e ai de quem se convença que a juventude é eterna. Dois passos à frente e aí estão os cabelos brancos, o reumático e a espinhela dobrada sobre a bengala. É um ar que lhe dá, à juventude.
Mas é mesmo assim este mundo hipócrita onde vivemos, e esta sociedade desequilibrada a caminho do abismo. Por isso mesmo, era preciso mais respeito pelos idosos, e não os usar como campanha publicitária para a política demagógica. E também não havia necessidade de os aviltar com papeladas inúteis e incompreensíveis, e que, afinal, só servem para eliminar do lote, a maioria dos candidatos.
Uma vergonha. Uma lástima administrativa. Algo de indecente que ultrapassou, em muito, o risco da dignidade.

(470)
O MINISTRO É INCOMPETENTE,
E O PROBLEMA É QUE NINGUÉM LHO DIZ

por Francisco Gouveia, engº

(O Ministro da Saúde tem um grave problema: ainda não entendeu que os parâmetros que resultam dos estudos de planeamento, só são válidos dentro do campo onde foram testados. Ou, como se diz agora, só são compatíveis dentro do seu “ambiente de trabalho”.
Mas tem outros problemas, como a não preparação das alternativas de substituição, ou não conseguir estabelecer a demarcação entre o que é público e o que é privado.
O senhor Ministro é formado em Direito e tem um currículo satisfatório, sóbrio, com muita política à mistura e nada por aí além. Muito certamente terá grandes competências noutras funções, mas não é bom Ministro quem quer e, quanto a isto, ele é incompetente.
E o problema é que não há ninguém no Governo que lho diga)

Há uma campanha devidamente orquestrada pela equipa publicitária do Governo, a tentar criar a ideia de que o problema com o Ministro da Saúde, Correia de Campos, reside no facto de este não conseguir explicar as medidas que está a tomar. Ou seja: as medidas estão correctas, a capacidade de comunicação do Ministro é que deixa muito a desejar. E, hoje aqui, amanhã ali, vamos ouvindo esta lengalenga e, de tanto ouvir, até vamos acreditando que é assim. Veja-se bem que até a Oposição, pela voz de alguns dos seus mais reputados comentadores televisivos, alinha nesta cruzada. Mas há quem não alinhe, e quem tenha a noção de que o problema não é de comunicação, de esclarecimento. O problema é que as medidas estão erradas e são lesivas de direitos elementares dos cidadãos. E é preciso que o Sr. Ministro Correia de Campos entenda de vez que a sua política peca por erros de base, erros esses que não se compadecem com a melhor das explicações que nos dê.
Mas vamos ao que interessa e comecemos dando alguma razão ao Ministro, para que não se diga que alinho no bota-abaixo.
Por exemplo: na questão das Urgências de Anadia, que agora são canalizadas para Águeda, se calhar Correia de Campos até tem razão. As duas localidades distam pouco mais de 20 Kms, estão inseridas num meio urbano altamente industrializado, e nem será muito viável manter duas Urgências com o mínimo de competências, tão perto uma da outra. Porque há limites e condicionalismos de pessoal e meios que não se podem (nem devem) dispersar num espaço tão curto. Apesar do acidente fatal que aconteceu junto ao Hospital da Anadia e que nada teve a ver com o encerramento da Urgência, não vejo motivos para tanto alarido. E se encerrasse Águeda e mantivesse Anadia?
A questão, quanto a mim, é outra. E as minhas observações centram-se em três factores. Vamos ao primeiro.
Muito provavelmente, os parâmetros técnicos que estão a determinar o encerramento das Urgências e de outros serviços, até estão certos. Não duvido que sim. Esses parâmetros foram estudados cientificamente, por isso não há que duvidar. Mas, como tudo na vida, eles obedecem a um determinado campo de aplicação. Isto é: as variáveis não se movimentam num campo abstracto, mas sim num campo efectivo, real, porque se assim não fosse não teriam consistência. E esses tais parâmetros foram estudados em meio altamente urbano, metropolitano, densamente povoado. E, aí sim, terão toda a aplicabilidade. Mas, cá pelo interior, ainda profundamente ruralizado, pulverizado por pequenas aldeias aqui e ali, com uma população envelhecida, dispersa, pouca, essas tais variáveis são impossíveis de aplicar. Por outro lado, os técnicos lá da capital, olham para o mapa do país e este aparece-lhes como uma folha plana, como se o país real fosse assim, isto é: sem montes, serras, montanhas, colinas, vales, rios. Mas o norte/centro interior é rugoso, inóspito, por vezes inacessível. Entre duas vilas que, no mapa, distam 2 quilómetros, realmente têm 50 ou 60 Km de afastamento real, por estradas onde se leva mais de uma hora a percorrê-las, e isto no Verão, porque de Inverno pode levar uma eternidade.
Assim como o clima. Aos olhos do tal programador, o país é seco, ameno, tal qual a temperatura do gabinete confortável onde trabalha. E por isso acha que é possível andar-se cá a 60 Km/hora, em qualquer local e em qualquer época do ano. Os técnicos do Ministério não sabem o que são as serras abruptas de Trás-os-Montes e Douro, não sabe que os rios galgam as margens e inundam casas, que há neves no Inverno que isolam aldeias, que há aldeias que, no mapa distam dez quilómetros do centro do concelho, mas que, na realidade, às vezes estão a horas desse mesmo centro. E o grande mal desta gente é não conhecer o país real. Como é que o senhor Ministro quer aplicar parâmetros estudados para metrópoles, neste imenso interior de povoados dispersos e estradas esburacadas, serpenteantes, ladeadas de abismos?
A aplicar-se ao interior os tais parâmetros que servem de bitola ao planeamento das grandes metrópoles, vamos ficar sem nada! Porque não há hipóteses de, minimamente, haver algum índice que nos caiba na medida. Trás-os-Montes e Alto Douro têm características muito especiais, como o têm a Beiras ou o Alentejo, e que não se compadecem com os tais estudos elaborados na distinta capital que não sabe como elas por cá mordem!
A segunda questão tem a ver com esta confusão enorme que se prende com a divisão entre o que é público e o que é privado. O senhor Ministro ainda não conseguiu estabelecer esta diferença. E a confusão é tal que há hospitais públicos entregues à gestão de privados, privados a meterem-se no que de lucrativo há no público, e por aí fora. Não é possível manter-se um sistema de saúde “saudável” sem que se determine com rigor as fronteiras entre ambos e onde os dois devem cooperar. O que se tem visto é este escândalo: o que dá lucro é entregue ao privado, o que dá prejuízo fica entregue ao público. E, mesmo assim, há privados que dão prejuízo! Pelo menos é o que pintam!
E esta é uma tarefa fundamental de uma reforma da saúde. Se não a fizer, mais vale não mexer em mais nada, porque há-de sair asneira!
A terceira questão tem a ver com as alternativas de substituição. É que não se podem encerrar urgências, maternidades ou centros de saúde e dizer: agora vão todos para àquele, e chegamos àquele e está a abarrotar pelas costuras. Assim como não se pode fazer esta aberração: encerrar uma Urgência (ou uma unidade onde se pode recorrer em primeira instância) e colocar à porta da mesma uma ambulância do INEM. Antes de se encerrar seja o que for, há que garantir que a unidade que vai ser sobrecarregada com utentes que até ali não recebiam, está preparada para os receber. Assim como garantir que, de facto, as tais distâncias são reais. Neste aspecto, o senhor Ministro anda com o carro à frente dos bois. Primeiro encerra, depois vai ver como é.
As consequências desta política pejada de erros de palmatória, já estão a dar o seu efeito nocivo. Para além de colocarem as populações em pânico, estão também a lançar o pânico nos próprios serviços dos Hospitais. Vejam nos últimos dias, os casos que têm acontecido e que, quanto a mim, se devem ao caos e à pressão que se está a exercer sobre serviços e seus responsáveis. Parece que todo o país está com os olhos nas Urgências, morbidamente à espera que haja um deslize para se fazer alarido. E um Ministro que não controla estas situações, é um Ministro sem jeito e que devia já ter sido convidado há muito a sair.
O Dr. Correia de Campos, pode até (e deve ser) muito competente na sua profissão. Mas como Ministro tem demonstrado uma teimosia e uma falta de sensibilidade que ultrapassam já a questão meramente política, para se transformar numa questão de deficiente interpretação técnica. Esta incompetência está a arrastar o país para um clima de ansiedade e contestação para além dos limites razoáveis que uma ou outra medida mais impopular possa provocar. Então, se o país vive em ansiedade permanente suspenso das decisões do ministro, se as populações desesperam pela sua segurança, se os próprios serviços de saúde estão a entrar em pânico com níveis de pressão muito acima do que é razoável para o stress natural da sua actividade, se os casos duvidosos de assistência urgente se multiplicam, se o clima no sector se degrada dia-a-dia, e se, de facto, o senhor ministro está de boa-fé e com consciência de que está a fazer bem, como não duvido que esteja, então – dizia eu – se o país está assim, é porque a sua acção é incompetente.
Todos sabemos que Correia de Campos já está a prazo. Mas isso não nos dá qualquer satisfação porque, acima dele, se mantém a política de Sócrates e, qualquer que seja outro Ministro que o substitua, será para prosseguir essa mesma política. Com mais ou menos esclarecimento, mais ou menos simpatia, nada mudará. Mas a isso também já nos habituamos. Não vamos, portanto, estranhar.

(471)
A ALIMENTAÇÃO DOS ABUTRES

por Francisco Gouveia

(Desde sempre houve quem lucrasse com a desgraça dos outros. Contudo, nunca como hoje a classe dos abutres teve tanto por onde escolher. É uma classe em ascensão. Por esses Tribunais fora, dezenas deles, arrematam por dez réis de mel coado bens de milhões que representam o trabalho de muitas vidas.
Penhoras desproporcionadas relativamente às dívidas que pretendem saldar, estão a fazer crescer e a enriquecer a classe dos abutres)

Velho como o mundo, o enriquecimento fruto da desgraça dos outros sempre existiu. Gente amnésica de escrúpulos, de consciência ligeira, arremata em Tribunais, bens resultantes de penhoras (do Estado, de Bancos, de Seguradoras, de Agências Financeiras, de credores vários). Tudo legal, dirão – e não contesto – mas é triste que um regime legal patrocine injustiças. Ir à bancarrota, ficar arruinado, já é uma situação triste. Mas ser roubado pelo credor, é trágico. O credor tem direito a ser ressarcido pelo que é seu, mas não tem o direito de desbaratar bens patrimoniais. E aqui, caímos nesta aberração de, por uma dívida de dez réis, se penhorar um bem que vale dezenas ou centenas de milhar.
A onda de penhoras que invadiu os Tribunais, na sua grande maioria requeridos pelo Estado e pelos Bancos, representa algo de inusitado e perfeitamente injusto. Numa grande parte dos casos, há uma desproporcionalidade gritante entre a dívida e o bem que se penhora para cobrar essa dívida. Chega-se ao cúmulo de os valores base de arrematação nem sequer respeitarem o valor patrimonial actualizado atribuído pelas Repartições de Finanças. Penhora-se a torto e a direito, sem ter em conta os montantes em causa, sem que haja um equilíbrio entre o que se vai penhorar e o que se pretende receber. Em muitas situações, e onde o devedor reconhece a necessidade de vender o bem para pagar a dívida, nem se dá oportunidade a esse mesmo devedor, para que efectue por iniciativa própria a venda do bem e, com essa venda, pague a quem deve e obtenha para si o remanescente a que tem direito. Por esses Tribunais fora andam em leilão bens imobiliários (quintas, moradias, apartamentos, terrenos, etc.) de valor considerável, e que se encontram em arrematação por menos de metade do seu valor.
É certo que, numa grande parte desses casos, relapsos devedores ao Estado, confrontados com a penhora, vão de imediato pagar a dívida. Assim se tem cobrado muito IMI, IVA e IRS por esse país fora. Mas há situações onde o devedor não tem condições financeiras para o fazer, e eu pergunto: será justo o Estado penhorar um bem de centenas de milhar para receber mil ou dois mil Euros?
E os Bancos? Que se apresentam como os principais responsáveis pelo endividamento das famílias, porque não só desenvolvem campanhas com muito de apelativo mas onde não contam a história toda, convidando a esse endividamento, como também concedem crédito a quem, antecipadamente, sabem que muito dificilmente conseguirá cumprir com as obrigações mensais de pagamento da prestação?
O certo é, editais nos jornais aparecem diariamente com anúncios de penhoras, aguçando o apetite dos abutres. Fazem-se negócios da China neste meio.
Mas o que mais me espanta é que seja o próprio Estado a patrocinar este tipo de situações e a consentir, também, que a legislação actual seja tão permissiva. O Estado tem meios mais do que suficientes para cobrar coercivamente, não necessitando – a não ser que seja por comodidade irresponsável – de actuar como delapidador de bens.
Os tempos estão difíceis e o eldorado que constitui a década anterior, no que toca à concessão de crédito, acabou. Por seu lado, o Estado, por inépcia ou falta de eficácia, não conseguiu desenvolver mecanismos mais simples, justos e eficazes, de forma poder receber o que é seu, atempadamente, não somando problemas a quem já os tem, nem, por outro lado, tolerando a atitude dos que não cumprem as suas obrigações tributárias. Hoje em dia, a informatização dos serviços permite acções imediatas sobre aqueles que não cumprem. A penhora de um bem (por vezes o único que o devedor tem), é uma situação limite que só deve ser utilizado quando o valor das dívidas e o cadastro do cidadão justificam a alienação do seu bem. A penhora é um acto humilhante para quem o sofre. A penhora não é uma medida que possa ser banalizada por ninharias.
A consequência deste estado caótico do nosso sistema de execuções, é o renascer e o ampliar de uma classe vampiresca que só sabe viver do sangue, trabalho e suor dos outros. Classe que está a engrossar e a engordar. E o que é mais terrível, de uma forma legal.
Pobre país que acoita nas suas normas, a possibilidade de que os abutres se alimentem à tripa forra. Já não nos basta a crise económica, o desemprego, a miséria, o desespero de muitas famílias, como também temos que defrontar a violência de um Estado que usa as penhoras sem peso nem medida.
Mas o que é mais inconcebível, é que, estas penhoras reflectem apenas as pequenas dívidas, as ninharias, enquanto que as dívidas de milhões, resultantes de contabilidades fraudulentas, fugas ao IVA, viciação de IRSs e IRCs, etc., etc., etc., se escapulam nas prescrições incompreensíveis das Repartições, nas contestações judiciais habilidosas, nos perdões espantosos. Esses, milhões e milhões que iriam, de facto, sanear as contas do Estado, não fazem parte da onda de penhoras que está a assolar o país.
O Estado é rigoroso e implacável na cobrança dos tostões que lhe devem, e displicente e bacoco em reaver os milhões com que é roubado todos os dias.

(472)
Sobre os trabalhadores da Casa do Douro

O MINISTRO QUE MAIS DESPEDE

por Francisco Gouveia, eng.º

(O Senhor Ministro da Agricultura quer inscrever-se no Guiness governativo como sendo o ministro que mais despede, à custa desse destrambelhado normativo que se chama Quadro de Mobilidade Especial.
O Ministro despede funcionários no Alentejo e no Douro, onde há agricultura.
Mas em Lisboa, no Porto, etc, onde não se planta nem uma nabiça, não despede ninguém.
O senhor Ministro tem uma visão da organização agrícola demasiado vanguardista para o nosso saloio entendimento)

Meteu dó, há tempos, quando as televisões noticiaram a passagem ao tal Quadro de Mobilidade Especial, de algumas dezenas de funcionários do Ministério da Agricultura no Alentejo. Gente modesta, com salários dos mais baixos da Função Pública, encolheu-se perante a ameaça de um despedimento anunciado, alguns já com algumas dezenas de anos de serviço, numa região onde não há empregos e onde o espectro da fome e da desertificação espreita a toda a hora. Aquela gente, apanhada de surpresa nas malhas da congeminação política lisboeta, nem sabia o que dizer, remetendo-se para silêncios pesarosos e algumas lágrimas angustiadas. Foi triste. Como o é ver, diariamente, centenas de trabalhadores a serem despejados das fábricas, por esse país fora. Contudo, nesta caso dos trabalhadores alentejanos do Ministério da Agricultura, e se somados os ordenados que recebiam, logo se entenderia que não representavam absolutamente nada no Orçamento do referido Ministério, e a medida era puramente política, de aviso, quase uma ameaça, ou uma experiência com gente da qual se sabia não ir reagir por aí além. Por isso o acto do senhor ministro teve o sabor da prepotência e da injustiça. Feitas bem as contas – e haja quem no Ministério e no Governo saiba fazê-las – os salários daquela gente podiam ser pagos com duas ou três avenças que o Ministério paga a consultores que fazem do Estado uma imensa teta sempre disponível. Por outro lado, em Lisboa, cidade que, como se sabe, tem plantações importantíssimas de toda a qualidade agrícola, o Ministério está cravejado de altos quadros bem pagos, a maioria boys que andavam aos caídos e a quem a mão protectora do partido deu guarida, cama, comida, roupa lavada e dinheiro para o tabaco, e que deambulam pelos corredores sem saberem muito bem o que fazer, isto quando lá põem os pés. Contudo, apesar da evidência de o Ministério ter muitos funcionários a mais, não teve o senhor Ministro coragem para mexer nos que de facto são excedentários. Porque os excedentários estão em Lisboa, no Porto, ou noutras cidades, e aí é perigoso desempregar essa gente. É gente com poder, influência no partido, gente intocável. Os desgraçados dos alentejanos, não. Não têm poder, nem influência, e se levarem um pontapé não haverá em Lisboa dois doutores que dêem conta do açoite.
Durante os últimos anos, os Ministérios – e o a da Agricultura não é excepção – foram (e continuam a ser) casas onde se acoitaram os desempregados partidários, especialmente os que tinham as quotas em dia, as conversas bem conversadas com os maiorais, as cunhas bem limadas. As centrais do Ministérios estão a abarrotar de desocupados. Contudo, nas nossas florestas faltam guardas florestais, nos nossos parques naturais faltam zeladores, nas nossas reservas faltam protectores da natureza, em suma, no verdadeiro país agrícola e florestal, falta gente de braço disponível para suar. E enquanto aí falta gente, nos gabinetes do Ministério, sobram.
Recentemente, e com o verniz que estalou entre o Ministro e a Direcção da casa do Douro, e que não é senão o culminar de uma estratégia que pretende levar à sua extinção, não só se pretende acabar com a CD como também “arrumar” os seus funcionários. Para isso o tal regulamento do Quadro de Mobilidade Especial vem mesmo a calhar. Aliás, ele não foi criado para outra coisa. Então, o processo de despedimento colectivo dos trabalhadores da Casa do Douro, já começou. Ignorando promessas e compromissos assumidos por outros Ministros, o Ministério avança. A seu lado, a execrável atitude de um IVPD que, renegando princípios de simples e humana solidariedade, está cúmplice da cabeça aos pés. E o IVPD não o faz por menos, e numa atitude perfeitamente ilegal, despropositada, inoportuna e leviana, denuncia um protocolo de uso de cadastro que é a menina dos olhos da Casa do Douro. Na certa vai plagiá-la, usá-la na mesma, mas vai fazê-lo sem pagar a autoria, os direitos de uso, nada, de borla. Mas o que mais nos espanta é esta realidade irrefutável: o Ministério da Agricultura considera excedentários funcionários de uma região que é a principal região agrícola do país e a que mais contribui (no sector) para os cofres do Estado. Assim mesmo: o Ministério considera que, no Douro, o Douro do Património Mundial, o Douro da primeira Região Demarcada do Mundo, há funcionários da Agricultura a mais. Não é Lisboa ou no Porto, é no Douro, na jóia da coroa agrícola do país.
No meio desta prepotência, ainda houve a esperança que, num gesto de bom senso, o Ministro tivesse sido substituído e, em seu lugar, fosse colocado quem soubesse dialogar e entender que a grandiosidade do Douro não pode ficar à mercê dos odiozinhos de estimação do Ministro. O mesmo que, em frente dos pescadores que lhe pediam intervenção sobre as medidas gravosas que a UE ia tomar relativamente às nossas pescas, lhes disse: Vão-se queixar a Bruxelas!
Já nessa altura, se José Sócrates fosse o tal ministro com a autoridade que se pinta, o tinha demitido. Mas não. E por isso o Ministro ganhou força. Agora faz o que quer. E quis acabar com a CD. Embirrou acabar com a CD. E não lhe basta sufocá-la. Precisa também de agredir os seus funcionários.
Deus queira que o senhor Ministro da Agricultura nunca saiba o que é ser despedido, ficar sem trabalho, e com família para sustentar.
Deus queira que nunca o saiba.
Mas se algum dia o souber, não lhe vai fazer nada mal. Alguma coisa há-de aprender.

(473)
O ENTRETÉM

por Francisco Gouveia, eng.º

(A classe política duriense – e não só – encontrou agora um rico entretém para ocupar a ociosidade: a candidatura do Douro às Sete Maravilhas Naturais do Mundo.
Já deitam foguetes sobre a vantagem em concorrer, mas ainda não se deram ao trabalho de contabilizar os contras.
Mas, para quem precisa de passar o tempo, qualquer pretexto serve)

Na recente eleição das sete maravilhas do mundo, a que o pobrete Portugal deu palco, na sua habitual mania de alegrete mais preocupado com a maquilhagem do rosto do que com a saúde do corpo, ninguém se convenceu que as eleitas fossem, de facto, as maravilhas maravilhosas que podem chancelar a arte do planeta. Está lá uma ou outra mas, na realidade, o conjunto não representa o que de melhor sobreviveu na calote terrena. E depois, feitas as contas, se se perguntar a alguém se se lembra quais foram as sete escolhidas, duvido que alguém se lembre mais do que uma ou duas. Estes eventos actuais, engalanados com grandes publicidades e muita encenação, a que não falta uma gala de milhões, são meros apetrechos desta sociedade consumista que tem sempre de arranjar maneira para entreter um mundo que vive angustiado. É uma espécie de bálsamo que o poder económico inventa para acariciar as agruras que provoca nos desgraçados dos cidadãos comuns. E é também uma forma de os grandes meios de comunicação social angariarem chorudas audiências para não menos abonadas publicidades. Tudo somado, e são duas ou três horas de alienação, a que se somou o tempo perdido anteriormente numa espécie de alienação colectiva.
Não há país no mundo que não apresente a sua obra, a sua paisagem, a sua “especialidade” como sendo a melhor do universo. E contra isto, nada. Mal ia o mundo se os povos não se orgulhassem do que possuem, da sua história, do seu povo, da sua arte e cultura.
Recentemente, as centrais de controlo mediático inventaram outra iniciativa, esta maior, e que se prende com a eleição das sete maravilhas da natureza. É evidente que, pelo que ficou dito, há uma maravilha (pelo menos) em cada país do mundo. Por cá, como não podia deixar de ser, as candidaturas alinham-se. E, ao cabo e ao resto, quando a isto nada a opor. O que me aflige é que certas regiões entrem numa espécie de histeria colectiva e que essa histeria seja partilhada e até fomentada, por figuras responsáveis de que se julgava terem mais que fazer. Mas, ao que tudo indica, parece que, por cá, o trabalho falta e, sendo assim, sobra tempo para estas actividades lúdicas.
Não tenho dúvidas de que o Douro tem uma beleza original deslumbrante e que será uma das paisagens mais interessantes da humanidade. Mas duvido que, com justiça, se possa integrar nas sete mais espectaculares do planeta. Só o pode sonhar quem não conhece o resto do mundo. O Douro é assim, bonito como é, integrado no seu ambiente, na sua cultura, e não tem nada que se andar a medir com os outros. Também porque não se comparam coisas diferentes. O Douro é o Douro e as outras paisagens são as outras paisagens. Sendo assim, até que nem vejo muito mal em que a região concorra, mas espanta-me que responsáveis regionais levem a coisa tanto a peito que até já falam em troca de votos com o Brasil (a gente vota na Amazónia e eles votam no Douro), e que se mobilizem as comunidades de portugueses no estrangeiro, e que se façam campanhas de sensibilização, e prospectos, e eu sei lá mais o quê!
Ou seja, estamos na presença não de uma eleição por mérito, mas de uma eleição por “cunha”, influência, capacidade de mobilização. Isto, para mim, é retirar toda a honestidade ao processo e, caso a tal eleição tivesse importância real, era motivo para fazer exactamente o contrário: recusar candidatar uma região e evitar expô-la a um critério classificativo que tem tudo menos de sério. Ou será que ainda ninguém pensou nas consequências de se perder? Será que alguém já se deu ao trabalho de auscultar aqueles que, seriamente e ingenuamente, candidataram obras-primas às tais 7 Maravilhas do Mundo e, no final, se desiludiram ao ver que outras, sem qualidade, lhes passaram a perna? É que, nestas coisas das eleições por clique num botão, ele há prémios a receber mas também há contas a pagar. E a pior é a da rejeição. Por vezes, é preferível não alinhar neste folclore, ficar de fora, e ficar-se sempre com a áurea de algo sublime que não se sujeita ao rastreio do falacioso critério humano, para mais tão mediatizado e manipulável como é o caso.
Contudo, convenhamos que esta iniciativa veio mesmo a calhar para entreter a desocupada classe política desta região. Têm agora, por uns meses, com que encher colóquios e conferências, com que organizar jantares de trabalho, com que dar entrevistas, com que falar a torto e a direito das belezas durienses, enfim, com que passar o tempo.
O esquema de urgências que vigora na região não interessa, as maternidades nem falar, do encolhimento da rede escolar não vale a pena perder tempo, a crise na vitivinicultura que se cuide, a situação dos produtores que vá ás malvas, a desertificação das aldeias que prossiga, as unidades hoteleiras prometidas que se desenrasquem, porque o que interessa é a eleição do Douro, como se, no fundo, o Douro já não estivesse eleito.
Esperemos que ninguém, por esse mundo fora, se lembre de eleger os sete disparates maiores do mundo, porque, se calhar, por cá ainda elegemos alguns “patuscos” mesmo sem publicidade nenhuma.

(474)

CONSERVAR, PRESERVAR, BENEFICIAR:
3 EXPRESSÕES BANIDAS DO NOSSO DICIONÁRIO

Por Francisco Gouveia, eng.º

(As trágicas cheias – a que eu chamo somente de inundações – que estremeceram o país este fim de mês, são a prova de como já ninguém se interessa por conservar seja o que for. Obra nova é o que interessa e, assim, a conservação do que existe deixa de se fazer.
Portugal constrói novo a torto e a direito, e deixa apodrecer o resto. Consequências da política centralizada no que dá votos, da irresponsabilidade de quem governa, e, acima de tudo, da ignorância profunda de que padece a nossa classe política)

Os cantoneiros – que tapavam os buracos das estradas, que detectavam anomalias; os guarda-rios – que vigiavam os rios e ribeiros, impedindo esgotos clandestinos, preservando as margens de entulhos, por onde andam?
Pura e simplesmente, acabaram. As novas legislações, paridas por tecno-burocratas de carregar pela boca, extinguiram-nos em nome de uma modernidade desastrosa e despiciente. Nos dias que correm, ninguém toma conta de nada, e o nosso património vai-se degradando sem que haja quem o cuide. Há quantos anos não se vê, em pleno Verão, brigadas camarárias (de qualquer Câmara em qualquer ponto do país) a limparem as redes de escoamento de águas pluviais, as sarjetas, as caixas de visita, etc? Há quantos anos?
E digo em pleno Verão porque as medidas preventivas contra as inundações, tomam-se no defeso. O lixo acumula-se nas redes de escoamento, naturalmente, ou propositadamente porque também há por aí muita gente que resolve limpar as imundices para tudo quanto é sarjeta pública, como quem limpa o lixo do soalho e o esconde debaixo do tapete.
E as ribeiras? Atulhadas de toda a qualidade de dejectos e desperdícios, assoreadas por silvados e matos que crescem nas margens?
E as linhas naturais de escoamento de águas? Constantemente a serem invadidas por construções aberrantes? Ao ponto de haver cursos de água que desaparecem para darem lugar a asfalto e betão?
Uma coisa é certa: o que é do rio, há-de sê-lo sempre e, mais tarde ou mais cedo, ou quando as chuvas resolverem desabar sem dó nem piedade, o rio vai voltar a conquistar o seu espaço, e então, o que estiver lá vai à frente da torrente. A Natureza não se doma, entende-se. A Natureza não se contraria, habituamo-nos a conviver com ela. Mas vá lá fazer entender aos políticos, estas coisas elementares do bom senso?
Irremediavelmente, e com consequências trágicas e fatais, o sistema de organização existente, de preservação patrimonial e natural (que não era perfeito e sofria de muitos erros) em vez de ser melhorado foi pura e simplesmente extinto sem que, em seu lugar, tivesse sido implementado outro sistema melhor. Ou seja: o que havia, que era pouco (e talvez ruim) lá ia funcionando. Agora, nada funciona.
Daí que, inexplicavelmente, a gente se espante quando há destas tragédias, como a do rio Jamor que, de um momento para o outro, se transfigurou de riacho a caudaloso Nilo. Meteram-se com ele, não o respeitaram, e agora têm aí o resultado, milhões de Euros de prejuízos, dezenas de famílias sem casa e, o que é mais doloroso, três vítimas mortais a lamentar.
Mas por todo o país, a situação é semelhante. Por exemplo: continuam a construir-se milhares de casas novas quando, diariamente, o mercado é inundado por casas em segunda mão. Ao lado de um condomínio novo, a brilhar, com as modernidades todas e mais algumas, está outro condomínio a cair, sem obras primárias de conservação, sem nada! É uma das tragédias deste país: a falta de uma política que tenha como prioridade a conservação, preservação e beneficiação do existente. Desde o simples prédio de habitação, até ao nobre imóvel do Estado.
Compreende-se: a obra nova é visível, monumental, dá votos. A conservação é apagada, sombria, não dá nas vistas, não dá votos.
Definitivamente, este pequeno país onde, afinal, somos tão poucos, até poderia ser um paraíso se tivéssemos juízo e soubéssemos aproveitar e conservar o que temos. Assim, somos para aqui uns pedintes, sempre a carpir o nosso destino de eternos adiados.
Há palavras que eram bem escusadas no nosso dicionário. A bem dizer, existem lá só por existir, porque alguém, um dia, se lembrou que conservar, preservar e beneficiar, até poderiam ser algo de sublime.
Hoje, maldizemos a tragédia, atiramos culpas uns aos outros, e até nos convencemos da razão do mal. Contudo, amanhã, quando o sol brilhar e a chuva deixar de cair, vamo-nos esquecer da lição e voltar às asneiras.

(475)
O PÃO QUE O DIABO SE ESQUECEU DE AMASSAR

Por Francisco Gouveia, engº

(Se calhar, o diabo não é tão mau como o pintam.
Julgávamos que o pão, o cereal, abundava no planeta para dar e vender.
Mas, afinal, ninguém dá pão a ninguém, e a bolsa internacional determina uma subida do trigo para cerca de 50%.
Este pão-nosso de cada dia, cotado em bolsa e sujeito às especulações mais torpes, nem o diabo se lembrou de amassar!)

Já lá vão corridos mais de quinze anos, no tempo em que eu percorria os planaltos de Lagoaça em vertente para as arribas do Douro. Eu, mais uma cadelita que me seguia no encalços das melhores perdizes do mundo – aquelas que saltavam de rasgo na encosta, em voo picado, rumo ao lado de lá do rio, a Espanha.
Naquela altura, o planalto transmontano resplandecia de searas doiradas de trigo e centeio, e, façam bem as contas, passaram somente quinze anos.
Para caçadores que entendam da poda, escusado será dizer que, com semelhante manancial de alimento, perdizes eram, ali, a dar com um pau!
Nesse ano, a cinegética fartou-se, os caçadores até julgaram que os velhos tempos tinham regressado, os cães rejubilaram de tanta fartura, as caçadeiras fumegaram, os cintos vergaram.
No ano seguinte, lá regressei, com o mesmo entusiasmo de caçarreta à espera do Outubro salvador da sua condição de urbano desalinhado.
Pois foi a tragédia que se viu!
Então, onde estão as searas doiradas?
Olhe, patrãozinho: acabámos com elas. Veio o subsídio da CEE para terminar a função, e nós, feitas as contas, abandonamos os campos!
Escusado será dizer que, nesse ano, a fauna como que se eclipsou daquele mapa do recôndito transmontano. E, nunca mais.
Um dia, aquele tal diabo que dizem amassar o pão, esqueceu-se de passar por ali. Não era preciso. A CEE, com o seu manancial técnico-administrativo, superiormente dotado, havia decretado o fim do cereal em Trás-os-Montes, da mesma forma que havia calculado que, na Europa, se devia conter a actividade agrícola e deixar de produzir o cereal excedentário que era o trigo. Portanto: trigo era para diminuir.
Esses burocratas, paridos na classe estupidificante e instalada que se chama classe política de Bruxelas, não mais tinham do que cumprido com o seu papel picuinhas de zeladores das imbecilidades de uma gestão europeia que, para além de uma garantia monetária consistente em relação ao dólar (até ver), nada mais tem feito senão ordenar este espaço europeu à feição dos grandes interesses económicos dos senhores do lauto capital. Mas a verdade, era essa mesma: aquela gente que, no ano anterior, tinha plantado hectares imensos de trigo e centeio, abandonava agora os campos, deixando-os ao critério do caos!
Diziam então, que havia trigo a mais, que a Europa rebentava de cereal, que se devia reduzir a produção.
Nós não percebíamos, porque, todos os dias, as TVs nos lancetavam com notícias de fome generalizada no mundo, com imagens de crianças que morriam sem nunca terem sentido na boca o sabor de um pedaço de pão. Mas a realidade não deixava espaço de contestação: a Europa produzia demais. Havia cereal a mais. Havia que cortar.
E, nos anos que se seguiram, foi um ver se te avias: campos, jeiras, planícies, regadios, sequeiros, vinhas, pomares, olivais, pescas, agropecuária, enfim, tudo era excessivo. E, em nome desse excesso, sabe-se lá gerado em nome de que fartura, acabou-se com tudo!

A situação portuguesa agrícola, piscatória, agro-pecuária, está hoje, definitivamente, num estado ruinoso, dificilmente reversível. Mesmo que se queira dar a volta a isto, não sei se será tarde de mais: já cá não há gente capaz de apanhar as rédeas do desenfreado cavalo da falta de visão do futuro. Mas, há quinze anos, havia!
No fundo, desarmamos a geração que, provavelmente, havia de salvar o mundo da fome!
E é esta ideia, às vezes tão acutilante que faz doer, que me magoa.

Corre o tempo célere, mas o espaço deixa memória. O espaço, a terra.
Do resto, das coisas que a inteligência do Homem decretou, a memória não tem amarra.

Hoje, o pão falta.
Hoje, o pão falta como sempre faltou. Nós, é que julgávamos, na nossa prosperidade fictícia, que ele era demais.
O diabo esqueceu-se de amassar o pão com que pretendia tornar os nossos dias em dias de sofrimento.
Não foi preciso: os burocratas europeus fizeram-lhe o serviço.
O Diabo está desempregado.

(476)

ENTRE A ARROGÂNCIA E A MÁ-CRIAÇÃO

por Francisco Gouveia, engº

(A guerra entre a Ministra da Educação e os Sindicatos dos Professores atingiu um ponto sem regresso. Desde que a Ministra lhes retirou do “activo” os 1300 professores que não faziam nenhum por serem delegados sindicais, que estavam à espera de uma oportunidade para a “vingança”. Esta veio agora com a lei da avaliação, lei sem pés nem cabeça parida no seio da poderosa, burocrática e incompetente máquina do Ministério, e a que a Ministra inexplicavelmente, deu a cara.
A ministra não recua e age com uma arrogância condenável, em confronto com os Sindicatos que perderam de vez a compostura, enveredando pela confrontação, humilhação e má educação.
Para bem do ensino e defesa da democracia, era bom que ambos se demitissem: Ministra e responsáveis sindicais. Já cá só andam a estragar.
Mas o pior está para vir, com a partidarização e politização das Direcções escolares.
E assim vai o ensino em Portugal)

Olho para esta disputa sem nexo, entre a Ministra da Educação e os Sindicatos, e faz-me lembrar as chegas de bois no Barroso: violentas, bárbaras, mas, ao mesmo tempo, tradicionais e culturais (até podem ser). A forma como, desde há muitos anos, os Sindicatos dos Professores se têm relacionado com o Ministério da tutela, nunca foi pacífica, contudo, nunca como hoje as posições se estremaram tanto. E, vejam lá: mesmo depois de três programas sobre o assunto no horário nobre da RTP e no programa político mais visto pelos portugueses, que continuamos ser perceber o que, realmente, os divide. Fala-se no sistema de avaliação, que não é justo, que é assim e que é assado, mas, no concreto, está tudo por explicar.
Por outro lado, creio ter já havido (noutras alturas), motivos mais importantes para que houvesse uma real contestação dos professores, especialmente quando estavam em jogo princípios elementares que colocavam em causa a qualidade do ensino. Então porquê, só agora, e quando a questão se prende com a avaliação, se faz tanto alarido?
Vejamos algumas premissas do assunto.
Por exemplo: basta uma leitura ligeira do documento para se verificar que aquilo não tem pés nem cabeça. Mais uma vez a máquina trituradora e burocrática do Ministério da Educação (uma das mais poderosas e retrógradas) pariu uma imbecilidade. Daí que, a Sª Ministra não tenha razão. Assinou um mau documento, devia reconhecê-lo e recuar. Mas não o faz. A Sª Ministra, de igual forma e comportamento que muito dos seus colegas de Governo, assume uma arrogância quase doentia perante factos. Mas, por outro lado ainda, ninguém espere que Sócrates a demita. Depois da substituição do da Saúde, Correia de Campos, o nosso primeiro perdeu uma óptima oportunidade para fazer uma remodelação governamental a sério e, assim, serenar as hostes. Não o fez, talvez pela mesma arrogância que se orgulha de transmitir aos seus pares. Mas, caso demitisse a Ministra da Educação, entraria numa espiral sem controlo porque toda a Oposição se aperceberia que, centrando os ataques num ministro só de cada vez, Sócrates iria cedendo. Seria agora o da Educação, depois (talvez) o da Agricultura, depois (quem sabe?) o das Finanças, mais tarde (quem o adivinharia?) o da Administração Interna.
Não. Sócrates não vai cair nessa esparrela. A Ministra fica e não cede.
Mas neste jogo de interesses que há muito ultrapassa o âmbito meramente educativo, os Sindicatos também não estão isentos de arrogância e, o que é pior, de uma péssima imagem de má educação. Quem os viu nos tais debates televisivos e nas constantes intervenções públicas, concluiu exactamente isto. Convém não esquecer que foram estes mesmos Sindicatos que, antes da chegada desta Ministra, tinham 1300 professores sem leccionar porque estavam agregados à actividade Sindical. Creio que, ao diminuir estes números para (creio) 300, esta Ministra comprou uma guerra que agora atingiu o auge. Os senhores todo-poderosos dos Sindicatos dos Professores, e que, afinal, são igualmente responsáveis pelo actual estado do ensino, desde essa altura que se melindraram, sempre à espera de uma oportunidade para se vingarem da Ministra. E esta, ingenuamente, deu-lhes o tal motivo que tanto ansiavam, gerando uma lei que mexe com a forma de classificação de professores e, por arrasto, com os seus vencimentos, progressões e, o que talvez seja o mais importante, com o tecto salarial máximo a que aspiram aquando da reforma.
Os Sindicatos perceberam que tinham nas mãos a arma capaz de mobilizar a classe, e não a desperdiçaram. Mas, em vez de discutirem a lei e apresentarem alternativas, optaram por outra estratégia: a do confronto directo, violento, demagógico, chegando ao ponto da má educação, do insulto, da humilhação. Ao fim e ao cabo, uma péssima atitude de quem tem, e muito para além da actividade sindical, o dever de criar uma imagem de seriedade que represente o nível dos seus representados, professores, gente em quem depositamos a responsabilidade da educação científica (e não só) dos nossos filhos. E, sejamos caros: a imagem que os professores estão a dar, é por demais negativa. Por muita mobilização que os Sindicatos tenham conseguido, o facto é que a opinião pública está, dia-a-dia, a ver a classe dos professores como um grupo que apenas pretende manter privilégios e reage com rudeza de cada vez que estes são postos em causa.
Temos assim, por um lado, uma Ministra arrogante, que sabe que fez uma péssima lei mas que insiste em mantê-la intocável, e, no lado oposto, os poderosos Sindicatos dos Professores que, desta vez, ultrapassaram os limites da contestação com uma má-criação de arrepiar.
Pelo meio, quem manda, Sócrates, não deixará de apoiar a Ministra. Mas, em abono da verdade, o que se exigia era que este assunto fosse resolvido com novos protagonistas, isto é, da forma que as coisas estão, e para defesa não só do ensino, como dos professores, como dos alunos, como da própria democracia, era necessário que se demitissem ambos: Ministra e responsáveis sindicais. Ao estado extremado a que as coisas chegaram, não creio que haja volta a dar-lhe. Nem acho que uma intervenção do Presidente da República que, mais tarde ou mais cedo terá que mediar, possa resolver seja o que for.
Estamos num país de capelinhas, de quintarolas, onde cada um cerca de arame farpado a sua área como se ela fosse sua exclusiva. O país, na sua globalidade, não é gerido com saber e, de cada vez que se mexe no cercado de uma dessas quintas, cai o Carmo e a Trindade.
Faziam um grande favor ao país se ambos se demitissem e novos protagonistas, mais serenos, pudessem resolver o assunto.
Mas como sei que isto é uma utopia, fico com a certeza de que o nosso debilitado e paupérrimo sistema de ensino vai continuar a ser medíocre, pouco exigente, incompetente.
Depois. Bem, depois há a questão, muito mais importante, da gestão das escolas, com a participação das autarquias, etc., etc., etc., num diploma que está por aí a rebentar e que vai partidarizar as Direcções escolares, prevendo-se, com esta lei, que os sistema de ensino dê o “berro mestre” (para não lhe chamar o verdadeiro nome).
Mas isso é outra estória, muito mais complexa, muito mais importante, mas a que ninguém parece estar a dar a devida atenção.
Agora, o que está na mesa, é uma tal avaliação.
Uma “chega” à moda do Barroso, entre Sindicatos e Ministra. Mas sem a genuinidade, a veracidade e a grandeza com que, nos planaltos de Montalegre, os bois medem a sua virilidade.

(477)
ALIANÇA NOVA PARA UM IDEIA VELHA

por Francisco Gouveia, eng.º

(A “Douro Alliance” é o retomar da velha ideia do eixo Lamego/Régua/Vila Real, que ficou pelo caminho.
Parece que, finalmente, os novos autarcas perceberam a importância desta aliança.
Espera-se somente que não cometam os erros dos seus velhos antecessores)

Mais vale tarde do que nunca. Por isso se saúda o recente protocolo celebrado entre as autarquias de Lamego, Régua, Vila Real, e a Direcção Geral de Ordenamento do Território, no sentido de ser criada uma aliança entre estes três concelhos de forma a criar-se o que agora se designou por “Douro Alliance” e que mais não é senão o retomar do velho projecto do eixo urbano Lamego/Régua/Vila Real.
A ideia, em abono da verdade, tem barbas, e há anos que foi proposta tendo-se, inclusive, formalizado com pompa e circunstância. Contudo, o certo é que os autarcas da altura, Manuel Martins de Vila Real (agora finalmente reconvertido ao projecto onde, na devida altura, não pregou prego nem estopa), António Santos de Lamego que nunca se entusiasmou pelo projecto, assim como Vítor Almeida, da Régua, deixaram morrer o que poderia ter sido um empurrão no desenvolvimento da região. A recente história deste país já nos tinha ensinado, com o sucesso do eixo Castelo Branco/Covilhã/Guarda, que veio dar um impulso como nunca se viu na Beira Interior, que estas parcerias entre cidades próximas resultavam da mesma forma que o velho ditado nos ensina que “a união faz a força”. A vitalidade que a Beira Interior adquiriu, entretanto, e por via desta estratégia, não deveria deixar dúvidas sobre o caminho a seguir. Contudo, e maugrado estas verdades, a falta de interesse, empenhamento, preguiça política, eu sei lá mais o quê, aniquilou durante muitos anos o projecto. Até agora.
Não vou falar, porque já toda a gente falou, e porque se tornaria fastidioso enunciar aquilo que qualquer um pode ler no documento de formação da Alliance, do que ela representa. Falo sim da vontade política de quem, em boa hora, resolveu retomar uma grande ideia e dar-lhe forma. Estão de parabéns os “novos autarcas”, Francisco Lopes e Nuno Gonçalves, sinal de que, afinal, mesmo com as limitadíssimas restrições orçamentais que possuem, têm visão de futuro que chegue para perceber a importância do acordo. Nem tanto Manuel Martins, que afinal já é “velho” nestas andanças e que esteve na primeira versão. Aliás, e aqui fica o aviso, não se espere que Manuel Martins seja um pólo dinamizador nuclear deste Douro Alliance. Os condicionalismos da sua polémica reeleição não lhe davam outra alternativa. Por isso, os autarcas de Lamego e da Régua que se cuidem porque terão que ser eles a “dar à perna”, se não quiserem que aconteça a esta Aliança o que aconteceu ao falecido Eixo. Seja como for, louva-se a participação de Manuel Martins, assim como se espera que artigos de opinião como este o espevitem a participar com mais empenho nestes projectos comuns.
No fundo, transformar as três cidades, que distam entre si a módica distância de 30 quilómetros, num pólo único onde uma série de equipamentos, serviços, potencial empresarial, etc., se possam concentrar, admitindo que não se está a trabalhar numa cidade de meia dúzia de habitantes mas num aglomerado constituído por três, e para um universo de 100 mil habitantes, é merecedor da atenção, quer das entidades oficiais, quer do mundo empresarial.
Para já há verba para se iniciar o projecto, e se os autarcas envolvidos estiverem, como eu estou, convencidos que estão a fazer História, estou certo que desta vez é que vai ser.
Que seria de nós se não fosse a esperança?

(478)

FOME!

por Francisco Gouveia, eng.º

(E dizem os inteligentes: os preços dos produtos alimentares têm que aumentar porque se está a produzir pouco.
Só vai nesta conversa vigarista, quem quer.)

Cada vez mais os Governos são mandaretes dos interesses do grande capital. E quando falo no grande capital, não falo do regime capitalista em si, na sua essência liberalista e criadora de oportunidades, mas sim da concentração financeira nas mãos de meia dúzia, na voragem desenfreada de lucros das empresas, na monopolização das actividades económicas, no abuso dos Concelhos de Administração de certas empresas, enfim, na selvajaria, na ganância, na sede insaciável de dinheiro que grassa pelo alto capital desse mundo fora.
Esgotadas que começam a estar as oportunidades de negócio no mundo da Bolsa, estando o sistema abalado pela crise económica que se instalou nos EUA, com o terrorismo a demonstrar que, quando quer, faz tremer a economia mundial, com uma administração americana que durante estes anos mais não fez senão propagandear a guerra e dar livre freio às empresas petrolíferas para fazerem disparar o preço do petróleo para níveis inconcebíveis, havia que procurar outros campos onde especular. Por isso não me espanta que os “entendidos” nestas coisas de ganhar dinheiro sem mexer uma palha, tenham descoberto nos mercados de produtos alimentares essenciais, um campo de actuação especulativa onde fazer milhões. Daí a colocar nas ondas da Bolsa, os cereais, foi um passo de pardal. E os grandes media, a maioria pertença das mesmas empresas que especulam, alinham num coro comum de justificar a subida súbita do preço, pela escassez das produções, pela utilização dos cereais em produtos bioenergéticos, etc, etc, etc. Isto é, parece que o mundo anda a produzir poucos alimentos, e o que produz é desviado para outros fins que não a alimentação humana. Esta treta corre de jornal em jornal, de TV em TV, com os “sábios” do costume a justificarem deste modo a alta dos preços cerealíferos. Começaram pelo trigo e pelo arroz, mas a coisa parece não ir ficar por ali e já se anuncia uma subida generalizada dos preços alimentares para patamares que, a verificarem-se, vão contribuir para o agravamento da fome, quer nos países do terceiro mundo que já sofrem com a tragédia, mas também em países (como o nosso) onde os índices de pobreza ainda são significativos (vergonhosamente significativos).
Mas vejam: o relatório da FAO do ano passado, alertava os países ricos da necessidade de serem mais solidários com os países pobres, e que deviam contribuir mais para debelar a fome no mundo, tanto mas que esse mesmo mundo mais rico, era excedentário em produtos cerealíferos e em lacticínios (por exemplo). Então quer dizer: de 2007 (ainda tão perto) para 2008, o mundo tornou-se deficitário de repente! Mas haverá alguém que acredite nisto?
A questão é outra. Como disse, a especulação do alto capital mundial resolveu, pura e simplesmente, virar as suas atenções para um sector essencial. Depois de ter colocado outro sector estratégico (o petrolífero) à mercê da sua voragem, aumentando preços até ao limite do insuportável, resolveu agora virar-se para os bens alimentares essenciais para, com certeza, fazer o mesmo, isto é, preparar uma escalada de preços.
Inexplicavelmente, os Governos europeus têm alinhado nesta bandalheira, sinal evidente de que há muito que estão reféns das grandes empresas monopolistas. Veja-se, por exemplo, o que se passa com a subida dos combustíveis em Portugal. Desde o princípio do ano que os combustíveis já aumentaram 14 vezes, o que significa que aumentaram praticamente todas as semanas (ora façam lá as contas). E a maioria dos aumentos é injustificável. Por outro lado, tem havido baixas no preço do barril de crude sem que essas rebaixas tenham sido acompanhadas pela correspondente baixa no preço das gasolinas. Até por cá, as empresas petrolíferas caseiras fazem o que querem. É claro que as consequências para a economia nacional estão a ser desastrosas, mas o Governo quer lá saber! Ganham as grandes Companhias, ganha o Governo e o resto que se lixe!
Muito brevemente (tomara que estivesse enganado) iremos assistir a fenómenos de especulação no sector alimentar. Definitivamente, o selvático capital caseiro e mundial, assentou atenções neste sector onde vê oportunidades de negócio quase ilimitadas. Fome, meus amigos, já cá há que baste, mas vai aumentar, vai chegar a camadas de população de rendimentos medianos que, até agora, lá iam garantido a sopa e o pão.
E observem este pormenor interessantíssimo perpetrado pela digníssima Comissão de Agricultura da União Europeia. Não foi há alguns anos que a mesma Comissão indemnizou agricultores europeus para que abandonassem as culturas cerealíferas porque achavam que a Europa produzia cereal a mais? E vêm agora dizer que se produz pouco?
Uma coisa é certa: a fome, que já ronda por aí como a besta negra que é, veio para ficar, alastrar, matar. Enquanto isso, biliões e biliões de Euros e dólares enchem os cofres dos senhores do mundo.
E assim vai o país, assim vai o mundo.
Até um dia.

(479)

VENHA OUTRO

por Francisco Gouveia, eng.º

(Uma das questões que mais me espanta nas sucessivas políticas agrícolas impostas por Bruxelas, é esta coisa inexplicável: como pode a UE limitar produções agrícolas em países que não são auto-suficientes nos produtos alvo dessas limitações produtivas?
Já para não falar das pescas: como se pôde aceitar a destruição da nossa já modesta frota pesqueira, num país que vive todo virado para o mar?
Mas foi assim: troco de trinta dinheiros, rendemo-nos a Bruxelas.
Agora, não sei como vamos sair desta teia. Só sei que precisamos de um Ministro da Agricultura a sério. O que temos não serve.)

Finalmente a comunidade europeia resolveu levar a sério a questão da agricultura. Largos anos em que a gestão do sector assentou no princípio da contingentação, no controle das produções, nas indemnizações para abandono de actividade e na subsidiação sem nexo, as políticas da UE deram no que se sabe: exposição da actividade agrícola à especulação dos mercados e destruição do mundo rural.
Em Portugal, este fenómeno sentiu-se de forma aguda, amiúde, passando o seu estado a crónico. De igual modo as pescas se ressentiram das políticas restritivas, podendo considerar-se sem demagogia, que o sector praticamente morreu. O que existe ao nível das nossas pescas, é pouco e quase insignificante. A realidade aponta para esta verdade trágica: a troco de alguns milhões com que e UE nos foi pagando a nossa destruição económica, milhões esses que serviram para muito especulador enriquecer e muito político vencer eleições, aceitamos impávidos e serenos a destruição do nosso mundo rural e das pescas.
E há uma questão que sempre tenho colocado, e à qual ainda nenhum senhor deputado europeu conseguiu dar-me resposta: como é possível limitar produções em países que não são auto-suficientes nos produtos alvo das limitações?
Mais. Como foi possível aceitarmos a destruição da nossa frota pesqueira, quando somos um país que vive praticamente todo voltado para o mar?
O facto é que isto aconteceu, com a nossa conivência, sem protesto, com uma submissão quase humilhante perante o poder de Bruxelas que fez de nós gato e sapato.
Chegamos à triste situação de ter de importar quase tudo. Podíamos e devíamos ser auto-suficientes em carne, lacticínios, azeite, óleo, arroz, trigo, etc., etc., etc., mas o facto é que não o somos. Produzimos uma nica de nada e o resto vem tudo de fora. E não se trata somente de uma questão de preços, ou seja, de que os produtos que importamos são muito mais baratos do que se produzidos aqui. Esta é uma redonda mentira. O que se passa é que, com as restrições da UE, as explorações agrícolas foram acabando, umas, e outras foram-se reduzindo. Não houve uma política nacional expansionista do sector agrícola para que se pudesse produzir aos preços que agora pagamos ao estrangeiro. Sem uma agricultura forte, estávamos à espera de quê?
Os mais sensatos, sabiam que esta escalada de asneiras da UE iria dar maus resultados. O facto é, actualmente, com a crise que se instalou no sector alimentar, crise essa que vamos pagar caro e que vai agudizar as condições de vida de muitos portugueses que já mal ganham para pôr uma sopa na mesa todos os dias, acordou os burocatras de Bruxelas, para não lhes chamar outra coisa, que agora aqui d’el rei que é preciso dar mais atenção à agricultura e rever urgentemente os critérios e programas que estão a ser aplicados!
Mas vêm tarde e a más horas, pois a maior parte da população agrícola está envelhecida e aquela juventude que poderia ter sido criada na tradição do trabalho nos campos, debandou e não volta mais. Quem quer agora pegar no amanho das terras e fazer vida à custa da agricultura?
Até isso a UE destruiu: a juventude com raízes na terra que poderia suceder aos velhos agricultores.
Em Portugal, a somar a estes factores negativos, acresce o facto de que, para além de os nossos Ministérios da Agricultura nunca terem entendido que o país era também e principalmente, um país de agricultura diversificada, para a qual eram necessárias políticas de protecção e incentivação (e não políticas restritivas), não se vislumbrar no horizonte quem possa tomar conta deste Ministério e dar-lhe um rumo. O actual ministro, desajeitado, quase sempre em “guerra” com os agricultores, mais não passa do que um gestor das políticas de Bruxelas. Não se lhe conhece alguma ideia válida para reformar o sector, e o que é pior, não se lhe vê vontade política de assumir a ruralidade de um país que se está a destruir exactamente porque o seu panorama rural está destruído. A desertificação é uma consequência da destruição desse mundo. Mais do que qualquer outro Ministério, devem ser imputadas ao da Agricultura, a quota maior de responsabilidade neste flagelo.
Não sei como se há-de resolver este imbróglio. Em seu tempo, sabia, quando a doença ainda tinha hipóteses de cura. Agora, fico perplexo perante a gravidade do problema e a falta de condições para implantar no terreno qualquer política, por muito boa que seja. Contudo para já, era preciso que Sócrates substituísse o actual Ministro. E o substituísse por alguém que, de facto, não só soubesse mais da matéria mas também tivesse alguma ideia sobre a forma de revitalizar a nossa agricultura e as nossas pescas.
Este Ministro nem sequer deu o que tinha a dar, porque não tinha nada para dar. Não passa de um Director Geral encarregado de gerir o que Bruxelas quer. E nós precisamos de um Ministro. De um Ministro a sério. Coisa que este não é.

(480)

HOJE, REMATO EU!

por Francisco Gouveia, eng.º

(Está difícil de perceber que Portugal não tem estrutura para sustentar o futebol que tem. E como o país nunca terá essa estrutura, terá que ser o futebol a mudar de rumo.
Quem, em devida consciência, acha que, de facto, os clubes podem viver como vivem, com as parcas receitas que têm?
Será que os senhores do futebol sabem o que é o semi-amadorismo?)

De vez em quando dá-me para meter a minha colherada no mundo do futebol, pois não sou mais do que os outros e, se há assunto que este país saiba discutir, é a bola. Não sabe de mais nada, mas de futebol, toda a gente sabe opinar. Sendo assim, não fujo à regra. E se hoje venho a terreiro “mandar umas bocas” para a fogueira futebolística, tenho algumas razões.
Comecemos pela primeira.
Tenho para mim que o melhor programa de televisão actualmente, é a Liga dos Últimos. Este programa percorre o país de lés a lés e mostra, sem retoques, a nossa triste realidade. Ver este programa é compreender porque somos como somos. Ali está espelhada o húmus deste povo: ignorância, boçalidade, iletracia, inconsciência, falta de exigência, alcoolismo, enfim, o miserável rol dos nossos erros e defeitos.
Sob este aspecto, quer o programa, quer o futebol, estão de parabéns por nos mostrar a face intocável da nossa realidade social, cultural e futebolística.
Em segundo lugar porque o degradante espectáculo que vimos assistindo diariamente no nosso mundo futebolístico, parece não preocupar os responsáveis. Clubes com défices de milhões, perfeitamente disfarçados em SADs que prometem equilibrar o que não tem equilíbrio, jogadores sem receberem salários em clubes que, na época seguinte gastarão milhares em novas contratações, estádios vazios, receitas de quotizações que mal dão para pagar à EDP a electricidade gasta, dirigentes desportivos a enriquecerem enquanto os clubes se afundam, árbitros sob constante suspeita, apitos de todas as cores, etc., etc., etc.
No fundo, parece que ainda ninguém se convenceu que o país não suporta o futebol que tem. É normal estabelecermos como meta para o nosso futebol, as grandes Ligas europeias e, viciadamente, só termos como bitola uma Inglaterra, uma Itália ou uma Espanha. O resto dos países da Europa parece terem-se evaporado. Alguém se preocupa em saber como é o futebol na Suécia, na Dinamarca, na Suiça, na Bélgica? Porque será que queremos manter esta mentira constantemente: a de que é possível, em Portugal, ter um Campeonato com o profissionalismo ao nível dos países do topo da Europa do futebol?
Somos meia dúzia de gatos-pingados, com uma débil economia, com clubes assentes em cidades com pouca população, com receitas baixíssimas mas que são as possíveis, e queremos pagar ordenados de milhões, contratar jogadores de milhões, ter estádios de milhões. Será que é difícil perceber que há países muito mais evoluídos economicamente do que nós e que, mesmo assim, optaram por um futebol semi-amador, ajustado às possibilidades dos clubes?
Por cá, os clubes gastam o que não têm, sempre à espera do subsídio autárquico (venha ele directamente ou pela porta do cavalo), esticam o preço dos bilhetes ao limite do irrazoável, esperam ter a sorte de negociar algum jogador que lhes salve a tesouraria, apoiam-se em alguns mecenas que mais não pretendem senão adquirir algum protagonismo com o tempo de antena que este desporto tem, vivem com o credo na boca, e, se o clube tem a sorte de andar lá por cima na tabela, ainda se vai ganhando para as despesas, mas como nem todos podem andar lá em cima, haverá muitos que terão de andar cá por baixo, e, logo a partir do meio da temporada, começa o descalabro: contas por pagar, salários em atraso, dívidas a acumular.
Podem dar as voltas que quiserem, mas a verdade é esta: Portugal tem uma estrutura económica e demográfica, incompatível com o sistema altamente profissional do seu futebol. Os clubes portugueses só podem subsistir num regime, no máximo, semi-amador, ao estilo praticado por uma Suécia (que até poderia sustentar um regime mais profissional), por exemplo. O dinheiro não dá, nem dará, para mais. Mesmo os três grandes, que se cuidem, pois apesar de andarem lá por cima e até fazerem figura nas competições europeias, têm dívidas acumuladas de arrepiar os cabelos.
Mas a grande culpa desta situação, é dos sucessivos governos que toleram as dívidas fiscais, e dos tribunais que não punem devidamente os devedores.
Não é o Apito Dourado que devia estar no banco dos réus. As relações nebulosas dos árbitros com os dirigentes só são possíveis num mundo futebolístico como o nosso onde o dinheiro circula para todo o lado menos para as Repartições de Finanças. São as dívidas reais dos clubes, ao Fisco, aos jogadores, aos credores em geral, que deveriam estar a ser julgados. Se o fossem, talvez o futebol luso ganhasse tino. Assim, continuaremos a ter mais do mesmo: um futebol caloteiro a viver de demagogia e expedientes.

(481)

SER OU NÃO SER OPOSIÇÃO,
EIS A QUESTÃO

por Francisco Gouveia, engº

(Ferreira Leite deve ganhar as eleições no PSD. Contudo não creio que algum dia venha a ser Primeira-Ministra. Julgo que a sua missão é outra: unir o partido e conseguir que o PS perca a maioria nas legislativas de 2009. Porque a sobrevivência do PSD passa por poder assumir-se como uma Oposição eficaz, com voto na matéria, não como agora acontece. Por causa de uma maioria que abusa do poder e vota sem precisar de negociar, a Oposição está reduzida a um palratório inconsequente)

O mal da Oposição em Portugal, é a sua ineficácia. Por muito boas ideias que tenha, esta Oposição esbarra sempre com uma maioria na Assembleia da República, tornando ineficaz qualquer iniciativa.
Há muito que os portugueses deviam ter aprendido que este país só faz asneira quando um partido conquista a maioria absoluta. Aquilo que se passa neste momento no PSD não é mais do que uma consequência dessa maioria. Caso ela não existisse e sobre o PSD caísse a responsabilidade de fazer oposição verdadeira, com consequências práticas, o partido nunca chegaria a este ponto de indecisão, falta de liderança, falta de unidade, falta de programa. Mas a política é mesmo assim, e uma Oposição de pés e mãos amarradas, é desmotivadora. Por isso, no próximo dia 31, o que se vai decidir nas eleições no PSD, não têm somente a ver com aquele partido. Tem a ver com o próprio interesse nacional no sentido de que, se delas sair uma liderança forte e esclarecida, as alternativas vão ser efectivas e o PS terá de rever a sua maneira de governar até 2009.
A Drª Ferreira Leite apresenta-se, à partida, como a candidata com mais probabilidades de ganhar. E já agora, e tratando-se de directas, creio que o PSD cometeu um erro ao optar por este sistema sem que lhe acrescentasse uma necessária segunda volta. Assim, o candidato que saísse de uma eleição, se não conquistasse a maioria absoluta à primeira, teria que a conquistar à segunda, e um eleito com uma maioria absoluta teria outro peso. Mas, e voltando a Manuela Ferreira Leite, não me convenço que algum dia venha a ser Primeira-Ministra. Tem 68 anos (não é bonito falar da idade de uma senhora mas que lhe hei-de eu fazer?), terá quase setenta nas próximas legislativas e, talvez por isso, não foi pacificamente que aceitou esta candidatura. Creio que foram precisas muitas horas de conversa e a insistência de muitos militantes importantes, para que aceitasse este desafio. No fundo, Manuela Ferreira Leite tem duas missões pela frente: unir o partido e fazer com que Sócrates perca a maioria absoluta nas legislativas de 2009. E se conseguir vencer estes dois desígnios, poderá dar a sua missão como cumprida. Isto porque o PSD na Oposição, com a responsabilidade de ser Oposição efectiva, com voto na matéria, contando efectivamente para a elaboração dos textos legislativos e tendo intervenção real nas reformas, criará outro sentido de responsabilidade, outra força, outra motivação.
Contudo, da forma como o PS açambarcou a máquina do Estado e da forma como Sócrates tem gerido a demagogia, será muito difícil derrotá-lo nas próximas legislativas. Mas que pode levar um forte abanão, lá isso pode!
E creio que a Ferreira Leite não se poderá exigir mais. Primeira-Ministra em 2013? Não creio. Muito antes, já Ferreira Leite terá passado a pasta a outro líder. Quem?
É aqui que entram os dois candidatos restantes, os dois Pedros: Santana Lopes e Passos Coelho. O primeiro a tentar segurar a sua ala e o segundo a tentar conquistar o seu espaço. Creio que nenhum destes dois vencerá agora, mas possivelmente serão candidatos a uma próxima reviravolta no PSD, em preparação às legislativas de 2013.
O PSD é um partido demasiado importante na nossa vida política para que se desbarate em questiúnculas internas, esquecendo-se que existe para servir o país e nada mais. E servir o país é, neste momento, obrigar Sócrates e repensar a sua forma de gerir os dossiers mais complicados. Mas ele, numa teimosia mais demagógica do que sábia, tenta dar uma ideia de determinação, mesmo que para isso insista nos maiores disparates. Uma coisa é certa: é muito perigoso dar a maioria a um partido só. Caso Sócrates não tivesse a maioria absoluta, Portugal estaria melhor. Este Governo é um poço de conflitualidade permanente, desassossego e abuso de Poder. É também motivo de desagrado para os verdadeiros socialistas que não se cansam de criticar a visão anti-social do Primeiro-Ministro. Com uma maioria relativa, nada disto aconteceria. E é aqui que o PSD aposta. Na perda desta maioria. Mas para isso precisa de uma liderança forte, de um programa exacto, de ideias próprias. O país, caso verifique que o PSD não as tem, voltará a cair na esparrela de Sócrates e a dar-lhe a maioria que lhe tem permitido passear-se pelo palco da nossa política com condenável arrogância.
Mas, repito, estas eleições no PSD deveriam ter uma segunda volta.
Ferreira Leite, creio eu, vai ganhar com uma certa folga, mas não a suficiente para tomar conta do partido sem a certeza de que num futuro próximo, a conflitualidade volte a visitar os sociais-democratas.
Entretanto, se o PSD conseguisse, finalmente, afirmar-se como Oposição credível, já não seria mau. Pelo menos, travaria as diatribes deste Governo e obrigá-lo-ia a ser mais rigoroso e dialogante.
A ver vamos.

nota: este artigo foi escrito a 26 de Maio, antes das eleições do dia 31.

(482)

PRIORIDADE IRRESPONSÁVEL

por Francisco Gouveia, eng.º

(Esta de o Governo criar um Seguro que proteja os Funcionários Fiscais de reporem do seu bolso por erros que cometam, só lembraria a quem não possui a menor ideia do que devem ser as prioridades do Estado.
E os polícias? Possuem seguro de vida caso sejam abatidos em serviço? Ou caso fiquem incapacitados? E as viaturas policiais? Possuem seguro? E os Bombeiros? E o pessoal médico que lida todos os dias com os vírus dos outros?
Caso o Estado entenda fazer seguros, não haverá outras profissões de risco de vida efectivo, que o mereçam? Porque carga de água se hão-de segurar os actos administrativos dos funcionários do fisco?)

Não me restam dúvidas de que o Governo não tem qualquer noção do que são prioridades de Estado. O conceito de prioridade para este Governo, é algo de demagógico, modal, ao sabor de uma ideia lançada por um qualquer “entendido” e tida como revolucionária no seio dos actos governativos.
Vem isto a propósito da recente criação de um Seguro para cobrir os riscos inerentes à actividade dos funcionários das Finanças. Depois da entrada em vigor de uma lei extracontratual que permite aos cidadãos que se considerem lesados pelas Repartições de Finanças, o direito de processarem os funcionários, é evidente que houve uma retracção da actuação desses mesmos funcionários que, se zelosos, poderiam errar e penalizar quem não deviam e sofrer nos bolsos as indemnizações, consequência de um recurso justificado por parte do lesado. O Ministério das Finanças percebeu bem o que estava a acontecer e resolveu criar um Seguro que irá proteger os tais funcionários, cobrindo-lhes os erros e eliminando-lhes os medos por uma actuação mais vigorosa.
A bem da verdade, até se entende o sentido deste Seguro, se bem que era melhor que fosse o próprio Estado a assumir as responsabilidades monetárias dos erros dos seus funcionários e, em caso de erro, penalizá-los em termos profissionais como, aliás, a Lei prevê. Seja como for, o assunto é discutível, mas até aceito as razões do Ministro. Só o que não aceito de ânimo leve é que o Governo se preocupe tanto com a situação dos Funcionários Fiscais (que não correm perigo de vida) e se esqueça de outros funcionários do Estado, como polícias, por exemplo, que, esses sim, lidam com a morte e arriscam a vida, e que nem sequer um Seguro de acidentes pessoais possuem. Nem esse nem nenhum. Veja só: se por acaso um polícia for morto numa missão, ou ficar inválido, quem garante o sustento à família?
A mulher recebe a pensão conforme os anos de serviço que o marido tinha, e pronto!
Mas o ridículo vai mais longe com esta particularidade: como se sabe, as viaturas automóveis da polícia não têm seguro (pois o Seguro, dizem, é o próprio Estado). Numa perseguição a bandidos, os polícias são responsáveis pelos danos que provocarem nas viaturas que conduzem.
Por outro lado, fardas e material, pagam-nas os polícias em regime de amortização.
E então digam-me lá com que espírito pode esta gente enfrentar o crime, sem garantias absolutamente nenhumas de que, em caso de fatalidade, os seus fiquem pelo menos com algum futuro assegurado?
Trata-se de um assunto a que nunca Governo algum ligou nenhuma, e dentro do Estado encontram-se muitas situações deste tipo, onde os funcionários lidam diariamente com situações de alto risco sem que possuam garantias de que, na retaguarda, existe um sistema de protecção eficaz que garanta direitos mínimos e elementares.
Por isso, esta preocupação em proteger os funcionários fiscais (e somente estes) dos seus próprios erros (ainda por cima), neste contexto, cheira a bafio, a podre. É um Estado obcecado com questões de realização orçamental, ao ponto de criar condições excepcionais para que a prática corrente da fiscalização possa realizar-se sem bloqueios mentais. E os restantes? Aqueles que empunham armas atrás de ladrões e assassinos? Aqueles que tanto podem matar como ser mortos? Onde está, aqui, a preocupação do Estado em proteger quem nos protege?
Há coisas impressionantes na governação actual. Disparates que só são possíveis graças ao clima efervescente que se vive, à insegurança, ao temores que esta civilização alimenta todos os dias, à propaganda desmedida do bem-estar fictício e fruto de um arremedo de sorte ou de vigarice, ao autêntico barril de pólvora sobre o qual vivemos. Pensar o Estado com a racionalidade que ele exige é, hoje, uma questão secundária. O principal é objectivar para o próprio dia. Programar ao tempo, já não se usa. O imediatismo dos resultados obriga a que se deixem para trás princípios e valores, que se esqueça a clareza do raciocínio, que se destravem as oralidades, que se esqueçam as prioridades.
Por via desta forma irracional de governar, estamos como estamos, isto é, já somos o país da Europa com maior distanciação entre ricos e pobres. E esta questão não é meramente económica. É uma questão cultural, de cultura política, de estabelecer as tais prioridades sem as quais um país nunca irá a lado nenhum. E quais são as nossas prioridades? Quem sabe quais são?
Quando o Estado de organiza ou reorganiza, como o faz? Por onde há-de começar e como há-de acabar?
O que será prioritário: um TGV ou um bom sistema de Educação?
O que será prioritário: um novo aeroporto ou uma Justiça célere e rigorosa?
O que será prioritário: reconstruir a classe média ou deixar que se cave o fosso entre ricos e pobres?
O que serás prioritário: segurar a vida humana ou os actos administrativos?
Este Seguro para os Funcionários Fiscais traduz a confusão em que caiu a actividade governativa. Parece que já ninguém percebe que, para se subir uma escada, é preciso, antes de tudo, vencer o primeiro degrau.
Tudo na vida deve começar do princípio, não do meio.

(483)
FARTINHOS, FARTINHOS DE OS ATURAR!

por Francisco Gouveia, Eng.º

(A nossa classe política é impotente ou eunuca. Perante o descalabro da subida dos combustíveis, dos bens alimentares, do desemprego, da fome, da miséria, o mais que sabe dizer é que as coisas são mesmo assim, e que se trata da conjuntura internacional, e que não há nada a fazer, e que tem que ter paciência, etc e tal. Nem sequer se lembram que estamos na UE e que há que exigir deste organismo, como representante de um universo de 25 países europeus, que tome medidas.
A classe política portuguesa nem dentro nem fora sabe o que fazer. E políticos que não sabem o que fazer, o melhor seria mudarem de ofício)

Andamos fartinhos de os aturar e eles sabem-no. Ainda recentemente duas notícias deram à baila em desfavor do pouco crédito que nos merece esta gente: em tempos recentes, o Estado adjudicou por 80 milhões de contos uma empreitada relacionada com as comunicações, que valia um quinto! Por outro lado, mais de metade dos nossos deputados da Assembleia da República, está lá em part-time, pois desempenha outras profissões. Mas se fossem preciso mais justificativos da incapacidade, oportunismo e falta de seriedade da classe que nos governa ou quer governar, encontrá-los-íamos ao virar de cada esquina. Esta gente não acerta uma.
Tivemos a faca e o queijo na mão com biliões da Europa para reconverter a nossa indústria, modernizar a nossa agricultura e pescas, reformar a nossa educação, preparar tecnicamente os nossos trabalhadores, e que fizemos? Quilómetros de auto-estradas, CCBs, quintas e herdades, Ferraris, e sabe-se lá mais o quê!
Depois veio a PAC, a malfadada PAC que arrasou com o sistema produtivo substituindo a produção pelo subsídio para se estar a dormir à sombra da bananeira.
Nesta altura do campeonato, a nossa situação é só esta: as reformas da Justiça, da Educação, da Administração, ainda estão por fazer. A nossa indústria praticamente não existe. A nossa agricultura continua medieva e subsidiodependente. As nossas pescas nem barcos têm.
Quanto ao petróleo, o que se esperava: dependentes como sempre fomos deste combustível, nunca acautelámos outras formas de energia alternativa que nos protegesse dessa dependência vital. Em nome de desvirtuados princípios de uma ecologia castradora, recusamos discutir o nuclear quando países que respeitam muito mais do que nós o ambiente, já nos levam décadas de avanço na implementação deste tipo de energia.
No fundo, os nossos políticos não têm tempo (nem sabedoria) para tratar dos problemas do país. Tratam da vidinha, dos tachos, dos salários milionários que lhes acenam nas empresas públicas, palanques por que, afinal, se meteram na vida pública. O povo que se lixe. O povo é voto, nada mais. O país uma treta para embalar patriotas saloios.
Afinal, que sabe fazer esta gente? O que andou a fazer estes anos para levar o país a esta crise? Crise de alicerces, que não os tem.
E agora, quando as coisas se agudizam aos limites do conflito social, que têm para nos dizer?
– Tenham paciência, que isto é da conjuntura, é inevitável, sem solução, é aguentar até que a onda passe.
Pergunto-me muita das vezes, para que serve esta casta de políticos? Que sabem, afinal, resolver? Será que o país representa alguma coisa para eles? Durante algum tempo, ainda pensei que, lá pelo meio, haveria meia dúzia que se aproveitavam. Hoje, já me desiludo, e ao vê-los a trepar para as administrações e a colherem mordomias como cerejas em ramo baixo, acabo por medi-los pela mesma rasa: a rasa da inutilidade.
Estamos fartinhos deles e eles sabem-no, como já disse, mas sentem-se protegidos pela carapaça do sistema que os encobre a todos. E estão-se nas tintas para o que pensamos. O Estado é uma vaca de mil tetas – inesgotável, portanto. Assim o pensam, mas como se enganam! E afinal, as mil tetas da tal vaca, estão a secar, a mirrar. Mas será por isso que as ambições da classe política abrandaram? Nem pensar! Ambição é algo de insaciável, como uma droga.
O nosso mal é termos uma classe política que se serve da política como um meio de atingir fins pessoais.
E é esta gente, armada de retóricas vãs e discursos cozinhados, que nos vem agora dizer que nada há a fazer e que o melhor é aguentar. Como se aguentar não fosse aquilo que vimos fazendo há décadas, desde que se alaparam no Poder e usurparam a democracia em favor próprio.
Agora, com tudo o que é importante por fazer, vão-nos impingir um TGV e um aeroporto que irão hipotecar as gerações futuras. Obras não prioritárias, caríssimas, para satisfazer a avidez dos mestres-de-obras cá da terra. Lá se vai o nosso futuro em carris, betão e asfalto. A Justiça, a Educação e a Saúde não são importantes. Importante é construir um comboio supersónico para que possamos fugir daqui depressa. Se for para isto, até concordo.
Quanto ao resto, é aguentar – dizem eles. Inevitável – acrescentam. Nada a fazer – concluem.
A prova da impotência em governar, ter ideias, arrojo e patriotismo.
Por isso, os nossos melhores não se querem meter nesta pocilga.
Uma pocilga de eunucos políticos, que aturamos com a paciência de santos que não somos mas em que arriscamos transformar-nos.

(484)

QUE SERIA DESTE DOURO, SEM ESTE JORNAL?

Que me perdoem os meus caríssimos colegas da imprensa regional mas, com o devido respeito pelos demais, o Notícias do Douro é um Jornal diferente. Se o Douro tem voz, esta está neste Notícias. História de lutas, disputas acesas, sempre em defesa da verdade, contra aqueles que sempre tiveram o Douro como naco a tragar. E o Douro, como região agrícola mais importante do país e mais conhecida no mundo, é um naco tentador, quer para os de fora (quiçá os menos perigosos), quer para os de dentro, os tais falsos amigos desta terra que dela não mais querem senão a garantia de o poder explorar.
Incómodo, sei de muita gente que treme quando, à quinta-feira, abre este jornal. Consciências pesadas, acho eu, que não é missão deste semanário fazer mal a ninguém. Mas o certo é que a tradição do que por aqui se escreve, impõe que, por vezes, as coisas tenham que ser ditas. É o mundo, a política, os interesses, que são violentos. E quando assim são, como podem ser os retratos que deles aqui fazemos?
O Douro está em mudança. Não sei se para melhor, se para pior. Assustam-me certas eminências que por cá estão a passar com um olho na paisagem, outro no lucro. Assustam-me as promessas de quem manda, porque quase sempre manda mal e, mal a gente se distrai um fósforo, aí estão eles encavalitados no Douro tentando domá-lo à medida do seu trote. E magoa-me que uma terra que foi construída à força de braço, de sacrifício, por gerações de gente pobre que pobre morreu, seja agora o petisco apetecido de quem nunca cá plantou uma erva. É a injustiça do mundo, ancestral: hão-de alguns trabalhar para que outros gozem. E este espírito de defender as raízes do Douro, e aqueles que ainda são capazes de lutar pela glória da terra-mãe sem esperar que esta os carregue de mordomias, continua a pautar as páginas hirsutas do Notícias do Douro.
Muitas vezes me pergunto: que seria deste Douro sem o seu guardião? Porque, quer queiram quer não, o ND é o guardião do muito que resiste no Douro. Nunca se fez a experiência, e oxalá nunca se faça, de acontecer a este Douro a mudez do ND. Como seria? Que aconteceria?
Não sei, mas sei que algo seria diferente, que um estranho vazio havia de invadir o Vale como um silêncio amordaçado, garganta que quer gritar e donde não sai um ai!
O Douro precisa tanto do Notícias do Douro, como o Notícias do Douro não teria razão de existência sem ele. Um e outro são como que almas gémeas, inseparáveis. E os anos por que têm passado juntos, as vicissitudes que têm ambos enfrentado, têm dado ao ND a força necessária para prosseguir. Hoje como ontem, amanhã como hoje, na defesa intransigente dos valores maiores que faz desta terra uma terra de excepção, o Notícias do Douro prosseguirá o seu caminho de busca da verdade, de defesa deste património que outros nos deixaram para cuidar.
Assim terá que ser.
Neste aniversário, ao seu director, pessoal administrativo, colaboradores e, muito especialmente, aos leitores que semanalmente não nos dispensam, os meus penhorados votos de Feliz Aniversário.

Francisco Gouveia

(485)

O SENHOR DEPUTADO ASSUSTOU-SE!

por Francisco Gouveia, eng.º

(O Dr. Jorge Almeida assustou-se com o anúncio de uma série de melhoramentos importantíssimos que a Câmara da Régua pretende executar e que, a concretizar, será o adeus definitivo das aspirações políticas do senhor deputado à Presidência da Câmara Reguense.
Vai daí, numa atitude precipitada, resolve usar a sua prerrogativa de deputado à AR, e requerer esclarecimentos ao Ministério da Defesa sobre a transacção do imóvel onde parte dos tais melhoramentos vão ser construídos.
Ao tentar protelar as obras, deu um tiro no pé, e vai deixar o seu partido – PS – ficar mal na fotografia)

A Câmara Municipal da Régua, ao anunciar a intenção de levar a cabo, de uma assentada, a execução de uma série de equipamentos fundamentais para a sua categoria de cidade com mais tradição no contexto duriense, talvez não imaginasse os sustos que iria provocar em alguns dos seus mais importantes munícipes, nomeadamente os da Oposição. Mas o facto é que pôs o PS local em autêntico alvoroço. Vejamos porquê.
Desde sempre que o grande problema da Régua tem sido a disponibilidade de terrenos para implantar equipamentos. A cidade está encravada entre vinhedos classificados, a topografia é agreste, o espaço urbano disponível reduzido. A última grande obra (emblemática) data do tempo de outro autarca do PSD (eng. Álvaro Mota) e trata-se da Avenida do Douro, obra que veio abrir a cidade ao rio, e, ao mesmo tempo, criou um cartão de visita que a catapultou uns pontos acima. Álvaro Mota governou até 1998, altura em que entra em cena o Dr. Vítor Almeida, do PS que, durante os anos seguintes fez com que a Régua perdesse o seu tempo. Foi um mandato pobre, sem ideias, pachorrento, até que, em 2005, Vítor Almeida é derrotado pelo actual Presidente, deixando o concelho pouco melhor do que o tinha encontrado.
Comparativamente aos concelhos vizinhos, e atendendo a que muitos deles não possuem a dimensão política nem histórica da Régua, esta está deficitária em termos de equipamentos básicos que hoje já quase todos os concelhos possuem. Aqui e sempre a problemática do espaço e, principalmente, a falta de vontade política e algum engenho para superar as dificuldades específicas de uma cidade-cascata encravada entre a serra e o rio.
Finalmente, o actual Executivo resolveu dar a volta por cima e enfrentar a situação de frente. E creio ter encontrado as soluções que a outros faltaram. Nomeadamente a disponibilização (por negociação ou parcerias) dos tais espaços para a construção dos auditórios, das piscinas, galerias de exposições, do multiusos, sedes para as associações locais, e respectivas infra-estruturas de apoio (parques de estacionamento, restauração, parque infantil, etc).
Neste contexto, a Câmara Municipal aparece em força a dar conta do que vai fazer e a publicitar a forma como conseguiu os tão preciosos terrenos. Entre eles sobressaem os terrenos pertença do Ministério da Defesa onde, há mais de 50 anos, funcionou a Sucursal da Manutenção Militar. Terrenos esses que vão ser agora adquiridos pela Câmara àquele Ministério.
Sabe-se que, desde 1998, a Câmara da Régua, então chefiada pelo socialista Vítor Almeida, tentou adquirir aqueles terrenos, contudo, a operação nunca foi concretizada, esbarrando no preço pedido pelo Ministério (760 mil Euros, na altura). Este preço contrastava com o montante encomendada pelo Município a um avaliador da Relação do Porto que calculou o valor do imóvel em 180 mil Euros. A partir daqui, estabeleceram-se negociações entre a autarquia e o Ministério (sendo que a autarquia chegou a levantar a hipótese de cedência a preço simbólico) que encalhou definitivamente sem solução. A contraproposta de 225 mil Euros, efectuada pela Câmara da Régua, não foi avante.
Presentemente, a Câmara da Régua acertou um preço de 486 mil Euros com o Ministério para aquisição do imóvel, negócio em vias de se concretizar. Está aqui, sumariamente descrita, a história deste imóvel e o namoro entre o Ministério e a Câmara. Do que se percebe desta novela, ressalta evidente o seguinte: nunca os montantes (mesmo os mais elevados pedidos pelo Ministério) foram tais que pudessem impedir a aquisição dos terrenos. Estranha-se assim que, durante o mandato de Vítor Almeida, o assunto não tenha sido resolvido. E não se resolveu pela simples razão de que aquele executivo era muito pouco exequente, com uma falta de garra que, na altura, deu mote a muitas crónicas que escrevi e a uma contenda com a Câmara que, segundo me contaram, arreliou sobremaneira o Dr. Vítor Almeida que, pelos vistos, não estava habituado a ser publicamente criticado com o vigor que então assumiram os meus escritos neste jornal.
Ora, perante o acordo agora celebrado e que vai permitir à Câmara usufruir de espaço para cumprimento do seu programa, levantou-se a voz do deputado regional do PS à Assembleia da República, que, em requerimento escusado, solicitou ao Presidente da dita Assembleia que o Ministério da Defesa esclarecesse os contornos das avaliações que efectuou ao longo dos anos. Mas não é este esclarecimento em si que nos pasma, porque qualquer das avaliações, tenho a certeza estarem justificadas. Nem mesmo o teor do negócio, que é pacífico, pois trata-se da aquisição de um imóvel entre duas instituições do Estado para fins de equipamentos públicos, não tendo o negócio qualquer vertente privada ou susceptível de especulação imobiliária. Nem mesmo a confissão do deputado Jorge Almeida que concorda com a degradação do imóvel.
O que nos espanta é a parte final onde, de uma forma muito directa, responsabiliza o Ministério por não manter com dignidade aquele espaço, numa cidade com a potencialidade turística da Régua.
Ou seja, talvez fosse vontade do Dr. Jorge Almeida que, em vez de se usar o imóvel para os equipamentos que a Régua necessita, seria melhor dar uma caiadela às instalações para não parecerem tão mal, e assim ficar tudo como está.
Sejamos, também, claros:
O Dr. Jorge Almeida sabe que, a concretizar-se este projecto global anunciado pelo Município, caem de vez por terra as suas aspirações de ser, algum dia, presidente do município. Protelar a obra é, para ele, visceral. Vai daí não me espanta que este requerimento despropositado, apareça como tentativa de atrasar o negócio e, em consequência, atrasar a obra. Outra intenção não haverá, pois se se trata de uma melhoria para a sua terra, que outro motivo moverá o senhor deputado a levantar descabidas dúvidas?
Mas este requerimento tem outra vertente que, porventura, não passou pela sua cabeça : o Dr. Jorge Almeida está a dar uma série de tiros no próprio partido. Está a dar um tiro em Vítor Almeida, pois o relato que faz no seu requerimento é, acima de tudo, um atestado de incapacidade negocial e política a este ex-autarca. Mas também ao seu Partido, o PS, que, pelos vistos, negociou com o actual executivo reguense sem complexos partidários. Que vai fazer o Dr. Jorge Almeida? Pôr em causa um Ministério do PS?
Se por acaso o PS nunca tomou as atitudes deste deputado como merecedoras de reparo, tem aqui uma boa oportunidade.
Têm sido por demais desastrosas as intervenções deste senhor deputado que, ao longo do seu mandato mais não tem feito senão prejudicar a região, esquecendo-se que foi eleito por ela para a servir e não para servir as suas ambições políticas. O Dr Jorge Almeida, depois de catar sem sucesso no pêlo dos seus camaradas lá por Lisboa, um lugar de maior evidência no aparelho do Estado, verificou que lhe sobrava somente a região que o tinha eleito. Feitas as contas aos cargos que a região lhe podia oferecer, empurrado aqui, ignorado ali, sobrou-lhe como última hipótese a Presidência da Câmara da Régua. E agora tem centrado nela a sua actuação. Daí que não me espante que as desastrosas intervenções que, como deputado nacional, tem proferido, sejam agora transferidas para o seu novo centro de atenções: a Régua.
Mas a coisa não vai ficar por aqui. O Dr. Jorge Almeida há muito que está em queda política. Não sei se ele se apercebeu já disto, provavelmente não, e portanto, as suas atitudes são previsíveis. Reconheça-se que, como político, o Dr. Jorge Almeida não tem jeito nenhum. Terá outras qualidades, decerto, e até será um bom médico, mas a vida pública não é um dos seus talentos. O Dr. Jorge Almeida continuará a dar tiros no pé, a dar o dito por não dito, a cometer erros de palmatória como a deste requerimento, e não adianta convencê-lo de que esta a fazer mal. Inclusive à sua própria imagem. A idiossincrasia do senhor deputado é algo de insondável. Estranha, pessoal, egocêntrica, titubeante. Hoje diz uma coisa num artigo de opinião, e amanhã desdiz com uma intervenção no seu pelouro. Com políticos destes, o PS não vai longe.
Creio, para finalizar, que ninguém vai responder ao requerimento do senhor deputado, e, se o fizerem, já será em tempo fora de tempo. Aliás, o requerimento não mereceria qualquer diligência, não fosse ele apresentado na qualidade legal de um deputado da Nação.
Deputado da Nação eleito pela região contra a qual tem tomado as atitudes mais negativas.
E é isto que o Dr. Jorge Almeida ainda não aprendeu: sacrificou a região aos seus interesses políticos na capital, e a capital virou-lhe as costas. Agora, quer reconquistar a região, mas não sabe como fazê-lo. Perdeu pau e bola.
O Dr. Jorge Almeida quer impor-se como alternativa ao Eng.º Nuno Gonçalves e para isso precisa de o travar e de alcançar alguma notoriedade pessoal.
Mas, assim?

(486)

O QUE SE PASSA COM O PREÇO DO GASÓLEO?

por Francisco Gouveia, eng.º

(Sabiam que a subida do preço do barril de crude só se reflecte no preço dos combustíveis, seis meses a um ano depois? Sabiam que os membros dos Conselhos de Administração das petrolíferas – e não só – têm uma componente do vencimento – componente variável – que é uma percentagem sobre os lucros da empresa? Sabiam que, em Portugal, os iates de luxo têm gasóleo a 0,80 € o litro, beneficiando das mesmas condições de armadores e pescadores?
Estas e outras verdades sobre o preço dos combustíveis que está a levar o país e o mundo ao caos!)

A autoridade para a concorrência não detectou sinais de que as petrolíferas em Portugal combinassem preços. Mas se andaram atrás desta “irregularidade”, fizeram mal, porque o que se passa não é um problema de combinação de preços mas sim de pura e selvagem especulação. E a especulação funciona por simpatia, nem é preciso combinar nada.
Mas vamos à origem.
A OPEP recusa-se a aumentar a produção de petróleo, e acho que faz bem. Porque a OPEP não é burra e sabe que se o fizesse só iria aumentar a onda de especulação que grassa no mundo. Numa primeira fase, os preços baixariam um pouco, o consumo aumentaria para, logo a seguir, se entrar novamente nesta onda especulativa. A questão é outra e, sobre este aspecto, a OPEP tem razão. São as grandes petrolíferas refinadoras e distribuidoras que mais ganham, e também os Governos. Isto é: neste negócio, os produtores parece serem os que menos ganham (onde é que eu já ouvi isto?). Veja-se, por exemplo, a carga fiscal portuguesa e verifique-se que, logo na boca da bomba, o Estado arrecada dois terços do preço. Por isso a OPEP fez um manguito aos pedidos das instâncias internacionais e vai manter a produção. E diz: querem combustíveis mais baratos? Acabem com a especulação intermediária e baixem os impostos estatais sobre o petróleo.
Por outro lado, uma subida, hoje, no preço do barril de crude, só terá efeitos no preço final do gasóleo seis meses a um ano depois. Toda a gente sabe isto. A gasolina que estamos a consumir hoje, tem preços que se deviam reportar a seis meses ou até um ano atrás, altura em que o crude foi negociado. Porquê então, acompanhar diariamente o aumento do preço do barril, com o aumento do preço do combustível, se este aumento de hoje só terá reflexos, no mínimo, daqui a meio ano?
Mas tem mais. Como se sabe, a maioria das Administrações das grandes empresas (Bancos, Seguradoras, petrolíferas, etc) é remunerada com duas componentes de salário. Uma é fixa e independente de qualquer flutuação do mercado ou da situação da empresa, e a outra é variável e refere-se a uma percentagem que os senhores administradores ganham sobre os lucros que obtiverem para a empresa. Para que se saiba, a maioria das vezes, esta componente variável é muito superior à fixa. Assim, uma percentagem abonada dos lucros do balanço de um determinado trimestre é distribuída pelos administradores no semestre seguinte.
Só este pormenor justifica muito do que se está a passar. As vorazes Administrações não olham a meios para obterem os tais lucros por saberem que uma parte deles lhes vai cair nos bolsos logo de seguida.
Há, também, o evidente controlo que as grandes petrolíferas fazem sobre os órgãos do Poder, quer sejam dos países, quer sejam internacionais, como é o caso da UE. Só assim se justifica que, perante o caos que se está a instalar nas economias, a UE ainda não tenha, sequer, tomado uma atitude, um simples reunião, um comunicado, nada. E a situação é de tal maneira gravíssima que já aconselharia a que, ao mais alto nível da UE, o assunto fosse discutido e apresentado formas de resolução, dado que não é viável, para nós portugueses nem para mais ninguém, continuar a viver com estes aumentos desbragados. E entenda-se que a UE representa a Europa e 27 países que pretendem ser o paradigma do desenvolvimento no planeta! Porquê, então, este silêncio? Que forças manobram a UE? E porquê a passividade do nosso Governo? Esta espécie de capa proteccionista que sempre tem para com a GALP?
Será que, muito brevemente, vamos ver altos responsáveis da União Europeia, metidos nos Conselhos de Administração dessas grandes empresas?
Não me admirava nada!
E, já agora, este requinte:
Sabiam que os barcos de recreio e os iates (de luxo e não só), em Portugal, navegam com o gasóleo a 0,80 € o litro, exactamente ao mesmo preço que usufruem os armadores e pescadores. Trata-se da Portaria 117-A de 8 de Fevereiro deste ano de 2008, que no Artº 29º do Capítulo II, assim o determina. Vejam bem o favor que este Governo anda a fazer aos senhores milionários. E não venham agora dizer que se trata de um lapso, porque a Lei que o determina é deste ano, de há quatro meses.
Se quiséssemos encontrar um facto que marcasse a actuação deste Governo e a sua forma de ver o país, é esta Portaria: os ricos a folgar e os pobres a pagar a crise!
Infelizmente, não se vislumbra no horizonte, vontade política, nacional e internacional, para enfrentar este descalabro. Não sei como vai ser o futuro, mas uma coisa sei: isto vai acabar mal!
Muito mal.

(487)

GERAÇÃO PRISIONEIRA

por Francisco Gouveia, eng.º

(Não há emprego para a nossa juventude. Pelo contrário, os mais velhos estão a ser obrigados a trabalhar mais anos por causa do equilíbrio do sistema de Segurança Social. Mas as contas dos entendidos de hoje vão ter consequências amanhã. Quer queiramos quer não, ou o Estado gasta hoje o necessário com a abertura de postos de trabalho, facilitando também as pré-reformas, ou vai, amanhã, pagar pelo dobro, o sustento desses jovens que, daqui a alguns anos, serão adultos que nunca fizeram nada na vida e já não podem contar com a ajuda dos pais.
Um país que não trata de dar trabalho aos seus jovens, caminha inevitavelmente para o caos)

A população portuguesa está a ficar envelhecida, especialmente a população no activo. Dizem as estatísticas que daqui a meia dúzia de anos seremos um dos países do mundo com mais idosos, relativamente ao número de jovens. De facto, ter filhos em Portugal é uma aventura, e se for mais do que um é uma experiência financeira aterradora. Mas, por outro lado, temos uma população jovem que ainda é significativa, mas que se encontra desocupada. Uns porque já acabaram os cursos e andam de porta em porta a responder aos poucos anúncios que são publicitados, outros porque vão adiando com mais cursos suplementares, mestrados e doutoramentos, a entrada quase impossível na vida profissional, outros ainda que já poderiam e deveriam estar a trabalhar mas que correm seca e Meca sem arranjar um buraquinho onde possam ganhar algum. Pelo contrário, o regime legal obriga os mais velhos a cada vez mais anos de trabalho, tapando assim vagas que, de outra forma poderiam ser abertas. Entretanto, o novo Código de Trabalho, que tanta discussão tem levantado, não mais é senão um documento que permite “usar e deitar fora” qualquer trabalhador, ao jeito do que quer a nossa classe empresarial, incompetente e voraz, que há muito se esqueceu da boa gestão da mesma forma que fechou na gaveta os princípios elementares da humanidade.
Ou seja, estamos a criar uma geração de desempregados. O tempo vai passando, e aqueles que aos vinte anos deviam começar a trabalhar, daqui a dias já têm trinta, trinta e cinco e quarenta, e depois já é tarde para serem aceites num emprego. O fenómeno já é hoje visível. Dezenas de milhares de jovens passam o dia desocupados, à espera do tal emprego, e muitos desses jovens já andam na casa dos trinta. Mas há também os de quarenta, com habilitações, que batem porta à porta sem arranjarem nada. O que está a acontecer a este país é que, muito em breve, ou seja: daqui a meia dúzia de anos, teremos uma multidão de cidadão que nunca trabalharam, que já não podem contar com a ajuda dos pais porque estes não são eternos, e que têm que sobreviver. Será uma geração para o Estado sustentar, quer queira quer não. E aqui não há volta a dar-lhe: ou resolve o problema agora, ou se, por motivos de défice ou outros exageros tecnocratas, estrangula o mercado de trabalho, o que está a poupar agora vai gastá-lo a dobrar no futuro.
Por exemplo: não se entende que se queira aumentar o tempo de trabalho obrigatório para a reforma e não se criem condições mais favoráveis e ágeis para as reformas antecipadas. É necessário que os mais antigos, e quando digo os mais antigos falo dos que têm cerca de 55 anos ou mais, dêem lugar aos mais novos. É um erro pensar-se que o equilíbrio do sistema de segurança social obriga ao aumento do tempo de trabalho.
Portugal precisava de uma reforma de fundo que abrisse as portas ao emprego, que desse oportunidade aos mais novos. Por outro lado, não é possível fazer um país andar para a frente com gente acima dos cinquenta a trabalhar como doidos tendo em casa filhos na casa dos vinte, sem fazerem nada. Esta aberração, que é uma tragédia social e uma demonstração da incompetência das políticas laborais, vai ter as suas consequências, mais tarde ou mais cedo, e pesadas para o Estado.
Há ainda outro factor mais aviltante. Os poucos empregos que se vão conseguindo são fruto do cambalacho de influências entre políticos. Se se fizer a contabilização daqueles que arranjam emprego, especialmente no Estado, em empresas geridas pelo Estado ou empresas onde o Estado tem uma quota relevante, havemos de verificar que a quase totalidade lá entrou por “cunha” ou por possuir aquele bilhetinho mágico que se chama cartão de militante. E esta é outra das tragédias que aviltam este país e o transformam não só, num dos países mais corruptos do mundo, mas também dos mais eticamente condenáveis.
Feitas as contas ao nosso mundo laboral, e àquilo que se passa com a nossa juventude, façamos o balanço como deve ser e concluiremos que o futuro vai obrigar-nos a pagar uma factura muito elevada pelos erros de hoje. E nem sequer as desculpas com a crise (que ouço desde que nasci) podem servir de atenuante.
A triste realidade é esta: a nossa juventude está desempregada, os que podem fogem para o estrangeiro, os que não podem ficam por cá, á espera. Muitos deles possuem qualificações mais do que suficientes, mas falta-lhes o tal “padrinho”. Outros, já se cansaram de mendigar, e gastam os dias nos cafés e noitadas. Com alguma coisa hão-de esquecer a névoa do futuro.
Portugal, hoje, é isto, uma população envelhecida, onde quem trabalha são os mais velhos, e uma multidão de jovens desocupados que sobrevivem às custas dos pais.
Até um dia.
Uma geração prisioneira dos nossos erros, do triste mundo que lhes vamos deixar.

gouveiagrancisco@hotmail.com

BIBÓ ACÔRDO OTOGRÁFICO!

Francisco Góbeia

Incelênticimo Sinhor Dirétôr
do Jurnal “Nutissias do Doiro”

Benho por este meio iscreverlhe purque comcordo muito com o nôvo acôrdo otográfico. Finalmente bou pudêr iscrever cunçante falo. A partir dagóra caisqer um póde iscrever protugês cum curressom, sem ter mêdo de dar erros de otografia. Além do mais nem bou precizar de istudar mais a nossa lingua e de matar a cabêça cu as gramáticas, os berbos, os sustantivos, os ajectivos, etc e tal, nem bou ter qe lêr os xatos dos iscritôres cum libros de mais de catrussentas pájinas qe som uma massada e só serve pra um ome desgastar os miólos. Outro dia istibe à cunbersa cum jobem qe também é da minha opiniom e inté me disse açim:
– É bué totil de fixe cus candengos desbulhem a maneira de riscar e se deixem de merdas inteléqtuais qe só abónum dores de môna!
Ora toda a jente pressebeu o qé cu jobem qeria dizer e cumo vecêzes bê sem precizar de recurrer às regras que estábo em bigor na antiga lingua protugêsa.
E óspois, bai ser uma alegria bêr toda a jente a iscreber da mesma maneira, cunçante lhe der na môna, ao currer da pena, sem ter qe pençar se aqilo que está iscreber é curreto ou num é. Bai ser cá uma liverdade do carassas!
Por isso eu axo cu sinhor dirétor abia de dar uma orde aos seus culaburadôres pra ca partir dagóra se deixem de baidades e cuméce a iscreber como mandam as nórmas deste acôrdo otográfico. Ás bezes pônhume as ler os bóssos artigos e num precêbo patabina. E agóra descubri ca culpa num é minha mas sim do bósso jornal pruqe anda a publicar teistos que num respeitu o acôrdo cagóra foi açinado.
Bem ajo aqeles qe se lembraru de criar estas nóbas regras qe muito bem rebuluciunar a nossa amáda lingua que é falada por muitos milhões de jentes plus 4cantos do mundo e qe também se debe sentir muito felizes com este acôrdo.
Istou inté a pençar em iscreber um rumansse, deste que se iscrebe agóra cum biolênssias, dróga, omes e mulheres a incurnarsse uns aos oitros, carros da móda, érdades no Alemteijo, furnicassom folha sim folha nom, mariconssos e mais qe me dér na télha. Istou cumbemcido que será um eizito e bou bender milhares de ezemplares que me onde inxer os bólsos de euros.
Noutro dia iscrebi a um iditôr qe me dice qe tenhu muito geito e me gabou o istilo. E tudo isto grássas a este milagre que os sinhores sávios da tal Cumissom incarregáda do istudo do acôrdo fizeru, ao aprubar a nóba forma discreber protugês.
Por iço aqui fasso este apêlo ao sinhor diréctôr pra que de imediato adeira a este acôrdo de maneira a qe daqi prá frente toda a jente póça iscreber pró seu jornal e pra que toda a jente póça intender o que lá bem iscrito.
E num se deiche influinciar pur aqeles que pásso a bida a marrar nus libros e qe tem a mania qé preçizo istudar pra ce cer algém na bida. Estes gaijos som uns atrazos de bida que num save acumpanhar os nóbos tempos. Purque afinal qé qe dá çucesso? Intom num é os Murangos cu Assucre e as telenobelas varzileiras e o futebol onde os jogadôres e os dirijentes e os treinadôres falo protugês de primeira?
Esses sinhôres dos libros qistudo até qeimar os ólhos, som uns baidozos, é o que som!
Cus meus comprimentos e bótos pra cu seu jurnal mude pró acôrdo

Reuga, Julho de 2008
Francisco Góbeia

(488)

O MELHOR É ACABAR COM A BRINCADEIRA
E VOLTAR À REGIONALIZAÇÃO!

por Francisco Gouveia, engº.

(Depois das Associações de Municípios, do Eixo, da ComurDouro, da Alliance, a região descobriu uma nova forma de associação: Associação de Municípios do Nut III.
E tem estudo e tudo – que é coisa que cá não temos às carradas.
Tempo de eleições, a quanto obrigas!
Melhor era acabar com as brincadeiras e voltar à regionalização)

Fiquei pasmado! Está na forja uma nova Associação de Municípios abrangendo municípios de Vila Real, Bragança, Viseu e Guarda, e que se vai chamar Associação de Municípios do NUT III do Douro. E, para já, há 16 ou 17 municípios (a “comissão instaladora” não sabe bem) que aderiram. Vila Real comanda o acto e, ao mesmo tempo, anuncia que a ComurbDouro (Comunidade Urbana do Douro) vai ser substituída, extinta, morta, defunta, paz à sua alma!
Ora vejamos.
Em tempos que já lá vão, a legislação criou a oportunidade de os municípios se associarem mediante Associações de Municípios, situação que, como se sabe, pouco fez e de nada serviu. Contudo, cientes alguns líricos de que, por cá, ainda havia vontade de avançar com processos associativos, tentaram a regionalização que, como também se sabe, redundou num referendo que a tolheu. Mas, para que as coisas pudessem ter alguma solução cá na nossa terra, e porque havia a experiência muito positiva do eixo Castelo Branco / Covilhã / Guarda, resolveu avançar-se com outro eixo, Lamego / Régua / Vila Real, que, segundo se sabe, não passou do papel e de duas ou três reuniões preparatórias que, se não serviram para mais nada, serviram para refastelar a tripa aos senhores autarcas que, com os pés debaixo da mesa, davam vivas ao eixo ao mesmo tempo que lhe arreavam em cima. Em 2004, porém, em legislação devidamente elaborada, é criada a Comunidade Urbana do Douro, vulgo ComurDouro, ou seja, mais uma tentativa de fazer com que a região assumisse um papel activo a uma só voz. A união fazia a força – pensava-se, e era verdade, só que, por cá, o projecto abortou mesmo antes de ser concebido. Muito recentemente, e talvez (julgo eu) de acordo com a proximidade do próximo acto eleitoral, os três autarcas-mor de Lamego, Régua e Vila Real, decidem celebrar a Douro Alliance, uma espécie de Eixo ressuscitado, com muita entrevista, muita opinião, muita badalação, etc. e tal.
Assim, é perante este historial repleto de casamentos e divórcios, que nasce esta nova aposta regional. E para que não se julgue que isto é mais uma para esquecer, já está elaborado um estudo por uma empresa especializada em desenvolvimento regional, que define quais as questões fulcrais para o desenvolvimento desta parcela do território português. É claro que nós não sabemos quais são as questões fulcrais e, com certeza seria necessário mais este estudo. Se bem me lembro, o Douro deve ser a região com mais densidade por m2 e habitante, de colóquios, conferências, fóruns, alocuções, palestras, seminários, etc, sobre a problemática duriense (qual é a problemática duriense?) para além de, em cada instituição, haver um estudo, e em cada mês mais um está a ser elaborado. Ou seja, conversa de treta e estudos são coisas que por cá não faltam. Mas, valha-nos a paciência de saber que a futura Associação de Municípios do NUT III tem também o seu estudo.
Se o assunto não fosse tão sério, dava até para brincar, mas deixemos a brincadeira, se bem que é brincadeira o que esta gente quer.
Ou seja: durante anos a fio, a legislação portuguesa permitiu que as autarquias da região se organizassem das mais variadas formas. Mas ninguém ligou patavina ao assunto. E acham que agora, com esta nova Associação, depois de, há dias, se terem comprometido coma Douro Alliance, alguém os vai levar a sério? E bem podem dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra, que eu respondo-lhes: se nem com uma aguentam, como querem aguentar com duas?
No fundo, o que a região estava a precisar, era de uma regionalização a sério, com órgãos próprios e responsáveis, e que acabasse com esta brincadeira toda. Porque desculpem-me lá os atingidos, mas toda esta movimentação me cheira a brincadeira politiqueira para tempos de antena, para se acertarem acordos, para se empolarem candidaturas, para se ganhar tempo em tempo eleitoral que vem aí. Regionalização a sério, como está feita no resto da Europa. Assim, infelizmente, continuaremos a assistir a estes devaneios organizacionistas, como se, de cada vez que nasce uma “coisa” destas, a região tivesse conquistado o seu patamar de progresso e encontrado finalmente a solução para o que a aflige.
Fico à espera para ver no que isto vai dar.
Mas sentado, que não sou burro.

gouveiafrancisco@hotmail.com

WWW.GUITARRASDEPORTUGAL.COM

SERENATA :
NOVO DISCO DE FRANCISCO GOUVEIA E JOSÉ NEVES

Já se encontra disponível na net o último trabalho musical de Francisco Gouveia e José Neves, desta vez dedicado à antiga Guitarra Toeira de Coimbra.
Estes dois etnomusicólogos dedicam-se ao estudo e execução dos instrumentos de corda populares portugueses e têm um site na net a eles dedicados, com muita documentação sobre a matéria, uma visita ao Museu dos Cordofones de Tebosa, uma visita a uma oficina de violeiro, para além de mais de 50 temas musicais com cópia gratuita, de cavaquinho, braguesa, requinta guitarra portuguesa e, desta vez, Toeira.
Este instrumento tem origens no século XVI e teve o seu apogeu na região de Coimbra no século XIX, altura em que começou a cair em desuso, sendo hoje executado somente por estudiosos.
Francisco Gouveia e José Neves “ressuscitaram” este instrumento neste trabalho, gravado no Porto com a melhor tecnologia actualmente disponível, e que constitui um acrescento notável a musicologia portuguesa.
Para os interessados, podem obter este trabalho entrando simplesmente no site www.guitarrasdeportugal.com e copiá-lo.
Os dois músicos remodelaram recentemente este site, e mantêm-no activado, sem ajudas oficiais ou particulares.
Acrescente-se que este site é oriundo da região duriense, onde Francisco Gouveia é um conhecido jornalista e escritor, e José Neves é o actual Director Executivo do Conservatório de Vila Real.
O Notícias do Douro honra-se de os ter a ambos como colaboradores deste jornal.

(490)

ADEUS, GASOLINA!

por Francisco Gouveia, eng.º

(O mundo vai mudar. Com o fim da era do petróleo, novas energias terão que o substituir.
Portugal tem condições suficientes para uma auto-suficiência a nível energético, baseado nos três vectores: energias alternativas, barragens e o nuclear.
O nosso projecto de desenvolvimento deve privilegiar a aposta nestas energias, e nada de disparates de aeroportos, TGVs e mais auto-estradas. Há que rever conceitos, programas, princípios, porque o mundo vai dar uma volta muito grande. Tão grande que, se não o percebermos, estamos condenados à miséria absoluta.
É a minha certeza.)

Segundo os especialistas, no próximo ano o preço do barril de petróleo pode atingir os 300 dólares. Para já sabe-se que muitos investidores já estão a negociar com as companhias petrolíferas a compra de barris a 200 dólares, para o fim do ano. Quer dizer que se, nessa altura, o preço do barril estiver mais baixo, perderão dinheiro mas só temporariamente, mas se estiver mais alto, ganharão muito dinheiro. E como estes investidores não são de meia-tijela e, antes pelo contrário, se fazem rodear de stafs altamente qualificados e de consultores de topo, não creio que estejam na disposição de desbaratar as suas fortunas.
Não sei se o preço do barril vai chegar, ainda este ano, aos 200 dólares, mas tudo indica que sim. Mas o mais grave é a situação do próximo ano onde as previsões mais pessimistas apontam o preço para os 300 dólares. Feitas as contas, isto significa que, a manter-se o mesmo quadro fiscal e a manterem-se as mesmas margens de comercialização dos intermediários, o preço da gasolina vai chegar a preços incomportáveis. Visto com olhos de realidade, quer dizer que o mundo vai atravessar uma crise tremenda com especial incidência nos países absolutamente dependentes do petróleo e ainda por cima com problemas económicos, como é o caso do nosso.
Há que ter em conta, também, que esta “guerra” pela energia tem nos actuais detentores do controle do petróleo, acérrimos reaccionários dado que querem manter a todo o custo a hegemonia no mercado energético mundial, condicionando e derrotando muitas boas ideias alternativas para e, por outro lado, querendo apossar-se do que de vanguarda tem aparecido na ciência.
Em termos muito concretos, já ninguém tem dúvidas de que as reservas de petróleo durarão, no máximo, 20, 25 anos, contrariando a centena e tal que se previa no princípio do século, altura em que os entendidos do costume não imaginaram que a explosão industrial e social da China e da Índia, iria consumir o que ainda restava dentro das jazidas.
Perante este cenário, já se nota uma corrida desenfreada a alternativas que possam salvar o quadro energético. Por exemplo, neste momento, as empresas construtoras de automóveis desdobram-se em experiências na tentativa de desenvolver novas formas de alimentação energética dos motores, sendo que a que está na vanguarda é a eléctrica. Exemplo deste esforço, foi o recentemente apresentado pelo consórcio Nissan – Renault, apadrinhado, entre outros pelo nosso Sócrates (o homem acerta nalgumas), onde se estuda a energia eléctrica como forma de energia alternativa, se bem que os estudos ainda estejam numa fase demasiado primária (a autonomia das baterias é de somente 200 quilómetros, no máximo, e a recarga das mesmas demora cerca de meia-hora). Isto significa que há ainda muito caminho a percorrer.
Significa também que está na hora de se reverem os investimentos do futuro, deixarmos de lado as estradas e os aeroportos, os TGVs e quejandos, e centrarmos a nossa atenção em investimentos destinados à produção de energia, sendo certo que, por muito que berrem os ambientalistas, as barragens terão que ser construídas e a opção nuclear vai ser inultrapassável.
Por exemplo, a Finlândia, que até é dos países mais defensores do ambiente, há mais de dez anos que está a construir e a aperfeiçoar uma central nuclear, com que pretende suprir todas as suas necessidades de energia, e que vem sucessivamente aperfeiçoando. Sabem que a obra ainda demorará e conforme a ciência vai evoluindo, assim vão ajustando o seu projecto.
O mundo vai mudar muito em breve. Tenho a certeza. O mundo baseado no petróleo tem os dias (são mesmo dias) contados. E a crise é de tal ordem que ainda recentemente, em conversa com um engenheiro amigo que trabalha no ramo automóvel, me confidenciou que, talvez, fosse uma asneira adquirir agora uma viatura nova, sabendo-se duas coisas: o preço exorbitante e proibitivo a que vai chegar a gasolina, e os novos modelos alimentados a outras energias que muito em breve vão aparecer no mercado e que vão tornar as actuais máquinas em objectos obsoletos e antiquados. E inúteis, porque não haverá combustível viável para os fazer andar.
Em suma, o mundo vai dar uma grande volta, muito provavelmente, o sistema de organização a que nos habituamos também vai ser alterado. As mudanças irão ser radicais, ao ponto de termos de alterar os nossos padrões de vida, os nossos hábitos, de termos de reequacionar os nossos próprios projectos pessoais. Assim como os países o terão de fazer. E é por isto que me assusta o modo displicente como as instâncias internacionais estão a lidar com o problema, como se tudo ficasse na mesma e a crise não passasse de um mero obstáculo pontual, como muitos de que a História dá conta. Só que, desta vez, as coisas não serão assim.
Espera-nos um amanhã cheio de novidades, de desafios, alguns absolutamente colossais.
A era da gasolina, está a morrer. Durou um século, vejam só. Novas eras se aproximam. E grande vantagem terão os países que, ao aperceberem-se das mudanças que por aí vêm, se preparem para os novos dias.
Portugal tem condições excelentes para garantir a sua auto-suficiência energética, se baseada em três vectores: energias alternativas (eólicas, marítimas, solar, etc.), energia eléctrica com uma rede de barragens em conformidade, e (inevitavelmente, quer queiram quer não) a energia nuclear.
É neste fenómeno da conquista de novas energias que deve residir a nossa grande aposta no futuro. Energias, ainda por cima, profundamente defensoras do ambiente. Vejam só as vantagens! Imaginem um mundo sem gases resultantes da queima de gasóleos e outros hidrocarbonetos!
Imaginem!
E pensem.

gouveiafrancisco@hotmail.com

nota: interrompo a minha colaboração no ND, regressando em Setembro. Os meus agradecimentos aos meus leitores e a todos um bom Verão com muita saúde.

(491)

PORQUE DESCARRILAM?

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Assim, a linha do Tua está condenada: com um Ministro pouco exigente, uma REFER incompetente e um relatório preliminar conclusivamente vergonhoso, já se toca a finados pela ferrovia.
A falta de exigência em que este país mergulhou é, por vezes, desesperante)

O vergonhoso relatório preliminar sobre as causas dos recentes descarrilamentos na linha do Tua, só veio lançar mais suspeitas, dúvidas e especulações descabidas sobre uma matéria que é eminentemente técnica e que, como tal, assim devia ser encarada. Ir para o local armado somente de máquina fotográfica, percorrer à pressa troços da via e, no final, não concluir nada sobre um assunto que tem justificações científicas, é, no mínimo, caricato. E o senhor Ministro Mário Lino, em vez de mandar a dita Comissão elaborar novamente relatório capaz, aceitou-o e nomeou outra Comissão. Não ponho em causa a competência dos elementos destas Comissões (quem sou eu?), mas ponho em causa a ligeireza com que, neste país, se elaboram este tipo de trabalhos. Há vidas perdidas, meus senhores, feridos graves, prejuízos para o bom-nome das região e, se por acaso o tempo disponibilizado pelo Ministro não chegava, que se pedisse mais. E se os meios não eram suficientes, que se requeressem, mas, no final, que se elaborasse relatório decente e que, pelo menos, levantasse as questões essenciais.
Porque são essas que aqui me trazem.
Vamos a elas.
Antes do mais, uma rectificação importante: não são carruagens tradicionais que circulam na via, como se propala por aí em tudo quanto é imprensa, mas automotoras modernas. E isto faz muita diferença. Mas adiante.
O estado da via há muito que é questionada. É uma via antiga, centenária, preparada para as locomotivas de antanho, largas e baixas. As automotoras actuais são mais estreitas e mais altas, logo com o terço de gravidade central mais reduzido. Aqui começa a primeira diferença: as condições de descarrilamento destas máquinas são maiores. Tanto é assim que as restrições às velocidades na linha do Tua são muito apertadas, quase a passo de caracol. Por outro lado, a olho nu, verifica-se a existência de travessas de madeira em mau estado, de tal maneira que já não aguentam sequer os parafusos de amarração dos carris. A imprensa noticiou: crianças das escolas a tirarem com as próprias mãos esses parafusos (RTP) e o JN deu conta de que nalguns troços há afastamentos de carris na ordem dos 15 cm.
Passemos agora às interrogações a que o tal “relatório preliminar” devia ter dado resposta:
A via é estável? Isto é: os carris mantêm um afastamento entre si constante, quer em descanso quer em carga?
E os carris? Têm os seus eixos verticais paralelos? Em descanso ou em carga? E cada carril: há diferenças de inclinação desse mesmo eixo?
E os “relevês”? Há-os na via? Que desvios têm, relativamente ao plano horizontal, nas curvas, quer estas sejam apertadas quer sejam largas?
Qual a força (centrífuga incluída) que, em curva, os rodados exteriores da automotora exercem sobre o carril? É esta força suficiente para provocar o afastamento mesmo que ligeiro do carril e, por consequência, o descarrilamento do rodado interior?
E quanto às automotoras? Existe algum estudo na REFER, de comportamento das mesmas na via em causa? Como se comporta o terço de gravidade central das automotoras durante os percursos? E a partir de que inclinação as mesmas tombam? Qual a razão por que há limites tão baixos para a velocidade, especialmente em certos troços? Como se comporta a via e a automotora se excedidas essas velocidades?

Estas questões primárias (entre outras mas mais relevantes), e que poderiam ser verificadas com aparelhagem simples como sejam os níveis de água e macacos de pressão, deviam ter sido esclarecidas no relatório preliminar. E caso houvesse dúvidas (porque era natural que as houvesse), devia ter-se pedido meios ao senhor Ministro para as esclarecer. Poupava-se tempo e dinheiro. Os relatórios de engenharia não se fazem só com máquinas fotográficas. E é pena que os senhores relatores tenham dado tão fraca imagem da engenharia portuguesa. Exigia-se mais. Exigia-se que se olhasse para o assunto com os olhos de engenheiro, isto é com engenho, e com a capacidade de análise prática e de inferição que se exige a quem abraçou esta profissão. Infelizmente, nos dias de hoje, essa capacidade esvai-se na frieza dos computadores e no facilitismo que induzem os modernos programas informáticos de cálculo. Exigência, muita exigência, o máximo de exigência, é o que se pedia num assunto desta gravidade. Mas que fazer num país onde a exigência não é uma prioridade?
Olho para a linha do Tua com os mesmos olhos de menino que já fui. E dá para perceber. Mesmo aqui, agarrado a um estirador de desenho que continua a ser o meu habitat de trabalho, e dispondo somente da informação que me chega e que absorvo avidamente, consigo fazer o meu exercício de análise. Por isso sou engenheiro e toda a minha vida levei no lombo por o ser e recusar o papel de burocrata disfarçado de técnico.
Já conclui há muito que a linha do Tua não está em condições. Precisa de ser reconstruída (reconstruída, repito) e adaptada às modernas automotoras. Mas mesmo que se pretendesse manter as carruagens antigas, não escapava à reconstrução. E isto é tão óbvio:
As automotoras descarrilam porque os carris não estão estáveis.
Agora, estima-se que esta nova Comissão, constituída para o efeito e a cargo de um especialista em ferrovias oriundo da casa onde me formei (Faculdade de Engenharia do Porto), esteja à altura dos pergaminhos da engenharia portuguesa e esclareça de vez uma matéria que não tem nada de misterioso. Porque são relatórios como este dito de “preliminar”, que alimentam os “mistérios”. Mistérios que o povo consome e mistifica.
Estamos no século XXI, na era espacial, dos computadores, na era onde o impossível, em termos de engenharia, deixou de existir. Mas aqui no Douro (tinha que ser aqui no Douro), deste país que é Portugal (tinha que ser aqui em Portugal), ainda se anda a discutir o porquê do descarrilamento de uma simples automotora.
E isto só não é risível se não houvesse mortos e feridos a lamentar. Mas a revolta é livre, e cada qual que a expresse da forma que entender.
Esta, é a minha maneira.

(492)

FINALMENTE!

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Finalmente que são divulgadas as contas da actividade do Museu do Douro. É certo que o relatório apresentado se refere somente ao ano transacto de 2007, mas neste particular a culpa não é da Fundação.
Mesmo tendo a certeza de que nunca saberemos o que se passou financeiramente no Museu nos anos anteriores, resta-nos a esperança de que, daqui para frente, a clareza impere nesta instituição. Porque a Lei assim o obriga e a transparência das contas públicas o exige. E depois, o Douro já alimenta guerras que bastem!)

Com agrado verifiquei que, pela primeira vez na sua curta mas já atribulada vida, a Fundação do Museu do Douro apresentou Relatório e Contas do exercício de 2007. Não vou aqui esmiuçar pormenores do referido Relatório, porque a questão que aqui me traz não é, para já, essa.
Durante muitos anos o Museu do Douro viveu numa espécie de limbo intocável a salvo de qualquer espécie de efeito prático das críticas que se levantaram, quer quanto ao seu funcionamento, quer quanto ao que se recebia e gastava. Por diversas vezes as contas do Museu do Douro foram questionadas sem que nunca, da parte dos seus responsáveis, houvesse o cuidado de calar as dúvidas e, muitas das vezes, suspeitas, que iam recaindo sobre eles. Falava-se de dinheiros mal gastos em iniciativas sem interesse, de mordomias inexplicáveis e abusivas de gestores e colaboradores, de assessorias e colaborações pagas a peso ouro, do aproveitamento dos cargos para se protagonizarem junto de figuras públicas e influentes, de adjudicações escandalosas, etc., etc., etc. Este rol de suspeição que se abateu sobre a instituição, não era bom, nem para ela e muito menos para a região. Sabe-se lá porque razões, o facto é, apesar de amiúde se reclamar pelo esclarecimento e clarificação da situação financeira do MD, o certo é que nunca nenhum relatório ou contas vieram ao conhecimento público. Sabe-se, contudo, que antes da demissão da anterior Direcção, as contas foram apresentadas numa amálgama indecifrável, de tal modo que nem os Fundadores as conseguiram interpretar. E, ao menos a eles, eram devidas explicações. E quando falo em Fundadores, falo especialmente nas Câmaras da região que contribuem com o peso maior no bolo orçamental do Museu. Por outro lado, os sucessivos Ministérios da Cultura que por lá passaram, nunca foram exigentes ao ponto de obrigarem quem de direito a apresentá-las. E quando digo, apresentá-las, digo apresentá-las publicamente. Mas sabe-se também que as mesmas estão ainda em poder do Ministério, na altura fechadas a sete chaves e, sabe-se lá, já perdidas nas gavetas da contabilidade sempre complexa do Ministério da Cultura. De toda esta historieta resulta que, quanto a contas, nem vê-las. Para isto muito contribui também o apoio quase subserviente de determinadas instituições que então se formaram para a defesa do Museu, ou figuras públicas comprometidas com o lobie, ou das Câmaras Municipais que se calavam a troco das vantagens concelhias garantidas por um tal Museu do território que nunca ninguém soube muito bem o que era. Tudo somado, e foi o que se viu: em termos práticos, a região gastou rios de dinheiro para nada, porque o Museu é um espaço fixo, remodelado à custa de um outro orçamento saído directamente do Ministério e que, do folclore que ribombou aquando do nascimento do Museu, pouco ou nada sobrou. Fez o Poder o que sempre faz quando não quer barulhos: arquiva os documentos e deixa correr até que a contestação se canse. Afinal, nada tinha acontecido, o Museu estava de pedra e cal, como se o que por lá se gastou não tivesse a ver com os impostos que pagamos.
Esta falta absoluta de exigência, de que não me canso de falar, tinha chegado ao Douro. Em abono da verdade, não era um exclusivo dele mas ajudava à missa.
Por tudo isto, e já desesperançados que, algum dia, o Museu viesse a terreiro dizer, preto no branco, como ia de saúde, foi com alguma surpresa que se recebeu em fins de Julho, o Relatório e Contas do exercício de 2007.
Como disse, não me vou pronunciar sobre o seu conteúdo, que li atentamente, porque, muito antes de mim, deverão ser os Fundadores a analisá-lo. Ao cabo e ao resto são eles que financiam o Museu. Contudo, não seria correcto da minha parte, e porque fui sempre um insistente crítico – quer dos critérios e princípios porque se estava a reger o Museu, quer pela forma como via o desenrolar das despesas mal esclarecidas, quer ainda porque muitas das vezes me tornei voz dos muitos que duvidavam da justeza do que se estava a passar no Museu – não vir agora louvar este Relatório pelo simples facto de ter sido publicado.
Uma vida pública sadia, num país que quer ter a certeza de que os seus dinheiros estão a ser bem gastos (porque eles são parcos) necessita de que haja clareza e divulgação mediática do que se recebe e gasta.
É, neste sentido, que apreciei o gesto da Fundação, e, como disse, independentemente do teor do que lá vem descrito que – e insisto – deve em primeiro lugar ser apreciado por quem contribui financeiramente para a sustentabilidade do MD.
Fica-nos assim, a certeza de que, com este exemplo, talvez algo esteja a mudar no Douro. Para melhor, o que, e atendendo à crise e conflituosidade que o tem caracterizado nestes tempos, é algo que se regista.

(493)

REVOLUÇÃO EM LAMAS DE OLO!

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Se calhar, sem saber, a Junta de Freguesia de Lamas de Olo iniciou uma autêntica revolução social em Trás-os-Montes. O programa de apoio aos nascimentos na localidade, tem tanto de arrojado como de feliz. Até merecia a abertura de um TeleJornal, se os telejornaleiros soubessem que este país não é só tiros, assaltos, assassínios, desastres, bairros problemáticos e futebol)

Lamas de Olo está cercada de montanhas e de esquecimento. Plantada no seio da terra transmontana, é uma espécie de paraíso perdido que custa descobrir. Do que lá se passa, não reza a História, e faz mal a tal História, porque muitas das vezes se entretém com minudências oriundas das grandes urbes e deixa para trás acontecimentos importante nas pequenas aldeias que mereceriam outro destaque. Por exemplo: as aberturas dos Telejornais são algo de deprimente e doentio. Começam sempre com desgraças (quanto maiores, melhor) e se não as houver à medida das audiências, inventam-se. Para bem do nosso equilíbrio psicológico e bálsamo para a ansiedade que nos atormenta neste dia-a-dia tresloucado, era preciso que, de vez em quando, os noticiários abrissem com algo de nobre, bonito, algum acontecimento que nos elevasse e fizesse renascer-nos a esperança. Mas, quando a isto, não temos sorte nenhuma e bem poderemos contar com as tragédias porta dentro por via do pequeno ecrã.
Assim, e como as TVs não dão importância a coisas como a que vou contar, faço a festa e deito os foguetes. É o mínimo que posso fazer como cronista desta terra: estar a tento ao que de realmente importante se passa por cá. E depois, se não formos nós a defender a região, quem o fará?
Então é assim:
Está a acontecer uma revolução social em Lamas de Olo, a tal terrinha que mal se sente no mapa. E porquê? A Junta de Freguesia, em vez de gastar o pouco dinheiro que tem em obras de treta e que, a manter-se o envelhecimento da população local, dentro em pouco de nada servirão, resolveu o seguinte: dar a cada casal, pelo nascimento de um filho, um apoio financeiro imediato de 1000 Euros (200 contos) e depois, garantir uma mensalidade (mensalidade de mensal, repito) de 100 Euros (20 contos) até a criança completar 10 anos. Assim mesmo.
Já anteriormente, algumas autarquias da região, com o intuito de promover os nascimentos e a fixação da população mais jovem, atribui alguns apoios aos casais, mas nunca ninguém tinha ido tão longe e se tinha comprometido com um programa de tão largo alcance, quer no conteúdo, quer no tempo.
Ora era uma notícia destas que eu gostaria de ver na abertura de um Telejornal. Merecia-o e além do mais, demonstraria que ainda há em Portugal quem pense com a cabeça, se empenhe na resolução dos problemas da sua terra e dê bom uso aos impostos de todos nós.
Esta atitude da Junta de Lamas de Olo é das tais em que eu, pagador de impostos refilão mas cumpridor, sinto que vale a pena pagá-los. E se todos os impostos que pago fossem dirigidos para iniciativas como esta, isto é, convincentes e justas, até estaria disposto a pagar mais, sem refilar.
Por outro lado podem dizer que, como não há muitas crianças em Lamas de Olo (até agora só dois bébes foram contemplados – foram os que nasceram) a medida é demagógica. Isto é o que, provavelmente, dirá a intelectualite habitual, que nos azucrina os ouvidos em doutas intervenções nas TVs. Mas se houver algum esperto que assim o entenda, aqui fica o meu conselho à Junta de Lamas: riam-se e prossigam.
É justo também que se esclareça que, por essa Europa fora, muitas regiões que, em tempos, sofreram do mesmo mal, aplicaram esta metodologia com excelentes resultados, como, por exemplo, a Alemanha, que graças a programas como este conseguiu um equilíbrio demográfico no seu território absolutamente notável.
Isto quer dizer que a ideia é para continuar. Em Lamas de Olo e no resto do País. Torna-se até necessário que o Governo se debruce sobre o assunto e interfira nestes programas, isto se quiser fazer com as populações se distribuam mais harmoniosamente pelo território nacional e não se concentrem às três pancadas nos grandes centros do litoral, com o que isso se traduz em perda de qualidade de vida, em violência, em “guetos”, em banditismo, em criminalidade, em stress, em milhões gastos a tapar remendos.
Mas o que mais me preocupa é que estes excelentes exemplos, acabem quase sempre por ficar sem perspectivas, só porque foram oriundas de um micro-mundo rural e interiorizado a que ninguém liga nenhuma. É o mais certo. Mas também acho que o exemplo é de seguir. O que significa que muitos orçamentos autárquicos terão de ser revistos. Valerá a pena andar a gastar-se dinheiro em infra-estruturas se não há, depois, ninguém para as usar. Não seria melhor apostar primeiro no factor humano, e depois, conforme as necessidades, ir criando os equipamentos e serviços necessários? Apostar nas pessoas, meus senhores! Porque sem elas nada vale a pena. E num país fraco de ideias e frouxo de coragem, porque não revolucionar o conceito de intervenção autárquica, levando-a até às consequências sociais mais prementes?
É que, uma obra de asfalto ou betão, qualquer um é capaz de fazez, mas uma obra que acrescente gente a terras despidas dela, não é para todos.
Sinceramente, espera-se a resposta positiva de outras autarquias, mesmo das mais pequenas, da dimensão da de Lamas de Olo. Se todas se unirem neste esforço, pode ser que algo mude em Trás-os-Montes e, talvez, no país.
Entretanto, aqui fica um aviso: este programa poderá falhar se não for devidamente fiscalizado por funcionários formados em apoio social, ou correr-se-á o mesmo que risco que ensombra o “rendimento mínimo”: crianças em casa cheias de fome e os pais a gastarem o subsídio em drogas e tabernas. Espera-se que, logo à nascença, esta mácula seja combatida. Mas, com certeza, não serão estas excepções (que sempre as há em todo o lado), que poderão comprometer o êxito de um programa deste jaez.
Resta-nos ter esperança e confiança nas boas intenções dos autarcas transmontanos.
Para já, e para terminar, aqui ficam registados os meus parabéns à Junta de Lamas de Olo. Se calhar, e sem saberem, iniciaram uma revolução. Porque a gente bem intencionada e humilde, nunca se apercebe da grandiosidade dos seus actos.

(494)

CORRUPÇÃO!

Por Francisco Gouveia

(A realidade actual da Economia, é esta: empresas a falir e os seus administradores multimilionários à custa delas. Depois, são os Bancos Nacionais a injectarem milhões no mercado – dinheiro de todos nós – para evitarem a derrocada.
Mas foi preciso que, dos EUA, e perante a catástrofe financeira em que estão mergulhadas as principais empresas americanas, os dois candidatos Obama e Mccain, viessem, quase ao mesmo tempo e com o mesmo vigor, dizer esta verdade alto e bom som, para que o mundo se apercebesse que é a corrupção que está a destruir. Não sei é se valeu de alguma coisa o alerta)

Vejam bem a volta que política deu.
Quando há muito anos um tal de Carl Marx escreveu o Capital, livro-dogma que estabeleceu as raízes do socialismo, e origem das práticas comunistas que no século passado conquistaram muitos países do mundo, nele escreveu também que uma das formas mais justas de recompensar a produtividade dos trabalhadores, e uma forma elevada de repartir a riqueza, seria a de dividir os lucros (que como tal não deviam existir) por aqueles que tinham contribuído para os obter. Neste caso, e também, os trabalhadores. O certo é que nunca em nenhum país comunista tal aconteceu e, se Marx fosse vivo, decerto teria dado muito murro na mesa, de revolta pelo desvirtuamento que, posteriormente, os oligárquicos, burocráticos e centralizadores comités vermelhos fizeram da sua generosa filosofia.
Contudo, e apesar do insucesso que a recomendação teve no seio dos socialistas de então, o facto é que, a ideia em si, não era tola de todo não senhor! E – não sei se foi nesta perspectiva ou não – a mesma acabou por fazer lei no mundo capitalista que então emergia, cada vez com maior força à medida que o mundo comunista se afundava. Assim, foi-se criando essa imagem quase imaculada e milagrosa, do gestor super-homem. Ainda há poucos anos ouvíamos falar de super-ministros, super-economistas, super-gestores, enfim, eminentes personagens, carregados de sabedoria, com inteligência elevada ao limiar do génio, e que, por arte e engenho, eram capazes de transformar uma oficina de sapateiro numa potente indústria de couros, um tasco fedorento numa cadeia de restaurantes, uma pensão de província numa multinacional hoteleira, uma empresa de carros de bois numa internacional indústria de aviação. E foi precisamente com esta auréola de magnífica competência, que se foi criando o mito dos grandes gestores, homens sem preço, que nunca ganhariam o quanto mereciam e que, como tal, teriam todo o direito a partilhar os lucros que eram obtidos à custa das suas decisões geniais. A moda pegou. E, como uma epidemia, o mundo encheu-se desses gestores milagreiros. A Economia, de ciência escorreita passou a crendice, e as Finanças, de contas certas a autêntica feitiçaria. Pelo meio, e para minha revolta porque, confesso, não atino com o termo, criou-se uma tal de “engenharia financeira”, dizem que filho bastardo de uma economia pouco clara e de uma engenharia pau para toda a colher. Num ápice, as escolas de gestão encheram-se de gente, as faculdades de Economia abarrotaram de mestres eminentes e alunos ávidos. Lateralmente, lia-se, ouvia-se e via-se: administradores ricos como marajás de um dia para o outro, disputados a peso de diamantes como se fossem craques de futebol, contratos blindados com indemnizações galácticas, mordomias que nem nababos das Mil e Uma Noites. E nesta onda de ilusão, como se os homens pudessem fazer milagres e criar algo do nada, andamos todos adormecidos, alimentados por uma imprensa que os idolatrava, protegia e – diga-se em abono da verdade – também lucrava com o ilusionismo. Assistimos, anos a fio, a que estes gestores fizessem da Economia gato-sapato, ouvimo-los horas e horas nas intervenções televisivas, assistimos como analfabetos, aos seus conselhos e previsões, para, no fim e tardiamente, percebermos que nos andavam a vender gato por lebre e que os tais “génios” mais não tratavam senão da vidinha, abotoando-se com milhões que surripiavam às empresas por conta dos tais lucros que para elas obtinham mas que, em abono da verdade, só constavam de relatórios financeiros viciados, de negócios lucrativos no papel mas altamente ruinosos na prática, de gestões imaculadas que seguiam sempre o mesmo princípio: despedir os desgraçados dos trabalhadores para reduzir despesas quando a coisa dava para o torto.
Depois, e porque acumulavam também a capacidade de regulamentar os salários, indemnizações e reformas, atribuíam a eles próprios, salários espantosos e reformas incríveis. Isto tudo, muitas das vezes, perante a placidez dos accionistas que, durante anos e anos, aceitaram estas tropelias com a boca calada e num perfeito silêncio. E dizem-se eles, entendidos no assunto! Mas mais não era de esperar de uma Bolsa que, há muito, se transformou numa forma de especulação, e jogo que suplanta, de longe, o Póquer ou a Lotaria.
Tanto abuso e engano, havia, um dia, de provocar o caos. E é isso mesmo que está a acontecer. Finalmente, e porque estas coisas não acontecem isoladamente e, como um castelo de cartas, caindo uma, caem todas, as empresas, as grandes e enormíssimas empresas mundiais começam a mostrar a verdadeira face: empresas falidas, valendo-se do nome, vítimas de gestões aventureiras, de processos corruptos, da ganância e voragem dos seus administradores e gestores. E desenganem-se aqueles que pensam que o caos nos vai passar ao lado, porque não vai. Um mundo global como é o nosso, ninguém cá anda sozinho. As interligações são evidentes e efectivas. E mesmo o poderoso Banco da América, que está a tentar deitar a mão ao assunto, não poderá deitar a mão a tudo. E por cá? Quem deitará a mão aos Bancos, Seguradoras, grandes empresas que também enfermam do mesmo mal que a outras, mais possantes, derrubou?
Creio que, nesta altura, e a procissão ainda nem sequer saiu da Igreja, só se pode rir quem não tiver mesmo nada de nada de seu. Esse sim, vai ser o último a rir-se. Quantos aos outros, tremerão. Especialmente a classe média que, com um abano destes, dificilmente sobreviverá. Salvam-se os muito ricos, porque o são, e os muito pobres porque já se habituaram a nada ter. Pelo meio, a tal classe que é o pilar fundamental das sociedades, a tal que é equilíbrio do Poder, que garante a sustentabilidade dos regimes democráticos, essa tal classe diluir-se-á, arrastando-se, penosamente e lentamente, para os escalões mais baixos da sociedade. É dos impostos que essa classe paga que saem os milhões que os Bancos Nacionais estão a injectar nos mercados financeiros para salvar a Economia, é essa que vê as taxas de juro a aumentarem asfixiadoramente sem as poder acompanhar, é essa que sustenta toda esta bandalheira mas, muito brevemente, vai deixar de o fazer. Porque já não pode, já não aguenta e caminha depressa para a extinção.
O desespero é de tal ordem que, nem os candidatos ao homem mais poderoso do mundo, Obama e Mccain, puderam ignorar a hecatombe que se abateu no sistema económico mundial e que começou nos EUA. Disseram-no, sem subterfúgios nem embaraços, que a corrupção tinha destruído as empresas e estava a destruir os Estados. Ouviu quem quis, tapou os ouvidos quem a conversa não interessou. E prometeram ambos: que quando fossem Presidentes, tudo ia mudar.
E ai de nós se não muda!
Para já, algo de positivo transpirou desta crise: a falência da concepção do gestor mágico ou do gestor milagreiro. Creio que, a partir de agora, todos seremos mais prudentes e comedidos na contratação destes técnicos, e mais atentos ao seu trabalho. Por outro lado, será de todo irresponsável que se continue a contratar gestores pelo preço exorbitante que se pratica. No fundo, e ao analisarmos mais tarde o que fizeram ou deixaram de fazer, acabamos por descobrir que a magreza das empresas que geriram é directamente proporcional à adiposidade que conquistaram.

(495)

E SE ACONTECER?
E SE O SEU BANCO FALIR?

por Francisco Gouveia

(Já alguma vez pensou o que poderá acontecer caso o Banco onde tem o seu rico dinheirinho, vá à falência?
Sabia que as suas economias, muitas das vezes conseguidas em anos e anos de trabalho árduo, podem ficar reduzidas a uma ninharia?
Porque será que os Bancos, quando lá abrimos uma conta, juntamente com os prospectos publicitários cor-de-rosa do que nos querem vender, não juntam esclarecimentos sobre o destino do nosso dinheiro, caso haja uma bancarrota?)

A falência de um Banco, até há dias julgada como impossível, afinal pode acontecer. E se aconteceu ao quarto maior Banco do mundo, no país mais poderoso do mundo (EUA), porque não acontecer também neste país pequeno e economicamente fraco?
Esta semana, também nos EUA, já faliu outro, e estão mais três na calha!
E a maior seguradora do mundo, julgada de pedra e cal, que se estatelou arrastando consigo milhões de poupanças, sendo salva por uma manobra política de Bush, à conta dos impostos de todos os americanos?
Sobre o assunto, isto é: as probabilidades de um Banco português falir, já se pronunciaram as maiores sumidades bancárias cá da terra, e todas elas foram unânimes em que tal situação era “pouco provável”. Mas, “pouco provável” não é sinónimo de “impossível”. Além do mais, os responsáveis bancários que têm opinado sobre a matéria, não poderiam dizer outra coisa porque são isso mesmo: responsáveis bancários ao mais alto nível e como tal têm que defender a sua dama. Já repararam o que aconteceria aos Bancos a que presidem se dissessem que a falência bancária é muito possível em Portugal? Por isso, será melhor auscultarmos a opinião de quem não está (em termos de gestão) dentro do sistema bancário, mas que percebe do assunto e tem uma visão mais realista desta questão. E essas opiniões são preocupantes. E justificam: os nossos Bancos têm uma dimensão pequena, pulverizam-se em demasia num país que não dá para tanta agência, têm interligações inevitáveis entre eles, quer em termos de negócios quer em termos de base accionista preponderante, estão muito dependentes do preço do dinheiro (que têm que comprar ao exterior), partilham enormes margens de risco em produtos financeiros oriundos dos quatro cantos do planeta. Além disso, o restrito mercado interno de crédito, assente essencialmente em bens de consumo e no imobiliário, que foi durante os últimos anos a base dos lucros bancários, está pelas ruas da amargura. Sendo assim, o cenário de falência, se bem que digam não ser alarmante, deve ser, pelo menos, preocupante. E tão preocupante como o que poderá acontecer ao dinheiro dos clientes caso o Banco abra falência. Será que alguém já se deu à curiosidade de saber o que pode acontecer aos depósitos que tem num Banco, caso este entre em colapso? Como os tais Bancos e a tal Seguradora americana?
Vamos tentar perceber, então, o que acontece.
O mecanismo de protecção aos depósitos dos clientes bancários, em Portugal, é muito frágil e resume-se a um máximo de 25 mil Euros. Ou seja: existe um seguro (que integra todos os Bancos que operam em Portugal), chamado de Fundo de Garantia de Depósitos (instituído pelo Decreto Lei 298/92 de 31 de Dezembro), que estabelece uma recuperação até ao máximo dos tais 25 mil Euros. Assim, se o meu amigo tiver 50 mil Euros (por exemplo) depositados num determinado Banco, e este for à falência, só receberá, através desse seguro, 25 mil Euros, e o restante ficará condicionado às condições em que for efectuada a liquidação das contas do Banco falido, o que significa que pode ou não reaver a totalidade do dinheiro depositado, mas o mais certo é tal não acontecer pois, caso o Banco tivesse liquidez para reembolsar todos os depósitos dos clientes, decerto não faliria. E mesmo que o Banco possua bens, imobiliários ou outros, cuja alienação possa cobrir em parte ou na totalidade, o montante dos depósitos, pode andar-se anos num processo de liquidação para no final ficar tudo em “águas de bacalhau”.
Ressalve-se que, neste processo de reembolso, as acções e fundos estão garantidos pelo preço que valerem na altura e, como é lógico, sujeitas às regras e ao mercado.
E é, também aqui, que a “porca torce o rabo”: são os depósitos a prazo ou à ordem, que são entregues à confiança de um Banco por aqueles que não querem assumir nenhuma margem de risco, que estão mais vulneráveis, ou seja, que apresentam risco maior nas circunstâncias de uma falência.
Por outro lado, há algumas questões que se levantam e que se prendem com a actuação dos Bancos Centrais dos países (Banco de Portugal no nosso caso). A falência da tal Seguradora portentosa americana, levou a que o Banco Central do EUA (Reserva Federal), injectasse, isto é, cobrisse com dinheiros próprios (dos contribuintes) os prejuízos, evitando assim que centenas de milhões de americanos ficassem na miséria dado terem lá as suas poupanças, incluindo as poupanças-reforma. Tratou-se de um acto político de Bush, porque não o fazendo, o candidato MaCcain teria as eleições irremediavelmente perdidas, acto esse que muito dificilmente se repetirá, especialmente se as falências começarem a acontecer em cadeia.
E em Portugal? O que aconteceria?
Será que o Banco de Portugal acudiria aos depósitos efectuados num determinado Banco ou Seguradora, para salvaguardar os aforros dos depositantes? E será que o Banco de Portugal tem capacidade financeira para o fazer? E será que o quereria fazer? Não estaria a intervenção estatal numa falência, dependente da situação política de momento, e da perda ou ganho de votos a curto prazo numas eleições (como o que aconteceu agora nos EUA)?
E como reagiria o Poder caso se tratasse da falência, por exemplo, da Caixa Geral de Depósitos, banco de intervenção estatal? Agiria do mesmo modo caso se tratasse de outro Banco qualquer?
E há outra situação que me incomoda.
Quem tem depósitos a prazo, ou investidos em produtos financeiros tipo “aforros” ou outras modalidades de depósitos a prazo, que os vários Bancos disponibilizam com uma margem “zero” de risco e que, por isso, têm taxas de juros muito baixas e períodos de permanência elevados (geralmente nunca inferiores a 3 anos), não deveriam ver salvaguardadas com garantias mais sólidas porque, na grande maioria, representam poupanças de anos e anos de trabalho? Muitas das vezes autênticos complementos de reforma?
Porquê só a garantia de recuperação de um máximo de 25 mil Euros? Não será isto um convite a que os clientes de um Banco onde têm as suas poupanças, não optem por distribuí-las por mais Bancos?
Por exemplo:
– um cliente tem 100 mil Euros num depósito a prazo num Banco. Caso este abra falência, só tem garantido o reembolso de 25 mil e perde os restantes 75 mil. Então, e se distribuir esses 100 mil por quatro Bancos, depositando 25 mil em cada um, está salvaguardado porque, se um deles falir, é reembolsado do que lá tem, e se, por acaso do diabo, faliremos os quatro, recebe na mesma os seus 100 mil (25 mil por cada um). Será assim? Ou não? Onde está o esclarecimento devido, quer do Banco de Portugal, quer da Associação de Bancos Portugueses?
É isto o que representa o tal seguro “inter-bancário”, o tal Fundo de Garantia de Depósitos? E se assim for, não será o tal seguro de uma fragilidade assustadora?
Quando abrimos uma conta num Banco ou investimos num produto financeiro de uma Seguradora, os seus funcionários só nos contam maravilhas, e somos “encharcados” de prospectos louvando as vantagens de ter aderido àquela instituição bancária e de termos optado por aquele produto. Contudo, nada nos é dito nos riscos que poderemos correr e nas formas de o amenizar, caso suceda uma falência ou o Banco entre em sérias dificuldades.
Isto é: caso o meu amigo vá à falência e não cumpra com as suas obrigações para com o seu Banco, este penhora-lhe a casa, o automóvel, os tarecos, até os sapatos e o pijama. Mas caso seja o Banco a falir, “ferram-lhe o jeco”, mandam-no para o tal Fundo de Garantia e depois, desenrasque-se!
Mas há ainda outra questão que se prende com o papel fiscalizador e informativo do Banco de Portugal, missões que, como se sabe, o nosso Banco de Portugal não tem cumprido ou se o faz, fá-lo mal. Vejamos:
É obrigação do Banco de Portugal verificar a actividade dos Bancos e detectar (porque tem meios e mecanismos legais para tal) qualquer situação que possa indiciar a entrada de um qualquer Banco numa “zona vermelha”, isto é, de perigo. E é obrigação do Banco de Portugal exigir a esse Banco que elabore planos de recuperação, de saneamento financeiro, de aumento de liquidez, de contenção aqui ou ali, etc., etc., etc. Mas, todos sabemos da actuação desastrosa do Banco de Portugal a todos os níveis, começando pela displicência no aviso e controle do endividamento das famílias, até à quase “bancarrota” do BCP (situação que ainda dá que falar e não está de todo resolvida). Sejamos claros: até hoje, e pelo menos na última década, a actuação do Banco de Portugal só nos pode deixar apreensivos. Para ele está sempre tudo bem. Entre fiscalizar e exigir, controlar excessos e salvaguardar o dinheiro de todos nós, quando toca a Bancos a norma é deixar correr o marfim, preferindo alimentar o falatório financeiro da nossa praça com ridículas subidas e descidas milésimais do crescimento, investimento e quejandos. Quem lê, semanalmente nos jornais, ou consulta as listas de penhoras das Finanças, ou está atento aos leilões de imobiliário onde os bens na praça pública são aos milhares, sabe que este descalabro em muito se deve à rédea larga que o Banco de Portugal (e não só) deu à Banca. Os resultados estão à vista.
Em Portugal a génese dos Bancos existentes, engloba três modalidades: Banca comercial (com base accionista), Banca sob o controle do Estado (Caixa Geral de Depósitos), e Banca Mutualista (de vertente associativa e da qual o Montepio é a dominante). Cada uma delas encerra uma filosofia e actuação própria e uma gestão em conformidade, mas distintas entre si. Pergunta-se: será que cada uma destas Bancas será vista do mesmo modo pelo Estado? Como está sujeita, cada uma delas, à intervenção do Estado segundo o Governo que detenha o Poder num dado momento, em caso de ruína?
Creio que é altura de os principais responsáveis pela actividade bancária em Portugal, virem esclarecer-nos. Todos eles. Para que se grave e fique registado. Mas não só: também é preciso ouvir os outros. Os que não estão ligados a esta actividade: professores universitários de Finanças e Economia, Política, jornalistas das especialidades, etc., mas também os clientes, os que depositam, os que confiança à guarda dos Bancos o seu dinheiro, quer seja muito quer seja pouco. A Economia e as Finanças não são ciências tão complicadas como as querem fazer crer!
Hoje, mais do que noutra altura qualquer da nossa vida (lembremo-nos que última grande recessão – antes desta? – foi em 1929), é necessário que saibamos as linhas com que se cosem os nossos depósitos.
E a verdade, é que não sabemos.
O meu amigo, que acabou de ler este artigo, sabe? Já foi perguntar ao seu Banco?

(496)

A “SEGURANÇA SOCIAL” DO CAPITALISMO

por Francisco Gouveia

(Os mesmos que, ainda há pouco tempo criticavam o sistema de Segurança Social por ser muito pesada para o Estado, e que os trabalhadores deviam entregar-se nas mãos dos “capitais e seguros de reforma” patrocinados por Bancos e Seguradoras, são os mesmos que, agora, vêm de joelhos e mãos em prece, pedir que, com o dinheiro dos descontos dos tais trabalhadores, lhes acudam nas falências.
Afinal, os abutres do neo-liberalismo sempre acham que a Segurança Social deve existir. E reforçada.)

Em abono da verdade, isto nem é capitalismo nem é nada! Aliás, o capitalismo de hoje não é comparável com o de há 20, 30 ou 50 anos. O capitalismo abastardou-se, fruto de ilícitos entre o capital e as doutrinas do lucro a qualquer preço. A crise que vivemos resulta de um sistema híbrido, misto de ganância encapuzada e política conivente. Um regime capitalista tem as suas regras, as suas leis e normas, e tem, como objectivo, criar a liberdade possível para a realização pessoal e colectiva. O neo-liberalismo, filosofia económica com que certos tecnocratas pretenderam “revolucionar” o capitalismo, acreditando que ele era capaz de resistir a todas as diatribes e de se regenerar, gerando, por hermafroditismo, um sistema cada vez mais sólido, é uma treta tão grande como os milhões que os seus defensores meteram aos bolsos, à pala da fé dos que neles acreditaram.
Uma das características do neo-liberalismo é tese de que tudo deve ser privatizado, entregue a particulares, e o Estado não é mais do que o defensor da ordem pública e garante da defesa constitucional. Assim, qualquer regime de segurança social é pernicioso e, até este, deve ser entregue nas mãos dos particulares, via instituições bancárias, seguradoras, etc.
Veja-se agora no que deu este neo-liberalismo e de como, de joelhos em terra e mãos implorando, os mesmos que até ontem defendiam com unhas e dentes este sistema, vêm hoje pedir que seja o próprio Estado a deitar-lhes a mão, lançando nos mercados financeiros biliões resultantes dos cofres públicos. É um autêntico apelo a uma forma idêntica à da Segurança Social, por aqueles que julgavam o Estado demasiado “pesado” e interveniente. E então, como por exemplo nos EUA, onde o sistema de saúde é ignóbil, onde as reformas são de esmola e onde só estuda quem tem dinheiro ou sabe jogar basket, é pedido que o mesmo dinheiro que durante décadas não pode ser usado na melhoria das condições de vida dos americanos, seja agora lançado à balda nos mercados para que se salvem Bancos e Seguradoras na falência.
As grandes empresas, hoje, já não são familiares nem têm patrões assumidos. São um magote de accionistas e quem as administra é um grupo que não arrisca o que é seu. Arrisca o dinheiro dos outros. E nós, que ao depositarmos o nosso dinheiro numa dessas empresas, também fazemos, ao mesmo tempo, um voto de confiança nelas, afinal, nem sabíamos ao certo o que é que essa gente fazia com o nosso dinheiro. Começamos a saber agora.
De um momento para o outro, quer transformar-se o Estado numa espécie de protector empresarial, quando essa missão protectora, a nível social, foi acerrimamente contestada nos últimos anos.
Porquê, então, lançar dinheiro dos contribuintes nos mercados? Se o sistema capitalista se baseia no mercado, porque não deixar o mercado funcionar? Funcionar segundo as próprias regras? Se um Banco falir, porque não deixá-lo falir, e sujeitá-lo às normas da concorrência, ou seja: ser comprado por outro mais forte, ou abrir falência. Mas abrir falência nos termos estabelecidos pelo capitalismo. Pois se este sistema permite a qualquer um enriquecer quando aposta em negócio rentável, porque não levar os responsáveis à ruína quando as coisas correm em sentido contrário? E liquidar a empresa para pagar as dívidas, como acontece a qualquer cidadão?
Não seriam mais bem aplicados os dinheiros públicos, por exemplo, em baixar as taxas de juro e possibilitar às famílias o cumprimento das suas obrigações? Que é que acham os senhores do Banco Central Europeu e da Associação de Bancos Europeus donde saem as taxas da Euribor? Acham que conseguem manter esta subida insuportável das taxas de juro? Que pretendem? Arruinar a classe média europeia? Lançar no caos o sistema económico? Que diabo de estratégia é essa de aumentar sem conta nem medida a Euribor, sabendo de antemão que, a curto prazo, isso representa a miséria de muitas famílias e a consequente insolvência perante o credor, neste caso, os Bancos?
E depois, há que ter em conta a pedagogia.
Acham que, se os Estados lançarem no mercado dinheiros públicos, e se os responsáveis aventureiros desta crise mundial ficarem impunes, isto não será um convite para que, daqui a meia dúzia de anos, a abissal crise de hoje não se repita? É o mesmo que dizer: asneie-se à vontade que não há responsabilizações pessoais e depois vem o Estado salvar-nos!
Caso as medidas a tomar não forem rigorosas, severas e transparentes, não se estará a contribuir para que este pandemónio do capitalismo à rédea solta não se institucionalize até à derrocada final? Não será este o estertor do capitalismo? Ajudar este tipo de capitalismo não será abrir as portas aos regimes comunistas?
Se fizermos uma viagem ao passado da génese do sistema capitalista, constataremos que a sua raiz assentava em dois pilares: livre iniciativa e responsabilidade. Livre iniciativa no sentido em que, qualquer um, por mérito próprio, arrojo, ambição (se quiserem), poderia ser rico desenvolvendo actividade lucrativa. Mas também responsabilidade porque havia o outro lado da moeda: a responsabilização pessoal pelo fracasso. Quantos milionários não se arruinaram no passado? Quantos empresários não ficaram na miséria porque as suas empresas tinham falido?
E hoje? As empresas vão à falência e os seus responsáveis saem airosos com os bolsos cheios! Cheios com o nosso dinheiro, ainda por cima! Um capitalismo assim, não o quero! Rejeito-o! Quero um capitalismo à moda antiga, um capitalismo capaz de se regenerar, sim, segundo as regras que estiveram na sua raiz, num constante aperfeiçoamento e onde a vertente social nunca, mas nunca, seja esquecida. Um capitalismo sem valores de moral e justiça, não é capitalismo, é um poço de ladroagem, ganancioso e pirata.
Deixem o capitalismo funcionar com as suas regras tradicionais. Não inventem!
Já basta de invenções!
E um último reparo: provoca-me náuseas que muitos “eminentes” economistas da nossa praça, que durante anos nos andaram a impingir as virtudes deste sistema falido, e que, em abono da verdade, enriqueceram também à custa dele, venham agora opinar sobre as soluções para a crise. Foram responsáveis pela doença e querem agora arranjar remédio para o moribundo?
Há gente por aí, que se tivesse vergonha nem à rua vinha.

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AVISOS SÉRIOS PARA OUVIDOS MOUCOS?

por Francisco Gouveia

(É preciso entender os sinais dos tempos, os sinais do mundo, mas também os sinais da região. Há avisos que pairam no ar e só não os escuta quem não quer.
O Turismo no Douro está a dar-nos esses sinais. Para já, são somente avisos sérios, e espera-se que saibamos agir para que não passem disso.)

As tragédias dão sempre prévio sinal. A terra estremece muito antes de um terramoto, há pingas espaçadas de chuva grossa antes de uma “carga de água”, o nosso organismo avisa-nos quando a saúde vai claudicar. A Natureza é assim, rigorosa, e, contrariamente ao que dizem, nada traiçoeira. O facto é que, na maioria das vezes, por ignorância ou displicência, não damos atenção aos avisos que ela os transmite. Mas isto não se passa só com a Natureza mas com tudo na vida. Por exemplo, a crise económica que o mundo está hoje a atravessar, há muito que se previa. Os seus sinais foram demasiado evidentes para que pudessem ser ignorados. Mas, a euforia dos milhões fáceis, que embebedou as administrações bancárias e afins, cegou o bom-senso. A fúria do dinheiro venceu a prudência. Por volta de 2000, foi a queda na Bolsa, depois os dados crescentes e preocupantes do endividamento das famílias, as subidas doidas das taxas de juro, a crescente onda terrorista, a autocratização da política, a mediatização exacerbada, o desvirtuamento dos valores morais, enfim, desde os sinais económicos, aos sociais, políticos e até religiosos, tudo indicava que algo de grave estava a germinar. Se algo de benéfico se pode atribuir a esta crise, será a sua pedagogia para futuro (algo que duvido) e, também, a lição de que há sinais que devem ser auscultados com atenção.
Vem tudo isto a propósito daquilo que considero serem já sinais preocupantes de uma crise turística que se pode instalar no Douro. Para já, assente-se que, por cá, o sistema ainda está muito periclitante, desorganizado, faltando desde logo uma estrutura orgânica regional que trate do turismo duriense a sério, até às directrizes que devam ser aconselhadas aos operadores turísticos locais que, a bem dizer, têm gerido o sector com base em critérios pessoais, alguns acertados mas também com muitos erros – já para não falar da descoordenação evidente na actividade. Referi, há dias, um estudo que apontava para que somente 25% dos turistas que nos visitam, tem intenções de cá voltar. É uma taxa muito baixa. Causas de que se queixavam, sumariamente, três: falta de relação entre a qualidade/preço, falta de equipamentos (saúde, transportes, etc.) e carência de animação lúdica e cultural. Mais recentemente, a iniciativa da Rota do Vinho do Porto, chamada de “Abrem-se as portas do Douro”, onde várias Quintas, Hotéis, etc., franqueiam as suas portas oferecendo provas de vinhos e petiscos de graça, aos turistas, também não está a ter, este ano, o êxito que se esperava. A iniciativa é boa mas, pelo que tenho observado no turismo duriense, nestes últimos tempos, acho que há coisas louváveis mas tudo me parece muito desgarrado, isto é, sem uma filosofia de fundo que lhes sirva de cimento. Ainda recentemente, teci alguns comentários ao Douro Jazz, não pela iniciativa em si, mas pelo facto de que também me pareceu desajustada no tempo. Isto é, num tempo de vindimas, onde o turista-tipo pretende ver, ouvir e sentir, as coisas regionais, não me parece atractivo que lhe ofereçam Jazz. Um Festival de Música Popular Portuguesa (não confundir com música folclórica portuguesa) não seria mais apropriado? C’os diabos, eu vou à Irlanda para ouvir música Celta, assim como vou a Espanha para ouvir flamengo, ou ao Brasil para ouvir samba! Porque será que os turistas hão-de vir ao Douro para ouvir Jazz? Não será que este Douro Jazz é mais para consumo interno? Então, que fosse realizado noutra altura. Mas adiante.
A estes pequenos sinais juntam-se outros, resultantes de uma crise no sector vitivinícola, institucional e económico, que já se arrasta há tempo demais, e que já deveria ter sido solucionado. A guerrilha que se instalou no Douro não permite o sossego necessário a um trabalho profundo. Por outro lado, a burocrática e fastidiosa máquina do Estado, ainda não resolveu a questão do Pólo de Desenvolvimento Turístico do Douro, e só agora o Secretário de Estado do sector criou uma Comissão Instaladora do referido Pólo. É certo que, sobre ele, recai sobre a região e os seus governantes, a maior responsabilidade no atraso e na confusão que se instalou, o que, em meu entender, ainda é mais grave do que se o atraso fosse somente imputável ao Governo.
Seja como for, estes sinais são para que se atente neles. Há excelentes exemplos de qualidade e iniciativa privada (ainda esta semana vai ser inaugurado mais um Hotel na Folgosa, onde já existe um DOC irrepreensível), e que precisavam de uma maior organização administrativa. Anda muita balda à solta neste Douro vinhateiro e turístico. E mal fazemos nós se não ouvirmos estes sinais premonitórios de crise, ou de que algo pode correr muito mal. Que ela vem, dessa não escapamos! Mais tarde ou mais cedo, a onda de choque há-de cá chegar. Falta saber com que intensidade e se estamos, de facto, preparados para ela. Para já, acho que não estamos.
É preciso ouvir os sinais dos tempos, os grandes sinais do mundo, e os pequenos sinais que a região nos sussurra.
Aos avisos são sérios, os ouvidos não podem estar moucos.

(498)

CRISE? QUAL CRISE?

por Francisco Gouveia, Eng.º

(O que é demais é moléstia, e esta crise, tresanda! Mas a máquina infernal da propaganda, acabou por convencer o planeta de que o fim do mundo estava à porta!
Agora, é tarde demais: o nosso dinheiro já está em “boas” mãos!
Não sei se os Bancos faliram, se iam falir, nem sei se a Bolsa ia dar o estoiro, nem se o sistema económico mundial ia dar o berro! Só sei que, o dinheiro que havia antes da crise, é o mesmo que há agora. Então, onde é que está a crise?)

A máquina infernal da propaganda, funcionou! Tratou-se de um processo abissal de lavagem cerebral colectiva, a nível mundial, como nunca a História da Humanidade tinha visto! Diariamente, hora a hora, minuto a minuto, a imprensa berrou aos quatro cantos do planeta que vinha aí o fim do mundo! A crise financeira era de tal ordem que ninguém lhe escapava! Seria a derrocada final, um Armagedon saído do inferno dos infernos! Mesmo os mais descrentes acabaram por acreditar que os Governos e os Estados tinham que salvar o sistema económico da maneira que mais convinha aos especuladores: injectando dinheiros públicos no que é do privado! E, como um bando de cordeiros, todos eles lá foram acudir com o dinheiro de todos nós.
Esta imensa e global escalada da propaganda, transformou-nos em meros espectadores do descalabro de, com o dinheiro dos pobres e remediados, se salvarem as fortunas dos multimilionários. Os telejornais abriam sempre com as desgraças da Bolsa, com os índices que desciam a pique, como se o negócio bolsita não estivesse há muito transformado num jogo de ganha e perde, ao estilo dos Casinos de luxo. Depois, bombardearam-nos com as notícias de que este Banco estava na eminência de falir, aquele na perspectiva de se afundar, aquele outro à beira do abismo. A gente ouvia, incrédula, porque o nosso dia-a-dia era a tristeza de sempre, com ou sem crise. Mas ai de quem questionasse a razão científica e patriarcal dos iluminados que defendiam a intervenção imediata dos Estados. Até o próprio prémio Nobel da Economia deste ano, um tal americano de que não me lembro o nome (mas também não me faz diferença nenhuma) dias antes de o receber (coincidência?) defendia uma actuação rápida e acelerada, criticando o Governo americano por agir quinze dias depois do britânico, que resolveu abrir os cordões à bolsa de um dia para o outro. No fundo, perguntamo-nos quem é que afinal, está em crise. Será a Bolsa? Os Bancos? Ou seremos nós?
Vistas as coisas, não é classe média que, há anos, sofre com a diminuição das suas capacidades económicas e perda de influência política? A falha nas cobranças das prestações dos empréstimos não será devida à brutal e gananciosa subida da taxa de juros? E à falta de políticas correctas de emprego? E à subestimação do valor do trabalho em favor do lucro fácil e imediato? De que é que os Bancos estavam à espera? De se cobrarem de valores mensais de empréstimo que começaram a ser superiores (e em muito) ao valor do arrendamento do imóvel? De pedirmos dinheiro para comprar uma casa e, feitas as contas, no fim do contrato pagámo-la três e quatro vezes?
Afinal, de que crise estamos a falar? Que eu saiba, o dinheiro não se evaporou. Está aí como sempre esteve. Então, o que se passa realmente? Se o dinheiro não acabou, onde está o problema?
Dizem que é falta de liquidez. Isto é, para os Bancos está tudo bem desde que sejam detentores do dinheiro todo. E quando digo detentores, digo donos e senhores de fazerem dele o que bem entendem, em vez de o guardarem com cuidado e prudência, como se espera que o façam.
Mas não aguentaram nem um simples abanão. Caídos na escandaleira das aplicações abusivas em mercados emergentes pouco fiáveis, em off-shores piratas, em produtos financeiros que serviam para lavar sabe-se lá o quê, e refugiados em relatórios de contas à medida da especulação bolsista, administrações em peso fugiram a sete pés. Mas não se julgue que ficaram quietos. Na penumbra dos grandes conluios, de mãos dadas com os senhores do dinheiro, arquitectaram esta grande tramóia de que só os Estados poderiam salvar o mundo, salvando-lhes as fortunas. E a tal máquina infernal de que falei, e vive também deste clima eufórico de ganância, agiu. E fez o seu papel com mestria. Em menos de um mês, as Tesourarias Nacionais começaram a dar-lhes aquilo que nunca deram ao povo! Como Robins dos Bosques ao contrário, tiraram dos pobres para dar aos ricos.
E as Bolsas reanimaram, os índices subiram, abriram-se garrafas de champanhe em Wall Street e na City, os sorrisos hipócritas dos correctores rasgaram-se, teceram-se elogios aos Governos, os ricos continuaram muito ricos, e os pobres a assistir, com as caras apalermadas do estupor, a razia com que se tapava o sol da verdade.
Caímos como patos! Essa é a verdade! E agora, de pouco adianta começarem a aparecer vozes a criticar a forma como o mundo político se precipitou: sem sequer aguardar um pouco mais; sem fazer as contas bem feitas; sem medir, com rigor as consequências dos actos.
Agora, é tarde demais. O nosso dinheiro já está em boas mãos. A máquina infernal venceu. Por mais dois ou três anos, no máximo, teremos a paz económica garantida, até que, a seguir, a história se repita. Sinal de que, afinal, não aprendemos a lição.
Mas também, que culpa temos nós se ninguém no-la ensinou?

gouveiafrancisco@hotmail.com

(499)

A CANDIDATA QUE NÃO QUER GANHAR

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(De repente, a “elite profética” do PSD decidiu que Manuela Ferreira Leite tinha que tomar conta do partido e derrotar Sócrates. A senhora não queria, mas os profetas insistiram com tal veemência que ela, contrariada, acabou por aceitar.
Com Sócrates imbatível nas próximas legislativas, ela faz tudo para não dar nas vistas, porque não quer ser Primeira – Ministra.
Agora, com o barrete enfiado até ao pescoço, os profetas andam por aí escondidos como coelhos em dia de caça.
Ela, lá vai desempenhando o seu papel, como se de uma penitência se tratasse.)

É feio dizer a idade de uma senhora, mas este facto é, no caso vertente, incontornável. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite tem 68 anos. Estava calmamente em funções na Caixa Geral de Depósitos, e era lógico e humano que por ali quisesse ficar, talvez num lugar no Conselho de Administração lá mais para diante, até à reforma. A idade dá-nos sabedoria, mas também prudência.
Por mais do que uma vez teve oportunidade de chefiar o PSD, contudo, nem sempre as condições políticas se reuniram para que tal acontecesse. Circunstancialismos vários e que têm a ver com outras figuras que se sobrepuseram aos acontecimentos, barraram-lhe o caminho. Assim, pode dizer-se que Manuela Ferreira Leite teve o seu tempo de poder aspirar a ser Primeira-Ministra. Não o conseguiu no seu tempo certo, e agora já é tarde de mais. Ela sabe-o. Tinha condições técnicas, traquejo político, uma imagem de sobriedade, enfim, podia ter sido líder do PSD e podia ter disputado a chefia de um Governo. Mas, como disse, as contingências da política sempre lhe contrariaram as aspirações. Assim, não seria muito credível que, numa altura já adiantada da sua vida, pudesse aguentar com o fardo de chefiar uma Oposição com ambição de derrotar um Sócrates que é um mestre de marketing e que já é um vencedor antecipado.
Mas há outra questão: as várias passagens por alguns Governos, tornaram Manuel Ferreira Leite uma figura frágil, isto no sentido de quem tem, no seu passado governativo, muitas recordações de actos polémicos, decisões muito discutíveis e vários erros de projecção. E ela também o sabe, como o sabem os promotores das sua candidatura, ou seja, os que, usualmente dentro do PSD, gostam de empurrar outros para a cabeça do touro e ficar na retaguarda no bem-bom dos cargos que ocupam, por influência que detêm.
Esta “elite profética” do PSD, precisava de uma figura sóbria que evitasse a desagregação do partido e que mantivesse uma certa acalmia interior no mesmo. Manuela Ferreira Leite foi assim escolhida, mais por ter o perfil ideal para representar este papel, do que para ganhar as próximas eleições a Sócrates. E a Sr.ª Dr.ª lá vai cumprindo o seu papel, pesadamente, como uma penitência, com pouca vontade de ser uma real alternativa ao actual Governo. De qualquer forma, é justo dizer-se que seria muito pouco provável que, dentro do actual espectro político de quadros do PSD, se pudesse encontrar alguém que conseguisse vencer as próximas legislativas de 2009 (Marcelo Rebelo de Sousa seria, talvez, a única figura com algumas possibilidades, mas toda a gente sabe que o cargo de Primeiro-Ministro já não o fascina). Contudo, poderia encontrar-se alguém que, mesmo sabendo que as ia perder, fosse preparando terreno para uma mudança em 2013. E isto não é o que Manuela Ferreira Leite pode fazer. É certo e sabido que, após as legislativas de 2009, sairá.
Entretanto, a campanha que aí se avizinha, deverá ser muito penosa para a candidata do PSD. Como disse, ela está numa posição de alguma fragilidade, e se os ataques ainda não saíram da cartola do PS, é tudo uma questão de tempo, sendo certo que os estão a guardar para quando as acções de campanha começarem a sério. Mas o que torna frágil a posição de Manuel Ferreira Leite?
Muita coisa.
Por exemplo, como Secretária de Estado do Orçamento do tempo e que Cavaco Silva era Primeiro-Ministro, foi ela que originou a primeira greve geral pós 25 de Abril, por via de reformas que pretendeu implementar e que tiveram forte oposição dos Sindicatos. Mas já anteriormente, como Ministra da Educação (1993 / 95), foi alvo de forte contestação dos alunos do Ensino Superior. Mais tarde, já como Ministras das Finanças de Durão Barroso (2003 / 2004), foi também ela que originou uma “guerra” com o Tribunal de Contas por ter (na versão do TC) subavaliado as transferências dos fundos de pensões para a Caixa Geral de Aposentações, num processo que criou os precedentes que se conhecem sobre este tipo de transferências. Os polémicos “pagamentos especiais por conta” foram outra pedra no sapato da sua governação. Nessa altura, a sua política de receitas extraordinárias fez, pela negativa, história, e os actos avulsos que provocaram pagamentos desmesurados aos contribuintes, para além de inconsequentes, esgotaram a tolerância dos portugueses aos “assaltos fiscais”.
Mas teve mais: enquanto governante, cometeu erros de previsão, quer em termos de crescimento, de inflação, etc., motivo pelo qual, hoje em dia é criticada pelo actual Ministros das Finanças. Mas o seu acto mais discutível e mais próximo na governação, foi o ter avalizado, como Ministra das Finanças, a compra dos célebres e polémicos submarinos tão reclamados por Paulo Portas (na altura seu companheiro de Governo como Ministro da Defesa) compra essa que é dinheiro que não se vê (não fossem eles andar debaixo de água) como contribuiu para que, anualmente, o nosso Orçamento sofra um “rombo” com o pagamento das prestações.
Em suma, Manuela Ferreira Leite, bem vistas as coisas, é uma figura muito exposta. A próxima campanha eleitoral vai demonstrar que o PS a atacará por todo o seu historial governativo. Não discuto, agora, e mesmo passados estes anos todos, se essa polémica é justificada por actos governativos errados. Se calhar, até muitos deles foram necessários e deviam seguir em frente. Mas a realidade é que não seguiram e a história só regista estes actos avulsos como não tendo acrescentado nada ao desenvolvimento do país. Ou seja, Sócrates vai esperar o momento certo (como só ele sabe fazer) para a atacar, e é bom que Manuela Ferreira Leite se prepare para alguns ataques violentos. Muito violentos. E é desta fragilidade que falo, da sua posição muito vulnerável e, também, da sua nítida falta de “garra” (agora) para se consolidar como líder credível da Oposição e se poder apresentar aos portugueses como uma alternativa consistente.
E eu pergunto: não teria sido melhor que o PSD tivesse apostado noutra figura, mesmo que menos conhecida, mas com outra frescura e ambição, e que estivesse disposto a trilhar o caminho, desde já, até 2013? Não é de derrota em derrota que se chega à vitória?
Mas a tal “elite profética” e bem instalada do PSD, não quis assim. Porque esta elite pensa mais na barriga do que no partido, e muito menos no país. Esta elite não quer ganhar eleições, mas somente ter no partido alguém que o “segure” e que evite que o partido ouse pensar em reformas que possam abalar-lhes com os cargos. Porque o que se joga neste país, meus amigos, são cargos. Há muito que a governação em Portugal se transformou num trampolim para esses cargos dourados.
Manuela Ferreira Leite devia ter dito a esses senhores, redondamente, que não! Devia ter resistido a este “regresso ao passado”.
Fez-lhes a vontade, e fez mal. Mas ela, mais do que ninguém, pode imaginar os dias difíceis porque vai passar, quando a campanha começar. Mas se ela assim o quis…

(500)

BRINCAR COM A ÁGUA

Francisco Gouveia, Eng.º

(De Mesão Frio ao Tua, continuam a faltar meios aos Bombeiros para acudirem a eventuais desastres fluviais. O alerta de há dois anos, caiu em saco roto.
Os barcos lá andam, rio acima, rio abaixo, carregados de turistas, cumprindo a sua missão.
Mas se acontece uma tragédia?
Que será do turismo no Douro?
Por cá, não se brinca com o fogo, brinca-se com a água!)

Se bem me lembro, os Bombeiros há dois anos que deram o alerta sobre a falta de meios e de formação para acudirem a um eventual desastre com embarcações (naufrágio, incêndio a bordo, etc.) que possa ocorrer no Douro. Julguei eu – na minha inocência de contribuinte que ainda julga que o Estado está atento aos verdadeiros problemas e que se preocupa com a segurança dos cidadãos – que a questão teria, desde então, sido resolvida. Contudo, quando há dias li na imprensa regional (jornal A Voz de Trás-os-Montes) declarações do Presidente da Federação Distrital de Bombeiros de Vila Real, segundo o qual, caso aconteça uma situação grave no rio Douro que implique o salvamento de náufragos, de Mesão Frio ao Tua as Corporações não têm meios disponíveis para o fazer, fiquei alarmado.
Independentemente das questões orgânicas e de articulação entre entidades, há algo de muito preocupante – desleixo absoluto – que rodeia o assunto.
Imaginemos o pior cenário, ou seja: que, de facto, a tragédia acontece. Que um barco naufraga, que há um incêndio a bordo, que há algum turista que cai ao rio, enfim, que aquilo que pode acontecer mas que ninguém (como é habitual) acredita que aconteça (porque os males só acontecem aos outros) desaba tragicamente sobre o nosso turismo fluvial. E pensem, também, na importância do rio, do turismo fluvial, nos investimentos que têm sido feitos, no cartaz que constitui subir e descer o Douro, etc., etc., etc.
Imaginem também o que a imprensa mundial ligada aos interesses de outros destinos turísticos, ávida em notícias que possam denegrir este canto Lusitano (vejam só o que aconteceu com o caso Madie no Algarve), diria do Douro. Quase que me atrevo a dizer que, num ápice, o rombo seria catastrófico. É evidente que, ao majorar a vertente financeira do assunto, não quero menosprezar a questão da eventual perda de vidas humanas – longe disso – tanto mais que é da segurança das pessoas que se trata, sendo que todo o resto é acessório. Mas o que me espanta é que ainda haja (e com o devido respeito pelos investidores do sector) quem arrisque neste tipo de turismo sem que, previamente, haja garantias oficiais de que as infra-estruturas de apoio em termos (pelo menos) de segurança, estejam previstas. Se calhar, inocentes como eu, até julgam que as há! Puro engano.
Mas, dizia eu, tive a sensação de que as declarações de Alfredo Almeida (Presidente da Federação) não tiveram a ressonância que mereciam. Parece-me que tudo ficou num limbo perigoso, numa espécie de jogo do empurra, e que a região não se apercebeu que o assunto é da maior gravidade. Quase fulcral para o futuro do turismo duriense. Chego a pensar se esta matéria não seria uma prioridade a resolver ou a debater com urgência, no futuro Pólo de Desenvolvimento Turístico. Mesmo por muito que me digam que o assunto não é da competência daquele órgão.
Eu pergunto: antes de se pensar em acções de promoção do Douro, em programas turísticos para o Douro, em projectos de desenvolvimento turístico para o Douro, será que estão garantidas as condições máximas de segurança para os que nos visitam nas expectativa de uns bons tempos passados em qualidade e segurança? Não será que andamos todos a pôr o carro à frente dos bois? E se acontece uma catástrofe?
Lembram-se (com certeza e infelizmente) da queda da ponte de Entre-os-Rios e das suas consequências. A região, durante anos, ficou manchada de negro. E nas fatídicas camionetas não viajava nenhum estrangeiro! E só por isso a imprensa estrangeira não nos cilindrou!
Há questões que não podem ser deixadas para amanhã. Há questões de hoje que já deveriam ter sido resolvidas ontem. Quase que me atrevo a dizer, perante estes factos, que o turismo no Douro está em perigo, no fio da navalha, e que, estranhamente, há uma inconsciência generalizada que já é intolerável.
Não sei quantos vezes mais será necessário que aqueles que têm sobre si a responsabilidade de acudir aos desastres no Douro, tenham que vir publicamente denunciar a situação de carência e de falta de meios com que vivem diariamente. E, c’os diabos, estamos a falar de um sector lucrativo, de interesse económico como é o turismo no Douro. É que, por aqui, nem pode sequer haver a desculpa de falta de meios financeiros. Eles existem porque a região os gera. E se os gera devem ser aplicados naquilo que lhe é fundamental.
No Douro, agora rio de água calma, brinca-se com o fogo.

Nota: esta crónica é a nº 500 que escrevo para este Jornal. Trata-se de uma efeméride pessoal que gostaria de deixar registada. São muitas horas de escrita e de pensar nos problemas da região. Não é para que me aplaudam, mas para que alguns se lembrem que não cheguei cá hoje.
Agradeço àqueles que dedicam algum do seu tempo a ler-me. É um privilégio meu tê-los como leitores.

(501)

ERA O QUE FALTAVA,
SR. MINISTRO MÁRIO LINO!

por Francisco Gouveia, Eng.º

(Ao anunciar que não é intenção do Governo encerrar a Linha do Tua, Mário Lino assustou-nos e já nos pôs de pé atrás. Porque o senhor Ministro não é certo e às tantas temos por cá outro “Alcochete, jamais!”.
Numa altura em que o Governo pretende disponibilizar biliões para a construção de uma polémica ferrovia ultramoderna chamada TGV, parece encolher-se a gastar uns trocos na remodelação de uma ferrovia das antigas, no interior. E isto é que é assustador!)

Cada vez me convenço mais de que este país está doente. O que cá acontece é de doidos! Há milhões para obras novas mas não se conserva o existente. Temos auto-estradas moderníssimas, ao lado de vias secundárias importantes completamente esburacadas. Continuam a construir-se edifícios novos, e ninguém quer saber em conservar os usados. Há mais de cem anos que o mundo descobriu a “vala técnica” (tubagem de grande dimensões que é colocada no subsolo, no centro das vias, e onde depois irão passar todas as infra-estruturas – saneamento, gás, telefones, Tv cabo, água, electricidade, etc.) e por cá continua a pavimentar-se a torto e a direito para depois vir a EDP esburacar e tapar, as Águas esburacar e tapar, a Câmara esburacar e tapar, a TV cabo esburacar e tapar, etc., etc., etc.
Estranhamente, todos os ministros que passaram pelos sucessivos Governos e que defendiam uma política de conservação das redes secundárias do país, em prioridade à construção de obras novas, foram de “vela aviada”. As grandes construtoras querem é obra nova, fresca, que não dá muito trabalho e dá mais lucro. Exemplo deste estado de sítio que se instalou na construção, é o facto da maioria dos condomínios estarem a rebentar pelas costuras, com necessidade de obras de remodelação e conservação, e ninguém querer saber disso para nada. Contudo, se olharmos para os países com os quais nos queremos equiparar, e que parecem encantar os nossos governantes, ficamos abismados com a preocupação que depositam nesta preservação do existente. Porque eles sabem que no poupar é que está o ganho.
Há edifícios em Portugal (um número assustador) com pouco mais de dez anos e já estão a rebentar com defeitos de construção. A tentação – para os que podem – de mudar para outro novo, é, por isso, quase obrigatório. E não será isso que as construtoras pretendem?
Esta situação tanto é comum na actividade privada como na pública. Como disse, ministro que defenda uma política de conservação, tem os dias contados. Alcochetes e TGvs têm muito desta filosofia do “novo”. Isto é, vamos ter linhas ferroviárias de altíssima velocidade, moderníssimas, e vamos continuar a assistir à degradação das ferrovias secundárias.
Vem isto a propósito do vergonhoso e ridículo folhetim da Linha do Tua. Esta Linha, como sabem, é uma Linha com características muito específicas, e que merecia uma atenção muito especial. Quem a conhece há muito que sabe dos males de que padece, males esses que foram acelerados com a introdução de automotoras desadequadas à tipologia da via. E foram precisos vários acidentes, vítimas feridas e mortais, relatórios para cima e para baixo, para que, finalmente, se concluísse o óbvio: a instabilidade da via e a necessidade de a repensar em termos de remodelação. Não vou aqui especificar os pormenores técnicos que foram referidos nos relatórios, porque quem lê este jornal há muito que os conhece. Mas a conclusão é imediata: a Linha tem que sofrer obras, e pronto!
Por isso, as recentes declarações do Ministro Mário Lino, inconsistentes, precipitadas e desprovidas de senso (pelo menos) político, devem deixar-nos preocupados. Ao referir que não era intenção do Governo encerrar a Linha, confessou veladamente a hipótese de que o assunto (o encerramento da Linha) teria sido ventilado no Governo. Ao referir também que “alguns troços da Linha” serão alvo de obras, dá a perceber de que já sabe quais os troços que estão danificados, sabendo-se que nem sequer os relatórios atingem este pormenor de identificação. E porquê “troços da Linha” e não a Linha toda? O que o leva a supor que com meia dúzia de carris e travessas novas, resolve o problema?
Perante tudo isto, acreditem que há motivos para preocupação. Eu não acredito que o senhor Ministro brinque com coisas sérias, mas também sei que o senhor ministro fala e age com demasiada ligeireza. Não me vou meter mais na questão de Alcochete e da Ota, do “jamais” e de outros deslizes do arco-da-velha. Mas tenho o direito de exigir do senhor ministro Mário Lino, muito mais rigor, muito mais atenção no que diz, muito mais capacidade de nos descansar. Se o senhor Ministro dissesse: estejam os durienses descansados que eu vou, de imediato, providenciar num plano de recuperação da Linha e que esta muito brevemente vai voltar a funcionar, isso sim, seria uma atitude de ministro! Se o Senhor Ministro fosse peremptório e claro ao dizer o que vai fazer da Linha do Tua, sem deixar margem para que duvidemos, isso sim, seria de Ministro! Mas o Eng.º Mário Lino navega nas águas profundas da precipitação, confunde-se com as exigências publicitárias que lhe são exigidas por Sócrates, balança à deriva num papel que não o deixa ser quem realmente é. Sei que o senhor Ministro é um homem sério, simples, inteligente e capaz. Sei também que não era bem este o papel que gostaria de fazer, isto é, o de actor desajeitado num grupo cénico que se chama “A Companhia Teatral Dramática e Cómica de Sócrates”. Se o deixassem ser como realmente é, e não como Sócrates quer que ele seja, talvez o país não andasse à deriva com estes projectos megalómanos e não ficasse em polvorosa de cada vez que fala. Mas isso é outra história. Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
Pois era o que faltava, senhor ministro, que um dia lhe passasse pela cabeça (sua, de Sócrates, ou de qualquer outro membro do Governo) em encerrar a Linha do Tua!
Mas, quanto ao resto, os durienses continuam à espera, ansiosos, e com medo de que, um dia destes, a mando do maioral, o senhor ministro se saia com mais esta:
– “Tua? Jamais!”

(502)

E SE LHES CALIBRÁSSEMOS AS CABEÇAS?

Por Francisco Gouveia, eng.º

(Esta história da liberalização da calibragem da fruta, patrocinada pela UE, é de rir. Aquela gente, em Bruxelas, armada em especialista agrícola, e que tem debitado as desastrosas PACs, não faz a mínima ideia do que anda por lá a fazer.
Palavra de honra: havia de sair uma lei que estabelecesse mínimos para a calibragem da cabeça dos senhores deputados agrícolas europeus.
Era a maneira de nos vermos livres de tanta cabeça de alfinete!)

Quando a UE decidiu estabelecer padrões de calibragem, coloração e forma obrigatórios, a determinados produtos agrícolas (especialmente frutícolas e hortícolas), foi como se me tivessem dado um soco no estômago. Isto é: digeri mal a medida, da mesma forma que outras consciências – mais ligadas a uma ruralidade que a maioria dos deputados europeus “especialistas” na matéria, não possuía – também se rebelaram contra. Sabíamos que esta padronização é uma forma violenta de adulterar o mundo agrícola. Porque quem lida com a terra e com o que ela dá, sabe muito bem que o tamanho raramente é sinal de qualidade. A medida, tornada obrigatória, era uma forma subtil de desestabilizar a própria natureza, em nome de um mercado que queriam domar, habituando-os a saborear com os olhos e a atirarem toda a porcaria para a barriga.
Então, maçã boa seria a perfeitamente redonda, rosadinha, luzidia, não importando se, por dentro, fosse uma sensaboria. E as campanhas publicitárias foram de tal ordem que quase nos convenceram de que teríamos de ir ao merceeiro ou ao supermercado, munidos de fita métrica e de nónio, para medir a fruta antes de a comprar!
O resultado foi a tristeza que se sabe: por via do cumprimento das normas impostas pelos burocratas de Bruxelas, os agricultores tiveram de se adaptar. Muito pomares foram destruídos e substituídos por outros, muito árvore autóctone foi eliminada, e muito químico foi preciso adicionar à terra para que a mesma produzisse a tal peça com as medidas exigidas. Era como se de um concurso de beleza se tratasse!
Perdeu-se a variedade que caracterizava a fruta das diversas regiões. A mesma qualidade de fruta, produzida aqui ou ali, era diferente, e era essa diferença que saciava o nosso gosto. Agora, quer vamos a Chaves, quer vamos a Faro, ou a Madrid, ou a Paris, tudo há-de ser igual, monotonamente igual.
Mas esta “domesticação” do gosto, que já é uma característica da nova geração, não é inocente. Pretende-se que o paladar se globalize, domestique, se habitue a gostar só do que lhe dão a comer. É como o frango de aviário: tanto deram dele a comer à malta nova que, se lhe puserem à frente um crista vermelha ensopado em cabidela, aqui d’el rei que é duro, não presta, sabe a coisa ruim!
As grandes multinacionais da alimentação, fartaram-se de encher o bandulho à custa desta normalização do paladar. De tal maneira que já não há jovem, com menos de 20 anos, que consiga aviar um bife do lombo de um boi do Barroso, antes preferindo a carne moída de um triste hambúrguer de marca, com carne sabe-se lá parida em que curral!
Por cá, a gente também sabe como foi: lembram-se da deliciosa laranja do Algarve, pequena, macia e doce? Por onde anda?
Em lado nenhum, pois os pomares que a produziam, agora, estão transformados em produtores de laranja com xis de diâmetro e ypslon de peso, e com gosto azedo como rabo-de-gato! Salvo seja!
E a nossas maçãs: a golden, amarelinha e pequena, doce como o mel! E a bravo de esmolfe, ainda mais pequenina, com aquela doçura exótica capaz de nos seduzir a comer uma cesta delas!
Vão lá encontrá-las, vão! Agora são grandes, mas desprovidas quase de açúcar, a saberem a pepino.
Para além do mais, a genuinidade dos produtos representa também uma forma de preservação do meio ambiente. Antigamente, com um simples e inofensivo tratamento à arvore, estava feito! Agora, são químicos atrás de químicos, produtos desparazitantes, drogas em cima de drogas, para que, no final, a dita fruta tenha a medidas da lei. Até parece que os pomares se transformaram em ginásios!
Mas o mais grave de toda esta história, são as consequências destas políticas anti-naturais e atentatórias do bom-senso: a obesidade que grassa na nossa juventude, e que já é a epidemia do século, com todo o rol de doenças que acarreta: os diabetes, as cáries dentárias, as doenças cardíacas, as ósseas e articulares por peso em excesso e precocemente, etc.
Quando, no ar condicionado dos seus gabinetes alcatifados, plantados em cima da Europa como se fossem reizinhos a mandar nela, os burocratas agrícolas de Bruxelas decidiram por esse crime da normalização, será que terão pensado seriamente nas consequências futuras, quer para os consumidores, quer para o mundo agrícola, quer para o ambiente? De uma medida que, no fundo, vinha contrariar as leis da Natureza?
Se calhar, não! E então foram incompetentes! Ou, se calhar, sim! E então foram desonestos!
Seja como for, é motivo para que ninguém ponha as mãos por eles. Antes pelo contrário, era de se exigir que, daqui para frente, lhes impuséssemos, também, uma calibragem para as suas cabeças, para as suas inteligências. E, da mesma forma que uma maçã que não possua as medidas exigidas pela normas, é rejeitada, assim um deputado de Bruxelas que, também, não cumpra com os mínimos calibrados para a inteligência, devia ser excluído, e mandando para o refugo do seu partido. Decerto, por lá, haverá muito chão para limpar e muito copo para lavar.
Agora, com o mundo à beira de uma crise de fome como nunca se viu, com uma Europa super produtiva mas que afinal, está a descobrir que não produz tanto como aquilo que pensava, com a necessidade de alimentar as populações famintas, descobriram que a calibragem tinha de deixar de ser obrigatória e voltar a autorizar que entrem no mercado produtos não normalizados.
Mas temo que seja tarde demais. Os agricultores há muitos anos que se adaptaram às novas regras, e a produção fora de calibragem é um ínfima parte do que se produz. E estes agricultores têm todo o direito de perguntar porque os obrigaram a investimentos brutais para darem cumprimento às regras, e agora acabaram com as regras!
Irresponsabilidade, e nada mais. Nem a esperança de que os produtos pudessem voltar à sua verdade original, acalenta os que têm, como eu, paladar mais saudosista. Já nada será como dantes!
Agradeçamos, então, às cabeças de alfinete de Bruxelas, a grande burricada que andaram a fazer!

(503)

COM BOLOS SE ENGANAM OS TOLOS!

por Francisco Gouveia

(Subitamente, o PS regional começa a agitar-se em torno de projectos de interesse para a região e que andam perdidos nas gavetas dos Ministérios. O PS regional já nem se preocupa com o facto de apertar – suavemente – os calos ao Governo. E o mesmo PS regional que, durante três longos anos, disse ámen a todos os atentados do Governo a Trás-os-Montes e Douro, agora quer aparecer como salvaguarda dos interesses regionais. É sinal de que se aproximam eleições.
Mas desse bolo, não como eu!)

Em verdade se diga que a estratégia não é uma singularidade do PS. Todos os partidos o fazem. Por isso, esta crítica ao PS, em qualquer tempo (passado ou futuro), bem que poderia ser transcrita sem errar. Era só mudar-lhe a data e o nome do interveniente. Mas, como a hora é do PS, é dele que falo.
Como decerto se recordam, durante os últimos três anos não se ouviu uma única crítica, objecção, simples observação, vinda de qualquer órgão regional do PS, nem de nenhum militante, sobre os atentados de que Trás-os-Montes e Douro foram alvo por parte de um Governo que resolveu encolher os investimentos no interior. Antes pelo contrário, logo que se levantavam vozes contra as arbitrariedades, lá vinham os do costume defender as posições do Governo.
Por diversas vezes aqui demos conta da forma como o PS regional apoiava as acções do Governo, e muitas das vezes questionamos que raio de bairrismo e amor à terra-mãe era aquele que os fazia esquecer as pancadas governativas que alombavam sobre a região transmontana-duriense. E olhem que, amiúde, as traulitadas foram fortes e constantes. Todos se lembram da questão das escolas, dos Hospitais, das Maternidades, das polícias, dos serviços públicos em geral. Mas também da falta de uma estratégia para o interior, da contabilização abjecta que se fazia entre o declinar da população e a desnecessidade de apoiar a que por cá resistia. No final de toda esta triste história, e se quisermos fazer o balanço de como as coisas ficaram – e ao contrário do discurso de vitória com que o Governo nos humilha – concluiremos que nos adaptámos. Perdemos muito, mas acabamos por nos adaptar. Ao cabo e ao resto, a gente até é capaz de viver com muito pouco. E é esta a realidade da vida: a gente não esquece, já não se revolta, já quase que não reivindica, pura e simplesmente se vai adaptando ao que há. E é esta adaptação que vai garantindo a sobrevivência dos que cá ainda estão. E quando falo dos que cá ainda estão, não falo dos que moram nas cidades ainda sofrivelmente equipadas deste interior, mas da gente das aldeias recônditas, dos lugares perdidos nas serras, das povoações onde o sol ainda é o relógio dos dias. E é aí, nesse interior vasto e imenso, onde falta tudo menos espaço, que poderá estar a salvação deste país. E escrevo isto com a mesma convicção que me levou, há muitos anos, a resolver abandonar o conforto jornalístico do Porto, para abraçar a causa desta terra.
Estas pedradas, aceites pelos que, por cá, esperam do Governo o prémio de fidelidades e a recompensa pelos silêncios, teve no PS local o melhor dos acolhimentos. Viam as pedradas cair e batiam palmas! Punham o pescoço no cepo por ministros que não valiam os pêlos de um gato! Estendiam ramos de palmeira à passagem do maioral quando ele por cá vinha anunciar a “morte da bezerra”!
Agora, num repente, o sino eleitoral tocou a rebate, e é vê-los, como baratas tontas, de um lado para o outro, a desenterrar projectos regionais que tresandam nas gavetas dos ministérios, a fazerem autênticos memorandos de iniciativas governamentais, de organizarem tópicos reivindicativos, de darem conta de apreensões, de, até, pedirem ao Governo esclarecimentos sobre atrasos de obras, suspensões de estudos, falta de informação sobre investimentos!
Vejam bem que até se lembraram de desenterrar o IC26, estrada que, quando a mim, nem daqui a cem anos!
Mas, afinal, tudo serve para que os novos salvadores de Trás-os-Montes e Alto Douro, se afirmem como altos defensores dos valores intrínsecos da terra-mãe que os viu nascer!
Cheira a eleições, meu povo! Portanto, preparem-se, porque vem aí um rol de promessas de nos fazer arregalar os olhos e de nos abrir a boca de espanto até à nuca!
Mas toda essa gente teve, em devido tempo, oportunidade para tomar as posições que agora assumem. Só que, antes, não lhes era permitido tal desvario. E não tiveram coragem para contrariar o Poder de que, afinal, faziam ou pretendiam fazer parte. E agora, a ordem do maioral é para que andem para a frente. É preciso virar a imagem “governamental” do Partido.
Em suma: bolos para enganar tolos!
Bolos que só os prova quem quer e só os come quem é tolo!

(504)

MAS POR ALMA DE QUEM,
DR. CONSTÂNCIO?

por Francisco Gouveia, eng.º

(A estratégia do Banco de Portugal para salvar o Banco Privado Português, é uma manobra habilidosa, irregular, que envereda por vazios legais para contrariar o que a lei determina.
Mas, antes de tudo, era preciso esclarecer com rigor, se o BPP é, de facto, um Banco, ou uma Agência Financeira ou uma Correctora de Bolsa.
Eu não acho que o BPP seja um Banco mas, mesmo que o seja, é caso para perguntar: por alma de quem é que o Estado há-de salvar um Banco deste tipo?)

Saramago disse há dias que, em Portugal, não há dinheiro para curar os pobres mas, de um dia para o outro apareceu dinheiro para salvar os ricos.
Salvaguardando alguma retórica oriunda de um estatuto que lhe permite dizer tudo o que quer sem preocupações de maior, o facto é que, dia a dia se vão acumulando os motivos de sérias desconfianças nas estratégias financeiras deste Governo. Se é certo que as garantias de biliões patrocinadas pelo Estado aos Bancos, numa análise mais ponderada, possa ter alguma justificação (apesar de se reconhecer que as condições dessas garantias são, no mínimo, perigosas, e de que não houve o cuidado de separar depósitos normais a prazo de produtos financeiros de risco), também é certo que esta estratégia primou por muita falta de pedagogia. A cumplicidade que o Estado estabeleceu com as gestões aventureiras foi de tal ordem que mais parece um convite a que, logo que o mar amaine, o aventureirismo prossiga. Aliás, por exemplo, a continuação da falta de prudência na concessão de crédito à habitação e outros, é uma prova em como os nossos administradores bancários estão a aprender mal a lição.
Mas se há caso que nos deixa com os cabelos em pé, é a solução que o Banco de Portugal está a propor para a salvação do Banco Privado Português.
Desde já se questiona se este Banco o será, efectivamente ou se, antes pelo contrário, não será uma Agência de Gestão Financeira ou, mais correctamente, uma Correctora da Bolsa. É certo que, na sua constituição regulamentar, é um Banco, mas eu pergunto: será mesmo um Banco? Não andará ali um gato a passar por lebre?
Mas adiante.
O Dr. Vítor Constâncio, depois de, concludentemente, ter afirmado na TV que daria parecer desfavorável (e não podia ser de outro modo porque a lei o determinava) ao pedido de 750 milhões de Euros do Fundo disponibilizado pelo Governo, ao BPP, vem agora propor uma solução para a “salvação” daquele Banco que, no fundo, se traduz no aval daquela quantia mas por via indirecta.
Eu explico, ponto por ponto.

1) Segundo a estratégia proposta pelo Banco de Portugal, a coisa processar-se-á nos seguintes moldes: mudança de Administração, injecção de 45 milhões que a lei permite, e a injecção de mais 500 milhões através de seis Bancos (aos quais o Estado já se comprometeu injectar também dinheiro).

2) João Rendeiro, Chairman do BPP e seu principal accionista, já se demitiu ao perceber que o seu afastamento tornaria credível a solução encontrada pelo Governo, mas também porque, como principal interessado e querendo, como é natural, salvaguardar o dinheiro que tem no Banco, lhe convém deixar o caminho aberto para que o Estado lá injecte os milhões que a sua gestão arriscada fez perder. E é bom que se diga que a sua actuação dentro do BPP sempre foi alvo de sérias críticas por parte de seus colegas da Banca, pela forma desbragada e, a maioria das vezes, especulativa, como o geria. Isto é, no tempo das vacas gordas, quando a Bolsa estava fulgurante, não foi difícil ao Dr. João Rendeiro fazer sucesso. Fazia o que qualquer um sabia fazer mesmo com a quarta classe: comprar hoje por dez e vender amanhã por vinte! O pior é no tempo das vacas magras! Mas o Dr. João Rendeiro está riquíssimo e não vai sair com as mãos a abanar, pois uma reforma confortável o espera. Mas o que é que significa esta imposição de Vítor Constâncio quanto à mudança de Administração. Significa que a anterior era incompetente? E se assim o foi sai sem consequências? Ou significa que pretende angariar na Administração mais uns cargos para funcionários de topo do Banco de Portugal?
Afinal, Dr. Vítor Constâncio, em que ficamos? Como justifica esta mudança de Administração, colocando gente com funções públicas, no Banco que é o mais privado de Portugal? Que confusão é esta? Uma semi-nacionalização? Uma garantia de que o Estado está presente para o que der e vier? Que cobertura é esta?

3) E, se para além dos 45 milhões que a Lei permite que injecte no BPP (que poderia recusar linearmente, e para tal não lhe faltariam motivos justificativos), e verificando que, de facto, o BPP precisa de 500 a 600 milhões para sobreviver (não sei também o é que o Dr. Vítor Constâncio entende por “sobrevivência” de um Banco deste tipo) mas não podendo atribuir este montante directamente, arranjou esta manobra original: serão seis Bancos com quem o Governo já acedeu injectar milhões, que irão, por sua vez, garantir a liquidez ao BPP. Ou seja, o Governo empresta a esses Bancos e estes, por sua vez, emprestarão ao BPP. É assim ou não é?

4) E como tudo isto tem o aval do Governo, do Estado, como é que esse Estado garante o capital lá investido? Muito simplesmente com a penhora de activos do BPP.
Aqui para nós, esta é de rir. Mas que activos? Mas que bens? O BPP não é um Banco com retalho, isto é, não possui balcões. Possui somente duas sedes, uma em Lisboa e outra no Porto, e os seus activos resumem-se a papel, papel em acções, em Fundos, em produtos financeiros que, espremidos, valem dez reis de mel coado. E, nos seus activos, estão também dívidas, muitas dívidas, e empréstimos com resolução muito pouco credível. Há também uma colecção de arte, porque é chique os Bancos terem colecções de arte, de cujo valor ninguém sabe. Feitas as contas, o Estado vai penhorar uma mão cheia de nada e hipotecar outra de coisa nenhuma.

5) Por outro lado, ainda não está esclarecido – para os cidadãos – as condições deste aval, empréstimo, garantia, ou lá o que seja. Como reaverá o Estado o dinheiro que lá vai meter? A que juros? Com que prazo?
Era bom que o soubéssemos, quando mais não seja para comparar se, os juros que o Estado vai cobrar ao Banco (se é que os vai cobrar) são iguais aos que os Bancos nos cobram quando lá vamos pedir dinheiro.

O BPP geria carteiras, carteiras abonadas, de gente que sabia muito bem os riscos que estava a correr. Isto é, quem ia ao BPP, ia com a intenção de facturar juros muito acima dos normais a prazo, disposta a manobrar-se em complicados e especulativos mercado financeiros, deixando à competência milagrosa de gestores tecnocratas a função de lhes multiplicar as fortunas. É certo que, pelo meio, também lá caiam alguns depositantes mais modestos (houve alturas em que o mínimo para abertura de conta era de 250 mil Euros e o saldo médio mensal nunca podia ser inferior a 100 mil Euros), se é que modestos se pode chamar a quem tem tal quantia. Mas todos sabiam os riscos que corriam ao aplicar esses montantes em produtos financeiros sujeitos à lei do mercado!
Como já disse, não sei se o BPP era, de facto, um Banco. Tenho para mim que, de Banco não tinha nada, e quem lá ia sabia ao que ia.

Esta desculpa de que, caso os compromissos do BPP com o City Bank (um dos principais credores) não fossem cumpridos, poderia trazer sérios problemas para os restantes Bancos portugueses que com ele têm negócios, e são todos, não colhe. Isto porque, para já, o City Bank sabia muito bem com que tipo de Banco estava a negociar. E depois porque, o City Bank também sabia dos riscos que corria nas operações que partilhava com o BPP. Isto é, não estamos na presença de um Banco normal, com actividade diversificada, com balcões, com a abertura pública, com informação de rentabilidades de produtos, etc. Estamos na presença de um Banco que se fechava, não divulgava absolutamente nada da sua actividade, e apenas publicitava em jornais de referência (Expresso e outros) as virtualidades da sua competência alegando com firmeza que de dinheiro sabiam eles, e que era a eles que as pessoas deviam entregar as gestões dos seus milhões caso os quisessem multiplicar.
Por outro lado, se o BPP necessita de liquidez, porque carga de água não hão-de ser os accionistas a aumentar o capital? Accionistas que representam algumas das maiores fortunas do país?
O mexilhão do pacato português, que nunca alinhou nestas aventuras mas que leva sempre com a maré dos outros nos costados, que sempre se sujeitou às taxas reduzidas dos depósitos a prazo, que não queria correr riscos e por isso mantinha o dinheiro nos Bancos porque era perigoso tê-lo debaixo do colchão, vê, com espanto e revolta, que é o próprio Estado que vai salvar as fortunas dessa gente toda. E eu pergunto: quando essa gente, no tempo das vacas gordas, ganhou milhões na especulação bolsista ou nos Fundos de altíssimo risco, também se lembrou de o vir dividir com aqueles que agora são obrigados a salvá-los?
Mas que raio de sistema capitalista é este que, quando o pobre perde é atirado para a valeta, e quando o rico está aflito tem o pobre que lhe pagar os prejuízos? Será que o capitalismo pretende agora ter um “seguro social”?

Este caso do BPP é mais uma acção tristemente polémica do Dr. Vítor Constâncio avalizada pelo não menos comprometido Governo de Sócrates. Mas representa também mais uma vitória do poderoso lobi político-financeiro que corrói a sociedade portuguesa. Triste e confrangedora, esta solução governamental para o BPP, é sinal de que, em Portugal não se enfrentam os problemas com a atitude de resolver, mas de manter. Manter o “status”, manter o sistema, manter a incompetente classe gestora portuguesa no Poder, manter a protecção aos aventureiros, manter o mundo bizarro e insuportável da tolerância nacional à promiscuidade entre a política e a Finança.
O Banco de Portugal está a perder, sucessivamente, oportunidades de agir com uma pedagogia que o dignificasse, obrigando os responsáveis a assumir os seus erros e a sofrer as consequências, a deixar que quem quis arriscar assuma também as perdas (e, de futuro, ganhe algum juízo), e de, também, salvaguardar os depósitos dos que, afinal, apenas queriam garantir o capital sujeitando-se a pequenas margens de juro impostas cretinamente pelos Bancos. Estas sim, seriam medidas tendentes a promover a poupança e a garantir que os Bancos remunerassem os depósitos a prazo e os aforros com outra justiça.
Como por cá se diz, é forçoso perguntar: por alma de quem se há-de salvar o BPP? Que desígnio divino obriga a que se o faça? Até quando esta sangria? Até quando há-de o Governo queixar-se da falta de meios para acudir ao que é elementar para a sociedade portuguesa e, de um momento para outro, tirar da cartola biliões para acções deste tipo?
Finalmente, uma última observação, muito grave: o Banco de Portugal é de Portugal. Não do Sr. Sócrates, nem do Sr. Teixeira dos Santos e muito menos do Sr. Vítor Constâncio! E, toda esta gente, parece que ainda não percebeu isto.

(505)

HAJA PACHORRA, Sr. PEDRO GARCIAS!

por Francisco Gouveia, eng.º

(Pedro Garcias desiste da sua candidatura à Casa do Douro da pior forma: com um comunicado desastroso, trapalhão, melodramático, calunioso, susceptível de procedimento judicial.
Pedro Garcias, com um “tiroteio” em todas as direcções, tenta isentar responsabilidades próprias e disfarçar uma manifesta falta de estofo para estas andanças.
E o pior é que nem sequer nos pede desculpa pelo tempo que nos fez perder.
Quanto ao resto, o comunicado era escusado, porque já tínhamos percebido tudo)

A vida não é só feita de vitórias, mas de muitas derrotas e de muita luta. Só perde quem quer ou quem aceita as derrotas como definitivas. Perder, não é vergonha se se luta com dignidade. Quantas derrotas não são autênticas vitórias? Mas desistir recusando a luta, depois de se dizer que se vai fazer peito às dificuldades, é um acto de cobardia. E, especialmente na política, quem não tem estofo para ser derrotado e continuar, é melhor não se meter nela. Lá diz o ditado: de derrota em derrota até à vitória.
Vem isto a propósito da pieguice melodramática que constituiu o comunicado de desistência de Pedro Garcias.
Em vez de todo aquele relambório sem nexo, era preferível que Pedro Garcias tivesse escrito somente dois pequenos parágrafos.
O primeiro, dizendo simplesmente que não conseguira reunir as condições logísticas que reputava de essenciais para prosseguir.
O segundo, a pedir desculpa a todos nós, por nos ter feito perder o nosso tempo em ler as suas declarações, em analisar as suas propostas, em segui-lo nos debates e conferências, em entrevistá-lo, em escrever honestamente sobre a sua candidatura.
E pronto! Nem precisava de se justificar. A gente passava à frente e ponto final!
Mas não, e, em vez disso, resolve desistir atirando para todos os lados, isto é, sacudindo do capote responsabilidades que são suas.
Pedro Garcias é natural do Douro, vive no Douro, tem uma Quinta no Douro, é jornalista de um jornal de referência (Público), tem 44 anos e, portanto, não é nenhum ingénuo e sabia muito bem no que se metia. Pedro Garcias conhece perfeitamente os problemas do Douro, sabe a situação estrutural, organizacional e financeira da Casa do Douro, sabe muito bem a índole dos associados da CD, sabe como tem agido a actual Direcção, conhece a gestão e o modo de fazer política de Manuel António dos Santos, em suma, nada do que descobriu depois de desistir da sua candidatura constituía novidade para ele. Então, se sabia disto tudo e sabia as dificuldades que iria encontrar, porque desistiu quando a procissão ainda nem sequer tinha saído da igreja?
Analisando ao pormenor o seu comunicado, descobrimos lá uma imensa confusão, características de quem quer, a todo o custo, encontrar justificações para uma debandada injustificável. Mistura os bagos com a parra, baralha a cronologia dos factos, dispersa insinuações sem o mínimo de nexo, confunde as suas ideias de gestão da CD com utópicas soluções mal amanhadas, e, acima de tudo, faz acusações tão graves à actual Direcção que transforma este comunicado num autêntico caso de polícia. E é, neste aspecto das sucessivas acusações que faz ao actual Presidente da CD, que o comunicado se torna risível. E também lhe digo que faz cá uma bela ideia dos funcionários da CD! Manobráveis, subservientes, “ameaçados de despedimento se se recusarem a participar na campanha do actual Presidente”. Se por esta hora não estiver a levar um processo em Tribunal, movido por Manuel António dos Santos, Pedro Garcias pode considerar-se um homem com muita sorte! Aqui para nós, senhor ex-candidato: não acha que foi longe demais? E se não acha, para que serve a Justiça?
Afinal, que julgava Pedro Garcias? Que a sua campanha ia ser um passeio fluvial pelo Douro? Que não era preciso ir dizer “não” aos sítios onde, no dia anterior, o Presidente da CD tinha ido dizer “sim”? Que não era preciso rebater diariamente as afirmações do Presidente da CD? Que não era preciso palmilhar este Douro de lés a lés para esclarecer os associados? Que teria de defrontar um opositor calejado e matreiro nestas coisas da política? Que, eventualmente, teria que recorrer aos Tribunais para averiguar as tais situações que o seu comunicado denuncia? Que teria muitas noites sem dormir e muitos obstáculos pela frente?
Luta, Pedro Garcias! O senhor sabia muito bem a luta tremenda que o esperava. Porquê então o desvario deste comunicado?
Até digo mais: a sua candidatura, ao congregar uma série de ideias contrárias à actual Direcção, anulou também outras possíveis candidaturas cujos princípios se reviam na sua. Ou seja: Pedro Garcias ocupou tempo que seria necessário a outros candidatos, de tal maneira que, neste momento, no Douro, há muito boa gente que se questiona se a sua pesudo-candidatura não foi uma hábil manobra política para impedir que outros eventuais opositores a Manuel António dos Santos aparecessem, deixando a este, agora, caminho aberto a uma recandidatura sem obstáculos! Sinceramente, eu não acredito que isto seja verdade, mas não posso impedir muito boa gente de pensar que assim foi.
E porque sai de cena Pedro Garcias?
Analise-se bem o que ele diz sobre as suas razões:
“Saio depois de ter ouvido o Presidente da CD dizer publicamente em Foz Côa que a CD se encontra numa excelente situação financeira, com vinhos mais do que suficientes para pagar a dívida….”
Ora valha-o Deus, senhor Pedro Garcias! Então é por isso que desiste? Estava à espera de quê? Que o Presidente da CD dissesse que a situação financeira era péssima e que ele, até hoje, não a tinha conseguido resolver?
Diz também que não tem vocação para D. Quixote.
Mas alguém lhe pediu para ser D. Quixote? Ou será que acha que quem quiser defrontar Manuel António dos Santos tem que ser um D. Quixote? Só é D. Quixote quem quer, Pedro Garcias!
Diz ainda que: “não me faltava coragem nem determinação para chegar ao fim”.
Ai não? Então porque desistiu? Onde está essa coragem e essa determinação?
Termina dizendo que se “sujeita à expiação pública daqueles que possam ficar desiludidos”.
Expiação pública? Mas que expiação pública, Pedro Garcias? Que tragicomédia é essa? Severa crítica pública, como esta, com certeza, mas expiação, nunca! O senhor reparou bem no disparate que escreveu?
E acredite que não ficamos desiludidos com a sua desistência. Sentimo-nos, isso sim, como que insultados. Porque não nos podemos desiludir com alguém que julgávamos forte, e agora demonstrou tanta fraqueza. Mas insultados, sim, porque Pedro Garcias, pelo facto de ser jornalista de um Jornal de referência, nacional e importante como é o Jornal “Público”, deve pensar que os carolas dos jornalistas desta modesta imprensa regional, são uns provincianos imbecis que não percebiam nada do que se estava a passar! Mas, ainda o Pedro Garcias estava à porta e nós já estávamos ao ferrolho.
Bem sabíamos que a sua candidatura assentava num pressuposto apoio do PS, assente no empenhamento de algumas figuras regionais que, pelos vistos não foi suficiente para que esse apoio se concretizasse a níveis mais elevados da hierarquia socialista. Ou seja, e em português vernáculo de “provinciana imprensa regional”: tiraram-lhe o tapete e, vai daí, saltou dele antes que caísse. Este é o motivo principal, e não o que a sua comunicação atrapalhada deixa perceber (se é que deixa perceber alguma coisa).
Exigia-se mais de Pedro Garcias. Pelo menos que não cometesse erros que a sua experiência jornalística obrigava a evitar.
Acabo, rectificando-lhe a frase com que terminou o comunicado.
Diz: “Resta-me agradecer a todos aqueles que se reviam nas minhas ideias o apoio que me manifestaram”.
Em vez de “agradecer”, devia ter dito: “pedir desculpa”. Era mais bonito e era mais correcto.
Porque, quanto ao resto, não tem nada que agradecer. Nós não estamos cá para outra coisa.

(506)

A GOLPADA II

Por Francisco Gouveia, Eng.º

(Está a construir-se o mesmo cenário que levou Sócrates ao Poder em 2005: ocultação de um défice que vai disparar muito acima dos 3%, silêncio das entidades oficiais que, sobre a matéria, nos deviam alertar, e promessas de dinheiro para todos – até para tapar os prejuízos dos ricos.
Vai repetir-se a receita das últimas legislativas. Sócrates já percebeu que a receita é boa e parece que os portugueses gostam.
Falta saber como vai reagir a isto tudo, o Sr. Presidente da República que, pelo que se vê, já começou a ser condicionado pela estratégia engenhosa e eficaz do Primeiro-Ministro)

Diga-se com justiça que o Instituto Nacional de Estatística (INE) é das poucas entidades oficiais que, em Portugal, fala verdade. Ou melhor: não foge a ela nem a disfarça. Os dados que tem vindo a disponibilizar, e referentes à nossa situação económica, apontam para uma recessão que já começou há muito. Aliás, os dados do INE, referentes à inflação, ao desemprego, ao custo de vida, etc., sempre contrariam os inenarráveis dados do Banco de Portugal, instituição desacreditada e que nos engana dia-a-dia. Assim, enquanto o Dr. Vítor Constância anuncia que a recessão vem por aí em 2009, enquanto o Ministro das Finanças diz que, mais do que falar em recessão o que é preciso é combatê-la, o INE não está com meias medidas e avisa que o país já está no meio dela.
Entretanto, com o Orçamento de Estado de 2009 aprovado, estão reunidas as condições eleitorais para que Sócrates venha a obter a maioria absoluta nas próximas legislativas. A negação de uma evidente recessão é o primeiro sinal de que o Orçamento de 2009 não está preparado para ela. Nem interessa. Depois, há a considerar os biliões que o Estado vai ter que ir pedir ao estrangeiro para custear as “brilhantes” gestões bancárias a quem deu a mão, aos apoios a indústrias (só algumas), e ao investimento em Obras Públicas absolutamente suicida. A nossa dívida externa vai disparar em flecha e é quase certo que o nosso défice vai ultrapassar significativamente a barreira dos 3%.
E aqui temos, novamente, a repetição da golpada das últimas eleições.
Com este Orçamento demagógico, onde a recessão não é considerada, onde há dinheiro para todos, onde os gastos com Obras Públicas vão ser colossais, é bom de ver que estamos perante um Orçamento hiper eleitoralista. Ou seja: 2009 não vai ser um ano tão difícil como o pregam. O Governo, com este Orçamento, vai segurar o barco para chegar às eleições e dizer:
– Estão a ver? Mesmo com a recessão mundial e tantos problemas, nós conseguimos aguentar-nos!
E lá vai o povo a correr às urnas para premiar o bom desempenho do Governo que, também, não se esquecerá de prometer mundos e fundos no seu programa eleitoral.
Assim, as eleições estão no papo.
O pior será depois delas ganhas.
Aí, lá virá novamente o espectro do défice. Não faltarão dignificas figuras do status socialista dizer com ar muito pesaroso, que, afinal, o défice anda muito para lá dos 3%, e que é preciso apertar o cinto, etc. e tal, e lá voltamos nós ao mesmo.
Quando, em 2005, Sócrates avançou com um programa eleitoral que prometia tudo a todos, quando ninguém imaginava o descalabro do défice porque as entidades oficiais o ocultaram, Sócrates parece ter descoberto a receita para ganhar maiorias num país que não aprende as lições e cedo se esquece das patadas que recebe. Agora, estou a ver perfilar-se exactamente o mesmo esquema. E acredito que os portugueses vão cair como uns patinhos, como caíram em 2005. Só que, nesse ano, ainda tinham uma desculpa: não estavam avisados. Aliás, foram enganados por quem tinha o dever de os alertar para as condições deploráveis em que se encontravam as Finanças do país, e não o fez como era sua obrigação.
Mas porque a História é uma roda que se repete, assim se vão repetir os factos das últimas legislativas. Sócrates já percebeu que a receita é boa e os portugueses gostam dela. Sócrates tem os trunfos todos: a Oposição é uma treta mal amanhada que não sabe a quantas anda, e até a esquerda anda à turra e à massa entre si (veja-se que, no último Congresso do PCP, este elegeu como seu principal inimigo o Bloco de Esquerda?!).
Falta saber como vai reagir a isto tudo o Senhor Presidente da República. É economista conceituado, sabe muito bem como anda o país de Finanças, mas anda muito calado. Debilitado pela questão “Dias Loureiro” de cuja procissão ainda vai no adro, incomodado com uma Banca que está carregadinha de seus ex-ministros, agredido pelo PS com a questão da lei do divórcio e do Estatuto dos Açores (quanto a mim uma estratégia do PS para o afrontar agora, para depois ter uma desculpa por retaliação, caso o PR o afronte perto das eleições), o Senhor Presidente da República está numa situação muito delicada. Ou deixa andar e contraria os seus princípios de rigor e obrigação com o país que o elegeu, ou se manifesta e corre o risco de se tornar impopular. Não lhe gabo a posição. Sócrates teceu bem a teia.
Seja como for, Sócrates está a jogar bem em todo o tabuleiro, garantindo que as instituições oficiais nem piar podem, segurando a direita com o aval aos Bancos, financiando potentados, garantindo obras à farta à empreiteirada lusa, minando o chão do PR, controlando com panelas e tachos os barões do PSD, dando umas baldas ao Bloco de Esquerda (veja-se a Câmara de Lisboa e Sá Fernandes) para atiçar a ciumeira do PCP, percorrendo o país de lés-a-lés em múltiplas inaugurações (até adiaram a inauguração do Museu do Douro porque ele quer estar presente), em suma: Sócrates tem tudo sob controlo.
Prepara-se assim, mas em grande, o 2º Episódio da Golpada de 2005.
E, com o eleitorado desanimado, mais preocupado com o pão de amanhã do que com a política na qual já não acredita, com a abstenção a aumentar, a esquerda a digladiar-se e a Oposição sem fazer jus ao nome, está garantida a caminhada para o Poder.
Contemos, portanto, com mais uns anos de demagogia socratiana, insuportável endividamento externo, apertos de cinto, disparates políticos e, acima de tudo, controlo do aparelho de Estado. Tudo a bem da Santíssima Democracia.
Porque, afinal, só temos o que merecemos.

gouveiafrancisco@hotmail.com

(507)
NATAL SÃO SÓ CINCO LETRAS?

Por Francisco Gouveia

Por haver receio de que a memória colectiva se derreta no fervilhar de um país desorientado e com os problemas à flor da pele, já há mais de dois meses que há quem nos queira lembrar que o Natal vem aí. Assim, escancararam em tudo o que é rua enormes anúncios luminosos, árvores repletas de luzinhas, e até o Pai Natal – figura híbrida do cume da comercialidade americana, mais rei da Coca-Cola do que do resto – se multiplica por esses telhados e varandas, numa versão chinesa que, pelos vistos, vende que se farta.
O Zé Povo abre a algibeira, faz contas à vida, e descobre que o Natal tem mais obrigações formais do que as moedas que lá traz. A bem dizer, depois de pago o bacalhau melhorado que a época merece, pouco mais lhe resta. O bacalhau está ao preço do ouro, e bem tola é a ladroagem que perde tempo em assaltos a joalharias em vez de “visitar” o “cofre” onde o merceeiro esconde o fiel amigo. Há também papel de embrulho quanto baste, em quantidades imensas, para revestir desde a Play Station de centenas de Euros comprada num Centro Comercial, até ao lencinho de mão de uns cêntimos, aviado por um cigano numa feira. Feitas as contas, prendas mais bacalhau, e pouco sobra para um Natal cujo significado se esbate numa sociedade de consumo que o consome como pastel de nata.
Estranhamente – ou só o será para mim que sou este ingénuo que julga que o mundo é redondo – quase não se houve falar de um tal Jesus. As televisões, depois de passarem pela enésima vez o Ben-Hur e os Dez Mandamentos, misturam Natal com Páscoa e está a grelha composta. Uma vez por outra, lá vem alguém mais conservador lembrar-nos que…uma noite…em Belém…numa manjedoura…
Mas qual quê? Quem quer saber de manjedouras na era da HD, das 3D e dos GigaBites?
A criançada até julga que o tal Jesus nasceu dentro de um computador, porque, para lá dos presépios que são cada vez menos frequentes, é lá que ele aparece.
É a festa da família – dizem.
Coitados! Se consultassem o índice de divórcios que este país tem, se contassem as vítimas mortais de violência doméstica, se olhassem a multidão de crianças violadas de pedofilia dentro dos próprios lares, se reparassem na quantidade de seringas que destroem os elos familiares, se analisassem o mar de hipotecas que retira telhados às tais famílias, se pesassem a fome que vai por esse país fora, decerto duvidariam que de uma festa se tratasse. Festa para quem pode. Festa para quem a tem. Festa para quem a preservou – digo eu.
Amizade, fraternidade, entreajuda, humildade, altruísmo. Quem sabe o que isto é? Que sociedade é esta que tudo destrói, mesmo os seus momentos mais enternecedores?
Lá mais para o fim do ano, quando vir descerrar as iluminações, apagarem-se as árvores, sentirei, contudo, uma mágoa. Se calhar estou a ser injusto, e as cinco letras do Natal ainda farão algum sentido, ainda tocarão as pessoas, ainda lhes lembrarão o seu real significado.
Mas temo que, como os Pais Natais chineses que trepam nas varandas e cujo destino será hibernar nas arrecadações até ao ano seguinte, assim o Natal seja arrumado a um canto, à espera de mais doze meses para se fazer valer.
Há, apesar de tudo, uma esperança que não morre e que advém – não das iluminações, nem das prendas, nem das ceias lautas, mas de uma criança que nasceu há mais de dois mil anos, e que trazia uma lição importante para nos ensinar, e que nós, teimosamente, nos recusamos a aprender.
Mesmo assim, e sabendo que muitos não o poderão ter, aqui lhes desejo um Bom Natal.
Bom Natal, então.

Francisco Gouveia

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