Opinião🖋️ Manuel Igreja Drº

O HOMEM COM O PIRILAU EMPLUMADO

Era uma vez um homem, que tinha em casa um espelho que o enganava. Como na história infantil que nos contaram, todos os dias, mais do que uma vez, colocava-se em frente dele e perguntava-lhe se havia alguém no mundo mais poderoso e mais belo que ele.
Trapaceiro, o espelho, garantia-lhe que não. Aliás, reforçava, dizendo que nunca tinha havido e que jamais haveria. O homem tinha sido feito em molde único, quer no que se referia ao aspeto físico, um Adónis, quer no que se referia às capacidades da mente, que o faziam mais fino que uma raposa ladina. Um espanto, é o que era.
Filho de pai muito rico, mas de pouco se recomendar, o homem foi singrando na vida a negociar e a fazer de bobo da corte, perante largas audiências que com ele se deleitavam, obviamente, por serem também de compreensão lenta e de estupidez acelerada.
Como não podia deixar de ser, o ego do homem insuflou-se ao ponto de mais parecer um balão. Como estava dentro dele, foi crescendo, crescendo, até que ele lhe ocupou o espaço todo ao ponto de lhe tapar a visão já curta e lhe circuitar a cabeça, onde os neurónios sobreaquecidos torraram e ficaram incapazes de permitir o devido tino.
No entanto, como era manhoso e muito esperto naquilo que se propunha fazer no sentido do alcance da sua glória, foi conseguindo construir uma imagem de homem lucido e sério, absolutamente capaz de acabar com os males do mundo, com os malfeitores, e com os invejosos que só queriam ocupar o país dele, como se aquilo tudo “fosse da Joana” e não tivesse dono.
Mas tinha, garantia o homem com o cabelo alaranjado a fugir para a cor de cenoura, ciente que também por essa via, resplandecia. Sempre penteado com todo o primor, deambulava pelos palcos da vida com um permanente ar gingão, sentindo-se irresistível às donzelas reais, supostas e insinuadas. Com o seu poder nascido na fortuna ganha sem olhar a meios, obteve favores a gosto e a contragosto, pois não concebia que qualquer coisa lhe fosse proibida.
Num certo dia, devido a circunstâncias que eram visíveis, mas que por falta de atenção se revelaram efetivas apesar de imprevisíveis, o nosso homem, alcançou o posto de comando que conseguiu transformar em quase total. Naquele reino sem rei nem roque, mas de enorme capacidade para ditar e influenciar os quotidianos em paticamente todo o seu em redor, tremeram os alicerces da civilização.
Como fera enjaulada que repentinamente se liberta, bufou, espanejou, desenquadrou e ameaçou. Anunciou alto e bom som, que todo o mundo por ele visto como bom, tinha de reconhecer a sorte de por ele passar a ser capitaneado, pois ele era único e tinha mandato para agir emitido por Deus Nosso Senhor. Não seria nada de mais, se lhe cantassem hossanas em todas as suas aparições.
Não tendo limites e nem sequer noção disso, convenceu-se da sua invencibilidade, da sua irresistibilidade e da exclusiva qualidade das suas decisões. Quando é costume e natural no mundo animal, o outro, fazia a corte ao mundo, pavoneava-se, emplumava-se, e convencia-se de que jamais em tempo algum, alguém não tremeria de medo perante uma ameaça sua, ou alguém se não ajoelharia em face da sua majestade.
Divertindo-se com ele, o malandro do espelho – que obviamente era mágico -, dava-lhe concelhos acerca do seu comportamento, exacerbando cada vez mais o seu orgulho, a sua opinião sobe si mesmo, e sobre o seu imenso poderio, tão forte tão forte, que nunca ser humano algum, se lhe tinha equiparado em poder de construção e de destruição.
Dizem as más línguas, mas eu não sei, só deduzo e conto, que numa certa hora que o homem estava a rasar chão com a sua autoestima, quem sabe se num esporádico instante de lucidez, já desesperado com os dizeres a explanar, o espelho o convenceu a apresentar-se com o pirilau emplumado para encanto e espanto de tudo e de todos.
O efeito seria como o das aves macho que estendem as penas coloridas e luzidias nos momentos de conquista de fêmea. Algo muito lindo como sabemos. Como disse, não sei se foi mesmo assim, no entanto, sei que por causa do espelho, ou da falta dele, o dito homem, se pavoneia, pisando regras e contrarregras, ocupando o palco em que decorre a cena, onde tresloucado, vira o cenário em pantanas.
Diz quem sabe, que a História se repete, ora como farsa, ora como tragédia. O problema, é que agora, apesar dos muitos farsantes, ela tem tudo para se repetir em tragédia.
Esperemos que não. Quem me dera ter um espelho que fosse sério e me mostrasse o mundo dos dias que ainda não aconteceram. Ou se calhar, não. Para emplumados, já bastam os de agora. Pirilaus ou não.

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