(O que se passa no sector agrícola europeu é só uma peça do desmantelamento da estrutura económica e social europeia que está a acabar com a classe média, levada a cabo por gente que elegemos, a quem entregamos a nossa confiança, a quem pagamos principescamente, mas que nos está a trair).
Periodicamente somos bombardeados por risonhos discursos da União Europeia, que apontam para o crescimento do sector agrícola e para a melhoria de vida dos agricultores. Contudo, há anos que vemos o sector a abanar e a cair.
Porque há dados que não se entendem. Por exemplo, representando a agricultura 1,5% do PIB da UE, esta mesma agricultura gasta 40% do orçamento da mesma UE.
Em termos de eficácia devia ser o inverso: gastar menos do orçamento e representar mais do PIB. Então, o que se passa?
Há vários factores a ter em consideração e que passo a descrever.
A política agrícola da União Europeia tem baseado a sua intervenção em dois vectores: a PAC (Política Agrícola Comum) e o ambiente. As duas interligam-se numa conivência muito discutível. Porque a UE decidiu ser o baluarte da defesa do ambiente. Contudo é o Continente que menos polui, e as grandes potenciais mundiais que são, ao mesmo tempo, altamente poluidoras, nada fazem nesta matéria e até aumentam a sua quota de poluição quando a Europa a baixa.
Mas como a EU decidiu ser o exemplo do mundo, acelerou medidas sem suporte alternativo, destruindo fontes tradicionais de energia sem que tivesse garantido outras mais eficazes e mais económicas para o consumidor. A destruição do sector automóvel europeu é a prova desta irresponsabilidade.
E por causa desta obsessão ambientalista assente numa apressada mudança sem garantir a sustentabilidade dos pilares da economia existente, que se criaram regulamentos infindáveis.
Sendo a agricultura mais sensível aos fenómenos ambientais, porque ela mesmo é o fiel da balança do ambiente, desabou sobre ela tanta regulamentação, tantas limitações (incluindo quotas disparatadas), a que se acrescentaram custos de produção insuportáveis (como os combustíveis e energia em geral), e mais um manancial de taxas e impostos, a maioria 2 escondida em indirectos, de tal forma que tornaram a agricultura quase que impraticável.
E veja-se este descalabro: apesar da EU apregoar que está a tratar da melhoria da vida dos pequenos e médios agricultores, a grande fatia dos subsídios recai sobre 17 mega empresas. Porque a burocracia criada em torno dos processos de candidatura a diversos subsídios e ajudas é de tal forma labiríntico, que impossibilita o pequeno e médio agricultor a aceder a eles.
Porque não possuem meios jurídico/administrativos que lho façam dado este tipo de apoio ser muito oneroso.
O caso está já assumir foros de escândalo, dado que, por excesso d burocracia, grande parte dos apoios do PRR vão ficar sem serem atribuídos.
Ou melhor: atribuídos serão, mas àquelas empresas que, pela sua envergadura, possuem departamentos próprios para tratarem da infindável papelada e darem as voltas que forem necessárias.
Em resumo, e para que se entenda bem o quadro geral: a classe média na União Europeia está a definhar, a empobrecer.
A Europa está a ser destruída por uma imensidão de burocratas em Bruxelas, que em vez de tratarem do futuro da Europa, Europa essa que são os seus cidadãos, tem andado entretida em destruir as bases económicas que fizeram da Europa um modelo de desenvolvimento, e a arrastá-la para a conflitualidade, insustentabilidade social, desemprego, perda da posição
altaneira mundial que conquistou. O que se passa no sector agrícola nada mais é do que mais uma peça neste desmantelamento da estrutura económica e social europeia, levada a cabo por gente que elegemos, a quem entregamos a nossa confiança, a quem pagamos principescamente, mas que nos está a trair.
E já não falo do ataque comercial vindo da China, da atabalhoada Mercosul, e nem me atrevo a falar de uma guerra que a Europa tem dentro do seu território, perante a qual tem tido uma atitude simplesmente miserável.
Quem apostou na desagregação europeia, está de parabéns. Está a conseguir.
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