DOURO PATRIMÓNIO MUNDIAL, CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS
Há 25 anos, um quarto de século, a UNESCO, considerou e reconheceu que o Alto Douro vinhateiro, por ser uma paisagem evolutiva e viva, caso muito pouco frequentemente, podia e devia ser, uma realidade concreta merecedora de ser considerada e distinguida, como Património da Humanidade.
Se assim pensaram, assim o fizeram os doutos e excelsos senhores do importante organismo da ONU como se viu e vê. Nós durienses, ficamos contentes e cheios de orgulho, porque é a nossa terra, e porque o reconhecimento, a distinção e a homenagem, vão direitinhos para os nossos antepassados, homens, mulheres e crianças que a poder de hercúleo trabalho, erguerem uma obra sem medida, que assombra pela sua dimensão e beleza.
Obviamente que sendo ela, uma construção que não pode parar, pois a natureza para continuar a ser bela, exige que o trabalho continue, os durienses de agora, não podem permitir que os silvados se estabelecem nos patamares enfeitados com as ervas daninhas, e nem que as moléstias sempre prontas para atacar a novidade que germina, cresce e amadurece, até ao ponto de poder ir para os lagares para que a parte final do ciclo se conclua e se torne mosto, faça o mal que lhes é próprio.
Não andará bem quem não se sinta merecidamente distinguido pelo facto de o Douro, estar entre aquilo que é exclusivo e digno de realce neste nosso planeta azul que gira com as leis cósmicas, mas também com as circunstâncias que desalmadamente os humanos vão criando, modificando e espalhando cada vez mais sem tino como se fossem donos do amanhã.
Mas indo ao agora, ao que resultou e resulta do merecimento com que a UNESCO justiçou o Alto Douro, terra de rio, de vinho e de gente, pois foi para isso que se encertou a pipa, modo de dizer que se iniciou o escrito com o fito de apreciar a situação mais imediata e nos interessa, dado que não podemos ficar com as flores na lapela que a toda a gente ficam bem e dão jeito a certos filhos da mãe como diz a canção.
A mancha de território de 14 mil quilómetros quadrados, num total de 250 mil, em que 43 mil, são vinhedos, é património mundial, como por exemplo os Mosteiro dos Jerónimos e outros monumentos nacionais. Significa isto que mexer num muro de xisto, é crime igual a partir uma telha de um deles, e que saibrar e plantar de novo uma vinha, é como mexer por exemplo numa parede a necessitar de intervenção.
O território considerado, é como uma flor de estufa. Não se lhe toca, sem os devidos preceitos e obedecendo às regras estabelecidas para que se não estrague, se não causem danos irreparáveis ou se alterem as condições originais merecedoras do enlevo e do galardão atribuído ao quadro com montes pintados.
Como facilmente se depreende, tudo isto é muito bonito cantado, como se costuma dizer, mas acarreta inúmeros e imensos contratempos a quem tem de continuar a granjear as vinhas para que as vides cumpram a sua função de darem uvas, e destas se fabriquem os vinhos que dão contentamento pela superior qualidade e sustento pelo valor que resulta, nunca nos podendo esquecer que tudo é economia.
Aqui neste ponto da coisa que tem muitos pontos, é onde “o vinho azeda”. A pipa pode estar a meio, mas pouco ou nada de bom se augura a médio prazo, para não dizer a curto para não ser como as rosas plantadas no entrada da vinha a fim de anunciar o possível ataque de moléstias surgidas dado existirem as condições naturalmente próprias nos arredores.
Neste contexto, não erra quem afirme que corre enorme perigo a continuação da paisagem evolutiva e viva devido à falta de condições de sustentabilidade financeira e económica. Os tempos estão dificílimos com a tempestade perfeita a desenhar-se no horizonte.
No Douro e ao que o galardão concerne, o sentimento é de que ele pouco ajudou e só complicou. Não houve os devidos cuidados em se permitirem contrapartidas que amenizem os contratempos e os impedimentos que cerceiam as tarefas no granjeiro, frequentemente as menos adequadas para que os proveitos sejam mais a jeito.
Tenho para mim, que o balanço é positivo, mas sou suspeito, por me dar muito para valorizar esse tipo de coisas porque em apreço, estão poemas escritos com ferros de monte e com o suor escorrer como sendo a tinta.
No entanto, Fora isso, não nos podemos esquecer de que a região como destino turístico se tornou mundialmente conhecida, em boa parte com as dinâmicas advindas do galardão. Anualmente os turistas são muitos mais do que um milhão, dispostos a puxar das carteiras para pagarem o usufruto devido e aconselhado.
Basta que nos não faltem o engenho e a arte, algo que não nos abunda por aí além como se tem visto. Urge pois então que celebrando-se a data, se pense no que se fazer para que daqui a mais 25 anos, os vindouros não digam que o reconhecimento mundial foi uma oportunidade perdida de efeitos tão imediatos que num instante e passado o entusiasmo, virou passado cheio de coisas por fazer.




