E SE UM DIA CALHA MAL?
(As grávidas andam a bater em portas fechadas para terem os seus bebés, sendo os Bombeiros obrigados em serem especialistas em obstetrícia e ginecologia)

Sejamos objectivos e analisemos o assunto com alguma lucidez: o SNS (Serviço Nacional de Saúde) está moribundo. E podem nomear o melhor gestor de saúde do mundo, e derramar toneladas de euros em cima do SNS, que este não se conseguirá erguer.
E porquê?
Para além de muitos erros de gestão que o foram debilitando ao longo dos anos por diversos Governos, temos de reconhecer que a prestação de cuidados de saúde no país, mudou. Antigamente havia o serviço público e bastantes consultórios médicos privados. O primeiro era de graça, no segundo pagava-se bem.
Contudo, nas últimas duas décadas, o panorama mudou: abriram-se muitos hospitais privados, clínicas privadas, centros privados de realização de todo o tipo de exames, em suma, a rede de saúde multiplicou-se e diversificou-se. E é esta realidade que a nossa classe política não consegue resolver: integrar todos os operadores de saúde num sistema nacional de saúde, onde, mediante contratos, se repartam tarefas, se focalizem valências, se organizem em rede de forma que a mesma esteja sempre a funcionar.
E não consegue resolver por vários motivos: ideologias políticas de antanho, falta de sabedoria para como o fazer, frágil vontade política e, acima de tudo, falta de coragem e de sentido de Estado perante o sofrimento dos cidadãos.
Vem isto a propósito do facto escandaloso de as nossas grávidas andarem a bater em portas fechadas para terem os seus bebés, transformando os Bombeiros em especialistas de obstetrícia e ginecologia. Todos os dias nascem crianças nas ambulâncias
E os bombeiros lá vão fazendo o que sabem e o que podem. Mas os Bombeiros não são médicos e são capazes de resolver uma situação de parto natural, e até de resolver algumas situações mais complexas. Mas, como disse, não são médicos especialistas. E perante esta situação de haver todos os dias, notícias de mais um nascimento bem sucedido numa ambulância, eu pergunto: e se um dia destes calha mal? Se os bombeiros estiverem na presença de um parto complexo, surgido na altura, que necessita de uma intervenção cirúrgica, ou do apoio de outras valências que não só as ginecológicas, de material de suporte de vida, ou outros, que só existe nos hospitais? Como será se um dia calha mal?
Certamente teremos uma família destroçada, um grupo de Bombeiros em depressão, e muita, mas muita crítica política durante semanas a fio.
Porque nós andamos muito enganados: julgamos que pagamos aos políticos para resolverem os nossos problemas, e eles entretêm-se em discussões vãs, por vezes idiotas, e um parlapié que não nos leva a lado nenhum.
Dizem que temos um Governo fraco porque não tem a maioria. É mentira, porque quem detém o poder está sempre em vantagem. Especialmente se tiver ideias concretas e caminhos estudados para conseguir os objectivos. E este Governo, que apesar de tudo é bem melhor que o desastre “Costa”, já devia ter percebido isto. Portanto, ou não quer, ou não sabe.
Fartos destes jogos florais na Assembleia da República, andamos nós.
Como dizia o outro: nem comem nem largam o prato (se é que perceberam a “tradução”).
Eng. Francisco Gouveia




