ELVIRA (Séc. XVIII)
Camponesa portuguesa: da região de Miranda do Douro.
Vivia próximo desta vila, junto do rio Fresno uma mulher casada com um guerrilheiro português que andava em luta contra os espanhóis. Quando estes, em 1762, invadiram a província de Trás-os-Montes, sob o comando do marquês de Sawia, um sargento espanhol, tendo a visto, porque ela era formosa e esbelta, logo resolveu procurá-la em casa pela calada da noite, para nela saciar os seus instintos.
De facto, aquele, acompanhado de alguns soldados. tentou, altas horas da noite, penetrar em casa dela. Precisamente nessa noite o marido fora ficar a casa. O guerrilheiro fez frente aos espanhóis, matando dois soldados, e Elvira, como o sargento persistisse nos seus propósitos, matou o com o espeto da cozinha. Antes, o sargento, atingira mortalmente o marido. A esposa, pressentindo o torpel de mais soldados, que se aproximavam, pegou no marido e fugiu cheia de horror. Só mais adiante, quando lhe faltaram as forças para o arrastar, compreendeu então que levava um cadáver. Os espanhóis, como represália, saquearam e incendiaram a sua casa.
A propósito deste dramático episódio, houve um poeta da época que a comparou a Brites de Almeida, a padeira de Aljubarrota, no seguinte soneto:
É problema que deve disputar-se,
Entre os autores de mais nome e nota,
Se pode essa mulher de Aljubarrota
Com a de Trás-os-Montes comparar-se.
Aquela tem razão para gabar-se
De fazer com sua pá tanta derrota;
Esta que deixa coa barriga rota
Ao sargento, também deve estimar-se.
E esta a meu ver, melhor juízo tinha,
Pois, vingando o marido seu dilecto,
Fez o que ao seu génio lhe convinha.
Meteu-se-lhe no: cascos o projecto
De tratar o espanhol como galinha,
E, assim que topou um pô-lo no espeto.
A. Lopes de Oliveira