Opinião

O que o Douro Precisa?

Escrito por Eduardo Moreira Correia

Como um descendente do Douro, considero a região como um dos maiores símbolos da identidade portuguesa, pela força da vinha e do seu património, tendo este sido um dos primeiros polos de descentralização da economia de Lisboa na época medieval. Mas a verdade é que o Douro de hoje não vive da sua paisagem nem do seu passado. Vive ameaçado por um presente de abandono progressivo, fruto de fracassos económicos e da armadilha da monocultura económica. O que o Douro precisa é de uma estratégia clara, ambiciosa e com coragem para enfrentar as decisões difíceis que a realidade exige.
Nos últimos anos, o setor vitivinícola foi se mantendo relativamente vivo por subsídios e medidas de emergência que apenas adiaram uma reestruturação, sendo amanhas políticas para ganhar votos para o estado “meter ao bolso” o dinheiro das exportações e as adegas cooperativas tendo sendo improfícuas na gestão do negócio fazem o cenário descrito perfeitamente na cantiga popular de Zeca Afonso, “A Mula da Cooperativa”. O modo de gestão em cooperativo antiquado que existe atualmente não tem capacidade de escoar produto nem de competir no mercado internacional. Não se trata de falta de qualidade ou de tradição, mas de ausência de visão. O Douro precisa urgentemente de um novo modelo de gestão, nem que tenha de haver uma alienação à gestão privada, pois esta é conhecida pela sua transparência e pelos grandes investimentos inteligentes que têm feito. A marca “Douro” tem tudo para ser um símbolo de excelência no mundo, mas isso exige marketing estratégico, algo que a região até tem trabalhado relativamente bem, pois as exportações têm aumentado rapidamente, mas a nível nacional, tem perdido muito terreno. Também contra as catástrofes naturais é necessário apelar a uma nova forma de gestão, sendo os seguros agrícolas contra incêndios e pragas uma necessidade para o futuro, mas esta ideia já cabe à mente de cada um, mas será importante, principalmente nesta fase com a entrada da flavescência dourada.
Ao mesmo tempo, o êxodo rural é cada vez mais presente, já existia na altura dos meus pais e avós, e eu tenho como referência o meu pai e os meus tios nessa área. Isso deve-se à educação e um futuro pouco promissor. A educação que deveria ser o motor da coesão territorial, foi historicamente negada aos durienses, sendo em 2020 um grande exemplo com o fim da PPP no Colégio Salesiano de Poiares. A ausência de instituições de ensino superior acessíveis e de centros de formação profissional empurrou os mais jovens para fora, deixando um vazio de talento e de capacidade produtiva. Não é possível falar de desenvolvimento sem uma aposta real na educação, pois esta é o motor de todas as sociedades, e aqui devemos refletir em descentralizar a UTAD, criar colégios técnicos em vilas e freguesias, oferecer cursos ajustados às necessidades da região – tudo isto é essencial para fixar a juventude e transformar o Douro num território de oportunidades.
Como já afirmei antes, o Douro caiu na armadilha da monocultura económica, mas o Douro não pode viver apenas da vinha, por mais nobre que seja este setor. O futuro do da região deve passar pela diversificação da sua base produtiva, através de uma
terciarização inteligente. O turismo, a hotelaria, o comércio local e a criação de empresas nas mais diversas áreas com enorme potencial de crescimento, desde que sejam integradas numa estratégia que valorize a autenticidade do território.
Outro problema central que o Douro enfrenta é a falta de mobilidade e acessibilidade. Uma região que não está ligada ao resto do país, física e digitalmente, atualmente está totalmente isolada, mas será possível melhorar a mobilidade e abrir aires ao resto do país? Claro que é. A eletrificação total da Linha do Douro terá de ser uma prioridade que não pode ser eternamente adiada e será um passo enorme para a integração do Douro. Esta obra não é apenas uma questão de transporte – é um fator decisivo para integrar a região nos circuitos económicos, turísticos e culturais de Portugal e do mundo. Também é necessário investir na mobilidade interna com autocarros e carreiras. Esta é uma condição básica para fixar pessoas, atrair investimento e dinamizar a vida socioeconómica local.
Por último, há um património imenso que o Douro tem, mas que permanece esquecido, degradado ou invisível. A paisagem, as quintas históricas, as tradições, os ofícios ancestrais, tudo isto é capital cultural que pode e deve ser transformado em valor económico. Mas para isso é preciso mais do que boas intenções. É preciso um plano ativo de inventariação, reabilitação e valorização, apoiado por fundos europeus e por parcerias entre autarquias, universidades e privados.
O Douro não está condenado à irrelevância. Mas sim, precisa de decisões porque o Douro não se reestrutura só com fundos, mas sim também com decisões difíceis e prioridades claras!

Eduardo Moreira Correia

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