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Quando há Ciência, nenhum lugar fica à margem — o exemplo de Armamar

Quando pensamos no Natal, pensamos em encontro, em comunidade, em pertença. E talvez seja precisamente disso que a Ciência também precise: de proximidade. De deixar de ser percecionada como algo longínquo ou reservado às grandes cidades, para se tornar uma prática mais viva nos territórios onde as pessoas constroem as suas vidas ou nos lugares que nos fazem sentir parte de algo maior.
É esse caminho que Armamar tem vindo a trilhar — e, em muitos aspetos, a liderar — ao reinventar formas de viver e participar mais na ciência, num movimento que fortalece a identidade local, a nossa ambição coletiva e o nosso sentido de comunidade.
Nos últimos três anos, o concelho tem-se afirmado como um exemplo singular em Portugal, demonstrando na prática aquilo que as investigações nacionais e internacionais têm sublinhado: o contacto continuado com ciência aumenta a literacia científica, reforça a motivação, a autoconfiança dos jovens e o seu desempenho escolar, amplia a participação cívica, alimenta o sentido de pertença, assim como a capacidade de imaginar (novos) futuros. Estes efeitos são particularmente relevantes em territórios rurais, onde as oportunidades de envolvimento com a ciência tendem a ser mais escassas, mas onde o seu impacto pode ser mais significativo e transformador.

A Noite Europeia dos Investigadores em Ambientes Rurais — NEI-Armamar, já na sua terceira edição, é hoje a expressão mais visível desta transformação local. A Noite Europeia dos Investigadores é uma celebração anual da ciência promovida pela Comissão Europeia, mobilizada em centenas de cidades europeias, que procura aproximar a ciência, os cientistas e os cidadãos. Em Armamar, esta iniciativa tem ganho uma expressão inédita. Liderada pela ARMA-Sci, em parceria com o Agrupamento de Escolas Gomes Teixeira e o Município de Armamar, é hoje o maior evento de cultura científica realizado em territórios de baixa densidade em Portugal. Contudo, a sua relevância não se mede apenas pela escala, mas sobretudo pelo modelo que tem consolidado, um modelo de ciência participativa, continuada e com forte envolvimento comunitário. É precisamente esse modelo que ressoa com as prioridades europeias de alargar a participação na ciência a públicos sub-representados, como as comunidades rurais. Mas Armamar não se limita a responder a esta prioridade, interpreta-a à luz dos seus desafios, amplia-a e traduz em práticas e ações concretas. A NEI-Armamar é, portanto, hoje um símbolo dessa mudança. Quando se cria espaço para novas formas de participar, pertencer, co-construir e interrogar o mundo, talvez o interior possa deixar de ser visto como ‘destino secundário’ e afirmar-se como destino central para a inovação educativa, científica e cultural.
Um exemplo paradigmático desta construção coletiva é a exposição recém-inaugurada “A Fita do Tempo: Património e Memórias dos Bombeiros Voluntários de Armamar”, atualmente patente no quartel da corporação e em permanente enriquecimento, à medida que novos contributos, objetos e memórias vão sendo integrados. Co-construída com vários parceiros da comunidade, incluindo a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Armamar e a própria população local, esta exposição evidencia que, quando a ciência se articula com narrativas de pertença, identidade, memória e património, ganha profundidade e sentido comunitário, ampliando o envolvimento da comunidade e fortalecendo a sua capacidade de produzir e valorizar conhecimento próprio — dimensão também analisada no recente artigo “Science, Memory and Belonging: Lessons from a Rural European Researchers’ Night”, publicado na PLOS SciComm.

Mas a NEI-Armamar é apenas uma das faces de uma estratégia mais ampla, continuada, colaborativa e orientada para transformar a relação da comunidade com a ciência e com o conhecimento que o concelho, através da ARMA-Sci, tem vindo a consolidar. Promover literacia científica ao longo da vida — como sublinham as principais organizações internacionais — é essencial para formar cidadãos capazes de compreender desafios complexos, tomar decisões informadas e, em última análise, combater a desinformação. Em territórios de baixa densidade, onde o acesso a iniciativas de ciência é historicamente mais limitado, este trabalho torna-se ainda mais determinante. Ao aproximar jovens e comunidade da ciência, procuramos despertar curiosidade, reforçar aspirações, alimentar sentido de pertença e criar condições para que cada pessoa se reconheça como parte legítima do ecossistema (científico). A literatura também tem mostrado que este envolvimento fortalece a autoestima educativa, influencia percursos escolares e abre novas possibilidades profissionais. Ao longo dos últimos anos, através da ARMA-Sci e dos seus parceiros, temos vindo a construir este caminho com o desenvolvimento de dezenas de iniciativas científicas que criam oportunidades onde antes não existiam. Trabalhamos para promover literacia científica, reduzir desigualdades e ampliar horizontes, enquanto geramos contextos onde o talento local possa crescer, afirmar-se e encontrar motivos — e condições — para permanecer, regressar e contribuir para o futuro do território.

Num momento em que a Europa coloca no centro das suas prioridades a redução das desigualdades territoriais no acesso ao conhecimento, Armamar demonstra que a ciência pode ser parte da solução. Uma infraestrutura social que fortalece laços, abre possibilidades e permite que a comunidade se veja como protagonista das soluções e não apenas como destinatária das decisões.
Neste tempo de Natal, tempo de encontros e de futuros possíveis, vale a pena recordar que a Ciência pode ser um dos mais poderosos instrumentos de união: cria laços, desperta pertenças, abre caminhos de participação cívica, acende esperanças e aproxima o que parecia distante. Armamar tem mostrado que nenhum lugar é pequeno quando se abre espaço para que as pessoas possam pensar, aprender e construir juntas. Talvez seja essa a mensagem mais profunda que este Natal nos oferece: a de que o conhecimento é um bem comum e que o seu valor se multiplica quando é partilhado, vivido e reconhecido como parte da vida de todos.

Raquel Branquinho
Cientista e Presidente da ARMA-Sci (Rede de Promoção do Capital Científico de Armamar)

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