ROSEIRA, Manuel Lopes
Manuel António é o sétimo de oito irmãos nascidos na Casa Roseira habitada pelo casal António Rodrigues e Umbelina Lopes; via a luz do dia a 4 de Novembro de 1828, portanto dez anos mais novo que seu irmão António. Como muitos jovens de além Douro, também os dois irmãos preferiram a diocese de Lamego para seguir a carreira eclesiástica; completados os estudos teológicos no Seminário Maior em 1852, data em que passou em teologia moral com a classificação de ‘nemine’, recebidas as ordens maiores na primeira quinzena de Janeiro, recebeu o presbiterado a 9, indo residir para Sarzedinho com o ‘breve de compatriota’. Já frequentava então a Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, tendo-se matriculado na abertura do ano letivo de 1851/52. No dia 10 de Junho de 1858 apresentou-se a exame do 5.º ano, terminando o bacharelato com a classificação de ‘nemine discrepante’. Em 1860 foi provido em um canonicato da Sé da Guarda, de que não chegou a tomar posse, vindo a ser honrado com igual título na Sé de Lamego aos 9 de Março de 1862, com a obrigação de ensino por 12 anos no Seminário nas disciplinas eclesiásticas, por decreto real de D. Luís I.
O Cónego Dr. Manuel António, a partir deste momento, começa a tornar-se a figura mais em evidência no meio eclesiástico: ‘a reconhecida inteligência, os graus académicos conseguidos com brilho, a respeitabilidade da sua pessoa aureolada de santidade, as dignidades capitulares vencidas em série quase sem oposição e até a sua influência política como figura de proa no seio do partido progressista, impuseram-se ao respeito geral’. (M. Gonçalves da Costa ob. cit. pp. 233-238). Estamos pois, perante uma personalidade multifacetada que conquistou a simpatia de inúmeros dos seus amigos que eram muitos, e a admiração dos seus adversários políticos.
Um dos grandes desejos dos irmãos Roseira, conta uma sobrinha neta, era a fundação duma escola de estudos secundários que servisse não só a cidade de Lamego, mas também a região de aquém e além Douro. Desde a sua ordenação sacerdotal que a ideia andava no ar. Em breve o sonho tornaria-se realidade. As Aulas Secundárias de Lamego, malgrado a preciosa cooperação do Bispo de Lamego na cedência das instalações e as insistentes propostas por parte das instituições autárquicas junto do poder central, não logravam dar cumprimento às aspirações legítimas das gentes lamecenses. Não admira, pois, que, uma vez regressado de Coimbra, o Dr. Manuel Roseira se lançasse com seu irmão na fundação duma escola secundária, que viria a denominar-se Colégio de Lamego. O ensino era, na verdade, uma das paixões do Dr. Roseira. Não é sem razão que lhe cabe o honroso título de ser nomeado o primeiro Reitor do Liceu de Lamego, no preciso ano da sua fundação, 1880. Acrescente-se, finalmente, em abono da sua competência linguística e literária na Língua Portuguesa, que o Conselho Escolar escolheu para o ano escolar de 1885/86 a Gramática Portuguesa da sua autoria.
Ao abordar-se a figura do Dr. Manuel Roseira, seria impossível não evocar a sua filiação partidária – o Partido Progressista. Lendo a imprensa regionalista dos fins do século XIX, ressalta ao mais desprevenido leitor o protagonismo político do ilustre eclesiástico. Mas foi no âmbito das dignidades eclesiásticas ao nível do cabido que o Dr. Manuel Roseira, por mérito próprio, se projetou como a figura mais prestigiada ao ser apresentado à mais elevada dignidade capitular – D. Deão da Sé lamecense a 7 de Novembro de 1889, por morte do P.e Dr. Luís Teixeira de Saavedra Sarmento. Curiosamente, nesse mesmo ano, ascende a chefe do Partido Progressista a nível local. De facto, só uma figura com créditos firmados e de méritos notáveis seria capaz de congregar à sua volta tantos admiradores. Aliás, o primeiro passo foi dado quando vagou a dignidade do cabido por morte de Gaspar Teixeira de Saavedra Sarmento e o ilustre professor do Seminário se apresentou como único concorrente, por carta régia de 8 de Abril de 1867. Desde então se anteviu a carreira brilhante que o Dr. Roseira haveria de percorrer.
Com a colação desta dignidade, surge uma certa incompatibilidade no desempenho dos diversos múnus por ele assumidos, o que obriga a declinar os direitos de cofundador do Colégio em favor de seu irmão, além de possuir também a nomeação de professor de ensino oficial. Quando, na viragem do século, uma onda de laicização atravessou a Nação Portuguesa e os fiéis eram atingidos nas suas convicções religiosas, a mesa da Real Irmandade de S.ª dos Remédios elegeu durante anos a fio a figura mais representativa do clero lamecense – o D. Deão – símbolo emblemático dos valores religiosos e do amor acendrado à Virgem dos Remédios. Inteirando a mesa como secretário nos anos de 1870 e 1891, veio a presidir como Juiz em 1883 e 1884, e de 1899 a 1905 por eleição da mesma. Por sua responsabilidade, coube-lhe assinar as obras de arrematação da 2.ª torre, a 2 de Novembro de 1902. (Cónego José António Marran, História do Culto, N.ª S.ª dos Remédios, 1957, pp. 195-196).
Faleceu aos dez dias do mês de Janeiro de 1907, tendo a Câmara Municipal aprovado um voto de sentimento pela perda ‘de um dos cidadãos mais prestantes desta terra’.”
Jorge Ferreira