(O Governo decidiu atribuir 50 Cents / quilo de uva, à Região Demarcada do Douro. Levantaram-se logo vozes das restantes Regiões Vinícolas, acusando-o de discriminação.
Torna-se, portanto, necessário, que se digam algumas verdades)

A decisão do Governo de atribuir aos produtores vinícolas da Região Demarcada do Douro um bónus de 50 cêntimos por quilo de uva, decisão essa inserida num plano mais abrangente de protecção desta Região, provocou e continua a provocar protestos de outras regiões vinícolas (especialmente no Alentejo), que acusam a medida de discriminatória, e de que todas as Regiões Vinícolas devem ser tratadas da mesma maneira.
À primeira vista poderá concordar-se com a argumentação, e considerar-se que ela é, de facto, privilegiadora do Douro em detrimento das restantes.
Contudo, há uma série de verdades que têm de ser ditas, para que fique claro que só se deve tratar por igual o que é igual. Coisas diferentes não podem ser tratadas pela mesma bitola.
A primeira verdade é a de que a Região Demarcada do Douro não se equipara às outras Regiões vinícolas do país.
A Região Demarcada do Douro é a principal região vinícola do país, a mais importante, por estas 5 razões.
Primeiro, porque foi a primeira região do mundo a ser instituída, com regulamentos e normativos rígidos, que garantiam a genuinidade do produto que de lá saía, e já lá vão mais de dois séculos (criada em 1756). E foi a partir daqui que, pelo mundo fora se foi copiando o modelo sem que o Douro continuasse no primeiro lugar do pódio.
Segundo, porque foi a região onde ao longo dos seus 269 anos, mais investimento privado houve. E não foi pouco, porque erguer muros de xisto ou pedra de contenção de socalcos, escadarias e acessos, e todo o trabalho necessário à preservação da vinha (efectuado em declives abissais e sobre solo duro) custou muito dinheiro aos proprietários. Erguer uma vinha no Douro não é o mesmo que erguer uma vinha no Alentejo, no Dão ou no Minho.
Foi um investimento colossal do qual resultou a terceira razão.
Terceiro, porque a Região Demarcada do Douro produziu um vinho que é um ex-libris de Portugal: o Vinho do Porto, que apesar de ostentar o nome da cidade que o armazena e comercializa, não produz um cacho de uva. Foi o Douro responsável pelo facto de, desde sempre e ainda hoje, toda o mundo sabe o que é um “Porto” e o país donde vem.
Quarto, porque esta região, apesar de ter sido erguida por privados e mantida ao longo dos séculos pelos mesmos, foi a região agrícola (e chamo-lhe agrícola para englobar todas as vinícolas e não vinícolas) que, também desde sempre, mais impostos pagou ao Estado. E todos os anos são milhões em taxas e impostos que caem nos cofres do erário público oriundas da Região Demarcada do Douro.
Ou seja: ao longo dos anos, o Estado nunca pregou um prego no Douro, mas esteve sempre solicito ao recebimento tributário que dele vinha.
Portanto, A Região Demarcada do Douro não é uma região vinícola ou agrícola qualquer. Sempre foi a primeira do país, sempre foi a que melhor representou o país, sempre foi a que mais gastou em investimento, sempre foi a que mais dinheiro entregou ao Estado.
Por todas estas razões – e por estas me fico porque há mais histórias para contar, mas não quero abusar dos leitores – reafirmo que esta medida do Governo (provavelmente a possível), até fica muito aquém do que o Douro merecia.
Como disse, não se pode tratar por igual o que é desigual. E a Região Demarcada do Douro é única no mundo. Daí a quinta razão: a de ser património da Humanidade desde 2001, pela mão da UNESCO.
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