TREMELIQUES
Um recente programa da RTP, com um nome que me pareceu ser Matabicho, fez-me recordar tempos de África, guerra colonial e descolonização. Nesse programa, três Chefes de Cozinha africanos, mostraram as iguarias das “mesas” de cada um, considerando as artes culinárias dos respetivos países; Moçambique, Angola e Cabo Verde.
Os 18 meses que passei em Moeda (Muidumbe), no Norte de Moçambique e os restantes oito, repartidos entre Muidumbe, Malvérnia, Mabalane, Beira, João Belo e a Capital, deixaram-me memórias que se associam entre si e me remetem para o camarão da Beira, o frango com todos os temperos possíveis de Tete a lagosta do Xai Xai, a sapateira Lourenço Marques e o camarão de Inhambane.
Nessa mesma altura, e por acaso, a Universidade Católica publicou uma série de sondagens às populações de Angola, Moçambique, Timor, Cabo Verde e por cá questionou o tema da demolição dos monumentos de vultos históricos com ligações às descobertas ultramarinas.
Para surpresa de muita gente, em todas as sondagens, as populações africanas inquiridas responderam que agora se vive pior do que no tempo colonial e que os nossos monumentos deviam manter-se de pé.
É evidente que num regime democrático como o que tivemos a 25 de Abril de 1974, não faria sentido um país como Portugal continuar a viver uma situação colonial como a que se vivia no tempo do fascismo, basta recordar as circunstâncias de então; o esforço financeiro da guerra, a disponibilidade da juventude Portuguesa para participar nessa guerra, o incremento das relações internacionais e em si mesmo o símbolo da negatividade de se fazer guerra. Por outro lado: a situação muito volátil das alternâncias políticas e ideológicas inseridas na guerra fria entre o Ocidente democrático e a União Soviética totalitária, trouxeram ainda mais dificuldades aos militares nas políticas pós descolonização. Sabemos que os líderes dos países por nós descolonizados alinharam maioritariamente com a União Soviética tendo o povo português, de brandos costumes, como disse um lidar africano, ficar como o mau da fita em todo o processo colonial.
Neste processo mais do que demagógico, recordo algo de interessante e de que talvez nem toda a gente saiba; Mário Soares e alguns políticos edeologicamente mais moderados, juntamente com militares mais ligados à NATO, queriam que a descolonização de S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde, tivesse o mesmo estatuto da Madeira e dos Açores, tal não se conseguiu devido à pressão dos militares mais alinhados com o PCP.
O que não seriam hoje em dia Cabo Verde e S. Tomé com uma ligação direta à Europa.
Miguel Macedo




