Opinião🖋️ Manuel Igreja Drº

O PEIXINHO MÁGICO

Naquele rio nadam peixinhos desde tempos tão antigos que já ninguém sabe há quanto. Também nadam muitos patos que encantam quem passa e passeia à beira daquele rio. A beleza do lugar não se limita à água cristalina do rio, estende-se às vinhas coloridas que o rodeiam, transformando-o num belo quadro pintado por um artista.
Os peixes e os patos raramente se veem, apesar de viverem no mesmo sítio, muito próximos uns dos outros.
Os peixes deslizam por debaixo da água, como se nadassem sobre a própria pele do rio, enquanto os patos flutuam por cima, abanando o rabo em sinal de contentamento, sussurrando olás às pessoas que passeiam à beira do rio. Como também têm asas, de vez em quando voam. Lá do alto, nem imaginam quão belos ficam, movendo-se graciosamente pelo ar, num bailado que que parece música silenciosa. Quando querem voltar à água, esticam as patas, abrem as asas e deslizam suavemente como pequenos aviões que beijam a superfície do rio.
Parece que andam sempre de olhar atento, à procura de qualquer coisa que, como bem sabemos, é comida. Têm sempre fome e nunca recusam um pedacito de pão. É curioso como conseguem devorar tanto, quando o seu papo nem parece ser assim tão grande, mas conseguem e bem.
Mas, apesar de parecer que entre peixes e patos não há conversa e que nunca se encontram, isso não é verdade. Ainda não descobrimos como se entendem, pois têm linguagens diferentes, mas sabem exatamente o que dizer e como se comunicar entre eles.
Ainda havemos de descobrir como, mas talvez baste que façam alguns gestos com o rabo para comunicar. Sobre o quê talvez ninguém saiba, mas lanço o desafio: quem o descobrir, que nos conte a todos para aprendermos juntos.
Num certo dia – e vou-vos contar – aconteceu algo inexplicável, mas maravilhosamente mágico, numa noite de Natal.
Um certo menino e uma certa menina, dois irmãos, sempre que podiam, iam com os pais dar uma volta junto ao rio. Eram passeios nos dias em que o sol brilhava e o dia estava tão bonito que não apetecia voltar para casa. Levavam consigo um saco com os restos de pão que sobravam, pequenos tesouros que não podiam perder, e que iriam alimentar os patos e peixes que viviam naquele rio encantado.
Os patos já os conheciam. Quando as crianças apareciam na estrada, lá no rio, eles entravam em rodopio, esperando por elas. Então, corriam rapidamente para as margens, todos lampeiros, e devoravam o pão com tanta avidez que pareciam famintos e que não haveria mais nada para comer.
Não se podem nem devem distrair, pois as pombas que por ali andam, meio sorrateiras e sempre atentas, voam lá do alto com rapidez para aproveitar qualquer pedacinho de pão. Chegam tão depressa que até lutam entre si para apanhar os melhores pedacinhos primeiro.
Numa dessas vezes, os meninos, maravilhados, perceberam que, meio escondido entre as pedras, um peixinho deslumbrante, cheio de cores brilhantes, os observava com olhos curiosos. Parecia um pequeno guardião do rio, sempre ali, a espreitar e a conhecer cada passo de quem passava, tão curioso e coscuvilheiro como só ele sabia ser.
Como faltavam poucos dias para o Natal, os meninos falavam animadamente como seria a celebração em casa e, claro, sobre as prendas que esperavam ganhar. Estavam tão absorvidos na conversa que nem repararam que o peixinho, escondido entre as pedras, os observava atentamente, parecendo compreender cada palavra.
Tanto simpatizou com as crianças que nadou mesmo à sua frente para que o pudessem admirar bem. Abria e fechava a boca, como se quisesse brincar com elas, pedindo-lhes atenção e partilhando a sua alegria, tornando aquele momento ainda mais mágico e especial.
De repente viram-no. Olharam espantados e maravilhados, e foi um encanto à primeira vista. Uma corrente invisível pareceu ligá-los imediatamente. Pode parecer difícil de acreditar, mas começaram a comunicar com ele como se fosse uma pessoa, e entenderam-se sem qualquer dificuldade. Coisas sem explicação, mas que podem acontecer quando se acredita e se deseja muito que aconteçam, mesmo que seja apenas em sonhos ou na imaginação.
Na casa dos meninos, como em muitas outras, era costume fazer o presépio e montar a árvore de Natal, com tudo o que fazia parte da tradição: ovelhas, um pastor, um cãozinho, a cabana com o Menino Jesus deitado nas palhinhas, acompanhado de São José e de Nossa Senhora e, claro, a vaquinha e o burrinho.
A árvore de Natal tinha bolinhas muito bonitas e uma estrela bem lá no topo, sempre a reluzir com tanta luz que parecia espalhar encanto e magia por tudo que rodeava.
Mas voltando um pouco atrás, aconteceu que entre os meninos e o peixinho nasceu uma profunda amizade e simpatia. Era como se se conhecessem desde sempre. Ficaram tão ligados que lhes custou muito despedirem-se naquele fim de tarde, quando a noite começou a estender o seu manto suave sobre a água, tingindo tudo de cores silenciosas e mágicas.
Disseram ao peixinho que só queriam que fosse possível estar com ele na ceia de Natal, principalmente quando abrissem as prendas. Ninguém sabe ao certo o que ele respondeu, mas há quem diga que, com um ar muito maroto, pareceu afirmar que seria capaz de aparecer, pois não há impossíveis quando se gosta de verdade.
Faltavam uns instantes para a meia noite, quando, num repente – tão rápido como o piscar de um olho –, a luz apagou-se, deixando a sala envolta em silêncio e escuridão. Apenas a estrela no topo da árvore permaneceu a brilhar, irradiando uma luz intensa e mágica.
Nesse instante, os meninos perceberam que a estrela tinha a forma de um peixe – igualzinho ao seu amigo do rio. Brilhava, acenava e sorria, como se tivesse atravessado o mundo para partilhar aquele momento especial. E, naquele instante encantando, souberam, com o coração cheio de alegria, que a magia do Natal existe mesmo para quem acredita de todo o coração.

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