“UMA CARTA NÃO SE APAGA”: NOVA EMISSÃO FILATÉLICA DOS CTT CELEBRA A CARTA E O SEU VALOR INTEMPORAL
Os CTT – Correios de Portugal – assinalam o lançamento de uma nova emissão filatélica dedicada à carta, um dos mais antigos e simbólicos meios de comunicação entre pessoas.
A escolha entre escrever uma carta «à moda antiga» ou optar por um e-mail ou uma mensagem nas redes sociais depende, antes de mais, do objetivo da comunicação. Mas resulta também da massificação das tecnologias digitais, frequentemente associada à chamada «democratização do acesso às tecnologias de informação».
Em 1997, apenas 6% dos portugueses tinham acesso à Internet. Em 2020, mais de metade da população já mantinha uma conta ativa nas redes sociais, utilizando-as para acompanhar pessoas, marcas e instituições. Atualmente, segundo o Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação pelas Famílias (IUTICF), divulgado pelo INE no final de 2025, estima-se que 90,9% dos agregados familiares disponham de acesso à Internet em casa, maioritariamente através de ligações fixas (85,0%).

Num contexto em que o acesso aos diferentes meios de comunicação está praticamente generalizado, a opção entre papel e caneta ou um teclado parece depender sobretudo das preferências de quem comunica e da natureza da mensagem. Há conteúdos que, pela sua extensão, contexto ou formalidade, continuam a adequar-se melhor à carta do que ao correio eletrónico. Ainda assim, excluindo a comunicação institucional, empresarial ou transacional – onde a correspondência escrita continua a desempenhar um papel relevante – e olhando apenas para a comunicação pessoal, a carta tornou-se uma presença cada vez mais rara.
A rapidez da comunicação digital, a confirmação imediata da entrega e a facilidade de utilização explicam essa mudança de hábitos, sendo estas as vantagens mais apontadas pelos estudos sobre o tema.
O que continua, então, a distinguir a carta, depois de quase três mil anos de evolução, desde a argila, ao papiro, ao pergaminho e, finalmente, ao papel? Uma das respostas é a sua capacidade de perdurar no tempo.Uma carta em suporte físico pode conservar-se durante séculos, desde que seja devidamente preservada. Já os registos digitais dependem da evolução tecnológica: permanecem acessíveis enquanto os formatos e os suportes forem compatíveis, exigindo atualizações constantes para evitar a sua perda. Nesse sentido, pode dizer-se que «ninguém pode apagar uma carta».
Há ainda uma dimensão que escapa à lógica da eficiência. Como defendia Blaise Pascal, o conhecimento não nasce apenas da razão, mas também do coração, da intuição e do sentimento. A escolha de escrever uma carta pode, por isso, ser um gesto profundamente emocional.
A autenticidade da carta reside precisamente nas suas imperfeições. A caligrafia, o traço da escrita, as marcas deixadas no papel ou pequenos objetos guardados no sobrescrito – como um bilhete de teatro ou de cinema – conferem-lhe um valor afetivo impossível de reproduzir num ecrã. Também o selo postal, cuidadosamente escolhido e colocado, pode reforçar o significado da mensagem e da relação entre quem a escreve e quem a recebe.

A carta está igualmente na origem de uma das profissões mais marcantes do serviço público: a de carteiro. Figura de confiança e proximidade, o carteiro simboliza não apenas profissionalismo e dedicação, mas também humanidade e gentileza.
A emissão filatélica agora apresentada é composta por três selos, cada um evocando um aspeto distinto deste universo. Um representa um molho de cartas (fotografia de Silvina Pombeiro); outro mostra um menino a colocar a sua primeira carta no marco do correio (fotografia de Júlio Marques, Arquivo Histórico e Biblioteca da Fundação Portuguesa das Comunicações); e o terceiro retrata o carteiro Rogério Lopes, no Cartaxo, durante as inundações de fevereiro de 2026 (fotografia de José Sena Goulão, Agência Lusa).




